02 fevereiro 2010

O MASSACRE DE HAMA

Nunca dei – possivelmente por desatenção minha – por que, nos jornais, se assinalasse a 2 de Fevereiro a efeméride do Massacre de Hama, de que se cumprem hoje 28 anos. Trata-se de um episódio passado na Síria (Hama é a cidade que aparece assinalada a vermelho no mapa acima), que permanece praticamente desconhecido, mas que foi uma demonstração cabal de como a gestão das indignações é um imenso jogo hipócrita jogado à escala mundial, e onde a esmagadora maioria da opinião pública mundial é manipulada no objecto das suas simpatias e antipatias como se de uma manada se tratasse…
Mas comecemos pelo princípio. Em Janeiro de 1982, o regime laico do presidente Hafez El Assad (acima) estava a acusar sintomas de desgaste. Dentro do caleidoscópio religioso sírio, Assad e os seus homens de confiança pertenciam quase todos a um grupo que representava uma minoria entre a comunidade muçulmana maioritária (90%), a dos alauítas (10%). E, invocando os valores tradicionais do islão sunita maioritário e liderando a contestação ao laicismo do regime de Assad, aparecia uma organização clandestina transnacional chamada Irmandade Muçulmana, com fortes apoios dentro de sectores da sociedade síria.

A secção egípcia da organização acabara de se cobrir de glória quando, em Outubro de 1981, se responsabilizara pelo assassinato, em plena parada militar (vídeo acima), do presidente Sadat do Egipto. Sadat estava então proscrito em todo o mundo árabe, por ter assinado unilateralmente a paz com Israel, mas isso não invalida que a proeza tivesse sido encarada de forma muito apreensiva pelos dirigentes laicos dos países árabes como Assad da Síria, Khadafi da Líbia ou Saddam Hussein do Iraque. E no caso da Síria, a secção local da Irmandade havia entretanto desencadeado uma campanha bombista…
Só que, ao contrário da homogeneidade egípcia, a sociedade síria (como a libanesa ou a iraquiana) ainda se organiza à volta de clãs, e os alinhamentos político-religiosos fazem-se mais por essa lógica do que pela ideologia. Na Síria, os simpatizantes da Irmandade Muçulmana predominavam numa região e tinham uma espécie de capital religiosa: Hama (acima). Foi a perdição da cidade. O ataque desencadeado pelo exército sírio há 28 anos, e que foi comandado pelo próprio irmão de Assad, Rifaat (abaixo, os dois irmãos), tinha por objectivos isolar a cidade do exterior enquanto impunha ali um regime deliberado de terror.
Hama, então com cerca de 200.000 habitantes, foi sujeita a uma metódica busca casa a casa, com as autoridades exercendo um verdadeiro poder discricionário de seleccionar suspeitos, a começar pelo clero sunita... Qualquer veleidade de resistência era aniquilada, a tiro de armas ligeiras nos casos individuais, com armas pesadas e artilharia (abaixo) nas manifestações colectivas. Embora a cidade permanecesse proibida aos jornalistas, o regime apostava que os métodos de terror que estava a aplicar viessem a ser divulgados pela população através doutros métodos, velhos de séculos, os da reputação e do boato…
Nunca se virá a saber quantos mortos terá causado a repressão sobre Hama. Há várias estimativas que variam entre os 5.000 e os 40.000 mortos. Lembre-se como o regime estava interessado em inflacionar esses números. Rifaat Assad assumiu descontraidamente 38.000... Mas note-se como as fotografias da destruição então causada (acima e abaixo), e ao contrário dos massacres perpetrados pelos israelitas e seus aliados naquela mesma região, não exibem nem um único cadáver… E sabe-se como, sem essas imagens, os massacres praticamente deixam de existir para a informação mundial…
A Irmandade Muçulmana na Síria nunca mais se recompôs da destruição. O episódio de Hama veio a tornar-se num exemplo de manual do que não se deve fazer. Perante aquele desnível de poder, a Irmandade Muçulmana nunca deveria ter assumido a cidade de Hama como seu santuário. Ao fazê-lo, defrontando um regime que não estava submetido a qualquer escrutínio popular e que, ainda para mais, se estava a sentir seriamente ameaçado com a sua campanha bombista, sobrestimou as suas capacidades. E esqueceu-se que os massacres de árabes só são importantes quando perpetrados por israelitas…

4 comentários:

  1. Uma pequena chamada de atenção: os massacrs de Sabra e Cahtila não foram de autoria directa (ou material) dos israelitas. Eles cercaram os campos, deram a anuência e nada fizeram para o evitar, mas os principais autores da mortandade foram os falangistas libaneses do Kataeb.

    ResponderEliminar
  2. Agradeço-lhe a chamada de atenção, João Pedro.

    Para além da sua Ágora, o João Pedro tornou-se um verdadeiro "controlo de qualidade" aqui do Herdeiro.

    Contudo, se atentar na frase que faz a ligação para o hipertexto com a entrada da Wikipédia dos massacres de Sabra e Chatila verá que diz: "massacres perpetrados pelos israelitas e SEUS ALIADOS"...

    Por curiosidade, diga-se que, apesar de separadas apenas por sete meses, a notoriedade do massacre de Sabra e Chatila no Lìbano ofusca completamente o de Hama na Síria.

    Porém as estimativas mais pessimistas do primeiro massacre (300 a 3.500 mortos) são menores que as mais optimistas do segundo (os tais 5.000 a 40.000 mortos a que me referi)...

    ResponderEliminar
  3. Muto interessante a sua frase "...que os massacres de árabes só são importantes quando perpetrados por israelitas…"

    Cumprimentos

    ResponderEliminar
  4. Atendendo à observação pertinente do João Pedro deveria ter escrito "quando perpetrados sob tutela israelita"...

    Afinal, os falangistas libaneses que actuaram em Sabra e Chatila eram árabes.

    ResponderEliminar