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04 janeiro 2024

A PRIMEIRA VIAGEM DE UM PAPA NO SÉCULO XX

4 de Janeiro de 1964. O então papa Paulo VI realiza a primeira visita de um papa ao estrangeiro. Desde há muito que os papas se ficavam por Roma. Quanto saíam de lá era mau sinal: por exemplo, quando Napoleão obrigara Pio VII a ir a Paris para estar presente na sua coroação em 1804. Contudo, esta saída de Paulo VI, porque fora livremente empreendida, revestia-se de todo um outro significado, a começar pelo destino: a cidade de Jerusalém e a Palestina (designação que era substituída nos noticiários por Terra Santa). Mesmo durante os tempos medievais do apogeu do poder do papado, nunca um papa lá estivera. Recorde-se que, à época (1964), Jerusalém era uma cidade dividida entre israelitas e jordanos e estes últimos administravam a Cisjordânia, incluindo a cidade de Belém. E a visita papal processou-se a partir da Jordânia (onde aterrara o avião que o transportara, como se lê acima), com o rei Hussein (um muçulmano) como anfitrião. Nessa altura o Vaticano não mantinha relações com Israel, algo que só virá a acontecer daí por 30 anos. A visita, embora plena de cobertura mediática e repleta de acontecimentos anunciados como históricos, foi breve: dia 6, Paulo VI regressará a Roma.

30 dezembro 2023

JUDEUS E CATÓLICOS

(Republicação)
30 de Dezembro de 1993. Apesar de o Estado de Israel ter mais de 75 anos, foi há apenas 30 que o governo israelita e o Vaticano estabeleceram relações diplomáticas formais. E, como se pode apreciar acima através de uma fotografia recente dos dois titulares, a relação continua a ser muito pouco descontraída, assaz cerimoniosa... E isto apesar de uma apreciável percentagem de peregrinos que visitam Jerusalém e robustecem a indústria do turismo israelita serem católicos.

17 dezembro 2023

SÓ MESMO JOSÉ SÓCRATES É QUE NUNCA MAIS VAI A JULGAMENTO...

Depois de dois anos e meio de julgamento, foi notícia discreta deste Sábado a condenação a cinco anos e meio de prisão do cardeal Ângelo Becciu. O anúncio foi feito pelo Vaticano, o Estado sob a jurisdição na qual decorreu o julgamento. As acusações, como se pode ouvir no vídeo acima de 2021, foram de peculato, abuso de poder e suborno (de testemunhas). O dia de fim de semana que foi escolhido para anunciar as sentença do julgamento são indício que o próprio Vaticano não lhes quer conferir grande repercussão mediática, mas a condenação a uma pena de prisão efectiva de uma figura de tal destaque na hierarquia eclesiástica - cardeal e arcebispo - é qualquer coisa de inusitado. Só no ministério público português é que se anda há nove anos a conseguir levar José Sócrates a tribunal...  

19 julho 2023

O BOMBARDEAMENTO DE ROMA

(Republicação)
19 de Julho de 1943. Há 80 anos Roma era fortemente bombardeada pelos Aliados. Entre as várias razões pelas quais a cidade permanecera relativamente incólume durante os quase quatro primeiros anos que então já levava a Segunda Guerra Mundial - era apenas o segundo bombardeamento que sofria - destacar-se-ia, decerto, o seu simbolismo como capital da cristandade. A acrescer a esse aspecto mais espiritual, colocava-se o mais concreto de que uma pequena parcela de Roma (44 hectares) que até era um país neutral: o Vaticano. A decisão de bombardear Roma só fora tomada pelos altos comandos aliados depois de ponderadas hesitações. Mas a sua situação central na península italiana, como nódulo das ligações rodoviárias e ferroviárias entre o Norte e o Sul de Itália e ainda os seus aeroportos (Littorio, Ciampino) tornavam-na num objectivo táctico indispensável de atingir para prejudicar a logística inimiga (especialmente a alemã), ainda para mais quando se combatia no Sul, depois dos recentes desembarques aliados na Sicília. Dessa vez foram catorze as esquadrilhas de bombardeiros da USAAF a lançar cerca de mil toneladas de bombas sobre a cidade milenar. Como era constante durante a época, a precisão do bombardeamento... não teve nada de preciso. Ficaram destruídos incontáveis edifícios civis, incluindo a Basílica de São Lourenço Fora de Muros. O contagem dos mortos e feridos provocados pelas bombas varia desde um mínimo de 719 mortos e 1.659 feridos até um máximo de cerca de 3.000 mortos e 11.000 feridos. Aproveitando o hiato deixado por um regime fascista em vias de se desagregar (e Benito Mussolini estava, nesse dia, longe de Roma, num encontro com Adolf Hitler), o papa Pio XII preencheu o vácuo político assumindo as suas funções pastorais como bispo de Roma, visitando e confortando as populações mais atingidas. Na imagem acima vêmo-lo recitando o «De Profundis». Em contraste, a limousine de Vítor Emanuel III, o rei, foi vaiada e apedrejada quando da sua visita aos bairros afectados.

