6 de Março de 1971. Em mais um daqueles artigos de fundo, transcrições de jornais estrangeiros (neste outro caso, o Washington Post), no Diário de Lisboa podia ler-se uma desenvolvida análise sobre o que era então um dos mais desconhecidos e desinteressantes sítios do globo: o Golfo Pérsico. Ao redor do Golfo, distribuíam-se um conjunto de pequenos emirados que, de uma forma ou outra, haviam caído sob tutela britânica no período do apogeu do império. Só que agora era tempo de os ingleses partirem, enquanto que a descoberta de jazidas de petróleo e gás natural antecipava uma mudança significativa naquela região. E antecipavam-se as cobiças dos vizinhos - sobretudo Arábia Saudita e Irão - perante o previsível vácuo de poder. Os nove emirados só se tornarão totalmente autónomos a partir da segunda metade de 1971: em primeiro lugar o Barein, em Agosto de 1971, depois o Qatar em Setembro e finalmente os outros sete, que formarão uma confederação denominada Emirados Árabes Unidos em Dezembro de 1971. Mas nada do que o autor então escrevia poderia antecipar o que estava para acontecer: nos 50 anos que se seguiram as economias agregadas dos três países ter-se-ão multiplicado mais de 200 vezes e a população conjunta, que rondava então os 500.000 habitantes, multiplicou-se quase 30 vezes. Hoje é menos provável perguntar-se onde é que «isso» - o Dubai, por exemplo - fica...
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06 março 2021
29 setembro 2020
POIS ENTÃO, NÃO SE ESTÁ MESMO A VER?!...
Regresso a um tema caricato já aqui tratado por mim há dois meses: o programa de pesquisa espacial interplanetária dos Emirados Árabes Unidos. Que é uma paródia. As sondas árabes vão para Marte e para a Lua, muito embora sejam desenvolvidas e montadas nos Estados Unidos. Os lançamentos são feitos com foguetões japoneses e de bases situadas no Japão. No programa, os cientistas emiradenses quase não existem, onde há uma profusão de emiradenses é na parte das relações públicas... Quanto aos portugueses, jornalistas, como já aqui o ridicularizara há dois meses, abocanham acriticamente esta história das proezas espaciais com isco, anzol e chumbada de pesca. Com uma particularidade engraçada no caso do Observador (acima). A sua notícia de hoje inclui a imagem de um esclarecedor tweet de sua alteza, o xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum. Que, para mim e para qualquer leitor comum daquele jornal, é tão perceptível quanto a conta de restaurante apresentada como credencial na cena abaixo.
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20 julho 2020
A ASTRONÁUTICA JÁ FOI «CONQUISTADA» PELO JORNALISMO
Se nos cabeçalhos esta missão a Marte é árabe, nos detalhes é que se fica a saber que a sonda foi construída nos Estados Unidos em parceria com universidades locais (Colorado), que o lançamento teve lugar a partir do centro espacial de Tanegashima, no sul do Japão, e que o foguetão que a lançou para o espaço era também de concepção inteiramente japonesa (H-IIA). Ninguém duvidará que tenha havido um empenhado esforço dos cientistas dos Emirados Árabes, especialmente do Mohammed bin Rashid Space Centre no Dubai, mas não se estará a revelar um grande segredo quando se disser que há muita gente do meio da astronáutica que tem uma visão um pouco condescendente para com este projecto, classificando-o como um dos mais conseguidos... entre os que os petrodólares conseguem comprar. É possível que seja excessivo e provavelmente não será simpático escrevê-lo nesta ocasião, mas chamar também a atenção para esse detalhe controverso, é que é a diferença entre o jornalismo e uma mera «press release» da entidade que está a promover o acontecimento...
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12 maio 2013
A DISPUTA DE AL BURAIMI
Al Buraimi é um oásis remoto no interior da península arábica como se pode ver acima, assinalado no mapa. Tradicionalmente a suserania daquela região havia pertencido ao sultão de Omã quando em 1949 o rei da Arábia Saudita apresentou a reivindicação de que essa região seria sua. A pretensão saudita afectaria o traçado (acima, a tracejado) das suas fronteiras tanto com o sultanato de Omã como com o emirato do Abu Dhabi, o maior, o mais importante e o mais ocidental da federação que constitui os actuais Emirados Árabes Unidos. Nessa época as duas monarquias (o sultanato e o emirato) eram ambas protectorados britânicos e, por outro lado, detrás das ambições sauditas não era difícil identificarem-se os interesses da Aramco.
