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20 setembro 2019

ALÉSIA

Como sabe todo o leitor de Astérix, Alésia foi o local onde o grande chefe gaulês Vercingétorix, se reconheceu vencido, depondo as suas armas aos pés de Júlio César. O que já não é historicamente garantido é que este último se tenha aleijado no dedão grande do pé... De facto, muito, senão mesmo quase tudo o que se sabe sobre Alésia não é garantido. Sabe-se, pela narrativa da Guerra das Gálias (do próprio Júlio César) que houve um cerco, que o desfecho foi decisivo, mas, ao contrário de tantas outras batalhas mais recentes, não se sabe garantidamente qual a localização do sítio onde os acontecimentos terão tido lugar. Foi só na segunda metade do século XIX, com Napoleão III, que se puseram de parte as controvérsias académicas sobre a localização, para se assentar num local onde se pudesse erigir uma grande estátua ao... vencido: Vercingétorix (fotografia mais abaixo).
Como muitos outros sítios interessantes da História de França, este também é uma comuna rural (Alise-Sainte-Reine) com umas escassas centenas de habitantes, a 260 km a sudeste de Paris. São locais que, para visitar, é preciso que saibamos que existem e aquilo que representam: é o que acontece com a gruta de Lascaux, com os fortes da linha Maginot ou com o sítio da batalha de Crécy, apenas para dar três exemplos. Em 2012, inaugurou-se um museu em Alésia, em jeito de combinação de campo arqueológico complementado com reconstruções históricas. E porque é sempre interessante atribuir uma data aos acontecimentos, mesmo que tenham ocorrido em 52 a.C., o dia de hoje, 20 de Setembro, deve ser um dia melhor que muitos outros, para o atribuir à conclusão da batalha de Alésia e à famosa deposição das armas aos pés de César. Terá sidoprecisamente 2.071 anos...

09 agosto 2018

A BATALHA DE ADRIANÓPOLIS

9 de Agosto de 378. Há precisamente 1.640 anos disputava-se a batalha de Adrianópolis. Sabe-se a data precisa em que foi travada, sabe-se a identidade dos intervenientes, sabe-se o seu desfecho (uma ressonante derrota imperial, incluindo a morte de um dos imperadores romanos, Valente), mas, sobre a própria batalha em si, não se sabe verdadeiramente muito mais. A comprová-lo, este quadro abaixo, que retirei da página da wikipedia em castelhano e que inclui doze cenários distintos de especialistas a respeito da constituição dos dois exércitos em presença. As forças bárbaras podem ter ido de mais de 10.000 homens até mais de dez vezes isso (155.000); as dos romanos, de 15.000 efectivos até ao quádruplo (60.000). A relação de forças é maioritária para os bárbaros em sete dos casos, mas os romanos estariam em maioria para cinco dos especialistas. E essa relação pode variar numa proporção em que os godos seriam o triplo dos romanos, até à versão oposta em que os romanos seriam 50% mais do que os seus adversários. Todas estas discrepâncias mostram que, sabendo-se o desfecho da batalha, tacticamente não se sabe o que aconteceu. Ao contrário do que aparece escrito no quadro abaixo, o resultado da batalha não foi uma «vitória visigoda decisiva». Foi uma acção importante no quadro das Guerras Góticas que se travaram de 376 a 382, mas vale a pena referir que essas guerras terminaram com a assinatura de um Tratado no Outono de 382. Só que, a partir daquela ignorância sobre o que verdadeiramente aconteceu há 1.640 anos, construiu-se ao longo do século XIX e da primeira metade do século XX, uma narrativa a respeito da batalha ter representado o crepúsculo do papel da infantaria da Antiguidade em detrimento da ascensão da cavalaria que atingirá depois o apogeu na Idade Média. Foi engraçado de contar, mas é muito bem capaz de não ter sido assim. E é sempre de louvar quando, em vez de inventar, confessamos a nossa ignorância.

13 outubro 2017

OS LOUROS DE CÉSAR (42)

Confesso que, desde que li esta história pela primeira vez, me intrigou a questão da permuta da coroa de louros pela coroa de funcho. Se haveria algum significado mais profundo na escolha do funcho como substituto do louro, para além das disponibilidades momentâneas da despensa do taberneiro. Segundo vim a descobrir muitos anos depois, já nesta era da internet, a coroa de funcho seria, para os romanos, um sucedâneo muito inferior à de louros, era atribuída aos melhores gladiadores.

15 setembro 2017

OS LOUROS DE CÉSAR (30)

Uderzo deixa-se levar pela imaginação na configuração como desenha um tribunal romano. É muito improvável que as audiências comuns decorressem em salas com um tal pé-direito, ainda por cima com anfiteatro semicircular para sentar a assistência. O desenho faz lembrar mais um teatro clássico, com o juiz, réus e advogados como actores. Por outro lado, noutro retoque irónico, os dois advogados disputam-se a deixa de invocar a destruição de Cartago, citando Catão, para início do seu discurso. Na realidade, o que Catão alegadamente fazia, numa passagem que se tornou um clássico da oratória latina, era terminar todos os seus discursos fazendo essa invocação: «Ceterum censeo Carthaginem delendam esse».

