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25 maio 2024

A ÚLTIMA FOTOGRAFIA DE ROBERT CAPA… E UMA DAS PENÚLTIMAS.

(Republicação)
É muita conhecida esta última fotografia de Robert Capa, tirada ao princípio da tarde de 25 de Maio de 1954, num pequeno troço de estrada de cerca de 20 km que separa Nam Dinh de Thái Bình no delta do Rio Vermelho, no Norte do Vietname. A coluna militar francesa onde seguia Robert Capa fez uma pausa, ele apeou-se e saiu da estrada para tirar umas fotografias, tirou algumas e… pisou uma mina cuja explosão o matou. Tinha 40 anos.

Muito menos conhecida que a outra, mas muito mais simbólica, é esta fotografia abaixo, tirada anteriormente, durante essa última deambulação de Capa. A coluna militar motorizada na estrada, em contraste com o camponês que trabalha com o seu búfalo no arrozal, é, apesar das aparências, uma coluna de um exército derrotado: menos de três semanas antes, a 7 de Maio, as unidades de elite francesas tinham-se rendido em Dien Bien Phu...

07 maio 2024

A RENDIÇÃO DE DIEN BIEN PHU

(Republicação)
7 de Maio de 1954. Há 70 anos rendiam-se as últimas unidades francesas que ainda resistiam em Dien Bien Phu ao cerco que lhes fora imposto nos últimos 57 dias pelas forças do Viet Minh. O local da batalha, no mais remoto interior do Norte do Vietname, no coração de uma região absolutamente controlada pelo Viet Minh (ver mapa mais abaixo), fora escolhido pelos próprios franceses, o que tornava a derrota ainda mais amarga. Em Paris, o Le Monde embrulhava-a numa circunspecta constatação factual: não há notícias da guarnição de Dien-Bien-Phu.
Não se consegue justificar uma derrota desta amplitude sem ter que condenar aqueles que foram os seus responsáveis militares e, quando não se quer fazer isso, romantiza-se o episódio, divergindo a atenção da narrativa da batalha para os actos de bravura individuais dos combatentes e/ou para aspectos anedóticos a ela associados. Em Dien Bien Phu, as posições francesas (acima) tinham todas nomes femininos, a que alguém mais imaginativo pôs a correr tratar-se das antigas amantes do general francês que comandava a guarnição. É uma história engraçada para justificar o feminino num meio onde ele era escasso, mas, mais prosaicamente, tratou-se apenas de dar sonoridade a posições que haviam sido designadas inicialmente pelas letras do alfabeto: A (Anne-Marie), B (Béatrice), C (Claudine), D (Dominique), E (Eliane), F (?), G (Gabrielle), H (Huguette) e I (Isabelle).
Se o mapa do campo de batalha de Dien Bien Phu (mais acima) é costumeiro, muito mais raro é este mapa acima, que nos mostra a situação militar na Indochina Francesa nesse mesmo mês de Maio de 1954 e que, à época, deveria ser um segredo militar.. As regiões pintadas de laranja são consideradas sobre controle do Viet Minh e as encarnadas são as que estão em disputa. Embora as populações se concentrem mais nos deltas dos rios e nas zonas costeiras e ribeirinhas, mesmo assim é evidente que coexistiam duas administrações rivais na Indochina: a que transitara da administração colonial francesa e a nacionalista/comunista. Dien Bien Phu foi só a constatação sangrenta da impotência francesa.

12 março 2024

O INÍCIO DA BATALHA DE DIEN BIEN PHU

12 de Março de 1954. Mais importante do que considerações sobre a batalha de Dien Bien Phu - à qual regressaremos por ocasião do seu desfecho, a 7 de Maio - o que é interessante chamar a atenção é para a forma como o início da batalha foi noticiado, vai para 70 anos. No dia 12 de Março (acima), que foi a véspera do dia do início da ofensiva do Vietminh, os jornais ainda davam conta dos combates que se travavam à volta daquela posição (Dien Bien Phu) onde os franceses se haviam entricheirado. E depois passaram-se três dias de um silêncio opaco. Só a 15 de Março se tornaram a publicar notícias (abaixo), e logo da queda de um dos redutos (denominado Beatrice) em que assentava a defesa do dispositivo. As «explicações do alto comando» de que «a notícia do ataque» vietnamita fora «retardada por» razões de «segurança» era mais do que inverosímeis para quem se desse ao trabalho de ler - e descodificar - aquilo que era possível publicar sobre o que seria a situação táctica na «fortaleza» cercada: os franceses haviam sido completamente surpreendidos e iriam pagar por isso.

