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18 junho 2024

DIA DO CARNAVAL CONTRA O CAPITAL

(Republicação)
18 de Junho de 1999. Coincidindo com a abertura da 25ª Cimeira do G8, que iria começar nesse dia em Colónia, Alemanha, é convocado um conjunto de manifestações anti-capitalistas e anti-globalização para terem lugar em cerca de trinta cidades do Mundo. O título que foi escolhido para as designar - Dia do Carnaval contra o Capital - ainda hoje resulta mobilizador, embora, como é costume neste género de eventos, a identidade dos organizadores continue a permanecer um pouco difusa, permitindo a especulação quanto às suas intenções, para além da contestação pura e simples a um modelo político, económico, social que há vinte e cinco anos parecia não se deparar com alternativas ideológicas sérias. Quanto às manifestações propriamente ditas, onde a de Londres terá sido uma das maiores, senão mesmo a maior, ela terá juntado cerca de quatro mil pessoas (dados policiais), um número insignificante que terá tentado superar esse handicap com a abordagem carnavalesca dos protestos (fotografia intermédia).
Mas aquilo que terá constituído uma revelação na dita jornada de protesto mundial foi a rapidez como a comunicação social mundial se precipitou para lhe dar atenção a partir do momento em que os protestos se tornaram violentos (fotografia abaixo). Parecia ser isso que se esperava que eles - os manifestantes - fizessem e, a partir do momento em que o fizeram, as manifestações ganharam muito mais cobertura mediática do que a que alcançariam se eles se portassem bem. Estava estabelecido um padrão para o século XXI. Uma manifestação anti-qualquer-coisa garantiria cobertura mediática robusta só se os manifestantes começassem a escaqueirar o que tinham à frente e a confrontar-se com a polícia: foi o que aconteceu dali por seis meses na reunião da OMC de Seattle; foi o que aconteceu na cimeira de Praga do FMI e do BM em 2000; foi o que aconteceu na 27ª Cimeira do G8 de Génova em 2001; é aquilo que tem vindo a acontecer, finalmente, embora num contexto nacional e não mundial, com os protestos dos coletes amarelos em França, que se perpetuam sem que se perceba para quê, a não ser deixar as televisões de notícias entretidas ao fim de semana, quando faltam tópicos de que se fale.
E, no entanto, de quando em vez, percebe-se qual é o verdadeiro poder das manifestações de rua quando elas expressam uma verdadeira opinião popular significativa, como o que aconteceu em Hong Kong em Junho de 2019. Quando cerca de 5% da população vem para a rua manifestar-se contra uma medida legislativa indesejada, não é preciso que os manifestantes partam nada, nem baterem-se contra ninguém, para aparecerem nos telejornais. O acontecimento tem um significado político, não é apenas um espectáculo para passar na televisão, é a sério e os poderes políticos percebem o recado.

14 junho 2024

A TOMADA DE POSSE DE THABO MBEKI

(Republicação)
14 de Junho de 1999. Com a tomada de posse como presidente de Thabo Mbeki terminava aquilo que se poderia denominar por fase experimental da transição na África do Sul. Aos oitenta anos, Nelson Mandela, que fora o garante dessa transição, afastava-se para dar lugar a uma nova geração - Mbeki era 24 anos mais novo. As duas principais comunidades sul-africanas davam mostram de boa vontade e pareciam procurar acomodar-se uma à outra, mas a falta de à vontade é patente no vídeo acima (por volta do 01:00), quando Mbeki mostra não saber muito bem como se comportar diante da chefe da guarda de honra, que, ainda por cima, depois tem que se fazer discreta e pequenina, para que madame Mbeki também caiba nas fotografias. Mas, embora caricatural, este ainda era o lado benigno do ANC. A degradação estava guardada para daí a dez anos, com a chegada ao poder de Jacob Zuma.

