17 abril 2024

UM DOS RIVAIS DE SALAZAR NAS CONTAS EQUILIBRADAS...

17 de Abril de 1934. Neville Chamberlain, que era na época o chanceler do Tesouro (ministro das Finanças) britânico, apresenta o seu orçamento para 1934 - representado simbolicamente pela mala que o vemos a empunhar na fotografia acima. Quanto ao conteúdo daquele orçamento, há o desapontamento dos norte-americanos (à direita) por nada ter sido providenciado em termos da amortização das dívidas de guerra que os britânicos haviam contraído em 1914-18. Contudo, e como se pode comprovar abaixo, o chanceler mostrava-se particularmente orgulhoso pelo facto do seu orçamento prever um superavit de 796 mil libras. Aquela foi uma época em que, não apenas em Portugal com Salazar, esteve na moda aparecerem políticos que se exibiam apresentando contas públicas equilibradas. Neste caso do Reino Unido foi uma infelicidade para eles, pois Chamberlain acabou sendo promovido, em Maio de 1937 ao seu nível de incompetência de Peter, o de primeiro-ministro.
Entretanto por cá e na mesma altura, predominava a impressão (ignorante e provinciana) que Salazar era figura única e sem rival, era o mago das finanças. Ora, como se percebe, houve vários outros magos: Chamberlain também endireitou as finanças do Reino Unido. Aquilo em que, paradoxalmente, Salazar o supera é em política externa: foi um campo em que, ao contrário do seu colega britânico e tendo tido a sorte do seu lado, o português nunca se mostrou ingénuo.

16 abril 2024

O HOMEM A QUEM SEMPRE PARECEU QUE ACONTECERA NÃO SE SABE BEM O QUÊ

Republicação a propósito do anúncio que António Lobo Xavier irá abandonar o programa de comentário O Princípio da Incerteza na CNN. Foram 30 anos a emitir opiniões que nunca se sabiam lá muito bem quais eram... Este episódio, mais descarado do que os demais, é de Novembro de 2021, onde António Lobo Xavier dispende oito minutos para não indicar qualquer data ou um período sequer para a marcação das próximas eleições legislativas conforme lhe fora perguntado por Carlos Andrade. Não se pode dizer que seja um estilo que me deixe muitas saudades...
Dispenso-me de apresentar aquele que é um dos momentos mais emblemáticos dos Gato Fedorento - o gag «O homem a quem parece que aconteceu não sei o quê»: um monólogo protagonizado por Ricardo Araújo Pereira durante quase um minuto e meio em que ele consegue encadear palavras e lugares comuns conhecidos de todos, mas em que acaba por não dizer nada de concreto. No princípio do programa Circulatura do Quadrado (TVI) desta semana tivemos a oportunidade de assistir a uma reedição daquela paródia, só que protagonizada por António Lobo Xavier, com uma duração muito superior (oito minutos!) e num programa que seria para ser supostamente sério(?). Abaixo, dei-me ao trabalho de transcrever toda essa intervenção de António Lobo Xavier para mostrar o «nada sonoro» que é proferido. Mas em síntese, Carlos Andrade pergunta a Lobo Xavier «qual era para ele a melhor data para» a marcação das próximas eleições e este passa os oito minutos seguintes sem adiantar uma, ou duas ou mesmo três datas possíveis. É obra falar tanto tempo sem responder a uma pergunta tão concreta. Mas que isso seja uma lição também para José Pacheco Pereira (abaixo, a sorrir-se da "não sei o quê" que está a acontecer ao seu companheiro de programa...) para ele entender porque é que os programas em que ele participa se confundem tão facilmente com aquilo que ele denomina, com desprezo, por «engraçadismo».
- Pergunto-lhe, António, qual é para si a melhor data para que o país escolha novos deputados?
- Oooh, Carlos, em primeiro lugar quando o Carlos anuncia que eu vim do conselho de Estado, no conselho de Estado não se discutiu datas. O assunto não estava em cima da mesa. Referências a calendários, com certeza, mas o assunto não estava em cima da mesa. A data das eleições é uma prerrogativa do presidente da República. Não tem que consultar o conselho de Estado sobre a data e portanto é um assunto que ele tratará na sua solidão depois de ponderadas todas as circunstâncias, e portanto...
- Mas o António tem opinião sobre a data...
- Eu tenho e até já a disse. Eu já disse que há uma série de aspectos a ter em conta. Os aspectos a ter em conta são... têm a ver com uma série de circunstâncias. Em primeiro lugar, obviamente, um presidente da República ponderado que quer uma participação no acto eleitoral e que quer pluralismo e discussão e debate tem de ter em atenção que os períodos de Natal e de Ano Novo não são períodos favoráveis, por exemplo, à realização de debates. De debates televisivos. Agora em Portugal normalmente as eleições são precedidas de debates. Uma série de debates televisivos, que são até sorteados. Esses debates saem fora da campanha eleitoral, são antes da campanha eleitoral, e é preciso ponderar que, de facto, para o estilo de vida dos portugueses, não há propriamente uma vontade de participação e de atenção no período que vai entre o Natal, ou a proximidade do Natal, e o Ano Novo, não há uma predisposição para a política. E isso é importante, mesmo numa democracia adulta. É importante porque as democracias (e em Portugal também) combatem o indiferentismo, a abstenção e portanto é importante que os responsáveis combatam isso. É o primeiro aspecto, é um aspecto de calendário civil. Depois, é preciso, enfim, há um mínimo de ponderações, os prazos são..., são..., no meu ponto de vista é um prazo muito grande, prazo para apresentação para listas, ahm, de candidatos a deputados tem uma antecedência em relação às eleições muito grande, não seria precisa tanto, quarenta dias, parece-me um exagero, mas portanto há certas datas, quando começamos a construir a partir de datas possíveis para trás, percebemos que o risco das coisas... calharem no Natal ou na época do Natal... é uma coisa desnecessária, sobretudo se se puder evitar. Há também discussões internas nos partidos com diferentes incidências e diferentes regras e diferente premência...
- Esse deve ser um critério?
- Não é um critério. Não estou a dizer que deve haver um critério, estou a dizer que deve haver indicadores para que é forçoso olhar. Os partidos políticos são fundamentais à democracia, e o funcionamento dos partidos e os próprios partidos em si têm dignidade constitucional. Portanto, todos nós conhecemos da história das dissoluções a preocupação dos presidentes com a solução possível pós-eleitoral e, portanto, os partidos é que têm de se adaptar ao calendário do presidente da República que obviamente é o calendário político-constitucional mas, alguma coisa é preciso perceber de reuniões ou de congressos ou de processos de decisão que estejam em curso e que portanto tudo isso é preciso ter em conta. Depois é preciso ter em conta talvez o aspecto mais importante que é... o fundamento concreto do presidente da República. Nós... (às vezes esquecemo-nos, mas estas coisas têm significado) é a primeira vez que uma proposta de orçamento é chumbada (como se diz na linguagem corrente) na generalidade, é a primeira vez que isso acontece, nenhum governo viu no..., no..., na democracia portuguesa isso acontecer... primeiro lugar..., e em segundo lugar também nunca aconteceu (o que é uma decorrência da primeira) ver uma dissolução da assembleia da República por causa de uma reprovação de um orçamento. E a justificação do presidente da República, em geral..., portanto já se conhece pelo que leio nos jornais o resultado final do pronunciamento dos conselheiros..., o conselho de Estado também alinhou maioritariamente nesse ponto de vista... o ponto de vista do presidente da República é que neste caso concreto, embora em geral não se aponte para a derrota da proposta de orçamento como levando necessariamente à dissolução da assembleia, o ponto de vista do presidente, como ele tem mostrado, é que este especial momento e este especial orçamento é que justificam a sua intervenção e o aviso prévio que fez à navegação. Para terminar, Carlos, este momento para o presidente é este momento da saída da pandemia e do começo da recuperação económica e de uma série de projectos ligados a isso. Este orçamento é um orçamento que obviamente devia estar disponível para a realização desses projectos e o apoio a essa retoma económica. E portanto são todas estas coisas que têm de ser ponderadas que levam a que as eleições não possam ser amanhã, não façam sentido que sejam daqui a quinze dias...
- Tudo isso somado... apontaria o António para que data?
- Não apontaria, não faço isso ao presidente da República.
- Ele não tem que seguir a sua indicação...
- A minha indicação é uma indicação mais favorável a mais tempo... do que o pouco tempo que vejo alguns quererem... mas não tão generosa...
- Consegue balizar?
- Consigo. Acho que isso é possível. Não vou agora fingir-me de anjo. Boa parte dos partidos, com os seus interesses legítimos, apontam para meados de Janeiro. Do meu ponto de vista, e são factos, isso implica que acaba a fazer campanha, ou pelo menos debates televisivos, durante a missa do galo. Portanto isso é negativo. E portanto acho que deve haver mais tempo do que isso. E portanto qualquer data que se chegue mais a Fevereiro seria sempre uma data mais razoável, mas, como digo, os partidos é que têm de se adaptar à situação política. O presidente deve ter em conta estes indicadores que referi. Percebo a lógica do tempo. Em vários tempos de dissolução os presidentes da República deram até muito tempo (muito mais) mas as razões desta dissolução apontam para uma maior contenção. Tem que haver aí um certo equilíbrio. Equilíbrio é no meio. Portanto é isso que eu lhe posso dizer, Carlos.