30 maio 2023

O PAPA JOÃO XXIII IRIA MORRER "CURADO"

30 de Maio de 1963. Tornou-se um padrão canónico do jornalismo que, quando as agonias das figuras públicas se arrastam por demasiado tempo sem desfecho, ou se esquece o assunto ou (como aqui acontece, já que é difícil esquecer um papa moribundo...), pega-se em tudo o que forem indícios, ainda que ténues, de recuperação, para continuar a dar um certo interesse à notícia. Neste caso de há 60 anos, depois de duas semanas de uma degradação crescente do estado de saúde do papa João XXIII, parecia que houvera uma súbita e miraculosa recuperação («...as perdas de sangue diminuem e o pulso está sereno...»;«...permitindo esperar que o desenlace fatal não sobrevirá nas próximas semanas.»). Só parecia. João XXIII virá a falecer em 3 de Junho.

13 junho 2021

...A FRACÇÕES DE SEGUNDO DOS DISPAROS

As duas fotografias deste poste têm precisamente um mês de diferença entre elas: 13 de Maio de 1981 a de cima e 13 de Junho de 1981 a de abaixo. Trata-se de dois atentados contra Chefes de Estado, o Papa João Paulo II em Roma e a Rainha Isabel II em Londres e dá-se ainda a espantosa circunstância das duas fotografias terem sido acidentalmente tiradas precisamente antes dos autores dos atentados terem começado a disparar sobre os seus alvos. Mas o resto das histórias diferem substancialmente. Os tiros da pistola de Mehmed Ali Agca atingiram João Paulo II por quatro vezes. O revólver de Marcus Sarjeant estava carregado com balas de salva¹ que se limitaram a assustar o cavalo de Isabel II. João Paulo II foi submetido a uma intervenção cirúrgica de urgência que o salvou mas que durou cinco horas. Isabel II limitou-se a apanhar um susto enorme. Ali Agca era turco e muçulmano e até hoje permanecem algo nebulosas as intenções por detrás do seu acto. Sarjeant era britânico e queria adquirir notoriedade. ¹ Também designadas por festim.

23 novembro 2020

A EXCLUSÃO DOS VELHOS CARDEAIS

23 de Novembro de 1970. Em lugar de destaque (primeira página), mas ainda assim num formato discreto e conciso, dá-se conta da última decisão do papa Paulo VI (então com 73 anos), a de excluir futuramente os cardeais que tivessem atingido os 80 anos das votações para a eleição daqueles que viessem a ser os seus sucessores. Esta decisão iria excluir 25 dos 127 cardeais existentes, reduzindo os votantes do colégio dos cardeais a 102. Os jornalistas incidiram os comentários a esta decisão de Paulo VI na questão de se criar um maior equilíbrio das nacionalidades naquele colégio. Na realidade, 11 de 25 cardeais que perderam o direito de voto eram italianos (e 2 eram portugueses...), o que reduziria marginalmente a predominância dos cardeais daquela nacionalidade no colégio: de 38 em 127 (30%) para 27 em 102 (26,5%). A partir daí, eles podiam escrever uma daquelas histórias jornalísticas sobre a possibilidade de que o próximo pontífice fosse de uma outra nacionalidade que não a italiana, algo que não acontecia desde 1522 com o papa Adriano VI. A história agradaria aos leitores, mas nem por isso era verdade. A predominância de papas italianos no passado explicava-se mais pelo facto de a cúria romana ter sido sempre composta quase exclusivamente por italianos do que pela distribuição das nacionalidades entre os cardeais. Especulando quanto às intenções de Paulo VI, seria mais provável que a medida tivesse uma intenção de remover a geração de prelados mais velha, aquela que se mostrava mais relutante às conclusões alcançadas no Concílio Vaticano II (1962-65).

