26 de Junho de 2004. Com as atenções dispersas por um campeonato europeu de futebol a decorrer no nosso país - estavam a decorrer os jogos dos quartos de final - os portugueses ficam a saber que o seu primeiro-ministro, José Manuel Durão Barroso, fora convidado para presidir à Comissão Europeia, que aceitara e que passava a pasta àquele que fora o seu rival no XXV Congresso do PSD, Pedro Santana Lopes. O Congresso realizara-se um mês antes, de 21 a 23 de Maio. E o presidente Jorge Sampaio acolheria a solução se ela fosse validada pelas estruturas políticas do PSD. Foi e por uma maioria norte-coreana. É um daqueles momentos históricos que pode muito bem ser descrito por: foi como atirar um pedaço de merda para a frente de uma ventoinha; ficaram todos cagados: Durão Barroso, Santana Lopes, Jorge Sampaio e ainda o colectivo de mais de cem conselheiros nacionais do PSD que votaram nele, mas tinham obrigação de saber o que é que nos estavam a impingir para primeiro-ministro... Como consequência colateral, o líder da oposição, Ferro Rodrigues, irritou-se com aquilo que considerou a ingenuidade de Jorge Sampaio e demitiu-se da liderança do PS. Foi substituído por... José Sócrates. Por efeito de carambola, tudo isto foi provavelmente a nossa maior cagada política em Democracia.
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26 junho 2024
22 maio 2024
O PRIMEIRO PRIMEIRO-MINISTRO INDIANO SEM SER DE RELIGIÃO HINDU
22 de Maio de 2004. Manmoham Singh de 71 anos toma posse como primeiro-ministro da Índia. É o 13º primeiro-ministro indiano desde a independência do país em 1947, mas é o 1º a ocupar aquele cargo que não professa a religião hindu, que é a religião de uma ampla maioria - cerca de 80% - da população indiana. A Índia já fora dirigida por uma primeira-ministra - Indira Gandhi - entre 1966 e 1977 e depois entre 1980 e 1984. Mas trata-se de uma estreia para um membro de uma minoria religiosa, no caso a minoria sique. Manmohan Singh irá ocupar o cargo durante dez anos (2004-2014). E entretanto, a Índia tem-se tornado notada por, por assim dizer, exportar primeiros-ministros para a Europa: começou por Portugal, depois foi a Irlanda, depois o Reino Unido... A ascendência indiana parece funcionar como um certificado de qualidade; é mais ou menos como os treinadores portugueses de futebol além fronteiras!
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23 março 2024
PELOS VISTOS, HÁ VINTE ANOS ISRAEL JÁ HAVIA ARRUMADO O ASSUNTO DO HAMAS, «DECAPITANDO-O»...
23 de Março de 2004. Para simplicidade desta mensagem, vamo-nos descartar das questões de legitimidade e de moral que estiveram associadas ao assassinato por Israel do xeque Ahmed Yassim, fundador do Hamas. Concentremo-nos na funcionalidade do assassinato, condensada na mensagem posta a circular por Israel para se explicar perante o resto do Mundo e que aparece acima ao centro: «Israel decapita Hamas». Subentendido: foi um gesto brutal, mas um mal necessário para pôr fim à actividade terrorista de um Hamas que era assim «decapitado». Notoriamente, vinte anos decorrido estamos em condições de afirmar com toda a segurança que não pôs fim. E não terá sido anteontem que terá posto fim (ainda outra vez) ao mesmo Hamas... Os anúncios, de tão repetidos, descredibilizam-se. Visto à distância, Israel mantêm-se exactamente no mesmo sítio onde sempre esteve no que concerne às questões da segurança do seu Estado e dos seus cidadãos e, sobretudo, quanto ao problema de fundo da coexistência com os palestinianos. E no entretanto parece que os israelitas esgotaram quase todo o capital de simpatia de que gozaram durante os primeiros cinquenta anos de existência do seu Estado. Israel está cada vez mais isolado.
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02 março 2024
ELE HÁ NOTICIAS QUE TEM PRECISAMENTE VINTE ANOS...