27 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (11)

Costuma falar-se da antiguidade das profissões e esta passagem da aventura mostra que os agitadores sindicais, aqueles que promovem as justas lutas dos trabalhadores, já existirão desde tempos muito antigos - a sério, a documentação mais antiga referente a uma greve no Egipto data mesmo do século XII a.C. E o facto de a greve (esta, a figurada e não a que ocorreu no reinado do faraó Ramsés III) ter sido promovida por Amonbofis, o inimigo e rival de Numerobis, consagra a impressão que: a) é relativamente fácil manipular algumas classes de trabalhadores; b) o interesse dos trabalhadores é o que, no fundo, menos interessa ao promotor da agitação laboral.

22 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (6)

O farol de Alexandria era uma das sete maravilhas do Mundo e também a mais recente de todas elas. Mesmo assim, quando Astérix chegou ao Egipto, já existia há 200 anos.

17 junho 2017

ANGOLA: O REI DA REPÚBLICA

Ao contrário do que se possa pensar, o problema de disfarçar os poderes pessoais em moldes que se assemelhem a (e pareçam) estruturas republicanas é um problema muito antigo, que já era conhecido na Antiguidade. Octávio (acima, à esquerda), quando alcançou o poder em Roma, não alterou a elaborada estrutura de cargos que encontrou (composta de cônsules, censores, tribunos, pretores, questores, edis...), apenas acoplou a sua pessoa (passou a ser conhecido por Augusto) à estrutura do poder republicano. Do ponto de vista formal, era possível que Augusto não desempenhasse nenhum daqueles cargos supracitados (foi eleito cônsul algumas vezes durante o seu reinado), mas nada de importante acontecia em Roma e no Império Romano que não tivesse a chancela do ocupante da Domus Augusti - um palácio que poderá passar funcionalmente por um antepassado longínquo do Futungo de Belas, situado nos arredores de Luanda. E se aqui me refiro a Angola é porque ninguém pode criticar os angolanos de falta de imaginação nesse exercício habilidoso recente de transformar o poder pessoal de José Eduardo dos Santos (acima, à direita) em poder impessoal, emanado do voto popular e da ética republicana. Neste caso, irão conseguir a proeza de associar um título republicano - o de presidente - a um título normalmente conotado com a monarquia - o de emérito: Bento XVI, como papa resignatário, usa esse predicado no seu título, o de Papa Emérito, e também João Carlos, ex-rei de Espanha, tem sido tratado assim. Já conhecia monarcas que, de presidentes da República se têm legitimado republicanamente depois por referendo, até mesmo como imperadores, como foi o caso de Napoleão III em França em 1852 ou de Jean-Bédel Bokassa no designado «Império» Centro-Africano em 1976, mas, o gesto inverso de alguém se aposentar monarquicamente de um cargo republicano com o título de "presidente da República emérito", isso é que não me lembro de outro.

04 maio 2017

A VOLTA À GÁLIA (5)

Repare-se no anacronismo de que a Volta à Gália é desenhada por um itinerário que passará por várias cidades (assinaladas com pequenas pedras) que está traçado sobre um desenho que mostra o contorno das fronteiras da França de 1815 a 1871 e de 1919 para cá. Contudo, a verdadeira Gália da época romana é de contornos muito mais difusos, conforme o mapa abaixo. Na sua Volta à Gália Asterix vai passar por cidades que se situavam nas províncias romanas da... Bélgica e da Germânia.

19 março 2017

MERKEL, TRUMP, A NATO E A LIGA DE DELOS


Quem liga a estas coisas tem-se divertido ou indignado imenso com os momentos protocolares que se seguiram ao encontro em Washington entre Angela Merkel e o anfitrião Donald Trump, com o momento antipático do presidente americano ao recusar-se às convenções de cumprimentar a convidada para as fotografias. A reputação de Trump em termos de gaffes consegue ser já pior que a do já esquecido Sílvio Berlusconi. Mas aquilo que considero pior nele nem sequer serão estas imagens, que tem um (mau) impacto imediato, é o que ele depois fez por detrás, estes dois tweets abaixo, produzidos já depois da visita e das conversações: Apesar do que ouviram nas NOTÍCIAS FALSAS tive um GRANDE encontro com a Chanceler alemã Angela Merkel. Contudo, a Alemanha deve... ...uma vasta quantia de dinheiro à NATO e os Estados Unidos devem ser mais bem remunerados pela poderosa e caríssima defesa que asseguram à Alemanha!
Aparentemente Angela Merkel levou a sua adiante e Donald Trump saiu da reunião com uma enorme azia e esta reacção será a desforra de quem não gosta de ser contrariado. Mas o mais bizarro nem sequer foi o gesto. Foi a forma como foi redigido este seu comentário, que sugere uma perceptível falta de entendimento do funcionamento da organização, suspeita que alguma imprensa não tardou a assinalar. A forma como Donald Trump conceberá o financiamento da NATO (organização fundada em 1949) parece equiparar-se à da Liga de Delos da Grécia clássica (fundada em 478 a.C.). Nesta última é que só as grandes cidades é que forneciam os meios humanos e materiais para a defesa comum, nomeadamente os navios; as contribuições das cidades menores eram todas em dinheiro (abaixo à esquerda), o que dava origem a um importante tesouro acumulado, que esteve originalmente sedeado na cidade de Delos. Daí o nome da Liga. 2427 anos depois, esse processo de financiamento das alianças militares já estaria um pouco obsoleto e o da NATO é diferente. Cada membro é responsável por financiar os seus próprios meios de defesa, na maioria das vezes adaptados à sua dimensão. Até mesmo um país pequeno como o Luxemburgo contribui para o esforço comum com uma companhia. Mesmo que os Estados Unidos os subsidiem, os países membros da NATO não compram segurança aos Estados Unidos, como se depreenderá das palavras dos tweets acima..
Alguém recentemente me chamou a atenção (quiçá com toda a razão) para que eu não subestimasse Donald Trump, tendo em consideração o rol de derrotados que ele já deixou pelo caminho por terem feito isso mesmo, mas o que me ocorre nestes momentos é precisamente o sentimento contrário: não estaremos nós a cometer o erro de sobrestimar Donald Trump?