08 outubro 2020

AS NOTÍCIAS TAMBÉM NÃO SE MEDEM AOS PALMOS

Como acima podemos apreciar, uma página bem interior (18) da edição de há cinquenta anos do Diário de Lisboa contêm uma pequena notícia. Pequena, mas daquelas que os acontecimentos posteriores vêm a revelar proféticas, comprovando que, muito de quando em vez, as especulações jornalísticas estão bem fundadas. No caso concreto, a notícia é oriunda do Vaticano, onde o observador permanente daquele país na ONU, monsenhor Alberto Giovannetti, tinha cometido a inconfidência, diante de alguns jornalistas, que ele considerava que a República Popular da China estaria em condições de vir a ser admitida naquela organização dali por um ano. A admissão da China àquela organização era uma questão que se arrastava há vinte anos, depois da vitória dos comunistas na Guerra Civil. Tornara-se uma questão recorrente que quase todos os anos se repetia: a China apresentava a sua candidatura à ONU e a mesma era rejeitada pelos votos da sua assembleia geral. E contudo, algo alertara monsenhor Giovannetti para que, nas sessões da ONU do próximo ano algo iria mudar... Como mudou mesmo! O cabeçalho de baixo é o do mesmo Diário de Lisboa do dia 26 de Outubro de 1971, confirmando a pergunta que a pequena notícia de jornal formulara um ano antes: a China entrara para a ONU em 1971. Até se pode ser tolerante para com a profecia de monsenhor Giovannetti que, para falar verdade, se enganou num pormenor: a admissão teve lugar em Outubro e não em Novembro de 1971 como ele vaticinara...

20 setembro 2020

A ÚLTIMA QUEDA DE ROMA

20 de Setembro de 1870. As tropas italianas entram em Roma, concluindo o processo de unificação italiana. Durante os onze séculos precedentes, a cidade fora administrada pelo Papa. Agora passaria a ser a tão desejada capital de Itália. Depois de ter sido tantas vezes conquistada desde a sua fundação lendária em 753 a.C., esta, de há 150 anos, permanece a última vez em que a conquista de Roma teve repercussões políticas sérias.

11 fevereiro 2019

A ASSINATURA DO TRATADO DE LATRÃO

11 de Fevereiro de 1929. Assinatura em Roma do Tratado de Latrão que regulariza as relações entre a Itália e a Santa Sé. A diplomacia do Vaticano, célebre pela sua paciência, já havia esperado 58 anos pela resolução da Questão Romana, mas apercebera-se que naquele caso o tempo não se apresentava, decididamente, a seu favor. A Pio IX, que em 1871 se recusara a reconhecer a perda da sua soberania temporal sobre Roma e as regiões históricas adjacentes do papado, haviam-se sucedido quatro outros papas (Leão XIII, Pio X, Bento XV e, agora, Pio XI) que se haviam obrigado a passar todo o seu pontificado encerrados no Vaticano. O Tratado que era então assinado (assinale-se, por curiosidade, que era véspera de Carnaval) juntava as assinaturas do Cardeal Pietro Gasparri, secretário de Estado (1º ministro) do Vaticano e do Duce Benito Mussolini, pelo lado italiano. Apesar do destaque que se pode apreciar abaixo (Portugal era um país católico, a resolução da questão era um facto importante), o acontecimento só foi noticiado em Portugal dois dias depois. As ULTIMAS NOTICIAS eram então uma realidade diferente...

13 março 2008

O PAPA, O VINHO, A BANDEIRA E AINDA MAIS ALGUMAS PECULARIDADES SOBRE O VATICANO

No poste abaixo sobre o Vaticano, há um comentário amigo que lembra a existência de um reputado vinho francês denominado por Châteauneuf-du-Pape (DOC), originário de uma região arredores da cidade de Avinhão (daí o nome) e conhecido por poder vir a atingir uma alta graduação alcoólica (14º) devido à presença de uma alta percentagem de uvas de casta Grenache, que são extremamente adocicadas.
Mesmo depois do regresso dos Papas a Roma (1377), Avinhão continuou a fazer parte das possessões papais e as cores do estandarte papal reflectiam isso, associando o amarelo à cor de vinho, como se pode ver acima. Na época da Revolução Francesa, a França anexou o enclave em 1791. Pior que isso, no final dessa década, em 1796, as próprias possessões papais em Itália vieram a ser conquistadas pelos franceses.
O próprio papa (Pio VI) foi deposto das suas funções em 1798, tendo morrido aprisionado em 1799. Numa campanha de charme, Napoleão instruiu as forças francesas ocupantes para envergarem as cores papais, o que levou o novo Papa, Pio VII a contra-atacar, mudando as cores do seu estandarte papal para o amarelo e branco (acima) que ainda hoje se mantêm. O Papa também não veio a recuperar a posse da cidade de Avinhão…
Contudo, como argumento comercial, as garrafas de Châteauneuf-du-Pape (acima) costumam ter figuras que lembram as armas papais inseridas em relevo no vidro. É apenas mais uma curiosidade associada a um país que, proporcionalmente à sua população, apesar do seu pacifismo, tem uma das maiores forças militarizadas do Mundo (12,5% da população total*!) e uma taxa de pequena criminalidade que bate qualquer cidade sul-americana…