A Aramco era a empresa responsável pela exploração do petróleo da Arábia Saudita. Era um consórcio de algumas das grandes petrolíferas norte-americanas, as Standard Oil da Califórnia, de Nova Jersey (veio a ser a Exxon) e de Nova Iorque (tornou-se depois na Mobil) associadas à Texaco. A área reivindicada era mais importante que o oásis porque se localizava numa zona muito prometedora (veja-se abaixo) quanto à existência dos maiores e mais rentáveis campos petrolíferos do Médio Oriente. A Arábia Saudita já era uma produtora de petróleo desde 1939 mas os britânicos, talvez por serem ainda plenamente abastecidos pelo petróleo iraniano não viam razões para dinamizar a sua prospecção noutros locais da região que tutelavam. Posteriormente na região disputada também se vieram a descobrir jazidas de petróleo.
A manobra saudita, patrocinada pela Aramco, começou por fazer-se sentir no terreno através de uma incursão de um emir saudita acompanhado de uma escolta oficiosa que atenuava a formalidade da invasão e que se instalou numa das três aldeias do oásis em 1952. Em vez de resolver o problema da forma tradicional, correndo os intrusos a tiro, os britânicos persuadiram os dois monarcas afectados (o sultão de Omã e o emir do Abu Dhabi) a resolverem a disputa de forma civilizada, levando-a à avaliação de um tribunal arbitral. Mas os próprios britânicos perderam a paciência quando os opulentos sauditas atrapalharam as negociações formais com tentativas pouco discretas de subornar juízes e intervenientes da parte contrária.
Em 1955, o Reino Unido deu a sua cobertura a uma operação militar conjunta de omanitas e de soldados ao serviço do Abu Dhabi, enquadrada por oficiais britânicos que culminou com a expulsão dos sauditas. A então recém-formada unidade militar do Abu Dhabi tornou-se a antecessora das actuais forças armadas dos Emiratos. A atitude britânica provocou uma certa azia do outro lado do Atlântico e o assunto tornou a ser várias vezes ventilado, especialmente quando as relações entre os dois países anglo-saxónicos atingiram um nadir por causa da Crise do Suez de 1956, mas a disputa não voltou a ter grande visibilidade até à sua resolução em 1974, já depois das independências dos Emiratos Árabes e de Omã (1971), através da assinatura de um Tratado de Fronteiras. Um livro a sair proximamente poderá acrescentar alguns pormenores importantes a esta história.
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15 fevereiro 2013
EMIRADOS DO GOLFO PÉRSICO – OS MILAGRES DA DESSALINIZAÇÃO
Quando Christian Godard (1932- ), o desenhador de Martin Milan, concebeu originalmente a aventura O Emir dos Sete Beduínos, na qual o seu herói visitava um imaginário (e riquíssimo) emirado de Kahk-Haweit, estava-se em 1971 e alguns dos emirados que lhe poderiam ter…
…servido de inspiração (como o Abu Dhabi, o Bahrein, o Dubai, ou o Qatar), tinham acabado de se tornar independentes. A riqueza em Kahk-Haweit é excessiva, e Godard não se poupa a ironias para a realçar, a começar pelo Mercedes do varredor de ruas até à sobrelotação dos bancos…
O problema de tal paraíso seria a falta de água. A água que é rara, obtida industrialmente e que não presta. A associação dessa falta de água com a riqueza torna-se pretexto para mais algumas piadas com os chafarizes de Kahk-Haweit a dispensarem champanhe Moët & Chandon de 1952, a rega…
…agrícola a ser feita usando sumo de ananás e com os motores a serem refrigerados com vinho novo Beaujolais… Mas o humor da história aflorava um dos grandes problemas de sempre naquela região do Mundo: a falta de água potável, que fizera que a região fosse escassamente habitada.
