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09 setembro 2022

OS «PARAÍSOS SOCIALISTAS» NA IMPRENSA COMUNISTA PORTUGUESA

9 de Setembro de 1982. Os aniversários da Revolução Socialista na Bulgária e da fundação da República Popular Democrática da Coreia eram efemérides obrigatoriamente assinaladas nos jornais comunistas em Portugal e pretexto para a publicação de peças de propaganda completamente inverosímeis sobre aqueles países. Depois do colapso do comunismo em 1989, todos os supostos «avanços» que abaixo se descrevem se esfumaram porque não passavam de aldrabices. Em 2021 o rendimento per capita português foi o dobro do da Bulgária. Continua a não existir números fiáveis sobre a Coreia do Norte.

13 janeiro 2022

VAMOS LÁ A TIRAR AQUI UMAS IDEIAS DO QUE SE PODE ESPERAR DO VENTURA

Expliquemos a relevância destas imagens vindas da Bulgária para o nosso contexto político: o partido Renascimento (Възраждане - Vazrazhdane - no original) é o Chega lá da Bulgária. E o André Ventura lá do sítio chama-se Kostadin Kostadinov. Comparem-nos mais abaixo: eles até são muito parecidos, só que o outro parece mais macambúzio e não consta da sua carreira uma fase de comentador televisivo ao serviço do CSKA de Sófia. Para o que interessa, o Renascimento, fundado em 2014, tem registado um crescimento eleitoral na Bulgária, como aquele que todos antecipam que se venha a registar com o Chega, nestas próximas eleições de 30 de Janeiro. Na Bulgária, as eleições tiveram lugar em Novembro último e nelas o Renascimento alcançou quase 5% dos votos e uma representação parlamentar de 13 lugares em 240 (um desfecho que não estranharíamos por cá). E no entanto, como se pode apreciar pelas imagens acima, o partido parece mais interessado com aquilo que pode fazer mobilizando centenas de manifestantes à volta do parlamento do que com aquilo que faça com os seus 13 deputados dentro desse mesmo parlamento. O pretexto, neste caso, foram os certificados de vacinação. Poderão ser outros. Contudo, isso não é garantia que Ventura venha a fazer o mesmo ou parecido invocando este ou outro pretexto. Pode não acontecer. Agora, se acontecer, que não haja surpreendidos.

27 agosto 2020

MANIFESTANTES EM SOFIA DEITAM FOGO À SEDE DO ANTIGO PARTIDO COMUNISTA BÚLGARO

27 de Agosto de 1990. A notícia original dizia tudo. E, por sinal, o partido comunista búlgaro fora o mais inteligente dos partidos comunistas do Leste europeu. Olhando para o colapso que os rodeava, os seus dirigentes menos comprometidos haviam-se livrado rapidamente da velha guarda instalado sob a égide de Todor Jivkov (35 anos no poder!). Depois, o próprio aparelho do partido procedera a uma operação de restyling, mudando-lhe o nome de partido comunista búlgaro para partido socialista búlgaro. Por fim e porque elas se afiguravam inevitáveis para se (re)legitimar, precipitara as primeiras eleições democráticas da Bulgária, em Junho de 1990. Em vez de tentarem adiar o inevitável, como os seus camaradas dos países vizinhos, os comunistas búlgaros haviam aproado ao problema, e disputado eleições razoavelmente livres antes que as organizações rivais tivessem tido tempo de se organizarem. Resultado: venceram-nas e com uma maioria absoluta da Assembleia Constituinte*. A manobra fora extremamente hábil. Mas, como se poderia ler no Avante! se o disco tocasse do outro lado, «o povo búlgaro estivera submetido a uma ditadura comunista durante 45 longos anos, marcados pela repressão, a exploração, o obscurantismo, a miséria e a opressão.» E era todo esse mal estar social que despontava à superfície em 27 de Agosto de 1990, dois meses depois das eleições que antecipavam uma reviravolta política de... 360º. Para o leitor comum do Diário de Lisboa de então (e não nos esqueçamos que o jornal estivera, nos últimos 15 anos fortemente conotado com o partido comunista), o incêndio da antiga sede dos comunistas búlgaros tinha indiscutíveis semelhanças com o que acontecera em Portugal durante o Verão quente do PREC de 1975. O ambiente em terras comunistas, onde estivera o Sol da Terra na conhecida expressão de Álvaro Cunhal, esse ambiente era agora crepuscular. Resta dizer, a quem interesse, que o governo comunista/socialista búlgaro acabou por ser derrubado 4 meses depois, de muita agitação social e mesmo de uma greve geral.

* Deixo à imaginação do leitor que resultados eleitorais teriam resultado de umas eleições para a Assembleia Constituinte portuguesa que tivessem sido realizadas em Outubro de 1974, seis meses depois do 25 de Abril. Uma coisa é certa: apenas o PCP, e sobretudo a versão dulcificada dos mesmos comunistas, o MDP/CDE, teriam estruturas nacionais capazes de promover uma campanha política nacional com um mínimo de eficácia. Se em Abril de 1975 foi a improvisação que se viu, imagine-se seis meses antes, e quem beneficiaria eleitoralmente com isso.