24 fevereiro 2017

O FRATRICÍDIO COMO PRÁTICA POLÍTICA

O assassinato do irmão do líder norte-coreano é mais do que uma notícia, é um daqueles verdadeiros retrocessos civilizacionais até aos séculos de barbárie em que o fratricídio como manobra política era prática corrente. Tratou-se de um reforço da imagem internacional da Coreia do Norte como um rogue state. Acima vêem-se as estátuas dos três filhos do imperador romano Constantino que dividiram o império entre si após a morte do pai em 337 d.C.: Constantino (II), Constâncio (II) e Constante. Começaram os três por eliminar os primos para depois se matarem entre si: Constante eliminou Constantino II em 340 para vir a ser eliminado por Constâncio II dez anos depois. Ao contrário destes casos e vivendo no exílio, o defunto Kim Jong-Nam parecia não constituir uma ameaça muito séria para o meio-irmão mais novo Kim Jong-Un que ocupa o poder em Pyongyang. Mas aqui aplicar-se-á provavelmente a jurisprudência do marxismo-leninismo, estabelecida desde o precedente de 1940, quando Estaline mandou assassinar Trotsky na cidade do México. (...) é uma evidência que as concepções de socialismo e de democracia que (Bernardino Soares) defende(mos) estão nos antípodas das deste (daquele) país (...) É sempre bom deixar isso esclarecido, para que não nos baralhemos com o que se escreve lá pelas páginas do Avante!.

17 março 2016

DEDICADO AOS XENOFONTES QUE AVALIAM AS RETIRADAS SEM CONHECER AS TROPAS


Em 30 de Maio de 1974, pouco mais de um mês depois do 25 de Abril, uma equipa da televisão francesa (ORTF) entrada clandestinamente em território guineense realiza esta entrevista a Francisco Mendes, um dos comandantes militares do PAIGC, mais conhecido pelo nome de guerra de Chico Té. Desde há duas semanas que vigorava um cessar fogo no território. O teor das suas declarações - que se podem ler mais abaixo - são um testemunho da época, da autoconfiança arrogante dos nacionalistas africanos que depois do golpe de Estado em Portugal se passaram a sentir - provavelmente com razão - como os vencedores do conflito que os opusera a Portugal ao longo do decénio precedente. O revisionismo como hoje se reanalisa a época e as especulações quanto às condições em que se poderia ter realizado a descolonização raramente tomam em conta esta atitude contra a qual os negociadores pela parte portuguesa se confrontaram, para além de se esquecerem que, entre as tropas portuguesas que poderiam disciplinar no terreno Chico Té e os seus homólogos tanto na Guiné como nos outros Teatros de Operações, desaparecera subitamente todo o ânimo combativo a partir do momento em que se começara a falar da descolonização. Perante o anúncio do fim de uma guerra, ninguém quer ser o seu último morto. Retirar disciplinadamente, como já explicava Xenofonte na Anábase do tempo da Grécia clássica, foi sempre uma das operações mais complexas de realizar sob a pressão do inimigo... Chico Té veio a falecer em 1978, quatro anos depois desta entrevista, num desastre de automóvel cujas circunstâncias ainda hoje estão sujeitas a interrogações. A história encarregou-se de vingar a sobranceria de algumas das suas declarações, a começar pela forma como quase faz o favor de se dispor a acolher uma eventual futura cooperação portuguesa... Quanto a isso, hoje a Guiné-Bissau passa por ser um caso perdido.

