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29 agosto 2022

A MORTE DE «MANOLETE»

29 de Agosto de 1947. A morte do grande toureiro espanhol «Manolete» ocorre na madrugada do dia seguinte a ter sido colhido numa corrida em que participava, em Linares na Andaluzia. Se é compreensível a consternação que o acontecimento causou em Espanha, não deixa de surpreender a ressonância que o mesmo teve em Portugal, ao apreciar-se acima a cobertura destacada e extensa que a nossa imprensa deu ao sucedido.

18 fevereiro 2021

OS »ROYALS» E A IMPRENSA BRITÂNICA

18 de Fevereiro de 1951. Como se percebe por esta notícia de há precisamente 70 anos, muito antes dos seus descendentes, já a rainha Isabel II de Inglaterra fora vítima das críticas da imprensa britânica mais popularucha (ainda não havia a tablóide) a respeito de alguns aspectos da sua conduta. Aqui tem a ver com o que fizera em Malta quando lá estivera com o marido, ali destacado como oficial da Royal Navy.

25 agosto 2020

«REDESCOBERTAS» A PROPÓSITO DA NUVEM DE HIROXIMA

Um dos segredos de polichinelo a respeito da detonação da primeira bomba atómica é que as fotografias que foram recolhidas da nuvem que então se formou sobre Hiroxima são muito desapontadoras. Conclusão: para que os artigos a propósito fiquem mais apelativos é muito frequente ilustrá-los recorrendo a outras nuvem mais bonitas, com o formato de cogumelo mais acentuado. E o rigor noticioso submete-se ao imperativo da atractividade da notícia. Recorrente também é redescobrir a malandrice. Hoje foi no jornal francês Le Monde (acima), citando um jornalista alemão, que terá assim redescoberto a pólvora. Mas não me foi preciso procurar muito para encontrar a mesma descoberta já há quatro anos no The New York Times (abaixo). Não fui procurar mais para trás. Que é que se pode dizer?... Estamos em Agosto.

09 agosto 2020

CAVACO EM FÉRIAS, COM IDEIAS PARA MARCELO COPIAR

9 de Agosto de 1990. «Enquanto faz férias em São Tomé», os órgãos de imprensa adjuntos ao primeiro-ministro fazem saber à comunicação social que Cavaco está «à procura de gente "notável"» que viva na ilha. Trinta anos depois, já ninguém se lembra se se chegou a encontrar gente "notável", ou, tendo-a chegado a encontrar, de quem se trataria. O que ficou de "notável" daquelas férias de Cavaco Silva em São Tomé, e isso será mesmo a única coisa que delas perdurará, é uma famosa fotografia do próprio Cavaco a trepar a um coqueiro. Dedico esta invocação à atenção do excelentíssimo presidente da República e da entourage que o costuma acompanhar por estes dias à praia de Porto Santo. Bem sei que na ilha não há coqueiros (não vingaram...), mas, em vez de distribuir pedaços de bola-de-berlim, sempre se pode arranjar um momento parecido, exótico, de alpinismo ecológico e pujante, com Marcelo a trepar a uma palmeira que essas há... e em vídeo, que já estamos no século XXI!

04 agosto 2020

OS ESTRANGEIRADOS EM VERSÃO MARXISTA-LENINISTA

4 de Agosto de 1980. Se o meu poste de ontem foi sobre o Diário de Lisboa e as férias (no estrangeiro) do sr. dr. Joaquim Manso, o de hoje é uma espécie de continuidade do mesmo tema, só que com uma mudança de protagonista, já que se passaram 30 anos e que, a partir do 25 de Abril, parece ter passado a ser importante para o Diário de Lisboa informar os seus leitores em que sítio do estrangeiro é que o sr. dr. Álvaro Cunhal havia passado as suas. Há quarenta anos e como se percebe pela notícia ao lado, o secretário-geral dos comunistas portugueses estava na Crimeia. E também lá estava Leonid Brejnev, entre uma ida e vinda a Moscovo, à cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos que tivera lugar no dia anterior (a notícia não o menciona, mas é verdade). A Crimeia era a estância de férias do Who's Who do marxismo-leninismo e era importante que em Portugal se percebesse que Álvaro Cunhal fazia parte desse círculo íntimo. Marx não escrevera sobre isso, Lenine tão pouco, mas era uma nova maneira de se ser um estrangeirado

RELAÇÕES PCUS-PCP CONTINUAM AS MELHORES

O secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Leonid Brejnev encontrou-se sábado na Crimeia, com o seu homólogo português Álvaro Cunhal – anunciou a agência soviética Tass. Na reunião foi afirmada a necessidade de consolidar a coesão dos partidos comunistas, como condição importante para intensificar acções conjuntas com outras forças democráticas com vista à paz e ao desanuviamento. Depois de salientar o significado da política externa do PCUS relativamente à paz, Álvaro Cunhal referiu também o poder económico da União Soviética e a sua importância no desenvolvimento do nível de vida do povo soviético. Os dois dirigentes partidários afirmaram, por outro lado, que o PCUS e o PCP continuarão a desenvolver esforços no sentido de melhorar o actual clima político internacional e a «opor-se às forças agressivas do imperialismo que tentam impor aos povos uma nova etapa na corrida aos armamentos». Brejnev e Cunhal confirmaram ainda que serão suportes (apoio) da consolidação da cooperação e solidariedade entre «as três grandes forças revolucionárias actuais: os países socialistas, o movimento da classe operária nos países capitalistas e os movimentos de libertação nacional». Durante o encontro foi ainda salientado «o reforço da amizade e cooperação entre os dois partidos dentro dos princípios do marxismo-leninismo e internacionalismo proletário». O encontro entre Brejnev e Cunhal foi o último de uma série que o presidente soviético manteve na sua residência de férias com dirigentes comunistas, segundo informa o «Pravda».