* Há 100 Guardas Suíços para 800 habitantes. Como comparação, a belicosa Coreia do Norte tem um rácio de apenas 4,8% e os Estados Unidos 1,5%.

11 março 2008

OS MICRO-ESTADOS EUROPEUS – VATICANO

O Vaticano nem chega a ser uma cidade-estado, é apenas um estado que é um pedaço de cidade. A cidade é, evidentemente, Roma, que, depois de ter sido a capital do Império Romano, tem sido ao longo dos séculos* o local de residência tradicional do Papa, o Chefe da Igreja Católica Apostólica Romana. E o que se designa hoje por Estado da Cidade do Vaticano são os pequenos vestígios remanescentes das possessões que o Papa possuiu outrora no centro da Itália (veja-se o mapa abaixo).
Os vestígios são mesmo pequenos: trata-se do mais pequeno estado do mundo em extensão, com uma área que não chega a atingir 1 Km². No total, são apenas 440 hectares, a maioria fazendo parte do tecido urbano de Roma (como a Praça de São Pedro – abaixo), algumas igrejas e palácios da cidade e as áreas que rodeiam o palácio de férias do pontífice, situado em Castelgandolfo, e aquelas onde se localizam as instalações da Rádio Vaticano (Santa Maria de Galeria), ambas nos arredores de Roma.
A população tem uma dimensão correspondente: 785 habitantes, segundo os dados de 2004, a maioria a partir de pessoas que adquiriram a cidadania. Dada a natureza do Estado, a taxa de natalidade é, necessariamente, baixa… Claro que uma estrutura destas nunca pôde subsistir sem a cumplicidade da Itália, apesar de terem mediado 59 anos de disputas (1870-1929), até que sob o pontificado do Papa Pio XI, se viessem a assinar os Tratados de Latrão com a Itália, reconhecendo afinal o status quo existente.
O que, entre outras coisas, aqueles Tratados formalizavam, era a existência do Vaticano como um Estado Soberano, que lhe permite, por exemplo, continuar a manter relações diplomáticas em pé de igualdade com quaisquer outros países. Os núncios apostólicos (são assim que se designam os embaixadores do Vaticano no exterior) são um jogo de faz-de-conta formal, muito parecido com o do grupo parlamentar de Os Verdes no parlamento português: o Vaticano é um país que não existe realmente e os Verdes são um partido que também não…
O sistema de governo do Vaticano é relativamente simples: existe um monarca, que é eleito numa cerimónia cujos rituais datam da Idade Média, que incluem sinais de fumo (acima), e a sua eleição é para o resto da sua vida. Embora possível, foram muito poucos os casos em que um Papa abdicou. E o seu poder é absoluto. Adicionalmente, a legislação em vigor estabelece que, quando ele se pronuncia sobre certos temas – a escrever sobre fé ou moral, por exemplo – é considerado infalível. Privilégio que, decerto, suscitará invejas aqui na blogosfera…
Sendo um poste dedicado ao Estado do Vaticano, a verdade é que ele acaba por se centrar na figura do Papa, porque afinal toda a história do Estado não tem qualquer razão de ser sem ele. O Vaticano é um pretexto para conferir uma dignidade secular formal a um Chefe religioso**. Mesmo a famosa Guarda Suíça (acima), cujos efectivos rondarão os 100 elementos e que se tornou uma das imagens visuais mais fortes do Vaticano, é uma organização que não se destina a defender o Estado, mas apenas o seu Chefe…

* Excepto durante o período de 1309 a 1377, quando vários Papas residiram em Avinhão, no Sul de França.
** Situação que falta, por exemplo, ao Dalai Lama.