Já não é o primeiro livro sobre a História moderna do Vietname que aqui recomendo. E também não é o primeiro livro sobre conflitos modernos escrito por Max Hastings que aqui destaco. Deve ser por andar a escrever sobre estes assuntos no Herdeiro de Aécio há alguns anos. O livro é recente, saiu há pouco mais de um ano (em Setembro de 2018) e enfatiza o facto de que quase toda a informação que esteve disponível do lado norte-vietnamita durante o conflito foi filtrada para benefício da propaganda, o que distorceu muitas das obras que se escreveram sobre o conflito até agora. É um ponto de vista de que acabei razoavelmente convencido.
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30 novembro 2019
08 junho 2019
A CRIAÇÃO DE MAIS OUTRO GOVERNO PROVISÓRIO
8 de Junho de 1969. Constituição do Governo Provisório Revolucionário da República do Vietname do Sul, uma metamorfose (com aspecto mais institucional) da Frente Nacional para a Libertação do Vietname, que a comunicação social norte-americana (e a do resto do Mundo, atrás dela) designava por os Vietcongs. Descobre-se neste gesto, paradoxalmente ou talvez não, uma inspiração francesa, a antiga potência colonial do Vietname. Como vimos neste blogue ainda há poucos dias, a proclamação de um governo provisório fora um expediente em tempo de guerra do general de Gaulle para lhe conferir uma pompa e circunstância reforçadas entre as populações e à mesa das negociações. Aqui a intenção era também essa (e foi conseguida na medida em que este governo foi reconhecido como parceiro nas negociações, a par dos governos dos dois Vietnames e dos Estados Unidos), mas as circunstâncias eram completamente outras: este governo não se destinava a prosperar, nunca deixou de estar sob o controle de Hanói, que não tolerava outra que não a narrativa da reunificação. Ao contrário daquele que o inspirara 25 anos antes, este governo provisório (e revolucionário) era um governo verdadeiramente provisório, no sentido que estava destinado a desaparecer depois de cumpridas as funções para que fora concebido. Instalado na povoação fronteiriça de Lộc Ninh (assinalada a vermelho no mapa abaixo), mesmo assim, o governo provisório (e revolucionário) não deixou de constituir uma certa inspiração entre movimentos guerrilheiros aparentados, caso da Guiné-Bissau em 1973, por exemplo.
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17 fevereiro 2019
O INÍCIO DA GUERRA SINO VIETNAMITA
17 de Fevereiro de 1979. Soldados da República Popular da China invadem a República Socialista do Vietname. A invasão tem lugar ao longo de uma alargada frente na fronteira comum de 1.280 km que delimita os dois países. O acontecimento é uma surpresa para as opiniões públicas mundiais, não o é tanto para os círculos diplomáticos informados, que haviam assistido à degeneração acelerada das relações entre os dois países, depois da invasão vietnamita do Camboja em Dezembro de 1978, e com a questão sobre quais haviam sido os propósitos da visita de Deng Xiaoping aos Estados Unidos, duas semanas antes. A ofensiva chinesa ia para além de tudo o que os Estados Unidos haviam ousado fazer durante o longo período de permanência: os Estados Unidos nunca haviam tentado derrubar o regime de Hanói, apenas sustentar o de Saigão. Mas agora fora apenas uma questão de somar dois mais dois. Essa adição (o Camboja e Deng em Washington), tornando previsível qual seria a atitude dos Estados Unidos no conflito, não respondia a quais seriam os objectivos estratégicos da China ao promover aquela invasão, nem garantiam absolutamente o comportamento da União Soviética. Há quarenta anos, havia muitos aspectos interessantes sobre os quais especular.
Ainda hoje, os objectivos da China não são claros. Uma guerra entre duas potências comunistas não é uma guerra como as outras em termos informativos. Não há espaço para a Verdade (acima, um poster de propaganda vietnamita equiparando os chineses de 1979 aos franceses de 1954 e aos americanos de 1975). Tudo o que é narrado, filmado, fotografado, tem de ser conformado pela causa e pela sua propaganda. O valor do espólio que existe a respeito desta guerra pode ser sintetizado pelo poster de cima e pela fotografia de baixo, mostrando os blindados chineses atravancados de infantaria a atravessar um rio numa ponte que havia sido construída pela sua engenharia! Mas a melhor síntese quanto ao seu desfecho provavelmente será a que consta do título do outro livro abaixo: «Uma Guerra que Ninguém Ganhou». Se aceitarmos que a intenção original da China era condicionar o comportamento do Vietname no Camboja, então o desfecho foi uma derrota para a China. Mas, se a intenção original de Beijing era chegar a Hanói e aí instalar um regime que lhe fosse simpático, então tratou-se de uma grande derrota da China. Mas, se por outro lado, o Vietname contasse com o apoio activo dos soviéticos no caso de uma confrontação militar aberta, o comportamento destes últimos foi uma derrota evidente para o Vietname. Fica por descobrir como se comportaria a União Soviética (e, já agora, os Estados Unidos) se os chineses chegassem a Hanói...