11 dezembro 2019

O COLAPSO DO COMUNISMO POR TODA A EUROPA DE LESTE... E OS PINHEIROS DE NATAL

11 de Dezembro de 1989. As notícias internacionais de há precisamente trinta anos deviam ser um completo desconsolo especialmente quando publicadas num jornal de indisfarçáveis simpatias pró-comunistas, como era o caso acima do Diário de Lisboa. Na página dedicada à política internacional (p.11), o panorama noticioso da Europa de Leste apresentava-se deprimente para o leitor habitual: ele era a formação do primeiro governo não-comunista da Checoslováquia, acompanhada da demissão do seu presidente, um dos mais fiéis dos moscovitas; da Bulgária noticiava-se uma espécie de purga, em que a liderança comunista de topo era afastada; e na Alemanha Oriental, dita Democrática, a notícia era que o PC ia mudar de nome, uma notícia de um rigor assim-assim, já que o Partido Comunista local também nunca se denominara comunista: fora socialista e unificado, agora os tempos de mudança impunham-lhe que se denominasse uma outra coisa qualquer. De uma página que exemplificava o colapso do marxismo-leninismo em que o leitor mais comum do Diário de Lisboa fervorosamente acreditara, só se salvava mesmo o anúncio da Câmara Municipal de Lisboa e a venda dos pinheiros de Natal... Podemos acrescentar ainda um retoque de ironia adicional a todo o momento histórico. Se recuperarmos uma página daquele mesmo jornal, datada de precisamente dez anos anos antes (dia por dia: 11 de Dezembro de 1979), nela  podemos ver que, com um destaque superior (p.3), se dava voz a uma opinião que o sistema capitalista atingira o ponto de ruptura. Terminava assim: «A História é irreversível. Os acidentes de percurso não possuem significado especial». Ámen. Os comunistas, que tão intectualmente arrogantes se haviam mostrado por décadas, agora contemplavam o desmoronar do que se revelava uma grande fraude.

08 dezembro 2019

O JULGAMENTO DE TRAICHO KOSTOV

8 de Dezembro de 1949. Uma das notícias em destaque era a de mais um daqueles espectaculares julgamentos tanto ao gosto dos países comunistas da Europa oriental, onde se procurava mimetizar o que acontecera nos finais da década de 1930 em Moscovo. Desta vez, o julgamento-espectáculo tinha lugar em Sofia, capital da Bulgária. O réu-vedeta do julgamento chamava-se Traicho Kostov, fora o segundo da hierarquia do estado e do partido desde Setembro de 1944 até Março passado, quando, em desgraça, perdera todos os cargos políticos e administrativos que exercia e se vira rebaixado à condição de director da Biblioteca Nacional de Sofia. Mas isso fora apenas um degrau da queda. Daí a dois meses e meio, em Junho de 1949, era expulso do partido e preso. Nem seis meses transcorridos aparecia agora no banco dos réus acusado de tudo e mais alguma coisa:
a) de ser o líder de uma organização clandestina que tinha como objectivo derrubar o governo pela violência;
b) de que havia cometido acções visando propositadamente o agravamento das relações amistosas entre a Bulgária e a União Soviética e os outros países comunistas;
c) de que se colocara sob as ordens dos serviços de informações britânicos, americanos e jugoslavos;
d) de que, em funções oficiais e perante governos estrangeiros, havia deliberadamente desempenhado essas funções em detrimento da Bulgária;
e) de que cometera actos visando a desorganização da economia nacional e do sistema de abastecimentos do país;
f) de que mantinha estreitas ligações políticas com Tito (um anátema, pois este último rompera com Estaline!).
Kostov repudiou esta sua detalhada confissão por escrito mas, mesmo assim, o julgamento prosseguiu em sua ausência. A colaboração da vítima era apenas um retoque não indispensável da coreografia do julgamento. Kostov foi enforcado na noite de 16 para 17 de Dezembro de 1949*.
Recorde-se que, nem há dois meses e como aqui evocámos no Herdeiro de Aécio, acontecera um episódio decalcado a papel químico deste na Hungria. Se nos tentarmos colocar na posição dos nossos contemporâneos destes acontecimentos, ser-se então militante comunista e pugnar para trocar a ditadura do professor Salazar por uma outra ditadura que assim se percebe ter aquele contornos era uma atitude que perderia qualquer racionalidade: que se derrubasse a ditadura, mas por um regime que não fosse outra ditadura, ainda por cima mais sangrenta que a que já existia!
* Por coincidência e por esta mesma época, o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, que havia sido preso pela PIDE a 25 de Março de 1949, estava a ser julgado. Mas não foi enforcado: não havia pena de morte em Portugal. Faltava-lhe esse avanço socialista.