- Considero que o general Spínola, que empregou entre nós todas as suas táticas de guerra contra-subversiva para vencer a nossa luta em dois e depois em quatro e cinco anos, acabou por registar um fracasso total. Consideramos que a sua presença entre a nova equipa (dirigente) de Portugal no que respeita à nossa realidade e à do nosso partido, e quanto a qualquer decisão dos portugueses, ele conhecer-nos-á possivelmente melhor do que os restantes em Portugal.
- Que é que vai acontecer em sua opinião?
- Pensamos que depois do cessar-fogo, como já o disse, é necessário que as tropas portuguesas abandonem definitivamente o nosso país. Depois disso, pensamos continuar a luta, seja na Guiné no plano da construção do país, seja em Cabo Verde para libertar as ilhas de Cabo Verde da dominação portuguesa...
- Já fixaram um calendário para a evacuação das tropas portuguesas?
- Ainda não ficámos um calendário para a evacuação das tropas portuguesas porque isso depende das negociações em Londres.
- E que concessões estão disponíveis para fazer a Portugal?
- Em todas as negociações há sempre concessões que se têm de fazer e actualmente não me vou pronunciar clara ou concretamente sobre as concessões que estaremos dispostos a fazer, porque isso dependerá também da vontade dos portugueses, das propostas que nos vão apresentar.
- Tem impressão que eles estão mesmo dispostos a descolonizar, os portugueses?
- Sim temos a impressão que eles estão prontos para descolonizar, pensamos que a nova equipa (dirigente) quer realmente descolonizar mas isso depende também de muitos factores do ponto de vista económico, por exemplo em Angola e Moçambique, nesses sítios onde eles têm grandes interesses, grandes capitais estrangeiros mas onde, de uma forma ou outra, pensamos que estão decididos a descolonizar.
- E como é a situação no terreno aqui na Guiné?
- Nós temos os organismos do Estado já instituídos em todas as regiões e que funcionam normalmente.
- Que parte do território é que vocês controlam?
- Nós controlamos efectivamente ⅔ do território mas há uma grande parte dele que está em litígio.
- E que proporção da população?
- Pode-se dizer por estimativa 350 mil pessoas.
- Ou seja, a metade?
- Sim, a metade, porque há uma outra parte considerável que está refugiada no Senegal e na República da Guiné; há ainda uma pequena parte que está sob controle dos portugueses.
- O que é que é negociável?
- A retirada das tropas portuguesas do nosso país, por exemplo uma futura cooperação com Portugal é negociável. Uma assistência, por exemplo, em que Portugal pode-nos fornecer quadros técnicos, do ensino, operários; o que não é negociável é a dignidade do nosso país, a independência.
- E se os portugueses vos propuserem que se proceda a um referendo quanto à autodeterminação, aceitariam?
- Pensamos que é absurdo que os portugueses nos proponham esse princípio porque não pode existir um voto a perguntar à população se ela quer ser independente ou se não o quer, porque a prova existente é esta luta de onze anos que nos parece uma enorme prova que a população deseja a independência.
- E se não houver acordo entre os movimentos independentistas de Angola e Moçambique e Portugal e se nesses dois territórios a guerra continuar? Que farão nesse caso? Serão solidários ou farão um acordo, mesmo assim, com os portugueses?
- Pensamos que Portugal não pode pretender que concedendo-nos ou mesmo aceitando aquilo que apresentámos para a nossa independência, se pode permitir a continuar a guerra nas outras colónias portuguesas.

02 novembro 2015

CLÁUDIO II O GÓTICO

Ao princípio, quando comecei a aprender a História de Roma, Cláudio II o Gótico (c. 213 - 270) tinha o traço característico na lista de imperadores romanos de ser o primeiro deles a ser identificado por um ordinal, uma necessidade imposta para o distinguir de um homónimo que o precedera no cargo dois séculos, uma prática que se iniciava no Século III mas que se viria a banalizar tanto entre os monarcas europeus que o último imperador romano no Século XV, por exemplo, era conhecido por Constantino XI. A vitória de Cláudio na Batalha de Naísso (268/9) é o acontecimento que mais o distingue.
A vitória foi conseguida contra uma coligação de tribos godas que invadiu o império (mapa acima) e foi por causa dela que ele veio a receber o epíteto de Gótico. Eu, que tenho sido tantas vezes crítico a esse respeito, realço desta vez a qualidade da entrada da wikipedia em português referente àquela batalha. Tudo o que há substancial para saber a seu respeito pode ali ser consultado. Mas o que torna a proeza do imperador Cláudio estranhamente actual e motiva este poste é a coincidência das rotas de invasão dos godos de então e dos levantinos de hoje. E os tempos, estarão assim tão modificados ou não?

02 maio 2015

MAGISTRATURAS DA REPÚBLICA ROMANA... COMO INSPIRAÇÃO DE UMA IDEIA SOBRE AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

Ontem, a pretexto de querer questionar que papel se pretende atribuir a um presidente da república, em contraponto ao desempenho do actual titular, apercebi-me quanto é difícil recorrer a exemplos em que, quem gosta de discutir estes assuntos, os possa analisar de uma forma mais distanciada do que a simples personalização em função do protagonista actual e dos que o antecederam num passado recente. Invocar a complexidade dos equilíbrios das magistraturas de um sistema como o da República Romana, não costuma ser muito popular (é o mínimo que se pode dizer...) quando o âmbito da conversa incide sobre as características do poder que é actualmente conferido ao presidente da República em Portugal. Mas, embora não tenha grande acolhimento popular, pode muito bem dizer-se que, tomando a Roma republicana por referência, se exige para o cargo um prestígio de Censor (vejam-se as descrições de três das magistraturas romanas mais abaixo) embora não lhe atribuam qualquer imperium (mais abaixo também está explicado o que isso possa ser) e as suas capacidades de actuação se definem sobretudo pela negativa, como se ele fosse um Tribuno da Plebe. O que teria gostado de dizer (haja quem possa acompanhar a comparação – e por isso fiz a resenha que apresento mais abaixo) é que, porque a síntese daqueles dois cargos não é muito compatível (não nos esqueçamos que o exemplo romano tem a prova de séculos de aplicação concreta...), talvez o leque de candidatos não seja o mais apetecível... Concorde (e discorde) quem quiser. As descrições orientadoras que se podem ler abaixo são adaptações do que se pode ler mais desenvolvido em A História do Governo Vol. 1, pp. 430-435, um auxiliar para uma discussão política mais erudita...
OS CÔNSULES

