09 dezembro 2020

A ELEIÇÃO DE LECH WAŁĘSA PARA A PRESIDÊNCIA DA POLÓNIA

9 de Dezembro de 1990. Na Polónia e na segunda volta de uma eleições presidenciais pela primeira vez livres*, Lech Wałęsa é eleito presidente da Polónia. Apesar de não se querer prestar muita atenção à fraquíssima afluência às urnas (53,4%), a eleição de Wałęsa é aceite pelos polacos e também internacionalmente como uma inevitabilidade: não é ele o segundo polaco mais conhecido no Mundo, logo a seguir ao papa João Paulo II? E, para o Ocidente, não se tornou Wałęsa num ícone de uma Guerra Fria acabada de vencer? O problema da eleição de Wałęsa, saberão naquela altura só aqueles que acompanham o assunto por dentro, são as debilidades estruturais (algumas de carácter, mas sobretudo de formação e de preparação) do novo presidente polaco. Como muitos ícones da política, mais simbólicos que substantivos, são excelentes quando são invocados e brandidos mas tornam-se um problema quando são eleitos para cargos executivos para os quais não mostram qualquer preparação e/ou vocação (alguns anos antes de Wałęsa, Corazón Aquino fora um outro exemplo desse mesmo fenómeno nas Filipinas). A presidência de Lech Wałęsa (1990-1995) virá a revelar-se conflituosa e controversa e ele virá a perder, ainda que marginalmente (recebeu 48% dos votos), a segunda volta das eleições presidenciais polacas de 1995. Mas a grande humilhação do antigo electricista, líder sindical,  tornado ícone da Polónia Livre, aconteceu em 2000, quando se apresentou por uma terceira vez ao escrutínio dos polacos e recebeu uns míseros 1% dos votos... Ultrapassado e desconsiderado no mundo abrasivo da política polaca, a reputação de Lech Wałęsa atingiu o seu nadir nos princípios do século XXI quando teve de se defender de acusações de colaboracionismo com a antiga polícia política comunista. Depois disso, pôde-se assistir a movimentos de recuperação da sua reputação, como é o caso deste filme mais abaixo de 2013 de Andrzej Wajda. Uma nota mesmo a propósito mas sobre a situação política actual: como se percebe com esta evocação, o problema da existência de pessoas verdadeiramente impreparadas para ocupar cargos unipessoais de grande responsabilidade não é recente; e, no entanto, o Mundo parece nunca ter assistido a um caso com tanta ressonância mediática quanto o de Donald Trump nos Estados Unidos. As razões para tal ressonância serão certamente outras que não a mediocridade dos protagonistas. Contudo, uma coisa é certa: exemplos como o de Lech Wałęsa podem ajudar-nos a avaliar algumas das manobras políticas em perspectiva; assim, quando se agita a possibilidade de Donald Trump se voltar a recandidatar em 2024, lembro-me do preço político que Wałęsa pagou por cinco anos longe dos holofotes da imprensa, e do consequente 1% que ele recolheu nas eleições de 2000. Será que Trump consegue superar o oblívio estando fora da Casa Branca?...   

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