05 setembro 2019

OS PAÍSES MÉDIOS NÃO TÊM POLÍTICA EXTERNA AUTÓNOMA

5 de Setembro de 1944. A União Soviética declara guerra à Bulgária. Isso acontece apesar deste país, obrigado a orbitar na esfera da Alemanha durante o período de hegemonia germânica na Europa, ter tido o cuidado de nunca ter hostilizado a União Soviética, nem mesmo quando a Alemanha a invadiu em Junho de 1941. Outros aliados alemães, como a Roménia, a Hungria, a Finlândia, a Eslováquia, e até mesmo a Itália e a Espanha, chegaram a participar com contingentes militares seus combatendo na Frente Leste. A Bulgária, preventivamente e antecipando outros cenários que não apenas a vitória alemã, limitara-se a declarar guerra ao Reino Unido e aos Estados Unidos (e isso só em Dezembro de 1941), deixando um grande ponto de interrogação em cima da atitude para com a União Soviética e não enviara quaisquer tropas para combater na Rússia. Há 75 anos e ao contrário da sua vizinha Roménia a Bulgária sentia-se com direito a um tratamento diferenciado e mais leniente, agora que, no refluxo, ocorria a invasão da Europa de Leste pelos soviéticos. Descobria agora que não, que Moscovo se estava a marimbar para isso tudo. Os soviéticos não se iriam incomodar com subtilezas e agradecimentos e a declaração de guerra era tão somente o precedente legal justificador da invasão e ocupação militar da Bulgária que se seguiria. Na fotografia acima, búlgaros acolhem os libertadores russos - no cartaz lê-se "Glória Eterna ao Exército Vermelho". A glória não foi eterna mas durou uns bons 45 anos.

31 março 2018

A OFENSIVA DIPLOMÁTICA DO III REICH NA PRIMAVERA DE 1943

31 de Março de 1943. Adolf Hitler recebe o rei Bóris III da Bulgária (acima). Essa vai ser a primeira visita de um dos seus aliados europeus, na ofensiva diplomática que o III Reich irá desencadear na Primavera de há 75 anos, exibindo um bloco coeso de parceiros. Os ventos da Guerra mostravam-se agora potencialmente adversos para as armas alemãs e, para além de Bóris, ao longo do mês que se seguirá, Hitler ir-se-á encontrar com o duce Benito Mussolini de Itália (7 de Abril), com o conducator Ion Antonescu da Roménia (14 de Abril), com o regente Miklós Horthy da Hungria (16 de Abril), com monsenhor Jozef Tiso da Eslováquia (23 de Abril), com o poglavnik Ante Pavelić da Croácia (27 de Abril) e, finalmente, com o chefe do governo do Estado francês, Pierre Laval (29 de Abril). Os resultados podiam parecer ressonantes, se se acreditasse naquilo que as máquinas de propaganda então produziam (abaixo), mas a intuição geral da esmagadora maioria dos observadores apontava para que as vantagens iam agora todas para o lado dos Aliados.

19 setembro 2016

QUANDO OS PAÍSES MÉDIOS - COMO PORTUGAL - SE MARIMBAM PARA AS DITAS POTÊNCIAS

Em Setembro de 1912 - há 104 anos - as ambições da Bulgária, Grécia, Montenegro e Sérvia haviam-se concertado para a formação de uma aliança ofensiva para conquistar o resto dos territórios europeus do império Otomano. No meio dos acordos das chancelarias balcânicas, tudo havia sido feito para contornar as divergências entre os parceiros, nomeadamente o facto de que havia regiões a conquistar que eram cobiçadas por dois e mesmos três parceiros em simultâneo: era o caso da Macedónia, cobiçada por búlgaros, gregos e sérvios. Ainda não cheguei à eclosão da Primeira Guerra Balcânica propriamente dita, que começou a 8 de Outubro, mas o episódio que possui umas estranhas ressonâncias modernas é a tentativa concertada de última hora das capitais das «potências», Paris, São Petersburgo e Viena, em tentar refrear os seus aliados. Que, como a continuação da história demonstraria, se estiveram marimbando para essas tentativas. Em tempos de paz e mesmo se o assunto for a guerra, a influência das ditas potências é muito mais consentida pelos destinatários do que imposta. Foi a propósito disso que eu me lembrei da analogia com as fotografias exibindo Merkel, Hollande e Renzi juntos. Depois da saída do Reino Unido da União Europeia, continuará a existir o directório dos países maiores, mas estas operações de relações públicas já não conseguem esconder que, por exemplo na matéria sensível dos refugiados, a capacidade de influência de Berlim ou Paris sobre polacos ou húngaros é nula. Como a antiga ordem internacional que se desmoronou em 1914, também a que vigorou até agora na União Europeia parece preparar-se para se desagregar.