O ÚLTIMO RETOQUE NA «TEIA» DE TRATADOS DE AMIZADE E COOPERAÇÃO DO LESTE EUROPEU

Praga, 16 de Abril de 1949. Como dá conta a notícia do New York Times, Antonin Zapotocky pela Checoslováquia (à esquerda) e Istvan Dobi pela Hungria (à direita) assinavam naquela cidade um daqueles tradicionais tratados de amizade e cooperação que os países comunistas costumavam assinar entre si durante o período da Guerra Fria. Como o jornal americano fazia questão de frisar, este era o vigésimo primeiro e último tratado de uma rede de tratados do mesmo género que interligavam entre si a União Soviética e os seis países - o jornal empregava a expressão "democracias populares" entre aspas - do Leste da Europa. De fora, ficara apenas a Albânia e a Finlândia, concluía-se no jornal. Na Primavera de 1949 e ao mesmo tempo da constituição da NATO, aquele que costuma ser denominado por Bloco Leste - a esfera de influência russa até ao centro da Europa - estava tão formalmente definido quanto o seu rival ocidental. O exercício argumentativo a que os comunistas muito tempo se dedicaram a invocar depois disso, que o Pacto de Varsóvia só havia surgido seis anos depois da NATO, é apenas isso: um exercício argumentativo. Como se percebe aqui, os blocos já estavam claramente formados em 1949: a constituição do Pacto de Varsóvia em Maio de 1955 é apenas a criação de uma organização militar simétrica à NATO.

15 abril 2024

TENHO 99% DE CERTEZA QUE OS 99% DE TAXA DE SUCESSO NAS INTERCEPÇÕES DOS MÍSSEIS IRANIANOS SÃO UMA ALDRABICE

Embora o assunto seja completamente distinto, estes 99%, que foram compilados com tanta celeridade - ainda os mísseis e os drones iranianos mal tinham acabado de atingir Israel, inteiros ou aos pedaços - estes 99%, escrevia, fazem-me lembrar os escrutínios de eleições em locais tão confiáveis quanto a Coreia do Norte. Há números - o 7 e 99% são dois deles - que têm uma mística muito própria...

A ASSINATURA DO ACORDO DE MARRAQUEXE

(Republicação)
15 de Abril de 1994. Assinatura do Acordo de Marraquexe, envolvendo a assinatura de 124 países e que se veio a revelar a antecâmara da criação da Organização Mundial de Comércio, organização que viria a nascer em 1 de Janeiro do ano seguinte. Foi um verdadeiro safanão no comércio internacional e na ordem internacional que existira até aí, mas também foi uma daquelas ocasiões históricas de cujo valor histórico todos os grandes observadores mediáticos - e, com eles, as opiniões públicas - só se terão apercebido bem depois de ter acontecido.

14 abril 2024

...E SE EU JÁ TIVER LIDO O ARTIGO ORIGINAL DA «THE ECONOMIST»?