Descontando o blá-blá-blá tradicional destes encontros (compare-se a semelhança da redacção acima com a de um encontro também em 1980 entre Brejnev e o homólogo francês de Cunhal, George Marchais), o que interessaria a Cunhal é que cá por Portugal ressoasse a notícia de que ele se havia encontrado com Brejnev («Precisava que aparecesse a notícia na imprensa: "Brejnev encontrou-se com Cunhal!"», como se pode ler no livro de José Milhazes). E, como se vê, o Diário de Lisboa fazia-lhe(s) a vontade! O PCP (e Cunhal) analisavam a situação política portuguesa de uma forma assaz dramática: depois de terem alcançado 18,8% nas eleições intercalares de Dezembro de 1979, parecia-lhes que a fasquia psicológica dos 20% dos votos estava perfeitamente ao seu alcance nas próximas eleições de Outubro de 1980, senão mesmo o sonho de superar a votação dos socialistas, feito que na Europa Ocidental só os comunistas franceses e italianos haviam alcançado. Mas, mesmo com o encontro com Brejnev, o PCP iria ficar bastante desapontado.

10 maio 2020

UM DIA NOTICIOSAMENTE RIQUÍSSIMO

10 de Maio de 1940 foi um dia noticiosamente riquíssimo. Em destaque, a Alemanha desencadeou a há muito aguardada ofensiva sobre a frente ocidental, arrastando para o conflito, de uma penada, a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo. Além da França, naturalmente, que já estava em guerra desde há oito meses. Brotavam as notícias, oriundas dos inúmeros locais que haviam sido atacados desde o amanhecer pelo exército e pela força aérea alemãs. Em Lisboa e num golpe de antecipação, o Diário de Lisboa publica uma edição à hora de almoço, apesar de ser tradicionalmente um vespertino (acima, à esquerda). A iniciativa irá ser objecto de uma nota auto-congratulatória na sua segunda edição (abaixo), aparecida cinco horas depois, ao início da noite como era tradicional. A nova edição fora profundamente repaginada. O título em destaque - O avanço alemão foi detido - era mais um desejo do que um facto, como os dias seguintes irão comprovar. No interior, por entre várias notícias dispersas, arrumadas com pouco critério, algumas têm um interesse diversificado: de Londres vinha a notícia que um destacamento de soldados britânicos acabara de invadir a Islândia, para impedir que os alemães a ocupassem; na mesma cidade e no Palácio de Buckingham, o rei Jorge VI recebera o primeiro-ministro Neville Chamberlain que lhe apresentara a sua demissão do cargo; na audiência que se seguiu, o monarca convidou Winston Churchill a desempenhar o cargo e este aceitou o convite.

13 dezembro 2015

«(I CAN'T GET NO) SATISFACTION»

A capa da edição da revista LIFE de 13 de Janeiro de 1967 procurava dar aos norte-americanos uma ideia ainda mais alargada do conflito vietnamita, o conflito no amplo delta do rio Mekong onde eles se haviam instalado com as pequenas embarcações armadas do que costumam designar pela marinha de águas castanhas. A intenção era impedir o fluxo de reabastecimentos que chegavam ao vietcong por essa via fluvial. O instantâneo não escapa, porém, a que se possa tirar dele uma interpretação tão lúdica quanto militar, intenção essa que se pode reapreciar uma dúzia de anos depois, numa das cenas paródicas de Apocalypse Now, o filme de Francis Ford Coppola.

08 janeiro 2011

UM MERECIDO DESTAQUE À REVISTA SÁBADO

Pessoa amiga fez-me chegar a notícia que a revista Sábado – mais precisamente na página 22 da edição da semana passada, numa coluna intitulada Indiscretos (abaixo) – tinha ampliado a notoriedade de um pormenor aqui postado por mim a respeito da participação de Marcelo Rebelo de Sousa como jumento numa peça de natal há 52 anos atrás. E que, como se tornou costume, o jornalista responsável se esqueceu de fazer referência à sua origem…
Para apresentar as coisas rigorosamente, a revista Sábado não merece sequer o dinheiro que eu iria gastar com o exemplar que teria de adquirir para me certificar do abuso, nem sequer o envio de um e-mail para o director da revista chamando-lhes a atenção para o incidente - veja-se esta outra carta ao director. Quanto muito, iria receber uma resposta – se resposta chegasse a obter… – que viria muito cuidada na forma e completamente vazia na substância.
Assim, como parece que entre os jornalistas daquela revista há quem vá apreciando um ou outro poste que eu aqui vou publicando, resolvi dedicar-lhes este em forma de espaço publicitário, que traduzirá de uma forma frontal e honesta o que penso da publicação onde trabalham e do público que captam. Atribuindo o seu a seu dono, como deve e sempre devia ser, o cartoon abaixo é uma adaptação de um original de 2005 do desenhador Gilberto Maringoni