21 agosto 2012

DOS SACRIFICADOS DE GALÍPOLI AOS «JARDINEIROS» DE SALÓNICA


A Campanha de Galípoli (entre Abril de 1915 e Janeiro de 1916) é um dos episódios colaterais mais conhecidos da Primeira Guerra Mundial. Tornou-se um momento épico para australianos e neozelandeses que pela primeira vez se viram envolvidos num grande conflito. Fez-se um filme a esse respeito (acima), onde se mostra como se tratava de um esforço inglório porque se estava numa situação de impasse táctico. Houve que abandonar a ideia e evacuar as tropas ao fim de 9 meses. O comandante do corpo expedicionário, Ian Hamilton, caiu em desgraça. E o grande animador da campanha e da ideia da ruptura estratégica pelo flanco mediterrânico, Winston Churchill, então Primeiro Lorde do Almirantado, demitiu-se. Last but not least, permitam-me o aparte, o assunto já foi aqui abordado no Herdeiro de Aécio. É assim que esta história costuma terminar. Mas não a História das tentativas da Entente Cordiale para renovar a estratégia de atacar o bloco inimigo pelo flanco mediterrânico …
Uma parte do contingente que fora evacuado de Galípoli veio a ser transferido para Salónica, cidade no Norte da Grécia. Churchill podia ter-se demitido, mas restavam muitos outros, agora sobretudo em França, que ainda defendiam a valia da estratégia que fracassara em Galípoli – veja-se a seta azul no mapa acima (que pode ser ampliado). Mas ao escolher Salónica, os promotores da continuidade criaram um novo problema, este de natureza política: a Grécia declarara-se neutra quando da eclosão da Guerra e a instalação do contingente anglo-francês violava essa neutralidade. Aliás, o país debatia-se entre a facção pró-Entente do 1º Ministro Venizelos e afacção oposta, dos seus adversários políticos, embora encabeçada pelo rei Constantino, que era cunhado do Kaiser - embora qualquer das facções não tivesse capacidade de se opor à ocupação de Salónica, transformada numa grande base militar da Entente. Os franceses, que entretanto se haviam assenhorado do projecto, e que por essa época começavam a lutar com falta de efectivos, pretendiam usá-la agora para equipar e instruir um novo exército dos exilados sérvios…
Na verdade, lutando contra a falta de efectivos, a imagem de marca das guarnições aquarteladas em volta de Salónica veio a ser a sua heterogeneidade. Não era só uma questão de multiplicidade de comandos: francês, britânico, sérvio, italiano, russo e mais tarde grego, quando o país entrou finalmente na Guerra em Junho de 1917. Era quem servia sob esses comandos. Na fotografia acima e da esquerda para a direita podemos apreciar uma combinação de soldados de origem vietnamita, norte-africana, senegalesa, britânica, russa, italiana, sérvia, grega e indiana. O recurso a tantas tropas coloniais por parte das respectivas potências mostra o desgaste que a Guerra provocara na disponibilidade de meios humanos, embora a justificação oficial para o facto referisse as questões de salubridade do clima mediterrânico… O carácter compósito do comando e das tropas e a complexidade da situação política envolvente conjugavam-se para que naquela frente de guerra houvesse um grande frenesim sem que houvesse um correspondente produto militar. Por isso, as tropas eram designadas depreciativamente pelos jardineiros de Salónica
Na Primavera de 1917, já estavam estacionados em Salónica 220.000 homens sob comando britânico, 190.000 sob comando francês, 125.000 sérvios, 40.000 italianos, 18.000 russos, ou seja, quase 600.000 efectivos, organizados em 24 divisões. Tornava-se imperativo desencadear uma ofensiva, tanto mais que, por essa mesma altura na frente ocidental, o General Nivelle desencadeava a Ofensiva que veio a levar o seu nome e que prometia a tão esperada ruptura da frente das trincheiras. Qualquer delas se revelou um fiasco. A de que agora tratamos, travada entre Abril e Maio contra os búlgaros nas linhas das alturas onde a neve ainda caía (aprecie-se por este pormenor as vantagens da adaptação climática de vietnamitas ou senegaleses…), teve aquela particularidade dos desastres militares das potências quando essas derrotas acontecem diante de países menores: ou não existem ou, a existirem, foi só porque os segundos contaram com a ajuda de outra potência, neste caso a Alemanha*. Apesar da má-fé, os factos falam por si: os búlgaros ganharam uma pausa de 16 meses…
Foi só em Setembro de 1918 que ali, como de resto em todas as outras frentes da Primeira Guerra Mundial, os exércitos da Entente começaram a progredir no terreno, e quando o fizeram, fizeram-no mais por causa da implosão da capacidade de combate dos Impérios Centrais do que pelo seu mérito militar (amplie-se o mapa acima). A Bulgária foi até o primeiro dos países vencidos a assinar um armistício, ainda a 29 de Setembro de 1918 – a Alemanha só o faria daí por 6 semanas. Mas, no seu cômputo global, o desempenho político e militar das duas potências da Entente por aquelas paragens do Mediterrâneo durante a Primeira Guerra Mundial foi de uma embaraçosa mediocridade. Não surpreende o tratamento discreto - Galípoli aparte - que as suas Histórias nacionais posteriores vieram a dar àquela campanha…
* Também os franceses tendem a atribuir as suas derrotas na Guerra Peninsular ao exército britânico, não luso-britânico.

18 julho 2012

OS BOMBISTAS SUICIDAS «BONS» E OS BOMBISTAS SUICIDAS «MAUS»

Quase emparceiradas, duas notícias da actualidade dão-nos conta de dois ataques bombistas perpetrados por um suicida - cada um o seu, evidentemente... Sinal do como já nos teremos acostumado a este fenómeno até há dez anos inexplicável, mas também de um omnipresente cinismo na forma de o noticiar, as notícias fazem de um dos suicidas dos bons enquanto o outro é, como acontecia tradicionalmente até aqui, dos maus. Este último atacou um autocarro de inocentes turistas israelitas acabados de chegar à Bulgária, os pobres; o outro, porém, explodiu-se em Damasco na Síria e fez uma Razia no Aparelho de Segurança Sírio… é bem feito!

