16 julho 2007

SIMETRIA

A simetria perfeita a uma previsão feita recentemente por José Saramago, em que afirma que, não sendo profeta, Portugal acabará por se integrar na Espanha, seria a de escutar Camilo José Cela, o espanhol galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1989, entretanto já falecido (2002), a retorquir que, tão pouco sendo ele profeta, quando Portugal se integrasse na Espanha já não existiria Espanha para Portugal se integrar
Contudo, é improvável que Camilo José Cela pensasse isso, ainda mais improvável que, caso o pensasse, o ousasse dizer publicamente, e fatalmente provável que toda a imprensa castelhana o trucidaria violentamente caso o dissesse. Quanto à probabilidade associada à desagregação da Espanha num futuro próximo, não sou profeta, nem recebi o Prémio Nobel da Literatura*, mas ela parece-me bem real...
* Atributo que, conferindo um maior interesse mediático às suas opiniões gerais, não confere por si maior sustentação às análises geopolíticas do laureado.

A ANÁLISE CHAMPANHE

É impossível vê-las todas mas, das várias análises à noite eleitoral de ontem que já li aqui pela blogosfera, gostaria de eleger a do blogue de Daniel Oliveira como a análise mais alegre e mais gasosa, pela leveza das suas conclusões e, ao mesmo tempo, a mais celebrante, apenas pelo facto de uma lista concorrente ter conseguido reconduzir o vereador que havia eleito previamente (Sá Fernandes), e isso apesar de ter recebido menos 9.000 votos do que nas eleições anteriores…
É conhecida a militância de Oliveira no Bloco de Esquerda e torna-se natural a sua disposição para encarar com toda aquela bonomia os resultados eleitorais do seu partido e muito criticismo os dos outros. Só não resisto à ironia de, complementando os maldosos que qualificam o partido onde milita de esquerda caviar, considerar a análise que ele faz das eleições como tendo todas as características, pela superficialidade e desculpando-me o trocadilho fácil, de uma análise champanhe

UMAS COISAS TERÃO SIDO, OUTRAS NEM TANTO…

Miguel Mir, foi um historiador espanhol dos finais do Século XIX, membro da Real Academia Espanhola, que pertenceu à Companhia de Jesus quando jovem para depois a vir a abandonar, tendo publicado uma naturalmente controversa História Interna Documentada da Companhia de Jesus. Nela, referindo-se aos exercícios espirituais ali praticados desde o tempo do fundador Inigo de Loyola, escrevia: Nenhum espírito, por mais forte que seja, pode resistir a esses exercícios, nenhum coração lhes pode ficar insensível. (…) Mas não há nenhum homem que, tendo vivido esses exercícios, não conserve, no mais íntimo da sua alma, uma cicatriz que nada pode apagar. Para quem tiver lido ou vier a ler o livro Foi Assim, de Zita Seabra, a analogia entre a descrição acima e a das experiências que ela descreve da sua vida na clandestinidade é flagrante.

É a mesma reacção de atracção e repulsão de Miguel Mir, onde se misturam facilmente os sentimentos de repúdio explícito com os de reconhecimento implícito do quadro de valores da organização que tão fortemente vincou os dois. Um exemplo que atravessa todo o livro de Zita Seabra é o da hierarquia, onde a autora se auto-classifica, pelo seu percurso, como pertencente à aristocracia vermelha, classificando e separando os militantes por grupos, como os de antes do 25 de Abril dos outros (como Jerónimo de Sousa ou Odete Santos), que nem se tornam seriamente dignos de verdadeira apreciação. Depois, entre os do antes, há a distinção entre os do interior e da clandestinidade e os do exterior, mais confortável (como José Casanova). A Zita Seabra só lhe faltavam os pergaminhos de alta nobreza vermelha (os anos de prisão), mas disso já ela não fala…

Porque creio que haverá muitas coisas que a autora escolheu que lá não estivessem, alguma delas que se souberam até, na altura, por outras fontes, como é caso da sua vida sentimental pessoal: o casamento com Carlos Brito. Sem esse enquadramento, a invocação dos episódios dos partos das suas filhas (significativamente, para uma dirigente comunista, ocorridos no Hospital Particular de Lisboa e não num estabelecimento do Sistema Nacional de Saúde…), torna-se até um pouco descabida: apareceram de geração espontânea ou inseminação artificial? Nota-se que a redacção e o critério de nomeação dos intervenientes se tornam progressivamente cada vez mais cuidadosos à medida que a história evolui o que afecta o interesse do livro, com os primeiros capítulos muito mais genuínos e espontâneos do que os últimos, terminando mesmo de uma forma penosa.

E ao terminá-lo, fiquei com a impressão que a questão nuclear de todo o livro acaba por ser, talvez involuntariamente, a figura de Álvaro Cunhal. A tese que Zita Seabra acaba por tentar fazer passar é que ela, mesmo derrotada e expulsa, tinha razão e Álvaro Cunhal não, por causa do seu leninismo. De um leninismo obtuso, a acreditar nas descrições de Zita Seabra, o que as torna duvidosas, porque muitos outros retratos fazem de Cunhal uma pessoa muito pouco obtusa… Mas o livro é interessante, apesar desse ajuste de contas, e não por causa dele. É interessante por corroborar aquilo que durante décadas se soube mas que apenas aguardava a penitência da confissão de alguém que tivesse tido proeminência naquela época: que, por exemplo, as pessoas identificadas na altura como muito próximas do PCP (como Vasco Gonçalves) eram-no de facto ou que o MDP/CDE era um partido fantoche…

São engraçadas as referências aos estatutos hierárquicos informais existentes dentro do partido, que, pela descrição, me pareceu fortemente estratificado, como mencionei acima (a aristocracia vermelha), como também é engraçada a falta de relevância dos conhecimentos teóricos do marxismo-leninismo para o recrutamento dos militantes (destacado pelo episódio Pacheco Pereira). Andar a tentar desmentir alguns destes episódios, alguns deles menores (como o da chegada de Cunhal…) e muitos deles já comprovados por outras fontes ou circunstancialmente é uma daquelas actividades que os comunistas guardam o segredo das vantagens de que se reveste: vale mesmo a pena manter por 50 anos (lembre-se o massacre de Katyn*…) a mesma versão para manter animados os militantes enquanto se mantêm a desconfiança de todos os não militantes?

Confianças e simpatias à parte, não quero deixar de registar as referências à reputada capacidade de trabalho dos dirigentes comunistas em geral, tal qual os descreve Zita Seabra, num elogio em que é generosa. Mas sempre me intrigou como, se bem interpretei e se bem me ensinaram a teoria económica marxista do valor trabalho, toda aquela dedicação que os prendia durante dezenas de horas por dia, incluindo fim de semanas, tinha um valor rigorosamente nulo… Defender uma teoria cuja faceta económica classifica o valor do seu trabalho em coisa nenhuma parece ser uma contradição que não os incomodou... Quanto ao livro, e ao seu título (Foi Assim) a nossa opinião é que, se calhar, não terá sido tudo bem assim, mas consideramos que o livro regista um resultado positivo e que a verdade terá reforçado globalmente as suas posições, por muito desagrado que o PCP oficial manifeste.

* Massacre perpetrado em 1940 pelos soviéticos sobre 15.000 oficiais polacos que haviam sido aprisionados no começo da Segunda Guerra Mundial. O massacre foi depois imputado aos alemães, versão que se perpetuou até 1990, quando os soviéticos – sob Gorbatchev – reconheceram finalmente a sua autoria.