...e cujos títulos se mostram (também) coincidentemente actualizados. Mas há uma diferença para notícias deste mesmo teor com cem anos. Apreciadas a uma distância de cem anos, de tanto que as sociedades mudam nesse período, a coincidência dos títulos era uma curiosidade engraçada. À distância de vinte anos essa coincidência é uma constatação das inépcias dos sucessivos governos em resolver estruturalmente os problemas: houve nove governos e cinco primeiros-ministros de 2004 para cá e o que se lê na notícia parece ser uma perpetuação dos mesmos problemas dos polícias. A ministra da Justiça de então (a exuberante Celeste Cardona) é que parecia ter menos jeito para resolver os problemas dos seus polícias do que a actual... Era isso, ou então era o governo de Durão Barroso que era mais solidário na repartição da pobreza franciscana...
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16 fevereiro 2024
NORMALMENTE, O QUE É URGENTE NÃO É IMPORTANTE E O QUE É IMPORTANTE NÃO É URGENTE
Pode-se recuperar da edição do jornal Público de 16 de Fevereiro de 2004 o contraste entre dois temas constantes das páginas daquele jornal. Enquadrando o primeiro deles, Pedro Santana Lopes - sempre ele! - dera uma entrevista ao jornal Expresso anunciando que, se Cavaco Silva não se candidatasse à presidência da República - cujas eleições só teriam lugar dali por quase dois anos (Janeiro de 2006)! - ele avançaria como candidato da área da direita política! E o circo mediático tinha-se instalado com armas e bagagens prontos a comentar - com seriedade! - a aleivosia. No Público avançava-se com um editorial escrito por Eduardo Dâmaso, recuperavam-se citações de Vasco Pulido Valente no Diário de Notícias e de José Leite Pereira no Jornal de Notícias, para além da indispensável referência ao que dissera Marcelo Rebelo de Sousa no seu espaço de comentário dominical na TVI. Convido o leitor do blogue a clicar em cima da imagem para, a 20 anos de distância, ler o que aquelas figuras achavam da outra figura, e a importância que isso projectaria para o futuro. Em contraste, e enquadrando o segundo tema, dali por um mês iria haver eleições gerais em Espanha (14 de Março de 2014) e José Loureiro dos Santos elaborava uma análise de quais seriam as oportunidades e as ameaças da evolução das relações dos dois países ibéricos. Também aqui convido o leitor a clicar no artigo para avaliar a forma como ele envelheceu nestes 20 anos. Creio que do exercício comparativo das duas leituras se pode concluir que, normalmente, aquilo que é urgente quase nunca é importante e aquilo que é importante raramente é urgente. Para as primeiras é preciso frenesim, para as segundas é preciso inteligência.
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13 fevereiro 2024
AINDA SE RECORDAM QUANDO A MODA ERA "ENCHER A BOCA" COM A PALAVRA "MERCADOS"?
13 de Fevereiro de 2004. A edição do Público desse dia dedicava, como era costume, três páginas à Economia, mas era tudo... Mercados! Falava-se de bolsas. Falava-se de câmbios. Por causa dessa moda, a Economia de há vinte anos era de uma estreiteza confrangedora. Foi uma fase estúpida que entretanto lhes passou. Actualmente o mesmo jornal Público ainda dedica três páginas à Economia (abaixo, trata-se da edição de 1 de Fevereiro deste ano), mas felizmente deixou-se de dar cotações e câmbios e produzir textos repetitivos, imbecis e inúteis sobre o que acontecera na última sessão de Bolsa, que só nos detalhes se distinguira das anteriores.