02 junho 2009

O MISTÉRIO WALDHEIM

No cartoon acima (que fui buscar a O Tempo das Cerejas) pode ler-se na capa do livro: HISTÓRIA ALERNATIVA Se Não Tivessem Existido Jornais. As folhas que aparecem do lado direito referem-se ao Tammany Hall (um clube onde se controlava toda a política nova iorquina no Século XIX e nos inícios do Século XX), ao segundo mandato de Richard Nixon (em que este renunciou à presidência devido ao Caso Watergate), ao Hospital Walter Reed (Hospital Militar Central onde se descobriu que o tratamento dado aos estropiados da Guerra do Iraque era lastimável) e a Rod Blagojevich (o Governador estadual apanhado a pôr o antigo lugar de senador de Obama em leilão).
Também é verdade que a comunicação social nunca se mostra particularmente modesta na forma como costuma apreciar o seu próprio desempenho... Se os casos mencionados acima constituem alguns dos seus sucessos, o que eu pretendo com este poste é chamar a atenção para outros em que, precisamente ao contrário, me intriga a razão que terá levado a comunicação social a ser tão mal sucedida no desvendar de escândalos escondidos. Mencionemos um desses mistérios: o de Kurt Waldheim. Kurt Waldheim (1918-2007) foi um diplomata austríaco que foi o Secretário-Geral da ONU durante dois mandatos, de 1972 a 1982, e depois Presidente da Áustria entre 1986 e 1992.
Já então, o Secretário-Geral da ONU era um dos cargos de maior visibilidade mediática à escala mundial. Durante dez anos, Kurt Waldheim foi uma figura familiar em todos os órgãos de comunicação mundiais. Mas foi só por ocasião da campanha presidencial austríaca em 1985 que os resultados de uma investigação de um jornalista austríaco (Alfred Worm) mostraram que a biografia oficial do candidato Waldheim continha várias omissões e inexactidões durante os anos de 1938 a 1945, precisamente aqueles em que ele cumprira o seu serviço militar durante a Segunda Guerra Mundial. Apurou-se que Kurt Waldheim fora um oficial subalterno do Exército alemão estacionado nos Balcãs.
O envolvimento pessoal de Waldheim nas acções de contra-subversão levadas a cabo então pelos alemães (onde se desenrolaram episódios extremamente cruéis) ou o seu conhecimento das acções de deportação dos judeus para os campos de extermínio ficará para sempre no domínio da controvérsia. O que é inquestionável é que Kurt Waldheim, ainda que por omissão, mentiu deliberadamente sobre a sua biografia querendo proteger a sua carreira política e só veio a ser desmascarado em 1985. O que nunca deixou de me intrigar foi como ele conseguiu permanecer no palco mediático mundial durante dez anos sem que a comunicação social tivesse investigado essas mentiras dessa fase da sua vida
Foram precisos 13 anos e esperar que se chegasse a uma mera disputa política doméstica para que o escândalo rebentasse… e, mesmo assim, Waldheim ganhou as eleições! Foi por causa de episódios como este que formei a opinião que, por muito que os jornalistas se possam ufanar dos resultados das suas investigações (e quantas delas são meritórias!), para desencadear um bom escândalo informativo é preciso haver um outro tipo de motivação e um outro tipo de informação, para além da do jornalismo e do jornalista. Afinal não estou a afirmar nada que não esteja implícito no Caso Watergate, que nunca teria atingido as dimensões que atingiu, se não fosse Deep Throat, o informador Mark Felt (acima) que, por acaso, estava chateadíssimo porque Richard Nixon não o nomeara director do FBI…

21 dezembro 2008

ALGUNS NÚMEROS POR DETRÁS DO MARCELISMO

O gráfico abaixo mostra a evolução no número de registos de licenças de televisão desde o início das emissões até 1969, ano que costuma ser considerado o apogeu da época depois baptizada por primavera marcelista em Portugal. Ele foi retirado do livro Vamos Falar de Televisão da autoria de Lopes da Silva e Vasco Hogan Teves, que foi publicado em 1971 na colecção Livros RTP.
A progressão exponencial do crescimento, não nos pode fazer esquecer que, com cerca de 350.000 licenças emitidas em 1969 e mesmo contando com as televisões clandestinas e ilegais o número de portugueses que acompanhariam regularmente as emissões de televisão não deveria ultrapassar muito os dois milhões, ou seja, sensivelmente um pouco menos do que 25% da população continental da altura.
O marcelismo, pelo menos nos seus aspectos comunicacionais (lembremo-nos das Conversas em Família), ter-se-á assim desenrolado entre um círculo muito restrito de portugueses e, pela mesma lógica, não seria de todo surpreendente a famosa manchete que o Expresso escolheu para a sua primeira edição de 6 de Janeiro de 1973 (acima): a de que, naquela altura, 63% dos portugueses nunca tinham votado.

