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25 junho 2024

«CAPITÃO DE ABRIL, CONSTRUTOR DA DEMOCRACIA, COMBATENTE PELA PAZ»... MAS TAMBÉM "DESTRUIDOR" DO REGIME NOVEMBRISTA

25 de Junho de 1984. Por ocasião da realização do 2º Congresso Regional da UDP no Machico (Madeira), o dirigente nacional Mário Tomé destacava-se pelo tom inflamado e radical do seu discurso opinando que a única saída para a situação política económica e social de então seria «a destruição daquele regime reaccionário novembrista» (referência ao 25 de Novembro de 1975). A solução seria a instauração em Portugal da «República Popular», única que «permitiria ao povo a mais ampla liberdade para se organizar e lutar». Também se mostrava contra a presença de Portugal na NATO e contra o FMI, já que, segundo ele, «o povo português não devia nada a ninguém e era, isso sim, vítima há muitos e muitos anos da roubalheira e das negociatas dos burgueses com os estrangeiros». Enfim, trata-se de um conteúdo capaz de ombrear em despropósito e disparate com aquelas coisas que agora se ouvem a André Ventura. O folclore da asneira transferiu-se da extrema esquerda para a extrema direita nestes quarenta anos. E, no entanto, ainda aqui há cinco anos, os do Bloco de Esquerda (Catarina Martins) iam recuperar este mesmo disparatado Mário Tomé, numa manobra de lhe conferir estatuto de veneranda figura, branqueando-lhe estes discursos do passado e dando-lhe epítetos bonitos - capitão de Abril, construtor da democracia, combatente pela Paz - num gesto de amnésia que teve tanto de ridículo, quanto de despropositado. Nunca esqueçamos que a grande virtude da Democracia é aceitar todos estes cretinos - e classificá-los pelo que eles são: cretinos.

01 junho 2024

«ONCE UPON A TIME IN AMERICA»

1 de Junho de 1984. O filme «Once Upon a Time in America» (veio a receber o título em português «Era uma vez na América») era estreado nos Estados Unidos em 894 cinemas simultaneamente. Era um filme realizado por Sergio Leone, protagonizado por Robert de Niro e James Woods e com música composta por Ennio Morricone. Mas tratava-se de uma versão fortemente editada (reduzida, durava um pouco menos de 2 horas e meia) do (extenssíssimo: seis horas!) filme original de Leone e as críticas que se podiam ler a respeito não eram particularmente simpáticas para a versão exibida além-Atlântico (acima, a do New York Times). Por contraste, uma outra versão mais extensa (mesmo assim, apenas quase quatro horas!) havia sido estreada no Festival de Cinema de Cannes e recebera uma ovação inesgotável de quase 20 minutos após a exibição (alegadamente ouvida pelos clientes dos restaurantes do outro lado da rua do Palais). De toda a maneira, esta versão adaptada para o mercado norte-americano - uma adaptação para a qual Leone não contribuíra - facturou uns míseros US$ 2,4 milhões durante este seu fim de semana de estreia de há 40 anos, e as receitas totais de bilheteira pouco excederam os US$ 5,3 milhões, quando o filme tivera um orçamento de US$ 30 milhões. Pela versão norte-americana de avaliar os filmes, o filme tornar-se-á um fiasco total. Mas o filme que os norte-americanos haviam visto fora uma versão preparada para eles: as histórias não podem ser muito complexas nem demasiado extensas; um dos aspectos mais criticados acima pelo autor da crítica são as analepses e a narrativa não linear do filme. O tempo e o acesso a versões mais elaboradas de Once Upon a Time in America parecem ter reconciliado os cinéfilos americanos com esta última obra de Sergio Leone. Para mim, e talvez paradoxalmente, a querer destacar algum aspecto do filme, esta música abaixo de Ennio Morricone (Cockeye Song) e o efeito que se extrai da sonoridade muito própria da flauta de pã.