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14 janeiro 2024
«GRANDES» DISCURSOS PRESIDENCIAIS
14 de Janeiro de 2004. Numa visita à NASA o presidente George W. Bush faz um discurso de antevisão de como evoluiria o programa espacial norte-americano na próxima década, que culminaria com o regresso dos voos tripulados à Lua até 2015. Inspirado descaradamente, na forma e nos propósitos, no discurso que havia sido proferido em 25 de Maio de 1961 por John F. Kennedy, este outro discurso foi descartado para o caixote do lixo da História, pelos motivos que essa própria História torna evidentes: praticamente nada do que ali se prometeu se veio a concretizar. E contudo, do ponto de vista jornalístico, a pomposa patranha mereceu o destaque de capa e uma página inteira da edição do dia seguinte. Os jornalistas não adivinham o futuro mas deviam ter por missão denunciar promessas não cumpridas como é este o caso (flagrante).
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13 dezembro 2023
EVOCAÇÃO DOS TEMPOS EM QUE O EGO DE MIGUEL SOUSA TAVARES AINDA TINHA EXPLICAÇÃO
A edição de 13 de Dezembro de 2003 do jornal Público dava o destaque as fotografias acima documentam a uma entrevista a Miguel Sousa Tavares. O ângulo que fora escolhido para o fotografar era uma síntese do conteúdo da entrevista. A razão para tanta imodéstia era o indiscutível sucesso social e editorial do seu romance Equador, que fora publicado naquele ano. Na verdade, se bem me recordo, tanto se nos afigurava caricata esta exuberância de Miguel Sousa Tavares, como o folhetim era alimentado pelo outro lado através das reacções despeitadas de Vasco Pulido Valente. A animosidade entre ambos era um enredo divertido. Os vinte anos entretanto decorridos, os livros que publicou depois, vieram comprovar para além de qualquer dúvida que afinal Miguel Sousa Tavares não sabe escrever, ou antes, não sabe escrever bestsellers, como ele se arrogava tão convencidamente naquela entrevista. Descontando o escritor, restou ainda o jornalista e o seu estilo contundente, que perdurou até aos novos entrevistados - como André Ventura ou Pedro Nuno Santos - lhe responderem agressivamente no estilo do próprio Sousa Tavares, menorizando-o e ridicularizando-o. Resta-lhe a atitude e o ego que, se naquela época até fazia sentido, hoje é anacrónico e ridículo.
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28 setembro 2023
MARQUES MENDES: VINTE ANOS A FINGIR QUE PAIRA POR CIMA DA POLÍTICA ORDINÁRIA
28 de Setembro de 2003. À época, Luís Marques Mendes ocupava a pasta dos Assuntos Parlamentares no governo de Durão Barroso e, mesmo assim, apanhamo-lo neste exercício abaixo de se demarcar dos deputados do seu próprio grupo parlamentar, num estilo de quem está na política, mas que comenta distanciadamente aquilo que de mau lá se passa, como se ele próprio lá não estivesse no meio da acção. É ainda o seu estilo de agora, foi o que usou no fim de semana passado na SIC e será o do próximo fim de semana, é um estilo que ele mantém há pelo menos vinte anos - haja quem lhe forneça o palco (a SIC) para exibir tal estilo com regularidade. Os vinte anos decorridos deram oportunidade a episódios demonstrativos de como aquele estilo é completamente falso, como todos percebemos claramente, e só para dar um exemplo, quando Marques Mendes foi apanhado/escutado a meter cunhas em prol de terceiros quando eclodiu o escândalo dos vistos gold (2014). Ele não paira por cima da política ordinária, no episódio dos vistos gold ouvimo-lo a traficar influências e suja-se porventura mais do que muitos daqueles que critica sobranceiramente. Quem quiser ver o que é a "degradação da imagem" de um agente político com assento permanente num canal de televisão, é ler os dois parágrafos depois da notícia de há 20 anos. São transcrições do jornal Público de 22 de Janeiro de 2016.