02 julho 2012

A PATRONA SOCIALISTA DA ARTE E CULTURA BÚLGARA

 Marx nunca se terá alargada muito em considerações precisas sobre aquilo que deveria ser a arte e a cultura proletárias após o estabelecimento da ditadura. Os revolucionários fizeram o que puderam depois da gloriosa revolução de Outubro mas, de entre todos os estados socialistas, o socialismo internacional e búlgaro tem uma enorme dívida de gratidão não reconhecida para com Ludmila Jivkova (1942-1981).
 Ludmila Jivkova foi um fenómeno precoce na política búlgara. Comunista desde muito nova, em 1973, com apenas 30 anos, já se tornara a vice-presidente da Comissão do partido (Partido Comunista Búlgaro) para a arte e cultura. Em 1975, escassos dois anos depois, viria a assumir a sua presidência com um acréscimo de responsabilidades, que se estenderam também às áreas da televisão, rádio e imprensa.
Com a responsabilidade pela supervisão por toda a arte, cultura e comunicação social da Bulgária, com funções que eram em tudo menos no nome as de um super-ministro (de fazer inveja a Miguel Relvas…), Ludmila Jivkova seria então o orgulho de qualquer pai, especialmente se ele fosse (como de facto acontecia…) o secretário-geral do mesmo partido, o todo poderoso Todor Jivkov (1911-1998)... 
 É verdade: o socialismo científico produz destas coincidências cientificas… Quanto à actuação desta verdadeira patrona socialista durante a escassa meia dúzia de anos em que ela exerceu o poder pode sintetizar-se numa palavra: controversa. Ludmila Jivkova tinha ideias firmes e uma enorme capacidade de as executar, mas de entre elas, podia contar-se a devoção por uma santinha da ladeira local
 As circunstâncias associadas à sua morte indiscutivelmente prematura, a 5 dias de completar 39 anos – são tão controversas quanto a sua carreira. Seguiu-se um daqueles períodos de luto ao jeito socialista em que o nome e a efígie da defunta apareceram em todo o lado (acima), mas uma caricatura sua e da sua actividade, só mesmo depois do fim do usufruto das mais amplas liberdades democráticas (1991).   
Agora a sério: alguém imagina algo de remotamente semelhante a acontecer sob o Estado Novo com, por exemplo, Ana Maria, a filha de Marcelo Caetano?... E alguém a tentar desculpar, ainda hoje, tal conduta?...

19 outubro 2010

A FICÇÃO E A REALIDADE (OUTRA VEZ)

Para não me repetir, remeto quem me leia para um poste que aqui escrevi há uns três anos descrevendo o enredo de A Caçada, um álbum que é uma obra-prima da BD da autoria de Enki Bilal e Pierre Christin. E em baixo aprecie-se uma fotografia real em que, como na história de A Caçada, se reúnem os líderes comunistas numa estância de férias, neste caso em Sóchi junto às costas do Mar Negro, em Junho de 1973:

Da esquerda para a direita pode-se identificar (clicar para ampliar) Todor Jivkov (Bulgária), Nicolae Ceauşescu (Roménia), Edward Gierek (Polónia), János Kádár (Hungria), Gustáv Husák (Checoslováquia), encoberto não identificado, Leonid Brejnev (União Soviética), Erich Honecker (Alemanha Democrática), Yumjaagiin Tsedenbal (Mongólia) e Andrei Gromiko (Ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética)