Contudo, com as grandes (e eficazes...) unidades de dessalinização construídas com a prosperidade do petróleo ultrapassou-se finalmente o problema. Nos últimos 40 anos, a população do Bahrein multiplicou-se por 6 vezes, a do Qatar por 16 vezes, a do Abu Dhabi e do Dubai por 30!
Agora, não havendo falta de água, que esta tem qualidade e não sendo preciso sequer que sejam os varredores locais a varrer as ruas, o novo problema político é que os privilegiados de ascendência local já se tornaram numa pequena minoria estimada em apenas 20% da população residente…
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21 janeiro 2013
AS COLOSSAIS COMPANHIAS AÉREAS DOS PAÍSES DO GOLFO
É conhecido como nem sempre sabemos dar valor àquilo que conseguimos manter. Atendendo à evolução do transporte aéreo, a permanência da TAP como companhia aérea nacional revela-se uma proeza. Em países europeus da mesma dimensão populacional da nossa (com 10,6 milhões de habitantes), as companhias de bandeira equivalentes desapareceram. Aconteceu com nomes históricos do transporte aéreo como a Sabena da Bélgica (11,0 milhões) e a Swissair suíça (7,9 milhões) em 2001, a Olympic grega (10,8 milhões) em 2009 e a Málev húngara (9,9 milhões) o ano passado. Esse resultado será fruto das circunstâncias históricas, do facto de termos tido um império colonial e/ou de existir uma diáspora portuguesa espalhada pelo mundo (actualmente em vias de se renovar e reforçar…), mas certamente parte do mérito pertencerá também à gestão da empresa.
Mas o propósito da introdução acima é, mais do que chamar a atenção para méritos que não têm sido reconhecidos, fornecer simplificadamente uma referência de grandeza de dimensão de uma companhia aérea: a TAP, que poderemos considerar uma empresa média do sector, explora actualmente uma frota de 55 aparelhos e tem uma encomenda de mais 12 (o futuro Airbus A-350). A referência é importante para avaliar o propósito dos países do Golfo, que se tornaram independentes há pouco mais de 40 anos (1971), e que têm vindo a utilizar os seus petrodólares para investirem em negócios globais (de que a televisão Al-Jazeera é um excelente exemplo), nomeadamente no transporte aéreo. E os investimentos são faraónicos. Começando pela menor, a Gulf Air do Bahrein (1,2 milhões de habitantes) explora uma frota de 35 aeronaves além de mais 42 encomendadas.
A Etihad Airways está baseada em Abu Dhabi, a capital do emirado homónimo (com uma população de 2,0 milhões), uma das unidades federadas dos Emirados Árabes, e a sua frota actual é composta por 67 aparelhos com mais 96 encomendados. A Qatar Airways é a companhia de bandeira desse país (1,9 milhões), com uma frota dupla da da TAP (118 aviões), perspectivando um crescimento exponencial (179 encomendas). Mas a campeã do optimismo é mesmo a Emirates, sedeada no Dubai (2,1 milhões), outra unidade dos Emirados Árabes, que adquiriu 191 aviões e se comprometeu a vir a adquirir outros tantos (192). Em conjunto, trata-se de uma frota composta por 411 aeronaves com compromissos para a aquisição de mais 509 nos próximos anos e intriga pensar onde é que estas companhias irão desencantar os passageiros que rentabilizem tais investimentos…
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25 julho 2011
O XEQUE EXCÊNTRICO
Hamad bin Hamdan Al Nahyan tem 63 anos e é um xeque pertencente à família do emir do Abu Dhabi, um dos estados constituintes dos Emirados Árabes Unidos. O que o distingue dos seus numerosos parentes não é a sua riqueza, antes a excentricidade de como a despende: tem uma colecção com mais de 200 veículos, sendo muitos deles fabricados (e sobretudo pintados…) por medida, em lotes de sete, com as cores do arco-íris. Diga-se ainda que a colecção está disponível para ser visitada num Museu em Abu Dhabi…
Sendo um senhor feudal, Hamad herdou uma ilha, enorme, a ilha Futaisi com uma área de 5.000 hectares… de deserto. O Xeque Hamad, como se fosse um daqueles putos que gosta de construções na areia, mandou lá construir uma… em grande: um conjunto de canais de água salgada com cerca de 300 hectares que, na maré-cheia (acima), desenham o seu nome que assim se torna legível do espaço (abaixo). Sinal dos tempos e da globalização, Hamad preferiu que o seu nome aparecesse escrito no alfabeto latino, não no árabe…
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21 julho 2009
DUBAI
Com cerca de 4.000 km², o Dubai é a capital do segundo mais importante dos 7 emirados que compõem a federação dos Emirados Árabes Unidos, organização política constituída em 1971 expressamente para a independência do país. Por essa altura, o conjunto dos emirados continham uns 180.000 habitantes e a cidade principal, precisamente a do Dubai, uns 65.000. Hoje, a população estimada rondará os 4.800.000 habitantes, dos quais mais de 1.500.000 viverão no Dubai. Rivalizando com as Zonas Económicas Especiais da China, trata-se de uma das regiões de maior crescimento económico e demográfico do Mundo.