11 junho 2024

UM «CHEIRINHO» DA VELHA GUERRA FRIA

(Republicação)
11 de Junho de 1999. Nesse dia terminava a Guerra do Kosovo. Com a entrada em vigor do cessar fogo, fora previsto que uma força conjunta de manutenção de paz, composta por unidades militares de países da NATO e também russas, se instalassem na antiga região autónoma jugoslava. Os russos haviam querido um sector independente, mas os Estados Unidos, assim como os restantes países europeus da NATO, haviam rejeitado a ideia, com receio que isso predispusesse os russos a dividirem o Kosovo em duas regiões, uma menor de maioria sérvia a norte e a restante, de maioria albanesa, uma espécie de mini Alemanha Oriental balcânica, que esses bons velhos hábitos nunca saem de moda. Mesmo que não fosse essa a ideia dos russos, a sua posição negocial parecer-lhes-ia demasiado frágil na conjuntura da substituição das forças combatentes (sérvios e albaneses), e os russos decidiram-se a um golpe sujo: pela calada da noite de 11 de Junho, pegaram num destacamento seu estacionado na Bósnia vizinha, e mandaram-no percorrer os 600 km que os separavam da capital do Kosovo para ocuparem o aeroporto local, tudo isso sem passar cartão a ninguém da NATO. Apesar de comandado por um general, o destacamento russo era pequeno: cerca de 200 homens e umas 30 viaturas, sem grande potencial de combate. Mas isso seria irrelevante. Aquela era uma guerra para ser travada à frente das câmaras de televisão (acima). Quando as unidades da NATO encarregues dessa mesma missão chegaram, o aeroporto estava ocupado pelos russos, a CNN também já lá estava, ninguém se dispôs a facilitar a vida aos outros, e começava a crise. Era uma coisa nova, depois de dez anos (1989-1999) em que os russos haviam sido nossos amigos. Recorde-se que a Rússia de então era ainda dirigida por um sujeito pachola, permanentemente embriagado que dava pelo nome de Boris Yeltsin (Vladimir Putin só apareceu um ano depois). Mas a gestão de todo o incidente serviu também para exibir outras fracturas, não só as entre o Ocidente e o Leste, como também as entre a América e a Europa, dentro do Ocidente e da NATO. À atitude mais bélica do comando supremo americano da operação, contrapôs-se uma aproximação bem mais pragmática do comando militar britânico que estava no terreno. Apesar daquilo que parecia estar a acontecer na CNN, os 200 russos estavam isolados e impedidos pela aviação da NATO de serem reforçados e de se reabastecerem sequer. O único perigo da situação era ela detonar acidentalmente. Para a NATO, o tempo encarregar-se-ia de solucionar a questão. Foi o que aconteceu: os russos acabaram por ter que ser abastecidos de água e comida pela logística das unidades da NATO que eles não queriam deixar entrar no aeroporto. O impasse durou duas semanas, a Rússia acabou por salvar a sua face politicamente, e o susto passou.

02 junho 2024

A ESTREIA DA TELEVISÃO BUTANESA

(Republicação)
O Butão é um país de 725.000 habitantes e 38.400 Km², situado nas encostas meridionais da cadeia dos Himalaias. E não é um país de modas. O dia 2 de Junho de 1999 ficou assinalado pela inauguração das transmissões de televisão naquele país. Simultaneamente, e num gesto que poderemos classificar de estouvado, o país conectou-se à internet. Até aí, os butaneses nunca tinham tido acesso a esse tão prosaico meio de entretenimento, pois até as antenas parabólicas eram interditas no país. À época, o Butão era uma monarquia absoluta, o que pode explicar muita coisa. A descrição da actividade do monarca butanês de então, Jigme Singye Wangchuck (que reinava desde 1972), aparece repleta daqueles elogios que costumam ser dispensados aos déspotas esclarecidos pelos seus esforços em prol do desenvolvimento dos povos dos países que governam. Atribui-se ao país e aos seus governantes uma preocupação precoce e continuada com as questões ambientais, mas a verdade é que, vinte e cinco anos depois e já com um outro monarca (constitucional) no poder, o país permanece demasiado isolado do exterior para que possamos avaliar de fora, e com propriedade, como é que os butaneses avaliam a sua própria situação. Mas algo me parece evidente: pelo menos, ter inaugurado os serviços de televisão a 19 meses do início do século XXI não terá constituído a vanguarda de modelo de desenvolvimento algum - porque televisão é coisa que toda a Humanidade parece gostar de ver.