25 janeiro 2010

RECORDANDO A BULGÁRIA SOCIALISTA

Havia uma velha anedota na Bulgária, um daqueles países socialistas do Leste onde se vivia muito bem sob o regime socialista (foi uma chatice que tais paraísos tivessem acabado em 1989…), em que um comunista novato perguntava a um camarada veterano se ele alguma vez se havia desviado da linha do partido; a resposta foi obviamente negativa, ele jamais se desviara da linha do partido, acrescentando depois com uma piscadela de olho, ele desviara-se sempre com a linha do partido…
Ainda hoje, a Bulgária continua a ser um país curioso... Naquele tempo, a sua localização geográfica era como que simétrica à nossa, mas no outro Bloco, dentro da Europa dividida da Guerra-Fria (mapa acima). A dimensão geográfica e demográfica dos dois países era muito próxima: 111.000 km² e 8 milhões de habitantes de búlgaros para os nossos 92.000 km² e 10 milhões. Dava-se até a coincidência dos dois países usarem como cores dominantes nas suas bandeiras nacionais o vermelho e o verde.
Se, entre nós, António de Oliveira Salazar dominara a política portuguesa durante 36 anos (1932-1968), na Bulgária fora Todor Hristov Jivkov (abaixo) a aproximar-se daquela marca com os seus 35 anos (1954-1989) à frente do Partido Comunista Búlgaro e do país. Porém, as vicissitudes que haviam transformado Salazar de líder fascista antes da Segunda Guerra Mundial para defensor do Ocidente depois dela em nada se comparam com a muito mais complexa evolução dialéctica da carreira de Jivkov...
Jivkov chegou ao topo da hierarquia reputado como um duro da linha estalinista (1954), para se adaptar às novas correntes anti-estalinistas do XX Congresso do PCUS (1956), para namorar com o maoismo (1958), para reverter tudo em 1962 com a cisão sino-soviética e adaptar-se aos novos tempos de Brejnev (1966) e anular experiências que se haviam tornado demasiado arrojadas como a conhecida por socialismo de mercado, que se tornou herética quando se pôs fim à Primavera de Praga em 1968…
Da década de 1970 em diante nenhum regime socialista era considerado mais indefectível do soviético do que o búlgaro (acima). E, numa operação tão canhestra quanto o assassinato em Espanha de Humberto Delgado pela PIDE em 1965, também os serviços secretos búlgaros (DS) ganharam uma grande notoriedade internacional quando assassinaram em 1978 o dissidente búlgaro Georgi Markov (abaixo) em Londres através de um dispositivo instalado num chapéu-de-chuva que disparava projecteis envenenados.
A enumeração de acontecimentos análogos poder-se-ia suceder. Mas seria apenas para reforçar a imagem de regimes de dois países que se contavam entre os menos evoluídos dos respectivos blocos a que pertenciam. Contudo, com a vantagem dos 15 anos de antecedência na implantação da verdadeira democracia (1974-1989) e dos 20 anos de antecedência na adesão à União Europeia (1986-2007), na actualidade, a grande maioria dos indicadores de qualidade de vida são favoráveis aos portugueses¹.
Com estas semelhanças dos antigos regimes, o que é perfeitamente absurdo é como pode haver ainda em Portugal quem obtusa e disparatadamente defenda que as melhorias nos indicadores de qualidade de vida que se registaram na Bulgária de 1954 para 1989 sob Jivkov se possam dever às extraordinárias conquistas e avanços civilizacionais só permitidos pelo socialismo enquanto as melhorias verificadas em Portugal entre 1932 para 1968 sob Salazar, serão as consequências nefastas do fascismo

¹ No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2009, Portugal está no 34º lugar mundial com 0,909 enquanto a Bulgária aparece só no 61º com 0,840.

26 março 2008

O VERDADEIRO FRANCHISE

Suponho que ainda se lembrem de um Concurso da SIC chamado Ídolos, especialmente da melhor parte, que era a fase de selecção prévia dos concorrentes, ocasião em que lá apareciam uns cromos inacreditáveis, perante a estupefacção do júri (abaixo).
Outro dia, enviaram-me uma dessas cenas inacreditáveis, via You Tube, mas agora no concurso homólogo que se realizou na Bulgária. Descobri que em terras eslavas há quem assassine a língua de Shakespeare com tanta ou mais eficácia do que os espanhóis…
Embora o gozo seja todo feito à custa da concorrente, o que eu não estava à espera, prestem bem atenção ao vídeo, é à extraordinária semelhança física entre os vários membros do júri búlgaro e os seus homólogos que haviam sido escolhidos em Portugal.
Parece óbvio que nestes formatos televisivos transnacionais o franchise é de rigor e, neste caso, mais do que o discernimento do julgador, parece ser a aparência de jurado que mais conta. Pelos vistos, além dos concorrentes, houve ali mais gente a fazer figuras tristes

Adenda: Descobri, através deste vídeo, que a artista da audição anterior, a búlgara Valentina Hasan, afinal vive em Espanha e que deve ter sido lá que aprendeu a falar inglês… Só mesmo em Espanha é que Valentina conseguiria convencer-se que falava inglês…

12 maio 2007

O PAÍS A QUE CHAMAM FYROM

Por anos a fio, e até hoje em alguns casos (a União Europeia é um deles), a obstinação grega obrigou que uma das antigas unidades da federação jugoslava fosse designada pelo acrónimo bizarro de FYROM, que corresponde, em inglês, a Former Yugoslav Republic Of Macedonia (Antiga República Jugoslava Da Macedónia). A objecção grega está associada ao que os gregos consideram a sua posse histórica do nome de Macedónia, desde a Antiguidade e do reino de Filipe e Alexandre. Aliás, imediatamente ao Sul da república que se separou da federação jugoslava, existem três distritos gregos usando esse nome: a Macedónia Central, a Macedónia Ocidental e a Macedónia Oriental e Trácia.

O ministro dos negócios estrangeiros grego, quando enviado a Portugal no princípio do diferendo (1992) para nos conquistar para a sua causa, arranjou uma analogia bastante imbecil, envolvendo-nos com uma Espanha a decompor-se, numa demonstração que o trabalho dos membros da sua Embaixada em Lisboa tinha uma grande margem de progressão… A analogia envolvia a independência da província espanhola da Extremadura e do incómodo que isso nos causaria por causa da semelhança do nome desse país hipotético com a nossa província da Estremadura, que nem sequer lhe fica contígua… E, contudo, com o mesmo uso do hipotético teria sido bem simples e eficaz sensibilizar-nos: se a Andaluzia se separasse de Espanha e adoptasse o nome histórico de Algarve, como nos sentiríamos?...
Politicamente, Macedónia é uma designação cheia de potencial para se transformar numa tremenda trapalhada. Pode ser uma região histórica, sem significado actual, ou pode ser uma região geográfica, passível de ser organizada politicamente das maneiras mais diversas, pode também ser apenas um subgrupo cultural de entre os eslavos dos Balcãs, mas poderá ser uma verdadeira nação separada, será praticamente tudo o que dela quisermos fazer. Ao mesmo tempo, podem-se percorrer os países vizinhos (Sérvia, Bulgária e Grécia) e encontrar ali alguma unanimidade de opiniões em como não existem razões suficientemente válidas para que exista uma identidade macedónia própria que justifique a existência de um país independente.