08 março 2024

O DISCURSO E O RELATÓRIO DE ROBERT MCNAMARA

8 de Março de 1964. O secretário da Defesa norte-americano, Robert McNamara inicia uma visita de cinco dias ao Vietname do Sul. O propósito da visita era «recolher elementos para o relatório que apresentará ao presidente (Lyndon) Johnson». Subentendido, mas não expresso, na notícia, estava a avaliação como o novo regime do general Khanh, (que fora implantado num golpe de Estado muito recente, em 30 de Janeiro) poderia lidar com a guerra que opunha o Vietname do Sul à guerrilha e às infiltrações do Vietname do Norte. Como se pode ler mais acima, ao desembarcar em Saigão, Robert McNamara começara por dizer à comitiva da imprensa que o acompanhava que «Os Estados Unidos não abandonariam o Vietname do Sul» e que «continuariam no país o tempo que fosse necessário para... o auxiliar na luta contra a agressão comunista». Durante os dias seguintes, o empenhado McNamara levou a cabo aquilo que ele considerava uma campanha de charme, empregando frases memorizadas num vietnamita deficiente. McNamara nunca se terá apercebido que o vietnamita é uma língua tonal e que uma pronúncia deficiente do tom de uma vogal pode distorcer completamente o que se pretende dizer. Exemplo, McNamara escolheu terminar seus discursos com um slogan que ele pretendia que fosse um entusiasmante "Viva um Vietname livre!", mas que, como o pronunciava mal, em vez disso dizia "Vietname, vá dormir!" Mas isso não saiu nas notícias...

Hoje também se sabe que o relatório de McNamara para o presidente Johnson também não era nada encorajador: a situação «piorara inquestionavelmente» desde a última vez que ele estivera no Vietname do Sul, ainda em Dezembro de 1963. Cerca de 40% do território era agora controlado pela guerrilha (conhecida por Vietcong). A população mostrava-se «apática e indiferente». O ritmo de deserções entre o exército sul-vietnamita (ARVN) era elevado e estava a aumentar, enquanto, pelo seu lado, o Vietcong, «recrutava energicamente». Pior do que isso, o ARVN, para além de ser militarmente incompetente, nem sequer era uma guarda pretoriana sólida para o regime, pois estava dividido em facções. O problema era que as proclamações públicas dos norte-americanos, como a que McNamara fizera há 60 anos, logo à chegada a Saigão, os amarravam a este fiasco anunciado.

06 fevereiro 2024

IRONIAS DA HISTÓRIA E COM HISTÓRIA: DA "HANÓI JANE" PARA O "MOSCOW TUCKER"?...

Em Julho de 1972, durante a guerra do Vietname, a actriz e activista liberal norte-americana Jane Fonda realizou uma visita à cidade de Hanói, a capital do Vietname do Norte, contra quem os Estados Unidos mantinham uma guerra semi-declarada (os Estados Unidos tinham nomeadamente em curso uma operação de bombardeamento sistemático de alvos militares e económicos em território norte-vietnamita denominada Operação Linebacker). A visita de Jane Fonda, então com 34 anos e com a popularidade de ter recebido um óscar naquele ano, pode ter sido muito bem intencionada, mas os anfitriões organizaram-lhe a visita de tal forma que a transformaram numa completa peça de propaganda pró-norte-vietnamita, como se pode apreciar pelo vídeo acima. Pior do que isso, o teor condenatório, desprovido de qualquer condescendência nas suas declarações a respeito dos pilotos seus compatriotas, que entretanto haviam sido capturados e estavam aprisionados em condições deploráveis no Vietname do Norte, não podem ser assacadas senão à própria.
A iniciativa e o comportamento que adoptou durante esta visita mereceram-lhe a alcunha pouco simpática de "Hanói Jane", no mesmo estilo das alcunhas que anteriormente haviam sido atribuídas às locutoras de propaganda dos inimigos dos Estados Unidos nessa e noutras guerras anteriores - Tokyo Rose (Japão) ou Hanoi Hannah. O clímax terão sido as fotografias que lhe fizeram numa peça de artilharia AA (anti-aérea instalada para derrubar os aviões americanos), uma fotografia que desencadeou mais do que críticas, o próprio desprezo dos militares e, de forma mais geral, dos conservadores americanos pela actriz americana. Como se percebe pelo artigo do Washington Post de 2018, Jane Fonda continuou e continua a pagar o preço da sua conduta, da qual já deu mostras de se arrepender em parte. Mas depois de todo esta explicação, agora mudemo-nos para o presente e falemos de Tucker Carlson, um comentador político conservador de 54 anos, que se tornou popular (e controverso) por, durante seis anos e meio, ter mantido um programa quotidiano de opinião no canal Fox News.
O programa de Carlson foi abruptamente cancelado em Abril do ano passado. Quais serão os projectos e quais são as deambulações de Tucker Carlson depois disso permanecerão, contudo, assunto interessantes. Aprecie-se a notícia de que ele estará em Moscovo, notícia que é acompanhada da especulação que a sua intenção (entretanto confirmada) será realizar uma grande entrevista a Vladimir Putin. Na Rússia de Putin parece gostar-se de Tucker Carlson e, reciprocamente, Tucker Carlson gosta muito da Rússia de Putin. Estes dois episódios, o da "Hanói Jane" e o do "Moscow Tucker" não serão escrupulosamente simétricos mas é evidente que a dissidência de opiniões dos dois em relação ao mainstream das opções da política externa da América é assaz semelhante. O problema será que um e outro se registam em lados opostos do espectro político. Como de costume, o que eu gosto de ver é o que acontecerá à coerência. Quantos conservadores considerarão o comportamento actual de Tucker Carlson como uma traição à América? E quantos liberais defenderão a sua liberdade de opinião?...

