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07 novembro 2015

TAIWAN - O PRINCÍPIO DO FIM DE UMA RESISTÊNCIA AO JEITO DA DA ALDEIA DE ASTÉRIX?


1 de Outubro de 1949. Diante um enorme microfone na praça Tiananmen de Pequim vemos Mao Zedong a proclamar a República Popular da China. Como acontecia nas primeiras páginas de todos os álbuns de Asterix com a Gália e as águias de César, toda a China se submeteu ao regime comunista. Toda? Não. Como os aldeões da famosa aldeia armoricana, restou uma pequena ilha de 36.000 km² onde os ilhéus - contando com a assistência militar dos Estados Unidos em substituição da poção mágica - resistem ainda e sempre àquilo que classificam como o regime usurpador do continente.
Mais de 66 anos depois, assiste-se ao primeiro encontro daqueles que são os dois chefes de estado de um país que ambos consideram ser o mesmo: abaixo à esquerda, Xi Jinping, presidente da República Popular da China (1.376.000.000 habitantes), e, à direita, Ma Ying-Jeou, presidente da República da China (23.500.000 habitantes). Sendo o encontro o primeiro, é histórico. Falta saber se será mais alguma coisa do que isso. Curiosamente, e não tenho visto isso notado pela comunicação social, o encontro teve lugar no único outro país independente do Mundo onde existe também uma maioria chinesa: Singapura, onde (apesar de localizada na ponta da península malaia) a sua população de 5.500.000 habitantes é cerca de ¾ chinesa. Uma coisa entre chineses, portanto.

