28 de Junho de 2019. Esta fotografia protocolar dos tradicionais cumprimentos entre os dirigentes presentes na cimeira do G20 que decorreu na cidade japonesa de Osaka correu mundo. E correu mundo porque a fotografia fugiu ao protocolo. Era mesmo para fugir ao protocolo. Ao afixar aquelas trombas de quilómetro a primeira-ministra britânica estava a dar satisfação à opinião pública e publicada do seu país, que se mostrava indignada com o facto de os russos andarem a promover operações «à James Bond» no país do próprio James Bond. Envenenando exilados políticos russos. Não se sabia então, mas esse viria a ser apenas o preâmbulo de uma progressiva antipatia das opiniões públicas e publicadas ocidentais por Vladimir Putin. Finalmente, e só para constatar que, não sendo nada fotogénica, Theresa May podia afixar outras expressões para a ocasião, duas fotografias dela, uma delas na mesma cimeira, mas cumprimentando o anfitrião Shinzo Abe, e outra com o mesmo Putin, mas numa outra cimeira em 2016.
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28 junho 2024
23 junho 2024
80º ANIVERSÁRIO DA OPERAÇÃO «BAGRATION»
(Republicação)
23 de Junho de 1944. Início da Operação Bagration. Para os soviéticos, o desencadear da Operação Úrano, em Novembro de 1942, foi mais uma proeza de astúcia do que de força, cercando, para o aniquilar, e apenas devido à dispersão das forças do inimigo, o exército alemão que se obcecara em excesso com a conquista de Stalinegrado. Em Julho de 1943, na Batalha do Kursk (a Operação Cidadela, segundo o nome dado pelos alemães), já as forças presentes dos dois lados se equivaliam, e a vitória soviética resultou da habilidade de, conhecendo-lhe as intenções, dar a iniciativa ao inimigo, desgastando-o na sua ofensiva, para depois o contra-atacar depois disso. Mas nesta Operação Bagration, a coincidir com o início do Verão de 1944 e prometida aos Aliados por Stalin para a fazer coincidir com o desembarque na Normandia, já a superioridade passara inteiramente para o lado soviético. A questão já não se poria em saber qual o desfecho da ofensiva que o Exército Vermelho iria desencadear, a dúvida consistia apenas em saber qual a dimensão da derrota táctica da Wehrmacht. Essa derrota será colossal (como os cenários macroeconómicos de Vítor Gaspar...). Em duas semanas, pouco mais, serão destruídas 25 divisões alemãs, perder-se-ão 400.000 combatentes, haverá uma hecatombe entre os oficiais generais alemães: 9 mortos e 23 prisioneiros (na fotografia abaixo, da capitulação de Vitebsk, os dois generais alemães vencidos do lado direito, são o general Gollwitzer, comandante do 53º Corpo de Exército e o general Hitter, comandante da 206ª Divisão). O avanço soviético cifrou-se em 400 km e alcançou as antigas fronteiras da União Soviética com a Polónia e as repúblicas bálticas, a dinâmica da ofensiva veio a ser mais perturbada pelos problemas da logística de acompanhar um exército fortemente motorizado, do que pela capacidade de resistência das unidades alemãs ainda em condições de combater. No lugar das 25 divisões destruídas restaria o equivalente a 8 enquanto se aguardava a chegada de outras 8 em reforço. Diante delas, o estado-maior alemão enumeraria 126 divisões soviéticas de infantaria e outras 6 de cavalaria, para além de 62 brigadas blindadas. Naquele sector da Frente Leste e em termos de potencial de combate os alemães defrontar-se-ão a partir daí numa desproporção de um para dez! Hitler's Greatest Defeat é um livro já com 30 anos mas que cumpre a sua missão de explicar sucintamente uma tão grande e tão decisiva ofensiva em 170 páginas. Que é muito mais do que se pode dizer de evocações de jornal (em 2019) que mostram que quem as escreveu nem sequer quis perder muito tempo na wikipedia a documentar-se (para dizer mais que trivialidades misturadas com asneiras...).