06 novembro 2023

A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL

(Republicação)
6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue anteriormente). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.

11 junho 2023

A FOTOGRAFIA QUE CONDICIONOU A POLÍTICA EXTERNA DE UMA SUPERPOTÊNCIA

Quase ninguém se lembrará de quem foi Thich Quang Duc (1897-1963), mas haverá muita mais gente que se poderá lembrar da fotografia acima, tirada em Saigão em 11 de Junho de 1963. O impacto da fotografia, cujo autor que veio a ser distinguido com um Prémio Pulitzer, ajudou a sensibilizar a opinião pública e publicada norte-americana para a necessidade de substituir o regime sul-vietnamita, numa altura em que o problema vietnamita ainda era um embrião de problema para os Estados Unidos. Para quem acredita nos acasos, esclareça-se que a imprensa norte-americana acreditada em Saigão, capital do Vietname do Sul fora devidamente avisada de véspera que algo de importante se iria passar de manhã naquele local - que acessoriamente era um dos cruzamentos mais frequentado das ruas de Saigão - e que os cartazes da comitiva que acompanhava o suicida estavam escritos tanto em vietnamita como em inglês, considerando quem seriam os verdadeiros destinatários daquela cerimónia macabra. Estes últimos, as audiências norte americanas, podiam não perceber nada da essência do problema, mas ficaram muito mal dispostas com as imagens. 

05 junho 2023

FANTASIAS DE TRATADOS DE PAZ

5 de Junho de 1973. Quem lesse esta notícia vinda de Saigão, a então capital do Vietname do Sul, compreenderia facilmente que o tão propagado acordo de cessar fogo, que fora assinado quatro meses e meio antes em Paris, apenas diminuíra a intensidade do conflito, e fornecera um belo pretexto para os norte-americanos se desengajarem dele. As violações do cessar-fogo eram tantas e tão disseminadas, que a 29 de Maio, uma semana antes desta notícia, o Canadá, que fora uma das partes escolhidas para fazer parte da comissão internacional responsável pela fiscalização do cessar-fogo, a abandonara alegando que o acordo não estava a ser acatado pelas partes. Essa notícia fora dada com imensa discrição, assim como é com imensa discrição que nesta notícia de há cinquenta anos se notícia que Henry Kissinger iria para Paris, «recomeçar as negociações com o Vietname do Norte, àcerca da aplicação do acordo de paz para o Vietname», sinal de que, se a assinatura em Janeiro de 1973 correra bastante bem (nos jornais), a aplicação concreta do acordo de paz, pelo contrário, estava a correr bastante mal (no terreno).
É esta a impressão que retenho desde sempre da assinatura dos acordos de paz de Paris: uma coisa insistentemente publicitada (veja-se acima) mas muito mal engendrada, assinada de má fé pelas duas partes, desmentida quotidianamente pela situação no terreno, e que acabou rematada ignominiosamente pela atribuição, em Outubro de 1973, do prémio Nobel da Paz aos dois signatários (Henry Kissinger e Le Duc Tho - onde o norte vietnamita teve, pelo menos, a dignidade de o recusar...). Que este episódio (que raramente vejo evocado da forma como o relembro, especialmente quando centrado à volta da pessoa de Kissinger) sirva também agora de alerta contra, no caso da guerra da Ucrânia, a assinatura a todo o transe de um qualquer acordo de paz, só porque sim, porque é bonito ser-se a favor da paz, mas que depois se transforme em algo que não se consegue sustentar no terreno.