Isto do ponto de vista estratégico. Do ponto de vista táctico, porém, dispersada a propaganda, é hoje pacífico constatar a superioridade vietnamita. Estes contavam com a superioridade moral e anímica de estarem a defender o seu país, possuírem uma organização militar testada na prática e possuírem uma superioridade qualitativa quanto ao material, muito dele de origem norte-americana, deixado no país para equipar as forças sul-vietnamitas. Mas tudo isso de nada teria valido se os chineses se tivessem decidido a despejar a sua superioridade numérica no terreno. Um último disparate a respeito é a opinião de que o elevado volume de baixas sofridas terá condicionado a decisão estratégica dos chineses de se conterem: para quem assumira ter sofrido 183.000 mortos na Guerra da Coreia e que naquele conflito virá a assumir uns 8.500 mortos, a explicação não é, nem sequer, tema.
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25 dezembro 2018
A INVASÃO VIETNAMITA DO CAMBOJA
25 de Dezembro de 1978. Depois de três anos e meio de uma hostilidade progressivamente crescente, em que o último ano se regera até por uma conflitualidade militarmente assumida, o Vietname decide-se a pôr fim às relações agitadas que vinha a manter com o Camboja, invadindo este último país. A campanha militar que se seguiu, uma invasão canónica protagonizada pelos vietnamitas, pode ser sintetizada e simbolizada pela fotografia acima: dois prisioneiros cambojanos na frente da foto (o da direita usa o krama, o lenço identificativo dos khmers vermelhos) são conduzidos pelo meio de uma plantação por dois soldados vietnamitas armados (no da esquerda reconhece-se o tradicional capacete norte-vietnamita). A vitória dos invasores - como se pode ver pelo vídeo abaixo - demorou apenas um par de semanas: a 7 de Janeiro de 1979 eles haviam conquistado Phnom Penh, a capital cambojana, onde instalaram um governo composto por cambojanos, mas obediente às suas directivas. Mas esses episódios iriam ser apenas o começo de um novo conflito sangrento que se iria prolongar por mais dez anos, em que as novas autoridades e o Vietname, agora como força ocupante, iriam ser contestadas por uma guerrilha patrocinada pela China e - numa certa vindicta - pelos Estados Unidos. Ao longo desses dez anos (1979-1989), centenas de milhar de conscritos vietnamitas passaram pelo Camboja como tropas de ocupação, num rodízio que, apenas por ser desconhecido no Ocidente, não deixa de ser menos real nos seus traumas e consequências. Com a clarividência adquirida nestes 40 anos, tratou-se de uma guerra onde se confrontaram os maus... e os péssimos.
Mas isso é apenas parte da história de há 40 anos que aqui se quer contar. Outra parte tem a ver com a forma como a imprensa comunista (e não só) de então tentava digerir acontecimentos que escavacam toda a narrativa romântica como se concluíra a história da Guerra do Vietname. Esta última acabara num happy end, com a queda de Saigão e a vitória dos mais fracos versus o ogre norte-americano. Só que a História continua, e a continuação deu em expor as clivagens nacionalistas e ideológicas entre as várias facções vencedoras. Se os conflitos entre países capitalistas eram apenas uma consequência da natureza malévola desses regimes e se os conflitos entre países capitalistas e socialistas tinham a limpidez cristalina de quem eram os bons e de quem eram os maus, para um jornal como o Diário de Lisboa de 26 de Dezembro de 1978 (não havia edição no dia de Natal), noticiar a invasão de um país socialista (Camboja) por outro país socialista (Vietname) era uma atrapalhação dialéctica. É assim que vemos o assunto a ser remetido para uma página interior (p.12), misturado entre assuntos avulso e com menor destaque que a instauração da lei marcial na Turquia ou a aprovação de um novo plano económico na China. E repare-se que, mesmo salvaguardando os exageros, normais nestas ocasiões, o Vietname anunciava então a morte de 400 soldados inimigos como um indicador da violência dos combates. Porque o período noticioso (natalício) é rigorosamente o mesmo, e as paragens geográficas próximas, tome-se para referência o destaque noticioso que está a ser dado a um número semelhante de mortos provocados pelo tsunami na Indonésia...
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06 novembro 2018
A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL
6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue há poucos dias). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.
05 maio 2018
O MINI TET E O MASSACRE DOS JORNALISTAS
5 de Maio de 1968. Às 04H00 da madrugada locais começava em Saigão, capital do Vietname do Sul, a segunda fase da Ofensiva do Tet. Menos recordada que a Ofensiva original do mesmo nome que havia tido lugar nos finais de Janeiro, que já aqui foi evocada, este Mini-Tet (como ficou conhecido entre outras designações) constituiu um desgaste suplementar ao já desgastado ânimo norte-americano em prosseguir a sua intervenção no Vietname em defesa do regime sul vietnamita. Mas, mais do que perceber o quadro táctico das ofensivas norte-vietnamitas e do vietcong, que terminaram todas com o mesmo desfecho previsível (a derrota), o que é importante a esta distância de 50 anos é perceber como a estratégia de comunicação do lado dos norte-americanos estava errada. Um dos episódios do começo da ofensiva fora um erro descomunal do vietcong, que emboscara, capturara e executara quatro jornalistas ocidentais (três australianos e um inglês) nos arredores de Saigão. Pior do que isso (na perspectiva dos comunistas), um quinto jornalista (também australiano), sobrevivera ao massacre fazendo-se de morto e tornara-se uma testemunha irrefutável dos factos. Contudo, na notícia abaixo nem sequer se tenta aproveitar o capital de queixa que o incidente potenciava em termos propagandísticos. Dali por 7 anos e para contraste, a execução de outros cinco jornalistas australianos, mas em Timor e dessa vez por tropas indonésias, teve uma cobertura - que não uma ressonância... - radicalmente diferente.
