06 fevereiro 2010

CONVERSA ENTRE GEORGES SIMENON E IAN FLEMING (1963)

Recentemente, e por duas coisas, tive ocasião de me referir a aventuras de James Bond, 007. Valerá o pretexto para invocar o seu criador, Ian Fleming, e uma interessante conversa que ele manteve há mais de 45 anos na única vez em que ele se encontrou com outro grande autor de literatura policial, o belga Georges Simenon, criador do Comissário Maigret. As intervenções de Fleming (à direita na fotografia abaixo) estão assinaladas a azul, as de Simenon (à esquerda) a vermelho e as notas a preto e em itálico.
Estou decepcionado. Pensava, até agora, que era o maior e, pela primeira vez, fui derrotado. Por um americano. (Fleming está a referir-se a Edward S. Aarons, um autor de ficção de espionagem norte-americano que, com o seu herói Sam Durell, o desalojara e a James Bond – pontualmente – do primeiro lugar entre as preferências naquele mercado)
Joguei uma partida de golfe esta manhã mas, sempre que jogo, penso à noite: Por que errei aquele lance? E procuro descobrir o erro, que me leva quase uma hora de sono. No dia seguinte repito o lance mas sai ainda pior…
Creio que nos tornámos demasiado conscientes. É pena. É preciso ser autómato, adquirir o senso da repetição. Considero o golfe um excelente meio de relaxamento.
É o único desporto possível depois dos sessenta anos e como já os tenho…
Pois eu tenho cinquenta e cinco.
O senhor é um rapaz. (Fleming viria a morrer um ano depois…)
Li os seus primeiros livros em 1939, numa viagem que fiz a Moscovo. Tinha parado em Amesterdão ou Haia. Na banca da estação havia uma verdadeira colecção daquelas belas capas que o senhor tinha então… capas fotográficas. Levei três ou quatro para Moscovo e adorei os seus romances. Portanto creio que, se não fossem as capas, não os teria comprado senão alguns anos depois. A capa, na minha opinião, é muito importante. Os editores sabem isso.
Oh se sabem!... Preocupam-se enormemente com isso, sobretudo nos Estados Unidos. Estudam as capas, às vezes durante semanas e experimentam cinco, seis ou sete diferentes.
Eles não lhe dão a oportunidade de as discutir?
Sim, mas não me importo com isso. Na verdade, não me preocupo com o livro depois de terminado.
É verdade? Não se preocupa com a apresentação nem com a impressão?
Absolutamente.
Pois eu dou muita importância a isso.
O livro sai da minha vida quando deixo a minha casa em Épalinges. (este diálogo teve aí lugar, na enorme casa que Simenon mandara construir perto de Lausanne na Suíça, onde se costumava refugiar para escrever as suas obras)
E as correcções? Quem faz as correcções dos seus livros? É o seu editor ou envia-as para sugestões?
Não.
Ninguém as faz?
Não.
Cometo por vezes erros estúpidos. Corrigem-nos por mim.
O meu editor não tem autorização para mudar uma vírgula, nem mesmo de sugerir modificações.
Para mim é indispensável, pois muitas vezes adquiro vícios: uma palavra, por exemplo, que uso em demasia. Neste momento atravesso uma fase má, pois emprego constantemente a palavra justamente. Estava justamente a cinco milhas…. Estava justamente a entrar para o carro. Não paro de usar a palavra.
Tenho exactamente o mesmo vício, mas a palavra muda com o romance. Num livro emprego demais a palavra mas e, em outro, talvez. E gasto três dias a cortar todos os talvez
Tudo isso faço eu também constantemente. E faz-me descobrir certas coisas… Tenho no meu editor, William Flomer, um óptimo leitor. É um grande poeta e um homem extremamente gentil. Disse-me, há pouco tempo, que nunca uso o ponto de exclamação. No meu último livro, polvilhei-o de pontos de exclamação. E anteontem dedicaram-me um tópico no New York Times. Fleming é não só um escritor medíocre, disseram, mas tem ainda a mania pueril de empregar pontos de exclamação por toda a parte. Creio que um mínimo de assistência da parte de um bom leitor pode servir de auxílio. Quantas pessoas lêem os seus manuscritos antes de irem para a impressão?
A minha mulher lê o que escrevo em cada dia mas não faz qualquer correcção. Nem comenta.
A minha mulher também lê os meus livros e da mesma maneira também não me diz nada e isso atormenta-me.
Não me separo dos meus manuscritos. Quando estão corrigidos, em vez de dactilografá-los, são fotocopiados, e são as fotocópias que vão para o editor. Assim o manuscrito não me sai de casa. Prefiro pequenos erros a uma correcção impessoal.
Mas o senhor tem um francês maravilhoso. Leio os seus livros em francês sempre que posso. O senhor tem um dos mais belos estilos que conheço na Língua francesa.
Alguns críticos franceses acham que não tenho estilo nenhum! E têm razão, pois durante quarenta anos procurei evitar tudo o que cheire a literatura. Tento ser simples.