15 julho 2007

A VAIA

Aquilo que começou por ser uma manobra deliberada de certos governos europeus para a formação das suas opiniões públicas, como forma de condicionar o processo de decisão estratégica da Administração norte-americana, nomeadamente em relação ao Iraque, tornou-se, como é aliás tradicional nestas situações, numa criatura que parece ter escapado ao controlo dos criadores. Agora tornou-se uma rotina, quando surge a oportunidade, vaiar qualquer coisa que represente ou simbolize os Estados Unidos; outro dia foi a Miss Estados Unidos que participava num concurso internacional de ditas (misses) que se realizava na cidade do México… Melhor que isso, só mesmo a vaia monumental destinada à Estátua da Liberdade durante o concurso destinado a eleger as novas Maravilhas do Mundo.
Mesmo quem não saiba muito do assunto devia saber que a Estátua (cujo nome oficial é A Liberdade Iluminando o Mundo) foi uma oferta da França aos Estados Unidos nos finais do Século XIX (1886). Como ficou localizada à entrada do porto de Nova Iorque, que foi durante muitos anos o principal porto dos Estados Unidos, nomeadamente no tráfego de passageiros, a Estátua ficou consagrada como um ícone da primeira imagem da América vista pelos milhões de emigrantes europeus que atravessaram o Atlântico durante esse período dos finais do Século XIX e princípios do Século XX. Entre todos os símbolos monumentais que os norte-americanos pudessem escolher, este é o mais cúmplice com a herança europeia da sociedade americana…

É triste ver a imbecilidade e a ignorância erigida assim em padrão de comportamento…

14 julho 2007

O NERD DO TEMPO DOS BEATLES

Não pretendo pronunciar-me sobre qual terá sido a intenção de Zita Seabra ao mencionar no seu livro um episódio colateral à sua história pessoal, em que o seu conterrâneo José Pacheco Pereira pretende também aderir ao partido comunista, pouco depois dela o ter feito, no final da década de sessenta. O engraçado da história – e não tenho qualquer dos dois intervenientes nela na conta de pessoas bem-humoradas – tal qual Zita Seabra a conta, é o pormenor do percurso que levara José Pacheco Pereira até ao pedido, tendo-se preparado teoricamente por sua própria iniciativa e, anómalo para a altura, discorrendo com propriedade sobre livros como O Capital de Marx ou o Materialismo e Empiriocriticísmo de Lenine (p. 27)…
Preparado teoricamente de antemão e por sua própria conta, ampliando o que hoje dele conhecemos, parece que o jovem José Pacheco Pereira já conseguia naquela altura conjugar uma inigualável capacidade individual de trabalho teórico (que hoje é reputada) com uma descomunal falta de sentido prático (exemplificado pelo seu texto de anteontem na revista Sábado), que Zita Seabra assinala e que irá acompanhar José Pacheco Pereira pelo resto da sua vida política. Por muito que ele não percebesse (e, se calhar, ainda não percebe…), que organização julgaria ele que o aceitaria, numa espécie de igreja onde ele se havia previamente auto-baptizado sem sacerdote ou numa espécie de maçonaria onde realizara todos os rituais de iniciação em sua própria casa?

13 julho 2007

…E OUTROS…

Confesso que sempre antipatizei com o gesto (que felizmente está a sair de moda) de oferecer, normalmente aos mais jovens, como prenda de Natal ou de aniversário, um cheque disco ou um cheque livro. Por um lado, por ser normalmente um gesto com toques de pretensioso: porque não um cheque roupa, um cheque calçado, um cheque gelados ou guloseimas? Por outro, por se apresentar como um gesto livre – é para comprares o que quiseres... – quando limita as escolhas ao estabelecimento onde foi emitido. Além disso, ilude na forma, que não na substância, o facto de que o oferente não faz a mínima ideia quais são os gostos do presenteado. Na realidade, o primeiro deu ao segundo dinheiro num envelope, mas faz questão que não pareça isso…
Vai animada aqui pela blogosfera a recepção que comunistas (e também ex-comunistas) têm feito ao livro de Zita Seabra, Foi Assim. Para mim, a de Vítor Dias vale mais do que a recensão que dele fez hoje José Manuel Fernandes no jornal. Embora discordantes é sempre bom ler recensões em que se perceba que o livro foi lido, ao contrário do que aconteceu com Marcelo Rebelo de Sousa, que o criticou no Domingo passado na RTP por não ter qualquer anexo explicativo das siglas - que afinal está na página 439… É o que dá ter pouco sono e aproveitá-lo para folhear os livros em 4 horas... Às vezes, quando um livro se revela chato também faço isso, mas depois não digo que o li… e muito menos ouso comentá-lo! Mas veio a propósito da polémica associada ao livro de Zita Seabra que me recordei daquele fraseado típico de comunistas e ex-comunistas, que se detecta imediatamente nos seus textos e discursos. É disso que este poste trata.

Creio já ter aqui mencionado o excesso de colectivismo demonstrado por Jerónimo de Sousa quando designou, na última eleição presidencial, a sua candidatura como a nossa candidatura ao cargo de presidente, num acto onde a Constituição apenas contempla candidaturas individuais… Enfim, são estribilhos, como a própria Zita Seabra se queixa, difíceis de perder. Outro deles é a obrigatoriedade da adição da expressão e outros quando se refere o elenco de um qualquer órgão colectivo. Parece simpático, soa bonito e será mais igualitário adicionar aquela expressão como forma de demonstrar que ninguém do colectivo foi descriminado. Mas como as experiências de leitura dos textos me demonstraram, os outros, ou não interessaram para o processo da tomada de decisão ou, se interessaram, não interessa agora ao redactor do texto destacar que o fizeram.
Aliás, suponho que deva existir uma espécie de livro de protocolo comunista para essas nomeações. Havia uma ordem obrigatória (e independente do peso eleitoral respectivo…) com que se apresentava a composição das amplas frentes da esquerda: primeiro os comunistas, depois os socialistas e no fim os outros democratas… Outros democratas que já se sabiam quem eram (em Portugal, o MDP/CDE) e mesmo que houvesse falta de genuínos, os comunistas arranjavam sempre alguns… Para mim, o ritual da menção quase obrigatória aos outros tem algo de parecido com a etiqueta da oferta do cheque livro: assim como há aqueles que decidem e são os que interessa mencionar e que se transforma em pró-forma (educado, mas supérfluo num partido de acção como os comunistas) mencionar outros, também quem oferece um cheque livro, por muita sofisticação que queira atribuir ao gesto, está a dar dinheiro em vez de uma qualquer prenda de sua escolha pessoal…

A REUNIFICAÇÃO DA ÍNDIA

Posta a questão meio em jeito de desafio, se a China ainda tem o problema da sua reunificação com a Formosa, a Índia terá um incomensuravelmente maior: o da sua reunificação com o Paquistão e o Bangladesh… A condução política dos acontecimentos fizeram com que a Partição de 1947 tivesse que ser feita para solucionar os conflitos comunitários que se apresentavam na altura, mas os banais acontecimentos do quotidiano mostram como a religião muçulmana continua a ser indissociável da identidade indiana, na forma como os indianos celebraram a promoção do Taj Mahal a uma das sete novas maravilhas do Mundo.
Ora, o Taj Mahal, símbolo da Índia, como os seus minaretes facilmente comprovam nesta fotografia que o presidente paquistanês Pervez Musharraf ali tirou enquanto turista, é um templo muçulmano… Aliás, como disse no poste precedente, Musharraf nasceu na Índia, em Nova Deli em 1943. O que não disse foi que, por coincidência, o primeiro-ministro indiano Manmohan Singh, que é de confissão sikh, nasceu em território do actual Paquistão, em 1932. Pequenas coincidências como estas nunca afectaram políticas externas, mas dar-nos-ão que pensar, se as concebermos como resultados de um fluxo de ligações entre os dois países que é muito superior ao que qualquer deles está disposto a admitir.

