20 dezembro 2018

A OPERAÇÃO CORVO

20 de Dezembro de 1948. Dá-se por concluída a primeira fase da Operação Corvo (Operatie Kraai, no holandês original) com a captura da cidade de Jogjacarta, que fora até aí a capital dos nacionalistas indonésios. Contudo, convirá explicar que circunstâncias haviam conduzido os holandeses a confrontarem-se com uma típica guerra colonial (koloniale oorlog) na sua colónia das Ilhas Orientais nesses anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial. Como os franceses na Indochina e como os britânicos na Malásia, os holandeses haviam também recuperado o seu estatuto de potência colonial a partir do Outono de 1945, embora com uma situação política substancialmente modificada por quatro anos de ocupação japonesa. Durante esse período, os japoneses haviam feito o possível por exacerbar as ambições nacionalistas locais, embora em seu proveito. No seu regresso, os europeus depararam-se com uma infraestrutura administrativa, política e militar instalada que lhes disputava a legitimidade colonial.
As situações descambaram repetidas vezes para a confrontação aberta, embora outras vezes fosse dissimulada. O caso concreto das Índias Orientais holandesas pode ser apreciado pelo mapa de situação reportado a 1 de Dezembro de 1948, onde se percebe coexistirem regiões que eram controladas pelos nacionalistas (assinaladas a vermelho) com outras controladas - a títulos diversos - pelas autoridades coloniais holandesas (diversos tons de azul). Na ilha de Java, a mais importante do arquipélago e onde viviam 48 dos seus 75 milhões de habitantes (64% do total), essa coabitação era ainda mais complexa, com as áreas sob as duas tutelas a serem separadas por uma designada Linha Van Mook, uma linha de cessar fogo que fora estabelecida em Janeiro de 1948 na sequência de um acordo que fora firmado para substituir um outro assinado em Novembro de 1946... Ou seja, os acordos encadeavam-se mas a situação política não estabilizava porque aquilo que as duas partes procuravam era fundamentalmente contraditório.
Em Dezembro de 1948 os holandeses consideravam que se estava novamente numa situação de impasse e foi para o romper que decidiram desencadear esta Operação Corvo. Do ponto de vista militar a sua superioridade era flagrante. Esta primeira fase da operação consistiu num lançamento surpresa de paraquedistas sobre Jogjacarta, a capital nacionalista, capturando o seu aeródromo. Foi um completo sucesso táctico. Mas, se os militares dos dois lados reagiram como previsto (i.e., os holandeses ocupando os locais estratégicos da cidade e os indonésios dispersando pela áreas rurais depois de uma defesa honrada, mas fundamentalmente simbólica), os membros do governo nacionalista (na fotografia mais abaixo e da esquerda para a direita, o vice-presidente Hatta, o presidente Sukarno e o primeiro-ministro Sjahrir), trouxeram uma perspectiva política ao conflito com o gesto de se deixarem capturar pelos soldados holandeses. Contavam com o efeito perverso que a ofensiva militar teria junto dos norte-americanos. E tiveram razão!
Recorde-se que em 1948, através do Plano Marshall, os Estados Unidos eram o financiador da recuperação económica de todos os países da Europa ocidental. Bastava que ameaçassem a suspensão das ajudas para que os países europeus vergassem e os Países Baixos não foram neste caso excepção. Às vitórias tácticas dos holandeses no campo militar sobrepôs-se a vitória estratégica dos indonésios no campo político. Assinou-se mais um acordo(!) em Maio de 1949 e a verdadeira independência da Indonésia ocorreu no final desse ano, mas só depois de uma conferência em Haia que durou mais de dois meses. Uma última herança possível de toda esta operação é que ela terá despertado algum interesse entre os militares indonésios por operações aerotransportadas: quando foi a sua vez de desencadearem uma operação muito similar - a Operação Seroja em 1975 - também os seus paraquedistas se lançaram sobre o aeroporto de Dili, para conquistar a cidade...

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