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16 junho 2024
O ASSASSINATO DO GOVERNADOR-GERAL DA FINLÂNDIA RUSSA
16 de Junho de 1904. Nikolay Bobrikov, que era o governador-geral da Finlândia sob domínio russo é assassinado a tiro em Helsínquia por um finlandês de ascendência nobre e pertencente à minoria sueca chamado Eugen Schauman. Bobrikov ocupava o cargo desde 1898 e era o ápex local de uma política de russificação forçada da Finlândia. E impopularíssimo por causa disso. O assassino disparou três tiros sobre o governador e guardou um último para si próprio. O atirador morreu de imediato. Mas, como estes acontecimentos são repletos de ironias, ao governador, o primeiro tiro roçou-lhe apenas o pescoço, o segundo atingiu-o na colecção de medalhas que se podem apreciar acima e ressaltou e foi apenas a última bala que acabou por o vir a atingir, ainda que indirecta mas gravemente, já que embateu na fivela do cinto e foi esta que lhe perfurou o abdómen. Operado de imediato, Bobrikov não resistiu à cirurgia. Schauman veio a tornar-se um herói nacional, primeiro de uma forma clandestina, depois de forma oficial depois da independência do país em 1918. É importante relembrar estes acontecimentos nesta altura, para se perceber porque é que os finlandeses não gostam dos russos e se apressaram a pedir o ingresso na NATO na sequência da invasão russa da Ucrânia.
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11 junho 2024
UM «CHEIRINHO» DA VELHA GUERRA FRIA
(Republicação)
11 de Junho de 1999. Nesse dia terminava a Guerra do Kosovo. Com a entrada em vigor do cessar fogo, fora previsto que uma força conjunta de manutenção de paz, composta por unidades militares de países da NATO e também russas, se instalassem na antiga região autónoma jugoslava. Os russos haviam querido um sector independente, mas os Estados Unidos, assim como os restantes países europeus da NATO, haviam rejeitado a ideia, com receio que isso predispusesse os russos a dividirem o Kosovo em duas regiões, uma menor de maioria sérvia a norte e a restante, de maioria albanesa, uma espécie de mini Alemanha Oriental balcânica, que esses bons velhos hábitos nunca saem de moda. Mesmo que não fosse essa a ideia dos russos, a sua posição negocial parecer-lhes-ia demasiado frágil na conjuntura da substituição das forças combatentes (sérvios e albaneses), e os russos decidiram-se a um golpe sujo: pela calada da noite de 11 de Junho, pegaram num destacamento seu estacionado na Bósnia vizinha, e mandaram-no percorrer os 600 km que os separavam da capital do Kosovo para ocuparem o aeroporto local, tudo isso sem passar cartão a ninguém da NATO. Apesar de comandado por um general, o destacamento russo era pequeno: cerca de 200 homens e umas 30 viaturas, sem grande potencial de combate. Mas isso seria irrelevante. Aquela era uma guerra para ser travada à frente das câmaras de televisão (acima). Quando as unidades da NATO encarregues dessa mesma missão chegaram, o aeroporto estava ocupado pelos russos, a CNN também já lá estava, ninguém se dispôs a facilitar a vida aos outros, e começava a crise. Era uma coisa nova, depois de dez anos (1989-1999) em que os russos haviam sido nossos amigos. Recorde-se que a Rússia de então era ainda dirigida por um sujeito pachola, permanentemente embriagado que dava pelo nome de Boris Yeltsin (Vladimir Putin só apareceu um ano depois). Mas a gestão de todo o incidente serviu também para exibir outras fracturas, não só as entre o Ocidente e o Leste, como também as entre a América e a Europa, dentro do Ocidente e da NATO. À atitude mais bélica do comando supremo americano da operação, contrapôs-se uma aproximação bem mais pragmática do comando militar britânico que estava no terreno. Apesar daquilo que parecia estar a acontecer na CNN, os 200 russos estavam isolados e impedidos pela aviação da NATO de serem reforçados e de se reabastecerem sequer. O único perigo da situação era ela detonar acidentalmente. Para a NATO, o tempo encarregar-se-ia de solucionar a questão. Foi o que aconteceu: os russos acabaram por ter que ser abastecidos de água e comida pela logística das unidades da NATO que eles não queriam deixar entrar no aeroporto. O impasse durou duas semanas, a Rússia acabou por salvar a sua face politicamente, e o susto passou.