25 maio 2024

A APRESENTAÇÃO DO RELATÓRIO COX

(Republicação)
25 de Maio de 1999. Em Washington DC, uma comissão da Câmara de Representantes apresenta um documento com 900 páginas que se dedicara a investigar as actividades da espionagem militar dos chineses nos últimos 25 anos (os 25 anos anteriores, perceba-se, desde 1974). Para a imprensa, o Relatório adquiriu o nome de quem presidiu à comissão, o congressista republicano da Califórnia, Christopher Cox. Sob o conteúdo e as conclusões do Relatório Cox, podem-se sintetizar as 900 páginas (muitas delas sombreadas, pelas tradicionais razões de segurança), dizendo que a comissão formara a convicção que durante todos aqueles anos os serviços de informações da República Popular da China haviam desenvolvido esforços concertados para a aquisição do design dos engenhos termonucleares norte-americanos de última geração, numa tentativa de colmatar o hiato tecnológico que separava a China dos seus rivais (Estados Unidos e Rússia). Mais: o Relatório considerava que a espionagem chinesa fora bem sucedida nesses esforços. Este é o género daqueles acontecimentos inoportunos com que os governos não gostam de lidar: são assuntos demasiado sérios para poderem ser descartados facilmente por aqueles que gerem o spin das notícias, e ao mesmo tempo são assuntos demasiado graves, para que as opiniões públicas, as mais das vezes indignadas, não reajam, apossando-se do tema, e com isso causando danos diplomáticos indesejáveis. Neste caso, apesar da seriedade das acusações, a Administração Clinton parecia não se mostrar interessada em indignar-se muito e puxar pelo assunto, conforme se percebe logo pelo princípio do artigo (abaixo) enviado no dia seguinte por Bárbara Reis para o Público. Fossem as circunstâncias as actuais, e imagine-se o banzé!

01 maio 2024

QUANDO A EUROPA QUE SE ATASCAVA EM TRATADOS...

(Republicação com uma nova redacção)
1 de Maio de 1999. Entrava em vigor o Tratado de Amesterdão que fora assinado 19 meses antes na cidade holandesa (fotografia acima). Substituía o Tratado de Maastricht que, entrado em vigor em 1 de Novembro de 1993, quer dizer que também durara apenas uns cinco anos e meio. Mas este Tratado de Amesterdão também estava, por sua vez, fadado a não durar muito, substituído daí por menos de quatro anos pelo Tratado de Nice, que entraria em vigor em 1 de Fevereiro de 2003... E o de Nice seria por sua vez substituído pelo Tratado de Lisboa, entrado em vigor dali por menos de seis anos, a 1 de Dezembro de 2009 - é o tal em que entra o Sócrates a dizer Porreiro, pá! Porreiro! De 1991 a 2009, durante cerca de uma dúzia e meia de anos, as opiniões públicas europeias foram brindadas com uma coreografia de tratados e acordos que lhes foram sempre apresentadas como extremamente positivas, até que a dinâmica da encenação colapsou perante uma grande crise financeira internacional. A União Europeia é uma coisa que existe, que sobreviveu à saída do Reino Unido (gesto que lhe terá até conferido, paradoxalmente, mais consistência), e que, com excepção das correntes políticas mais radicais (que nunca quiseram que existisse), ninguém parece saber muito bem o que lhe há-de fazer mais - quem mexer, arrisca-se a estragar. A verdade é que, de há quinze anos para cá, já ninguém se costuma referir de forma grandiloquente à construção europeia e a outras banalidades pseudo-visionárias que foram tão comuns ouvidas a toda uma geração de líderes europeus, muitos dos quais aparecem a fazer figuração nesta fotografia acima. Vinte e cinco anos depois, fartaram-se de assinar coisas mas não se pode dizer que tenham deixado obra - pelo menos todos aqueles tratados estão esquecidos.

20 abril 2024

O MASSACRE DE COLUMBINE

(Republicação de um poste original de 20 de Abril de 2017, quando o Massacre de Columbine cumpria o seu 18º aniversário)
20 de Abril de 1999. Ao 18º aniversário do Massacre de Columbine pode associar-se o simbolismo de 18 anos ter sido a idade, não apenas dos dois autores do massacre, mas também de uma apreciável percentagem das vítimas (13 mortos e 21 feridos). Terão sido as elevadas consequências desta tragédia que terão provocado uma atenção mediática redobrada para o assunto dos tiroteios nas escolas norte-americanas. Foi aliás na sequência de Columbine que os serviços secretos foram encarregues de redigir um relatório sobre a questão, um relatório que se tornou público em 2002 e que compilava e procurava sintetizar um retrato padrão a partir das experiências recolhidas em 37 episódios semelhantes... Ora 37 é, para estas circunstâncias, um número assustador. Mas reconheça-se que os factos continuarão a interessar mais o público do que propriamente aquilo que os causou, pelo menos se atendermos à lição directa e concreta que se pode extrair da página da Wikipedia dedicada ao massacre de Columbine, onde os 27.000 caracteres dedicados à descrição metódica e detalhada de como ocorreu o massacre representam o triplo dos 9.000 onde se procura inventariar e especular posteriormente sobre quais terão sido as motivações e as causas para ele ter ocorrido.