29 março 2023

A SAÍDA DAS ÚLTIMAS TROPAS COMBATENTES NORTE-AMERICANAS DO VIETNAME

Republicação
29 de Março de 1973. Cumprindo os calendários do que fora estabelecido pelos Acordos de Paris, os soldados das últimas unidades de combate norte-americanas abandonam o Vietname do Sul. A saída realiza-se com muito menos panache do que acontecera à chegada. Costuma ser sempre assim (veja-se os franceses na Argélia, os britânicos no Iémen) e com os portugueses não iria ser diferente dali por dois anos, que entre a opinião doméstica apenas a má-fé se superioriza à ignorância do que aconteceu previamente, quando a disposição é a de criticar. Os ex-combatentes que, de malas na mão e descontraidamente se concentram nos locais de embarque, só se distinguem de uma qualquer outra excursão militar pelo exotismo...
...de alguns dos souvenirs que carregam consigo, caso o daquela carabina SKS (que terá sido mais do que provavelmente capturada ao vietcong) a que o orgulhoso militar seu proprietário parece dispensar mais atenção do que ao resto da sua bagagem. Numa última nota à última fotografia, já junto à escada de embarque para o avião e só para os mais atentos, a supervisionar identifica-se um graduado norte-americano (de bivaque na cabeça), acompanhado de um militar sul-vietnamita (de boina vermelha) e de dois militares norte-vietnamitas envergando o seu tradicional capacete, que ali estavam em plena zona inimiga, a base aérea de Tan Son Nhut (perto de Saigão), em funções de fiscalização do cumprimento dos Acordos.

17 março 2023

EXPLOSÃO DE ALEGRIA

Republicação
Explosão de Alegria (Burst of Joy, no original) foi o título dado a uma fotografia premiada, tirada em 17 de Março de 1973 numa Base Aérea da Califórnia, por ocasião do retorno a casa dos pilotos que haviam sido aprisionados pelos norte-vietnamitas durante a Guerra do Vietname. Nela vê-se uma família americana típica de classe média (com a esposa e mais quatro filhos) correndo para abraçar o pai/marido acabado de chegar e que, visto de costas, ali parece personificar simbolicamente todos os militares naquela mesma situação, simultaneamente pondo um ponto final ao envolvimento norte-americano no Vietname. Ao contrário de outros casos, a versão editada da fotografia (a que se vê no inicio do poste) não difere muito da que foi originalmente tirada pelo fotógrafo Sal Veder (imediatamente acima). Apenas uns retoques, fazendo desaparecer uma parte do lado esquerdo da fotografia, mas sem que se fizesse perder o lugar central a Lorrie Stirm, então com 15 anos, a filha mais velha do regressado Tenente-Coronel Robert L. Stirm (que tinha então 39) e, visivelmente, a que se mostrava mais entusiasmada a acolher o pai que já não via há 6. Só depois vêm os irmãos Bo (Robert Jr.) e Cindy, a esposa Loretta e por fim o irmão Roger. Robert L. Stirm era um oficial piloto-aviador da USAF que havia sido abatido sobre o Vietname do Norte em 27 de Outubro de 1967. O avião que pilotava, um F-105 como o da fotografia acima, é um daqueles casos em que ainda hoje permanece controversa a razoabilidade do seu emprego nas situações de combate em que foi usado. Concebido para ser extremamente rápido e para operar a baixas altitudes, comprovou-se repetidamente que era uma presa fácil para as defesas anti-aéreas norte-vietnamitas. No global, perderam-se 320 F-105 em situações de combate nos céus do Vietname, o que representa 38% de todos os F-105 construídos! Stirm foi mais um desses pilotos abatidos que, tendo tido a sorte de se conseguir ejectar a tempo, não teve a sorte de conseguir ser resgatado pelos helicópteros enviados para o efeito, vindo a ser capturado pelos norte-vietnamitas no solo. Permaneceu 1965 dias como prisioneiro de guerra e veio a ser libertado no dia 14 de Março de 1973, ou seja, três dias antes daquela fotografia ter sido tirada. E, como prova que estas fotografias famosas raramente são aquilo que mostram, juntamente com a alegria da libertação chegou-lhe também uma carta da sua mulher, Loretta, a comunicar-lhe a intenção de pedir o divórcio… Sabendo isto, um dos enigmas da fotografia (que ficará para sempre por resolver) será saber se a expressão de Robert L. Stirm seria tão sorridente como a que aqui aparece, naquele momento em que Sal Veder o apanhou de costas e fez dele o exemplo do soldado americano desconhecido, de regresso (finalmente) a casa…