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20 maio 2024
UM «CAVALHEIRO» DE UMA SÓ PALAVRA, CUJA REELEIÇÃO NÃO FOI PROBLEMÁTICA
A curiosidade é a notícia ter precisamente dez anos e a constatação é que, roubando os dizeres do anúncio do famoso dentífrico se poderia escrever: «Palavras para quê? É um artista russo e não usa pasta medicinal Couto!»
Por outro lado, falando de um outro assunto correlacionado, hoje termina - tecnicamente - o mandato de cinco anos de Volodymyr Zelensky. A situação apresenta-se muito confusa. Há um artigo da Constituição ucraniana que estabelece que o presidente é eleito para um mandato de cinco anos; mas há outro artigo que diz que o presidente em exercício exercerá o poder até que o novo presidente seja empossado. Uma terceira lei (embora essa não tenha valor constitucional) condiciona a que as eleições não podem ser realizadas enquanto a lei marcial estiver em vigor, que é o que tem acontecido na Ucrânia desde que a Rússia iniciou a sua invasão em grande escala em Fevereiro de 2022.
Aprecie-se finalmente o contraste deste problema ucraniano com as ditas eleições presidenciais russas de Março de 2024, que foram ganhas magnanimamente por Vladimir Putin com 88,5% dos votos!
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13 maio 2024
O DESASTRE «DESCONHECIDO» DE SEVEROMORSK
13 de Maio de 1984. Eclode um violento incêndio num dos armazéns da frota soviética do Mar do Norte situado na cidade portuária de Severomorsk (assinalada acima no mapa). O incêndio acaba por não poder ser controlado e, quatro dias depois, atinge os paióis de munições e armamento da frota, incluindo centenas de mísseis armazenados, do tipo SA-1 e SA-3 (mísseis anti-aéreos) e SS-N-22 (anti-navais). As explosões provocaram o pânico entre a população da cidade (apesar de se tratar de uma área militar de acesso restrito) e as notícias de que algo de grave ali acontecera atingiram Moscovo e os ouvidos dos correspondentes estrangeiros na capital soviética. Aquilo a que acima podemos assistir é o esforço noticioso dos jornais ocidentais (no caso acima, o New York Times, mais de um mês depois), alimentado por informação soprada em surdina pelos serviços de informação dos países da NATO, mas que embatiam nos serviços de imprensa soviéticos que, mesmo que confrontados com os indícios mais evidentes, não mostravam qualquer pudor em mentir da forma mais descarada: não sabiam de nada. Aliás, esta foi ainda a atitude inicial das autoridades soviéticas aquando da catástrofe de Chernobil, dois anos depois: nada acontecera...
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12 maio 2024
O FIM DO BLOQUEIO DE BERLIM OCIDENTAL
12 de Maio de 1949. Depois de assinalarmos no Herdeiro de Aécio os 75 anos do estabelecimento do bloqueio de Berlim ocidental pelos soviéticos, assinalamos agora os 75 anos do fim desse bloqueio. Socorrendo-nos das contas do New York Times, o cerco («siege») a Berlim ocidental durara 328 dias. A fotografia do jornal mostra que a propaganda não estava desatenta e o cartaz que as crianças empunham - Blockadefrei - traduzir-se-á por «livre do bloqueio», mas uma boa parte da alegria demonstrada pelos pequenos berlinenses é até capaz de ser genuína e dever-se-á ao facto de não ter havido aulas como celebração do acontecimento...
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08 maio 2024
O ANÚNCIO DO BOICOTE SOVIÉTICO AOS JOGOS OLÍMPICOS DE LOS ANGELES
8 de Maio de 1984. O Comité Olímpico Soviético anúncia que que o seu país não se faria representar nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, programados para arrancarem em 28 de Julho, dali por treze semanas. A notícia era acompanhada de outra, a disposição da Polónia em seguir o exemplo soviético. Até à data do início dos jogos, treze outros países da esfera de influência soviética aderiram ao boicote, num total de quinze países. Mas, ao contrário do que a notícia acima titula, dificilmente se poderia considerar a atitude dos soviéticos uma "bomba". Era apenas a retaliação - esperada - pelo boicote que, por sua vez, os Estados Unidos haviam promovido aos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980, que (des)mobilizara cerca de sessenta países. Por essa contagem, no final os Estados Unidos venceriam a União Soviética. Mas no que diz respeito à capacidade de cada um deles ter estragado a festa desportiva do outro, o resultado ter-se-á saldado por um empate.
