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05 julho 2024

O 30º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA AMAZON: INDISPENSÁVEL E DETESTÁVEL

5 de Julho de 1994. A Amazon é fundada numa cidade dos arredores de Seattle, no estado norte-americano de Washington. Nestes trinta anos tornou-se indispensável: é o sítio onde passei a comprar a maioria dos livros que leio, mas é, ao mesmo tempo, uma organização detestável pela reputação que adquiriu a respeito da maneira como (mal)trata quem lá trabalha.

23 junho 2024

80º ANIVERSÁRIO DA OPERAÇÃO «BAGRATION»

(Republicação)
23 de Junho de 1944. Início da Operação Bagration. Para os soviéticos, o desencadear da Operação Úrano, em Novembro de 1942, foi mais uma proeza de astúcia do que de força, cercando, para o aniquilar, e apenas devido à dispersão das forças do inimigo, o exército alemão que se obcecara em excesso com a conquista de Stalinegrado. Em Julho de 1943, na Batalha do Kursk (a Operação Cidadela, segundo o nome dado pelos alemães), já as forças presentes dos dois lados se equivaliam, e a vitória soviética resultou da habilidade de, conhecendo-lhe as intenções, dar a iniciativa ao inimigo, desgastando-o na sua ofensiva, para depois o contra-atacar depois disso. Mas nesta Operação Bagration, a coincidir com o início do Verão de 1944 e prometida aos Aliados por Stalin para a fazer coincidir com o desembarque na Normandia, já a superioridade passara inteiramente para o lado soviético. A questão já não se poria em saber qual o desfecho da ofensiva que o Exército Vermelho iria desencadear, a dúvida consistia apenas em saber qual a dimensão da derrota táctica da Wehrmacht. Essa derrota será colossal (como os cenários macroeconómicos de Vítor Gaspar...). Em duas semanas, pouco mais, serão destruídas 25 divisões alemãs, perder-se-ão 400.000 combatentes, haverá uma hecatombe entre os oficiais generais alemães: 9 mortos e 23 prisioneiros (na fotografia abaixo, da capitulação de Vitebsk, os dois generais alemães vencidos do lado direito, são o general Gollwitzer, comandante do 53º Corpo de Exército e o general Hitter, comandante da 206ª Divisão). O avanço soviético cifrou-se em 400 km e alcançou as antigas fronteiras da União Soviética com a Polónia e as repúblicas bálticas, a dinâmica da ofensiva veio a ser mais perturbada pelos problemas da logística de acompanhar um exército fortemente motorizado, do que pela capacidade de resistência das unidades alemãs ainda em condições de combater. No lugar das 25 divisões destruídas restaria o equivalente a 8 enquanto se aguardava a chegada de outras 8 em reforço. Diante delas, o estado-maior alemão enumeraria 126 divisões soviéticas de infantaria e outras 6 de cavalaria, para além de 62 brigadas blindadas. Naquele sector da Frente Leste e em termos de potencial de combate os alemães defrontar-se-ão a partir daí numa desproporção de um para dez! Hitler's Greatest Defeat é um livro já com 30 anos mas que cumpre a sua missão de explicar sucintamente uma tão grande e tão decisiva ofensiva em 170 páginas. Que é muito mais do que se pode dizer de evocações de jornal (em 2019) que mostram que quem as escreveu nem sequer quis perder muito tempo na wikipedia a documentar-se (para dizer mais que trivialidades misturadas com asneiras...).