«A 26 de Agosto de 2014, Marques Mendes diz ao presidente do IRN que gostava de lhe enviar um “emailzinho” sobre um casal que conheceu em Moçambique, para ele “conseguir ver como é que se podia” resolver o problema. Salimo Abdula é “um tipo de grande prestígio, talvez o maior empresário de Moçambique”, e ainda por cima presidente da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que tem sede em Lisboa. Mas nem estas qualidades todas, nem a sua “fortíssima ligação a Portugal”, país em que o filho “está a estudar” e onde possui “negócios, casa e contas bancárias”, granjearam, até àquele momento, à mulher, que tem “descendência de portugueses”, a almejada nacionalidade. O comentador televisivo explica como Assunção Abdula juntou ao processo declarações de Américo Amorim e do grupo Visabeira, com quem o casal tem negócios em Moçambique. Mas nem assim. “Podemos eventualmente ir pela via da discricionariedade”, equaciona António Figueiredo. “Pois. Claro, claro”, responde-lhe Marques Mendes, recordando-se de que o IRN pediu à requerente uma declaração do Ministério da Economia. “Se for preciso eu falo com o António Pires de Lima”, disponibiliza-se o antigo líder do PSD.»
«A 17 de Outubro de 2014, Marques Mendes pergunta ao presidente do IRN se lhe pode levar uma senhora por quem também tinha intercedido. Desta vez os seus esforços não foram em vão: presença habitual nas colunas sociais da imprensa brasileira, a nora do fundador do grupo Pão de Açúcar, Geyze Marchesi Diniz, conseguiu mesmo a dupla nacionalidade. “É muito importante, porque eles vão investir muito dinheiro em Portugal”, advogara Marques Mendes quando telefonara ao presidente do IRN para saber do andamento do processo. Segundo o comentador televisivo, a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, tinha sido alertada para a questão e também era da mesma opinião. Marques Mendes aproveitou a ocasião para pedir ajuda para a sua filha, que estava com problemas relacionados com o cartão do cidadão. António Figueiredo pede-lhe para ela ir ter com ele aos serviços. “Era uma situação de emergência”, alega hoje Marques Mendes: a rapariga ia casar e não conseguia fazer a escritura da casa sem resolver o assunto.»
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27 agosto 2023
AS CONVERSAÇÕES DAS SEIS PARTES
(Republicação)
27 de Agosto de 2003. Tinha lugar a primeira ronda das Conversações das Seis Partes (Six-party talks). As seis partes eram (por ordem alfabética): China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia. E o tópico era o programa nuclear norte-coreano. Dois dias depois as conversações eram suspensas e agendada nova ronda para daí a seis meses. Segundo os diplomatas experimentados em conversações com coreanos, a primeira ronda correra excepcionalmente bem. O armistício de Panmunjon de 1953 demorara mais de dois anos a ser negociado, todos os pormenores eram objecto da mais minuciosa negociação. Mas aqui conseguira-se fixar rapidamente um formato (hexagonal) e uma disposição para a mesa de negociações! No canto superior, realce-se o pormenor - sinal de importância - de que é o representante chinês o que fica mais próximo da porta. Na fotografia acima, e embora os negociadores norte-americanos sejam dos que mais gostam de se destacar nas fotografias, os dois representantes mais fotogénicos e bem dispostos ao centro são os da Rússia e da China. Foi há quinze anos. Seguiram-se outras cinco rondas. Donald Trump ter tido a pretensão de que se resolvia tudo isto com uma cimeira foi uma estupidez, uma arrogância, uma ignorância, uma presunção, uma mediocridade.
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15 agosto 2023
A LÍBIA ACEITA INDEMNIZAR AS VÍTIMAS DO ATENTADO DE LOCKERBIE
15 de Agosto de 2003. Numa carta endereçada ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, a Líbia dispõe-se a aceitar «a responsabilidade pelas acções de seus funcionários» na colocação de uma bomba que destruiu em pleno voo o Boeing 747 da Pan Am que, em 21 de Dezembro de 1988, se despenhou sobre a localidade de Lockerbie, na Escócia, matando as 259 pessoas que seguiam a bordo e ainda outras 11 no solo.