O Consulado, o mais elevado dos cargos com imperium, era a mais importante das magistraturas da Roma republicana: os anos eram datados pelos nomes dos cônsules em funções e isso era identificativo porque o mandato de um cônsul durava precisamente um ano. Se nos abstrairmos de que, em geral, os poderes de todas as magistraturas romanas podiam ser bloqueados por magistrados de nível equivalente ou superior, os cônsules podem ser levados à conta dos principais membros executivos de toda a estrutura de poder, uma espécie de monarcas. Na verdade, fora inicialmente como substitutos deles, a dinastia dos Tarquínios deposta em 509 a.C., que a função fora criada. Mas, por causa da embriaguez de uma tão alta função, havia uma dupla de magistrados, para se poderem vigiar reciprocamente. Eram os cônsules quem convocava o Senado, quem o consultava, quem lhe promulgava os decretos sob a forma de éditos e quem convocava as assembleias populares legitimadoras, como os comitia centuriata ou os comitia tributa. Eram também os representantes da República perante chefes de estado estrangeiros. Embora houvessem perdido progressivamente as competências sobre assuntos fiscais ou criminais, delegados em organismos especialmente para eles vocacionados, em tempo de guerra – e isso era bastante mais do que comum durante a vigência da República Romana – os cônsules eram também os comandantes-em-chefe. Quando em operações, fora dos limites da cidade e do alcance das restrições das magistraturas concorrentes, o imperium era por eles aplicado em toda a sua plenitude.
Mais em concreto, explique-se que o par de cônsules se podia encontrar em operações simultaneamente. Se no mesmo Teatro de Operações, o exercício do comando era alternado cada dia; noutras situações, cada vez mais frequentes à medida que o Império Romano se expandia territorialmente, um dos cônsules comandava as legiões estacionadas numa das províncias enquanto o seu colega comandava outras em província distinta, em operações contra o mesmo, ou até inimigos distintos. Em geral, ao longo dos Séculos III e II a.C., houve tradicionalmente um comando mais defensivo, centrado na península italiana, e outro mais expedicionário, na Sicília, na Grécia, mesmo na Hispânia ou em África. É importante frisar que competia ao Senado decidir quais as províncias em que as legiões iriam operar no ano seguinte e que a atribuição dos comandos para cada cônsul era feita por sorteio. Além disso, o consulado podia ser controlado para além das formas preconizadas ao período anual do seu exercício. Depois do mandato expirado, os ex-cônsules podiam ter de enfrentar acusações perante as assembleias populares, e era necessário decorrerem dez anos antes que um antigo cônsul pudesse recandidatar-se ao cargo, o que, consideradas as taxas de mortalidade da Antiguidade, se tornava um acontecimento raro. Contudo, desempenhar o cargo, ainda que só por uma vez, representava logo por si a consagração máxima de uma carreira política, e a família e os descendentes de um cônsul tornavam-se, só por isso, nobiles, i.e. nobres.