12 fevereiro 2023

A LIBERTAÇÃO DOS PRISIONEIROS NORTE-VIETNAMITAS

12 de Fevereiro de 1973. Na sequência da assinatura dos acordos de Paz em Paris no mês anterior, procede-se à permuta dos prisioneiros de guerra. Como em tudo na Guerra do Vietname, as atenções mediáticas concentram-se no retorno dos prisioneiros norte-americanos, mas, no mesmo dia e algures na província de Quang Tri (por onde passava a zona desmilitarizada que separava o Vietname do Norte do Vietname do Sul), tem lugar o retorno de uma parte dos prisioneiros do Vietname do Norte, transportados em barcos de uma para outra margem (as unidades que se vêem do outro lado pertencem ao exército do Vietname do Sul). Esta fotografia é rara porque, se por um lado e como se disse acima, as atenções iam todas para os prisioneiros norte-americanos libertados, por outro, as fotografias da guerra que costumavam ser feitas do lado do Vietname do Norte são todas rígidas e encenadas para indisfarçáveis usos como instrumentos de propaganda. Aqui, a indisfarçável alegria dos prisioneiros ao regressarem à liberdade era tão genuíno que se dispensavam as encenações.

24 janeiro 2023

50 ANOS DE UMA GRANDE ALDRABICE

Republicação
Edição de 24 de Janeiro de 1973 do Diário de Lisboa onde o destaque vai, inteirinho, para o anúncio do Cessar-Fogo no Vietname. A História virá demonstrar que se trata de uma gigantesca fraude de onde qualquer uma das três partes envolvidas não se sai bem. O Vietname do Norte que intimamente não tem intenção de cumprir o acordo. Os Estados Unidos que, sabendo disso, estão-se marimbando para que o Vietname do Norte queira prosseguir a sua guerra em data posterior, desde que, para já, possam sair de um conflito a que hajam dado a aparência de ter terminado, para que se cumprisse a promessa eleitoral que Richard Nixon fizera em 1968. E o Vietname do Sul que, sabendo de uma coisa e de outra, e que em vez de procurar meios para conseguir subsistir autonomamente frente à agressão do seu vizinho, apenas se queixa da duplicidade de inimigos e de aliados, feito um Calimero (então na moda). Clímax de toda a encenação: no final desse ano de 1973, o Comité Nobel Norueguês atribuiu o Prémio Nobel da Paz aos dois negociadores principais que aparecem na fotografia acima, o norte-vietnamita Lê Đức Thọ e o norte-americano Henry Kissinger. Fossem quais fossem as razões que invocou, o primeiro teve a decência de o recusar enquanto o segundo, mesmo tido como o brilhante analista estratégico do Ocidente, ao aceitar o prémio, acabou por fazer figura de cínico, sem escrúpulos, ou de ingénuo, desmentido a sua craveira intelectual.

14 julho 2022

QUANDO A PROPAGANDA DISTORCE EXPRESSÕES QUE TÊM OUTRO SIGNIFICADO

Para efeitos de propaganda tem-se abusado demasiado da expressão "guerra híbrida" (uma expressão popularizada já no século XXI). Se "guerra híbrida" consistisse em "enviar armas" para um dos beligerantes, como acima reclama a porta-voz do Kremlin, então, por exemplo, a União Soviética havia travado uma prolongada "guerra híbrida" contra os Estados Unidos entre 1965 e 1972, através dos fornecimentos de vastas quantidades de armamento sofisticado que fez ao Vietname do Norte. E isso é uma passagem da História que precisamente aqueles que tomam as simpatias pró-russas no actual conflito russo-ucraniano, não querem reconstituir desse modo - supostamente, a sua versão ortodoxa da Guerra do Vietname é que a vitória se deveu apenas aos vietnamitas...