31 maio 2024

MARCELO E O SEU «GANGUE»

A notícia é de 31 de Maio de 1984. E serve para espevitar aqueles que agora se atrevam a condoer com Marcelo e com a insistência das perguntas que insistentemente lhe colocaram a respeito dos esclarecimentos sobre o episódio das gémeas vindas do Brasil, das cunhas que o filho meteu por elas e da sua associação com tudo aquilo. A que ele, sempre disponível para falar acerca de tudo, não respondeu directamente, nem sequer plantou respostas por detrás, como por vezes costuma fazer. Para aqueles que têm falta de memória, há que lembrar os que preferiam "interpelar frontalmente e com todas as letras», para agora vermos aplicado o mesmo princípio à presidência da República, mormente ao seu próprio titular, Marcelo Rebelo de Sousa. Aquilo que lhe temos ouvido é escasso e, para recuperar a expressão de há quarenta anos, está repleto de «falhas, omissões e erros» a que ele não tem dado explicações. Nesta versão que ele pôs a correr, o seu filho conseguiu mobilizar todo um circuito de cunhas com o seu total desconhecimento e mesmo à sua revelia. Deixo uma pergunta matreira, à Marcelo: um presidente pode ser assim tão impotente a controlar os desmandos dos seus familiares?...

13 maio 2024

O DESASTRE «DESCONHECIDO» DE SEVEROMORSK

13 de Maio de 1984. Eclode um violento incêndio num dos armazéns da frota soviética do Mar do Norte situado na cidade portuária de Severomorsk (assinalada acima no mapa). O incêndio acaba por não poder ser controlado e, quatro dias depois, atinge os paióis de munições e armamento da frota, incluindo centenas de mísseis armazenados, do tipo SA-1 e SA-3 (mísseis anti-aéreos) e SS-N-22 (anti-navais). As explosões provocaram o pânico entre a população da cidade (apesar de se tratar de uma área militar de acesso restrito) e as notícias de que algo de grave ali acontecera atingiram Moscovo e os ouvidos dos correspondentes estrangeiros na capital soviética. Aquilo a que acima podemos assistir é o esforço noticioso dos jornais ocidentais (no caso acima, o New York Times, mais de um mês depois), alimentado por informação soprada em surdina pelos serviços de informação dos países da NATO, mas que embatiam nos serviços de imprensa soviéticos que, mesmo que confrontados com os indícios mais evidentes, não mostravam qualquer pudor em mentir da forma mais descarada: não sabiam de nada. Aliás, esta foi ainda a atitude inicial das autoridades soviéticas aquando da catástrofe de Chernobil, dois anos depois: nada acontecera...

08 maio 2024

O ANÚNCIO DO BOICOTE SOVIÉTICO AOS JOGOS OLÍMPICOS DE LOS ANGELES

8 de Maio de 1984. O Comité Olímpico Soviético anúncia que que o seu país não se faria representar nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, programados para arrancarem em 28 de Julho, dali por treze semanas. A notícia era acompanhada de outra, a disposição da Polónia em seguir o exemplo soviético. Até à data do início dos jogos, treze outros países da esfera de influência soviética aderiram ao boicote, num total de quinze países. Mas, ao contrário do que a notícia acima titula, dificilmente se poderia considerar a atitude dos soviéticos uma "bomba". Era apenas a retaliação - esperada - pelo boicote que, por sua vez, os Estados Unidos haviam promovido aos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980, que (des)mobilizara cerca de sessenta países. Por essa contagem, no final os Estados Unidos venceriam a União Soviética. Mas no que diz respeito à capacidade de cada um deles ter estragado a festa desportiva do outro, o resultado ter-se-á saldado por um empate.

02 maio 2024

A ASSINATURA DO ACORDO TRIPARTIDO SOBRE CAHORA BASSA

2 de Maio de 1984. Cerimónia de assinatura de um acordo tripartido entre a África do Sul , Moçambique e Portugal sobre as condições de fornecimento da energia eléctrica produzida pela barragem portuguesa e edificada em Moçambique, ao cliente sul-africano. A cerimónia tem lugar na cidade do Cabo, na África do Sul, dando expressão à importância suplementar da parte sul-africana. o único consumidor regional capaz de absorver os níveis de produção gerados pela barragem. Para além disso, África do Sul e Moçambique estavam em conflito surdo. As possibilidades de que o acordo frutificasse eram escassas. Mas isso a notícia não se atrevia a dizer.