A SIC apresentou recentemente uma excelente reportagem centrada na vida de 8 emigrantes portugueses no Dubai que aconselho (acima - é um pouco extensa: 32m48s). Mas sendo o Dubai a face mais próspera, mais liberal e, portanto, a mais atractiva da civilização muçulmana moderna, não deixa de ser curioso o que se pode entrever por detrás do tema principal da reportagem (os portugueses), como é o caso do imigrante afegão que se mostra tão orgulhoso do seu país natal como desdenhoso do Dubai ou o regime concentracionário que é imposto aos trabalhadores da construção civil, maioritariamente de origem indo-paquistanesa.
Outros números explicam as razões dessa atitude defensiva e policial: no Dubai existem 3 homens para cada mulher e os cidadãos árabes de origem local constituem apenas 1/6 da população total. É por estes exemplos que se percebe como o Islão, mesmo o próspero e mais cosmopolita, parece ter muito pouco de atractivo que possa oferecer aos sonhos dos mais desafortunados dos seus crentes. Nesse aspecto, a sociedade ocidental, com todos os defeitos que lhe apontam, permanece imbatível naquele seu capital de atractividade. E é isso, que os intelectuais da Al-Qaeda, como outros antes dela(1), não lhe perdoam…
(1) Os das Brigadas Vermelhas italianas ou da Fracção do Exército Vermelho alemão, entre outros.
Outros números explicam as razões dessa atitude defensiva e policial: no Dubai existem 3 homens para cada mulher e os cidadãos árabes de origem local constituem apenas 1/6 da população total. É por estes exemplos que se percebe como o Islão, mesmo o próspero e mais cosmopolita, parece ter muito pouco de atractivo que possa oferecer aos sonhos dos mais desafortunados dos seus crentes. Nesse aspecto, a sociedade ocidental, com todos os defeitos que lhe apontam, permanece imbatível naquele seu capital de atractividade. E é isso, que os intelectuais da Al-Qaeda, como outros antes dela(1), não lhe perdoam…(1) Os das Brigadas Vermelhas italianas ou da Fracção do Exército Vermelho alemão, entre outros.
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03 janeiro 2007
Emirados Árabes Unidos: "And now for something completely different..."
Um dos sintomas inequívocos de estatuto alcança-se quando se podem escrever ou dizer textos herméticos de carácter quase oracular e há sempre alguém que os leva a sério. É verdade que, no caso de que quero falar, embora Pedro Arroja já tenha adquirido esse estatuto, continua a ser um dos – designados por - adiantados mentais da nossa praça que continua a gerar mais controvérsia.
Ora se há coisa que mais me aborrece é um certo estilo argumentativo de alguns contribuintes do Blasfémias – e a medalha de ouro artística desse estilo nem a atribuo a Pedro Arroja mas ao seu discípulo João Miranda – onde se justapõem assuntos não correlacionados, acompanhados de uma espécie de piscar de olho cúmplice aos inteligentes (do costume) que compreenderam de imediato a associação feita e o que correctamente se deveria concluir do oráculo.