29 outubro 2008

A CRISE FINANCEIRA E OUTRAS HISTÓRIAS

Mais do que sobre a Crise propriamente dita, e sobre as ameaças surdas que incidem sobre várias instituições bancárias que continuamos a ignorar quais são, a cobertura noticiosa actual, mesmo a especializada em economia, tem-se dispersado e entretido com o comportamento de comboio de Montanha Russa que as cotações das acções nas Bolsas Mundiais têm assumido, que é sintetizado para conveniência interpretativa nos famosos índices: o Dow-Jones, o FTSE (tratado carinhosamente por footsie), o DAX, o CAC-40, o Nikkei ou o nosso PSI-20*.
Emblemático da descrição que dei, às 00H05 de hoje o Diário Económico noticiava que a Volkswagen se tornara na empresa mais valiosa do mundo (referia-se ao valor de capitalização bolsista) depois da Porsche ter anunciado a intenção de adquirir nela uma posição maioritária, e das suas acções se terem valorizado 93% em dois dias. No mesmo dia, às 09H10, o mesmo jornal vem noticiar que afinal a Porsche não quer comprar, mas sim vender acções da Volkswagen e que a cotação das acções perdera subitamente 46% do seu valor de abertura
O acontecimento tem todo o aspecto de uma daquelas operações de bolsa de uma transparência mais do que duvidosa, que se sabe que se fazem, mas que as autoridades nunca conseguem provar que se fizeram… É que é sempre impossível encontrar quem foram as fontes do boato que, neste caso, anunciaram que as intenções da Porsche eram diametralmente opostas às verdadeiras. Entretanto, a Porsche deve ter feito um excelente negócio se vendeu as suas acções da Volkswagen ao mesmo tempo que a sua cotação subia...

Como se constata por esta provável manobra, estas artimanhas espertas (e velhas como o mundo…) do capitalismo duro continuam por aí e, se for para o julgar através destes exemplos, até parece que ele está de boa saúde e se recomenda… O que convém que os jornais especializados façam é que sejam pedagógicos no que noticiam, distinguindo estas golpadas de Bolsa da verdadeira Crise financeira: o episódio das acções da Volkswagen foi, provavelmente, mais uma manobra sórdida da autoria de gente de aspecto respeitável…

* Respeitantes, respectivamente, às Bolsas de Nova Iorque, Londres, Franqueforte, Paris, Tóquio e Lisboa.

25 outubro 2008

OS COLUNÁVEIS

Poucos se apercebem quanto aquelas colunas dedicadas aos colunáveis, pessoas que são importantes apenas porque sim, precisam das cumplicidades recíprocas de outros órgãos de comunicação para as manter importantes. Acontece com a bola, em que os programas dos comentadores (acima) da rádio e da televisão no dia seguinte ou no outro se alimentam do que vem escrito nos jornais para elaborarem os seus comentários enquanto as declarações então proferidas servem depois de material para alimentar os espaços dos jornais nos dias em que não se joga, não se jogou, nem se vai jogar.
Acontece o mesmo com o jornalismo cor-de-rosa, em que se torna indispensável que haja um reconhecimento prévio dos e das figurantes (acima), adquirido nos tempos de espera dos cabeleireiros através das revistas da especialidade, para depois compreender o quem é quem das peças dos programas homólogos que passam na televisão. A propósito disso, lembro-me duma tentativa gorada dum programa do género, lá pelos idos de 1993 ou 94, quando a SIC era jovem e imatura, ao entregar a apresentação do mesmo a Helena Sacadura Cabral (abaixo) e a Mário de Araújo (vulgo Nicha) Cabral.
É que os dois apresentadores propuseram-se falar das pessoas (que eles consideravam) realmente importantes. Valha a verdade que não elaboraram muito sobre os critérios que confeririam essa importância… De qualquer forma, ingenuidade de principiantes, para um dos segmentos, ninguém os mandatara como árbitros para definirem quem seria ou não importante – ainda faltava aparecer a Paula Bobone... Para o outro segmento, faltava ao programa aquelas caras que se reconheciam porque apareciam nas fotografias das revistas da especialidade – a Nova Gente, a Caras… O programa revelou-se um tremendo fiasco.
Com a blogosfera, coisa nova, vivem-se agora as mesmas hesitações. Mais importante do que saber quem são os colunáveis, importa saber quem escolhe os colunáveis e quem, por sua vez, os mandata para fazer essa escolha. Mas antes disso, como nos congressos dos partidos há os colunáveis por inerência (acima), sem se explicar o que os torna inerentes. Depois há os que são convidados para a rádio, sem muita controvérsia. Depois há os que são promovidos em jornal, com muito mais controvérsia. Finalmente, há uma nova fornada que se materializa na televisão (abaixo), vindo de algures, recorrendo à mesma tecnologia do capitão Kirk do Star Trek.