08 junho 2024

MIL NOVECENTOS E OITENTA E QUATRO

(Republicação)
8 de Junho de 1949. Data da edição original de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. Como se vê acima, o título é para ser escrito por extenso e George Orwell é o pseudónimo de Eric Blair (1903-1950), dois pormenores que se sabem lendo o livro e não apenas tendo sabido que o livro existe e do que trata. É que quem não lê... chapéu.
Mesmo 75 anos depois do seu aparecimento, o livro continua a representar um caso sem paralelo de um romance que criou um verdadeiro anti-modelo de uma sociedade que toda a gente quererá a todo o custo evitar. Um romance que intervém politicamente pela negativa, porque a cada momento a realidade o recupera para a actualidade do debate: tivesse sido em 2013, com as denúncias de Snowden a respeito da actividade da NSA e da sua intromissão na privacidade dos cidadãos norte-americanos (e mesmo no telemóvel pessoal de Angela Merkel!); seja depois em 2016, depois das eleições presidenciais americanas com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, com a aceitação oficial da mentira sistemática, da falsificação das notícias e mesmo a criação da expressão «factos alternativos», atitudes e título tão tipicamente orwellianos.

04 junho 2024

A «ARTE» PÓSTUMA (2)

O artigo acima, publicado ontem no The Guardian, põe um pateta incompetente de um jornalista daquele jornal a anunciar-nos a enésima obra póstuma do escritor de thrillers Michael Crichton. Chrichton morreu em 2008 - há quinze anos e meio! - mas registe-se a proeza que, depois de morrer, ele já terá escrito mais três obras póstumas e esta que agora anunciam há de ser a quarta! Ou seja, Michael Crichton, com um livro publicado em média de quatro em quatro anos, tem tido uma produtividade como escritor morto que supera a de muitos escritores vivos! Ironias (e absurdos...) à parte, torna-se óbvio que há um editor qualquer, sem pinga de vergonha, que quer impingir aos imbecis ainda mais uma história à custa do nome de Michael Crichton. E depois há este pateta do Guardian chamado Stuart Jeffries que escreve um artigo acrítico a respeito deste abuso do nome do escritor defunto. Adicionando o insulto à injúria, o artigo acaba com um link para quem quiser encomendar a falcatrua!

18 maio 2024

OPERAÇÃO BUDA SORRIDENTE (POKHRAN-I)

(Republicação)
18 de Maio de 1974. A União Indiana faz detonar o seu primeiro engenho nuclear. Apesar das minhas leituras, em lado algum encontrei uma explicação satisfatória para o nome escolhido pelos indianos para designar o seu primeiro ensaio nuclear. É verdade - e nem todos se aperceberão disso - que o budismo é uma religião de origem indiana. É também verdade que existe uma estética distinta entre as representações do buda de um e outro lado dos Himalaias (percebe-se que a da imagem acima, pelo colorido e pela compleição ascética, é nitidamente indiana). Mas resta-nos a especulação para perceber que objectivo teriam os indianos quando escolheram aquele nome de código para uma operação cujo desfecho iria tornar o nome certamente público. A invocação de Buda, ainda por cima sorrindo, seria para ser um aceno irónico àqueles que eles considerariam os seus rivais próximos, os chineses? Os acontecimentos posteriores iriam demonstrar que quem não se sorriu nada ao saber do ensaio foram os vizinhos do Paquistão. Uma segunda questão, também superficial, é o problema do que se pode exibir em imagens para ilustrar um ensaio nuclear subterrâneo: não há muito material, a maioria do que há está classificado, e o remanescente - como se vê pelo exemplo acima - carece da espectacularidade dos enormes cogumelos dos primeiros ensaios à superfície (será por isso que os actuais ensaios nucleares norte coreanos costumam ser ilustrados pela figura de um outro buda sorridente...). Uma terceira questão, já mais séria, é a que se relaciona com os aspectos técnicos do ensaio. Embora camuflado pelas notícias da época, este primeiro ensaio nuclear indiano foi um semi fiasco: o engenho, enterrado a 107 metros de profundidade e que se inspirava no desenho das bombas de plutónio-239 de Alamogordo e Nagasáqui, terá registado uma potência destrutiva equivalente a apenas 40% da que fora registada pelos ensaios norte-americanos, quase 30 anos antes (ou seja, 8 ktons., em vez das 20 ktons. esperadas). Em contrapartida, assinale-se que, mercê dos progressos feitos ao nível dos materiais, o engenho indiano (1,4 tons.) pesava 30% do ancestral norte-americano onde se fora inspirar (4,5 tons.). Mas (quarta questão), para o impacto político e estratégico do feito, as minudências técnicas pouco importariam. Há precisamente 44 anos, a Índia entrava para um clube muito restrito, agora com seis membros, das potências com capacidade nuclear. A constatação não deixava de ser chocante para o resto do mundo, num país que, naquela altura, projectava ainda a imagem internacional da miséria extrema, de que ocasionalmente se mostrava incapaz de alimentar a sua própria população e se socorria, por causa disso, do auxílio externo. Seis anos antes, a Índia (com o Paquistão e Israel) recusara-se a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), em mais uma das fases deste jogo perpétuo (e hipócrita), em que todos se dispõem a assinar tratados mantendo o "status quo" da posse de armamento nuclear à escala mundial... com excepção dos países que estão em vias de mudar de estatuto (agora trata-se do Irão e da Coreia do Norte). Parecia um contrassenso. Mas não era: para as realidades frias da geoestratégia, a Índia tornara-se muito mais importante com uma arma nuclear numa mão do que com uma gamela estendida na outra. Actualmente, depois de uma muito bem sucedida (mas pouco publicitada) Revolução Verde, o problema da alimentação básica das populações indianas, mesmo que ainda em crescimento, já deixou de se colocar. Contudo, a atitude indiana em relação à posse do armamento nuclear nunca deixou de se distinguir pelo seu exotismo. Este livro abaixo, publicado em 2001, contém 765 páginas(!) onde o autor tenta convencer o leitor que a atitude indiana no que concerne ao recurso a este género de armamento é mais pacífica do que a dos seus rivais próximos... Acredite quem quiser.