Numa versão recente, Pedro Arroja deu em citar passagens com referências de cariz religioso – a que dá destaque no título do poste - de Constituições ou de Documentos Fundamentais de países seleccionados, como são os casos da Suíça e do Canadá, a que se segue uma pequena referência elogiosa ao país, à sua estrutura federal, ao seu desenvolvimento económico, ao ambiente cosmopolita e mesmo uma citação extremamente elogiosa de Friedrich Hayek a respeito da Suíça.
Não me contando entre os iluminados que conseguem antecipar o pensamento do mestre e apenas desconfiando do nexo causal que estes postes de Pedro Arroja pretendem sugerir, permitam-me adicionar um exemplo de um outro país que se parece enquadrar perfeitamente nos anteriormente mencionados por ele. Começaria assim, esse poste:
“For all these reasons and until the preparation of the permanent Constitution for the Union may be completed, we proclaim before the Supreme and Omnipotent Creator, and before all the peoples, our agreement to this provisional Constitution, to which our signatures were appended, which shall be implemented during the transitional period indicated in it; May Allah, our Protector and Defender, grant us success.” (Preâmbulo da Constituição dos Emirados Árabes Unidos)
Trata-se de um pequeno país do Golfo Pérsico, quase com as dimensões de Portugal e um pouco menos de metade da sua população. É um Estado Federal composto por sete emirados (daí o seu nome), independente desde 1971 (data desta Constituição) e um dos países mais ricos do mundo – o 4º à escala mundial, quando se considera o rendimento per capita, adiante do Canadá (16º) e da Suíça (18º) e com uma população extremamente diversificada: 80% dela é de origem estrangeira. Lamentavelmente, não encontrei nenhuma referência ao que Hayek* pudesse pensar dos Emiratos Árabes Unidos…
Agora mais a sério, comparem-se as inanidades escritas no parágrafo anterior com as simplificações originais, escritas por Arroja a respeito tanto da Suíça como do Canadá no seu blogue e especule-se que implicações se poderão retirar da associação entre a prosperidade económica de um determinado país, a sua estrutura federal e as referências religiosas que possa conter na sua Constituição. Poderá adicionar-se a coincidência das cores das respectivas bandeiras nacionais? É que a Suíça, o Canadá e os Emirados compartilham as cores vermelha e branca nas suas bandeiras... Ou então para isso não haverá qualquer relação… Mas então porque começa Arroja os postes precisamente pelo destaque às invocações a Deus? Ou será que os Emirados estarão excluídos porque é apenas o Deus cristão que traz a prosperidade?
Voltando à seriedade que este assunto merece - e tê-la-ei demonstrado mimetizando o tipo de descrição e análise produzida por Arroja, mas num país que não presta para as suas teorias - e como disseram a Astérix, quando ele foi à Córsega e lhe explicaram as razões da zanga ancestral entre os clãs de Ocatarinetabellatchitchix e de Figatellix, mas agora referindo-me às respostas possiveis às perguntas acima colocadas: de qualquer modo é grave…
Ora se há coisa que mais me aborrece é um certo estilo argumentativo de alguns contribuintes do Blasfémias – e a medalha de ouro artística desse estilo nem a atribuo a Pedro Arroja mas ao seu discípulo João Miranda – onde se justapõem assuntos não correlacionados, acompanhados de uma espécie de piscar de olho cúmplice aos inteligentes (do costume) que compreenderam de imediato a associação feita e o que correctamente se deveria concluir do oráculo.
Numa versão recente, Pedro Arroja deu em citar passagens com referências de cariz religioso – a que dá destaque no título do poste - de Constituições ou de Documentos Fundamentais de países seleccionados, como são os casos da Suíça e do Canadá, a que se segue uma pequena referência elogiosa ao país, à sua estrutura federal, ao seu desenvolvimento económico, ao ambiente cosmopolita e mesmo uma citação extremamente elogiosa de Friedrich Hayek a respeito da Suíça.