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09 abril 2024
O NAVIO «HIDROGRÁFICO» QUE OS RUSSOS ROUBARAM AOS UCRANIANOS
9 de Abril de 1994. Uma pequena notícia da Reuters dá conta da defecção da Ucrânia para a Rússia de um dos navios da esquadra do Mar Negro. Como se pode ler nela, o navio estava acostado no porto de Odessa, na Ucrânia, quando a tripulação, estimada em aproximadamente 45 marinheiros e composta predominantemente por russos, contrariando as ordens de Kiev (a quem o navio fora, aparentemente, alocado), decidiu cortar amarras a meio da noite, partindo para parte incerta. Como é costume nestas ocasiões, os queixosos ucranianos atribuíam um valor desmesurado ao prejuízo incorrido com a deserção. A realidade é que o navio, que a notícia identifica como o «Cheleken», fora originalmente construído na Polónia em 1970 e era um daqueles navios que, apesar de classificados por soviéticos como «hidrográficos», estava equipado com equipamentos de escuta e espionagem, para acompanhar as unidades navais da NATO. Como a notícia explica, o processo de divisão dos activos da Frota do Mar Negro entre a Rússia e a Ucrânia, depois da extinção da União Soviética, já levava três anos e estava recheado de incidentes dos dois lados. Recorde-se que isto acontece 20 anos antes da ocupação russa da Crimeia. É uma história de um conflito latente que não tem inocentes. Pode ter ingénuos (como será o caso da Ucrânia, ao ceder o controle do arsenal nuclear em seu território com contrapartidas), mas inocentes não.
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03 abril 2024
OS ÚLTIMOS VESTÍGIOS DA DISPUTA PELA SUCESSÃO DE ESTALINE
3 de Abril de 1964. Num artigo publicado no oficialíssimo Pravda, órgão central do Partido Comunista da União Soviética, artigo esse que aparecera assinado por aquele que era o oficialíssimo ideólogo do partido, o camarada Mikhail Suslov, o Mundo ficava a saber que os camaradas Vyacheslav Molotov, Geórgiy Malenkov e Lazar Kaganovich haviam sido expulsos do partido por ocasião de uma reunião do Comité Central que tivera lugar mais de um mês antes, a 14 de Fevereiro de 1964. Hoje esquecidos, qualquer daqueles três homens pertencera ao círculo que rodeava o ditador Estaline e fora elemento importante na disputa para a sua sucessão depois da sua morte em 1953. (Em parêntesis, confirme-se no vídeo abaixo que todos os três aparecem como personagens destacadas no filme comédia negra A Morte de Estaline de 2017). Mas Estaline morrera onze anos antes e o vencedor da disputa que se seguira fora Nikita Khrushchev. Como o próprio artigo do New York Times se encarrega de recordar os seus leitores, eles já haviam sido afastados dos cargos cimeiros do partido a partir de 1955 e desterrados administrativamente para cargos subalternos em localidades esconsas da imensa Rússia. Mas, pelos vistos, o que se ficava a saber há sessenta anos é que essa sanção não fora considerada suficiente.
Compare-se agora a mesma notícia original quando publicada num jornal português, em que a referência às expulsões não pôde ser referida. Isto é um exemplo concreto da diferença entre uma informação livre e outra tutelada.
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18 março 2024
ESTÁ TUDO PARVO?!