03 abril 2024

O JAPÃO DURANTE E APÓS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Intermezzo para assinalar dois livros interessantes sobre o Japão durante e após a Segunda Guerra Mundial. Bibliograficamente, e por causa do nosso eurocentrismo, costuma ser o teatro secundário daquela magno conflito. No primeiro caso, trata-se de uma recolha de testemunhos variados de como os japoneses viveram a guerra (que, para eles, havia começado muito mais cedo, com a sua invasão da China em 1931). No segundo, é um relato circunstanciado do que aconteceu durante o julgamento de Tóquio, a versão asiática dos julgamentos de Nuremberga, mas com muito menos repercussão moral, já que os americanos estiveram, desde o início, apostados em poupar o imperador Hirohito (que nem chegou a ser julgado). Estes são livros que mereceram o tempo que lhes dediquei, ao contrário de um outro livro sobre o Japão deste mesmo período, que comprei recomendado pela prémio Pulitzer que ganhara, e que aqui dei conta do quão desapontadoramente maçudo era.

24 fevereiro 2024

UMA PARÓDIA DE FUTURO PARA PORTUGAL

(Republicação a pretexto da evocação, anteontem, do lançamento do original «Portugal e o Futuro» em 1974. Estoutro «Portugal e o Futuro» foi publicado no Verão de 2011. E, se António de Spínola não percebia que as ideias constantes do seu livro estavam ultrapassadas, Fátima Campos Ferreira ao organizar um livro de entrevistas a anciãos com a palavra «futuro» como chamariz, essa então não percebia e não percebeu.ponto. E creio mesmo que ela nunca lá vai chegar: mesmo explicando-lhe que, chegados ao futuro, onze anos e meio depois da publicação do livro, seis dos dez entrevistados já - naturalmente - morreram)

Se o livro Portugal e o Futuro original (acima) foi publicado em Fevereiro de 1974 quando o seu autor, António de Spínola, tinha 63 anos de idade e ainda não se lhe conhecia (naturalmente, dada a sua condição de militar) pensamento político quanto à solução do problema ultramarino com que então Portugal se defrontava, o outro Portugal e o Futuro (abaixo) de que a RTP tem feito ultimamente publicidade, reúne os depoimentos de dez figuras maiores da sociedade portuguesa cuja idade média é de 73 anos de idade (!…), distribuindo-se entre os 86 anos de Mário Soares e os 62 de Manuel Carvalho da Silva – o veterano e o benjamim do grupo.