10 julho 2022

A MORTE DE UM GENERAL AMERICANO NO VIETNAME

10 de Julho de 1972. Antes da invasão russa da Ucrânia de 2022, a morte de oficiais generais em combate era um fenómeno raro. Suficientemente raro para ser noticiado com destaque. Esta notícia, que assinala a morte do brigadeiro general norte-americano Richard Tallman de 47 anos (e não 48 como consta da notícia), especifica que, até aquela altura, os Estados Unidos haviam perdido no Vietname dez oficiais generais, seis deles em combate e quatro em acidentes. Os nomes da lista começam em Novembro de 1967 e prolongam-se pelos quatro anos e meio seguintes, precisamente o período em que o contingente de tropas norte-americanas no Vietname foi mais elevado. Não se sabia então, mas Tallman viria a ser o último daquela lista de seis oficiais generais americanos caídos em combate no Vietname em quatro anos e meio. Este ritmo contrasta com os números computados até agora entre o exército russo na invasão da Ucrânia: oito oficiais generais russos caídos em combate na Ucrânia em quatro meses e meio.

11 agosto 2021

EM VIAS DE SE REEDITAR UMA MESMA HISTÓRIA?

Este é um documentário de 17 minutos da Associated Press sobre a queda de Saigão, a tomada do poder pelos nortistas e a adesão das população. Será que iremos assistir a cenas muito parecidas como estas brevemente em Cabul? Se assim for, convém ter em conta que se tratou - em qualquer dos casos - de 20 anos de investimento político e material num regime ameaçado, que, nem mesmo nas circunstâncias mais críticas, mostra possuir a força anímica para se defender.

29 março 2021

TENENTE WILLIAM CALLEY Jr: O CULPADO CUJA CULPA NÃO SATISFEZ NINGUÉM

29 de Março de 1971. Na conclusão do julgamento militar, e depois do júri ter conferenciado por 79 horas, o tenente William Caley Jr. é considerado culpado pela chacina de My Lai, aldeia do Vietname do Sul onde, a 16 de Março de 1968, se registara um massacre de civis perpetrado pelo pelotão que comandava. É uma decisão intermédia mas que não satisfará as duas partes que se disputam politicamente a propósito da questão vietnamita: os que são a favor dela indignam-se com a a conclusão do júri (seis oficiais, dos quais cinco haviam prestado serviço no Vietname), que acarreta obrigatoriamente uma severidade na sentença (execução ou prisão perpétua, como se lê acima), que pensam excessiva; mas os que estão contra a guerra no Vietname, vêm na severidade dessa sentença um expediente para cortar cerce a intenção de encontrar responsáveis de patente mais elevada, daí a pergunta colocada pela revista TIME na sua edição seguinte: quem compartilha as culpas?... Naturalmente, o futuro acabou por vir a responder à pergunta da TIME: ninguém. Mais ninguém virá a ser condenado pelo que acontecera em My Lai. E, como já aqui escrevera, mesmo Caley acabou cumprindo apenas uma pena de três anos e meio de prisão domiciliar.

24 março 2021

A AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS DA OPERAÇÃO LAM SON 719

24 de Março de 1971. Depois de mês e meio de combates encarniçados, que haviam vindo a ser noticiados numa redacção progressivamente mais sóbria à medida que o tempo passava, tornava-se tempo de ter que se assumir o fracasso da Operação Lam Son 719, na qual se haviam depositado tantas esperanças que comprovasse o sucesso da vietnamização. As duas notícias acima, da edição do Diário de Lisboa de há cinquenta anos, são, cada uma, interessante(s) à sua maneira. A notícia da esquerda é explícita quanto às consequência negativas que o desfecho terá para o regime de Saigão (Vietname do Sul), mas o conteúdo do texto perpetua a menorização como os sul-vietnamitas se comportavam e eram tratados. As culpas pelo fracasso da Operação Lam Son 719 eram, naturalmente, assacadas aos Estados Unidos que eram responsabilizados pelo seu deficiente planeamento e concepção. Perpassa por ali uma certa inconsciência de que, se os sul vietnamitas não se responsabilizarem pela sobrevivência do seu próprio país, não serão os norte-americanos a disponibilizarem-se a sustentá-lo para sempre, só para não fazerem má figura. Mas, por ora, nos Estados Unidos (notícia da direita), o presidente (Richard Nixon) ainda não queria fazer má figura e criticava «a imprensa e a televisão» pela forma como procedera à cobertura dos acontecimentos, críticas que suscitavam a reacção do New York Times em destaque. Exemplo típico do ditado português que diz que numa casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão...