A argumentação que sustenta a existência de um idioma macedónio autónomo é peça importante para a afirmação da existência de uma nacionalidade macedónia. Todos os idiomas eslavos dos Balcãs se assemelham e as várias formas faladas que se empregam na Macedónia tanto se distinguem entre si como das variantes empregues nas regiões adjacentes dos vizinhos da Sérvia e da Bulgária. Mas as referências usadas no macedónio literário aproximam-no daquelas que caracterizam o búlgaro, embora privilegiem os padrões do búlgaro empregue nas regiões ocidentais da Bulgária, enquanto o próprio búlgaro literário o faz com os padrões da Bulgária oriental, onde se situa Sófia, a capital.

A maioria dos macedónios são cristãos ortodoxos, organizados numa Igreja Ortodoxa Macedónia autónoma que foi recriada (ou criada, conforme as versões…) em 1958. Pôde-se notar o apoio discreto do governo federal jugoslavo na sua fundação e a Igreja Macedónia ainda hoje é proscrita na comunidade das Igrejas Ortodoxas. Existe uma minoria muçulmana, embora haja uma enorme certa complexidade em classificá-la: há os que são de cultura albanesa, outros são classificados como bósnios ou mesmo turcos e há ainda a categoria dos muçulmanos de cultura macedónia. Num exemplo flagrante como os resultados dos censos podem ser trabalhados, o último grupo cresceu de 1.600 pessoas no recenseamento de 1953 para 39.500 no de 1981…
Pelo que ficou escrito nos dois últimos parágrafos deste poste, é fácil perceber a importância da acção do governo jugoslavo do pós-guerra, chefiado por Tito, um croata, na promoção da constituição de uma nacionalidade macedónia distinta que enfraquecesse a Sérvia (a comunidade mais numerosa da Jugoslávia) e assim facilitasse o estabelecimento dos indispensáveis equilíbrios internos entre sérvios e croatas dentro da federação jugoslava. Foi uma manobra superiormente bem feita, porque, para além dessa componente de equilíbrio interno, a criação de uma nação macedónia neutralizou as aspirações da Bulgária que os queria considerar búlgaros além de que a escolha do nome se tornou uma potencial ameaça para a Grécia numa eventual disputa de um acesso para o mar…

Mas toda a beleza maquiavélica da criação da Macedónia assentava no pressuposto que ela continuaria a ser uma das unidades constitutivas de uma federação… Agora que se tornou independente, isolada do mar e rodeada de vizinhos hostis (Albânia, Sérvia, Bulgária e Grécia), a Macedónia é um verdadeiro problema político em potencial para a União Europeia, mais um par de botas balcânico, tipificado naquela proibição formal do país usar o seu próprio nome e na manutenção, ainda hoje, de um Quartel-General da NATO em Skopje, capital da Macedónia, não venha a acontecer qualquer coisa de inesperado…

04 abril 2007

A PEDIDO DE VÁRIAS FAMÍLIAS…

Suspeito que haverá alguns professores maldosos no Brasil que encarregaram os seus alunos de fazer trabalhos sobre as religiões existentes nos territórios que outrora formaram o Império Romano do Oriente. Não exagerarei quando disser que já encontrei pelo menos uma dezena de visitantes que aqui vieram ao blogue à procura especificamente dessa informação. E, em atenção a essas variadas famílias brasileiras aí vai uma pequena história do Império Romano do Oriente e das suas religiões actuais.

Se a história é – como qualquer poste de blogue – necessariamente breve, a duração do Império não o é. O Império Romano do Oriente, que corresponde à metade oriental do Império Romano conforme se observa no primeiro mapa, teve uma duração que superou os 1.000 anos: de 395 d.C. até 1453 d.C. Para os padrões medievais europeus era um estado de uma complexidade e sofisticação muito avançada, assente em três parâmetros identificativos: direito romano, cultura grega e religião cristã ortodoxa.

Mas não começou assim. Ao princípio, logo depois da separação do Ocidente (e da subsequente queda deste) era um verdadeiro Império, aglomerando a heterogeneidade e rivalidade das três grandes regiões que, mesmo assim o compunham, cada qual com a sua metrópole: o Egipto e a sua capital Alexandria, o Oriente e a sua grande cidade comercial, Antioquia, e finalmente os Balcãs e a Ásia Menor, conectados pela grande capital do Império, Constantinopla.
Cada uma daquelas três regiões, embora a maioria da população se tivesse tornado cristã, acabaram a distinguir-se entre si por ela professar ritos religiosos distintos: designados por coptas no Egipto, por jacobitas na Síria e por ortodoxos em Constantinopla. E, mesmo quando o Império Romano se reexpandiu para Ocidente no reinado de Justiniano no Século VI (mapa acima), a anexação ainda adicionou o catolicismo romano àquele, já complexo, puzzle religioso.