Entrando no domínio da análise dos cenários possíveis, se eu já tiver lido o artigo original da revista The Economist em que Teresa de Sousa se pendura hoje para escrever o seu no Público, então tudo aquilo que ela escreve é uma insuportável repetição de ideias alheias a que há que adicionar, ainda para chatear mais, um exercício escusado de name dropping: «Timothy Garton Ash, o historiador de Oxford que tem estudado a Europa como poucos...». Se o artigo é supérfluo, então este último requinte petulante era completamente dispensável... Para uma apreciável percentagem de leitores que se interessam a sério por estes assuntos, onde me incluo, estamos diante de um exercício gratuito de Teresa de Sousa que pediu umas ideias emprestadas para preencher uma página inteira de um jornal. Já tinham lido o original... Depois há uma outra apreciável percentagem de leitores do Público que não se interessam substancialmente por estes assuntos, aqueles para quem a visão de uma página inteira dedicada a este tema da hipotética vitória de Putin na Ucrânia não cativará a leitura. O que restará na intersecção destes dois grupos é um tipo de leitor que, um dos comentadores do artigo de Teresa de Sousa compara, com muita felicidade, com os leitores clássicos das Selecções do Reader's Digest, uma revista octogenária composta de condensações traduzidas de artigos norte-americanos de tendência conservadora (abaixo). Já teve os seus dias, agora o principio está obsoleto, porque uma maioria dos potenciais leitores consegue aceder aos artigos originais e tem capacidade de os ler. Ao ler este artigo de Teresa de Sousa, e fazendo minhas as palavras do comentador a que me referi mais acima «sinto-me como se estivesse a ler as Selecções do Reader's Digest» e eu acrescento, sinto-me a ser tratado como um leitor típico daquela revista, o que está longe de ser um elogio. Teresa de Sousa que se aplique!
Aliás, só para chatear e contraditar aquilo que a Teresa de Sousa escolheu transcrever, a mesma edição da The Economist contém um artigo de opinião de um especialista chinês (este não terá estudado a Europa como poucos, porque é chinês...), artigo esse em que a ideia prevalecente é que os problemas mais graves do conflito se colocam à Rússia, não à Ucrânia. Recorde-se que as maiores críticas à orientação ideológica das Selecções sempre estiveram no critério da sua escolha dirigida dos artigos que publicavam...

«FAKENEWS» DE HÁ NOVENTA ANOS

14 de Abril de 1934. Transcreve-se a notícia do jornal, dada a dificuldade de leitura: «Segundo alguns jornais, constituiu-se nos Estados Unidos uma organização denominada "Camisas de Prata" em que só podem ingressar cristãos americanos cem por cento e que perfilhem a doutrina ariana do hitlerismo. Os seus membros chamam-se "Silver Rangers", ou "cavaleiros prateados" e devem ser "gentlemen" prontos ao sacrifício da sua pessoa e a apoiar a polícia e o exército contra os agitadores vermelhos. O jornal "Liberation", que se aponta como órgão dos "camisas de prata" diz que Roosevelt, "descendente de judeus holandeses, foi eleito graças ao auxílio israelita e que a N.R.A. é uma maquinação de judeus às ordens de Moscovo". Acrescenta que em Herleur (sic), nos arredores de Nova York, há 40.000 negros armados, prontos para um levantamento comunista.»

A notícia não o diz, mas a organização, conhecida por Silver Legion of America, estaria no auge da sua popularidade e contaria então com uns 15.000 aderentes o que, parecendo muito, é perfeitamente irrelevante à escala americana. A NRA criticada é a National Recovery Administration e não a muito mais conhecida (nos dias que correm) National Rifle Association, que se tornou célebre por se opor a toda a legislação que restrinja a venda de armamento nos Estados Unidos. Quanto ao Herleur onde se concentram os 40.000 negros armados, trata-se de uma gralha indesculpável do autor da notícia, referente ao bairro novaiorquino de Harlem, onde 70% da população era negra. No computo geral, pela relevância dada a quem professa ideias radicais, mas amenizando-as e sem lhes conferir qualquer contexto, a notícia pode ser considerada uma longínqua precursora das nossas costumeiras fakenews do século XXI. O führer (passe a ironia) destes legionários prateados chamava-se William Dudley Pelley. Acabou procurado pela justiça (abaixo) e preso e a organização dissolveu-se em 1941.

13 abril 2024

271 VOTOS A FAVOR E 1 CONTRA

13 de Abril de 1949. A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprova uma Lei de Defesa com um montante de despesas que, na altura, era astronómico: quase 16 mil milhões de dólares! A NATO acabara de ser criada, as preocupações com a defesa eram de rigor e o montante que fora aprovado era até mesmo superior àquilo que fora originalmente orçamentado pela administração Truman. Mas o que se tornava mais bizarro no que acontecera seria claramente o resultado da votação: 271 votos a favor e 1 contra. Quem se opusera à lei fora o único representante pertencente ao partido trabalhista americano, que veio a perder o seu lugar nas eleições seguintes em 1950. Hoje a América está diferente, mais plural...

12 abril 2024

PORTUGAL UNO E MULTIRRACIAL... MAS CONTAS À PARTE S.F.F.

12 de Abril de 1974. Em vésperas do 25 de Abril, o Portugal de Marcello Caetano continuava a ser o «uno e multirracial» de Salazar (o marcelismo até criara um novo slogan, melhor adaptado aos novos tempos, o dos «vinte e cinco milhões de portugueses»), mas a compartimentalização financeira do «Portugal Uno» perpetuava, por detrás da propaganda, a concepção imperial da estrutura do conjunto: Portugal e cada uma das suas colónias mantinham em circulação moedas distintas e os acertos de contas das transacções financeiras entre a metrópole e as colónias (e entre estas, também), faziam-se ao ritmo que fosse mais conveniente para Lisboa. E as colónias que registavam saldos comerciais superavitários no seu comércio externo, como era o caso mais flagrante de Angola, ficavam anos à espera que Lisboa procedesse à devida compensação. Esses montantes designavam-se eufemisticamente por «atrasados» e esta notícia acima, de há precisamente 50 anos, dá conta das queixas - muito suaves - apresentadas pelo então «secretário provincial das Finanças e Planeamento», Walter Marques, a respeito da situação que se percebe que já se arrastava desde 1971. Um dos aspectos realçados era que, apesar de - teoricamente - as cotações das duas moedas - o escudo metropolitano e o angolano - se equivalerem, as duas moedas já eram cambiadas em Luanda no mercado livre - ali denominado acintosamente «mercado negro» - à cotação de 0,70 ou 0,75 para 1. Os mercados demonstravam que a colónia (Angola) estava a ser lesada à custa da metrópole (Portugal). E, para além disso, as previsões de Walter Marques para 1975 é que o problema se continuaria a manter («... tal não implica que se inicie o período de licenciamento livre...»). Hoje sabemos que o ano de 1975 veio a ser completamente diferente daquele que Walter Marques estaria a antecipar naquela altura: a questão das finanças terá sido o menor dos problemas com que Angola se confrontou até à independência. Mas estes problemas que aqui recordo, e que acabaram sendo atropelados por outros de gravidade superior depois do 25 de Abril, mostram que, para além da questão política e militar, a estrutura do Portugal de Marcello Caetano, falho das reformas que ele não tivera a coragem de iniciar, essa estrutura estava a ranger em mais do que apenas aqueles aspectos que depois se tornaram mais evidentes.

