
Algum britânico, pouco patriota, mas com uma mente brilhante e perversa, reparou e fez notar como os seus compatriotas da época vitoriana passaram a adorar transformar desaires militares em grandes epopeias, como se houvesse um oculto prazer masoquista em dar destaque a episódios onde as forças britânicas haviam dado mostras de toda a sua bravura incompetentemente aplicada. O exemplo provavelmente mais famoso é o de um pequeno incidente inserido na Batalha de Balaclava (1854) na Guerra da Crimeia (1854-56), que ficou conhecido pela
carga da brigada ligeira, que até teve direito a ficar imortalizado num
poema de um famoso poeta britânico daquela época, Alfred Tennyson.
Sumariamente, cerca de 700 cavaleiros britânicos carregaram cegamente por um vale (depois poeticamente baptizado de
Vale da Morte), onde foram recebidos por uma fuzilaria tremenda das tropas russas que os aguardavam em posições defensivas preparadas. No fim da acção, descontando os cavaleiros que haviam sido mortos e feridos com gravidade e os que haviam ficado apeados porque a sua montada havia sido atingida, a brigada estava reduzida a um pouco menos de 200 cavaleiros capazes de continuar o combate… E os russos ainda não tinham sido desalojados das suas posições. Os cavaleiros britânicos ficaram com a fama de terem em excesso, no
recheio dos tomates, aquilo que lhes faltava em excesso, no
recheio do cérebro*…
Entre nós, seria num espírito parecido que Luís Vaz de Camões poderia ter composto uma das suas melhores Odes dedicada ao tema dos acontecimentos de 4 de Agosto de 1578, em Alcácer Quibir…
Foi sob as ordens de um líder político que sempre se enternecera com a lírica de Tennyson (a referência é a Winston Churchill, evidentemente) que o
General Arthur Percival assumiu o cargo de
GOC da Malásia, cujo Quartel-General se situava em Singapura, em Maio de 1941. O Império Britânico estava em guerra com a Alemanha desde há quase dois anos. Havia a planificação feita para defrontar a eventual ameaça japonesa e a realidade da real ameaça alemã e italiana: tudo o que ali houvesse de qualidade, quer em termos humanos como materiais, já havia sido
sugado para o Teatro de Operações do Mediterrâneo. Como exemplo flagrante, em Dezembro de 1941, em vez da dotação de 336 aviões de combate modernos que estariam previstos, havia 158 e de tipos obsoletos.
Havia esta realidade, onde o único dado objectivo que a contraria é a grande vantagem numérica dos defensores (135.000 versus 30.000 japoneses) e há depois todos aqueles constrangimentos que sempre aparecem nas análises que se fazem à
posteriori das derrotas militares: o conflito entre as várias directivas que Percival recebera, a sua má relação com os subordinados imediatos (um mais antigo – Heath – e outro dependendo de um poder político autónomo – o australiano Bennett) ou as suas peculiaridades de carácter, que se fariam sentir na falta de um exercício claro de um ascendente sobre os seus subordinados directos, a fazer lembrar o que se adivinha que se terá passado com Souto Moura…
Enquanto se aguarda a passagem do tempo que permita fazer um julgamento mais lúcido sobre a actuação do anterior
PGR, ficamos com a de Arthur Percival que, quando se apercebeu da inutilidade da resistência das suas forças, cercadas em Singapura e sem possibilidade de rompimento desse cerco, se rendeu em 15 de Fevereiro de 1942. Percival optou pela rendição apesar das pressões que estava a receber directamente de Churchill para o prolongamento da sua resistência, senão mesmo para algum episódio de última hora na linha da
carga da brigada ligeira, repleto de significado poético, de aproveitamento político, de mais mortos e feridos e sem qualquer impacto para o desfecho táctico imediato do conflito…

Daquela vez, a derrota britânica não foi acompanhada de um episódio lírico para a amenizar junto da opinião pública britânica. Percival, que salvara momentaneamente a vida dos seus homens, sabendo reconhecer o momento da derrota e a inutilidade do prolongamento dos esforços de resistência – ninguém lhe contesta a sua grande competência enquanto oficial de estado maior - nunca veio a ser verdadeiramente perdoado pela sua decisão. Não tendo entrado nos livros de história, espera-se que, no resto da sua vida (morreu em1966), Percival deva ter tido um melhor convívio com a sua consciência ao ter tomado a decisão que tomou…

Rigorosamente o mesmo desejo perante a mesma atitude de
Vassalo e Silva, o último Governador da Índia portuguesa em 1961, que tomou a mesma decisão perante a mesma situação militar e as mesmas pressões políticas…
* Há quem diga - maldosamente! - que é um princípio que se aplica à cavalaria (a cavalo) em geral. É o tipo de redistribuição de peso que lhes facilita o equilíbrio em sela...