22 março 2024

A CAUSA DA IRRITAÇÃO DE DANIELLE MITTERRAND

(Republicação)
22 de Março de 1984. Os Reagan recebem os Mitterrand para um jantar de cerimónia na Casa Branca por ocasião da visita do presidente francês aos Estados Unidos. Na fotografia protocolar que precede o acontecimento destaca-se a expressão amarrada de Danielle Mitterrand, cuja explicação só se virá a saber tempos depois e pelos circuitos informais, que, entre os oficiais, o assunto acabou sendo abafado, por conveniência mútua das partes envolvidas. Durante a estadia do casal presidencial francês em Washington D.C., o protocolo local havia arranjado uma agenda paralela para Danielle Mitterrand. Nessa programação, incluía-se um Museu ou uma outra instituição qualquer da cidade que estava estabelecida num edifício que era provido de dispositivos de segurança à porta envolvendo detectores de metais. A convidada - ou alguém por ela - explicou aos anfitriões que, por usar um equipamento de regulação cardíaca, não se devia submeter ao detector. Os anfitriões, num gesto compreensivo mas, ao mesmo tempo, bem republicano no seu igualitarismo, propuseram à visitante que, alternativamente, se deixasse revistar por uma agente feminina. E é aqui que, a tomar por boas as crónicas do incidente depois narradas, Danielle Mitterrand terá perdido alguma parte da razão, recusando a revista e fazendo finca pé no seu estatuto de convidada. Não houve visita, o programa foi cancelado, o desagrado de Madame Mitterrand ficara notado e o incidente diplomático fora registado. Rezam as crónicas que o protocolo americano aceitou os protestos da comitiva francesa... e não fez nada. Era óbvio que os americanos conheciam o estatuto de fachada do casal presidencial francês, adivinhavam a irrelevância do que os ferimentos no amor próprio de Danielle podia ter nas decisões do marido e, como se se tratasse de um bom jogo de poker, no staff da Casa Branca dispuseram-se a pagar para ver se o bluff do protesto francês era para levar a sério. Não foi levado a sério. Tudo o resto que a França desejava com aquela visita era mais sério do que uma primeira dama demasiado ciosa das suas prerrogativas. E, para voltar à fotografia acima, era essa constatação cruel e despeitada da sua insignificância que explica a expressão de Danielle Mitterrand, nesta foto com precisamente 40 anos.

16 março 2024

O ACORDO DE NKOMATI

(Republicação)
O Acordo de Nkomati foi assinado em 16 de Março de 1984 entre os mais altos representantes da África do Sul e de Moçambique, respectivamente, o então Primeiro-Ministro P.W. Botha e o Presidente Samora Machel. As duas partes signatárias comprometiam-se a não apoiar os movimentos oposicionistas da outra parte, a saber, Moçambique deixaria de apoiar moral e logisticamente o ANC, enquanto a África do Sul deixá-lo-ia de fazer, material, moral e logisticamente à Renamo. O Acordo ia permanecer letra morta, mas isso ainda não se sabia na altura da cerimónia, quando estas fotografias foram tiradas.
O Acordo representava uma grande vitória diplomática da África do Sul, pela brecha que conseguira criar no ostracismo a que o regime do apartheid havia sido remetido por todos os seus vizinhos africanos. Do outro lado, também Samora Machel provocara uma ruptura no campo ideológico a que pertencia em favor do pragmatismo. Mas, mesmo isso, não impediu que a poderosa máquina comunicacional sul-africana se mostrasse implacável na forma sacana como tratou os novos amigos, observe-se cuidadosamente o instantâneo abaixo que acabou por se tornar numa espécie de fotografia oficial da reunião.
Em primeiro plano e do lado esquerdo aparecem o Ministro dos Negócios Estrangeiros sul-africano Roelof Pik Botha e P.W. Botha, ambos de condecoração ao pescoço(*), o segundo de chapéu clássico na cabeça que lhe dá um aspecto distinto. No outro extremo, está o Ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano, Joaquim Chissano, também com uma condecoração ao peito, só que esta não deveria ser a recíproca sul-africana (**). Mas a figura dominante do instantâneo é mesmo Samora Machel, olhando de uma forma deslumbrada para cima.