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16 março 2018
O MASSACRE DE MY LAI
16 de Março de 1968. Há cinquenta anos tinha lugar o mais famoso massacre da Guerra do Vietname. O mais famoso, o que não quer dizer que tenha sido necessariamente o maior, que isto de massacres de civis, os que importam foram aqueles que puderam ter repercussões no ânimo dos combatentes. E nesse aspecto, o elo mais fraco do conflito vietnamita eram mesmo os norte-americanos. E porque o eram e porque em 1968 já lhes passara o ânimo para prosseguirem o seu envolvimento na guerra do Vietname, é que o Massacre de My Lai assumiu tanta visibilidade mediática. O julgamento do caso em tribunal militar, que teve lugar nos Estados Unidos, culminou dois anos depois com a condenação à prisão perpétua do oficial subalterno que comandara o pelotão que acabou sendo considerado o autor material do massacre, o tenente William Calley. Não apenas as responsabilidades da cadeia de comando foram ignominiosamente esquecidas, como a pena acabou sendo reduzida para três anos e meio de prisão domiciliar. Em valor absoluto, a leniência das sanções é escandalosa, quando se toma em conta a dimensão do massacre - entre 350 a 500 civis assassinados. Em valor relativo, a condenação é um absurdo, considerando o número e a gravidade dos massacres de civis que ocorreram durante aquele conflito, massacres esses que foram perpetrados por todas as partes beligerantes, e que ficaram todos, ou praticamente, por sancionar.
Uma esmagadora maioria deles, mesmo ainda da primeira fase do conflito, apenas se depreende que aconteceram, mas nunca foram devidamente comprovados. Outros massacres foram-no, de que é um exemplo a conduta das unidades sul-coreanas destacadas do Vietname do Sul. Mas os sul-coreanos, que haviam sofrido eles próprios os horrores de uma guerra civil (1950-53), permaneceram perfeitamente indiferentes a complexos de culpa quanto às crueldades que infligiam a outros povos. Também indiferentes às consequências do massacre de populações que lhe fossem politicamente hostis, os adversários de sul-coreanos e norte-americanos, os guerrilheiros do Viet Cong, apenas três meses antes de My Lai, haviam liquidado 250 civis numa outra aldeia, denominada Dak Son (fotografia a preto e branco). Como se depreende, e mau grado o cinismo, a relevância destes massacres acaba por ter de ser avaliada pelo seu valor como arma de propaganda utilizada pela parte adversária. Nesse aspecto, e porque a sociedade do Vietname do Norte se apresentava completamente blindada a muitas iniciativas inimigas, os Estados Unidos acabaram sendo nitidamente derrotados. Um pormenor interessante, embora de somenos importância, aprecie-se no memorial que os vietnamitas erigiram ao massacre, o relevo que estes dão ao facto de uma apreciável percentagem dos soldados norte-americanos serem negros... Terrível incorrecção política (pelos padrões americanos), mas deve ser para o lado que os vietnamitas dormem melhor.
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09 fevereiro 2018
QUANDO AS REVISTAS SE PÕEM A INVENTAR...
Edição da revista TIME de 9 de Fevereiro de 1968. Por causa da inesperada Ofensiva do Tet, a Guerra do Vietname recupera um novo protagonismo na comunicação social dos Estados Unidos. E a revista TIME resolve voltar a dar um rosto ao inimigo: o general Võ Nguyên Giáp, que fora o vencedor da batalha de Điện Biên Phủ contra os franceses. O tempo virá a demonstrar o quanto a tese não tem qualquer correspondência com a realidade. Na verdade, o general Giáp, com outros dirigentes comunistas, fazia parte de uma facção que teria preferido dar prioridade ao reforço da capacidade logística do Vietname do Norte, antes que se promovesse um crescendo de intensidade no conflito, como aquele que era agora representado pela Ofensiva do Tet. Nas discussões de cúpula que haviam tido lugar no ano anterior, Giáp fora um dos derrotados quanto às opções estratégicas, face a uma facção mais militante que preferia antecipar para já essa iniciativa e que, entre os militares, era encabeçada pelo general Nguyễn Chí Thanh. Esses é que ganharam a causa para que se desencadeasse a mega-ofensiva militar então em curso. Embora estivesse agora a contribuir com todo o seu saber táctico para a sua prossecução, Giáp fora um dos primeiros derrotados (no campo da oportunidade estratégica) pela Ofensiva do Tet. Porém, e por causa da completa opacidade como funcionava o poder no Vietname do Norte, tudo isso era então completamente desconhecido da comunicação social internacional. Que, por via das dúvidas, nestas ocasiões e mesmo que não se saiba nada, entre estar calada e dizer qualquer coisa mesmo que se esteja completamente às escuras, opta sempre por esta última hipótese. Era um princípio tão válido há cinquenta anos quanto hoje. Creio que vale a pena estar a chamar a atenção para estas circunstâncias quando se ouvem palpites a respeito da Coreia do Norte...
