11 fevereiro 2023

AS TRADICIONAIS «VITÓRIAS MORAIS» DAS EQUIPAS NACIONAIS

11 de Fevereiro de 1948. Quarta-Feira de Cinzas e, talvez por causa disso ,o jornal tem um desenvolvido tratamento a eventos desportivos. O problema é que as equipas nacionais coleccionavam desmoralizadoras derrotas, pesadas. O que não demovia os jornalistas encarregues de as narrar. Em futebol, o Benfica defrontara a equipa escocesa do Glasgow Rangers no Estádio Nacional e perdera por 3-0. Mas apesar de terem dado três-secos, os escoceses haviam vencido «sem convencer» na opinião do jornalista Tavares da Silva. Na segunda modalidade mais popular em Portugal, o hóquei em patins (de que Portugal, lembre-se, era campeão mundial), fora em Madrid que a selecção portuguesa defrontara a espanhola e esta última ganhara por uns pesados 5-0. Aqui, a explicação já não tinha nada a ver com o convencimento, antes com a fortuna dos remates dos nossos jogadores. A tradição dos jornalistas portugueses arranjarem desculpas para os maus resultados desportivos é tão ridícula quanto longínqua. Ainda agora, admitir que os outros venceram porque jogaram melhor é uma atitude completamente anti-lusitana.

10 fevereiro 2023

DILMA EM LISBOA É MELHOR NÃO

É compreensível que Lula queira dar a Dilma um qualquer cargo de destaque em jeito de desforra daquilo que lhe aconteceu em 2016. O cargo de embaixadora em Lisboa sê-lo-ia, já existiu o precedente de Itamar Franco, aqui colocado entre 1995 e 1996, logo depois de deixar a presidência. O problema será que Dilma Rousseff esteve longe de granjear muita estima e mesmo consideração pelos ocupantes do palácio das Necessidades enquanto ela ocupou o palácio da Alvorada entre 2011 e 2016. Nada que, acredito, o governo português não se dispusesse a engolir por cortesia para com Lula da Silva mas, já agora que vocês de Brasília perguntam, é melhor não. O resto da intriga, que podemos ler na imprensa brasileira, com a ex-presidente de 75 anos a dizer que «estaria bem ao lado dos netos e da filha, (...) em Porto Alegre», isso parece-me ser nove-horas da sua parte. Mas é o género de dúvida que depressa desaparecerá. O cargo de «presidente do Banco dos BRICS», a que acima se faz referência fica em Xangai, China, do outro lado do Mundo e, se eu estiver enganado e ela estiver a ser genuína, Dilma vai recusá-lo e ficar-se pelo Rio Grande do Sul...

O COMEÇO EFECTIVO DA COMUNIDADE EUROPEIA DO CARVÃO E DO AÇO

Quem for ler informação dedicada à formação da Comunidade Económica do Carvão e do Aço (CECA), uma das organizações precursoras da actual União Europeia, encontrará como data de fundação o dia 18 de Abril de 1951, quando foi assinado o Tratado de Paris. Na verdade, o verdadeiro mercado comum do carvão só começou há precisamente 70 anos, em 10 de Fevereiro de 1953, conforme se comprova pela leitura do jornal acima. Ou seja, foi apenas 22 meses depois da tão propagandeada assinatura que se veio a concretizar (apenas) uma parte do que se assinara, a do carvão. Porque, quanto ao aço, houve que esperar mais dois meses: 1 de Maio de 1953. E uma outra mentira que se instalou na narrativa oficial da história dos primórdios da União Europeia é a do grande entusiasmo como este mercado comum da indústria siderúrgica foi acolhido pelos seis países originais. O título das notícias é inequívoco em dar destaque às críticas «em França» e aos «receios franceses».