(*) Sendo as duas condecorações idênticas e não se vendo outras é muito provável que se tratem de condecorações moçambicanas acabadas de entregar por Samora Machel aos dois.
(**) A condecoração tem um design de inspiração russa/soviética, também muito usado pelos países desse bloco, mas jamais pelos países do outro, como era o caso da África do Sul.

29 fevereiro 2024

NÃO APAGUEM A MEMÓRIA! - 3

29 de Fevereiro de 1984. Para além das vítimas do fascismo, convém sacudir a memória às organizações que se reclamam da Memória recordando que houve, também depois do 25 de Abril, outras vítimas do terrorismo. Neste caso concreto de há precisamente quarenta anos, o terrorismo era de extrema-esquerda e a vítima até era um militante comunista!... E é uma vergonha que se perpetua até hoje acompanhar o comportamentos mais do que equívocos da organizações comunistas, produzindo comunicados que são descarados exercícios de equilibrismo na corda bamba. Daquilo que nos é dado a ler no artigo, o comunicado do PCP evita cuidadosamente condenar o atentado, enquanto o da CGTP condena-o, mas diz que os terroristas são... de extrema direita (querem ver que o Otelo era de extrema direita?...). Entretanto, a memória do sindicalista e militante assassinado é que era trucidada por causa dos imperativos da necessidade - da mentira - política. Não apaguem a memória que os comunistas faziam isto à memória dos seus próprios militantes!

10 fevereiro 2024

MEIA PRIMEIRA PÁGINA PARA NOTICIAR A MORTE DE UM LÍDER RUSSO

10 de Fevereiro de 1984. Estou ciente que os leitores fiéis deste blogue não ficarão surpreendidos com a morte de Yuri Andropov. Mas o que há a destacar nesta data é o destaque noticioso que foi concedido pelo Diário de Lisboa ao acontecimento: metade de toda a primeira página! O mesmo jornal tinha dedicado uma cobertura idêntica à morte de Salazar em 1970 (veja-se abaixo), mas, que diabo!, por muito que se comprovassem as simpatias comunistas da publicação depois de 1974 e mesmo a adesão incondicional ao internacionalismo proletário dos quadros que trabalhavam naquele jornal*, o falecido era russo e ocupava aquele cargo há menos de dois anos! Valeria o mesmo destaque noticioso do que aquele que recebera o Botas?...
* Havia uma disputa séria entre o vespertino Diário de Lisboa e o matutino O Diário para ver qual dos dois manifestava uma ortodoxia marxista-leninista mais rigorosa. Creio que nesse aspecto estrito da ortodoxia O Diário ganhou. Mas também creio que terá sido por essa fidelidade que esse jornal foi à falência primeiro do que o Diário de Lisboa.

30 janeiro 2024

OS ASSUNTOS, TAL QUAL ELES SÃO, EM CONTRASTE COM A MANEIRA COMO NOS QUEREM CONTAR

30 de Janeiro de 1984. O Diário de Lisboa publica, via AFP, um artigo de opinião de um jovem (27 anos) sociólogo francês chamado Didier Lapeyronnie sobre a questão do sigilo bancário suíço (note-se que os dados que aqui forneço sobre a identidade do autor do artigo não eram então facultados ao leitor do jornal). Sobre o conteúdo do artigo, mesmo uma leitura menos atenta mostra quanto ele é inequívoco na condenação das práticas da banca suíça. Mas o próprio artigo acaba dando uma esperança contra tais práticas condenáveis, porque quase quatro meses depois, a 20 de Maio, «os eleitores helvéticos (iriam) ser chamados às urnas para se pronunciarem, por via de referendo sobre uma iniciativa socialista "contra o abuso do segredo bancário"». A impressão geral que se extraía do artigo - pelo menos, foi o que aconteceu comigo - é que os suíços teriam então uma oportunidade de se exprimir contra uma prática duvidosa, senão mesmo condenável, de proteger a identidade de depositantes que ali escondiam fortunas de origens inconfessáveis. Esta era a opinião de Didier Lapeyronnie com este seu artigo de há 40 anos, avalizado pela France Press. E depois... houve quem não se tivesse esquecido do assunto, e tivesse ficado atento aos resultados do referendo (abaixo). Numa proporção de quase 3 para 1, os suíços que se pronunciaram manifestaram-se a favor da manutenção do sigilo bancário. E foi assim que eu descobri que monsieur Lapeyronnie não estava afinal nada sintonizado com a opinião generalizada dos próprios suíços... Achava coisas. Era aquele tempo em que eu dava muita valia à opinião que vinha do estrangeiro, por vir do estrangeiro.