De uma semana para a outra, há órgãos de comunicação social portugueses - no caso acima escolhi a SIC Notícias, mas há outros... - que trataram o desfecho das eleições legislativas portuguesas - à esquerda - com a mesma seriedade como agora tratam as eleições presidenciais russas - à direita. Equiparar os dois acontecimentos não merecerá sequer uma crítica séria, antes um comentário desdenhoso a quem está a tentar tratar igualmente a seriedade daqueles dois acontecimentos. Isto de noticiar projecções de eleições cujo resultado esteve sempre decidido desde a sua convocação só pode ser obra de editores de notícias verdadeiramente mentecaptos e que não fazem a mínima ideia sobre o tópico que tratam. Outros editores, mais profissionais e argutos, conseguem sintetizar o que aconteceu numa fotografia, como esta abaixo da Getty Images.
Noutros tempos, era suficiente dedicarem-se umas quatro linhas do jornal a noticiar-se eleições nas ditaduras, e isso incluía as ditaduras comunistas do Leste da Europa, onde nunca havia surpresas eleitorais. Agora, com esta apresentação, até parece que Putin podia perder as eleições!... Se isto se propaga, ainda um dia destes se irão fazer comparações entre as eleições legislativas portuguesas em Democracia (depois de 1975), e aquelas que tinham lugar antes, no tempo do Estado Novo (abaixo, à direita, em 1969) eleições em que, por curiosidade e quando chegava a ter concorrência nas urnas, o governo de Marcelo Caetano as ganhava com 88% dos votos, a mesma vitória esmagadora agora alcançada por Vladimir Putin.
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15 março 2024
ADOPÇÃO DO HINO OFICIAL DA UNIÃO SOVIÉTICA
(Republicação)
15 de Março de 1944. Discretamente, em plena conflagração mundial e justificando-se por causa da auto dissolução da III Internacional no ano anterior, a União Soviética adopta oficialmente um novo hino em substituição de A Internacional. Com uma outra letra, em que as menções a Estaline (primeiro) e a Lenine (depois) entretanto desapareceram, ainda hoje permanece sendo o hino da Rússia.
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23 fevereiro 2024
O INÍCIO DA DEPORTAÇÃO DOS CHECHENOS
Às primeiras horas de 23 de Fevereiro de 1944, cerca de 120.000 soldados soviéticos cercaram os mais importantes centros urbanos da República Socialista Soviética Autónoma da Chechénia. Alegando que a esmagadora maioria da população daquela nacionalidade colaborara com as tropas invasoras alemãs, e beneficiando-se paradoxalmente do facto de que a maioria da sua população adulta masculina estar ausente por ter sido mobilizada para a guerra contra a Alemanha, cerca de 500.000 chechenos foram levados para estações ferroviárias (foto acima), de onde foram expedidos para territórios da Ásia Central, nas Repúblicas do Cazaquistão e da Quirguízia. Em 6 dias, de 23 a 28 de Fevereiro de 1944, a operação de limpeza étnica estava concluída, muito embora os deslocados tivessem ainda demorado entre três e quatro semanas a chegar aos destinos. Impressiona perceber que a capacidade logística mobilizada para esta limpeza étnica - envolvendo 120.000 soldados (1 para 4 deportados), quase 200 comboios de 65 vagões cada, um orçamento de 150 milhões de rublos - nunca tivera quaisquer precedentes na história da URSS quanto à sua brutalidade e eficácia, e que isso se deve à guerra e à mobilização de guerra. Por exemplo, o transporte dos deportados até às estações foi muito mais rápido porque se fez em camiões Studebaker norte-americanos, que haviam sido fornecidos aos soviéticos ao abrigo das leis de empréstimo e arrendamento. A União Soviética de Estaline procedeu a acções idênticas de limpeza étnica ou limpeza sociológica com outras nacionalidades sobre as quais não tinha confiança. Neste caso, os chechenos só foram autorizados a regressar à sua região de origem a partir de 1957.