27 março 2024

UM REVÉS DE PROPAGANDA QUE ERA SOBRETUDO O REQUIEM DOS CAÇAS FURTIVOS F-117

(Republicação)
27 de Março de 1999. Ao terceiro dia da ofensiva aérea da NATO sobre a Sérvia, estes últimos conseguem um grande golpe de propaganda ao abater um F-117 da USAF, um tipo de aparelho que fora desde sempre muito gabado pela propaganda de guerra dos Estados Unidos, por causa da capacidade do avião em causa em permanecer invisível aos radares inimigos. A reputação do aparelho virava-se agora contra a propaganda dos seus construtores, ampliando o feito dos militares sérvios. A ironia de toda esta história, como os acontecimentos posteriores virão a comprovar e como eu já expliquei, aliás, aqui no Herdeiro de Aécio, é que o F-117 fora, desde o início, um projecto - o do avião invisível aos radares - conceptualmente mais do que duvidoso. Para os críticos, uma aeronave concebida para voar sobre território inimigo não podia assentar todos os seus meios de defesa na sua condição de furtiva: estaria à mercê de que um qualquer desenvolvimento tecnológico inesperado tornasse o aparelho obsoleto. É que a obsolescência de um F-117 não se comparava à de um outro aparelho equivalente do arsenal da USAF: por causa do material em que era construído, propositadamente destinado a absorver as ondas de radar, um F-117 era extremamente caro, custava o triplo de um F-16, o aparelho de combate mais comum dessa mesma geração. A reacção dos defensores do F-117 às críticas consistiu em montar uma gigantesca operação de relações públicas militares à volta do aparelho. Foi o único aparelho de combate do arsenal dos Estados Unidos que foi promovido com uma campanha teaser: foi colocado ao serviço em segredo (1983), embora não fosse secreto que era segredo... Só em 1988 é que se tornou oficial a sua existência. E quando da Guerra do Golfo (1991) as proezas das operações realizadas por aquele tipo de aparelho tinha direito a um tratamento diferenciado. Os Estados Unidos e os restantes países que englobavam a coligação empregavam uma dúzia, senão mais, de aviões diferentes (F-14, F-15, F-16, F/A-18, B-52 - e isto apenas entre os aparelhos de origem norte-americana), mas as missões protagonizadas pelos F-117 eram objecto de um carinho noticioso que fazia lembrar o destaque que se dedica às proezas de um hipotético irmão deficiente quando em comparação com as dos irmãos saudáveis.
O significado militar do abate do F-117 de há precisamente vinte e cinco anos é que o bluff fora descoberto... E, paradoxalmente, nem fora preciso qualquer avanço tecnológico. O que foi preciso foi colocar o F-117 em combate contra um inimigo tecnologicamente qualificado, o que objectivamente não acontecera até aí. Os operadores sérvios dos misseis anti-aéreos SA-3 só se limitaram a estudar as possibilidades do equipamento de radar que tinham à sua disposição. Tratava-se de uma tecnologia - soviética - que já tinha mais de 25 anos de serviço, mas que eles usaram de uma forma imaginativa (usando um dos limites do espectro do radar) por forma a obter uma vaga imagem daquilo que supostamente seria invisível. A carcaça do avião derrubado falava por si, quanto ao sucesso do expediente. Havendo um revés óbvio (veja-se o cartaz de propaganda dos sérvios), havia contudo um revés que ainda podia ser ocultado da opinião pública. Será desnecessário acrescentar que os F-117 desapareceram imediatamente da ordem de batalha sobre os céus da Sérvia!... Os F-117 só podiam operar, por muito furtivamente que fosse, em situações de superioridade aérea absoluta. O que é um contra-senso: se a superioridade aérea é absoluta, não precisa de ser furtiva. Mas a renúncia a um fiasco também pode ser bem encenada: deram-lhe mais dez anos de vida útil, o F-117 só foi oficialmente retirado do activo em 2009, depois de 26 anos de serviço. Parece razoável, se não levarmos em consideração que aparelhos equivalentes como o F-15, o F-16 e o F/A-18 são mais antigos do que o F-117 e continuam no serviço activo mais de quarenta anos depois da sua introdução. O que é engraçado é que, como avião, o F-117 veio a revelar-se uma aeronave carismática e misteriosa, cheia de admiradores, que imaginam fantasias a seu respeito. Mas como máquina de guerra foi, desde o princípio, um fiasco, como os documentos desclassificados pelo tempo entretanto decorrido vieram comprovar: há meia dúzia de anos soube-se que em 1986 os Estados Unidos quiseram vender alguns F-117 ao Reino Unido, que não os quiseram. (Quando a aldrabice posta a circular nesse tempo era que o F-117 continha tecnologias tão secretas que os Estados Unidos não as queriam compartilhar com mais ninguém... - a verdade é que ninguém de juízo queria operar aquele fiasco anunciado)