Amanhã não será a véspera do dia dessa reunificação, mas não embarquemos no tabu daqueles - dos dois lados - para quem é conveniente que não se toque neste assunto…

11 julho 2007

SIMON DU FLEUVE E OS PSEUDÓNIMOS

Simon du Fleuve é um herói da BD franco-belga, aparecido já na segunda metade da década de setenta, da imaginação do criador francês Claude Auclair (em baixo, 1943-1990), falecido prematuramente aos 47 anos. O universo das histórias de Simon du Fleuve é o de um futuro pós-apocalíptico, depois da nossa sociedade moderna se ter desmoronado e quando a Humanidade regressa para um grau de desenvolvimento equivalente ao medieval. Vivendo-se num dia a dia ideal feito de necessidades e actividades simples, aparecem focos de autoridade que são sempre descritos como retornos ao passado e como ameaças expansionistas à sociedade vigente.
Embora não enquadrado com as ideologias dominantes naquela época, as histórias de Simon du Fleuve contêm uma componente ideológica fortíssima onde para além do realce aos aspectos ecológicos (então novidade), se nota um anti-modernismo militante. Mas não deixam de ser interessantíssimas por causa disso. Para interesse deste poste, devo contar um episódio do terceiro álbum da série, Maílis (retratado mais acima), onde o herói acaba por encontrar uma antiga central nuclear, onde os antigos empregados, física e mentalmente degradados devido ao excesso de radiações, continuavam a manter os procedimentos de alimentação da central com material radioactivo.
Só que agora, tantos anos passados e esquecidas quais eram as intenções iniciais dos gestos de alimentação do reactor nuclear, os procedimentos haviam-se tornado num gigantesco ritual religioso patético onde até os equipamentos de protecção contra as radiações tinha apodrecido (a imagem acima é retirada de uma das páginas do álbum)… Para os mais curiosos, na continuação da história a central nuclear acaba por explodir numa gigantesca nuvem em forma de cogumelo – um acontecimento improvável na realidade, lembremo-nos, através do exemplo de Chernobyl, que o grande perigo das centrais nucleares sempre foi o da contaminação radioactiva – embora o nosso herói se escape.

Mudando de assunto, quase todos os que estudaram a Revolução Russa se lembram como o uso de pseudónimos era comum entre os revolucionários daquela época. Foi com eles que ficaram conhecidos na História, mas a verdade é que Lenine se chamava verdadeiramente (Vladimir Ilitch) Ulianov, que o nome verdadeiro de Estaline era o dificilmente soletravel (Iossif Vissarionovitch) Djugashvili e que Trostski respondia pelo nome de (Lev Davidovich) Bronstein. Mas talvez seja uma surpresa para aqueles que conhecem o nome de outros dirigentes bolcheviques descobrirem que a maioria deles são também pseudónimos.

Sem ser exaustivo, Lev Kamenev (o homem de pedra) chamava-se Rosenfeld e Vyacheslav Molotov (o martelo) Scriabine. Mais prosaicos, Ovsei-Gershon Aronovich Radomyslsky tornou-se em Grigory Zinoviev e Meir Henoch Mojszewicz Wallach-Finkelstein ficou conhecido para a História por Maxim Litvinov, dissipando ambos as suas ascendências judaicas por detrás de pseudónimos tipicamente russos. Ter um pseudónimo era, depois da Revolução, um símbolo de antiguidade e de empenho militante na luta contra o regime do czar. Que nem era exclusivo dos bolcheviques: os mencheviques Pavel Axelrod e Julius Martov chamavam-se Pinchas Borutsch e Yuli Zederbaum.
O que é importante compreender é que a adopção do pseudónimo se veio a tornar, para além dos aspectos óbvios da segurança de uma actividade clandestina, como um verdadeiro ritual simbólico de todos os partidos comunistas que tivessem que operar na clandestinidade, como se pode perceber, aliás, através da biografia que José Pacheco Pereira tem estado a escrever de Álvaro Cunhal, onde vai dando aos volumes os títulos do pseudónimo de Cunhal adoptou em cada época (Daniel, Duarte). Também acredito que o livro de Zita Seabra (que ainda não li) contenha várias referências a essa prática. Em contrapartida, dirigentes de grandes partidos comunistas em democracia, como Maurice Thorez em França, sempre foram conhecidos pelo próprio nome*.

Já aqui tive oportunidade de registar uns poucos comentários que, independentemente do nome pelo qual se assina o comentador ou comentadora, costumam ser de uma homogeneidade ideológica e que normalmente se pronunciam criticamente quando o conteúdo do poste não é particularmente simpático para os comunistas, como é o caso dos senhores que se assinam Fernando Teixeira, nesta caixa de comentários ou Alice Almeida, nesta outra. Noutros blogues houve quem tivesse encontrado comentários críticos idênticos mas assinados por nomes diferentes conforme o blogue… Dar-se-á o caso de haver jovens comunistas que deram em brincar aos pseudónimos na blogosfera?

É que os episódios mencionados criaram-me a dúvida se o comentário de Vítor Dias era mesmo do próprio... A continuação dos acontecimentos tiraram-me a dúvida mas, se a brincadeira aconteceu mesmo, quando nós vivemos há mais de 30 anos em democracia, creio que essa propensão para imitar os antecessores no emprego de pseudónimos numa outra conjuntura, democrática e totalmente distinta das do passado, só se pode justificar por uma questão de estilo, quase religiosa, como acontecia com os desgraçados descritos no episódio de cima da história de Simon du Fleuve, que alimentavam de combustível o reactor nuclear sem saberem bem porquê…

* Como aconteceu com Álvaro Cunhal depois de 1974.

10 julho 2007

DA ALBÂNIA PARA O PALEOLÍTICO

Um dos grandes óbices do discurso político da UDP durante o PREC (era uma organização onde militaram com destaque figuras distintas da nossa actualidade como Jorge Coelho e José Manuel Fernandes) era a resposta à pergunta sobre o partido e a sociedade que poderia melhor servir de aproximação ao projecto que pretendiam construir em Portugal: o Partido do Trabalho da Albânia! O Partido do Trabalho da Albânia?... Mesmo não tendo caído ainda o muro que nos trouxesse uns imigrantes lá da Albânia para nos contarem a sua experiência pessoal (até fominha!...), o efeito que a menção da nacionalidade da utopia causava no auditório era sempre desolador…

Hoje, o que está na moda (e os consequentes disparates) vêm de outro quadrante distinto e, embora não caindo os seus defensores na armadilha de as mencionar, as sociedades utópicas parecem vir de mais longe ainda, do passado longínquo do Paleolítico Superior, onde as pessoas na sociedade gozavam de uma liberdade que nunca mais recuperaram com o aparecimento da civilização… Há quem, pela força de arranjar rótulos, tenha chamado anarco-capitalista* a pessoas como João Miranda mas eu suspeito que será redutor chamar apenas isso a quem avança com tantas teses que – citando Pedro Arroja – julga verdadeiras e, talvez, de certo modo originais sobre as relações entre tudo e… quase tudo.