Nessa carta, a Líbia anuncia renunciar ao “terrorismo”, prometeu cooperar nas investigações criminais associadas e disse estar disposta a pagaria um total de indemnizações estimado em US$ 2700 milhões a distribuir entre os familiares das 270 vítimas. Em resposta, os Estados Unidos (proprietário do avião) e o Reino Unido (o local onde o atentado teve lugar) deixaram claro que estariam dispostos a permitir o levantamento das sanções das Nações Unidas que haviam sido impostas à Líbia desde 1992, mas apenas depois das indemnizações terem sido pagas. Este episódio, que acaba por ser uma "rendição", ocorreu quase 15 anos depois do atentado de Lockerbie e mais de 10 anos depois da imposição das sanções contra a Líbia. Como se vê por este caso, a imposição de sanções até pode ter consequências, a questão é que essas consequências podem não produzir resultados quando é mais conveniente para o calendário político de quem as impõe. É o caso do que está a acontecer com a Rússia.
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21 maio 2023
O CASO PAULO PEDROSO - DE ONDE OS MAGISTRADOS E OS POLÍTICOS SAEM TODOS MUITO MAL NA FOTOGRAFIA
21 de Maio de 2003. O juiz Rui Teixeira apresenta-se na Assembleia da República para proceder à detenção do deputado socialista Paulo Pedroso. A iniciativa é ousada - uma confrontação directa entre poder judicial e poder legislativo - mas é sobretudo mediatizada porque, como se vê acima, a acção do juiz, supostamente discreta, foi conhecida em antecipação pela SIC. O episódio vai tornar-se literal e metaforicamente num filme. Um triste filme. Onde, à força de se agredirem reciprocamente através de notícias plantadas na comunicação social, as duas classes vão-se expor ao ridículo. Cortesia dos juízes, ficámos a saber pelas escutas disponibilizadas para a comunicação social todas as manobras que os amigos políticos de Paulo Pedroso desenvolveram para evitar o desfecho (abaixo), nomeadamente o famoso desabafo - ao telemóvel - de Eduardo Ferro Rodrigues de que «se estava a cagar para o segredo de justiça!...»
Num registo ainda de expletivos (agora meu) e como retaliação, por cortesia dos políticos (do PS), estes últimos foderam como puderam a carreira de Rui Teixeira (abaixo).
Quinze anos depois, tudo terá acabado de uma forma satisfatória para os dois lados: Paulo Pedroso lá recebeu uma indemnização; Rui Teixeira lá foi promovido. Mas o assunto conferiu muito má reputação a qualquer dos intervenientes.
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16 maio 2023
(A COR DAS CUECAS DE) FRANCISCO ASSIS EM FELGUEIRAS
16 de Maio de 2003. Nem mesmo a presença das câmaras de televisão conseguiu dissuadir os agressores de Francisco Assis, quando ele tentava participar numa reunião concelhia do PS em Felgueiras. Fazia-o como dirigente distrital (do Porto) do partido, mas nem mesmo esse elevado estatuto foi suficiente para dissuadir alguns militantes locais do PS que se comportassem da forma vergonhosa que as imagens mostram. Este é um dos momentos que mais facilmente recordamos quando se fala da história do PS e é uma pena que a ocasião não tenha sido evocada, entre outras efemérides, quando dos prolongados discursos do mês passado por ocasião do grande jantar que assinalou o 50º aniversário do partido. Das dezenas de intervenientes que se vêem a ameaçar e a agredir Assis, só quatro compareceram em tribunal, julgados por agressão agravada. Um foi absolvido e os outros três condenados a multas. Mas o que de melhor se retira de todo este episódio de que hoje se celebra o 20º aniversário (este suponho que não irá ser comemorado, nem em Felgueiras...), foram os comentários trocados por quem assistia em directo, via televisão, à cena. Havia quem comentava elogiosamente o aparente sangue frio de Francisco Assis, mesmo já tendo perdido os óculos quando apanhou com um caixote do lixo na cabeça; a esses elogios havia quem respondia com um trejeito desdenhoso e o comentário: «Ah, eu queria ver era de que cor é que estão as cuecas dele...» A expressão e o cepticismo tiveram sucesso! De há vinte anos para cá, a expressão «a cor das cuecas de Francisco Assis» tornou-se sinónimo da veracidade íntima de uma atitude política. (Política pronunciada com um P acentuado, como Francisco Assis o costuma dizer - mas essa uma outra história de uma outra expressão associada a Francisco Assis...)