É o tipo de evocação que, para além da relevância histórica, possui a oportunidade de nos chamar a atenção para a discrepância entre os ritmos dos acontecimentos mediáticos (como o foi a assinatura do Tratado em Paris) e a concretização efectiva daquilo que foi anunciado. Tomemos o exemplo dos 3 MBT Leopard-2 que iremos ceder à Ucrânia em Março, conforme prometido por António Costa, e lembremo-nos do episódio de Outubro passado, quando o anúncio da cedência à Ucrânia dos nossos helicópteros Kamov de combate a incêndios, provocou o ultraje da Rússia(!). É que, da última vez que alguém perguntou pelo paradeiro de tais helicópteros, passadas 13 semanas do oferecimento, ainda cá estavam... Não era preciso ter-se anunciado nada e não era preciso os russos terem-se aborrecido connosco.

09 fevereiro 2023

CENAS DO EPISÓDIO CRAVINHO

Ontem houve uma audição parlamentar ao ministro João Gomes Cravinho. Antes dela ocorrer, a oposição tinha plantado uma notícia com a sua versão dos factos no Diário de Notícias. (8 Fevereiro 2023 - 00:15) Depois da audição parlamentar, e para convencer a opinião publicada que a audição correra muito bem, o governo plantou outra notícia com a sua versão no Público. (8 de Fevereiro de 2023, 18:32) No meio das duas notícias, aquilo que é obviamente cilindrado é aquela fábula sobre a independência da comunicação social.

Quanto ao que aconteceu em concreto, a opinião que formei da comparação das duas teses em confronto, é que documentalmente se torna impossível provar que João Gomes Cravinho e o secretário de Estado Jorge Seguro Sanches validaram formalmente o impressionante aumento dos investimentos feitos no hospital militar de Belém. Mas a consequência da aceitação dessa versão apresentada ontem pelo ministro, é que a iniciativa de rebentar com o orçamento terá sido do próprio director-geral Alberto Coelho, alguém com 19 anos de experiência naquele cargo e que deveria conhecer perfeitamente os riscos que correria, e isso porque havia sido subornado pelo empreiteiro e porque estaria convencido que daria a volta de alguma maneira ao ministro. Apesar disso e por ingenuidade, o ministro depois ainda o afastou da direcção-geral dando-lhe uma sinecura. Fosse eu de índole desconfiada e admitiria que haveria aventais envolvidos no assunto...

Aparentemente, o assunto Gomes Cravinho prepara-se para ser encerrado. E é encerrado com aquela associação entre a impossibilidade de provar o que terá acontecido, com a implausibilidade da versão que é a alternativa consequente. É como a história do motorista do Sócrates: ainda hoje estamos para perceber porque é que ele ia buscar dezenas de milhar em notas ao banco, o que até nos parecia legal. (Mas esse já foi a julgamento porque tinha uma pistola) O Sócrates ainda não foi...

O PRIMEIRO VOO DO BOEING 727

9 de Fevereiro de 1963. Primeiro voo de Boeing 727. O aparelho irá entrar ao serviço daí por um ano, em Fevereiro de 1964. E eu sempre tive um fraquinho pelo avião porque, dali por três anos (em 1966), pelos anos, irei receber um exemplar a pilhas, igualzinho ao que aparece abaixo...

08 fevereiro 2023

OS JOGOS OLÍMPICOS DE INVERNO DE 1948

8 de Fevereiro de 1948. Tem lugar a cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno que tiveram lugar na estância suíça de Saint Moritz. Foi o primeiro evento olímpico depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Constou de 22 competições em 4 desportos. Participaram nelas 669 atletas (77 mulheres) de 28 países (que não Portugal). Os Jogos duraram dez dias, durante os quais o Diário de Lisboa publicou uma única notícia a respeito, esta que se lê abaixo... E mesmo nesta, o revisor confundiu o hóquei no gelo com o hóquei em patins, e desconheceria como é que se escreve «bobsleigh»... Reconheça-se que em 1948 em Portugal ninguém praticaria desportos de Inverno.