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29 janeiro 2018
O PREÂMBULO DA OFENSIVA DO TET
29 de Janeiro de 1968. Naquele dia ainda não se sabia, mas estava-se na véspera da Ofensiva do Tết que os historiadores hoje consideram o acontecimento decisivo para a mudança de atitude da opinião pública norte-americana a respeito da guerra do Vietname. Vale a pena esclarecer que aquela guerra também se travava ao ritmo das efemérides religiosas: na notícia acima pode ler-se um desses interregnos, que havia sido estabelecido em princípios de Dezembro para o Natal de 1965. No caso de há cinquenta anos, a efeméride desse final de Janeiro de 1968 era a celebração do Ano Novo lunar da tradição budista, que era conhecido pelo festival do Tết.
Também naquele ano se estabelecera que as duas partes iriam respeitar a data. O que não veio a acontecer, antes pelo contrário: no dia feriado de 30 de Janeiro, os guerrilheiros do vietcong, previamente infiltrados, romperão unilateralmente as tréguas, desencadeando uma ofensiva urbana simultânea em 35 capitais provinciais (mapa cima), incluindo Saigão, onde um dos alvos militares veio a ser a própria embaixada dos Estados Unidos - não por acaso um dos aspectos cujas imagens televisivas mais virão a impressionar o telespectador americano. As causas para o significativo sucesso da ofensiva foram a sua simultaneidade e o factor surpresa que terá apanhado as tropas norte-americanas e sul-vietnamitas completamente desprevenidas.
Foi assim que os acontecimentos vieram a ser apresentados posteriormente e com essa explicação simplista se consolidaram na História. Porém, a edição do Diário de Lisboa deste dia de há cinquenta anos, contém uma notícia que, por ter sido publicada antes dos acontecimentos, pode muito bem questionar essa narrativa tradicional. Ao noticiar-se numa discreta página 13, quiçá para efeitos de propaganda, que, antes mesmo da ofensiva, já Saigão cancelara as tréguas no Norte do país (o Vietname do Sul), torna-se mais difícil compreender a falta de prevenção dos atacados em antecipar que as intenções do inimigo podiam ser bem mais vastas.
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24 janeiro 2018
45 ANOS DE UMA GRANDE ALDRABICE
Edição de 24 de Janeiro de 1973 do Diário de Lisboa onde o destaque vai, inteirinho, para o anúncio do Cessar-Fogo no Vietname. A História virá demonstrar que se trata de uma gigantesca fraude de onde qualquer uma das três partes envolvidas não se sai bem. O Vietname do Norte que intimamente não tem intenção de cumprir o acordo. Os Estados Unidos que, sabendo disso, estão-se marimbando para que o Vietname do Norte queira prosseguir a sua guerra em data posterior, desde que, para já, possam sair de um conflito a que hajam dado a aparência de ter terminado, para que se cumprisse a promessa eleitoral que Richard Nixon fizera em 1968. E o Vietname do Sul que, sabendo de uma coisa e de outra, e que em vez de procurar meios para conseguir subsistir autonomamente frente à agressão do seu vizinho, apenas se queixa da duplicidade de inimigos e de aliados, feito um Calimero (então na moda). Clímax de toda a encenação: no final desse ano de 1973, o Comité Nobel Norueguês atribuiu o Prémio Nobel da Paz aos dois negociadores principais que aparecem na fotografia acima, o norte-vietnamita Lê Đức Thọ e o norte-americano Henry Kissinger. Fossem quais fossem as razões que invocou, o primeiro teve a decência de o recusar enquanto o segundo, mesmo tido como o brilhante analista estratégico do Ocidente, ao aceitar o prémio, acabou por fazer figura de cínico, sem escrúpulos, ou de ingénuo, desmentido a sua craveira intelectual.
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08 outubro 2017
O PREÇO DE UM ENORME «BLUFF» DE CAMPANHA
8 de Outubro de 1970. Quando quase se completavam dois anos após as eleições que o haviam eleito (em 5 de Novembro de 1968) com a promessa de que trazia consigo um "plano secreto" para acabar com o envolvimento norte-americano na guerra do Vietname, o presidente Richard Nixon comparecia diante dos seus concidadãos através de um discurso televisionado para todo o país apresentando um plano de "cinco pontos" para acabar com a guerra. Finalmente!, que os bluffs de campanha também têm de ser pagos. Mas a efeméride aqui não é para assinalar esse discurso dessa estranha diplomacia triangular - Estados Unidos, opinião pública americana, Vietname do Norte - que teve lugar a 7 de Outubro (acima). A efeméride deste dia de há 47 anos destina-se a assinalar foi a surpresa pela celeridade e agressividade como a proposta norte-americana foi ostensivamente rejeitada do lado dos norte-vietnamitas. A superpotência do Ocidente, que entretanto instara a sua homóloga do outro lado (União Soviética) a usar os seus bons ofícios durante esta tão bem preparada e encenada manobra diplomática, não contaria (porque não estava habituada) de forma alguma a ser tratada diante de todo o Mundo daquela forma tão humilhante.