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19 fevereiro 2024
A TRANSFERÊNCIA DA CRIMEIA DA RÚSSIA PARA A UCRÂNIA
A 19 de Fevereiro de 1954, o Presidium do Soviete Supremo da União Soviética, sedeado em Moscovo no Kremlin (como se pode ler na área assinalada do documento acima), «tendo em consideração a integração económica da região, a proximidade territorial e os estreitos laços económicos e culturais entre a província da Crimeia e a República Socialista Soviética da Ucrânia», emite um Decreto transferindo a província da Crimeia da soberania da República Socialista Federativa Soviética Russa para a jurisdição da República Socialista Soviética da Ucrânia. À época, esta transferência teve um significado mais simbólico que substantivo: Ucrânia e Rússia faziam parte da mesma entidade política, a União Soviética, esta transferência era apenas uma mudança de uma fronteira interna do grande país. O problema passou a colocar-se de outro modo quando da desagregação da União Soviética em 1991 em que Rússia e Ucrânia se tornaram países distintos. E aí na Rússia mostrou-se a intenção de recuperar a Crimeia, tanto mais que a esmagadora maioria dos habitantes da península são russófonos. Foi o que aconteceu entre Fevereiro e Março de 2014. À época, a iniciativa de força por parte da Rússia provocou as suas ondas de choque, mas vale a pena recordar que ocorreu numa conjuntura em que uma iniciativa de cariz muito semelhante ocorrera numa outra parte da Europa e com o patrocínio dos Estados Unidos: a extracção do Kosovo à soberania sérvia. Não havia muita moralidade para se andarem a recriminar uns aos outros. Só que o assunto apresentava-se como encerrado na antiga Jugoslávia e está muito longe de assim ser com a Rússia nas suas fronteiras. A Rússia não se ficou pela Crimeia e invadiu a Ucrânia em Fevereiro de 2022 e hoje os dois países continuam em guerra. Como outrora aconteceu com a França do século XIX e a Alemanha do século XX, as ambições expansionistas da Rússia do século XXI são uma incógnita e um receio. Os outros países vizinhos da Rússia olham-na quase todos de viés. Contudo, paradoxalmente, registe-se que este gesto de há setenta anos havia sido apenas um expediente politico, sem se antever todas estas consequências.
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10 fevereiro 2024
AS PEQUENAS BATALHAS DISCRETAS DA «GUERRA FRIA»
10 de Fevereiro de 1964. O desertor Yuri Nosenko tinha 36 anos e nascera na nomenklatura soviética. O seu pai fora o Comissário do Povo (ministro) para a Construção Naval da União Soviética entre 1940 e 1956. O seu filho Yuri entrara para os serviços secretos (KGB) em 1953. Quando desapareceu alcançara a patente de tenente-coronel na organização. Na altura da publicação desta notícia já Nosenko se encontrava nos Estados Unidos, numa discreta residência da CIA. A deserção de Yuri Nosenko vem a dar-se num momento pouco apropriado para o desertor: na CIA vive-se uma época de paranóia, depois da revelação que o britânico Kim Philby (que trabalhara intimamente com a agência americana), fora um espião soviético durante 30 anos. As revelações que Yuri Nosenko traz consigo não são consentâneas com aquilo que na CIA se considera que é verdade, a sua credibilidade é posta em causa, e chega a levantar-se a hipótese de Nosenko ser um falso desertor, destinado propositadamente a desinformar os americanos. Os interrogatórios a Nosenko arrastar-se-ão por três anos, período em que ele esteve detido à guarda da CIA. Só o libertarão em 1967, dando-lhe uma indemnização por causa dos anos de prisão e uma nova identidade. Viverá os quarenta anos seguintes, até à sua morte aos 80 anos, como um cidadão americano numa cidade do Sul dos Estados Unidos.