25 agosto 2008

JORNALISMO E BLOGUES©

Como se torna cada vez mais recorrente, temos hoje um artigo no Diário de Notícias que parece ter sido rigorosamente decalcado daquela ideia que já aqui tive oportunidade de me referir num poste anterior: a de somar as medalhas recebidas por todos os países da União Europeia. As ideias que o autor do artigo quis passar eram previsíveis: que a União Europeia esteve muito bem e, sobretudo que, quando em comparação com os outros parceiros europeus (o desporto retrata quase exactamente alguns outros índices económicos e sociais), Portugal é um país na cauda da Europa…
Foi pena que o jornalista, autor do artigo, pareça não ter descoberto aquele pormenor técnico para o qual chamei a atenção no meu poste sobre a limitação do número de concorrentes por país que afecta drasticamente as comparações que se queiram extrair entre as prestações de um país isolados e de um conjunto de países... A ideia que quero passar também é previsível: a correr assim atrás de assuntos que já foram abordados na blogosfera mas sem qualquer rigor adicional no seu tratamento, estamos perante uma qualidade de jornalismo equivalente à classificação que o autor deu ao nosso país…

22 junho 2008

UM BOM NÚMERO

Um bom número o do Público deste Domingo, com alguns textos de opinião muito interessantes. A começar pelo de Jorge Almeida Fernandes (P2, p. 8) sobre um livro a publicar proximamente na Polónia (Walesa e os Serviços de Segurança), onde se defende a tese que Lech Wałęsa, o antigo líder do Solidariedade e também antigo Presidente polaco, foi um informador remunerado dos Serviços de Segurança polacos da era comunista (SB) entre 1970 e 1976. Ao contrário do que costuma acontecer em assuntos assim sensíveis, aqui Almeida Fernandes assume as suas dúvidas quanto à veracidade da tese. Trata-se de um assunto que, não sendo muito importante, é bastante interessante.
Contrasta com um outro assunto que, como desconfio que iremos descobrir no futuro e apesar da ampla cobertura mediática actual, não é interessante, nem será importante: o resultado do referendo irlandês. É o assunto principal de uma entrevista a Vítor Martins, antigo Secretário de Estado da Integração Europeia (p.18) e, implicitamente, da tradicional crónica dominical de António Barreto (p. 45), intitulada Estado da União. Assim como se atribui a Luís XV a famosa afirmação Aprés Moi, le Déluge*, tenho notado em certos vultos da nossa esquerda, uma propensão para uma redacção traduzindo uma visão cada vez mais pessimista dos assuntos que abordam.
Na senda de Medina Carreira, que se especializou em escrever artigos sobre a nossa decadência económica e a nossa incompetência financeira que são capazes de nos deixar a chorar, mas incapazes de nos deixar uma pista do sítio onde poderemos encontrar lenços para secar as lágrimas, agora é vez de António Barreto, cada vez com mais frequência, parecer procurar no que escreve (acontece hoje) uma contundência que parece copiada da de Vasco Pulido Valente: isto é tudo uma merda e está-se mesmo a ver que não há solução possível… Há ali trechos em que, agora referindo-se à Europa, parece que Barreto apenas adaptou uma das suas anteriores descrições deprimentes de Portugal**!
E terminando numa outra questão deprimente, cite-se a intervenção do Provedor do Leitor, Joaquim Vieira, (p. 47), dedicada a uma queixa de Maria Teresa Horta a respeito do conteúdo de um artigo que a menciona no Inimigo Público. Independentemente da nobreza da causa feminista que abraçou e da liberdade da escritora ser como é, de há muito me intriga porque, sendo originalmente O Processo das Três Marias, se acaba sempre por ir dar àquela Maria*** de aspecto sombrio, cara amarrada, nenhum sorriso: um alvo ideal para os humoristas! Agora, ao tratar a piada como se uma notícia séria se tratasse (leia-se a carta que enviou ao Director do jornal), Maria Teresa Horta só adiciona o ridículo ao deprimente…

* Depois de Mim, o Dilúvio.
** (…) A cultura europeia é americana. O trabalho é imigrado. A produção é chinesa. O capital estrangeiro. A economia frágil. A ciência dependente. A tecnologia subalterna. A impotência manifesta. Os europeus não querem correr riscos, nem tratam da sua defesa. (…)
*** Da mesma maneira que me intriga como, havendo imensos Capitães de Abril, costuma dar sempre Vasco Lourenço.

27 maio 2008

OS PENSADORES DE IDADES PROVECTAS

Fiquei a saber pelos jornais que o antigo Secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger faz hoje 85 anos. Já me habituei aos seus aparecimentos regulares na arena mediática, seja através de intervenções, seja através da publicação de artigos de opinião que avaliza e a que decide emprestar o seu nome, que isto de produzir obras-primas genuínas individuais aos 100 anos está reservado ao cineasta Manoel de Oliveira…
Trata-se de uma prática corrente no jornalismo norte-americano. Hoje, há um outro antigo e respeitado Conselheiro de Segurança Nacional da Administração Carter, Zbigniew Brzezinski (actualmente com 80 anos) que co-assina uma coluna de opinião no Washington Post, a respeito das suas opiniões de como deverão ser conduzidas as relações entre os Estados Unidos e o Irão. Um artigo interessante para quem goste.
Mas parece não ser automático que todos os antigos políticos que ocuparam cargos de relevo na Administração norte-americana possam ser capazes de produzir artigos tão interessantes quanto os destes dois veteranos. É uma prova da nossa inevitável pequenez portuguesa que não tenhamos muito por onde escolher e que acabemos por nos resignar a artigos de opinião assinados pelos patriarcas que temos, como Mário Soares (83 anos).
É que também precisamente hoje, temos a oportunidade de ler uma sua Coluna de Opinião, publicada no Diário de Notícias, com o título Pobreza e Desigualdades que, sobre o tema que lhe dá título, não escreve rigorosamente nada de original, e sobre todo o resto que entende pronunciar-se, desfia uma sucessão de lugares comuns... Mário Soares tem vários predicados, mas a densidade do seu pensamento intelectual continua a não ser um deles…