Não me contando entre os iluminados que conseguem antecipar o pensamento do mestre e apenas desconfiando do nexo causal que estes postes de Pedro Arroja pretendem sugerir, permitam-me adicionar um exemplo de um outro país que se parece enquadrar perfeitamente nos anteriormente mencionados por ele. Começaria assim, esse poste:
“For all these reasons and until the preparation of the permanent Constitution for the Union may be completed, we proclaim before the Supreme and Omnipotent Creator, and before all the peoples, our agreement to this provisional Constitution, to which our signatures were appended, which shall be implemented during the transitional period indicated in it; May Allah, our Protector and Defender, grant us success.” (Preâmbulo da Constituição dos Emirados Árabes Unidos)
Trata-se de um pequeno país do Golfo Pérsico, quase com as dimensões de Portugal e um pouco menos de metade da sua população. É um Estado Federal composto por sete emirados (daí o seu nome), independente desde 1971 (data desta Constituição) e um dos países mais ricos do mundo – o 4º à escala mundial, quando se considera o rendimento per capita, adiante do Canadá (16º) e da Suíça (18º) e com uma população extremamente diversificada: 80% dela é de origem estrangeira. Lamentavelmente, não encontrei nenhuma referência ao que Hayek* pudesse pensar dos Emiratos Árabes Unidos…
Agora mais a sério, comparem-se as inanidades escritas no parágrafo anterior com as simplificações originais, escritas por Arroja a respeito tanto da Suíça como do Canadá no seu blogue e especule-se que implicações se poderão retirar da associação entre a prosperidade económica de um determinado país, a sua estrutura federal e as referências religiosas que possa conter na sua Constituição. Poderá adicionar-se a coincidência das cores das respectivas bandeiras nacionais? É que a Suíça, o Canadá e os Emirados compartilham as cores vermelha e branca nas suas bandeiras... Ou então para isso não haverá qualquer relação… Mas então porque começa Arroja os postes precisamente pelo destaque às invocações a Deus? Ou será que os Emirados estarão excluídos porque é apenas o Deus cristão que traz a prosperidade?
Voltando à seriedade que este assunto merece - e tê-la-ei demonstrado mimetizando o tipo de descrição e análise produzida por Arroja, mas num país que não presta para as suas teorias - e como disseram a Astérix, quando ele foi à Córsega e lhe explicaram as razões da zanga ancestral entre os clãs de Ocatarinetabellatchitchix e de Figatellix, mas agora referindo-me às respostas possiveis às perguntas acima colocadas: de qualquer modo é grave…
* Nem qualquer outro economista da escola liberal. E é conhecido que Pedro Arroja raramente se socorre de economistas de outras escolas...
Adenda de 4 Janeiro: É de toda a justiça destacar que houve, entre os próprios colegas de blogue de Pedro Arroja, quem o tivesse acompanhado na ideia de inserir postes com referências às evocações religiosas em preâmbulos de Constituições, à semelhança do que aqui fiz. Há-as de todas as origens: Brasil, Irlanda, Irão e... Portugal (que não tem nenhuma referência religiosa). Ou então outras curiosidades, como a constatação que a palavra Deus não aparece nenhuma vez no corpo da Constituição norte-americana.
Perante este quadro, que apelida de uma certa expectativa e agitação, Pedro Arroja resolveu não apresentar hoje uma tese que ele afirma julgar verdadeira e de certo modo original sobre a relação entre religiosidade e Estado de direito. Diz ele que fica a aguardar por mais serenidade. E toda a gente compreende porque conhece a flutuabilidade do valor intrínseco das teses em função do meio ambiente da sua apresentação inicial... Mas, para não defraudar as expectativas, deixa outra para a troca...
Por detrás de um recuo com tanto estilo na atitude de Arroja, haverá decerto mentes menos caridosas que poderão aventar a hipótese de que a inserção de todos aqueles postes terá desfeito em estilhas a tal sua tese que ele julga verdadeira e de certo modo original, por, imprudentemente, a ter feito assentar apenas nos exemplos que lhe conviria mencionar, porque concordantes com a tal tese. Ou seja, se se tiver verificado essa hipótese, o trabalho de casa de Arroja não estava assim lá muito bem feito...