16 março 2014

O MOTIM DO 5º DE INFANTARIA LIGEIRA

Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, o 5º Regimento de Infantaria Ligeira (Indiana) era uma das unidades mais antigas do Exército da Índia Britânica. Mais do que centenário (fora formado originalmente em 1803, ainda no tempo em que a administração britânica da Índia pertencia à famosa Companhia majestática), o regimento estava nessa época aquartelado em Nowgong, no centro da Índia que hoje pertence ao Estado de Madhya Pradesh. Porque a região onde estava estacionado era predominantemente hindu (92%), o 5º de Infantaria Ligeira era formado predominantemente por muçulmanos. E, quando o Reino Unido veio recolher de todo o Império os recursos que pudesse para o conflito que começara, esticando o seu dispositivo militar na Ásia, o regimento foi transferido em substituição de unidades europeias entretanto mobilizadas para a Europa. Em Outubro de 1915, o 5º de Infantaria Ligeira partiu para Madrasta para depois seguir por mar para guarnecer Singapura. As reconstituições históricas de um e outro lado (o britânico e o nacionalista indiano e paquistanês) combinaram-se posteriormente para dar uma consistência ideológica à insurreição que veio a ter lugar apenas quatro meses depois da chegada do regimento àquela cidade, que já contava com 384.000 habitantes, e que se situa na encruzilhada de quase todas as rotas comerciais que ligam os Oceanos Índico e Pacífico. Winston Churchill, que gostava das grandes expressões, veio a baptizar Singapura na Guerra Mundial seguinte de Gibraltar do Oriente.
Mas, regressando à guerra anterior, as explicações oficiais para a eclosão do motim estariam associadas a uma relutância dos cipaios - fomentada por líderes islâmicos, de acordo com os britânicos - em envolverem-se num conflito em que poderiam vir a defrontar os seus correligionários muçulmanos do Exército Otomano. A explicação será, se vagamente verdadeira, também no mínimo rebuscada. Associações nacionalistas indianas radicais da época a quem se pretendeu depois atribuir responsabilidades pela insurreição, como o partido Ghadar (ghadar significa revolta), não passavam de organizações de alguns intelectuais da diáspora indiana, a que normalmente faltava entrosamento com as etnias indianas que tradicionalmente abraçavam a carreira militar. Explicações mais simples e mais prosaicas para o motim, que os britânicos remeteram discretamente para os últimos parágrafos dos relatórios que se redigiram depois, apontavam para a baixa categoria geral dos oficiais britânicos que haviam permanecido com a unidade depois dos recrutamentos de 1914 e que, por isso, não se aperceberam daquilo que se aprontava. Quando o motim se desencadeou, o 5º de Infantaria Ligeira havia sido seleccionado para se mudar (de novo…) para Hong-Kong, mas corriam rumores – como costumam correr sempre nestas circunstâncias – que o regimento iria ser transferido para uma frente de combate – no Médio Oriente ou mesmo na Europa. A cerimónia de despedida já tivera lugar, o Comandante-Chefe até presidira a ela, fizera mesmo uma alocução aos homens cumprimentando-os pelo seu desempenho nos últimos quatro meses mas, obtusidade do comando ao ambiente que fermentava entre as fileiras, esqueceu-se de mencionar qual seria o destino da unidade, para erradicar os equívocos.
Quando as primeiras viaturas se apresentaram no aquartelamento para embarcar os primeiros cipaios no navio que os transportaria para Hong-Kong, 4 das 8 companhias que compunham o regimento (composto no total por cerca de 900 homens) amotinaram-se, apossando-se das armas. Estava-se a 15 de Fevereiro de 1915, o que coincidia com o Ano Novo chinês, por isso feriado para a maioria da população de Singapura¹. Significativamente, metade das companhias, as que eram compostas maioritariamente por etnias que hoje seriam classificadas de paquistanesas, não se juntaram aos insurrectos. Estes, para continuar a adoptar essa classificação convencional, seriam predominantemente muçulmanos de origem indiana mas onde se podiam encontrar também alguns siques. Não se sublevando, os paquistaneses também não se opuseram ao motim, não se podendo contar com eles para o reprimir. Curiosamente, também a esmagadora maioria dos 300 alemães que estavam aprisionados em Singapura e que os amotinados se haviam apressado a libertar para os auxiliar na insurreição, adoptaram a mesma atitude neutral, demonstrando que preconceitos raciais se sobrepunham às alianças circunstanciais de guerra. Apesar do número de insurrectos nunca dever ter ultrapassado os 500, a verdade é que os britânicos tiveram que passar pela humilhação de ter de apelar aos seus aliados para disporem de um contingente de homens armados adequado para os combater. Nos dias que imediatamente se seguiram, o auxílio de marinheiros armados de navios de guerra da França, Rússia e Japão que estavam próximos foi imprescindível para a contenção do motim antes que unidades militares britânicas (compostas por soldados europeus...) expedidas urgentemente da Birmânia tomassem o assunto em mão e o encerrassem em cerca de uma semana.
No final, cerca de 60 insurrectos haviam morrido e do lado das forças da ordem e dos civis a contagem era de 43 mortos e 19 feridos. Seguiram-se os julgamentos, onde mais de 200 amotinados foram levados a tribunal marcial. Houve 47 execuções, 64 penas de prisão perpétua para além de 73 outras penas de prisão, cujas mais ligeiras atingiam os 7 anos. Sinal de outros tempos noticiosos, uma notícia a dar conta do motim em Singapura era publicado no New York Times de 2 de Maio de 1915, dois meses e meio depois dos acontecimentos terem tido lugar. Os cerca de 600 homens que restavam do 5º de Infantaria Ligeira foram mobilizados em Julho desse mesmo ano para participar na invasão dos Camarões, então colónia alemã na África Ocidental. Em 1916 foram transferidos para Tanganica, que era outra colónia alemã mas na África Oriental. Em 1917 foram novamente transferidos, agora para guarnecer Adem, no Iémen, que, como Singapura, era outro porto estratégico do Império Britânico na encruzilhada entre o Oceano Índico e o Mar Vermelho com o Canal do Suez. Apesar desta honradíssima folha de serviços, a má reputação da unidade acabou por a condenar à extinção na reorganização do Exército da Índia Britânica que veio a ter lugar em 1922. O motim de há 99 anos pode ser ainda hoje discretamente evocado através de dois memoriais expostos à entrada do Victoria Memorial Hall.
¹ Uma franca maioria da população de Singapura tinha ascendência chinesa. Actualmente, ela cifra-se em cerda de ¾ de toda a população.