12 fevereiro 2021

A MORTE DE HENRI HUET

Ainda 11 de Fevereiro de 1971. Só nesse dia era dada a notícia da morte, no dia anterior, do foto-jornalista Henri Huet, quando o helicóptero onde viajava com três colegas e sete oficiais sul-vietnamitas foi abatido pelas anti-aéreas norte-vietnamitas que protegiam a trilha Ho-Chi-Minh. Huet fora o autor de algumas das mais icónicas fotografias da Guerra do Vietname de que acima exibo duas, escolhidas ambas com um sentido irónico consideradas as circunstâncias da sua morte. A da esquerda, em que um helicóptero, por impossibilidade de pousar, recolhe um ferido numa cesta; a da direita, o momento em 1965 em que a sua colega americana Dickey Chapelle agonizante, recebe a extrema unção, depois de atingida pelo accionamento de uma armadilha. Há cinquenta anos havia chegado a vez de Huet.

08 fevereiro 2021

O INÍCIO DA OPERAÇÃO LAM SON 719

8 de Fevereiro de 1971. Cerca de 12.000 soldados sul-vietnamitas sob o comando do tenente-general Hoàng Xuân Lãm atravessam a fronteira com o Laos (ver mapa mais abaixo) com o objectivo de cortarem a Trilha Ho-Chi-Minh que reabastecia logisticamente a guerra que os norte-vietnamitas desenvolviam no Vietname do Sul. Mas, vale a pena recuperar um poste aqui colocado no Herdeiro de Aécio há mais de dez anos a respeito desta operação que agora completa cinquenta anos.
Se a história que, nos Estados Unidos, se quis reter da Guerra do Vietname pode ser sintetizada em fotografias como a que aparece cima, a de uma guerra de patrulhas de infantaria atravessando regiões inóspitas em busca de um inimigo que se escondia e só se dispunha a combater em locais à sua escolha, a verdadeira Guerra do Vietname é algo mais complexa que isso. Depois da Administração Nixon ter decidido evacuar todas as forças combatentes dos Estados Unidos, e substitui-los por sul-vietnamitas (a chamada vietnamização), o cenário da Guerra alterou-se significativamente. Com os norte-americanos agindo cada vez mais como assessores e não integrados em unidades combatentes, a grande maioria das batalhas que tiveram lugar durante a década de 70 foram de tipo convencional, envolvendo imensos meios aéreos e blindados. Um dos primeiros exemplos disso foi a Operação Lam Son 719, uma iniciativa conjunta norte-americana e sul-vietnamita para bloquear e estrangular a Trilha Ho Chi Minh (acima) que era a via de reabastecimento com que, através do território do Laos, o Vietname do Norte abastecia logisticamente a guerrilha no Vietname do Sul (abaixo).
O nome da Operação era pomposo: Lam Son era o nome de uma revolta dos vietnamitas contra os chineses que tivera lugar em 1427 e o 719 resultava da junção do ano da ofensiva (1971) com o número da antiga estrada colonial (francesa) que constituiria o eixo da progressão, a nº 9 que ligava Quang Tri no Vietname a Tchepone no Laos. A Operação estava estruturada em 4 fases que passavam pela conquista, manutenção e posterior evacuação em boa ordem da cidade laociana. A Operação tinha o objectivo político de mostrar as novas capacidades do exército sul-vietnamita, o sucesso da vietnamização.
Descrevendo-a de uma forma necessariamente sucinta, a resistência às colunas que pretendiam progredir ao longo da estrada nº 9 aumentou a tal ponto que houve que recorrer a um gigantesco assalto heli-transportado (acima), o maior de toda a Guerra do Vietname, empregando 120 helicópteros Huey(*), para que dois batalhões de soldados sul-vietnamitas conseguissem finalmente conquistar o objectivo final de Tchepone. Para efeitos do objectivo político da Operação esse terá sido o momento da consagração (abaixo). Mas o pior estava para acontecer quando se quisesse proceder à evacuação em boa ordem
Foi aí, debaixo do fogo dos contra-ataques dos norte-vietnamitas que os militares norte-americanos se aperceberam das fragilidades dos seus aliados, nomeadamente a completa perda de disciplina quando em situações adversas (abaixo, soldados sul-vietnamitas pendurados nos patins dos helicópteros de evacuação dos feridos…). Mas, como tantas vezes acontece, essa realidade teve que desaparecer perante as necessidades políticas: para benefício dos seus respectivos auditórios tanto Richard Nixon quanto Nguyễn Văn Thiệu, o presidente do Vietname do Sul, validaram o sucesso da vietnamização
(*) Para comparação, por essa altura a Força Aérea portuguesa dispunha de 100 helicópteros para o conjunto dos seus 3 Teatros de Operações em África (Angola, Moçambique e Guiné). E no conjunto, norte-americanos e sul-vietnamitas perderam 108 helicópteros durante a Operação Lam Son 719.