O senhor sempre foi simples. Tenho a impressão de que, digamos em cem anos, será um dos grandes autores clássicos franceses. Sempre sustentei isso. O senhor será o Balzac de…
Para mim será o mesmo, porque já não estarei vivo…
O senhor escreveu romances de verdade. Todos os seus livros são romances de suspence, enquanto eu escrevo coisa diferente, acção sem psicologia – salvo o bandido, que às vezes exige psicologia para explicar porque é mau. Mas não procuro marcar os meus personagens em profundidade, como o senhor. Não li toda a sua obra, apenas cerca de cinquenta livros.
Sei aquilo que o senhor escreve mas, para ser sincero, nunca li coisa alguma, por uma boa razão: aos vinte e cinco anos decidi não ler mais romances. Não li mais nenhum desde 1928. Nenhum. Tenho, no entanto, muitos amigos que são escritores. Mandam-me livros com dedicatórias. Mas conheço os seus livros pelas críticas, e por isso conheço-os bem.
Já escreveu alguma coisa sobre a Suíça?
Não. Raramente escrevo sobre a região em que vivo. Preciso esperar o momento de fazê-lo. Foi necessário deixar passar quase seis ou sete anos, por exemplo, para escrever sobre os Estados Unidos. O senhor está em Traflagar Square ou nos Campos Elíseos. Procure descrevê-los, por exemplo, em cem palavras. Impossível. Encontrará detalhes demais. Escreverá três páginas em vez de cem palavras. Mas se está no Tanganica a sonhar com um copo de cerveja em Traflagar Square ou nos Campos Elíseos, dirá o essencial em duas frases. E é por isso que prefiro conservar-me distante do campo de acção.
Muito justo. Escrevo todos os meus livros na Jamaica. Não consigo praticamente escrever noutro lugar – porque há um vazio e eu só posso escrever nesse vazio. Não posso fazê-lo em Inglaterra – a vida que levo ali simplesmente não me permite. Os meus amigos não se interessam pelo que escrevo. Pensam que posso fabricar livros em cinco minutos e que, de qualquer modo, não é literatura. E isso não merece nenhuma simpatia.
Aqui, corto todo o contacto com o exterior quando trabalho num romance. Ninguém vem, nem mesmo parentes, e eu não vou à cidade nem à aldeia. Passeio pelo jardim, conto os passos e sei quantos quilómetros ando por dia para tomar ar.
Quanto dura isso?
Depende do tamanho do romance. Mas não é só isso. Depende também se escrevo um livro à razão de um capítulo por dia ou se, como fiz no último, escrevo num dia o capítulo à mão e passo-o a limpo, no dia seguinte, à máquina. Para alguns livros, escrevo um capítulo à mão na parte da tarde e passo-o à máquina, às seis horas da manhã seguinte. Chamo a isso escrever um livro em duas sessões, por dia. Mas, alguns romances, escrevo-os à mão de manhã e de tarde – à razão de um só capítulo – e bato-os à máquina no dia seguinte, o que me toma o dobro do tempo. Um romance a duas sessões toma-me entre oito e onze dias, e um romance numa sessão, cerca de vinte e dois a vinte e quatro dias. A revisão requer de três dias a uma semana. Detesto a revisão.
Esse trabalho não me aborrece muito. Sei que o livro está terminado, a obra pronta, e então posso ter prazer em reler.
Acho lamentável ter de ler os meus livros. Tenho a impressão de que não têm qualquer interesse e que ninguém os vai ler. É tudo tão aborrecido, tão confuso, tão pouco concludente! Detesto ter de fazer a revisão.
Pois eu chego directamente à máquina e não olho para trás antes de chegar ao fim da página. De contrário, ficaria tão horrorizado enquanto escrevia, acharia tudo aquilo um palavreado tão pavoroso, que seria incapaz de continuar. Perderia logo a cadência se fosse corrigir o que tivesse escrito na véspera.
Compreendo. Deixo isso sempre para mais tarde. Trabalho até o livro estar acabado. Por isso, gosto da máquina de escrever: não se volta atrás e conserva o ritmo. O senhor falava de estilo ainda há pouco. Acho que o ritmo é a definição do estilo. O estilo vem do ritmo, como na música ou na pintura. É uma questão de ritmo, de cor. Se escrevemos e voltamos atrás, perde-se o ritmo.
E perdemos a cadência. Acho a cadência muito importante. Creio que nos livros que encerram algum mistério os leitores querem ir sempre para diante. Não querem parar de repente para perguntar o que faz o herói ou por que o faz.
Sim, é ainda mais importante no género de livros que o senhor escreve do que nos meus.
Quantos anos tem Maigret?
Não tem idade. Nos meus romances continua com os seus cinquenta e três anos. Quando comecei, há trinta anos, tinha cinquenta e cinco. Gostaria de envelhecer aos poucos também. Seria maravilhoso. Quando comecei, eu tinha vinte e cinco e ele está sempre com cinquenta e três.