16 dezembro 2023

OPERAÇÃO RAPOSA DO DESERTO

(Republicação)
16 de Dezembro de 1998. Sete anos passados sobre a Guerra do Golfo de 1991 tornara-se perceptível que a situação política alcançada na região, com a permanência de Saddam Hussein ainda à frente dos destinos do Iraque, fora uma solução ainda instável. Saddam Hussein sempre se mostrou um vencido muito pouco convencido. E a relação entre os iraquianos e as autoridades da ONU, encarregues de monitorizar os programas de desarmamento e de bom comportamento, a que os iraquianos se haviam originalmente comprometido por ocasião da derrota, essa relação tornara-se disfuncional. Foi tomando por pretexto mais um encadeado de incidentes, que os Estados Unidos (com o seu aliado britânico) desencadearam há precisamente 25 anos uma operação a que deram o nome de Desert Fox. Tratou-se de mais uma série de bombardeamentos a objectivos militares iraquianos que, desta vez, se iriam prolongar por quatro dias (16-19 Dezembro). Como seria de esperar, no fim, a operação foi considerada um sucesso pelos promotores, mas, tal como também seria de esperar, a comunicação social não tinha condições de fazer uma avaliação independente sobre o assunto - limitava-se a transmitir as tão apreciadas imagens dos bombardeamentos nocturnos de Bagdade (acima), um verdadeiro espectáculo de fogo de artificio que saía muito bem nas televisões! Por coincidência (ou talvez não...) por aqueles dias decorriam em Washington os trabalhos da Câmara de Representantes a respeito do «impeachment» do presidente Bill Clinton por causa do Caso Lewinsky. As votações que o condenaram por perjúrio e obstrução à justiça tiveram lugar em 19 de Dezembro e houve quem tivesse memória para se lembrar da enorme coincidência de tudo o que estava a acontecer com o enredo do filme Wag the dog (Manobras na Casa Branca), que estreara no princípio daquele ano...

08 dezembro 2023

O MASSACRE DE TADJENA

(Republicação)
8 de Dezembro de 1998. Ocorre o massacre de Tadjena, que consistiu no assassinato de 81 aldeões de duas povoações de montanha, próximas da cidade de Tadjena (assinalada no mapa acima). Os autores foram identificados vagamente na comunicação social como extremistas islâmicos, sem grande informação adicional. O realce dado a este massacre é meramente simbólico. Infelizmente, nem pelo número de mortos ele se distingue de tantos outros que ocorreram no Norte da Argélia naqueles anos (veja-se o mapa acima), no quadro de uma guerra civil argelina da qual nunca se perceberam muito bem nem os contornos políticos, nem as intenções dos beligerantes, apenas as consequências sangrentas. Mas não deixa de ser irónico pensar que, se o mesmo massacre tivesse ocorrido 40 anos antes (1958) e tivesse ocorrido no quadro da guerra da independência da Argélia (1954-1962), e independentemente de qual dos lados desse outro conflito tivesse sido o seu autor, seria adquirido que as suas repercussões históricas ainda hoje se fariam sentir. Ao contrário do que acontece. De onde se conclui que a importância dos massacres é relativa e independente do número de mortos.

30 novembro 2023

O ACORDO DE FUSÃO ENTRE A EXXON E A MOBIL

(Republicação)
30 de Novembro de 1998. Assinatura do acordo de fusão das duas grandes petrolíferas Exxon e Mobil, de que resultaria a constituição da maior empresa mundial do ramo, a ExxonMobil. Apesar do acto, que veio naturalmente noticiado em toda a comunicação social nos dias seguintes, o processo de fusão demorou um ano a realizar-se, enquanto os dois parceiros aguardavam as concordâncias dos protagonistas políticos dos seus dois mercados principais, a União Europeia e os Estados Unidos. A data oficial da maior fusão à época e da criação da maior empresa internacional de petróleos, é, assim, a de 30 de Novembro de 1999, precisamente um ano depois da assinatura deste acordo. Não deixava de haver uma certa ironia no facto de, aproximando-se o final do século XX, se assistisse à reversão de um conjunto de leis (nos Estados Unidos denominaram-se leis antitrust) que, no princípio daquele mesmo século XX, haviam tido por objectivo domesticar os monopólios, os oligopólios e os abusos de posição dominante. Aliás, as duas empresas que se fundiam em 1999, eram o resultado da divisão da Standard Oil (da família Rockfeller), quando aquele colosso petrolífero fora forçado pelos tribunais a cindir-se em 34 empresas distintas em 1911. Há vinte e cinco anos, essas outras preocupações antigas pareciam não só esquecidas como despropositadas, a crença nas virtudes intrínsecas auto-regeneradoras de os mercados - e com que volúpia se pronunciava esta última palavra! - atingiam um zénite de ingenuidade ignorante.