02 maio 2010

OS PRISIONEIROS NA GUERRA DO PACÍFICO (1941-1945)

Depois do seu ataque a Pearl Harbour em Dezembro de 1941, e com as ofensivas vitoriosas que desencadearam contra a Malásia, a Indonésia, as Filipinas ou a Nova Guiné, os japoneses capturaram várias dezenas de milhares de prisioneiros aliados (acima) das mais variadas proveniências: britânicos, norte-americanos, australianos e holandeses, mas também indianos, malaios, filipinos e indonésios.
A todos os japoneses trataram igualmente mal, mas os prisioneiros de ascendência europeia possuíam um valor adicional de propaganda, para demonstrarem às populações que a superioridade dos ocidentais havia terminado. Acima, os prisioneiros australianos capturados depois da queda de Singapura (Fevereiro de 1942) são obrigados a varrer as ruas da cidade diante da população arregimentada para o efeito.
Os japoneses deram um tratamento execrável aos seus prisioneiros, o que foi retratado de múltiplas formas (a fotografia acima data de 1943), em filmes como A Ponte sobre o Rio Kwai ou Merry Christmas, Mr. Lawrence. A explicação que se costuma dar para esse tratamento tão desdenhoso por quem se rendera é atribuída à cultura japonesa e ao seu conceito de honra que não concebe nem respeita tal atitude.
Seria por isso que, quando colocados na mesma situação, os japoneses prefeririam morrer em combate à rendição. É verdade, mas é apenas a parte da verdade que hoje se torna mais fácil de digerir politicamente. A componente do ódio racial pelo inimigo foi, como se vê acima e desde o princípio da Guerra, explorada pelas propagandas na Guerra do Pacífico. E não me refiro apenas do racismo dos ocidentais...
O panfleto acima foi concebido pelos japoneses para ser lançado sobre as posições aliadas e procurava combater a péssima reputação que a propaganda aliada inculcara nos seus soldados quanto ao tratamento que era dado pelos japoneses aos prisioneiros. Porém, apesar de destinado a persuadir, o parágrafo final¹ do panfleto é eloquente quanto à superioridade em que os japoneses se tinham face aos seus inimigos.
Quando chegou a vez de serem os americanos a passarem à ofensiva e a fazerem os prisioneiros, fotografias como a de cima, tirada no atol de Tarawa em Novembro de 1943, tornaram-se raríssimas. É que, quando do desembarque americano, a guarnição japonesa na ilha tinha 4.800 soldados. E no final dos combates, contaram-se 4654 cadáveres de japoneses. O que queria dizer que os americanos só haviam feito 150 prisioneiros: 3% do total...
Oficialmente, a razão para essa luta até ao extermínio total dos defensores devia-se ao fanatismo dos japoneses. Se era essa a causa exclusiva de tais números, então o fanatismo terá aumentado à medida que a Guerra decorria, pois na Batalha de Iwo Jima (acima, tema dos filmes Flags of Our Fathers e Letters from Iwo Jima) de Fevereiro de 1945 apuraram-se 23.703 mortos japoneses para apenas 216 prisioneiros²1% da guarnição!
Uma outra causa provável para aqueles resultados é que, para os americanos, se tornava muito mais remunerador do ponto de vista militar o investimento em armamento apropriado para eliminar os pontos de resistência, como era o caso dos lança-chamas (acima), do que apostar em operações psico para a desmoralização dos soldados inimigos (um exemplo é o panfleto² abaixo), de resultados tão incertos quanto mais lentos.
Na invasão de Okinawa, de Abril a Junho de 1945, na primeira e única vez em que os americanos se empenharam seriamente em operações psico na Guerra do Pacífico, colocando, entre outros meios, os seus próprios soldados de origem japonesa a apelar à rendição dos inimigos através de altifalantes, conseguiu-se um resultado interessante: fizeram-se 7.400 prisioneiros, cerca de 8% dos 90.000 defensores…
¹ A nossa história é dez vezes mais antiga que a vossa. Enquanto os vossos antepassados erravam por aí como selvagens já o Japão era um país civilizado. Nós somos muito mais civilizados que vós americanos.
² O panfleto diz: O japonês com esta mensagem cessou a resistência. Deve ser bem tratado, de acordo com as leis internacionais. Levem-no ao vosso comandante.

04 janeiro 2007

ARTHUR PERCIVAL, O GENERAL QUE NÃO SUCUMBIU AO LIRISMO

Algum britânico, pouco patriota, mas com uma mente brilhante e perversa, reparou e fez notar como os seus compatriotas da época vitoriana passaram a adorar transformar desaires militares em grandes epopeias, como se houvesse um oculto prazer masoquista em dar destaque a episódios onde as forças britânicas haviam dado mostras de toda a sua bravura incompetentemente aplicada. O exemplo provavelmente mais famoso é o de um pequeno incidente inserido na Batalha de Balaclava (1854) na Guerra da Crimeia (1854-56), que ficou conhecido pela carga da brigada ligeira, que até teve direito a ficar imortalizado num poema de um famoso poeta britânico daquela época, Alfred Tennyson.