01 maio 2023
«MISSION ACCOMPLISHED»
1 de Maio de 2003. Há vinte anos, George W. Bush foi ao porta-aviões USS Abraham Lincoln pronunciar um discurso que foi televisionado para todo um país (a gozar o feriado do dia do trabalhador) onde ele não proferiu a hoje famosa expressão «Mission Accomplished» - na verdade, deixou que a enorme faixa atrás de si, devidamente enquadrada pelas câmaras de televisão, transmitisse essa ideia por si. A Guerra do Iraque tinha acabado... mas não tinha bem acabado. Ou não tinha acabado... mas tinha acabado. Uma delas. Mas o que mais impressionou em todo o episódio não foi o erro de comunicação cometido pela equipa da Casa Branca - tantos erros do mesmo género houve anteriormente e tantos mais haverá. Impressionante foi a, inédita até aí, resistência manifestada pela equipa de assessores de W. Bush em assumir as suas responsabilidades: segundo eles, Bush não dissera aquilo (argumento numa primeira fase), um argumento rapidamente rebatido pela pergunta «o que é que estava então a fazer a expressão em cima da cabeça dele durante o discurso?»; depois, numa fase posterior, as culpas foram transferidas para a Marinha, já que, nessa segunda versão, fora a tripulação do Abraham Lincoln que promovera a afixação da famigerada faixa, pretendo assim fazer-nos crer que os detalhes da produção e supervisão de todo o espectáculo (o presidente aterrara num avião S-3, vestido de piloto e tudo, distribuíra autógrafos à tripulação), alguma vez tivessem escapado à Casa Branca. A exibição da faixa foi explorada pelos adversários políticos de Bush como mais uma demonstração do irrealismo de como as operações militares no estrangeiro foram montadas pela sua administração: a verdade é que o número de baixas americanas no Iraque foi muito superior após o discurso do que o fora até então... Mas o interessante do incidente tem a ver com um marco que foi franqueado no que concerne à comunicação política. Até aí existira uma regra não escrita que, nas Democracias, quando as justificações falhavam e não pegavam na opinião pública, eram deixadas cair. Só as ditaduras é que continuavam a insistir nas versões oficiais, mesmo que os factos entretanto conhecidos as tornassem desesperadamente inverosímeis - acontecia com a propaganda nazi ou com os comunicados soviéticos da TASS. Por aqui se descobriu que, sob a administração Bush, a mentira em defesa de uma causa ganhou uma nova latitude. Resta dizer que, depois de anos de um corrupio de acusações e de desculpas, ao terminar os seus mandatos em 2008, George W. Bush fez o óbvio, lamentando a presença da faixa.
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14 abril 2023
O ANÚNCIO DA SEQUENCIAÇÃO DO GENOMA HUMANO
(Republicação)
14 de Abril de 2003. Através de um comunicado conjunto de todas as entidades envolvidas no projecto, (projecto esse que havia demorado 13 anos e custado cerca de 3.000 milhões de dólares), é anunciada a conclusão - a 99% - do processo de sequenciação do genoma humano. É aquele género de notícia em que haverá uma percentagem semelhante de leitores - uns 99% - que se apercebe que ela deve ser importante mas, se não lhe explicarem na hora e mesmo com os novos meios de aprendizagem à sua disposição, também não vai ao Google pesquisar porquê...