11 abril 2024

UM «INCIDENTE» A QUE TAMBÉM PODEMOS ASSOCIAR O HINO «DIXIELAND»

Seis antigos polícias do condado de Rankin, no estado sulista do Mississippi, foram condenados a penas entre os 15 e os 45 anos de prisão por terem torturado dois homens que, por acaso, são negros... A história é contada com os devidos detalhes na wikipedia, descrita moderadamente como o «incidente de tortura no condado de Rankin». É nestas ocasiões que me parece oportuno associar aqueles ícones confederados dos anos da Guerra Civil norte-americana (1861-65 - neste caso abaixo, o seu hino oficioso: Dixieland), ícones esses - hinos, bandeiras, estátuas - que se vêem sendo repetidamente evocados, mas evitando sempre que se mencione os valores que lhes estavam por detrás - o racismo e a condição dos escravos negros. Como, de resto, aconteceu muito recentemente com a candidata republicana Nikki Haley, que se esqueceu de mencionar a escravatura como a causa principal para a eclosão da Guerra Civil.

OS CASOS «INAUDITOS» QUE ESTÃO SEMPRE A SER «INAUDITOS», DE CADA VEZ QUE SE REPETEM

Há cem anos - 11 de Abril de 1924 - era notícia uma cena de pugilato entre dois parlamentares britânicos, o conservador Leo Amery (1873-1955) e o trabalhista escocês George Buchanan (1890-1955). Não se sabe qual terá sido o desfecho da «violenta luta de pugilato» mas, pelo menos teoricamente, a vantagem tenderia a pender para o segundo (fotografia da direita), então com 33 anos e 17 anos mais novo do que o opositor. O que interessa destacar do pequeno apontamento, contudo, é a hipocrisia implícita nas considerações prévias como o caso é apresentado ao leitor. Então, numa Câmara composta por centenas e centenas de membros e com uma história já com séculos de trabalhos parlamentares, têm o descaramento de considerar que este foi o primeiro caso ("inaudito"!) de violência parlamentar?... Percebe-se aqui como é que os britânicos preservam uma certa imagem das suas instituições parlamentares: quando lhes convém, tudo acontece pela primeira vez depois da última vez que aconteceu. Os deputados deles raramente andam à pancada e, quando o fazem, é noticiado como se fosse sempre pela primeira vez. Noutros países, com histórias mais recentes de Democracia, mas onde as democracias são menos hipócritas, nem sempre é assim... Os casos "inauditos" repetem-se com alguma frequência... e exuberância!

10 abril 2024

QUANDO UM GOVERNO NÃO TEM IDEIAS SOBRE CERTAS ÁREAS, TERIA SIDO MUITO MELHOR NÃO FINGIR QUE AS TEM...

Sobre a área da Defesa, o que há a considerar é que há duas guerras em curso (na Ucrânia e na Palestina) e que os cenários de evolução da situação internacional são extremamente imprevisíveis. E que o grande desafio dos governos ocidentais consiste em persuadir as suas opiniões públicas para essas ameaças, desviando recursos para a segurança e defesa colectivas. O que acima se pode ler é um encadeado de trivialidades e lugares comuns - como se percebe pelo que está a acontecer na Ucrânia, o problema é tanto de falta de meios humanos quanto de carências materiais, de falta de meios de combate, algo que o texto síntese acima nem sequer aflora. O compromisso - aproximar o valor da despesa a 2% até 2030 - é o mesmo que já vinha do anterior executivo. Ideias novas e/ou diferentes: zero. A personalidade para as implementar - Nuno Melo, o ministro do parceiro faz-de-conta da coligação - é outro zero. Em termos de comunicação, suponho que teria sido muito mais inteligente apresentar só compromissos em nove áreas essenciais... Se o vazio é aquele que se lê ali em cima e está entregue ao Nuno Melo, o melhor teria sido não qualificar a área da Defesa de essencial.

A DEMISSÃO DE GOLDA MEIR EM ISRAEL

10 de Abril de 1974. Golda Meir, que era desde 1969 a primeira-ministra de Israel, anuncia a sua demissão do cargo. O gesto, que tem lugar à saída de uma reunião política, é considerado inesperado, mas todas as notícias que dão conta do ocorrido (como esta acima) não adiantam quaisquer explicações para a decisão. Hoje sabe-se que a origem da controvérsia e contestação que levou à demissão de Golda Meir assentava nas conclusões do relatório da Comissão Agranat (já aqui abordada neste blogue), conclusões essas que se escusavam de atribuir responsabilidades na impreparação do exército israelita durante a eclosão da Guerra do Yom Kippur à primeira-ministra e ao ministro da Defesa Moshe Dayan. As conclusões haviam saído no princípio daquele mês e a sua indulgência causara uma reacção antagónica disseminada. Desconfia-se que será para evitar um efeito colateral semelhante a este que o actual primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu persevera para que a ofensiva em Gaza continue. Enquanto se mantiver a guerra, não haverá espaço para inquirições e comissões para que haja um apuramento de responsabilidades políticas quanto à impreparação do exército israelita durante o ataque do Hamas de 7 de Outubro de 2023. Conhecendo a história, Netanyahu não quer cometer o mesmo erro que a sua antecessora.

09 abril 2024

O NAVIO «HIDROGRÁFICO» QUE OS RUSSOS ROUBARAM AOS UCRANIANOS

9 de Abril de 1994. Uma pequena notícia da Reuters dá conta da defecção da Ucrânia para a Rússia de um dos navios da esquadra do Mar Negro. Como se pode ler nela, o navio estava acostado no porto de Odessa, na Ucrânia, quando a tripulação, estimada em aproximadamente 45 marinheiros e composta predominantemente por russos, contrariando as ordens de Kiev (a quem o navio fora, aparentemente, alocado), decidiu cortar amarras a meio da noite, partindo para parte incerta. Como é costume nestas ocasiões, os queixosos ucranianos atribuíam um valor desmesurado ao prejuízo incorrido com a deserção. A realidade é que o navio, que a notícia identifica como o «Cheleken», fora originalmente construído na Polónia em 1970 e era um daqueles navios que, apesar de classificados por soviéticos como «hidrográficos», estava equipado com equipamentos de escuta e espionagem, para acompanhar as unidades navais da NATO. Como a notícia explica, o processo de divisão dos activos da Frota do Mar Negro entre a Rússia e a Ucrânia, depois da extinção da União Soviética, já levava três anos e estava recheado de incidentes dos dois lados. Recorde-se que isto acontece 20 anos antes da ocupação russa da Crimeia. É uma história de um conflito latente que não tem inocentes. Pode ter ingénuos (como será o caso da Ucrânia, ao ceder o controle do arsenal nuclear em seu território com contrapartidas), mas inocentes não.

08 abril 2024

ATÉ PODE ESTAR «ESCRITO», MAS A PALAVRA DE MARCELO TAMBÉM PASSOU MUITAS VEZES NA TELEVISÃO...

