03 dezembro 2020

O «OUTRO LADO» DO DISCURSO DE ANTÓNIO SALAZAR

Sábado, 3 de Dezembro de 1960. A primeira página do Diário de Lisboa daquele dia exibia o «outro lado» do discurso pró-ultramarino que António Salazar pronunciara quatro dias antes, e que aqui destaquei no Herdeiro de Aécio. Cinco anos depois de ter sido admitido na ONU, Portugal mostrara agora interesse em ocupar um dos lugares rotativos - e prestigiados - do seu Conselho de Segurança. O problema é que a candidatura portuguesa - submetida a votação - estava a encalhar. Daí o anúncio do adiamento dessa eleição. Na aparência, e descontando por razões óbvias os países do bloco comunista, o obstáculo era constituído pelos países do cada vez maior bloco afro-asiático, a começar pela Índia, que tinha um contencioso assumido com Portugal por causa da situação de Goa, Damão e Diu. Na substância, a candidatura portuguesa avançara mas aqueles com que Portugal contara para o ajudar, os seus tradicionais aliados ocidentais, haviam-se mostrado prudentes no patrocínio, quando não mesmo se pode considerar que o haviam deixado isolado nos seus esforços para se eleger.   
Salazar convencera o país com o seu discurso sobre a especificidade colonial portuguesa, mas, no âmbito internacional e na cenografia de negociações de bastidores que (ainda hoje) caracteriza a ONU, a candidatura portuguesa não consegue progredir, as semanas sucedem-se (veja-se outra notícia da edição de 10 de Dezembro em que se repete o teor da da semana anterior) e o impasse parece instalado na sede das Nações Unidas em Nova Iorque. Ao fim de seis ou sete eleições goradas, Portugal acaba por renunciar à sua candidatura (abaixo), tendo o lugar em disputa sido ocupado pela Noruega. Foi um fiasco diplomático, mas em Lisboa não havia disposição para apreender o recado que a acompanhava. Até 1974, Portugal não voltou a cometer o mesmo erro de se candidatar ao que seja; depois disso já ocupou esse lugar de membro não permanente do Conselho de Segurança por 3 vezes: 1979/80, 1997/98 e 2011/12.

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