28 setembro 2023

MARQUES MENDES: VINTE ANOS A FINGIR QUE PAIRA POR CIMA DA POLÍTICA ORDINÁRIA

28 de Setembro de 2003. À época, Luís Marques Mendes ocupava a pasta dos Assuntos Parlamentares no governo de Durão Barroso e, mesmo assim, apanhamo-lo neste exercício abaixo de se demarcar dos deputados do seu próprio grupo parlamentar, num estilo de quem está na política, mas que comenta distanciadamente aquilo que de mau lá se passa, como se ele próprio lá não estivesse no meio da acção. É ainda o seu estilo de agora, foi o que usou no fim de semana passado na SIC e será o do próximo fim de semana, é um estilo que ele mantém há pelo menos vinte anos - haja quem lhe forneça o palco (a SIC) para exibir tal estilo com regularidade. Os vinte anos decorridos deram oportunidade a episódios demonstrativos de como aquele estilo é completamente falso, como todos percebemos claramente, e só para dar um exemplo, quando Marques Mendes foi apanhado/escutado a meter cunhas em prol de terceiros quando eclodiu o escândalo dos vistos gold (2014). Ele não paira por cima da política ordinária, no episódio dos vistos gold ouvimo-lo a traficar influências e suja-se porventura mais do que muitos daqueles que critica sobranceiramente. Quem quiser ver o que é a "degradação da imagem" de um agente político com assento permanente num canal de televisão, é ler os dois parágrafos depois da notícia de há 20 anos. São transcrições do jornal Público de 22 de Janeiro de 2016.
«A 26 de Agosto de 2014, Marques Mendes diz ao presidente do IRN que gostava de lhe enviar um “emailzinho” sobre um casal que conheceu em Moçambique, para ele “conseguir ver como é que se podia” resolver o problema. Salimo Abdula é “um tipo de grande prestígio, talvez o maior empresário de Moçambique”, e ainda por cima presidente da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que tem sede em Lisboa. Mas nem estas qualidades todas, nem a sua “fortíssima ligação a Portugal”, país em que o filho “está a estudar” e onde possui “negócios, casa e contas bancárias”, granjearam, até àquele momento, à mulher, que tem “descendência de portugueses”, a almejada nacionalidade. O comentador televisivo explica como Assunção Abdula juntou ao processo declarações de Américo Amorim e do grupo Visabeira, com quem o casal tem negócios em Moçambique. Mas nem assim. “Podemos eventualmente ir pela via da discricionariedade”, equaciona António Figueiredo. “Pois. Claro, claro”, responde-lhe Marques Mendes, recordando-se de que o IRN pediu à requerente uma declaração do Ministério da Economia. “Se for preciso eu falo com o António Pires de Lima”, disponibiliza-se o antigo líder do PSD.»

«A 17 de Outubro de 2014, Marques Mendes pergunta ao presidente do IRN se lhe pode levar uma senhora por quem também tinha intercedido. Desta vez os seus esforços não foram em vão: presença habitual nas colunas sociais da imprensa brasileira, a nora do fundador do grupo Pão de Açúcar, Geyze Marchesi Diniz, conseguiu mesmo a dupla nacionalidade. “É muito importante, porque eles vão investir muito dinheiro em Portugal”, advogara Marques Mendes quando telefonara ao presidente do IRN para saber do andamento do processo. Segundo o comentador televisivo, a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, tinha sido alertada para a questão e também era da mesma opinião. Marques Mendes aproveitou a ocasião para pedir ajuda para a sua filha, que estava com problemas relacionados com o cartão do cidadão. António Figueiredo pede-lhe para ela ir ter com ele aos serviços. “Era uma situação de emergência”, alega hoje Marques Mendes: a rapariga ia casar e não conseguia fazer a escritura da casa sem resolver o assunto

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