12 janeiro 2008

YES, PRIME MINISTER (2) – de UM CONFLITO DE INTERESSES até à DEFESA DA GRÃ-BRETANHA

Havia eu acabado precisamente de publicar o poste anterior sobre a prudência demonstrada por Vítor Constâncio a respeito dos sucessivos acontecimentos no BCP, quando dou por mim a ler um artigo precisamente dedicado a isso, saído no Público de hoje, assinado por Luís Campos e Cunha. É um texto corajoso, contra a corrente dominante, e sobretudo muito bem construído e persuasivo, capaz de impressionar, como se constata pela impressão deixada neste poste onde o autor retirou aquilo que do artigo considerava essencial. Contudo, e mantendo-me nos anglicismos do meu poste anterior, at the end of the day*, considero que os responsáveis dos órgãos de supervisão, como é o caso de Constâncio, não passam impolutos…

É pedagógico e salutar, mas fundamental, ler escrito que a primeira responsabilidade dos actos pertencem a quem os praticou (na metáfora empregue por Teixeira dos Santos, são eles o ladrão, e concordo com Campos e Cunha que nunca nos devemos esquecer disso) Em segundo lugar, ele assinala que existe um organismo de auditoria interna dentro do banco que nada tinha vindo a apontar. Para Luís Campos e Cunha isto é um primeiro mistério, mas convém elucidar quem o leia que esse órgão de auditoria normalmente depende dos órgãos de topo do banco, precisamente onde teriam lugar as pessoas que estão agora sob suspeita. Talvez essa auditoria interna só costume ser eficaz a partir de certos escalões da hierarquia para baixo...
Em terceiro lugar, Campos e Cunha lembra (e muito bem) que as contas do BCP são também certificadas por uma empresa de auditoria externa denominada KPMG e que essa organização externa também não assinalou nada… Mas posso arriscar afirmar que o BCP deve ser um dos principais, senão mesmo o principal cliente da KPMG em Portugal, e que não é boa política comercial indispor os responsáveis executivos do BCP que os contratam, mostrando ser uma organização particularmente metódica e inquiridora**. Quanto à pergunta (muito pertinente) de Campos e Cunha, porque ninguém fala da KPMG, apenas posso falar por mim: porque a inépcia da empresa não me lesou directamente, visto que não sou accionista do BCP***

Retornando à metáfora de Teixeira dos Santos, tendo já falado dos ladrões, dos guarda- nocturnos e dos funcionários da Securitas, falemos agora da polícia e dos agentes da autoridade propriamente ditos. E aqui Luís Campos e Cunha entra em plena justificação corporativa. Citemo-lo: (…) a CMVM e o BdP não certificam as contas dos bancos (…) partem dessa contabilidade auditada e certificada para a sua actividade e, se quiserem, fazem perguntas e inspecções. Mas qualquer pessoa ligada à supervisão, em qualquer parte do mundo, dirá que se uma empresa está determinada a fazer uma ocultação deliberada consegue enganar as autoridades de supervisão. Ou é apanhada pelas auditorias (…), ou há uma denúncia, ou passa incólume.
Descodificando, e mantendo até ao fim a metáfora de Teixeira dos Santos, como bem pretende explicar Campos e Cunha, afinal com esta polícia, se não houver denúncia, nem é questão de saber quem é o ladrão, é de nem saber sequer que houve roubo… Mas há um facto que ele se esqueceu de dar o devido destaque em todo o seu artigo: o de que quem é escolhido para encabeçar tanto a CMVM como o BdP o ser por razões políticas e portanto passíveis de serem julgados precisamente por esse mesmo critério… Como o próprio Campos e Cunha assinala, a meio da citação do parágrafo anterior: (…) e, se quiserem, fazem perguntas e inspecções. Não o tendo querido, independentemente do apreço pelo carácter dos visados, haverá um preço a pagar por essa (não) decisão…

O facto de uma das vítimas colaterais de todo o processo poder vir a ser o próprio Ministro das Finanças em exercício, só o torna ainda mais embaraçoso. Mas assumir assim administrativamente que as autoridades financeiras de supervisão em Portugal não podiam ter feito nada neste caso, faz lembrar mais um daqueles famosos diálogos do Yes, Prime-Minister:
Sir Humprey: - Bernard, qual é a finalidade da nossa política de defesa?
Bernard: - Defender a Grã-Bretanha.
Sir Humprey: - Não, Bernard! É fazer com que as pessoas acreditem que a Grã-Bretanha está defendida.
Bernard: - Os russos?
Sir Humprey: - Não, os russos não, os britânicos! Os russos sabem que não está…

Adoptando a ironia, também aqui se corre o risco de vir a descobrir – com a gravidade que se adivinha... – que a CMVM e o BdP (organismos sob tutela governamental…) apenas existiam para nos fazer crer que o mundo dos negócios estava sob controlo. Os operadores que nele laboravam é que sempre souberam que não estava… Agora mais a sério, e referindo-me à forma como Luís Campos e Cunha termina o seu artigo: as pessoas que ele considera decentes e corajosas também comentem erros graves e dispensa-se a petulância de quase querer passar pelo único que, na defesa das suas opiniões, não se envolve em guerras partidárias e lutas de sociedades semi-secretas.