Vale a pena terminar este assunto fazendo agora eu a minha evocação religiosa: Abençoada Democracia e abençoado pluralismo de ideias!
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21 agosto 2006
OS ÁRABES RICOS
As histórias das arábias referiam-se, nos tempos antigos, à prosperidade das grandes metrópoles do Islão como são os casos de Damasco, de Bagdade ou do Cairo. A partir do século XX essas histórias das arábias mudaram de local e de protagonistas, quer para os árabes nómadas da península Arábica, quer para os pescadores do litoral norte da península, que antes retiravam a sua subsistência da pesca no golfo Pérsico.Ao contrário de outros países onde houve lugar à descoberta de importantes jazidas de petróleo, mas onde a população era (e é) numerosa (como o Irão ou o Iraque), os países da península eram todos escassamente povoados (ainda hoje a densidade populacional média é sete vezes inferior à portuguesa) e os benefícios dos rendimentos do petróleo tiveram um impacto profundo na população local.
Há o aspecto anedótico das esposas do Emir do Koweit que, tendo alugado um Boeing 747 para ir fazer compras a Paris, regressaram em dois, pois precisaram de um avião suplementar para trazer as compras… Mas há também o aspecto (único no mundo) da cidade do Dubai nos Emirados Árabes, com uma população de 850.000 pessoas, ter como fonte exclusiva de água potável, a água do mar dessalinizada.
O conjunto dos países da península (com excepção do Yemen, que tem muita gente, não tem petróleo e é uma republica…) agrupou-se em 1981 numa espécie de clube selecto de seis países monárquicos chamado Conselho de Cooperação para os Países Árabes do Golfo. Compõem-no a Arábia Saudita, Omã, o Kuweit, o Bahrain, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos, uma federação de 7 emirados. A bandeira da organização ornamenta este post.
Em conjunto, o PIB dos seis países da organização equivalerá sensivelmente ao do Irão, para cerca de metade da população, e tanto a produção petrolífera como o nível de reservas actuais do conjunto corresponderá ao quádruplo dos do seu grande vizinho do norte. Mas o clube – cujo membro dominante é evidentemente a Arábia Saudita (75% da população total) – também tem as suas ameaças.
Há membros que já estão a esgotar as suas reservas de petróleo. É o caso do Bahrain. Embora ainda continue por mais algum tempo (cerca de 10 anos) a extracção de gás natural e tenha havido uma diversificação da economia antevendo o esgotamento dessas fontes de rendimento é sempre arriscado prever as consequências económicas e sociais do fim destes ciclos de prosperidade.
Seguir-se-á Oman, dentro de 20 a 25 anos. E depois será a vez do Qatar. Mas aquele problema que consideramos principal, e que poderá constituir uma verdadeira ameaça para o bem-estar dos árabes ricos está no presente das sociedades dos vários países da organização: cerca de 40% de toda população (36,7 milhões em Julho de 2006, segundo os dados da CIA) é composta por imigrantes.
Os imigrantes são um conjunto bastante heterogéneo. Há uma apreciável quantidade composta por imigrantes sazonais sozinhos (nos Emirados Árabes há três homens para cada mulher adulta) que são fortemente dissuadidos de ali procurarem estabelecer residência definitiva (as políticas poderão variar de país para país e conforme a naturalidade do imigrante mas estamos a falar do padrão dominante).
Quanto à origem dos imigrantes, há que considerar em primeiro lugar, o conjunto de quadros norte-americanos, europeus e japoneses (certamente virá a haver chineses no futuro…) que estão encarregues de supervisionar na origem os processos de extracção do petróleo que os seus países precisam. São poucos e a esmagadora maioria não faz tenção de ficar, por isso não inquietam as autoridades.
Depois, há que considerar a imigração árabe qualificada (nomeadamente egípcia, libanesa e também palestiniana) que, aparentemente é fácil de integrar, mas pode ser potencialmente perigosa, por estar habituada a níveis superiores de intervenção política, estranhos às sociedades locais. Uma boa fracção dos intervenientes nos atentados de 11 de Setembro, discípulos de bin Laden, pertencia a este grupo.
