26 fevereiro 2016

OS MAIORES DAS RESPECTIVAS RUAS

Confesso que é com uma certa curiosidade que tenho acompanhado o processo das eleições primárias republicanas nos Estados Unidos. Contra a esmagadora maioria das opiniões expressas e apesar dos disparates que profere, assiste-se a um Donald Trump a acumular sucessos. Tantos que, na próxima semana, tudo pode ficar decidido para a sua nomeação como o candidato republicano às eleições de Novembro próximo. Tendo já ganho três das quatro disputas eleitorais estatais, na próxima Terça-Feira, 1 de Março, vão-se realizar simultaneamente eleições primárias em 12 outros estados e Trump é dado pelas sondagens como favorito para vencer em todas elas, salvo 3. It´s the democracy, stupid. Donald Trump notabilizou-se em produzir ideias que deixam as bases republicanas em êxtase: desde a expulsão de 11 milhões de emigrantes ilegais mais as suas famílias, à interdição de que os muçulmanos viajassem para os Estados Unidos ou ainda à construção de um muro a expensas do México, já houve de tudo no domínio do disparate e a ideia parece ser a de manter a coisa dinâmica: todas as semanas há um disparate novo, agora foi o de levantar a suspeita que o juiz do Supremo Tribunal Antonin Scalia, que morreu este mês e que era conhecido pelas suas opiniões ultraconservadoras, fora assassinado. Trump bem se pode assemelhar àquele amigo estúpido do facebook que partilha as ideias mais idiotas que por lá aparecem publicadas e põe likes nas teorias da conspiração mais descabeladas mas a verdade é que deve haver muitos como ele entre as bases do partido republicano nos Estados Unidos, porque o homem acumula sucessos. O que se pode vir a tornar um problema para os dirigentes e os quadro do partido caso ele consiga a almejada nomeação. Donald Trump pode ser um sujeito muito popular lá na rua dele - esta analogia só funciona para quem se lembrar do tempo em que as crianças vinham brincar para a rua - mas tem um registo francamente negativo quando se pede a opinião a todos os norte-americanos. Ou seja, é muito mal visto no bairro. Segundo as últimas sondagens e para uma notoriedade notável de 96%, aos 36% que o vêem favoravelmente opõem-se os 60% que o vêem desfavoravelmente, dos quais mais de 40% o vêem muito desfavoravelmente. Para os notáveis republicanos parece ser uma angústia virem a disputar umas eleições presidenciais apoiando um candidato assim.
Porém, o problema da impopularidade de Trump para os republicanos passará por uma pera-doce quando comparado com o problema que se estará a colocar aos notáveis do PSD face a Pedro Passos Coelho. É que Donald Trump bem pode ser acusado dos maiores dislates mas, ainda assim, tem o crédito de nunca se ter desdito, porque ainda não ocupou o poder. Pedro Passos Coelho por seu lado, tem-se notabilizado, depois do regresso à oposição, por já ter desmentido quase tudo o que dissera quando estava no governo. Assim, e só para dar dois exemplos mais recentes, houve a abolição dos quatro feriados que visava contrariar o risco da deterioração económica agora já não deteriora nada, visto que os partidos da antiga coligação governamental se abstiveram quando da votação para o seu restabelecimento. E houve também a apresentação de contas do Novo Banco, o banco que ficou com os activos considerados não problemáticos do BES, conhecido no jargão por banco bom e que recebeu na altura 4,9 mil milhões de euros para capitalização*. 20% deles voaram entretanto com os 980 milhões de prejuízo registados no exercício de 2015. Ainda bem que se está a falar do banco com os activos não problemáticos, imagine-se se fossem activos dos que dessem problemas. Nem se percebem as provisões que Stock da Cunha diz ter constituído... Mas, mais sofisticado ainda e ainda em assuntos da banca, Pedro Passos Coelho já conseguiu desdizer-se já depois de ter passado para a oposição, quando se pronunciou (abaixo em vídeo) sobre o Banif, apoiando originalmente a solução aplicada e criticando-a nem dois meses depois. Infelizmente em Portugal não se realizam (ou não se tornarão públicos os resultados das) sondagens que apurem a intensidade com que se gosta ou se desgosta de um figurão da política, como vemos que se faz nos Estados Unidos com Donald Trump. Mas teria curiosidade de saber quanto os números de Passos Coelho se diferenciariam dos de Trump. Tenho porém a intuição que actualmente há, como com Trump, uma maioria de portugueses que não gosta dele e, nela, por sua vez, uma maioria que não gosta mesmo nada dele. Enquanto assim for, e por muito que o aparelho do PSD seja controlado pelos seus próximos e ele seja o maior lá da rua dele, parece-me que o partido não terá quaisquer hipóteses de regressar ao poder. A quantidade e a qualidade da animosidade social para com Passos Coelho será o melhor cimento da actual maioria governamental.

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