O MOMENTO POLÍTICO DE HÁ QUARENTA ANOS

Republicação
Edição do Diário de Lisboa (jornal pró-comunista) de 8 de Fevereiro de 1983. Depois da desagregação da AD, que se consumara em meados do mês anterior, o país estava num compasso de espera até à realização das próximas eleições, que haviam sido marcadas para o próximo dia 25 de Abril de 1983. E as movimentações sucedem-se. Consideradas as simpatias do jornal, o destaque vai naturalmente para as greves fomentadas pelo comunistas do PCP (a amarelo, bordejado a vermelho). Parece haver até volúpia no anúncio de que No trânsito foi o caos como consequência da greve coordenada dos transportes colectivos. A luta política cega tem razões que a razão desconhece. Ao lado, na cor de laranja do PSD, aparece a notícia que assinala a saída de Balsemão, substituído por Mota Pinto. A situação também não se apresenta brilhante para o seu ex-parceiro de coligação, onde se vai nomear uma Comissão de Gestão (em azul de CDS). Mais enigmáticas são as pretensões de Carlos Candal do PS, na notícia assinalada a cor de rosa: o terço dos deputados que ele quer não se refere às ambições da quota parte dos deputados socialistas a eleger na próxima assembleia legislativa; o PS tem ambições maiores e justificá-las-á ao eleger 40% dos deputados (101); o que Carlos Candal se está sectariamente a referir é à percentagem de eleitos pelo PS que pertençam à lista do ex-secretariado que, no último Congresso, concorrera contra a lista vencedora de Mário Soares.

07 fevereiro 2023

A PROVOCAÇÃO DO BALÃO

Houve no Brasil uma anedota noutras épocas (quando eram os portugueses a emigrar para o Brasil e não o contrário, como hoje), que mostrava o quão fácil era fazer os portugueses enrabarem-se a si próprios, por causa da maneira como praguejavam. Era só dizer a um português que lhe enfiávamos um dedo no cu e a resposta era previsível: - Enfias é o c........! E Donald Trump é tão previsível e grosseiro quanto o portuga de há muitas décadas: quando se quer conferir um aspecto carnavalesco adicional ao incidente do balão chinês (afinal estamos na época), os spin doctors da Casa Branca lembraram-se de associar o antigo presidente à história, anunciando que já houvera balões chineses no tempo de Trump...
A resposta é um (previsível) disparate, tal como o era o praguejar do portuga... Comprovadamente, Trump não consegue resistir a provocações, tanto mais que neste caso em concreto, recorde-se abaixo, ele e os balões têm uma relação antiga... e especial.

TAMBÉM MILLER GUERRA RENUNCIA AO SEU MANDATO DE DEPUTADO

7 de Fevereiro de 1973. Cinco dias depois de Sá Carneiro, também o deputado Miller Guerra renuncia ao seu mandato de deputado. Miller Guerra era outro deputado da Assembleia Nacional conotado com a Ala Liberal e já aqui no Herdeiro de Aécio nos havíamos referido a ele a respeito de um debate onde interviera cerca de dois meses antes desta sua renúncia. Embora não pudesse ser enunciado explicitamente, era claro o significado político deste encadeado de renúncias. A antinomia da Primavera Marcelista expressava-se  ao longo deste Inverno de há cinquenta anos.

06 fevereiro 2023

NITIDAMENTE TEM HAVIDO FALTA DE "EMOÇÃO" NA GUERRA NA UCRÂNIA...

...o que força os jornalistas a dispersar-se por outros tópicos. E, no caso presente do balão chinês, torna-se ridículo o cuidado posto em não referir as deficiências deste método de espionagem. Porque, em comparação com outros sistemas de observação em altitude, como satélites e aviões espiões, estes balões: 1) têm enormes dificuldades em ser orientados com precisão; 2) tornam-se facilmente referenciáveis do solo, até para pessoas comuns; 3) são extremamente indefesos, como se veio a comprovar. Mas talvez mencionar todas essas deficiências, perturbe a seriedade da ameaça que está a ser invocada pelos Estados Unidos para se indignar com a China. Honestamente, aquilo que me interessa saber em toda esta história é descobrir a verdadeira causa que terá estado por detrás da única consequência do episódio: a desmarcação da viagem a Pequim do secretário de Estado americano Antony Blinken. Porque a espionagem chinesa nos Estados Unidos é algo que se conhece há muito. E, obviamente, os norte-americanos fazem o mesmo aos chineses. Quando algum dos jogadores deste jogo discreto da espionagem denuncia publicamente uma das jogadas de um adversário, é porque tem em vista ganhar alguma coisa. Como aconteceu há dez anos, quando os alemães esperaram uns quatro meses para tornarem público que os seus aliados norte-americanos haviam andado a escutar as conversas do telemóvel da sua chanceler Angela Merkel. Os alemães sacaram o que de mais próximo pode haver de um pedido de desculpas oficial.(Em contraste, Dilma Rousseff do Brasil experimentou fazer a mesma coisa, e apanhou uma grande tampa de Obama) Em suma, o balão parece ter sido pretexto para congelar à última da hora a manobra de reaproximação Estados Unidos/China. Acessoriamente também um entretém para jornalistas discutirem no seu podcast já que a guerra na Ucrânia está chata e, dentro dela, a história do envio dos Leopard-2 já está muito gasta.