O actual presidente da República parece não se aperceber que, por causa dos anos consecutivos das suas aparições televisivas, os portugueses consideram que o conhecem. Isso pode ser bom e certamente tê-lo-á ajudado a ser eleito e reeleito, porque tinha uma popularidade muito própria. Mas também existe o outro lado. A palavra de Marcelo, depois de episódios acumulados de aldrabices televisivas nos seus programas dominicais, está sintetizada no famoso vídeo sobre as profecias de Marcelo Rebelo de Sousa feito pelos Gato Fedorento em 2006. Assim, quando ele assegura "está escrito", como acaba de acontecer com este último episódio do folhetim das gémeas, só por elegância e por causa do cargo que actualmente ocupa, é que uma apreciável percentagem das pessoas - onde me incluo - que acompanham aquele assunto não lhe respondem aquilo que nos parece óbvio: se calhar, o presidente leu mal...

DE GAULLE DESEMBARAÇA-SE DO SEU RIVAL E CONSEGUE FINALMENTE PERSONALIZAR «A FRANÇA»

(Republicação)
8 de Abril de 1944. Depois de quase quinze meses de uma convivência cada vez mais difícil, os dois generais rivais franceses, Giraud (esq.) e de Gaulle (dir.), têm uma reunião onde o segundo informa o primeiro que o órgão colectivo que dirige a França alternativa a Vichy, o CFLN (Comité Francês para a Libertação Nacional), o pretendia nomear Inspector Geral dos exércitos, por se ter decidido a supressão do último cargo militar de relevo que ainda Giraud desempenhava (comandante-chefe). A reacção foi, como se imagina, tempestuosa, mas o assunto selava a prolongada disputa entre os dois generais. Não só de Gaulle fora muito mais habilidoso politicamente do que o seu rival, limitando-lhe progressivamente os poderes, como a facção que ele encabeçava possuía o ascendente moral de ter estado do lado certo desde 1940, arregimentando simpatizantes entre os rivais (os comunistas, por seu lado, só haviam iniciado o combate em 1941). A acrescer, a conduta de Giraud também não gerara grande entusiasmo entre os americanos: se se lhe colara a fama de ser um "homem dos americanos", na prática, não se comportava como tal. Discretamente, aqueles retiraram-lhe o seu apoio. O que de Gaulle fez, com o seu faro político, foi pressentir o desapontamento de Washington, e atacar na altura propícia. O destaque dado à notícia constituirá uma espécie de humilhação final quanto ao destino do infeliz rival do homem que «sempre tivera uma certa ideia da França».

AFINAL ENGANARAM-SE QUANTO AO PIB DA ROMÉNIA ULTRAPASSAR O DE PORTUGAL, MAS O PIOR É QUE CONTINUAM ESTÚPIDOS E A DAR NOTÍCIAS DISTORCIDAS

Que me desculpem aqueles leitores que quiserem seguir a história da minha embirração com estes artigos malparidos do Expresso a respeito da nossa rivalidade paritária com a Roménia, mas quem as quiser compreender, a essas embirrações, terá que ir ler dois postes que aqui publiquei em Dezembro de 2022. Os dois postes - de 9 de Dezembro e 21 de Dezembro - desmontam notícias pessimistas então publicadas pelo Expresso (e validadas pelo Polígrafo SIC!), antecipando que a Roménia iria ultrapassar economicamente Portugal. Os problemas é que aquele indicador tem algumas limitações e não serve para comprovar aquilo que a notícia sugeria (que a economia portuguesa iria ser ultrapassada em valor global pela romena), e, por outro lado, aquilo que então o Expresso anunciava eram apenas projecções que podiam não se vir a concretizar.

Que não se concretizou, como se constata pela notícia acima, aparecida esta semana, dezasseis meses depois... Lá no Expresso enganaram-se, estão a admitir que se enganaram, mas poupem-se os elogios, porque o jornalismo ali praticado continua estúpido como o criticara originalmente: ainda não perceberam as limitações d«o produto per capita português, expresso em paridades (sic) de poder de compra»; mas, pior do que aquela ignorância, mantêm-se a capacidade de darem notícias propositadamente distorcidas. Na parte sublinhada acima pode ler-se que, entre os 27 países da União, Portugal subiu do 21º lugar em 2022 para o 18º lugar em 2023. Ou seja, Portugal ultrapassou três países este ano, mesmo que isso aconteça num indicador que eles, no Expresso, nem percebem o significado. Mas não foi essa a notícia do Expresso! O artigo nem sequer identifica os países que Portugal ultrapassou! O que é destacado para título é que a Roménia ainda - destaque-se a palavra ainda - não ultrapassou Portugal. A atitude é de um pessimismo recorrente. Este é o jornalismo que temos: a notícia que se quer publicar é aquela que diz mal de nós próprios, mesmo quando isso não é rigoroso. E tudo isto cria uma antipatia para com o jornal e para com o jornalista.

07 abril 2024

AS "DEMISSÕES" NO EXÉRCITO ISRAELITA - OS DEMITIDOS TÊ-LO-ÃO SIDO COM JUSTA CAUSA?...

Em consequência dos ataques (separados) que o exército israelita efectuou sobre três jipes de uma ONG em Gaza, ataques esses que causaram sete mortos, as relações públicas dos israelitas vieram informar a comunicação social internacional que os militares iriam demitir dois oficiais seniores por... cada um dos três órgãos de comunicação do exemplo acima escolhe a sua versão: "serious violation of commands", "serious failure" ou "mistaken identification"! Deixei passar dois dias aguardando que este disparate fosse emendado, complementando-o com algo de mais substantivo sobre o assunto... mas não. É que oficiais do exército israelita, ou de qualquer outro exército (decente) do mundo, quando cometem erros desta gravidade e diante de toda uma opinião pública mundial, a terem de ser sancionados, tê-lo-ão diante de um tribunal militar e não apenas com uma qualquer pena de demissão administrativa, como se se tratasse de empregados de uma empresa comercial que tivessem feito uma asneira menor. Quando vemos aquela mesma comunicação social internacional a dar voz à reacção da ONG que foi atacada (WCK), com esta última a considerar que o exército israelita não pode ser juiz da sua própria conduta, aquilo que parece a este observador é que, não só o assunto parece encerrado para os israelitas, como lhes falta, aos órgãos de comunicação social de todo o mundo, a capacidade de ir ao fundo deste caso, tendo sido completamente toureados quanto ao que seria de esperar das autoridades israelitas nestas circunstâncias. Atiraram-lhes com um coronel e um major demitidos, sem explicações substantivas, e é assim que parece que está o assunto encerrado.