OS TRIBUNOS DA PLEBE

Os Tribunos adquiriram poderes negativos e poderes positivos. Os primeiros davam-lhes o direito e mesmo a obrigação de oferecer auxilium – i.e., assistência – a todo e qualquer plebeu que se sentisse agravado pelos actos de um magistrado, bem como de suspender esse acto através do seu veto – a sua intercessio. A palavra intercedo anulava a acção de um magistrado. Mas esse poder só podia ser exercido dentro do perímetro urbano embora os tribunos estivessem proibidos de passar a noite fora de muralhas e obrigados a manter as portas de casa abertas noite e dia. Para apoiar a sua capacidade de intervenção o tribuno tinha ainda o poder de reforço, designado por coercitio, que podia impor aos próprios cônsules. Estes não podiam retaliar já que a pessoa do tribuno era sacrossanta. Assim, os tribunos dispunham dos poderes bastantes que lhes permitiam prender, aprisionar, multar, chicotear e até mesmo executar. Com esta amplitude, o Tribunato desenvolveu uma jurisdição, o direito de entregar ao concilium plebis as infracções dos magistrados. Este direito designava-se ius agendi cum plebe – o direito de lidar com a plebe. O seu efeito prático era que o direito do tribuno para convocar o concilium era absoluto. Quando convocado, ninguém o podia interromper e com isso os tribunos podiam multar o infractor ou pedir que lhe fossem aplicadas sanções. Com o evoluir dos tempos, esse direito de veto dos tribunos alargou-se dos actos da magistratura (com excepção dos censores, de que falaremos a seguir) para as resoluções apresentadas perante o Senado ou perante uma das assembleias populares.
Este poder de veto de largo espectro só era controlado de uma forma: pelo contraditório (uma espécie de contra-veto) de um outro tribuno. A princípio, os tribunos da plebe eram apenas dois. A melhor fórmula de atrapalhar a sua (contra-)actividade foi multiplicá-los: chegaram a ser dez! Assim cresceram as hipóteses de que um magistrado ou os senadores encontrassem um homólogo que contrariasse o veto original!
Por outro lado, o tribuno tinha o direito de apresentar resoluções ao concilium plebis. Em 287 a.C., as resoluções ali aprovadas – os plebis scita – receberam plena força de lei, com a mesma força de outras que fossem aprovadas nas outras assembleias populares existentes (comitia centuriata ou tributa). Mas, a sua aprovação sofria das mesmas carências: só se podia debater as que fossem apresentadas pelos tribunos, não se podia debatê-las nem emendá-las, apenas aceitá-las ou rejeitá-las, como nos plebiscito modernos, que ali foram buscar o seu nome.
Embora possuidores de um estatuto que seria formalmente inferior ao dos magistrados – careciam do imperium, do direito de tomar auspícios ou de usar a faixa de púrpura de um autêntico magistrado – o poder dos tribunos da plebe continuou a alargar-se cada vez mais. Porque, embora impossibilitados de tomar assento como senadores, conquistaram o direito de colocar resoluções ao Senado e ainda, a partir de 216 a.C., o direito de o convocar e mesmo de o presidir. Mas, nesses anos finais da República, o Tribunato acabara por se tornar parte da ordem senatorial governante e não, como originalmente fora, um cargo encarregue de a vigiar.

OS CENSORES

Os Censores, que foram sempre dois ao longo dos séculos da Roma republicana, distinguiam-se das outras magistraturas por: a) serem eleitos por períodos de cinco anos – e não anualmente como acontecia com as restantes magistraturas; b) apesar de não serem detentores de imperium eram honorificamente a magistratura mais prestigiada. Só aqueles que eram ex-cônsules eram elegíveis e ser-se censor constituía o apogeu de uma carreira política (o cursus honorum). De todos os magistrados que podiam tomar os augúrios (os auspices), o Censor assumia a primazia; a sua toga exibia o laticlavum, uma faixa cor de púrpura, e ao morrer viria a ser sepultado envolvido nessa mesma cor, que outrora estivera associada exclusivamente aos reis, e que viria a ser, no futuro, associada aos Imperadores.
Cada um dos membros da dupla de Censores não possuía explicitamente o direito de vetar o colega. Contudo, esse direito acabava por existir na prática, considerando que o Censorado era compreendido como uma jurisdição singular e indivisível, detida em bloco por um determinado número de titulares, em que cada um dos quais o podia exercer em nome de todos os restantes, salvaguardando que nenhum deles se opusesse frontalmente. E numa magistratura como o Censorado, ambos eram obrigados a agir em conjunto.
A função primária dos censores era proceder ao recenseamento dos cidadãos, uma tarefa que era muito mais complexa do que o nome pode sugerir: havia que decidir quem era livre e quem era escravo; entre os livres, quem era cidadão romano e quem o não era; e sobretudo, sendo cidadão, a que classe censitária se pertencia (definida pela riqueza), sendo certo que, conforme a classificação, haveria diferentes direitos de voto na assembleia (comitia centuriata) e mesmo em pormenores de direitos de cidadania. Uma reclassificação discreta e preventiva podia assim condicionar uma carreira política de um cidadão ambicioso. Depois de 312 a.C. ficou estabelecido que apenas eles tinham o poder de elaborar a lista daqueles que seriam elegíveis para futuros senadores, e também as exclusões, que podiam assumir um carácter retroactivo. A fundamentação para a decisão associava-se normalmente ao incumprimento das obrigações públicas, à exibição de uma moral privada duvidosa ou aos abusos de poderes magisteriais. Em suma, tratava-se de uma capacidade de triagem e requalificação de todos os actores políticos, até ao cidadão individual e que podia ser prosseguida de uma forma consistente, dada a duração do mandato.
Ao contrário de outras magistraturas, os Censores não podiam ser detidos para prestarem contas pela forma como haviam exercido as suas funções. O único controlo sobre as decisões arbitrárias assentava no facto de que tudo o que fora decidido havia-o sido com a anuência dos dois Censores. Assim, e para dar um exemplo extremo, se um dos Censores se decidisse a riscar todas as propostas de novos senadores da lista (a lectio) que houvessem sido apresentadas pelo seu colega, este podia retaliar de forma simétrica – e assim nenhum individuo poderia tomar assento no Senado, bloqueando a sua renovação. A dinâmica do jogo incentivava-os naturalmente a elaborar aquela lista – como as outras decisões, de resto – por consenso.