Porém, se Mário Soares assumiu o cargo de 1º Ministro pela primeira vez há 35 anos atrás e o de Presidente há 25, também Manuel Carvalho da Silva se apresta a celebrar as mesmas bodas de prata dos 25 anos de antiguidade à frente da CGTP… Os outros oito membros do painel seguem padrões semelhantes e nem mesmo a entrevistadora (abaixo - Fátima Campos Ferreira) foge a essa veterania… Todos eles já terão tido as suas oportunidades de implementar as suas soluções para Portugal. Associar as opiniões destas dez vetustas figuras a soluções para o nosso futuro colectivo não é apenas um disparate, é uma paródia do que estes livros devem ser…

22 fevereiro 2024

O LANÇAMENTO DE «PORTUGAL E O FUTURO»

22 de Fevereiro de 1974. Data do lançamento do livro «Portugal e o Futuro» do general António de Spínola. O seu lançamento foi um happening político nos tempos em que os eventos políticos tinham que ser autorizados (e este não foi). O livro em si, como o distanciamento temporal veio comprovar e como eu já aqui disse neste blogue, o livro é uma merda. Era significativo e simbólico do isolamento e atraso ideológico deste Portugal de há cinquenta anos que mais de 15 anos depois, se levasse a sério uma solução para o problema colonial português que não passava de uma versão mitigada daquela que fora proposta inicialmente pela França de de Gaulle em 1958 e que depois fora rapidamente descartada por impraticabilidade em 1960. Já nem era apenas a situação portuguesa que estava atrasada; a solução para a resolver, também!

22 janeiro 2024

«FRANCE AT WAR, 1939-1942»

Trata-se de um excelente estudo sobre o exército francês, composição, desempenho e o papel social que desempenhou, a começar pela fase inicial da Segunda Guerra Mundial, até à derrocada frente à Alemanha na Primavera de 1940. Seguem-se os dois anos e meio seguintes, cobrindo simetricamente a evolução tanto da França de Vichy e de Pétain, como a da França de Londres e de de Gaulle, cuja importância para o francês médio, e ao contrário do que a propaganda de guerra e do fim da guerra nos querem sugerir, é completamente díspar: os exilados e a França Livre eram, por esta altura, uma insignificância. O livro acaba com as repercussões da invasão anglo-americana dos três países da África do Norte sob tutela francesa (Argélia, Marrocos e Tunísia), a Operação Torch, que ocorreu em Novembro de 1942. Este é um bom livro, diria mesmo um excelente livro, mas apenas para aqueles que já têm uma ideia sobre o que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial e que se interessem pelos aspectos mais colaterais do conflito que normalmente não costumam ser focados nos livros mais convencionais e abrangentes sobre o tema.

21 janeiro 2024

O LANÇAMENTO À ÁGUA DO PRIMEIRO SUBMARINO NUCLEAR, O USS NAUTILUS

21 de Janeiro de 1954. Os Estados Unidos lançam à água o seu primeiro submarino nuclear. Mais do que aquela arma furtiva secreta que faz a reputação da arma submarina, trata-se de um momento de propaganda, a atender à cobertura dada ao acontecimento, seja no noticiário filmado que passava nos cinemas do Reino Unido (acima), seja nos jornais portugueses (abaixo). Foi escolhida como madrinha da embarcação a esposa do presidente Eisenhower. Mas não quero deixar passar uma nota crítica à ignorância de quem redigia as notícias da Movietone britânica que, ao comentar o nome escolhido para o submarino, USS Nautilus, se ficou pela referência ao animal marinho, o náutilo, como inspirador, na ignorância total que o novo submarino compartilhava o seu nome com o famoso submarino do Capitão Nemo da obra de ficção Vinte Mil Léguas Submarinas do escritor francês Júlio Verne. Não são só os jornalistas de hoje que são muito ignorantes...