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08 fevereiro 2024
A BATALHA DE PORTO ARTHUR
Porto Arthur - que hoje é conhecida por Lüshunkou - era uma cidade portuária do norte da China que os russos haviam ocupado para a transformar numa base naval para a sua frota do Extremo Oriente. E não haviam sido os únicos a fazê-lo. Como se depreende do mapa acima, outras potências - a Alemanha (Tsingtao), o Reino Unido (Weihaiwei) e o Japão (Seul) - haviam feito o mesmo. E todas se vigiavam reciprocamente num ambiente tenso. A 8 de Fevereiro de 1904, os nipónicos decidiram tomar a iniciativa e - sem qualquer declaração prévia de guerra - a sua frota atacou a sua homóloga russa ancorada em Porto Arthur. O ataque foi desencadeado pela calada da noite e a acção preponderante dos atacantes foi o lançamento de torpedos visando os navios russos acostados. Mas só 3 dos 16 torpedos lançados atingiram alvos. A frota japonesa afastou-se para depois regressar já de dia, por causa de relatos optimistas demais do sucesso do primeiro ataque. E aí passou um mau bocado, devido ao efeito combinado da frota russa e das suas baterias costeiras que protegiam o porto. No computo global os russos sofreram cerca de 150 mortos, os japoneses 90, e as imagens da acção exibidas abaixo pela propaganda japonesa não têm nada a ver com o que aconteceu. Para os especialistas a batalha saldou-se por uma vitória táctica para os russos, mas uma vitória estratégica para os japoneses, já que a frota russa do Extremo Oriente ficou paralisada no porto, tornando-se, em vez de um activo, um fardo para o esforço de guerra russa. Essa e muitas outras lições se iriam extrair da guerra russo-japonesa que então começava e que só terminaria no ano seguinte com a vitória japonesa. Mas duas lições se extraem desta iniciativa do Japão: em primeiro lugar, que eles eram capazes de atacar quem considerassem inimigo sem qualquer pré-aviso formal (como tornariam a fazer em 1941 em Pearl Harbor); em segundo lugar, que conseguiam ser de um optimismo delirante quando avaliavam as baixas causadas ao inimigo (isso iria ser um erro recorrente de todas as batalha aeronavais que travaram durante a Guerra do Pacífico).
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07 fevereiro 2024
AGORA SÓ FALTA MESMO TRATAR O "MOSCOW TUCKER" POR... "MOSCOW TUCKER"
No seguimento do poste de ontem sobre a "Hanoi Jane" e agora o "Moscow Tucker". Não me digam que, por causa da correcção política, têm pruridos em atribuir alcunhas quando elas são bem atribuídas; é que assim concedem a iniciativa toda ao Trump e à malta dele (como é o caso deste Tucker Carlson).
Por outro lado, e como o frisa acima - e bem - a jornalista Abby Phillip da CNN, entre outras mentiras, Tucker Carlson não é jornalista. É um dos grandes equívocos do panorama da comunicação da actualidade, não apenas na América, mas em todo o lado. Quase todos querem fazer passar a sua actividade política por actos de jornalismo, incluindo ironicamente os próprios jornalistas... que assim se transformam em pessoas que têm documentos a dizer que o são.
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UM PEQUENO FIASCO VISUAL DA CERIMÓNIA DE ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS DE SOCHI
7 de Fevereiro de 2014. Têm início os Jogos Olímpicos de Inverno, organizados pela Rússia na cidade de Sochi. Durante a extensa cerimónia de abertura (3h30), houve um pequeno incidente quando um dos anéis olímpicos falhou (acima). O pormenor, incluindo o processo soviético como ele não foi retransmitido para os espectadores russos, tornou-se o tema favorito como a generalidade da comunicação social ocidental cobriu o acontecimento. O destaque dado ao incidente afigurava-se excessivo, intolerante, mas a distância do decénio que entretanto decorreu torna-o simbólico e premonitório do que era a progressiva dissociação entre a Rússia e os restantes países ocidentais, que tinha razões muito mais profundas do que coreografias falhadas. Dali por apenas 15 dias, a 22 de Fevereiro de 2014, o parlamento ucraniano irá votar a deposição do presidente (pró-russo) Viktor Ianukovytch. Moscovo irá retaliar com a realização de um referendo e a anexação da Crimeia logo no mês seguinte (Março de 2014). Em 24 de Março daquele ano, o G7, as sete maiores economias ocidentais, que se transformara em G8 com o convite feito à Rússia em 1997, reverte à sua forma original - sem Rússia. Isso era muito mais significativo do que o anel que não funcionou...
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06 fevereiro 2024
IRONIAS DA HISTÓRIA E COM HISTÓRIA: DA "HANÓI JANE" PARA O "MOSCOW TUCKER"?...