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15 setembro 2017
O ATOLEIRO VIETNAMITA
15 de Setembro de 1967. A capa da TIME desse dia (a revista sai semanalmente) é dedicada a Nguyen Van Thieu, o presidente do Vietname do Sul, que fora legitimado pelas eleições do princípio desse mês (dia 3). Contudo, convirá explicar por que a evocação é feita à capa da TIME e não às eleições propriamente ditas, que haviam sido fraudulentas, o único facto surpreendente nelas fora o facto do general candidato governamental, mais do que previsivelmente vencedor e devidamente apoiado pelos Estados Unidos, ter sido eleito recebendo apenas 34,8% da votação*. O destaque da capa, em que o destacado aparecia emoldurado pela bandeira sul-vietnamita por detrás, dirigia-se inteirinho para a frente interna norte-americana, onde a opinião pública começava a mostrar um indisfarçável cansaço por aquilo que se estava a assemelhar a um atoleiro do qual que não se via saída. Os leitores da revista TIME que combinasse a memória com o jeito para fixar nomes asiáticos poderiam recordar que, entre homens fortes prometidos para a solução do problema vietnamita já haviam aparecido três, só nos últimos quatro anos (1963, 1964 e 1966). Que garantias apresentava a administração Johnson que desta vez e com este é que era? Pelo menos, apesar de ser tão general quanto os outros, não aparecia fardado...
* Significativamente, o segundo candidato mais votado, o advogado civil Truong Dinh Dzu, que recebera 17,2% dos votos e que alegou que houvera fraudes, foi posteriormente preso por transacção ilegal de divisas, julgado por um tribunal militar e ali condenado a cinco anos de trabalhos forçados. Comparando com exageros despóticos destes, a situação que se vive em Angola é uma democracia.
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04 agosto 2017
A DESPROPÓSITO DE UM BOM LIVRO DE HISTÓRIA SOBRE O VIETNAME
O livro é bom, como alguém escreveu numa das (quase sempre pedantes) recensões (favoráveis) que sobre ele se escreveram, «é simplesmente a melhor e a mais legível história do Vietname escrita em inglês, apresentada num só volume» (embora ache requintado o preciosismo do volume único... - trata-se de um volume com mais de 500 páginas) O autor é norte-americano e ensina numa universidade canadiana, no Quebec. Conforme a abordagem, o Vietname é um assunto a respeito do qual há muito poucos livros, porque o interesse pelo assunto da sua história milenar é residual, ou então há demasiados livros, porque a respeito da guerra em que os franceses e (sobretudo) os norte-americanos ali se envolveram o interesse é imenso, mas circunscrito às componentes política e (sobretudo) militar, o que não impede que subsistam milhares de opiniões. Esta versão pareceu-se ser um compromisso (daí justificar-se-á o emprego da expressão «História do Vietname Moderno» na capa), com umas dúzias de páginas preliminares a enquadrar a unificação nos princípios do Século XIX (1802) e a contar a história a partir daí, dando relevo ao período colonial (a Indochina foi uma colónia francesa) e ao Vietname independente dos últimos 60 anos. Serão casos que escapam à experiência colonial portuguesa (que se centrava em África), mas este livro faz-nos ler e reflectir sobre o modo como se estabeleciam as relações coloniais entre as sociedades destas civilizações milenares e os europeus (um outro exemplo são os indianos e os britânicos), em que o ascendente cultural e civilizacional dos segundos é mais assumido pelas imposições materiais do que substantivo pela superioridade dos valores. Quase no fim do livro (p. 492), evoca-se a figura de Nguyễn Thái Học (1902-1930), um dirigente nacionalista vietnamita (demasiado) precoce, que acabou executado pelas autoridades coloniais francesas depois de um pequeno motim militar dentro do próprio exército colonial que veio a fracassar. A alguns dias da execução, Nguyễn Thái Học enviou uma carta à Assembleia Nacional Francesa explicando as razões porque encabeçara a revolta, remetendo-a para o fracasso francês em implementar verdadeiras reformas políticas no Vietname, como fora esperança dos próprios vietnamitas por ocasião do fim da Primeira Guerra Mundial (aconteceu o mesmo com a Índia). O que os vietnamitas queriam era o que os franceses já tinham: «um governo democrático, sufrágio universal, liberdade de imprensa, respeito pelos direitos humanos e, já agora, independência.» Ora isto era uma forma que pareceria aos franceses desapropriada, mesmo ingénua, de colocar a questão, pois a superestrutura Império Colonial Francês não estava concebida para, em data à vista, conceder condições idênticas a todos os seus membros. Ora, tudo isto me fez lembrar uma outra superestrutura actual denominada União Europeia, e a desencadear uma estranha empatia para com as reclamações daqueles vietnamitas. Também pelos povos membros da União Europeia parece-me perpassar uma sensação generalizada de que há uns destinados a usufruir de estatutos de primeira e outros que não...