27 janeiro 2024

A ESTREIA DE «FELIZ NATAL MR. LAWRENCE»

27 de Janeiro de 1984. Estreia de «Feliz Natal Mr. Lawrence». Que, por um acaso, assisti nessa noite no cinema Castil. Filme que, correndo o risco de me repetir, termina com uma cena memorável de interpretação (abaixo) por parte de dois actores - um britânico, outro japonês. Actores esse que, por sinal, nem sequer são os protagonistas do filme.

19 janeiro 2024

AS CONDECORAÇÕES DE ÁLVARO CUNHAL, O CAMARADA QUE «FAZIA CERIMÓNIA» SÓ COM OS ESTRANGEIROS

Álvaro Cunhal (1913-2005), o mais destacado dirigente comunista português do século XX, sempre se mostrou extremamente avesso a receber condecorações. Pelo menos em Portugal. Sempre que foi sondado com tal propósito, a sua resposta foi invariavelmente negativa. Tão conhecida se tornou essa sua aversão que, quando Cunhal faleceu em 2005, nem se equacionou sequer a hipótese de que o então presidente, Jorge Sampaio, o condecorasse a título póstumo, como muitas vezes acontece nestes casos. Este preâmbulo torna-se indispensável para que o leitor perceba melhor o anacronismo irónico em que consiste a notícia acima, publicada a 19 de Janeiro de 1984, em que o Diário de Lisboa dá notícia da alta condecoração que o líder cubano Fidel Castro impusera a Álvaro Cunhal que visitava Cuba. A Ordem «Playa Girón» é a mais elevada da hierarquia das ordens honoríficas cubanas, concedida apenas excepcionalmente. E é assim que se pode perceber como teria sido, provavelmente, um Álvaro Cunhal extremamente contrariado a participar naquela cerimónia, sem que o próprio tivesse para com Fidel a coragem que mostrava para com os seus compatriotas. Coisas do internacionalismo proletário... Aliás, mais de uma década antes, ainda antes do 25 de Abril e do retorno de Cunhal a Portugal, os soviéticos haviam-lhe pregado uma partida semelhante, concedendo-lhe a Ordem da Revolução de Outubro, que fora instituída em 1967 (abaixo, à direita). Ainda depois desta condecoração cubana, recebida com um imaginável sorriso amarelo, Álvaro Cunhal virá ainda a receber a ainda mais prestigiada Ordem de Lenine (abaixo, à esquerda) dos mesmos soviéticos, já em 1989. Conhecidas as diferenças ideológicas da época entre Cunhal e Gorbachev e também a aversão do primeiro por condecorações, o que se dizia em surdina é que aquela iniciativa de Gorbachev fora mesmo para chatear Cunhal de forma cortêz e diplomática... E, mais uma vez, Cunhal não teve a franqueza de dizer que não. Foi pena...

12 janeiro 2024

UMA DESCARADA PARÓDIA DE ACTO ELEITORAL

12 de Janeiro de 1984. Era com a compostura indulgente que a notícia acima documenta, que era noticiada a reeleição do presidente argelino, Chadli Benjedid. Importa acrescentar que, consultando a documentação disponível a respeito deste acto eleitoral, os números da vitória de Benjedid se revelam ainda mais «esmagadores» do que os 95,36% anunciados à época: uns quase unânimes - 99,42%! Contudo, seja qual for a versão do disparate, aquilo que é retrospectivamente uma vergonha é apreciar como jornais e jornalistas podiam noticiar estas palhaçadas sem adicionar, ao menos, um qualquer comentário crítico manifestando a opinião - óbvia! - quanto à inverosimilhança da seriedade de tais actos eleitorais.