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03 abril 2023
RELEMBRANDO «BAGDAD BOB»
3 de Abril de 2003. Está-se em plena invasão do Iraque pelos Estados Unidos, e o ministro da informação iraquiano chama-se, na verdade, Mohammed Saeed al-Sahhaf. As suas intervenções mediáticas são de tal modo ridículas e desastrosas que os norte-americanos fazem-lhe a cortesia de ampliar ainda mais a sua divulgação mundial, atribuindo-lhe ao mesmo tempo uma alcunha apalhaçada: «Bagdad Bob». Quase tudo ali é caricato. O ministro aparece fardado quando nunca foi militar. Existe aquela montagem de microfones por detrás da qual ele aparece para falar, mas que se percebe ser forjada: é que no amontoado de logotipos não aparece nenhum reconhecível. E ainda não chegámos à intervenção propriamente dita de Bagdad Bob, onde ele mostra uma impressionante falta de ritmo (percebe-se que ele tem até dificuldade em ler com fluidez o texto que lhe fora preparado de antemão). É tudo tão mau que deixa as audiências boquiabertas. Mas será o despropósito daquilo que ele diz que o popularizará e virá a constituir mesmo um estilo: desde as asserções que "os soldados americanos se estavam a suicidar às centenas" até à negação enfática que os blindados americanos tivessem entrado em Bagdad quando os jornalistas os haviam visto a algumas centenas de metros do local onde decorria a própria conferência de imprensa. O estilo Bagdad Bob consistia em mentir descaradamente e negar o que era óbvio. Há 20 anos tal estilo conseguia surpreender e mesmo divertir os invasores norte-americanos que o distribuíam ao resto do Mundo. Nos dias que correm, os mesmos norte-americanos já se podem orgulhar de ter elegido um presidente que usa precisamente o mesmo estilo de mentir descaradamente e de negar o óbvio: Donald Trump. Terá sido uma vingança (por infecção?) tardia de Saddam Hussein?
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17 março 2023
O 20º ANIVERSÁRIO DA CIMEIRA DAS LAJES
17 de Março de 2003. Visto a esta distância de 20 anos, parece assentar a conclusão que a Cimeira das Lajes terá sido uma mera operação de relações públicas, em que a administração republicana de George W. Bush quis mostrar à opinião pública americana que não estava isolada internacionalmente, quando anunciava a sua intenção de invadir o Iraque. Para a ocasião, houve certas figuras da política europeia que se prestaram a fazer de figurantes nessa operação de relações públicas. Qualquer dos três figurantes europeus aparecia ali por razões muito próprias e confrontando-se com resistências severas nos seus próprios países. Por exemplo, Robin Cook, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico demitia-se naquele mesmo dia por causa do alinhamento com os Estados Unidos. E a solidariedade recíproca também não imperava: num gesto de humilhação pública para com Durão Barroso a imprensa espanhola referia-se ao encontro como Trío de las Azores, pondo de parte, insultuosamente, o anfitrião português. Passados 20 anos, se, do outro lado do Atlântico, sempre se notou uma certa indulgência para com a conduta de Bush, deste lado nunca se terá perdoado a qualquer dos figurantes: Aznar, Barroso e Blair.
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15 março 2023
ANTES DE OS CARGOS SE TORNAREM VITALÍCIOS, PREÂMBULO PARA SE TORNAREM HEREDITÁRIOS...
(Republicação)
15 de Março de 2003. Há precisamente vinte anos Hu Jintao (n. 1942, acima, à esquerda) sucedia a Jiang Zemin (n. 1926, ao centro) no cargo de Presidente da República Popular da China. Dali por dez anos (14 de Março de 2013), e cumprindo o preceito constitucional que proíbe que aquele cargo seja ocupado por mais do que dois mandatos consecutivos (de cinco anos), a presidência veio a ser por sua vez ocupada por Xi Jinping (n. 1953, à direita), que é o presente titular do cargo. Na China, esse cargo é essencialmente simbólico, aquele que detém o poder real é o de secretário-geral do Partido Comunista Chinês, que qualquer destes homens começou por ocupar antes de se tornar presidente: Jiang foi-o entre 1989 e 2002, Hu de 2002 a 2012 e agora é Xi que acumula os dois cargos. Porém, o preceito constitucional do limite de mandatos presidenciais foi empregue nestes últimos vinte anos que se seguiram à morte de Deng Xiaoping (1904-1997), como um freio à tendência cientificamente comprovada entre os partidos comunistas, para que se perpetue a pessoa do secretário-geral e o poder se concentre vitaliciamente numa só pessoa. Anómala em regimes de partidos monolíticos, a História recente da China mostrou também uma saudável renovação dos protagonistas das sua classe dirigente em cada decénio, aproximando-se dos ciclos que acontecem naturalmente nas Democracias. Ora essa imposição para o refrescamento regular das elites políticas chinesas parece ter agora sido posto em causa com a remoção da cláusula constitucional do limite de mandatos presidenciais. Xi Jinping dispõe agora de uma base jurídica para se perpetuar vitaliciamente no poder, à semelhança de outros ditadores, também herdeiros do socialismo científico, como são os casos de Vladimir Putin na Rússia ou de Aleksandr Lukashenko na Bielo-Rússia, e mesmo, num país cuja História riquíssima até está repleta delas, Xi poderá ser o fundador de uma dinastia como as dos Kim na Coreia do Norte ou a dos Aliyev no Azerbeijão.