A ÚLTIMA REMODELAÇÃO MINISTERIAL DE MUSSOLINI ou «A DEMISSÃO DE CIANO»

6 de Fevereiro de 1943. Na Itália em guerra, Benito Mussolini, procede a uma remodelação ministerial em grande. Substitui (quase*) todos os ministros. No fundo, o Duce apreciava estes espectaculares render da guarda, que eram uma oportunidade política para a demonstração do seu poder pessoal quase absoluto no regime fascista. O ministro das Obras Públicas, Giuseppe Gorla, descobriu o que lhe acontecera quando a sua carruagem-salão especial foi desatrelada do comboio de Palermo, a meio da visita que estava a efectuar à Sicília. Mas a cena principal ocorrera no dia anterior, por ocasião da reunião que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Galeazzo Ciano tivera com o Duce (que, por sinal, era seu sogro). Quando este último perguntou ao genro se lhe agradaria ser nomeado governador da Albânia, Ciano, que já anteciparia a demissão depois de quase sete anos no cargo, respondeu que preferiria a embaixada junto do Vaticano, colocação que o faria ficar por Roma. Mussolini começa por concordar, para depois se arrepender, mas quando Ciano já se movimentara para obter o agrément das autoridades pontifícias. Ficou assim, porque reverter a decisão, tornar-se-ia numa desfeita para o Papa Pio XII. Por estes dias de há oitenta anos, mais do que a remodelação governamental em Itália, o que concentrava a atenção dos jornalistas (abaixo) era o significado desta nova colocação do genro do Duce. Se o afastamento de Ciano do Palácio Chigi (o ministério dos Negócios Estrangeiros italiano) satisfazia os aliados alemães, a sua nova colocação no Vaticano, terreno de contactos por excelência inquietava-os e prestava-se a imensas especulações quanto a uma inflexão da política externa italiana.
* Sobreviveu apenas o da Agricultura, Carlo Pareschi.

POR ORDEM DO GENERAL…

A pretexto da morte do protagonista, republico um texto a respeito de Pervez Musharraf, originalmente aqui publicado a 12 de Julho de 2007 
Há notícias interessantes e há notícias importantes. Da combinação destes dois atributos resultam quatro resultados e uma regra, não escrita, que estabelece que a grande maioria das notícias interessantes não são importantes e que a grande maioria das notícias importantes não são interessantes. Também há as que não são uma coisa nem outra, e nisso estou, por exemplo, com Mika Brzezinski e com a sua opinião sobre a notícia da saída de Paris Hilton da prisão…

Mas o que me deixa mais intrigado são os casos em que não são exploradas daquelas raras notícias que são ao mesmo tempo interessantes e importantes, como foi o caso da ordem dada pelo general Pervez Musharraf para que o Exército paquistanês procedesse ao assalto da mesquita Lal Masjid de Islamabad, onde se tinham entrincheirado um largo grupo de radicais islâmicos. Desencadeado na Terça-Feira passada, ainda hoje se especula qual terá sido o número total de mortos causados pela operação.

