01 agosto 2020

QUEM OS (OU)VIU E QUEM AINDA TEM PACIÊNCIA PARA OS (OU)«VER»

Eu já fui um admirador destas tertúlias patrocinadas pelo Observador intituladas Conversas à Quinta. Aliás, fui um seu admirador desde o princípio, de uma admiração que até dei nota na altura (Julho de 2014). Uma admiração que, vim a descobrir depois, se alicerçava em pressupostos errados: a de que o programa evoluiria à volta dos comentários de dois convidados com uma cultura sólida (mais sólida a de Jaime Gama, mais presa com arames a de Jaime Nogueira Pinto...), e com o programa a ser orientado pelo anfitrião José Manuel Fernandes. Só que, o que eu não contava é que este último tinha ambições de ser muito mais do que um Carlos Andrade da Quadratura do Círculo ou um qualquer outro moderador de um programa desse mesmo género. José Manuel Fernandes queria apoiar-se nos ombros dos colegas de programa para saltar para a ribalta do reconhecimento intelectual. O preço da promoção do ego do publisher do Observador não tardou a tornar-se notório através da multiplicação das calinadas por si protagonizadas, que eu também fui dando conta, episodicamente, aqui no blogue, (Abril de 2015). Mais do que isso, provavelmente devido ao desequilíbrio (intelectual) das forças em presença, a intervenção dos presentes, sobretudo Gama e Nogueira Pinto, tornou-se cada vez mais compartimentada e alheia à opinião adjacente: o programa, ocasionalmente interessante, assumira-se como um encadeado de monólogos, o de Fernandes normalmente penoso de medíocre (Novembro de 2015). Tornei-me um espectador cada vez mais irregular (Março de 2017) até o deixar de ser de todo. Até esta promoção abaixo na página do jornal me ter chamado a atenção há dois ou três dias...
...é que um pouco antes disso, e a respeito dos problemas políticos, de sustentabilidade e legitimidade com que se confronta o monarca espanhol Filipe VI, eu assinalara a propósito do exemplo de há 70 anos de Leopoldo III da Bélgica, que um rei, mesmo que legitimidado por uma maioria do eleitorado, quando é detestado ostensivamente por uma apreciável minoria dos seus súbditos, não tem condições para continuar desempenhar as funções que se lhe exigem, mormente num país propenso a fracturas internas. Filipe VI pode continuar a ser rei de uma Espanha que não inclua a Catalunha, ou então, se a Espanha quer continuar a incluir a Catalunha, Filipe VI só lá está a atrapalhar. O rei de Espanha não pode ir à segunda cidade do seu país acompanhado de um dispositivo policial de quem está em país conquistado. E, por outro lado, não pode deixar de lá ir: durante décadas Isabel II não se atreveu a pôr os pés em Belfast sob pena de ser mal recebida pelos seus súbditos católicos, mas a Catalunha não é um Ulster remoto de Espanha. Apresentado como o faz acima, em jeito de denúncia de escândalo de costumes, eu nem quis ouvir o que os protagonistas das Conversas à Quinta teriam para dizer de inovador a respeito do dilema da monarquia espanhola. De escândalos há muito que a monarquia espanhola está servida, não nos esqueçamos que o rei de Espanha tem um cunhado na prisão, sítio onde ainda não é garantido que Ricardo Salgado vá visitar. A putativa ruptura de Filipe VI com o pai João Carlos é que me parece uma forma, para o dizer francamente, bastante estúpida de enquadrar o tópico. Fica assim a meio caminho, entre os problemas sérios de Espanha e os enredos dos artigos da revista ¡Hola! O que há para dizer sobre a monarquia espanhola é muito mais do que um enredo simples e maniqueísta, onde um rei bom se compara a um ex-rei mau (que, por sinal, já gozou de uma excelente imagem pública e já também foi um rei bom). Um rei ou serve ou não serve: há ocasiões em que, como aconteceu com Leopoldo III e com o seu filho Balduíno I, a figura do rei em abstracto até serve, mas a pessoa daquele rei em particular é que não serve. As dificuldades pessoais de Filipe VI devem-se a si próprio, ao comportamento que adoptou quando da crise na Catalunha, quando se mostrou sobretudo rei de Castela e se esqueceu de ser rei de Aragão (ora aqui está uma tirada que qualquer dos Jaimes poderia ter dito durante o programa...). Mas o programa dos dois Jaimes, com a adição do Zé Manel, degenerou nisto...

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