Há que atender como as soluções propostas por estes ultraliberais costumam ter uma sofisticação semelhante à do que sabemos dos clãs dos caçadores colectores do Paleolítico Superior, um modelo de sucesso aliás, pois perdurou por cerca de 30.000 anos… Estamos a falar da mesma competitividade, da mesma selectividade dos mais aptos, da mesma ausência de circulação de informação e da mesma falta de solidariedade. Peguemos no último artigo de João Miranda, por exemplo, e constatemos que no Paleolítico Superior não haveria nenhum dos problemas que ele teme que o ensino do Estado possa trazer às crianças, com todas as vantagens que uma educação livremente harmonizada aos gostos de cada clã traria…

No artigo em questão, Miranda ter-se-á esquecido de mencionar, e de resto suponho que seria desnecessário, que também haveria a vantagem de se dispensar o recurso ao chamado ensino especial: dava-se uma paulada na criança que nascera coxa porque ela não podia acompanhar o clã e esse era um problema resolvido à nascença… Os historiadores têm formulado a ideia – mas o que é que eles saberão disto, afinal? – que este modelo completamente liberal, porque se tornava apenas reactivo aos problemas correntes e fechado à circulação de informação, não era muito propenso a investigações que se traduzissem em investimentos que representassem progresso material para o conjunto dos clãs. Foram 300 séculos de estagnação.

A verdade é que os historiadores costumam apresentar uma tese muito pouco original que associa o desenvolvimento material à agricultura, ao assentamento, à organização do trabalho, à especialização, à estratificação social… e a formas gradualmente menos liberais das sociedades se organizarem, que as tornava mais numerosas, mais complexas e mais poderosas. E essas foram as primeiras civilizações de uma sequência histórica que permite provavelmente que o João Miranda escreva hoje as suas teses originais num teclado de um computador em vez de as ir exprimindo em voz alta enquanto lasca uma pedra igual às lá de cima…

No fundo, de tudo isto até poderíamos fazer do que ficou escrito uma bela utopia: afinal a Humanidade nunca passou de um grande conjunto de caçadores colectores prezando verdadeiramente a liberdade, e que se organizou pontualmente para, durante uns 5.000 anos, melhorar as suas condições materiais e que está agora em vias de regressar à sua pureza original da liberdade num patamar superior de conforto material! Eis uma tese que seja talvez, de certo modo original… Mas a originalidade não é tudo. E, contrariamente ao que creio que julgam pessoas como o João Miranda, a originalidade nem sequer é muito… Mas olhem que uma pedra lascada como emblema dos ultraliberais é uma ideia original, engraçada e apropriada!

* Ele agradeceu, Alcibíades mandou cortar o rabo ao cão e Disraeli, enquanto jovem político, quando lhe perguntavam o que queria vir a ser, respondia primeiro-ministro. Não há limites embaraçantes para a publicidade.

09 julho 2007

OS DOIS DRAGÕES DE RAFAEL

A Itália do início do Século XVI era um país próspero, de exaltações extremadas como só os italianos as sabem ter. Havia os artistas para as exprimir, como Leonardo da Vinci (1452-1519), Miguel Ângelo (1475-1564) ou Rafael (1483-1520), mas sobretudo, havia a prosperidade acumulada nos soberanos para lhes pagar para produzirem as obras que hoje nos maravilham. E esses soberanos eram também gente muito interessante, como o Papa Júlio II (1443-1513), aqui pintado por Rafael, que tem um percurso político muito diferente do de avozinho reflexivo com que aparece neste retrato abaixo.
Foi um Papa que se coligou com a França, a Espanha e o Império para derrotar Veneza (1508-1510), para pouco depois refazer as alianças, reunindo-se à Espanha e a Veneza (abaixo, o retrato majestoso do Doge Loredan (1436-1521), de Giovanni Bellini) na promoção da expulsão dos franceses da península italiana (1511-1513). É que esta é também a Itália de Nicolau Maquiavel (1469-1527) e de O Príncipe, que foi escrito em 1513, mas só publicado em 1532. Tudo era muito fluído, reversível, como os preceitos que Maquiavel recomendava a Lourenço II de Médici (1492-1519), senhor de Florença.
Até as bases económicas onde assentava tanta prosperidade eram fluidas e estavam prestes a sofrer uma transformação, essa sim irreversível, quando os portugueses descobriram o caminho marítimo para a Índia em 1498 com Vasco da Gama e transferiram o grosso do tráfego comercial da Europa com o Oriente para a sua orla Atlântica, num dos primeiros episódios modernos documentados de deslocalização das empresas devido à globalização… Com os recursos financeiros a diminuirem, a dinâmica para a unidade italiana que fora criada por Júlio II extinguiu-se praticamente com ele em 1513.
Por duas vezes Rafael pintou São Jorge em luta contra o dragão e os quadros foram datados de anos consecutivos (1505 e 1506). No entanto, fruto da inspiração ou do propósito da encomenda, há um enorme contraste entre eles dois, numa espécie de metáfora de como as coisas em Itália podiam mudar subitamente. Num deles, as coisas parecem estar complicadas, com a lança partida pelo chão e a princesa angustiada ao fundo seguindo a peleja. No outro, tudo corre pelo melhor, a princesa reza, serena, e até o cavalo lança ao herói um olhar parecido com o que Jolly Jumper olharia para Lucky Luke

FRANKLIN ROOSEVELT, O PRESIDENTE QUE NÃO SE SUSTINHA DE PÉ

Embora nunca tenha sido propriamente um segredo, a verdade é que a grande maioria das pessoas da época (especialmente os norte-americanos) nunca se aperceberam que o Presidente dos Estados Unidos de 1933 a 1945 era um deficiente motor que não se conseguia suster de pé sem auxílio. A fotografia abaixo é uma raridade.
Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) sofrera um ataque de poliomielite – embora o diagnóstico da época seja hoje posto em dúvida – em 1921, quando já tinha 39 anos que o deixara paralisado do peito para baixo. Os tratamentos de fisioterapia e hidroterapia que fizera melhoraram o seu estado geral mas ele só veio a recuperar alguns movimentos.
As ocasiões em que andava por uns poucos metros em comícios eleitorais, dando provas da sua força de vontade, fazia-o através de uma técnica de contorcionismo que desenvolvera, rodando as ancas, enquanto as pernas eram suportadas pelas órteses metálicas rígidas que tinha dentro das calças. Alguém de confiança amparava-o no fim da caminhada.
Quando Roosevelt se tornou presidente, em 1933, no auge da Grande Depressão, acreditou-se que a divulgação desse facto poderia prejudicar a credibilidade da nova Administração e formou-se um amplo pacto de silêncio entre toda a comunicação social norte-americana sobre a deficiência física do presidente.
As necessidades de mostrar um presidente forte aumentaram ainda mais quando, em 1941, os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial. Algumas das fotografias de Roosevelt neste poste são dessa época (em Teerão e Yalta), quando as circunstâncias obrigavam a que a foto das cimeiras fosse tirada com os conferencistas sentados(*)
Paradoxalmente, o encobrimento mediático também escondeu como o estado de saúde de Roosevelt se estava a deteriorar e a sua morte repentina a 12 de Abril de 1945, nos finais da Guerra, foi uma grande surpresa geral. E na Conferência de Potsdam, em Julho de 1945, já com o Presidente Truman, a fotografia de família já pôde ser tirada de pé…