10 março 2015

A GERMÂNIA ROMANA

Há cerca de 2.000 anos, durante uma geração (12 a.C. - 16 d.C.) foi intenção de Roma englobar a Germânia e os seus habitantes dentro das fronteiras do seu Império, então em expansão. Tivesse o projecto vingado e as fronteiras imperiais ter-se-iam estabelecido no Rio Elba e no Maciço da Boémia, para depois se ligarem ao Rio Danúbio. Iniciada em 12 a.C., os primeiros 20 anos de implantação da autoridade romana foram conseguidos à custa de campanhas militares, comandadas inicialmente por Druso, depois por Tibério, enteados do Imperador Augusto. Quando do desastre da batalha da floresta de Teutoburgo, em que três legiões romanas foram aniquiladas numa gigantesca emboscada e que ocorreu em 9 d.C., já a responsabilidade das tarefas de pacificação recaíra sobre funcionários que não familiares próximos da família do Imperador. Foi na sequência dessa batalha que em Roma se decidiu recuar as fronteiras do Império para o Rio Reno onde iriam perdurar pelos próximos 450 anos, deixando de fora da alçada de colonização romana uma substancial maioria das tribos germânicas. Os grandes projectos de unidade europeia também se fizeram de uma geografia variável: os germanos não quiseram fazer parte de um projecto centrado à volta de Itália; e parece que há alguns povos que, já não pela via militar mas pela via eleitoral se forem consultados, também não quererão, nestas circunstâncias, fazer parte de um projecto centrado à volta da Germânia moderna...

24 fevereiro 2015

VITÓ O GLADIADOR


As imagens dos incidentes que envolveram o treinador português Vítor Pereira na Grécia são um assombro. Em primeiro lugar, porque o jogo se realizou, apesar da evidência da completa falta de segurança dos intervenientes. Em segundo lugar, porque até a própria comunicação social portuguesa noticiou que fora Vítor Pereira a provocar os adeptos – aceitando que a culpa fosse dele. Em terceiro lugar, porque só resta concluir que, ao contrário do que acontecia na Antiguidade clássica, os gladiadores e as feras deixaram de estar na arena, para agora se sentarem nas bancadas.

25 setembro 2014

UM CERTO APANHAR TRÁGICO DAS CANAS

Há uma certa ressonância de fim de festa quando Ângelo Correia, o outrora considerado patrocinador da ascensão política de Pedro Passos Coelho, se deixa citar na imprensa lembrando que ele, pelo seu lado, guarda sempre as cópias das suas declarações do IRS: Guardo as cópias do IRS de todos anos, dá jeito para evitar problemas de não me recordar, como se pode ler no Diário de Notícias. Tu quoque, Angele, pater mi?! – é uma citação clássica parafraseada que me apetece colocar, nem de propósito, na boca do primeiro-ministro, eu que nestes últimos três postes andarei a abusar um pouco das locuções latinas, embora haja que reconhecer o quanto, com estas inoportunas amnésias de Passos Coelho, a Tragédia, ao bom jeito das tragédias clássicas, parece espreitar o horizonte da actualidade política portuguesa...

11 novembro 2013

OS CANDIDATOS A CINCINATOS

Lúcio Quíncio Cincinato foi um patrício romano do Século V a.C., cuja actuação política ficou preservada nas histórias de Roma como o melhor modelo de virtudes cívicas da República. Segundo nos conta Tito Lívio, a sua última contribuição para a preservação das liberdades republicanas aconteceu em 439 a.C., quando Cincinato já tinha 80 anos e, vindo do conforto da sua reforma, lhe foram conferidos poderes ditatoriais para enfrentar uma ofensiva populista contra o regime encabeçada que era por Espúrio Mélio, conspiração essa que rapidamente foi derrotada, com Cincinato a resignar imediatamente dos seus poderes depois de eles terem deixado de ser necessários, para depois regressar modestamente à sua vida privada. Apesar do extraordinário valor destes gestos, a notoriedade de Cincinato é mínima nos dias de hoje, adivinhe-se lá porquê. Poucos saberão, por exemplo, que a cidade de Cincinnati no Ohio (Estados Unidos), foi assim baptizada em sua homenagem.
Pois foi do comportamento desprendido do Cincinato octogenário que me lembrei quando li a sugestão recentemente apresentada por outro octogenário reformado, Silva Lopes, para que se estabelecesse um tecto de dois mil euros para as pensões, realçando quanto a sua situação é privilegiada, ao acumular quatro pensões, incluindo uma respeitante à sua esposa, entretanto falecida. É que o episódio demonstrou como, mesmo entre os octogenários, parece ser muito mais fácil dar-se opiniões do que ser-se Cincinato, pois por uma primeira vez, o opinativo octogenário Medina Carreira, instado a comentar a sugestão do seu colega, optou por responder que Não tenho nada de dar opiniões. São de natureza pessoal. O que é importante é que o nosso sistema tem de ser mudado. De resto é conversa fiada. O jornal esclareceu complementarmente que a pensão de reforma do inquirido monta a 6.900 euros (brutos). Mas deixou ao leitor a liberdade da conclusão do que é que é conversa fiada

03 outubro 2013

AS REFORMAS DE LUCIUS CORNELIUS SULLA

Vencedor pelo partido senatorial da Guerra Civil em Roma que o opunha aos populares de Mário em 82 a.C., Lucius Cornelius Sulla (conhecido em português por Sila) ficou mais conhecido para a História pelas reformas que impôs ao Estado Romano em prol das suas concepções aristocráticas. O caso mais flagrante foi o da redução das competências do Tribuno da Plebe, que durante os séculos anteriores servira como factor de equilíbrio entre as classes possidentes e as classes populares. Com Sila, os Tribunos perderam os seus tradicionais direitos de acção política, de apresentar legislação e de vetar a que era aprovada pelo Senado, o órgão representativo da aristocracia por excelência, que entretanto, depois de depurado, fora expandido de uns 300 para cerca de 600 membros.