A RENÚNCIA FINGIDA DE CHIANG KAI CHEK

(Republicação)
21 de Janeiro de 1949. Em mais uma das inúmeras manobras retorcidas que rechearam toda a sua carreira política, o generalíssimo Chiang Kai Chek (1887-1975), que era então o chefe de estado nominal de uma China dilacerada pela guerra civil, anuncia ostensivamente que «entrega o poder» ao seu vice «para deixar o caminho livre às negociações de paz». Os seus exércitos nacionalistas haviam sofrido um encadeado de derrotas severas às mãos das forças comunistas de Mao Zedong (1893-1976) e a intenção de Chiang era passar a "batata quente" para o seu vice-presidente Li Zongren (1890-1969), que era também seu rival político. Como se pode ler num subtítulo da notícia acima, tratava-se «de uma interrupção de funções e não da resignação». Se as negociações de paz que se seguissem fossem frutuosas, tal facto dever-se-ia ao seu gesto magnânimo; se não e os comunistas reiniciassem a ofensiva militar (que foi o que de facto veio a acontecer), a responsabilidade pelo fracasso recairia totalmente em Li Zongren, e Chiang teria derrotado pelo menos o seu principal rival no campo nacionalista, enquanto havia ganho tempo e preparado a retirada dos últimos recursos do seu regime para a Formosa. O pensamento político retorcido de Chiang não ficava nada a dever ao de Mao...

17 janeiro 2024

A BATALHA DE MONTE CASSINO

(Republicação)
17 de Janeiro de 1944. Começa a Batalha de Monte Cassino. Virá a constituir a batalha de referência da campanha que os Aliados travarão pela conquista de Itália durante a Segunda Guerra Mundial. O Monte, com um pouco mais de 500 metros de altitude e situado a uns 130 km a sudeste de Roma e a uns 80 km a norte de Nápoles, é encimado pela Abadia desse nome (acima, depois de destruída pelos bombardeamentos aliados), o mosteiro de origem daquela ordem, fundada em 529. Por outro lado, Monte Cassino é também um ponto táctico notável, cujo controlo permite o estabelecimento de uma linha defensiva dominando as alturas, criando uma barreira no centro da península italiana. A sua posse é decisiva para que essa barreira se possa conservar e, assim, Monte Cassino pode ser considerado como o ferrolho de tal dispositivo. Em princípios de 1944 os alemães detinham-no, e os Aliados queriam-nos desalojar. Nos quatro meses que se vão seguir a 17 de Janeiro de 1944 haverá quatro batalhas para desalojar os alemães daquela posição. A multinacionalidade das tropas atacantes caracterizará os combates: envolverá britânicos e americanos, mas também neozelandeses, indianos, magrebinos franceses, canadianos e polacos. A posição só virá a cair em meados de Maio após ter causado 55.000 baixas entre as forças aliadas. A condução dos combates ainda hoje é um assunto controverso, como se pode deduzir pelo subtítulo do livro abaixo, fortemente crítico do general (norte-americano) Mark Wayne Clarke. Controvérsias essas que, como é costume, são depuradas na página a ele dedicada na wikipedia.