10 janeiro 2024

PROVAVELMENTE O SORRISO MAIS FALSO DA POLÍTICA PORTUGUESA

Ainda muito recentemente o vimos reaparecido nos ecrãs por ocasião do congresso do PS do passado fim de semana (imagem mais acima), mas a evocação que hoje aqui se faz de António Vitorino tem precisamente quarenta anos, quando, desertando da UEDS onde então militava, Vitorino aceitara as funções de secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares no governo do Bloco Central (PS/PSD) dirigido por Mário Soares. Fora mais um salto da efervescente carreira política do ambiciosíssimo jovem advogado (que estava a dois dias de completar os 27 anos). Anteriormente, a militância política de António Vitorino passara por várias versões de alas mais à esquerda do PS, mas sempre do lado de cá do comunismo ortodoxo: desde a FSP (Frente Socialista Popular), nos tempos animados do PREC, ao MSU (uma coisa de intelectuais que possuía uma inexplicável ressonância mediática, como aqui já evoquei neste blogue), até à UEDS (União da Esquerda para a Democracia Socialista). Agora tratar-se-ia da respeitabilidade governamental para a jovem estrela política que ali começava a sua ascensão. O preço a pagar por tal ascensão seria a (péssima) reputação que granjeara entre os vários grupos de companheiros políticos que deixara sucessivamente para trás. A notícia tinha o destaque de aparecer na primeira página. E aí começava - também - uma imagem pública de falta de confiança e de pouca simpatia pelo novo governante socialista, que não é nada ajudada, convenha-se, pela falta de verosimilhança do seu característico sorriso (abaixo), especialmente quando é acompanhado de um esfregar contínuo de mãos que nunca pressagiou nada de bom...

01 janeiro 2024

A «GUERRA» DE CRESTUMA-LEVER

1 de Janeiro de 1984. O país acompanha interessado o conflito fronteiriço entre duas freguesias do concelho de Vila Nova de Gaia. Crestuma e Lever são duas pequenas freguesias, com populações rondando à época os 3.000 habitantes cada uma e somando (as duas) uma área que não superava os 12 km². Mas, talvez precisamente por causa dessa pequenez, a questão da demarcação da fronteira entre ambas assumiu proporções inusitadas. Na noite de Natal haviam sido os de Lever que haviam erigido um verdadeiro obelisco (veja-se acima) no local onde, segundo eles, se situaria a delimitação entre as duas freguesias desavindas. No primeiro dia do Ano, foram os de Crestuma que tentaram dinamitar o obelisco da discórdia. Apesar da militância do artigo acima, o resto do país acompanhava o evoluir dos acontecimentos, com dificuldade em imbuir-se da exaltação dos beligerantes. A «guerra» foi um episódio intenso, mas passageiro. As duas freguesias, conjuntamente com mais outras duas, vieram a fundir-se numa nova entidade administrativa, na reorganização do Relvas em 2013.