Mas, para se apropriar do aparelho do Estado numa época de ditaduras militares, onde o poder pertencia ao partido que possuía os maiores e melhores exércitos, Sila, apesar de rico, sempre precisou de dinheiro, de muito dinheiro. Nesse outro aspecto da sua governação já não se mostrou ele tão ideológico, que a forma testada de milénios para obter rapidamente dinheiro para o Estado é ir buscá-los aos ricos, onde ele abunda. Como balanço da sua actividade, o ditador proscreveu – liquidou, apropriando-se dos bens – os seus inimigos políticos abastados, uns 90 senadores (50 dos quais haviam sido antigos Cônsules) e ainda 1 400 membros da ordem equestre, num total estimado de 26 000 cidadãos romanos sacrificados à necessidade política de uma eficaz consolidação orçamental.

Vinte e um séculos depois, os herdeiros longínquos da visão aristocrática da organização da sociedade, agora conhecidos pela designação genérica de liberais, mantêm a chama dessa sempiterna luta política em prol do ascendente das elites mas parecem ter perdido o equilíbrio e os preciosos ensinamentos do seu antepassado político: por um lado, querem reformar o Estado em detrimento das classes populares como o fez Sila mas, por outro, estão a querer ir sacar o dinheiro para a tal de consolidação orçamental precisamente à mesma classe. Não sugiro que Passos Coelho copie literalmente Sila e proscreva e se aproprie da fortuna e das três residências de Mário Soares (por exemplo...), mas que se inquira porque razão Sila, apesar dos seus impecáveis pergaminhos ideológicos e do seu poder militar, não terá querido expropriar ainda mais a classe popular...

26 agosto 2013

RELATOS DE UMA GALEGA POR TERRAS DO ORIENTE

Egéria foi uma mulher confortavelmente rica, muito provavelmente de origem galega, que escreveu um relato da peregrinação que realizou à Terra Santa (mas não só!...) nos finais do Século IV (entre 381 e 384 são as datas mais aceites pelos historiadores). Na entrada da Wikipédia podem-se ler as vicissitudes que fizeram que o manuscrito tivesse sobrevivido (embora truncado) até hoje ou a importância do latim empregue pela autora para se aferir do estádio de degenerescência da língua naquela época até à sua transformação gradual nos idiomas neolatinos modernos. Mas o que me proponho chamar aqui a atenção é para alguns acontecimentos ditos de actualidade daquela época de que Egéria terá ouvido relatos e explicações, como por exemplo a batalha travada por romanos e godos em Agosto de 378 perto de Andrinopla na Turquia Europeia, onde os primeiros apanharam uma tareia como há muitas décadas não se via, ou então a notícia que a terá apanhado em plena excursão, a da revolta militar de Agosto de 383 contra Flávio Graciano, o Imperador das regiões ocidentais do Império de onde ela própria viera, que culminou com a sua captura e execução em Lião, França. Uma perda que lhe terá causado provavelmente desgosto, porque Graciano era militantemente cristão, como se depreende que o seria Egéria. Contudo, o que mais contrasta com a actualidade é que as regiões mais pacíficas do Império eram as do Mediterrâneo Oriental , o Egipto, a Palestina ou a Síria, por onde esta nossa turista espiritual se passeava.

14 maio 2013

COMO UM NOVO SOPRO DE MOLOCH

O infanticídio foi uma prática comum durante o período da Antiguidade clássica até à difusão do cristianismo. Em algumas sociedades, como a fenícia ou a cartaginesa, ele terá chegado a ser oficializado através de sacrifícios religiosos de crianças. Acima, pode apreciar-se uma reprodução em BD de uma dessas cerimónias numa Cartago que estava então cercada. Além das invocações ao deus Moloch – uma gigantesca estátua de bronze alada com uma cabeça de touro que funcionava como uma fornalha - servirem para levantar o moral dos cartagineses, as crianças sacrificadas deixavam de representar um fardo nos recursos sempre escassos de uma cidade sitiada. Em situações excepcionais o Estado podia arrogar-se o direito de reduzir o grupo etário mais dispensável à sua sobrevivência imediata.

Porém, vinte e três séculos depois a demografia modificou completamente a estrutura demográfica das sociedades modernas, as crianças tornaram-se agora um produto escasso enquanto os raros velhos de outrora agora abundam. Ainda não será preciso aniquilar estes últimos em qualquer altar, que o problema é de sustentabilidade e não de sobrevivência, mas quando se voltam a invocar situações excepcionais, tornam a ser os recursos atribuíveis ao grupo demográfico que menos importa os primeiros a serem sacrificados…