(*) Note-se o requinte de, na fotografia de Teerão (central), fazerem Roosevelt cruzar casualmente a perna…

08 julho 2007

O OBSERVATÓRIO e o COORDENADOR DA OBSERVAÇÃO

Uma das críticas literárias mais sintéticas e aceradas que conheço refere-se a Winston Churchill e à sua história da Segunda Guerra Mundial. Conheço a ideia, desconhecendo o autor e reza assim: Winston resolveu escrever um enorme livro em seis volumes sobre si mesmo e quando chegou a altura de lhe dar um nome resolveu dar-lhe o título de Segunda Guerra Mundial…
De uma forma análoga, quando um político especializado na área da Saúde – Constantino Sakellarides – sai do governo e vai para a oposição (mesmo que seja o partido de que é militante que esteja no poder…), é para se tornar Coordenador principal de um organismo chamado Observatório Português dos Sistemas de Saúde, que está encarregado de produzir relatórios periódicos sobre o tema. Tivesse Marques Mendes vários observatórios desses e estaria muito mais contente com as sondagens...
Note-se que eu defendo a utilidade tanto da autobiografia de Winston Churchill como dos relatórios produzidos pelo Observatório, só que há que ter em conta que a primeira é apenas uma parte da história da Segunda Guerra Mundial e que os segundos não são a visão técnica imparcial da situação da saúde em Portugal… Conhecendo as simpatias recíprocas entre Sakellarides e Correia de Campos, imaginem-me a mim, por exemplo, depois do que escrevi dois postes abaixo, encarregado da crítica às crónicas semanais do João Miranda…

Alguém levaria a sério o que escrevesse? Não devia, mas pelos vistos entre nós é possível desde que não assine com o meu nome…

07 julho 2007

A DERIVA AUTORITÁRIA

Parece que andamos por uma época onde, felizmente, não se tem medo das palavras, sobretudo dos superlativos e das construções de maior impacto. Infelizmente, toda essa imaginação não costuma ser expressa com o devido acompanhamento moderador que o conhecimento do passado próximo proporcionaria. Ainda outro dia, um brincalhão aqui fez uma referência (que suponho pretendia jocosa) a Beria. Ora Lavrentyi Beria, o mais importante dirigente do KGB* do período de Staline, é alguém que teve uma carreira de onde tenho dificuldade em extrair efeitos cómicos… Mas vou tentar fazê-lo de outros episódios.
Escutando a sonante expressão deriva autoritária aplicada ao governo de Sócrates dá vontade de a justapor a outras derivas, precisamente a que atravessou a União Soviética durante a década de trinta e que culminou no período do Grande Terror. E, já agora, relembrar como todos esses grandes fenómenos colectivos de repressão são feitos com as contribuições pequenas, mas indispensáveis, de cada um de nós. Falemos então de um sujeito tão banal como Lev Zakharovich Mekhlis (1889-1953), um sujeito tão banal como aquela senhora que foi nomeada Directora Regional da Educação do Norte e que lá continua.

Mekhlis, começara por ser um menchevique**, antes de se juntar tardiamente aos bolcheviques** em 1918, já depois da Revolução de Outubro de 1917. A sua carreira no partido fez-se à sombra de Staline, de quem era um dos assistentes de confiança. Foi nomeado Comissário do Povo para o Controle de Estado e mais tarde ficou encarregado de dirigir toda a Administração Política do Exército Vermelho. Embora não pertencesse ao KGB*, era um exemplar acabado de uma mente policial, de uma fidelidade canina, mas sem imaginação ou preocupação intelectual – os livros de Staline foram descobertos no seu espólio, dedicados pelo autor, mas por estrear…
Simbólico da discrição com que todos aqueles episódios daquela época se passaram, não consigo encontrar na Internet quaisquer fotografias de Mekhlis ou, já agora, de qualquer outro assistente importante de Staline (quando não houve mesmo colaboradores que desapareceram da fotografia – veja-se o caso de Yezhov na fotografia acima) enquanto a da muito pouca fotogénica Dra. Margarida Moreira ali está a encimar este poste. Melhor, está garantido que qualquer assomo de prepotência exercido pelo ou em nome do governo de Sócrates, seja ele factual ou virtual, tem direito ao tratamento devido na comunicação social.

Sobretudo, para percebermos o que é autoridade há que chegar a um episódio de 1937, em que Mekhlis investigou suspeitas que incidiam sobre o Conjunto de Danças e Cantares Bandeira Vermelha e em que informa Staline: (…) a situação do Conjunto Bandeira Vermelha é difícil. Concluí que um grupo de espiões e terroristas tenta tomar o controlo. Demiti de imediato 19 pessoas (…) convoquei o chefe da agência especial***. O Conjunto deve continuar a apresentar-se? Não se sabe qual terá sido a resposta de Staline, mas é bonito de se imaginar Staline no papel de agente artístico…

O que também se pode deduzir é que, tendo o Conjunto de Danças e Cantares Bandeira Vermelha uns 25 a 30 elementos e estando 19 deles presos, no caso de Staline ter dado uma resposta afirmativa as apresentações seguintes ressentir-se-iam muito provavelmente da falta de figurantes… Imagine-se primeiro o que hoje se poderia ter feito de uma notícia destas... E imagine-se depois o que é nos tempos de Staline o chefe da agência especial poderia ter feito dos jornalistas que tivessem dado a notícia sem autorização... Em suma, sejamos moderados e não brinquemos com a palavra estalinismo...

*A polícia política soviética teve diversas siglas ao longo da existência do estado. Esta foi o última, a que durou mais tempo e pela qual é mais facilmente reconhecida.
** Bolchevique e menchevique são designações de duas facções do Partido Social-Democrata Russo (a primeira facção mencionada era dirigida por Lenine), que se hostilizavam como dois partidos rivais.
*** Eufemismo para polícia política. Além de demitidos foram obviamente presos.

06 julho 2007

ÁUSTRIA… AUSTRÁLIA

O que é bom nas recordações de infância é que elas são muito feitas de sensações e assim fáceis de reviver. Torna-as confortáveis de sentir e de compartilhar com quem também as sentiu connosco mas também as torna mais difíceis de transmitir quando isso não acontece. Esta é uma pequena história dessas, uma história de um longínquo Verão, no final dos anos sessenta (1967, 1968?), quando os turistas estrangeiros de mochila às costas no Algarve ainda eram uma raridade e o domínio da língua inglesa por parte dos portugueses outra.
Um casal de jovens austríacos viajava pela manhãzinha num dos tradicionais barcos da carreira que faziam a ligação entre Olhão e as ilhas enquanto admirava a beleza especial da paisagem da Ria Formosa àquela hora. Ao mesmo tempo sentiam-se desorientados quanto às referências dos pontos cardeais, no meio de um canal com terra de um lado e doutro. Entabularam conversa com uma daquelas famílias tradicionais que ia para a praia, onde o pai era sempre o responsável pelo transporte do guarda-sol… E foi o pai que entre um inglês macarrónico e muitos gestos lhe apontou os pontos cardeais…