As divergências acabavam por não representar nada de substantivamente diferente quanto ao essencial da mensagem cristã (tal qual havia sido definida no Concílio de Niceia em 325). Mas, quando são utilizadas para fins políticos, as pequenas diferenças doutrinárias podem parecer abismos impossíveis de transpor: vejam-se, por exemplo, as rupturas no movimento comunista internacional do Século XX entre leninistas, trotskistas ou maoistas. Algo semelhante aconteceu naquela época, só que associado à natureza de Cristo e à procedência do Espírito Santo

A disputa política – disfarçada de teológica – foi levada a extremos tais dentro do Império Romano do Oriente que frequentemente Alexandria e Antioquia, como capitais regionais, procuravam ser neutrais nas disputas de Constantinopla com os seus inimigos externos, quando não mesmo se opunham aos interesses do centro do Império. E no Século VII, por ocasião da expansão islâmica, a adesão dos cristãos não ortodoxos à nova ordem dos invasores foi maciça, onde passaram – convertidos à nova fé ou não – a constituir a maioria dos quadros não militares.
Havendo vantagens materiais para o fazer, normalmente nunca houve coacção para que houvesse uma conversão do cristianismo para o islamismo entre as populações dos países que hoje são o Egipto, a Jordânia, Israel, o Líbano ou a Síria. Ela foi-se processando gradualmente. Actualmente em todos eles (com excepção de Israel, cujo povoamento é resultante da imigração maciça moderna de judeus, mas a realidade entre a população palestiniana é idêntica à dos outros países mencionados) há minorias cristãs, que podem variar entre os 5 (Jordânia) e os 35% da população (Líbano). Mas a sua proporção tem vindo a baixar no último século, porque a tendência para emigrar é muito superior entre os cristãos: na Síria, por exemplo, a proporção de cristãos baixou de 17% (1958) para 10% (2001).

Regressando ao passado, o Império Romano conseguiu a proeza notável de resistir ao impacto da expansão islâmica (acima) que alcançou tanto a França como a Índia, embora ficasse mais reduzido em extensão, mas com a vantagem de ser tornado muito mais coeso, englobando apenas a Ásia Menor e as regiões europeias, onde apenas predominava o cristianismo ortodoxo. As maiores pressões que o Império passou a sofrer vinham agora das regiões europeias, onde os povos eslavos (búlgaros, sérvios) estavam a procurar criar estados de confissão ortodoxa mas independentes da tutela imperial de Constantinopla.

Da batalha de Manzikert (1071), travada no século XI entre romanos* e turcos, ficou o simbolismo do início da perda progressiva da influência do velho Império nas regiões da Ásia Menor perante a constante pressão dos povos turcos, de religião islâmica. Mas também a população local, sujeita ao poder turco, se foi convertendo progressivamente. Nos últimos grandes momentos do Império (meados do século XIII - abaixo em azul), ele agrupou-se à volta do Mar Egeu, tanto nas suas costas europeias (onde se situa a Grécia moderna) como nas asiáticas, numa disposição parecida com a do período áureo da civilização da Grécia Clássica**.
O Império Romano do Oriente extinguiu-se quando Constantinopla foi tomada pelos turcos em 1453, enquanto o Império Otomano por eles fundado continuou a expandir-se pela Europa balcânica convertendo alguns dos povos conquistados (albaneses e bósnios) à religião muçulmana. O retrato religioso do Império Otomano (abaixo a sua configuração no apogeu de 1580) que, em mais do que um aspecto, pode ser considerado sucessor do Império Romano do Oriente, é bastante complexo, com cristãos e muçulmanos coexistindo em todo os lados, os primeiros geralmente em maioria na Europa, os segundos na Ásia.
Só no princípio do Século XX, através de um gigantesco (e pouco divulgado) processo de transferência recíproca de populações a Grécia e a Turquia modernas adquiriram uma verdadeira homogeneidade religiosa – assunto aqui tratado num poste anterior. De resto, todos os outros países que pertencem a regiões que fizeram parte outrora do Império Romano do Oriente ainda aqui não mencionados, quando são maioritariamente cristãos (Sérvia, Bulgária, Chipre) têm minorias muçulmanas, e quando são maioritariamente muçulmanos (Albânia), têm minorias cristãs.
Como é que é? Deu ajuda no trabalho? As respostas podem endereçar-se para o meu correio: herdeirodeaecio@hotmail.com

* Note-se que entre os historiadores ocidentais se criou o hábito de designar os romanos por bizantinos, para fazer esquecer que eram eles eram os verdadeiros e legítimos – sem interrupções! – herdeiros das instituições políticas romanas. Aliás, árabes e turcos, para quem essas controvérsias eram irrelevantes, designavam os habitantes do Império colectivamente pelo nome de Rum.
** Uma fracção apreciável das cidades da Grécia clássica – a começar pela famosa Tróia – situa-se na actual Turquia ocidental.