06 dezembro 2020

NOMEAÇÃO DO GENERAL DE LATTRE COMO ALTO COMISSÁRIO PARA A INDOCHINA E COMANDANTE EM CHEFE PARA O EXTREMO ORIENTE

6 de Dezembro de 1950. Através das evocações do que aconteceu há setenta anos, já aqui tenho dado conta de alguns dos problemas militares em que a França estava envolvida nas suas possessões da Indochina. A questão, obviamente, tinha um fundo político: a França estava apostada em prolongar a sua presença como potência colonial na Ásia, ao invés do que fizera o Reino Unido a partir de 1947, quando abandonara a Índia e o Paquistão, ou do que fizeram os Países Baixos a partir de 1949 com a Indonésia. Esta nomeação do general Jean de Lattre de Tassigny é uma daquelas nomeações de estadão, para causar efeito na assistência, de que só os franceses dominam a arte e guardam o segredo. Aliás, não é em vão que o capítulo desta sua biografia acima que narra a nomeação, começa por se perguntar quem é que o escolheu para o(s) cargo(s). Uma coisa é certa: quem não foi foi François Mitterrand, que em 1950 ainda militava numa organização de esquerda liberal e que fazia parte do próprio governo de René Pleven com o cargo de ministro do Ultramar (o governo que escolheu de Lattre...) e que na passagem assinalada acima no livro lemos a intrigar com o general, persuadindo-o a não aceitar o convite que o governo de que ele próprio, Mitterrand, fazia parte lhe endereçara... Mas, agora em benefício dos leigos a respeito da história francesa da IV República: quem era de Lattre, qual era a sua importância? Tentando sintetizar as 825 páginas dessa biografia, publicada originalmente em 1998, o general Jean de Lattre de Tassigny foi o militar escolhido para representar a França nas cerimónias da rendição da Alemanha, em Berlim em Maio de 1945, ao lado de Jukov, Eisenhower e Montgomery (abaixo). De Lattre representava a mediana possível entre uma França dividida entre as Resistências (a gaullista desde 1940 e a comunista desde 1941) e a grande massa do povo francês que se mantivera em cima do muro enquanto durara a ocupação, até ao Verão/Outono de 1944.
No seu percurso militar durante a Segunda Guerra Mundial, De Lattre combatera com distinção em 1940, permanecera como general no pequeno exército de Vichy até cair em desgraça por resistir aos alemães quando estes invadiram e ocuparam a denominada zona livre em Novembro de 1942. Caiu em desgraça por um lado, mas adquiriu uma boa reputação junto do outro lado, e é este outro lado que o irá ajudar a evadir-se da França metropolitana em Setembro de 1943. Tendo estado dos dois lados e tendo-se transferido de um para outro por um acto que a propaganda tentou tornar mais heróico do que fora, o general de Lattre era a opção conveniente aos olhos de de Gaulle para ser a imagem da França militar. Embora dotado de um ego interminável e muito cioso das suas prerrogativas - era conhecido entre o seu staff como o «Rei João»... - de Lattre, ao contrário de outros generais franceses como Giraud, não tinha particulares talentos, nem sobretudo ambições, políticas, algo que era muito do agrado de de Gaulle. E é assim que o vemos em Berlim. Como aconteceu também aos outros generais da foto acima, seguiram-se cinco anos de relativo apagamento até a este ressurgência com esta nomeação (de arromba) para a Indochina, acumulando os cargos de Alto Comissário (civil) e de Comandante em Chefe (militar). O perfil do escolhido é demonstrativo que em Paris se pensava que o factor crítico da solução passava pela questão militar. Não se sabia então, mas o futuro não iria ser caridoso para o recém empossado Rei João...