Estabelecida a comunicação, satisfeitos pela descoberta de alguém com quem se podiam entender, a conversa dos austríacos com a família prolongou-se (mas com o pai a intérprete e gesticulador mor) até que se chegou à pergunta de onde vinham os turistas:
­– Áustria – apontando na direcção do Nordeste, mostrando que haviam assimilado bem os pontos cardeais.
E o puto, para aí com uns 6 anos, que até ali permanecera calado sem perceber patavina da conversa, reagindo pela primeira vez a uns sons que lhe pareciam vagamente familiares:
Austrália!
Áustria! – reagiu em uníssono o casal, corrigindo rapidamente a confusão que deve ser muito frequente.
Austrália! – continuou o puto, contente por lhe prestarem atenção.
Áustria! – e o puto parecia que se animava ainda mais, como se a veemência em o corrigir fosse sinónimo da sua importância…
Austrália!
Da última vez a coligação contra ele era poderosa, incluindo o próprio pai: – Áustria! E o puto lá se calou de vez…

Testemunha dos acontecimentos, à primeira pensei que o puto era ignorante, à segunda que o puto era parvo, só à terceira percebi que o puto estava era deliciado com a atenção que provocara… Era um precoce daqueles que dizem não importa o quê desde que lhes prestem atenção… E repetir Austrália sempre que se pronunciava Áustria estava a dar cá um efeito! Até os austríacos - que só falavam estrangeiro - lhe davam troco...
O que não sabia é que faltavam muito anos para que eu me viesse a recordar recorrentemente do episódio ao ler os postes supostamente provocadores de João Miranda no Blasfémias… E daí, consolidado no estilo, muito mais sofisticado na originalidade das afirmações, com uma audiência mais alargada mas menos entendida, mas com a mesma ignorância na matéria de facto, não se terá passado que o João Miranda tenha tido umas férias de Verão na ilha da Armona quando era criança, pois não?

SE FOSSE A SÉRIO…

Aqui há 30 anos, a Prevenção Rodoviária Portuguesa lançou uma campanha televisiva onde houve criativos que se esmeraram. Se eu evocar a expressão, Oh Zé, abre o pisca da esquerda!..., haverá com certeza entre os leitores quem se lembre das traseiras de uma betoneira e de uma explicação detalhada de boas maneiras sobre a forma como os camionistas podiam facilitar a tarefa de quem os tivesse de ultrapassar. Depois, Cavaco, Ferreira do Amaral e os fundos comunitários criaram a rede de auto-estradas que dispensava a gentileza do Zé...
Outros anúncios eram muito menos cómicos embora igualmente eficazes, como o filme de um acidentado de mota que tinha sofrido um traumatismo craniano (com uma voz off: Ele não levava capacete de protecção!...) ou o choque de dois miúdos em bicicleta (E o comentário: Se fosse a sério, era um caso sério!...). Foi precisamente deste último que me lembrei quando soube da notícia da intenção de uma nova OPA sobre o Benfica.
As razões para o meu cepticismo não incidem sobre as intenções em si, que podem até ser respeitáveis, mas sobre a discrepância dos valores oferecidos, se eles se vierem a confirmar: é que a notícia adianta que o preço a oferecer por cada acção poderá ser de sete euros, precisamente o dobro da oferta de Berardo. Com esta discrepância, ou Berardo está a querer comprar uma pechincha, ou os associados secretos de Vasco Pereira Coutinho não sabem o que estão a comprar, ou há ali um brincalhão, ou até pode ser que os brincalhões sejam dois…

Ou mais, que já esquecia Mário Lino e Manuel Pinho, ultimamente muito calados e que não entram neste filme...

03 julho 2007

AS MAMINHAS DA FAVORITA

Há uma certa controvérsia associada à identidade da pessoa retratada no quadro acima, em pleno banho. A autoria do quadro é indiscutível, é de François Clouet (entre 1510 e 1515 – 1572), o pintor da Corte francesa durante os reinados de Henrique II, Francisco II e Carlos IX. Aliás, os retratos por que são mais conhecidos quaisquer dos três monarcas pertencem-lhe. Este quadro, de acordo com os peritos, é mais tardio, um dos últimos que veio a pintar um ano antes de morrer, em 1571.

O quadro tanto pode ser designado por Senhora no Banho como pel´O Banho de Diana de Poitiers, nome como o conheci originalmente e me chamou a atenção para ele. Porque a figura de Diana de Poitiers, que foi a favorita de Henrique II de França (1519-1559) tem uma daquelas histórias interessantes de ser contadas, para mais, a tomar banho... Diana nasceu em 1499 ou 1500, casou aos 16 anos com um homem que era quase 40 anos mais velho, de quem teve duas filhas. Enviuvou em 1531 e morreu em 1566.

Segundo a história, teria sido encarregue em 1530 ou 1531 pelo rei Francisco I (de quem se sussurra que fora amante) da educação do jovem príncipe Henrique, o seu segundo filho, recentemente retornado de Espanha onde estivera aprisionado por quatro anos com seu irmão, como penhor do cumprimento dos compromissos assumidos por seu pai na sequência da derrota de Pavia (1525). Com 11 ou 12 anos, o príncipe tinha um feitio muito reservado, em contraste com o do pai, mas tornou-se muito devotado à sua tutora.

Casou em 1533 com Catarina de Médicis (os dois noivos tinham 14 anos!), num casamento considerado por muitos como desigual (os Médicis eram apenas os senhores de Florença...), embora Henrique fosse apenas o segundo na sucessão, depois do seu irmão mais velho, o delfim Francisco. Só que o delfim morreu em 1536, com 19 anos e sem descendência, e o ascendente de Diana sobre o jovem Henrique, que passou a ser o novo herdeiro ao trono, tornou-se num activo político a contar para o futuro.

O ascendente de Diana passara a incidir sobre o jovem casal, que esteve dez anos sem ter filhos (o primogénito, Francisco, nasceu apenas em 1544), mas as más-línguas da Corte fizeram de Diana, 20 anos mais velha do que o príncipe, uma favorita no sentido clássico do termo de companheira sexual, num retoque de escabroso, desmentido pelos factos: sabe-se que Henrique II teve várias favoritas clássicas da sua idade ou mais novas*, de quem teve cinco filhos ilegítimos. Nada indica que fosse do género de preferir as maduras

Considerar que a senhora desnudada que se banha no quadro de François Clouet é Diana de Poitiers pode entender-se nessa intenção de época (e sobretudo das posteriores...) de apimentar a relação entre Henrique (abaixo) e a sua tutora, em que olhos mais benignos podem ver como a de uma relação maternal com uma madrasta que Henrique sempre desejou – afinal Henrique ficou órfão de mãe aos cinco anos e esteve entre os 7 e os 11 anos aprisionado em Espanha com o irmão… Um enredo de história verdadeiramente suculenta para as explicações do Dr. Daniel Sampaio…
Quanto ao quadro em si, antes de falar da identidade da banhista, não se trata de nenhuma obra-prima da pintura europeia, mas é um quadro muito interessante. Trata-se de uma cena íntima dos aposentos de uma senhora de condição. De tronco nu e mostrando as mamas, o pintor realça a diferença entre as dela (pequenas, quase de adolescente, o que devia ser o modelo de beleza da época) com as enormes, úberes, da ama de leite que lhe alimenta o filho ou a filha. Uma outra criança (talvez o filho da ama) rapina entretanto uma peça de fruta…

Como é frequente nas pinturas da época, o autor socorre-se dos reflexos de um espelho para dar mais profundidade à cena. O espelho está colocado frontalmente e os seus reflexos mostram uma criada preparando-se para despejar água quente (sugerida pela lareira acesa) de uma vasilha, enquanto a visão da decoração da casa (que ficaria por detrás do observador) reforça a impressão de opulência. François Clouet, que, pela lógica da geometria, se devia ver no reflexo do espelho, faz-se desaparecer. A senhora, distinta e altiva, mas não por pudor, nem o encara.