07 maio 2017
A RENDIÇÃO DE DIEN BIEN PHU
7 de Maio de 1954. Há 63 anos rendiam-se as últimas unidades francesas que ainda resistiam em Dien Bien Phu ao cerco que lhes fora imposto nos últimos 57 dias pelas forças do Viet Minh. O local da batalha, no mais remoto interior do Norte do Vietname, no coração de uma região absolutamente controlada pelo Viet Minh (ver mapa mais abaixo), fora escolhido pelos próprios franceses, o que tornava a derrota ainda mais amarga. Em Paris, o Le Monde embrulhava-a numa circunspecta constatação factual: não há notícias da guarnição de Dien-Bien-Phu.
Não se consegue justificar uma derrota desta amplitude sem ter que condenar aqueles que foram os seus responsáveis militares e, quando não se quer fazer isso, romantiza-se o episódio, divertindo a atenção da narrativa da batalha para os actos de bravura individuais dos combatentes e/ou para aspectos anedóticos a ela associados. Em Dien Bien Phu, as posições francesas (acima) tinham todas nomes femininos, a que alguém mais imaginativo pôs a correr tratar-se das antigas amantes do general francês que comandava a guarnição. É uma história engraçada para justificar o feminino num meio onde ele era escasso, mas, mais prosaicamente, tratou-se apenas de dar sonoridade a posições que haviam sido designadas inicialmente pelas letras do alfabeto: A (Anne-Marie), B (Béatrice), C (Claudine), D (Dominique), E (Eliane), F (?), G (Gabrielle), H (Huguette) e I (Isabelle).
Se o mapa do campo de batalha de Dien Bien Phu (mais acima) é costumeiro, muito mais raro é este mapa acima, que nos mostra a situação militar na Indochina Francesa nesse mesmo mês de Maio de 1954 e que, à época, deveria ser um segredo militar.. As regiões pintadas de laranja são consideradas sobre controle do Viet Minh e as encarnadas são as que estão em disputa. Embora as populações se concentrem mais nos deltas dos rios e nas zonas costeiras e ribeirinhas, mesmo assim é evidente que coexistiam duas administrações rivais na Indochina: a que transitara da administração colonial francesa e a nacionalista/comunista. Dien Bien Phu foi só a constatação sangrenta da impotência francesa.
29 março 2017
A SAÍDA DAS ÚLTIMAS TROPAS COMBATENTES NORTE-AMERICANAS DO VIETNAME
29 de Março de 1973. Cumprindo os calendários do que fora estabelecido pelos Acordos de Paris, os soldados das últimas unidades de combate norte-americanas abandonam o Vietname do Sul. A saída realiza-se com muito menos panache do que acontecera à chegada. Costuma ser sempre assim (veja-se os franceses na Argélia, os britânicos no Iémen) e com os portugueses não iria ser diferente dali por dois anos, que entre a opinião doméstica apenas a má-fé se superioriza à ignorância do que aconteceu previamente, quando a disposição é a de criticar. Os ex-combatentes que, de malas na mão e descontraidamente se concentram nos locais de embarque, só se distinguem de uma qualquer outra excursão militar pelo exotismo...
...de alguns dos souvenirs que carregam consigo, caso o daquela carabina SKS (que terá sido mais do que provavelmente capturada ao vietcong) a que o orgulhoso militar seu proprietário parece dispensar mais atenção do que ao resto da sua bagagem. Numa última nota à última fotografia, já junto à escada de embarque para o avião e só para os mais atentos, a supervisionar identifica-se um graduado norte-americano (de bivaque na cabeça), acompanhado de um militar sul-vietnamita (de boina vermelha) e de dois militares norte-vietnamitas envergando o seu tradicional capacete, que ali estavam em plena zona inimiga, a base aérea de Tan Son Nhut (perto de Saigão), em funções de fiscalização do cumprimento dos Acordos.
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06 janeiro 2017
OPERAÇÃO «DECKHOUSE FIVE»
Há cinquenta anos (6 de Janeiro de 1967), dava-se início no Vietname do Sul à Operação Deckhouse Five, uma operação anfíbia e helitransportada que teve lugar na foz do rio Mekong, numa das ilhas do fértil delta daquele rio, a cerca de 100 km da capital, Saigão, e sobre um território que se considerava estar controlado pelos vietcong. Participaram na operação um batalhão de fuzileiros dos Estados Unidos e dois batalhões de fuzileiros sul vietnamitas. O plano consistia em varrer de sul para norte a ilha definida por dois braços do delta (Ham Luong e Co Chien), identificando, engajando e destruindo o dispositivo militar que o inimigo possuísse na região. Ao fim de dez dias a operação fora concluída com resultados desapontantes: com o custo de 7 mortos do lado norte-americano e 1 morto do lado sul-vietnamita, os batalhões de fuzileiros fizeram-se senhores do terreno, tendo abatido no decurso da operação 21 guerrilheiros do vietcong e capturado 44 armas. Estranhamente, não encontro registo do número de prisioneiros capturados embora se saiba que vários dos indícios colectados no local mostravam que a região abrigara um dispositivo militar muito superior até bem pouco tempo antes da operação. Também não existem quaisquer referências às populações civis. No seu computo global a operação resultara numa vitória... e também num insucesso.