* Expressão que se poderá traduzir por, ponderando todos os factores.
** Foi precisamente isso que aconteceu com a Arthur Andersen, uma das cinco maiores empresas de auditoria do mundo que auditava as contas da Enron, escândalo a que Campos e Cunha também faz referência no seu artigo. Aliás, nessa época (2001) e a esse propósito foi produzida muita literatura sobre as falhas enormes onde assentavam os sistemas de controlo das empresas cotadas em bolsa.

*** Não deixa de ser uma pergunta extemamente pertinente a que 0s accionistas principais do BCP e a própria KPMG poderiam responder... Mas ele há tantas perguntas pertinentes sobre assuntos misteriosos que permanecem ainda hoje por responder... Por exemplo, porque nunca ninguém escrutinou e comentou o trabalho desenvolvido pela Eurosondagem nas últimas eleições presidenciais e ela continua por aí à solta?

18 novembro 2007

A IMOLAÇÃO DO BOAVISTA

O balanço do desempenho de João Loureiro como presidente do Boavista FC que o Público de hoje (18/11/2007) nos apresenta na sua última página é sintomático da leviandade com que, frequentemente em Portugal, se apreciam os resultados dos mandatos à frente das instituições. Assim, de acordo com um desempenho que é classificado como neutro (nem positivo, nem negativo) pelo redactor, lemos:
Aparentemente, terminou a monarquia Loureiro no Boavista. O balanço do reinado do filho João é necessariamente bipolar. Por um lado, os bons resultados desportivos da equipa principal de futebol, com a conquista de um título. Por outro lado, a crise financeira em que o testemunho é passado ao sucessor é inegável, com um passivo de 46 milhões de euros.
Eu não sou sócio do Boavista FC para ter acompanhado detalhadamente a vida do clube, mas não me lembro de ter sido abordado pela comunicação social os riscos que se corriam com os planos desportivos e imobiliários implementados pelas direcções dos Loureiros e de como eles podiam fazer com que a instituição corresse o risco de descambar na catástrofe financeira em que se encontra…
Creio que o primeiro mandato da direcção de qualquer instituição é o de assegurar a sobrevivência da instituição para a sua sucessora. Preservado isso, todos os outros sonhos são possíveis… Mas só quem tenha esquecido como é importante que haja essa ordem de prioridades, é que se pode permitir escrever um comentário como aquele que reproduzi acima…
É que quando vemos a mesma atitude transposta para a esfera pessoal, todos compreendemos o absurdo da atitude de um piloto Kamikaze ou de um monge que se imole pelo fogo… Por um lado, atingem os seus objectivos; por outro, morrem… Geralmente consideramos que eles não demonstram uma grande sanidade mental… E aí não estamos a falar de se ser bipolar
É verdade que o Boavista FC não morreu… Financeiramente, só foi transferido para os Cuidados Intensivos e está com prognóstico reservado… Mas a diferença não impede que se coloque a pergunta: o que leva a que se avaliem as pessoas que desempenharam estes mandatos medíocres de uma forma tão benigna e tão diferente com a que se avaliam as outras pessoas normais?

07 agosto 2007

OS BENEFÍCIOS DO USO DE MAPAS PARA A ANÁLISE GEOPOLÍTICA…

Hoje, um dos artigos das páginas internacionais do Público (p. 14) dedica-se a uma análise geopolítica da situação do Mediterrâneo oriental, sobretudo baseada em material que havia sido publicado recentemente em dois jornais israelitas: o Yediot Ahronot e o Ha"aretz. Com chamada de primeira página, o artigo intitula-se Rússia desafia domínio norte-americano no Mediterrâneo com a reabertura de duas bases navais na Síria e está assinado pelas iniciais M.S.L. E o teor do mesmo está bem sintetizado no conteúdo do título.
Só que vale a pena avaliar devidamente a seriedade do desafio da Rússia aos Estados Unidos, usando a informação geográfica propiciada por um grande mapa da região. Assim, as ligações marítimas mais curtas entre a Rússia (acima, a amarelo claro) e a Síria (no extremo sul do mapa) teriam que se efectuar pelas costas que a primeira tem no Mar Negro. Mapas mais detalhados dessa região em particular poder-nos-ão esclarecer que, devido ao relevo, aquelas costas têm o notável inconveniente de não terem portos marítimos importantes (abaixo)…
É por causa disso que a frota russa no Mar Negro compartilha com a sua homóloga ucraniana os portos da Crimeia (trata-se da península no norte do Mar Negro), em resultado de um acordo bilateral entre os dois maiores países herdeiros da extinta URSS. Há um outro acordo, este multilateral, que permite que a Turquia tenha sempre a última palavra sobre a autorização de saída para qualquer navio de guerra que se apresente em Istambul e que queira atingir o Mar Mediterrâneo através dos estreitos do Bósforo e Dardanelos (abaixo)…
Pelo exposto, o artigo, de tão disparatado, merece a ironia de podermos assegurar que é altamente improvável que amanhã apareça de surpresa um couraçado russo disposto a bombardear as cidades de Israel sem que ninguém tivesse dado por nada…Aliás, o histórico dos acontecimentos da Guerra-Fria mostrou como o desafio soviético à VI esquadra norte-americana destacada para o Mediterrâneo nunca passou de um mito. A de uma hipotética esquadra russa, que seria naturalmente muito mais fraca, não passará de outro.