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12 março 2023
O ASSASSINATO DO PRIMEIRO MINISTRO SÉRVIO
12 de Março de 2003. O primeiro-ministro da Sérvia, Zoran Đinđić é assassinato a tiro por um atirador emboscado que aguardava a sua chegada à sede do governo em Belgrado. Apesar da sua entrada por uma porta discreta (veja-se o desenho abaixo), um único tiro de precisão de uma G-3 a 180 metros acertou-lhe no coração e causou-lhe morte imediata. À frente do governo sérvio desde há dois anos, Zoran Đinđić havia criado imensos inimigos domésticos devido às suas iniciativas para desmontar o aparelho que se formara naquele país durante o extenso período de governo (1991-2000) do seu antecessor, Slobodan Milošević, que ele entretanto prendera e extraditara para ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional de Haia. Uma parte desse aparelho tornara-se entretanto clandestino e já por outras vezes, Đinđić fora alvo de atentados contra a sua vida. Uma das ironias finais deste episódio é que Đinđić tinha uma reunião marcada com Anna Lindh, a ministra sueca dos Negócios Estrangeiros, que virá a ser assassinada - e por um sueco de ascendência sérvia! - dali por seis meses.
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08 março 2023
O REFERENDO MALTÊS SOBRE A ADESÃO À UNIÃO EUROPEIA ATÉ FOI A SÉRIO
Republicação de 2018
Já não é a primeira vez em que, mais recentemente, tenho evocado aqui referendos realizados em Malta*. O da evocação de hoje teve lugar há precisamente 20 anos, a 8 de Março de 2003, e nele se decidia a vontade dos malteses em aderir ou não à União Europeia. Como se pode ler no mapa acima, a participação dos malteses foi elevada (91%) e a conclusão foi disputada, embora clara (53,6% a favor da adesão). Eu bem sei que Malta é um país pequeno das franjas da Europa a que não se presta grande atenção, mas, se evoco o referendo maltês, é para destacar como ele contrastou com os realizados naquele mesmo ano nos outros países que vieram a ser admitidos na União Europeia em 2004, onde se registaram grandes unanimidades, mas baixas participações, como se, nesses países, a adesão fosse apenas o fado que fora traçado pelas elites nacionais. Eram tempos diferentes, em que as opções pareciam poder ser apresentadas aos respectivos eleitorados como se de uma coreografia se tratasse e os desfechos estivessem garantidos de antemão. Tanto assim que, quase precisamente dois anos depois do referendo maltês, a 12 de Março de 2005, o primeiro-ministro português José Sócrates anunciava na sua tomada de posse, a realização do seu referendo para seguir a moda (abaixo). Azar o de Sócrates que, quando quis seguir a moda, a moda já estava a sair de moda...
* Espero que no caso maltês se continue a empregar o género neutro (em Malta) e, a bem de evitar a cacofonia, não se proceda a uma migração súbita para o género feminino (na Malta) como aconteceu recente e extemporaneamente com Chipre, nesse caso do neutro (em Chipre) para o género masculino (no Chipre).
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