23 dezembro 2023

«LOLITA» CASOU-SE

23 de Dezembro de 1963. Uma discreta notícia dá conta do casamento da jovem actriz Sue Lyon que se notabilizara a interpretar o papel principal do filme «Lolita» (1962). «Lolita» fora realizado por Stanley Kubrick, que se baseara na obra literária homónima de 1955 de Vladimir Nabokov. As duas «Lolitas» eram obras controversas, que contavam a história de um professor de literatura de uma idade madura, dominado pela hebefilia, que se envolve sentimental e sexualmente com a sua enteada Dolores de 12 anos, conhecida por Lolita, daí o nome da obra. No período das filmagens - veja-se abaixo uma das cenas do filme - a actriz Sue Lyon tinha 14/15 anos. E, pelo seu desempenho naquele papel, a actriz havia recebido um Globo de Ouro em 1962, como actriz revelação. Agora, quando já tinha 17 anos, era notícia o seu «primeiro casamento» em Hollywood. Ironicamente, provavelmente pela sua temática muito delicada, o filme ainda não se estreara em Portugal. Só o virá a ser em 1972. É caso para perguntar qual seria a relevância desta notícia do casamento de uma actriz que ainda ninguém vira nas salas de cinema em Portugal.

FRANCAMENTE NÃO ACREDITO

A sondagem é da YouGov. A amostra foi de 1.500 americanos. Mas a ficha técnica não esclarece se as percentagens foram calculadas a partir daqueles que responderam entre os 1.500 inquiridos, ou se o número foi alcançado multiplicando a pergunta até obterem 1.500 respostas. O que me parece ainda mais inverosímil é que o número médio de livros lidos durante 2023 por aqueles que o admitiram ter feito pelo menos com um livro, foi de 11! O questionário não incluiu qualquer pergunta sobre conteúdos dos livros lidos, mas é aspecto que me parece desnecessário para ajuizar sobre a fidedignidade desta amostra representar culturalmente os americanos. Nunca me consigo esquecer de um outro destes inquéritos do mesmo género (3.624 inquiridos), em que se pôs a (falsa) questão de saber se os estabelecimentos de ensino nos Estados Unidos deviam ou não ensinar a numeração árabe como parte do seu currículo? Pois bem: a proporção entre 7 americanos, é que dois disseram que sim, um que não sabia, e quatro acharam rotundamente que não - estes últimos muito provavelmente por causa da conotação negativa de a numeração ser árabe... Porque a América é um sítio onde se desdenha sobranceiramente o saber não vejo condições para tantos leitores e tanta leitura. O ultraje perante uma aberração como Donald Trump teria de ser outro.

13 dezembro 2023

EVOCAÇÃO DOS TEMPOS EM QUE O EGO DE MIGUEL SOUSA TAVARES AINDA TINHA EXPLICAÇÃO

A edição de 13 de Dezembro de 2003 do jornal Público dava o destaque as fotografias acima documentam a uma entrevista a Miguel Sousa Tavares. O ângulo que fora escolhido para o fotografar era uma síntese do conteúdo da entrevista. A razão para tanta imodéstia era o indiscutível sucesso social e editorial do seu romance Equador, que fora publicado naquele ano. Na verdade, se bem me recordo, tanto se nos afigurava caricata esta exuberância de Miguel Sousa Tavares, como o folhetim era alimentado pelo outro lado através das reacções despeitadas de Vasco Pulido Valente. A animosidade entre ambos era um enredo divertido. Os vinte anos entretanto decorridos, os livros que publicou depois, vieram comprovar para além de qualquer dúvida que afinal Miguel Sousa Tavares não sabe escrever, ou antes, não sabe escrever bestsellers, como ele se arrogava tão convencidamente naquela entrevista. Descontando o escritor, restou ainda o jornalista e o seu estilo contundente, que perdurou até aos novos entrevistados - como André Ventura ou Pedro Nuno Santos - lhe responderem agressivamente no estilo do próprio Sousa Tavares, menorizando-o e ridicularizando-o. Resta-lhe a atitude e o ego que, se naquela época até fazia sentido, hoje é anacrónico e ridículo.