Compreende-se o teor do artigo se o enquadrarmos na grande disputa mediática* que se trava entre Israel e os países árabes pelo ganho das simpatias da opinião pública ocidental. Neste caso, descarada e desastradamente estão a querer empolar as movimentações russas de regresso aos países árabes e a querer transformá-las em grandes ameaças com ressonâncias dos piores períodos da Guerra-Fria. É preciso estar atento, mas também é preciso evitar que o jornalista do Público engula tão descuidadamente destas iscas com anzol e tudo

* Um exemplo de uma notícia vinda do outro lado, mais habilidosa, mas também abocanhada com anzol e tudo por uma jornalista do Público intitula-se Palestinianos homenageiam o seu mais antigo prisioneiro.

22 junho 2007

75% DE CARNE MAGRA

Declarei aberto o período de perguntas (...).
– Que quer dizer com isso,
ilegal?
Atenuei a resposta.
– Ilegal na prática – respondi – As salsichas de porco deverão conter 75% de carne de porco magra e o mesmo acontecerá com as salsichas de vaca.
Um tipo do
The Sun perguntou se as salsichas de vaca deverão também conter 75% de carne de porco magra. É o típico correspondente de antecâmara. Se fosse o único inscrito num concurso de inteligência, ficaria em terceiro lugar (…)
Relato de James Hacker, candidato a primeiro-ministro (Yes, Prime Minister, p. 59)
O Público teve anteontem um verdadeiro momento The Sun. A história é breve de se contar. A Nova Democracia, o partido de Manuel Monteiro, teve um daqueles momentos de demagogia ignorante, infelizmente tão frequentes na actividade política partidária portuguesa e vai de criticar a nomeação de um embaixador para as Seychelles enquanto se fecham consulados nos países europeus. E o Público publicou a notícia indignada e inteirinha, com isco e anzol...
Deve ter sido um fartote de riso no Ministério dos Negócios Estrangeiros, com os dirigentes da Nova Democracia e os jornalistas do Público a demonstrarem que percebiam tanto do assunto da nossa rede de embaixadas e consulados no Mundo como o correspondente do The Sun percebia da composição das salsichas com o inconveniente adicional de que os segundos nem sequer terem feito as perguntas que deviam: o embaixador das Seychelles reside no Quénia e acumula funções com uma porção de representações noutros países da África Oriental.
Não tendo a ousadia de Hacker de os classificar a uns e outros em concursos de inteligência virtuais, reconheço todavia que o Público tem momentos ímpares que são só seus: foram os do dia seguinte (ontem), na patética tentativa de transferir a responsabilidade da galga para a Nova Democracia, autora do comunicado original. Interiormente, o jornal reconhece o erro, utilizando a palavra erradamente no cantinho inferior da 27ª linha das 30 de uma notícia estreitinha da página 12. Exteriormente, as censuras, na última página, vão todas para Manuel Monteiro (que até aparece em fotografia na rubrica dos que estão em baixa) e para o seu partido, terminando-as assim: O PND, esse, devia fazer melhor política

Isto é o que se chama ter superioridade moral para fazer recomendações…

Nota: Enviei o poste para o Provedor do leitor do Público, não se dê o caso de ele estar desprovido ou de lhe faltar provisão de assuntos que tratar. A ver se a inspiração provê Rui Araújo de algum comentário sobre um incidente em que, pela aparência, no Público não há quem queira assumir as responsabilidades pela publicação de uma notícia ridícula, nem as saiba distinguir de publicidade ou de tempos de antena – os casos em que a responsabilidade dos conteúdos não é do jornal.

17 junho 2007

QUEM COM FERRO MATA…

Estando atentos, já se percebeu como há parceiros poderosos dos dois lados de toda a controvérsia associada ao assunto dos sobreiros da Portucale e dos financiamentos do BES ao PP. Entre os que lhe querem dar expressão e visibilidade, isso vê-se pela forma como animaram e agora reanimaram o assunto na comunicação social. Entre os que o querem abafar, vê-se pela forma célere e, segundo li, verdadeiramente quase inédita, como extraíram Luís Nobre Guedes do embrulho judicial onde parecia estar envolvido.

Depois de decisões como a do Tribunal Constitucional sobre a inconstitucionalidade da repetição das provas de física do ano passado, há que confessar que até deu gosto ver a justiça a funcionar rapidamente por uma vez… E ainda bem para Luís Nobre Guedes. Suspeito é que ela não tenha funcionado assim para me dar gosto… Em contrapartida, suspeito que tenha sido efectivamente para me dar gosto, e comigo, a todos aqueles que gostam de seguir a política em soundbites, que a notícia da lista dos 4 mil beneméritos do PP tenha sido simplificada para o de Jacinto Leite Capelo Rego

É directo ao auditório de que Paulo Portas gosta mais

Nota: Eu até poderia confessar em rodapé (e à portuguesinha…) que a pessoa de Luís Nobre Guedes me parece simpática quando vista através da comunicação social - o que não poderei dizer de Paulo Portas… Mas o problema não será de Nobre Guedes não residirá nas considerações deste seu simpatizante que assina este poste, mas de alguns antipatizantes com basto acesso à comunicação social…