O DISCURSO DE APRESENTAÇÃO DA »TEORIA DO DOMINÓ»

7 de Abril de 1954. Numa «conferência de imprensa» que foi televisionada e radiodifundida (abaixo), o presidente norte-americano, Dwight Eisenhower, confere uma perspectiva estratégica às consequências de uma derrota ocidental na Indochina (Vietname), derrota essa que cada vez mais se tornava provável. Segundo as explicações que dera, a queda da Indochina poderia arrastar atrás de si as regiões adjacentes na Ásia: Tailândia, Malásia, Filipinas, Coreia, Japão, etc. No dia seguinte o New York Times publicava um mapa esclarecedor (acima) e algum tempo depois o discurso e o conceito ganharam uma designação identificativa por causa de uma passagem mais imaginativa do discurso: a teoria do dominó. O «efeito dominó» veio a permitir que as administrações norte-americanas apresentassem como indispensáveis intervenções em locais que não ameaçavam directamente os interesses dos Estados Unidos, locais esses que a sua opinião pública não fazia ideia de onde ficavam, mas que, por efeito de contágio, podiam tornar-se muito perigosos. Como veio a ser o caso mais flagrante do Vietname.

06 abril 2024

A VITÓRIA DOS «ABBA» NO EUROFESTIVAL E AINDA ALGUNS OUTROS ASPECTOS MENOS EVOCADOS A RESPEITO DO ACONTECIMENTO

A 6 de Abril de 1974 realizava-se o Festival Eurovisão da Canção que viria a ser ganho pela canção concorrente sueca «Waterloo» interpretada pelos ABBA. Como se percebe acima pelas imagens do acontecimento, o registo da participação sueca era ligeiro, com o maestro a comparecer mascarado de Napoleão, atitude que recebeu algumas críticas, considerando esses críticos que o teor da canção remetia para uma batalha que traçara os destinos da Europa em 1815. Enfim, já há cinquenta anos havia quem tivesse opiniões estúpidas. Um outro aspecto colateral raramente mencionado é que, cinco anos antes, a Suécia decidira desistir de concorrer àquele mesmo Festival. Foi uma birra que lhes passou depressa. Tal como Portugal, estiveram ausentes da edição de 1970, mas regressaram em 1971. E, por falar em Portugal e da participação portuguesa neste mesmo certame, o nosso país foi representado por Paulo de Carvalho a cantar «E depois do Adeus». Uma canção ainda hoje muito acarinhada por ter sido, conjuntamente com «Grândola Vila Morena», uma das canções-senha para as movimentações militares que deram origem ao 25 de Abril de 1974. Mas a 6 de Abril daquele ano ela ainda era apenas a nossa concorrente ao Eurofestival, de onde saiu classificada num tristonho último lugar (compartilhado com a Alemanha, a Noruega e a Suíça), tendo recebido uns míseros 3 pontos.

O GENOCÍDIO DOS TUTSIS

(Republicação)
6 de Abril de 1994. Com o derrube do avião em que viajava o presidente ruandês na sua aproximação ao aeroporto de Kigali, criavam-se as condições para a eclosão de um massacre indiscriminado da população tutsi do Ruanda. O massacre irá ser perpetrado pelas próprias forças armadas e militarizadas do Ruanda, constituídas predominantemente pela etnia rival e maioritária dos hutus. Uma parcela significativa do genocídio, especialmente fora dos centros urbanos, será cometido pelas próprias populações hutus, e a arma simbólica deste genocídio, ocorrido às vésperas do Século XXI, será, paradoxalmente, a catana. Durou cerca de três meses, terá provocado de 500 mil a um milhão de vítimas, a indústria mediática mundial nunca o levou devidamente a sério e, ao contrário do que se verifica com outros genocídios, onde as vítimas estão precisamente identificadas (o Holocausto ou o dos Rohingya, por exemplo), a maneira como tende a ser designado (Genocídio no Ruanda), esquece-se de enfatizar quem foram as suas vítimas principais e primordiais - os tutsis.

05 abril 2024

OS "SOBREVIVENTES" DO "ASSUSTADOR" TERRAMOTO DE NOVA IORQUE

Houve um pequeno terramoto em Nova Iorque e a CNN (acima) passa mais de dez minutos a tentar fazer assunto daquilo que aconteceu, perguntando aos seus correspondentes no local o que lhes acontecera. E, evidentemente e porque são funcionários dedicados, mesmo quem não sentiu nada ter-se-á obrigado a "ter sentido". Houve mesmo um que se atreveu a empregar o verbo "sobreviver". Ora, sobreviver ao incidente é que é capaz de ser excessivo. Pelas descrições, o abalo terá sido tão ligeiro que nem sequer terá havido pratos partidos que não sobrevivessem ao assustador terramoto de Nova Iorque... Apresentado ainda de uma outra forma, este terramoto teve uma intensidade muito aproximada ao do terramoto que aterrorizou os militantes do PSD quando Luís Montenegro discursava há quase dois anos na Festa do Pontal... Creio que a dificuldade aqui não será "sobreviver" ao episódio, será mesmo ter sido afectado de alguma forma (menor) por ele. Quanto a survivors, depois do exemplo original (e verdadeiramente apropriado) dos fornos de gás de Auschwitz, já se passou para a sobrevivência às agressões sexuais relatadas pelo movimento Me Too e o conceito original de "sobrevivência" continua a desvalorizar-se acentuadamente ao longo destes últimos anos com a bênção das câmaras de televisão...

O comentário sobre a «Nota à Comunicação Social» a respeito d«o caso das gémeas tratadas no Hospital de Santa Maria» recebeu um aditamento para o qual acho merecido chamar a atenção.

«SMELL LIKE TEEN SPIRIT»

(Republicação)

5 de Abril de 1994 é a data estimada do suicídio de Kurt Cobain (1967-1994). O seu cadáver só veio a ser encontrado três dias depois, acompanhado da nota abaixo. Esta música «Smells Like Teen Spirit» é, de longe, o maior sucesso dos Nirvana. Trinta anos entretanto passados, os teenagers que então exalariam o espírito tornaram-se hoje maduríssimos quarentões. Eu, que já por lá passei, fiquei sem saber se naquela geração também há um cheiro de espírito de quarentões...

04 abril 2024

EM ESTILO DE «RESERVOIR DOGS»

Há coisa de um ano, o governo antecedente de António Costa exibiu-se numa fotografia que nos fazia lembrar a primeira parte - a paralítica - de um daqueles tradicionais vídeos do Harlem Shake... (que haviam estado na moda dez anos antes) Em contraste e como seria de esperar, a pose e estilo como o novo executivo se pretende apresentar são completamente diferentes, dinâmicos, a lembrar-nos a abertura do filme «Reservoir Dogs»...
Para além da semelhança estética, uma certa orientação muito predominante na comunicação social nas críticas elogiosas como os comentadores estão a acolher o novo executivo, faz-me lembrar precisamente a atitude como costumam ser acolhidos todos os filmes de Quentin Tarentino...