Com a clarividência de se saber agora o desfecho da guerra de que a operação foi apenas um episódio menor, é possível ver a partir do filme de época (acima) as características (algumas erradas) de que se revestia a intervenção norte-americana no Vietname. Em primeiro lugar, as operações montavam-se em função dos recursos e interesses norte-americanos e não das realidades sul-vietnamitas. O uso a dar à frota anfíbia do famoso Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos, o próprio lobbying do ramo, parecia obrigar o próprio comando norte-americano a dar prioridade a acções militares em regiões litorais onde era vocação dos fuzileiros intervir, independentemente da sua relevância estratégica. Em segundo lugar, como se perceberá pelo vídeo acima, as demonstrações de força parecem ser mais concebidas para transmitir confiança ao auditório doméstico do que para intimidar os vietnamitas. Para estes últimos, a discrepância das forças em presença era tão grande que, mais helicóptero, menos avião, a questão do poder de fogo e de mobilidade nem se punha. Os argumentos da outra parte eram outros. Em terceiro lugar, percebe-se que, tão tarde quanto 1967, as operações norte-americanas parecem ainda circunscrever-se à sua componente militar clássica; nada se diz (e muito pouco se terá feito, presume-se) sobre a captação das simpatias das populações recém-retiradas à influência vietcong, no quadro daquilo que se preconiza ser uma acção contra-subversiva normal. Em quarto lugar, no que concerne às informações, a sua segurança revelava-se um desastre total, já que o inimigo mostrava saber com regularidade e antecipação quais as intenções norte-americanas. Só isso explica que os fuzileiros tivessem atacado... o vazio.
Apesar de tudo isto nos parecer hoje mais ou menos evidente, o mais engraçado deverá ser a forma como o resultado da operação foi avaliado à época. Positivamente, claro está. A operação foi levada à conta de uma espécie de exercício com fogos reais (mesmo reais), assim para o mais exigente. Mas, eloquente do que era a percepção dos comandos militares norte-americanos das prioridades do conflito vietnamita, o destaque do relatório vai para o problema de quem devia controlar a aviação que operava sobre a área da operação anfíbia: segundo a doutrina da US Navy e do US Marine Corps para as operações anfíbias, teria que ser o comandante da operação de desembarque; porém, a Força Aérea norte-americana, sediada em Saigão, tinha um outro entendimento: essa norma aplicar-se-ia quando o desembarque tivesse lugar em locais onde o espaço aéreo fosse hostil, o que não acontecia naquele caso. Acabou por ter de ser o Comandante-Chefe William Westmoreland (por sinal, neutro, do Exército) a desempatar a questão em prol dos navais, mas ressalvando que a complicação das duas estruturas de comando aéreo recomendaria que não se repetissem outras operações anfíbias, pelo menos naquela área.
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15 dezembro 2016
Os pequenos obedecem aOS GRANDES
Vietname do Sul, 26 de Outubro de 1966. A meio de um extenso périplo de 17 dias por vários países asiáticos e da Oceânia, o presidente Lyndon Johnson (à esquerda na fotografia) faz uma visita, pretensamente de surpresa e apenas por algumas horas, à base aeronaval de Cam Ranh no Vietname do Sul. A surpresa era tanta que, a aguardar Johnson estavam, apesar da base distar 300 km da capital Saigão, o comandante dos 385.000 soldados norte-americanos ali destacados, o general William Westmoreland (a seu lado na foto), o presidente do Vietname do Sul, o general Nguyễn Văn Thiệu (de fato cinzento), e o primeiro-ministro sul-vietnamita, o general Nguyễn Cao Kỳ (de fato castanho). Tratava-se da primeira visita de um presidente norte-americano ao Vietname, país que passara a constituir uma das prioridades da política externa dos Estados Unidos nessa década. Mas o que me interessa destacar nesta foto (já com cinquenta anos) é a habilidade como as fotografias oficiais dos norte-americanos favorecem os seus nestas ocasiões, quando justapostos aos outros. Já havíamos comentado a habilidade muito recentemente quando Marcelo esteve na Casa Branca. Mas, neste caso, o palmo e meio de diferença de estaturas entre americanos e vietnamitas a que a perspectiva da fotografia induz, acaba por ter um efeito pernicioso quanto ao estatuto que a política externa dos próprios Estados Unidos pretendia conferir ao Vietname do Sul.
