06 fevereiro 2024

QUANDO A EXTREMA DIREITA E A EXTREMA ESQUERDA FRANCESA SE ENFRENTARAM NAS RUAS DE PARIS

(Republicação)
6 de Fevereiro de 1934. A França política, tradicionalmente concentrada em Paris, é confrontada com uma demonstração de força da extrema direita nas ruas da própria capital. O pretexto próximo para a confederação de todas as direitas na rua nesse dia foi um escândalo político-financeiro - o Caso Stavisky - mas as razões mais profundas radicavam nas consequências sociais da Crise Económica de 1929, que estavam a empurrar as simpatias da opinião pública para os extremos do espectro político. A imagem de um grande desfile a ocupar a toda a largura um dos grandes boulevards de Paris (acima), tem que ser apreciada contando também que, quase precisamente um ano antes, Adolf Hitler chegara ao poder na Alemanha.
Porém, a extrema direita francesa estava muito longe de mostrar a coesão da sua homóloga alemã, em que o NSDAP era hegemónico (embora não absolutamente maioritário). Mais, a história da extrema direita em França é a de uma verdadeira salada russa de ideologias e de opiniões políticas - correntes monárquicas são logo três: há os legitimistas em favor dos Bourbons, os orleanistas em favor dos descendentes de Luís Filipe e os bonapartistas em favor dos descendentes de Napoleão! Isto para não mencionar todas as outras formações nacionalistas como a Acção Francesa ou a Cruz de Fogo. O que os unia naquele dia era a oposição ao parlamentarismo cujo edifício vemos acima a ser atacado por ocasião dessa jornada de há 90 anos.

Dos conflitos desse dia entre polícia e manifestantes resultaram 16 mortos e mais de 2.000 feridos, a esmagadora maioria dos quais (15 dos 16 mortos) eram manifestantes. A extrema direita ganhou não só os seus mártires como parecia capaz de desalojar a extrema esquerda do terreno que ela considera, ainda hoje, ser exclusivamente seu. A par da batalha política, onde o governo de Daladier acaba por se demitir no dia seguinte, vai-se travar uma batalha nas e pelas ruas de Paris, com os comunistas e o seu braço sindical, a CGTU, a convocarem uma contra-manifestação para dali a três dias (9 de Fevereiro). A que o vídeo acima mostra, que reúne socialistas e comunistas, teve lugar outros três dias depois dessa, a 12 de Fevereiro de 1934.
Mas, para contornar essas ocasiões antecipadamente encenadas, será talvez preciso ir buscar outro meio de expressão (a BD - Os Caminhos da Glória, O Tempo dos Inocentes), para mostrar como poderão ter sido esses dias de confrontos na capital francesa, dias quentes apesar de se estar no pino do inverno, onde a extrema direita e a extrema esquerda se podiam enfrentar ao virar de uma esquina e onde um transeunte acabou a tomar partido por um dos lados, apenas por causa de ter posto uma boina na cabeça, e isso apenas para não apanhar pancada dos dois lados, apenas de um!

2 comentários:

  1. Essas três correntes monárquicas correspondem à tese de Réné Rémond das 3 direitas francesas: orleanismo, ou a liberal, legitimismo, ou reacionária, e o bonapartismo (substituído de certa forma pelo gaullismo), centrada no poder central de um líder carismático. De qualquer forma, nessa altura, a Action Française, não aceitando partidos, era o maior movimento político francÊs, com centenas de milhares de associados, entre os quais muitos estudantes (e que se dividira aquando da invasão alemã entre apoiantes de Vichy e resistentes). Estava na moda o legitimismo nacionalista, que também influenciou muitos jovens portugueses com o Integralismo Lusitano. 40 anos depois, já a moda era ser maoísta ou enverista.

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    1. Obrigado, João Pedro, pelos comentários. A minha ideia foi apenas fazer uma descrição muito sumária da heterogeneidade da extrema-direita francesa da época, que hoje é uma memória, enterrada debaixo de figuras como os Le Pen (pai e filha) ou Éric Zemmour. Muito menos usar o poste para pregar uma “seca” ao leitor com considerações sobre o pensamento de Charles Maurras. Em contrapartida, os socialistas e comunistas que estavam à pancada com eles não precisariam de apresentação.

      O que me leva a outra observação ao seu comentário: 40 anos depois, já a moda era ser maoísta ou enverista. Ou outras coisas mais, como ser-se da “esquerda chique”, como toda aquela malta do MES (o PS esteve pejado deles...) ou da “esquerda revolução armada”, como a malta do PRP e da LUAR.

      Confesso que me irrita que o passado como MRPPs de Ana Gomes ou de Durão Barroso seja regularmente ventilado e que o passado como MESes de Ferro Rodrigues e de Santos Silva seja sistematicamente esquecido. Há que admitir que tão disparatados eram uns quanto outros.

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