29 outubro 2023

O DISCURSO DA FUNDAÇÃO DA FALANGE

29 de Outubro de 1933. No Teatro da Comédia, em Madrid (Espanha), José António Primo de Rivera pronuncia o seu discurso da Fundação da Falange Espanhola onde estabelece os fundamentos do que será a ideologia daquele movimento. Pouco mais de três anos passados - 20 de Novembro de 1936 - ele seria fuzilado pelos republicanos e tornar-se-ia no mito da causa nacionalista. Essencialmente, para além de ideólogo, José António Primo de Rivera contribuiu muito pouco para a história de Espanha mas, precisamente por causa disso, tornou-se possível aproveitá-lo e invocá-lo para inúmeras funcionalidades do regime nacionalista que se veio a estabelecer a partir de 1939. José António Primo de Rivera estará para a Espanha franquista como James Dean está para o cinema de Hollywood: alguém que teve uma passagem meteórica pelo estrelato e que podia-ter-sido imensas coisas. E todas essas coisas encadeiam-se sempre e reforçam o discurso de quem o invoca.

20 outubro 2023

«LEVEM O LIVRO, QUE NOS FAZEM UM FAVOR!»

20 de Outubro de 2022. Consolidando a imagem internacional de um Reino Unido completamente desnorteado politicamente, a primeira-ministra Liz Truss apresenta a sua demissão depois de uma passagem meteórica de mês e meio pelo cargo. Uma forma colateral mas, ao mesmo tempo, muito divertida de narrar o fiasco foi aquilo que aconteceu ao seu livro, mais um daqueles livros que se escrevem sobre primeiros-ministros e que só dizem baboseiras elogiosas. Passou de £14,99 a oferecido num ápice! Os outros demoram mais tempo...

08 outubro 2023

A CONTRA OFENSIVA FALHADA DOS ISRAELITAS NO SINAI (GUERRA DO YOM KIPPUR)

8 de Outubro de 1973. Guerra do Yom Kippur. Dois dias depois da ofensiva egípcia, que havia feito as suas tropas atravessar o canal do Suez e penetrar na península do Sinai, as tropas israelitas desencadeiam uma contra-ofensiva, operação que se virá a revelar um fracasso. Concebida como uma manobra táctica que ceifaria por detrás as ligações logísticas das unidades combatentes egípcias (ver o mapa acima), a acção fracassou. Ao contrário do que acontecera em 1967, os egípcios estavam agora muito bem apetrechados e treinados em armamento anti-tanque (AT-3 Sagger e mesmo RPG-7), que neutralizou as concentrações blindadas israelitas que haviam feito o sucesso da Guerra dos Seis Dias.
Nesta contra-ofensiva, os israelitas não só não haviam progredido grande coisa no terreno como, ainda por cima, haviam perdido 73 carros de combate num só dia, número que corresponde a 42% do total inicial de 172 da divisão blindada (e a quase 10% do seu parque total...). Os egípcios, remetidos à defesa, haviam perdido, quanto muito, uma trintena de tanques - e os tanques soviéticos sempre foram de qualidade muito inferior aos ocidentais. Pior: a divisão havia perdido, entre mortos, feridos e capturados, três dos seus nove experientes comandantes de batalhão. A Comissão Agranat irá ser muito severa para com as decisões dos comandantes militares nesta frente do Sinai nesta fase da guerra.
Contudo, tão importantes quanto estes desfechos tácticos, era a conclusão estratégica que o ritmo de desgaste material desta guerra iria obrigar a um envolvimento logístico sério por parte das duas super-potências para reabastecerem os dois lados combatentes (Israel de um lado e Egipto e Síria do outro). Já aqui se mencionou o caso dos Estados Unidos e Israel, que nos envolveu directamente por causa da base das Lajes. Mais discreto foi o caso dos soviéticos e a sua ponte aérea de material de guerra para os países árabes. Mas ela existiu, como se percebe pela passagem abaixo*, em que se nota - já então! - a atitude pró-russa (e anti-americana) da Turquia, apesar de pertencer à NATO!
No total, os Estados Unidos transportaram 22.325 toneladas de equipamentos militares por via aérea a partir de 12 de Outubro de 1973. Os soviéticos entre 12.500 e 15.000 toneladas. Uma boa razão para recordar este episódio de há cinquenta anos é fazer compreender melhor aos eventuais leitores deste blogue quais são os problemas do recompletamento do material de guerra nas fases mais acesas de uma guerra moderna, como a que se trava na Ucrânia**. Compreender como se revela importante, mas também complicado, substituir todo aquele equipamento que é destruído, no caso de se tratar de um país beligerante que não tem meios industriais para o poder substituir àquele ritmo, por si próprio.