Só que a senhora do quadro dificilmente poderá ser Diana de Poitiers. Diana morreu em 1566 e sabe-se que este quadro foi pintado em 1571. Para mais, como Diana era 10 a 15 anos mais velha do que Clouet e teve as suas duas filhas antes de fazer vinte anos – o que poderia ajustar-se àquelas mamas pequeninas – faria com que o quadro se referisse a um acontecimento de 50 anos atrás! Aliás, em 1571, a mulher forte da Corte francesa já não era Diana, mas sim Catarina de Médicis, a viúva de Henrique II e mãe de três reis de França**.

Regressando à verdadeira Diana, independentemente dos mexericos que faziam dela antiga amante de Henrique II como justificação para a sua influência, vale a pena dizer que os relatos são unânimes em reconhecer a forma como, apesar da idade, Diana continuava a impressionar pela sua presença distinta. Será algo que era muito valorizado na cultura francesa naquela época e, pelos vistos, continua a sê-lo na actualidade, lembremo-nos da projecção e do acolhimento da figura de Ségolène Royale…
Uma nota final sobre a morte infeliz de Henrique II em 1559, num acidente num torneio de cavalaria à boa maneira medieval, quando a lança do oponente se partiu na viseira do rei e vários dos seus fragmentos se alojaram no cérebro, através de um olho. Quando um rei de França do Século XVI, com a maturidade dos 40 anos, ainda pensa em exibir-se assim em justas medievais, há que aceitar com mais condescendência os sonhos de um seu homólogo da geração seguinte, que aos 24 ainda queria expandir o seu reino em amplas batalhas de cariz medieval: Sebastião de Portugal (1554-1578)…

* Filippa Duci (nascida em 1520, de quem teve uma filha em 1538), Louise-Marie de Léprouve (nascida em 1521, de quem teve duas filhas, nunca perfilhadas), Jane Stuart (nascida em 1520, de quem teve um filho em 1551) e Nicole de Savigny (nascida em 1535, de quem teve um filho em 1557)
** Francisco II (1544-1560), Carlos IX (1550-1574) e Henrique III (1551-1589).

02 julho 2007

OS CÃES LADRAM E A CARAVANA TENTA PASSAR

Sempre me pareceu, como regra geral, que o nosso interesse pelas situações bizarras não dependia apenas da bizarria da situação mas também da identidade do protagonista. É da própria natureza humana: por exemplo, o efeito cómico de uma escorregadela e queda de um cavalheiro bem vestido é muito superior ao de um mendigo andrajoso. Só que, falando em outras escorregadelas e em outros envolvidos, somos muitos os que nos queixamos aqui pela blogosfera como a oportunidade e a relevância das que vão sendo conhecidas dependem demasiado dos cabeçalhos da comunicação social tradicional.
Vai para uns dois anos, uma notícia do Público, detalhava os rendimentos declarados de Jorge Coelho (acima) no quadro das declarações obrigatórias dos titulares de cargos públicos. Entre os rendimentos contava-se um apetitoso salário mensal de 6.000 € brutos de uma empresa de consultoria chamada Congetmark de que Jorge Coelho era sócio-gerente. Parecia ser um tópico interessante e blogues como a Bloguitica, a Grande Loja do Queijo Limiano ou o Quintopoder fizeram eco das suas questões e também das iniciativas para questionar pessoalmente Jorge Coelho (e institucionalmente a própria Congetmark) por informações a respeito da referida empresa: qual a sua actividade principal, quais os seus principais clientes?
Infelizmente, ainda nos falta a nós, bloguistas, a perseverança de uma Vera Lagoa, que passou vários anos a fio a dedicar continuamente uma coluna da primeira página do seu semanário (O Diabo) sempre intitulada Antónia, Antónia!, a respeito do esquecimento votado aos acontecimentos à porta do Ralis de Março de 1975 e que haviam terminado com a morte do filho de Antónia… Eu bem sei que Coelho já não é coordenador autárquico, nem ocupa cargos cobiçáveis dentro do PS, e que Carlos Andrade (da Quadraturadocírculo) me informou que lhe havia endereçado as minhas perguntas a respeito da Congetmark – e eu acredito que o tenha feito… – mas sem êxito...
Mas eu sempre tive esta abordagem, porventura lírica, de que existe uma deontologia que está para além das conveniências e das invejas políticas e que foi desrespeitada nesta forma como Jorge Coelho, qual dromedário de uma enorme caravana de políticos, ignorou olimpicamente as perguntas (razoáveis) que lhe colocaram, a respeito da sua empresa de consultoria, em que ficámos por saber a quem consulta e sobre o que consulta… Com a mesma premência com que Vera Lagoa intitulava os seus artigos de Antónia, Antónia! deixem-me repetir – para mostrar que não está esquecida – a pergunta nunca respondida: Em que negócios e com quem andou envolvida a Congetmark?!

01 julho 2007

TESES IMPOPULARES

Na impossibilidade de as compreender no original, pela informação que a imprensa disponibiliza, a culpa principal do ministro da defesa do Japão, Fumio Kyuma (abaixo), foi a de ser excessivamente honesto. Embora os cabeçalhos das notícias prefiram dizer que ele defendeu ou justificou o emprego pelos norte-americanos das duas bombas atómicas no final da Segunda Guerra Mundial, em Agosto de 1945, pela substância das mesmas parece-me que a expressão preferível seria dizer que ele compreende a decisão norte-americana, em função do quadro estratégico envolvente – já por mim abordado num outro poste em Fevereiro passado.
A tradição fazia com que a política externa do Japão fosse sempre a de se armar em vítima (a única da história) do armamento nuclear. Só que a tradição já não é o que era… E o ministro da defesa do Japão tem de se preocupar com as perspectivas futuras do seu país, numa região onde o investimento no nuclear da Coreia do Norte e a percepção dum aumento futuro do potencial estratégico chinês se tornam cada vez mais incomodativos. Perceber a decisão norte-americana parece ser, à boa maneira japonesa, sempre cheia de subtilezas, mais uma tentativa de retirar a questão do armamento nuclear do domínio das emoções para o domínio da razão.
Trata-se de teses que são tão impopulares que nem chegam a ser discutidas. Ao mesmo nível, só me lembro de um comentário de Aristides Pereira (acima), ex-presidente de Cabo Verde, questionando-se se Cabo Verde não teria ficado materialmente muito melhor se, em vez da independência, não se tivesse tornado uma Região Autónoma portuguesa como a Madeira e os Açores – um verdadeiro anátema sobre a existência de um país, proferido por quem fora o seu supremo magistrado! Mas essa tese pode esperar para quando, na ordem internacional, a moda do nascimento de novos países der lugar à do desaparecimento dos pequenos países inviáveis…
Só que no Extremo Oriente, o ritmo de alterações da situação estratégica tem sido tal que os dirigentes japoneses não se podem permitir o luxo de que haja a transição descansada que desejariam da sua opinião pública, para a aceitação de que o seu país seja uma potência dispondo de armamento nuclear. É isso que provoca as modificações que levaram a que a tradicional agência japonesa de defesa se tivesse transformado num ministério a partir de Janeiro deste ano (acima, fotografia da cerimónia, com o ministro em saudação ao lado do primeiro-ministro Shinzo Abe). E é isso que os faz correr em declarações como estas… seguidas de explicações, rectificações e pedidos de desculpa, mas com as declarações já proferidas.