16 outubro 2023

A DETENÇÃO DE AUGUSTO PINOCHET. SERÁ QUE OS DITADORES PODEM SER JULGADOS?

(Republicação)
16 de Outubro de 1998. Augusto Pinochet é detido em Londres às ordens de um tribunal britânico, respondendo às solicitações de extradição oriundas de um tribunal espanhol. O general chileno e antigo presidente da Junta Militar que governara o país de 1973 a 1990, então com quase 83 anos (mas que apenas abandonara o comando das Forças Armadas chilenas há uma meia dúzia de meses), deslocara-se ao Reino Unido para tratamento médico a uma hérnia e encontrava-se até internado quando a ordem de detenção fora executada. Entre os especialistas legais das diplomacias chilena e britânica que haviam analisado a deslocação, ninguém se apercebera das potencialidades acrescidas da integração europeia da década de 1990. Contudo, essas potencialidades haviam feito ruminar uma ideia num juiz espanhol sedento de publicidade (Baltazar Garzón) que, querendo indiciar Augusto Pinochet pela execução de cidadãos espanhóis durante a ditadura, se aproveitou da sua presença num país da União Europeia para lhes solicitar a sua extradição. As acusações tinham ressonância: genocídio, terrorismo, tortura, desaparecimento de pessoas.
Mais do que as manifestações pró e contra a detenção que as televisões se apressaram a transmitir, a iniciativa foi um descomunal embaraço para as diplomacias envolvidas e para todo um protocolo de comportamento adoptado por elas. Um protocolo onde se subentende que um país anfitrião não inferniza a vida de antigos ditadores quando eles abandonam o poder e se exilam - afinal, o próprio Chile fizera isso mesmo quando acolhera Erich Honecker, o antigo ditador comunista da República Democrática Alemã, após a reunificação alemã. Neste caso dos britânicos e de Pinochet, acrescia o facto de os primeiros lhe deverem favores concedidos em tempos de necessidade, pelo apoio dado pelo Chile ao Reino Unido quando da Guerra das Malvinas (1982). Ao pedido de extradição e ao estupor que se seguiu (mas estas coisas não era só para fazer aos nazis?), seguiu-se uma complexa batalha legal onde era inequívoca para que lado pendia a posição do governo britânico (apesar de ser trabalhista). Em termos mediáticos e como se pode observar pelas fotos, a canónica de Pinochet, de óculos escuros e braços cruzados desafiantes, em 1973, foi substituída pelas de um velhinho amparado que mal se conseguia mexer.
Do outro lado, furos jornalísticos oportunamente surgidos faziam saber que o general que tanto se empenhara pela salvação da sua pátria, afinal detinha milhões em contas no estrangeiro. Em termos judiciais, os que interessam, o governo britânico recusou-se terminantemente a extraditar Augusto Pinochet para Espanha, alegando razões de saúde. Mas a situação gerada pelo pedido espanhol, considerando a gravidade das acusações que sobre si pendiam, era, só por si, um impasse: o antigo ditador esteve em prisão domiciliar mais de um ano (503 dias), até que alguém se lembrou do expediente de o levar a uma junta médica britânica que o declarou irremediavelmente senil e incapaz de ser submetido a julgamento. Os britânicos aproveitaram a oportunidade para o extraditar... mas para o Chile. Mas, nem mesmo no Chile natal, Pinochet se livrou da perseguição jurídica pelos seus actos no poder. A iniciativa de Gárzon desencadeara uma moda, mas a facção dos que o defendiam era aí também mais substancial. Quando morreu, em Dezembro de 2006 (ou seja, mais de oito anos depois desta notícia de há vinte e cinco anos), ainda Pinochet estava a contas com a justiça... que, tirando-lhe uma parte do dinheiro que acumulara, nunca lhe conseguiu pôr a mão em cima.