Adenda: Esclareça-se que, com o seu 1,92, Lyndon Johnson era muito alto. A questão é que os dois vietnamitas não eram tão baixos quanto o plano cuidadosamente escolhido para a fotografia parece induzir o observador, como se comprova facilmente por esta outra fotografia abaixo.
Adenda: Esclareça-se que, com o seu 1,92, Lyndon Johnson era muito alto. A questão é que os dois vietnamitas não eram tão baixos quanto o plano cuidadosamente escolhido para a fotografia parece induzir o observador, como se comprova facilmente por esta outra fotografia abaixo.
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05 junho 2016
«WALK ON BY»
Quando Walk on By foi lançada em Abril de 1964 eu já por cá andava e acabadinho de transpor o Equador pela primeira vez como se pode constatar pelo certificado abaixo. Por esse Mundo fora, por onde eu me estreava a passear, os Estados Unidos mostravam-se ainda combalidos cinco meses após o assassinato de John Kennedy. E um hesitante Lyndon Jonhson que lhe sucedera vacilava quanto à atitude a adoptar no Vietname do Sul. A evolução dos acontecimentos mostrou que o conselho mais frutuoso não teria vindo de Robert McNamara, Dean Rusk ou do exército de conselheiros políticos e militares que o rodeava, mas curiosamente do prosaico título desta despretensiosa canção de Burt Bacharach e Hal David: Vietnam? Walk on by...
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11 janeiro 2016
OPERAÇÃO «BABYLIFT» : A FOTOGRAFIA COM IMPACTO E A SUA VERDADEIRA HISTÓRIA
Entre 51 fotografias pouco conhecidas do Século XX que o Observador seleccionou para exibir recentemente, conta-se esta acima, que considero muito interessante, a que acrescentou a legenda explicativa: 1975. Vários bebés são transportados depois da Guerra do Vietname os ter deixado órfãos. Conhecia-a, mas tinha pejo em usá-la por insuficiência daquilo que pretendia representar. Mesmo compreendendo as limitações explicativas de qualquer legenda, há que dizer que a fotografia pode induzir conclusões que estão erradas e injustas. Houve de facto um esforço dos norte-americanos para evacuar crianças vietnamitas de tenra idade (e não apenas bebés...) para virem a ser adoptadas nos Estados Unidos (...mas também em França, no Canadá e na Austrália - 40% delas). Designaram-no por Operação Babylift. Mas essa Operação Babylift foi desencadeada ainda decorria a Guerra do Vietname, e foi-o na sua fase final, quando o Vietname do Norte invadiu militar e ostensivamente o Vietname do Sul, seguro de que os Estados Unidos não regressariam ao Vietname do Sul para o defender, e quando as forças armadas e o governo deste último país colapsaram em pouco mais de três meses. Outro aspecto em que a fotografia se prestará a induzir em erro, são os meios aéreos que foram afectos para a realização da tal operação: a grande maioria das evacuações foram realizadas em aparelhos militares de transporte e não aviões civis, como o que aparece na fotografia. O que aconteceu foi que os privados, compreensivelmente, fizeram muito mais publicidade às suas iniciativas. Aliás, sintomático da proporção de aviões militares envolvidos, foi um C-5 Galaxy, o maior cargueiro militar da USAF de que várias unidades haviam sido mobilizadas para a Operação, que infelizmente se veio a despenhar perto de Saigão em Abril de 1975, causando a morte de 78 crianças e 35 adultos que nele viajavam. Finalmente, um dos aspectos mais controversos da Operação tem a ver com o facto de, das cerca de 3.300 crianças evacuadas (repete-se, não eram apenas bebés), não existirem apenas órfãos de guerra mas também uma significativa minoria que não o eram, antes crianças renegadas por resultarem de ligações episódicas de mulheres vietnamitas com militares norte-americanos que haviam estado destacados no Vietname. O fenómeno comprovava-se pela incidência de crianças embarcadas evidenciando traços físicos euro ou afro-asiáticos. Mas também é possível argumentar, por outro lado, que a ascendência caucasiana dessas crianças facilitaria a sua posterior adopção nos países de destino... Esta é uma daquelas situações em que tendo a não concordar com aquele aforismo que estabelece que uma imagem vale por mil palavras. Concordo que se podem escrever mil palavras acerca do que a fotografia inicial nos mostra. Mas será que, apenas pelo que ela nos mostra, isso nos permite perceber tudo o que aconteceu? Pelos vistos, parece que não...
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13 dezembro 2015
«(I CAN'T GET NO) SATISFACTION»
A capa da edição da revista LIFE de 13 de Janeiro de 1967 procurava dar aos norte-americanos uma ideia ainda mais alargada do conflito vietnamita, o conflito no amplo delta do rio Mekong onde eles se haviam instalado com as pequenas embarcações armadas do que costumam designar pela marinha de águas castanhas. A intenção era impedir o fluxo de reabastecimentos que chegavam ao vietcong por essa via fluvial. O instantâneo não escapa, porém, a que se possa tirar dele uma interpretação tão lúdica quanto militar, intenção essa que se pode reapreciar uma dúzia de anos depois, numa das cenas paródicas de Apocalypse Now, o filme de Francis Ford Coppola.
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