Sumariamente, cerca de 700 cavaleiros britânicos carregaram cegamente por um vale (depois poeticamente baptizado de Vale da Morte), onde foram recebidos por uma fuzilaria tremenda das tropas russas que os aguardavam em posições defensivas preparadas. No fim da acção, descontando os cavaleiros que haviam sido mortos e feridos com gravidade e os que haviam ficado apeados porque a sua montada havia sido atingida, a brigada estava reduzida a um pouco menos de 200 cavaleiros capazes de continuar o combate… E os russos ainda não tinham sido desalojados das suas posições. Os cavaleiros britânicos ficaram com a fama de terem em excesso, no recheio dos tomates, aquilo que lhes faltava em excesso, no recheio do cérebro*…

Entre nós, seria num espírito parecido que Luís Vaz de Camões poderia ter composto uma das suas melhores Odes dedicada ao tema dos acontecimentos de 4 de Agosto de 1578, em Alcácer Quibir…

Foi sob as ordens de um líder político que sempre se enternecera com a lírica de Tennyson (a referência é a Winston Churchill, evidentemente) que o General Arthur Percival assumiu o cargo de GOC da Malásia, cujo Quartel-General se situava em Singapura, em Maio de 1941. O Império Britânico estava em guerra com a Alemanha desde há quase dois anos. Havia a planificação feita para defrontar a eventual ameaça japonesa e a realidade da real ameaça alemã e italiana: tudo o que ali houvesse de qualidade, quer em termos humanos como materiais, já havia sido sugado para o Teatro de Operações do Mediterrâneo. Como exemplo flagrante, em Dezembro de 1941, em vez da dotação de 336 aviões de combate modernos que estariam previstos, havia 158 e de tipos obsoletos.

Havia esta realidade, onde o único dado objectivo que a contraria é a grande vantagem numérica dos defensores (135.000 versus 30.000 japoneses) e há depois todos aqueles constrangimentos que sempre aparecem nas análises que se fazem à posteriori das derrotas militares: o conflito entre as várias directivas que Percival recebera, a sua má relação com os subordinados imediatos (um mais antigo – Heath – e outro dependendo de um poder político autónomo – o australiano Bennett) ou as suas peculiaridades de carácter, que se fariam sentir na falta de um exercício claro de um ascendente sobre os seus subordinados directos, a fazer lembrar o que se adivinha que se terá passado com Souto Moura…

Enquanto se aguarda a passagem do tempo que permita fazer um julgamento mais lúcido sobre a actuação do anterior PGR, ficamos com a de Arthur Percival que, quando se apercebeu da inutilidade da resistência das suas forças, cercadas em Singapura e sem possibilidade de rompimento desse cerco, se rendeu em 15 de Fevereiro de 1942. Percival optou pela rendição apesar das pressões que estava a receber directamente de Churchill para o prolongamento da sua resistência, senão mesmo para algum episódio de última hora na linha da carga da brigada ligeira, repleto de significado poético, de aproveitamento político, de mais mortos e feridos e sem qualquer impacto para o desfecho táctico imediato do conflito…
Daquela vez, a derrota britânica não foi acompanhada de um episódio lírico para a amenizar junto da opinião pública britânica. Percival, que salvara momentaneamente a vida dos seus homens, sabendo reconhecer o momento da derrota e a inutilidade do prolongamento dos esforços de resistência – ninguém lhe contesta a sua grande competência enquanto oficial de estado maior - nunca veio a ser verdadeiramente perdoado pela sua decisão. Não tendo entrado nos livros de história, espera-se que, no resto da sua vida (morreu em1966), Percival deva ter tido um melhor convívio com a sua consciência ao ter tomado a decisão que tomou…

Rigorosamente o mesmo desejo perante a mesma atitude de Vassalo e Silva, o último Governador da Índia portuguesa em 1961, que tomou a mesma decisão perante a mesma situação militar e as mesmas pressões políticas…
* Há quem diga - maldosamente! - que é um princípio que se aplica à cavalaria (a cavalo) em geral. É o tipo de redistribuição de peso que lhes facilita o equilíbrio em sela...