04 setembro 2023

O 25º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA GOOGLE

4 de Setembro de 1998. Fundação da empresa Google por dois estudantes da Universidade Stanford na Califórnia. Larry Page (à esquerda) Sergey Brin tinham ambos 25 anos. O negócio original era sólido e as suas possibilidades de expansão incomensuráveis mas, passados poucos anos de existência, os fundadores fizeram-se substituir por profissionais de gestão. Muito do seu crescimento foi resultado de aquisições de outros empreendimentos de sucesso da internet, de que o caso mais evidente é o You Tube. Da última vez que dei por lhe terem feito uma avaliação, em Novembro passado, a empresa valeria cerca de 251.700 milhões de dólares, era a quarta empresa mais valorizada de todo o mundo. Os dois fundadores aparecem nas listas como a 6ª e a 8ª maiores fortunas do mundo.

31 agosto 2023

KWANGMYŎNGSŎNG-1

(Republicação dos tempos em que Donald Trump tornava a Coreia do Norte um país importante)
31 de Agosto de 1998. A Coreia do Norte anuncia a colocação em órbita do seu primeiro satélite artificial. O lançamento foi tomado inicialmente pelas agências encarregues de monitorizar tais eventos como um ensaio de um míssil intercontinental. Depois aperceberam-se que o míssil possuía um terceiro estágio destinado à aquisição da velocidade adicional necessária para colocar um objecto em órbita. Quanto ao objecto, também pouco se sabia (e sabe): há fotografias dele, mas uma grande dúvida quanto à sua massa que oscilaria entre os 6 e - 30 vezes mais! - os 170 kg. Quando do acompanhamento da fase final, as mesmas agências ter-se-ão apercebido que algo errado acontecera e que o satélite acabara por não entrar em órbita como previsto. Isso não terá constituído um problema para a Coreia do Norte, que anunciou o sucesso da empresa e que continuou a reportá-lo do mesmo modo nos dias seguintes. Só quinze dias depois, após confirmações sucessivas, é que uma cautelosa imprensa norte-americana anunciava o insucesso, deixando apenas subentendido a nota irónica do fazer-de-conta dos norte coreanos. Se acontecesse entre 2017 e 2020, atendendo à personalidade do ocupante de então da Casa Branca e do que foram as suas relações com a inventiva Coreia do Norte, talvez a notícia tivesse que ser reescrita, expurgando-a da ironia, já que ele se havia mostrado tão inventivo quanto o regime norte-coreano. (a imagem é um selo comemorativo norte-coreano do que era para acontecer e não chegou a ter acontecido...)

20 agosto 2023

OPERAÇÃO «ALCANCE INFINITO»

(Republicação)
20 de Agosto de 1998. Há precisamente vinte e cinco anos e em retaliação contra dois atentados que haviam tido lugar contra as embaixadas americanas de Nairobi e Dar es Salaam, os Estados Unidos desencadeiam um conjunto de ataques com mísseis contra alvos da Al-Qaeda no Afeganistão e também contra uma fábrica de produtos farmacêuticos situada no Sudão. Baptizaram a iniciativa de Operação «Alcance Infinito» (Infinite Reach). Convém recordar, entretanto, que, três anos antes do 11 de Setembro de 2001, a comunicação social internacional encarava o terrorismo islâmico em geral e figuras como Osama bin Laden (acima) com uma condescendência que os ataques contra as torres do WTC irão depois alterar radicalmente. Tanto, que hoje já esquecemos essa condescendência. Na foto acima, um momento de uma entrevista dada por bin Laden a uma cadeia televisiva alemã, a imagem captada pelo cameraman (a mão que segura a arma, o entrevistador ao centro e o entrevistado com o mapa mundo por detrás), não teria sido diferente se se tratasse de um filme de propaganda. E não era um fenómeno exclusivo de televisões não americanas: em 1997, a CNN havia-o entrevistado.

É preciso recordar esse pano de fundo de uma comunicação social internacional neutral, senão mesmo hostil, para se perceber uma certa pedagogia cautelosa no discurso em que o presidente Bill Clinton anuncia, nessa noite, o desencadear da operação aos próprios americanos. A opinião pública doméstica não se sentia incomodada, muito menos ameaçada, com os múltiplos atentados atribuídos à Al-Qaeda que são enumerados por Clinton, todos ocorridos no estrangeiro. Mas isso não impediu que, a crer nas sondagens efectuadas, a esmagadora maioria dos americanos apoiasse a iniciativa, muito embora uma apreciável minoria visse nela um expediente para distrair a atenção do escândalo envolvendo Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky, então numa fase de apogeu mediático. No resto do Mundo, habituado à exuberância de outras intervenções militares norte-americanas, esta, que não teve continuidade nem envolveu tropas, surpreendeu por isso. Em termos de imagens televisivas, os protestos dos países muçulmanos (abaixo, trata-se do Bangladesh) ocuparam o lugar que as concordâncias discretas das opiniões públicas dos países ocidentais não podiam preencher.