Em Julho de 1972, durante a guerra do Vietname, a actriz e activista liberal norte-americana Jane Fonda realizou uma visita à cidade de Hanói, a capital do Vietname do Norte, contra quem os Estados Unidos mantinham uma guerra semi-declarada (os Estados Unidos tinham nomeadamente em curso uma operação de bombardeamento sistemático de alvos militares e económicos em território norte-vietnamita denominada Operação Linebacker). A visita de Jane Fonda, então com 34 anos e com a popularidade de ter recebido um óscar naquele ano, pode ter sido muito bem intencionada, mas os anfitriões organizaram-lhe a visita de tal forma que a transformaram numa completa peça de propaganda pró-norte-vietnamita, como se pode apreciar pelo vídeo acima. Pior do que isso, o teor condenatório, desprovido de qualquer condescendência nas suas declarações a respeito dos pilotos seus compatriotas, que entretanto haviam sido capturados e estavam aprisionados em condições deploráveis no Vietname do Norte, não podem ser assacadas senão à própria.
A iniciativa e o comportamento que adoptou durante esta visita mereceram-lhe a alcunha pouco simpática de "Hanói Jane", no mesmo estilo das alcunhas que anteriormente haviam sido atribuídas às locutoras de propaganda dos inimigos dos Estados Unidos nessa e noutras guerras anteriores - Tokyo Rose (Japão) ou Hanoi Hannah. O clímax terão sido as fotografias que lhe fizeram numa peça de artilharia AA (anti-aérea instalada para derrubar os aviões americanos), uma fotografia que desencadeou mais do que críticas, o próprio desprezo dos militares e, de forma mais geral, dos conservadores americanos pela actriz americana. Como se percebe pelo artigo do Washington Post de 2018, Jane Fonda continuou e continua a pagar o preço da sua conduta, da qual já deu mostras de se arrepender em parte. Mas depois de todo esta explicação, agora mudemo-nos para o presente e falemos de Tucker Carlson, um comentador político conservador de 54 anos, que se tornou popular (e controverso) por, durante seis anos e meio, ter mantido um programa quotidiano de opinião no canal Fox News.
O programa de Carlson foi abruptamente cancelado em Abril do ano passado. Quais serão os projectos e quais são as deambulações de Tucker Carlson depois disso permanecerão, contudo, assunto interessantes. Aprecie-se a notícia de que ele estará em Moscovo, notícia que é acompanhada da especulação que a sua intenção (entretanto confirmada) será realizar uma grande entrevista a Vladimir Putin. Na Rússia de Putin parece gostar-se de Tucker Carlson e, reciprocamente, Tucker Carlson gosta muito da Rússia de Putin. Estes dois episódios, o da "Hanói Jane" e o do "Moscow Tucker" não serão escrupulosamente simétricos mas é evidente que a dissidência de opiniões dos dois em relação ao mainstream das opções da política externa da América é assaz semelhante. O problema será que um e outro se registam em lados opostos do espectro político. Como de costume, o que eu gosto de ver é o que acontecerá à coerência. Quantos conservadores considerarão o comportamento actual de Tucker Carlson como uma traição à América? E quantos liberais defenderão a sua liberdade de opinião?...
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05 fevereiro 2024
UMA HISTÓRIA MUITO BEM EXPLICADA, MAS ONDE FALTAVA A INCLUSÃO DE UM DETALHE IMPORTANTE
5 de Fevereiro de 1949. Esta notícia de há precisamente 75 anos é de um detalhe impressionante. A única coisa que se esqueceram de explicar foi a motivação para que o ministro dos Estrangeiros se dispusesse a visitar inesperadamente Washington mesmo sem qualquer convite feito. AS razões só se perceberão na edição do dia seguinte: a União Soviética, que então ainda era dirigida por Estaline, na perspectiva da formação de uma aliança militar de países europeus com os Estados Unidos (que virá a ser a NATO), aliança essa para que a Noruega fora convidada, começara a enviar insistentemente notas diplomáticas convidando este país - que faz fronteira com a União Soviética no Ártico - assinasse um pacto de não agressão. Daí a urgência do ministro norueguês em visitar os Estados Unidos: é que havia - e continua a haver - toda uma eloquência implícita quando a União Soviética - e agora a Rússia - insistem em ser não agressivas...
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