A ocupação dos postos de quadros médios e inferiores e de trabalho não qualificado tem sido disputada entre oriundos dos países árabes e de países asiáticos. A vantagem sociológica da contratação dos primeiros parece ser compensada com a vantagem económica de recorrer aos segundos. Mesmo assim é nítido que a preferência vai para imigrantes oriundos de países muçulmanos da Ásia como o Paquistão, a Indonésia ou o Bangladesh.
Mesmo assim, estas sociedades prósperas do petróleo devem-se contar entre as mais cosmopolitas da actualidade, onde aos países já mencionados, há que adicionar ainda naturais da Índia, das Filipinas, do Sri Lanka ou do Irão, para não falar dos países árabes adjacentes como o Iraque, Yemen, Síria ou Jordânia, a fazer lembrar a diversidade tradicional dos Estados Unidos e a menos tradicional da Europa.
Por não terem a atenção mediática e por não existirem as liberdades políticas do Ocidente, nomeadamente a de expressão, não se pense que tudo esteja bem nos países árabes ricos. A técnica de impedir os imigrantes indesejados de se fixarem já teve os fracassos suficientes – na Alemanha, com os Gastarbeiter*, ou na África do Sul, com os bantustões** – para se perceber que não tem sucesso a longo prazo.
Outro dia, penso que terá Vasco Pulido Valente a perguntar porque razão no Ocidente não se leva a sério a ameaça do terrorismo islâmico com a mesma seriedade com que outrora se levou a do comunismo, durante a guerra-fria. Arrisco a resposta que talvez a sociedade ideal de bin Laden, não sendo deste mundo, não seja suficientemente tangível para que as pessoas a levem a sério, como acontecia com a União Soviética.
Mas o Islão teve e está a ter, com o exemplo destes países, uma oportunidade de mostrar as sociedades que a sua civilização pode criar, quando provida (!) de recursos. Suspeito que essa sociedade, quando vista da perspectiva de – por exemplo – um paquistanês emigrado em Riade, é capaz de não lhe deve parecer assim tão mais atractiva – ideologias à parte – do que parecerá a um seu compatriota a sociedade de Londres.
É questão de nos perguntarmos se os países árabes ricos também não correm o risco de vir a ter, à sua maneira, o seu choque de civilizações…
* Traduzida literalmente, a expressão quer dizer trabalhador convidado. Convidado porque não se destinava a ficar na Alemanha para sempre, bem entendido...
** Os bantustões eram países artificiais criados pelo regime sul-africano de supremacia branca. A maioria dos trabalhadores eram nacionais desses países hipotéticos e podiam ser expulsos da África do Sul para o seu país em caso de conveniência...
NOTA: Os dados numéricos foram retirados do CIA Factbook.
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21 março 2006
SALAAM ALEIKUM*
Esta saudação em árabe destina-se a um verdadeiro tiro no pé em termos de relações internacionais dado recentemente pelos norte-americanos. E – surpresa! – deste tiro o presidente George W. Bush até nem tem culpa nenhuma.Já está encerrado o episódio da aquisição de uma empresa britânica de tráfego portuário por parte de uma empresa dos Emirados Árabes Unidos. Alguns dos portos sobre os quais a empresa britânica tinha a concessão ficavam nos Estados Unidos. As chatices levantadas pelos americanos foram tantas que os árabes acabaram por vender essa divisão da empresa.
Os defensores do liberalismo e da globalização nos Estados Unidos (que são muitos) têm pela frente mais um episódio de contorcionismo argumentativo para explicarem porque é que as vantagens da liberdade de comprar e vender nem sempre se aplicam, sobretudo quando os bens adquiridos são norte-americanos.
Mas este episódio transborda das argumentações sobre ideologia económica para as das diferenças religiosas, culturais e civilizacionais. Se, pela definição americana da Guerra ao Terrorismo, estes árabes que compraram a empresa são dos bons, e mesmo assim não há confiança neles para que fiquem com a gestão dos portos, qual é a diferença, na prática, entre um árabe bom e um árabe mau?
* Saudação árabe: a paz esteja contigo.
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Economia,
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