17 agosto 2023

A CRISE FINANCEIRA RUSSA DE 1998

17 de Agosto de 1998. A Rússia de Boris Ieltsin anuncia uma abrupta e brutal desvalorização do rublo (ver a área assinalada do gráfico acima), ao mesmo tempo que anuncia uma moratória para o pagamento da sua dívida externa. Os problemas financeiros da Rússia saída do desmembramento da URSS, sob a tutela de Ieltsin, acumulavam-se e agravavam-se quase desde o início (1991). Sete anos depois, em Março de 1998, naquilo que se pode considerar uma manobra muito arriscada, o presidente Ieltsin escolhera para chefiar o governo Sergey Kiriyenko, um daqueles economistas muito promissores, daqueles de que se esperavam milagres, que tinha então apenas 35 anos. A fotografia acima, que junta um Ieltsin impaciente a olhar para o relógio e um Kiriyenko nerd e esfíngico sintetiza aquilo que aconteceu nos cinco meses subsequentes àquela nomeação. Fora impossível o milagre de evitar o estoiro, Ieltsin ficara desapontado e Kiriyenko demitiu-se alguns dias depois (23 de Agosto). Vale a pena recordar o quanto a Rússia no final do século passado estava em muito mau estado.

28 maio 2023

O PRIMEIRO ENSAIO NUCLEAR PAQUISTANÊS

28 de Maio de 1998. O Paquistão realiza o seu primeiro ensaio nuclear. A detonação (subterrânea) tem lugar numa remota montanha da província do Baluchistão. Seguir-se-á um segundo ensaio, dois dias depois, noutro sítio de testes, em local desértico, mas ainda no Baluchistão. O primeiro teste fora feito utilizando bombas com urânio enriquecido, o segundo teste será com uma bomba de plutónio. Percebe-se hoje que este conjunto de ensaios era uma demonstração política da aquisição da capacidade nuclear parte do Paquistão, uma aquisição que já tivera lugar anos antes, mas que só agora em exposta, em resposta a dois ensaios nucleares que a Índia acabara de realizar entre 11 e 13 de Maio.

22 maio 2023

ABERTURA DE EXPO 98

O espectáculo de gala da abertura da Expo 98 teve lugar no serão de 21 de Maio de 1998, mas foi só no dia seguinte que os portugueses acordaram, via comunicação social, para a categoria do acontecimento.

06 maio 2023

A MUDANÇA DA CAPITAL DO CAZAQUISTÃO

Por ordem do presidente cazaque Nursultan Nazarbaev, e porque o processo já fora previamente anunciado, procede-se à transferência efectiva da capital do Cazaquistão da cidade de Almaty para a cidade de Aqmola, rebaptizada de Astana. Como se percebe pelo mapa acima, a antiga capital dos tempos soviéticos (quando era conhecida à russa, por Alma-Ata), ficava localizada perigosamente próxima de fronteiras com outras antigas repúblicas soviéticas, uma exposição que é um paradoxo num país tão extenso, com 2.724.900 km². Este é um daqueles exemplos das pouco publicitadas alterações suscitadas pela desagregação da União Soviética.

10 abril 2023

O ACORDO DE SEXTA FEIRA SANTA

(Republicação)
10 de Abril de 1998. Tony Blair pelo Reino Unido e Bertie Ahern pela Irlanda assinam o Acordo que procura pôr fim aos Troubles da Irlanda do Norte. Ausentes da fotografia mas indispensáveis para o sucesso da implementação do Acordo são as várias organizações políticas e político-militares norte-irlandesas e as assinaturas dos seus dirigentes. A maioria assinou, nomeadamente o IRA católico, mas do outro lado, os extremistas protestantes do DUP não o subscreveram. Vale a pena recordar que o Acordo de Sexta Feira Santa foi acolhido à época com muita circunspecção. É que houvera acordos anteriores, como o de Sunningdale em 1973 ou o Anglo-Irlandês de 1985, que se haviam saldado por fracassos. Assim como em 1968 começara, sem qualquer declaração de guerra, ou outra cerimónia formal, os Troubles da Irlanda do Norte terminariam sem garantias que as assinaturas só por si chegassem para que isso acontecesse.