04 dezembro 2023

A CONTÍNUA IMPOTÊNCIA DA PRESENÇA DOS ESTADOS UNIDOS NO LÍBANO

4 de Dezembro de 1983. Os Estados Unidos (e a França e a Itália) haviam enviado forças militares para o Líbano para resolver um problema criado por Israel, que invadira aquele país para dali desalojar as forças da OLP. Invadiu, expulsou os combatentes palestinianos, mas depois Israel ficou lá atascado, no meio da guerra civil libanesa. Os três países ocidentais haviam enviado forças militares para a manutenção da paz no país mas rapidamente se viram arrastados para o conflito. Seis semanas antes, dois camiões bombas, conduzidos por suicidas, haviam provocado mais de 300 mortos nos aquartelamentos do exército norte-americano e francês. Este dia 4 de Dezembro tornou-se mais um exemplo do vespeiro em que se tinha tornado a presença dos norte-americanos naquelas paragens, por muito musculada que a tentassem fazer. Inicialmente fora um avião F-14 de reconhecimento que havia sido alvejado por um míssil SA-7 a partir de posições que se sabiam ocupadas por tropas sírias. Depois, em retaliação, duas esquadrilhas estacionadas nos porta-aviões USS John F. Kennedy e USS Independence ao largo do Líbano atacaram os locais de onde viera o míssil. Foi pior a emenda que o soneto: o fogo anti-aéreo dos sírios abateu um A-6 e um A-7. Dos três tripulantes abatidos (o A-6 tem dois tripulantes), um morreu, um foi resgatado mas o outro foi capturado pelos sírios e levado para Damasco. Depois seguiu-se um mês de negociações acompanhadas pela média em que o assunto se misturou com a questão racial - o prisioneiro era negro - e o protagonismo de um dos activistas dos direitos afro-americano, o reverendo Jesse Jackson, que ficou com a fama do feito com a sua manobra de diplomacia paralela. O presidente Reagan saiu entalado de tudo isto e a sua administração não via a hora das suas tropas se irem embora dali...

02 dezembro 2023

QUARENTA ANOS SEMPRE REPETIDOS

À esquerda é Vasco Lourenço em 1 de Dezembro de 1983, depois da extinção do Conselho da Revolução, à direita é o mesmo Vasco Lourenço em 1 de Dezembro de 2023. A efeméride é a mesma, a reunião de oficiais em Óbidos, o orador e presidente da Associação 25 de Abril continua a ser o mesmo, Vasco Lourenço, e o seu discurso não é assim tão diferente, talvez agora um pouco mais defensivo e menos arrogante. São quarenta anos de esforços de Vasco Lourenço para não se fazer esquecer, colando-se à data do 25 de Abril de forma patética, quando ele não estará cá para ver que a data e o ideal que contém não precisarão dele para nada.

26 novembro 2023

ZENHA E ZANDINGA, TERÁ DE HAVER QUEM OS DISTINGA, MAS A ZANDINGA E ZENHA, NÃO HÁ QUEM OS DETENHA...

26 de Novembro de 1983. Os astros ter-se-ão conjugado para que aparecesse no mesmo dia e no mesmo jornal, previsões para o futuro do doutor Francisco Salgado Zenha e do professor doutor Lesagi Gimes Zandinga. Obviamente que mais políticas as do primeiro e mais futebolísticas as do segundo. Porém, o futuro viria a revelar que estavam quase totalmente erradas, as previsões de um e de outro.

Assim, o advogado, numa entrevista que dera naquele mesmo dia ao Diário de Notícias, descartara a hipótese de ele próprio vir a ser candidato presidencial em 1986, manifestara-se contra a candidatura de Mário Soares, e sugerira mesmo, em alternativa, um conjunto de quatro candidatos possíveis à sucessão de Ramalho Eanes: Miller Guerra, Henrique de Barros, Ferrer Correia e Nobre da Costa.

Um dos candidatos presidenciais que Zenha não contemplara era o bruxo Zandinga, que se anunciava como tal na outra página. Para além disso, também anunciava uma visita muito difícil do Benfica ao campo do Penafiel, quem seria o campeão nacional para a época 1983/84 (o Sporting) e os vencedores de cada uma das zonas (Norte, Centro e Sul) da 2ª Divisão: Chaves, Académica e União da Madeira.

Como desfechos, claro que Zandinga não se candidatou às eleições presidenciais. Ainda em 1983, o Benfica venceu convincentemente em Penafiel por 3-0. Em 1984 o campeão nacional foi o Benfica e os clubes promovidos foram o Vizela, a Académica (a única previsão certa!) e o Belenenses. Quanto ao que Zenha previa para 1986, as eleições vieram a ser disputadas na primeira volta entre Soares e Zenha...

19 novembro 2023

CAOS NA GRANDE LISBOA

19 de Novembro de 1983. O cabeçalho da primeira página da edição daquele dia do Diário de Lisboa sintetiza tudo o que há para recordar a respeito do acontecimento que aqui se evoca.