FOI O EX-SECRETÁRIO DE ESTADO QUE ACABOU POR FICAR COM A BOMBA DAS GÉMEAS BRASILEIRAS NAS MÃOS...

Já se antevia este desfecho, mas a cena é pior do que eu esperava: quando o antigo secretário de Estado desce ao nível do jogo do dize tu, digo eu com (aquela que se presume já não ser) a sua secretária pessoal, ele perde ainda mais do que a dignidade de ter sido ele a ter metido a cunha do tratamento das gémeas pelo filho do presidente. Se a sua antiga secretária pessoal andava a agir por iniciativa própria, pedindo emprestada o prestígio e a autoridade da função nas suas costas e sem ele saber de nada, então Lacerda Sales ainda devia ter mais vergonha, porque está a admitir ter sido um completo palhaço na função... Que cena deplorável!

Adenda do dia seguinte: Ao contrário do que se deduziria daquilo que apareceu noticiado, não foi o relatório original da investigação «ao caso das gémeas tratadas no Hospital de Santa Maria» que foi tornado público, mas antes uma "Nota à Comunicação Social" a respeito daquele assunto. Acontece que a colunista do Público Susana Peralta acabou por ter acesso a esse original e deu-se ao curioso trabalho de comparar expressões que aparecem repetidamente mencionadas no relatório mas que são omitidas de todo na nota para a comunicação social:
Creio que há quem dê a alcunha a esta acção de depuração do conteúdo que é inconveniente de pasteurização da notícia. E não deixa de ser significativo do que esperar da classe jornalística que seja uma colunista e não um jornalista a chamar a atenção para o truque. Já se percebera que o enforcado deste caso vai ser Lacerda Sales. (E está a estrebuchar com uma enorme falta de dignidade...) Mas o que se depreende desta manobra é que se está a fazer um enorme esforço para que ele seja o único.

A ASSINATURA SOLENE DO PACTO DO ATLÂNTICO

(Republicação)
4 de Abril de 1949. Com destaque de primeira página e amplo desenvolvimento noticioso nessa e na última página, noticia-se a assinatura solene do Pacto do Atlântico. Assinam-no doze países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. Portugal faz-se representar na cerimónia pelo veterano José Caeiro da Mata, ministro dos Negócios Estrangeiros. Se a sua fotografia na primeira página é demonstrativa de uma certa ingenuidade daquela época para com as novas artimanhas publicitárias (o logotipo da TWA bem à vista quando descia do «avião em que cruzou o Atlântico»), o teor das suas declarações publicadas na última página mostra as preocupações da diplomacia portuguesa com o sucesso que alcançara: não excitar demasiado os ciúmes do regime espanhol (que fora proscrito da NATO).

03 abril 2024

"Pai, sou ministra!" - O DESCARAMENTO ILIMITADO DE JOSÉ MIGUEL JÚDICE

Comecemos por recordar o episódio, já com mais de trinta anos, em que Manuel Dias Loureiro se celebrizou pelo telefonema que fez ao pai, anunciando-lhe que se tornara ministro. O episódio era de uma rusticidade enternecedora, própria de uma família de Aguiar da Beira. Ontem, passando quase desapercebido (ver abaixo), tivemos direito a uma reedição do século XXI, mas para meninas: a nova ministra da Justiça compareceu à tomada de posse fazendo-se acompanhar pelo... pai. Continua a ser enternecedor e apercebemo-nos que a rusticidade também dá nas melhores famílias... O que eu ainda não me apercebi foi de ecos do episódio de ontem a ser gozado como aconteceu em Julho de 1989 com o então deslumbrado ministro dos Assuntos Parlamentares. As melhores famílias desenvolveram um tão completo sentido de impunidade nos tempos que correm que o pai da filha ministra até teve o descaramento de aparecer nesse mesmo dia (ontem), depois da tomada de posse da filha, a «analisa(r) os primeiros dias do governo» de que a filha faz parte no seu programa de televisão... Não vi, não quero ver, não faz sentido sequer ver o programa, mas aposto que José Miguel Júdice não deve ter dito mal do governo... E o que é estranho é que não dei por ninguém que tivesse apontado enfaticamente o absurdo descarado de toda esta situação.

Citando o próprio José Miguel Júdice, no seu próprio estilo «arrasador», só que voltando-se agora contra si mesmo: «Se isto não é conflito de interesses, (então) o que é?»

O JAPÃO DURANTE E APÓS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Intermezzo para assinalar dois livros interessantes sobre o Japão durante e após a Segunda Guerra Mundial. Bibliograficamente, e por causa do nosso eurocentrismo, costuma ser o teatro secundário daquela magno conflito. No primeiro caso, trata-se de uma recolha de testemunhos variados de como os japoneses viveram a guerra (que, para eles, havia começado muito mais cedo, com a sua invasão da China em 1931). No segundo, é um relato circunstanciado do que aconteceu durante o julgamento de Tóquio, a versão asiática dos julgamentos de Nuremberga, mas com muito menos repercussão moral, já que os americanos estiveram, desde o início, apostados em poupar o imperador Hirohito (que nem chegou a ser julgado). Estes são livros que mereceram o tempo que lhes dediquei, ao contrário de um outro livro sobre o Japão deste mesmo período, que comprei recomendado pela prémio Pulitzer que ganhara, e que aqui dei conta do quão desapontadoramente maçudo era.

OS ÚLTIMOS VESTÍGIOS DA DISPUTA PELA SUCESSÃO DE ESTALINE

3 de Abril de 1964. Num artigo publicado no oficialíssimo Pravda, órgão central do Partido Comunista da União Soviética, artigo esse que aparecera assinado por aquele que era o oficialíssimo ideólogo do partido, o camarada Mikhail Suslov, o Mundo ficava a saber que os camaradas Vyacheslav Molotov, Geórgiy Malenkov e Lazar Kaganovich haviam sido expulsos do partido por ocasião de uma reunião do Comité Central que tivera lugar mais de um mês antes, a 14 de Fevereiro de 1964. Hoje esquecidos, qualquer daqueles três homens pertencera ao círculo que rodeava o ditador Estaline e fora elemento importante na disputa para a sua sucessão depois da sua morte em 1953. (Em parêntesis, confirme-se no vídeo abaixo que todos os três aparecem como personagens destacadas no filme comédia negra A Morte de Estaline de 2017). Mas Estaline morrera onze anos antes e o vencedor da disputa que se seguira fora Nikita Khrushchev. Como o próprio artigo do New York Times se encarrega de recordar os seus leitores, eles já haviam sido afastados dos cargos cimeiros do partido a partir de 1955 e desterrados administrativamente para cargos subalternos em localidades esconsas da imensa Rússia. Mas, pelos vistos, o que se ficava a saber há sessenta anos é que essa sanção não fora considerada suficiente.
Compare-se agora a mesma notícia original quando publicada num jornal português, em que a referência às expulsões não pôde ser referida. Isto é um exemplo concreto da diferença entre uma informação livre e outra tutelada.