Bond tem cerca de trinta e cinco anos. Infelizmente, tive de noticiar a sua morte para o meu próximo livro. (You Only Live Twice) Oh! Era apenas uma morte prematura, mas fui obrigado a revelar alguns factos que o situam entre os trinta e oito ou tinta e nove anos de idade. Tive essa dificuldade para lhe dar uma idade precisa. O senhor pensa em continuar Maigret?
Muito raramente. Como o senhor sabe, escrevi dezoito livros sobre Maigret, um após outro, só para aprender como se escreve um romance. Um dia parei e disse: acabou-se. E então escrevi romances de verdade. Mas, sete anos mais tarde, recebi tantas cartas que resolvi retomá-lo, para me divertir. E como o senhor sabe, há muito tempo inútil entre dois romances. Resolvi então escrever mais ou menos um Maigret por ano. Questão de sentimentalismo. De exercício também.
A sua ambição é escrever um grande romance?
Não um grande romance literário. Um grande romance, simplesmente.
Não quer escrever qualquer coisa como Guerra e Paz?
Não. E o senhor?
- Eu não tenho a menor ambição de fazer um grande romance. Quando esgotar James Bond, creio que paro de escrever. Estou quase no fim da carreira.
Para mim seria muito divertido viver sem escrever.
Na realidade, para mim também seria.
Quando passo dois meses sem escrever quase fico doente. Perco a confiança em mim mesmo. Sinto-me sem raízes, completamente perdido.
O senhor tem a impressão de estar a progredir à medida que escreve?
Não sou muito ambicioso mas, em cada romance, sinto que aprendi alguma coisa. Ou me aproximo de uma meta colocada um pouco mais além do que a que existia quando escrevia o romance anterior. O meu problema é encontrar uma história cada vez menos artificial, menos cheia de aventuras e de ideias convencionais, para penetrar mais profundamente na carne do homem. Tal o meu objectivo mas, em certo sentido, ele é inacessível. Não sou Deus e portanto…
Acha necessário encontrar muitas pessoas, tem necessidade de procurar muito, para entrar mais em contacto com a vida, para escrever mais sobre a vida?
Actualmente não. Vejo poucas pessoas. Sirvo-me da lembrança das que já encontrei. Vejo-as de longe, agora. Aprendo mais sobre o homem com os meus filhos do que com as crianças que vêm cá a casa. Todas as crianças nos ensinam muita coisa.
E rejuvenescem-nos também, porque nelas vimos muito da nossa própria mocidade.
Para mim, o romancista completo é aquele que percorre toda a existência. Aos vinte anos, por exemplo, exprime ideias sobre a vida de um jovem de vinte anos. Mas aos trinta anos, ainda que conserve a mesma personagem, a mesma situação, tem-se um livro completamente diferente. A mesma coisa aos quarenta e aos cinquenta, aos sessenta e aos setenta anos. É por isso que Goethe é tão grande: percorreu uma existência.
Sim, creio que Goethe é o único homem completo da História. Não se pode ver um erro nele. Pretendem os psicólogos que a maioria dos génios sofreu de alguma perturbação ou de deformidades físicas. Beethoven era surdo. Há outros exemplos. Mas nada de semelhante se pode encontrar em Goethe. Tinha uma saúde perfeita. Viveu muito. A sua vida sexual era normal. Interessou-se por mil coisas, inclusive pela polinização das flores…
…e estudou também o olho e tudo.
Já escreveu uma peça de teatro?
Não, escrevi uma peça, mas tirada de um dos meus romances.
E foi representada?
Sim, na França, na Inglaterra, na América. Mas foi há catorze anos. Não me sinto atraído pelo teatro.
E pelo cinema? Já pensou em escrever para cinema?
Nunca cuidei disso. A minha mulher vende os direitos dos meus livros e nunca vejo os produtores e os actores.
Isso também não me interessa. Consultam-me, dou a minha opinião durante o café, por exemplo, e é tudo.
Nem vou ver os filmes tirados dos meus livros. (é mentira: em As Memórias de Maigret, Simenon põe Maigret a apreciar o trabalho dos actores que o interpretaram...)
Viu algum dos filmes de TV inspirados nos seus livros e que estão a passar na Inglaterra? (série da BBC, 1960-63)
Vieram até aqui para me mostrarem dois e gostei muito.
Muito bem feitos.
Sim.
O actor é bom.
Muito bom. Rupert Davies. Veio visitar-me.
Consideram-no excelente em Inglaterra.
Certamente cada leitor faz uma ideia própria da personagem. É por isso que são sempre contraproducentes os livros com ilustrações porque não correspondem ao que o leitor imagina.
O senhor dá importância aos críticos?
Não. A minha mulher mostra-me, às vezes, um ou dois artigos, e é só. Não os leio.
A mim interessam-me tanto os maus artigos como os bons. Às vezes encontra-se alguém que elogia e nós sentimo-nos satisfeitos. Mas os maus artigos interessam da mesma maneira, porque muitas vezes levantam uma crítica legítima e aproveito para lê-los. Avalio as minhas obras com bastante humildade.

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