* A passagem, assim como o mapa inicial e a avaliação da batalha de 8 de Outubro constam do livro «La Guerre Israélo-Arabe d'Octobre 1973» de Pierre Razoux, Economica 1999 já aqui mencionado.
**Este texto havia sido preparado antes dos ataque do Hamas a Israel. Apesar da belicosidade das declarações do 1º ministro israelita, ainda não se trata bem de uma guerra, pelo menos com as dimensões e gravidade da do Yom Kippur.

06 outubro 2023

O INÍCIO DA GUERRA DO YOM KIPPUR

(Republicação reescrita em função de novos vídeos)
6 de Outubro de 1973. Neste dia de há cinquenta anos e à hora mais canonicamente improvável para o desencadear de ofensivas militares (14H00), egípcios e sírios, de uma forma simultânea e concertada iniciaram uma ofensiva sobre as posições que os israelitas haviam conquistado seis anos antes durante a Guerra dos Seis Dias. Esta intenção de desforra árabe, deu-se o nome de Guerra do Yom Kippur, em alusão ao feriado religioso judeu que desguarnecia precisamente naquele dia as...
...guarnições das posições defensivas israelitas. Tratou-se tanto de uma guerra convencional (para a descrição detalhada da qual se sugere o livro acima de Pierre Razoux*), como se tratou de uma guerra de propaganda disputada no palco da opinião pública mundial. Desde o princípio que houve a preocupação de encher os noticiários com os sucessos das suas respectivas armas. O Egipto acima, a atravessar o canal do Suez, Israel abaixo, a rechaçar a ofensiva síria.
* É o mesmo Pierre Razoux que, no jornal Le Monde e a propósito desta outra guerra entre o Hamas e Israel, considera agora que «o Hamas está a fazer tudo o que pode para atrair Israel para uma operação terrestre».

29 setembro 2023

A FRANÇA EM TRIBUNAL - O CASO DO MARECHAL PÉTAIN

Já aqui demonstrei no blogue o quanto me interessa o tema do período da ocupação (1940-44), os anos de chumbo em que a França esteve sujeita aos ditames dos alemães. E foi também por isso, mas não só, que me apressei a comprar este livro acima, acabado de publicar em Junho deste ano de autor já meu conhecido. Regressar ao tema do julgamento do marechal Philippe Pétain tem a pertinência de tentar perceber a sua pessoa, a sua conduta entre 1940-44 e o seu posterior julgamento e condenação em 1945, o que constitui um assunto controverso que ainda subsiste (e suspeito que subsistirá...) em França. E por Julian Jackson fazer, narrando as circunstâncias muito peculiares em que decorreu o julgamento (Julho-Agosto de 1945, o fim da guerra contra o Japão coincidiu com o fim do julgamento) fazer ainda assim, o leitor concentrar-se nos factos mais importantes e mais graves do que aconteceu durante aqueles anos - e, evidentemente, no apuramento das responsabilidades do réu. Porque as tendências desculpabilizadoras já fizeram com que se cunhassem termos tão absurdos como...vichisto-resistentes (abaixo - um livro de 800 páginas de que desisti da leitura a 30%! do fim). Por outro lado, este julgamento de um antigo chefe de Estado, que são sempre momentos politicamente controversos, não deixa de ter ressonâncias estranhamente modernas do outro lado do Atlântico, quando Donald Trump se prepara para quatro julgamentos e 91 acusações. Mas isso sou eu a dizer, o Julian Jackson não se refere a esse (outro) assunto sequer...