O 11 de MARÇO de 1975 e o MINI BALEADO

Começo por explicar como este poste surge por acidente. A ideia original era falar de perseverança – aí hei-de voltar noutro poste posterior – mas essa história começava pelas consequências de um episódio ocorrido durante a tentativa de golpe de estado de 11 de Março de 1975 que, pelos vistos, anda completamente desaparecido da blogosfera e da internet, em cronologias como esta feita por Daniel Oliveira há mais de três anos, ou em páginas institucionais como a do site histórico da RTP especialmente dedicado à cobertura televisiva daquele acontecimento, assim como outras páginas.
O episódio omisso a que me refiro é daqueles indesmentíveis na sua substância, porque foi filmado por uma equipa de televisão a trabalhar para uma cadeia estrangeira (salvo erro, francesa) que estava nas proximidades da porta de armas do então RAL 1* durante os acontecimentos. O que recordo do filme, que só anos depois passou em Portugal, mostra um Mini com dois ocupantes (um condutor e uma acompanhante) que abranda e pára perante uma barricada montada por militares diante do quartel. Não se percebe o que se terá passado enquanto o carro esteve parado, há várias versões sobre a troca de palavras…

As imagens de maior impacto surgem depois de fazerem sinal ao Mini para prosseguir, quando, à medida que o carro se afastava se começam a ouvir tiros esparsos até que o Mini acaba por parar. As câmaras aproximam-se dele e vê-se os dois ocupantes cobertos de sangue enquanto ainda se consegue ouvir da assistência um desagradabilíssimo Estes já não fazem mal a ninguém… Essas imagens, de origem estrangeira mas referentes a um importante acontecimento passado em Portugal, permaneceram por anos desconhecidas dos portugueses, num Portugal que se orgulhava do fim da censura e da liberdade da informação…
Em contraste, essas mesmas imagens foram transmitidas na altura por quase todas as televisões da Europa ocidental, causando ao PREC um verdadeiro desastre de relações públicas: o condutor morrera e a acompanhante ficara gravemente ferida. Numa tentativa de golpe que, apesar do espectáculo, provocara apenas, feliz e oficialmente um morto (o reverenciado soldado Luís, a última vítima do fascismo…) a omissão de 50% dos mortos resultantes dos acontecimentos, na pessoa de um transeunte civil morto à frente de quase todos os telespectadores europeus, foi uma decisão ridícula.

Torna-se penosamente ainda mais ridícula 32 anos depois. Já aqui me referi a como, não reconhecendo de maneira nenhuma o mérito, reconheço o esforço de Adelino Gomes em permanecer o guardião de uma certa verdade de certos episódios jornalísticos que ele cobriu de maneira particularmente facciosa, como é este caso do acontecimentos à volta do RAL 1 em 11 de Março de 1975. Ler-se o site da RTP a eles dedicado – com a inevitável fotografia e depoimento de Adelino Gomes – é extremamente instrutivo sobre uma forma de preservação de uma certa maneira de contar toda aquela história...
Escrito mais de 25 anos depois dos acontecimentos, mas preservado à época nas partes principais (como que cheirando a naftalina), todo o texto não esconde as suas simpatias pelo lado vencedor (que a menção a um assassinato de um civil por um destacamento de soldados demasiado nervosos do lado vencedor iria estragar…) e termina referindo-se a um irónico encontro entre Diniz de Almeida e o capitão dos pára-quedistas, como tudo se tratasse de um enredo de um western, com cow-boys e índios, onde nem vale a pena perder tempo a fixar o nome dos maus – no caso, o capitão dos pára-quedistas

Do Mini baleado, como de resto acontece nas outras referências que visitei, nem sombra… Foram omissões como esta que transformaram depois todo este assunto numa bandeira da direita (do jornal O Diabo) e seguidamente numa vitória sua, quando os responsáveis pelos disparos acabaram por ser levados a tribunal e julgados. Mas parece que há pessoas a quem nem mesmo a via experimental - deixem para lá o rigor histórico... - parece ensinar alguma coisa…

* A unidade só passou a designar-se por RALIS no seguimento dos acontecimentos do 11 de Março de 1975. Aliás, uma das anedotas imediatas dos acontecimentos foi a do seu resultado: RAL 1 Spínola 0.

Quero agradecer a fotografia central – retirada do blogue A Catedral.

DOS NOMES DAS CAUSAS ÀS CAUSAS DAS PESSOAS, PASSANDO PELAS PESSOAS QUE “SÃO” AS CAUSAS


Em conversa casual com um amigo, surgiu o tópico de como se podem cobrar as rendas em atraso a organizações que tenham um nome com uma sonoridade do mais politicamente correcto que há, como por exemplo: Fórum Justiça e Liberdades. Além daquele pequeno percalço que motivou a conversa e desse nome sonante, esta organização em concreto ainda se torna característica pelo facto de ter um só elemento conhecido, de boa exposição mediática, aliás: José António Pinto Ribeiro.

Se pensarmos bem, as organizações unipessoais não deveriam existir ou, a acontecer, sê-lo-iam apenas em casos muito especiais. Na realidade elas não são nada estranhas à cultura portuguesa – a figura do empresário em nome individual está consagrada há muito entre nós. E reconheça-se que há circunstâncias das mais variadas em que o nome de uma organização dá uma distinção e uma envolvente que o seu representante nunca conseguiria obter com o seu nome pessoal. Aliás, praticamente o único subsídio que se consegue sacar em nome pessoal é o de desemprego…

Por outro lado, quando bem sucedidas, porque dirigidas por pessoas empreendedoras, as organizações medram, mas sem nunca perderem aquele seu carácter de organização unipessoal. Ainda outro dia ouvi a descrição a quem conhece bem a situação como a Associação 25 de Abril é Vasco Lourenço. Outro exemplo, cujos relatórios são regularmente invocados com aspecto de arma de arremesso técnico contra Correia de Campos é o Observatório Português dos Sistemas de Saúde onde pontifica o seu inimigo político figadal Constantino Sakellarides…

Na continuação da conversa, levantou-se a questão de como é que se podem expor estas situações? Que se pode fazer, num exemplo extremo e propositadamente ridículo, de um eventual Comité Nacional Para a Observação do Melharuco que só tem por membro o Zé Manel, que nem sequer tem binóculos nem máquina fotográfica, embora ande a receber uns subsídios verdes para fazer uns relatórios sobre as migrações das aves e para ir lá fora a congressos internacionais de observadores de pássaros?

Houvesse espírito cívico e correr-se-ia o risco de haver naturalmente denúncias que o referido Comité se resumia à pessoa do Zé Manel e que ele até tinha falta de material.... Ora como em Portugal – e muito menos à chegada desta recente fase autoritária do governo do PS… – não se deve denunciar ninguém, muito mais producente que chibar o que o Zé Manel (não) anda a fazer, devemos é fundar também a nossa organização unipessoal… Fica só é a faltar o nome – sonante… Será que as sugestões do Simplex também se aplicam a estes casos?

A fotografia do poste é de um melharuco, que o Zé Manuel sacou da Net para enfeitar o seu relatório