02 abril 2024

NÃO ME DIGA QUE VOCÊ JÁ SE ESQUECEU DO QUANTO FOI «IMPORTANTE» O MOVIMENTO 5.7?!...

Aqui há cinco anos eram os órgãos da comunicação social tradicional (e não as redes sociais...) que se mostravam ao rubro perante o fenómeno do lançamento de um denominado Movimento 5.7 que se destinaria a «agregar as direitas», para acabar com «o longo Inverno socialista». Miguel Morgado era o nome que - como a pasta medicinal Couto - andava na boca de toda a gente e ainda hoje impressiona a onda publicitária que o acompanhou por estes dias de há cinco anos, mesmo num jornal que não seria particularmente simpático para com as suas cores, como é o caso do Público. Visto a esta distância, no mosaico acima está lá a coreografia toda. Acompanhando as notícias do mosaico no sentido da leitura - todas elas foram publicadas no Público! (imagine-se em locais menos hostis...) - começamos pela sessão de apresentação do próprio (Morgado), seguida de uma outra complementar para dizer ao que vinha: acabar com o «longo inverno socialista» (António Costa e a periclitante geringonça estavam no poder desde Novembro de 2015 e ia haver eleições dali a seis meses). João Miguel Tavares é o homem de serviço à direita para abraçar entusiasmadamente todos os projectos oriundos daquela área política e este não foi excepção: a fórmula desta vez foi «o abalo na política da cristaleira». Depois concedeu-se a oportunidade à estrela em ascensão para apresentar os seus pergaminhos numa entrevista em que ele zurziu como pôde no primeiro-ministro: «António Costa tem a posição típica do radical extremista». Até arrepia ouvir! Segue-se o processo de nomear pessoas conhecidas que se mostram ansiosas por fazer parte do Movimento 5.7, processo designado cinicamente por name dropping; aqui houve um certo excesso, quem ler o mosaico central fica-se quase com a sensação que o CDS estava ansioso por se mudar todo com armas e bagagens para o movimento do Morgado... Depois foi a fase em que foi preciso que o movimento organizasse umas coisas para dar uma prova de vida: a um mês das eleições europeias, propunha-se debater «a Europa e o Futuro», mas «sem partidos». Está-se mesmo a ver qual foi o sucesso da iniciativa... E depois foi só preciso dar tempo ao tempo para que os verdadeiros objectivos da iniciativa viessem à superfície, à procura do apadrinhamento de Passos Coelho à iniciativa de Morgado disputar a liderança do PSD. Omisso do mosaico estão os resultados das eleições de Outubro de 2019, que seriam o detonador da disputa pela liderança do partido. Mas as duas últimas notícias mostram que os acontecimentos não se propiciaram: o Movimento 5.7 acabou a definir «linhas para relançar a cultura de direita» - cultura que devia andar desalinhada e ninguém dera por nada até aí - e «Miguel Morgado desistia de se candidatar à liderança do PSD». Afinal era isso! E nós a pensar que era tudo cultura.

Era para publicar esta evocação ontem, que foi Dia das Mentiras, mas publico-a hoje, em que o governo de Luís Montenegro toma posse, para recordar Miguel Morgado que, apesar de ter sido levado ao colo pela comunicação social (se isto que vêem acima foi o Público, imaginem o que não lhe terá feito o Observador!...), apesar da sua excelência, é mais um daqueles excelentes quadros do PSD (já aqui me referi a Poiares Maduro) que não faz parte do excelente elenco que hoje toma posse. Ele, que nos seus dias de fama, até se propusera - como abaixo se lê - «reconstruir a direita»! Não a temos agora mais reconstruida que nunca?!...

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL 1939-49

2 de Abril de 1949. Foi só neste dia que se recuperou a prática de iluminar as cidades britânicas como se fizera até à eclosão da Segunda Guerra Mundial no Outono de 1939. Para as crianças britânicas era uma verdadeira novidade os anúncios luminosos nas fachadas dos edifícios das zonas centrais das cidades; para os adultos - que, como se vê acima, se concentraram para os rever - aqueles anúncios eram uma saudade. É por isso que, do ponto de vista da iluminação pública, se pode dizer que o Reino Unido esteve em guerra de 1939 a 1949.

A MORTE DO PRESIDENTE FRANCÊS GEORGES POMPIDOU

2 de Abril de 1974. Morte simultaneamente inesperada e esperada do presidente francês Georges Pompidou. A morte é inesperada para o grande público: o presidente Pompidou contava então 62 anos e fora eleito em Junho de 1969 para um mandato de sete anos, que terminaria em 1976. A morte é esperada entre o círculo próximo da presidência francesa e também entre as elites mundiais que estão normalmente mais bem informadas do que os comuns. O presidente padecia de uma doença cancerígena denominada macroglobulinemia de Waldenström que lhe fora diagnosticada alguns anos antes (quantos, é questão de controvérsia). Os tratamentos a que se submetera haviam-lhe provocado alterações físicas - a sua cara inchara, por exemplo, o andar tornara-se arrastado - que era possível disfarçar, a custo, perante a comunicação social, mas que era impossível disfarçar nos encontros com os seus homólogos. Soube-se depois que a CIA, aquando de uma das viagens de Pompidou ao estrangeiro, procedera a uma operação para recolha da sua urina, por forma a fazer um diagnóstico independente da doença que o afectava. Para os primeiros meses de 1974, os cancelamentos sucessivos da agenda presidencial tornavam cada vez mais difícil aos responsáveis do palácio do Eliseu esconder do conhecimento geral os problemas de saúde do seu ocupante. As imagens acima são das suas exéquias, que tiveram lugar a 6 de Abril na catedral de Notre-Dame de Paris, onde, entre os cerca de 3.000 presentes, se contavam 28 chefes de Estado entre as delegações representativas de 82 países. A questão da transparência do estado de saúde do presidente francês foi muito discutida na época, houve promessas de que aquele secretismo não se repetiria, mas, passados uns quinze anos, durante a presidência de François Mitterrand, voltou tudo a acontecer de novo, quase rigorosamente idêntico, mas com a significativa diferença que Mitterrand não morreu em funções, mas apenas oito meses depois de abandonar o cargo.