Os ataques a locais onde fanáticos religiosos estavam entrincheirados foram acontecimentos que sempre saíram bem na televisão. Foi o caso do assalto do FBI ao rancho em Waco no Texas, onde se refugiaram os seguidores da seita de David Korresh, que decidiram imolar-se lançando fogo às instalações. Também foram acontecimentos importantes pelas suas consequências, como foi o caso do assalto pelo Exército indiano ao Templo Dourado em Amritsar, lugar sagrado para os sikhs.
É por isso curioso a ausência de atenção dedicada a um daqueles acontecimentos raros, ao mesmo tempo tão interessante quanto importante. E Pervez Musharraf, presidente do Paquistão e comandante-chefe das suas Forças Armadas é o homem chave de toda esta situação complicada, desencadeada sob sua responsabilidade (Ayman Al-Zawahiri o rosto da Al-Qaeda nos tempos que correm já apareceu em vídeo a condená-lo), num país cuja coesão interna sempre foi o seu maior problema.

Nunca é demais recordar que o Paquistão resulta das províncias do Império das Índias britânicas, onde havia uma maioria de população muçulmana. É um co-herdeiro, com a União Indiana (e depois de 1971, com o Bangladesh), da identidade regional estabelecida pelos britânicos para toda aquela região. Aliás, o rio Indo, de onde os gregos e depois os europeus retiraram o nome que empregam para designar o subcontinente (a designação equivalente em hindi é Bharat), corre em território paquistanês…

De uma forma sintética, o grande problema do Paquistão, quando em comparação com os seus vizinhos do subcontinente, é que, com mais de 150 milhões de habitantes, a sua população não é tão homogénea quanto a do Bangladesh (150 milhões, uma esmagadora maioria deles muçulmanos de cultura bengali), nem tão heterogénea quanto a da Índia (1.120 milhões, distribuídos por 28 estados e 7 territórios, com 18 idiomas oficiais entre 1.650 línguas utilizadas…), o que impossibilita a ascensão de um só grupo dominante.

No Paquistão há quatro (e meia…) regiões históricas: Punjab, Sind, Baluchistão e (usando ainda a designação colonial britânica) a Província da Fronteira de Noroeste, cujo acrónimo em inglês correntemente usado é NWFP. A meia região histórica mencionada acima é a parcela de Caxemira controlada pelo Paquistão (cuja maior parte está sob controle indiano), numa disputa de 1947 ainda hoje por resolver. Há ainda os territórios do Norte, da capital federal (Islamabad) e o Território Federal das Áreas Tribais.
Mais de 75% da população paquistanesa vive ao longo do vale do Indo e seus afluentes, que são as áreas mais férteis do país, onde se situam as províncias do Punjab e do Sind. Foi para melhor protecção destas regiões férteis que os britânicos se decidiram a controlar as regiões adjacentes do Baluchistão, da Fronteira Noroeste e das Áreas Tribais (ver mapas) onde se situavam os corredores naturais de invasão da Índia. O problema eram os habitantes desses corredores naturais…

A presença britânica naquelas regiões acabou por ser, por assim dizer, muito pouco presente. Aliás, a designação (que se mantém) em inglês do Território Federal das Áreas Tribais (Federally Administered Tribal AreasFATA) dá-nos uma indicação como as áreas são e eram administradas - a nível federal, longínquo… Outra pista é-nos dada pela manutenção da palavra fronteira na designação (que também se manteve) da Província da Fronteira de Noroeste (NWFP), numa indicação da sua funcionalidade para a Índia britânica…

Outro exemplo, foi em Quetta, capital do Baluchistão que os britânicos decidiram instalar em 1907 o prestigiado Instituto de Comando e Estado-Maior (Command & Staff College) do Exército britânico das Índias. Os alunos do Instituto não teriam de se deslocar para muito longe nas suas semanas de campo, especialmente quando o assunto era contra-subversão, campo onde o Instituto era muito prestigiado, tendo sido pioneiro, na década de 1920, da doutrina de emprego de meios aéreos no apoio à contra-subversão...

O dilema de qualquer governante paquistanês desde 1947 tem sido o de fazer a síntese entre as várias expressões de Paquistão. Há esta fracção ora descrita, minoritária mas que sempre foi muito insubmissa e militante, que está mais vocacionada para o vizinho ocidental – o Afeganistão – com quem tem aliás parentescos étnicos. Há também a fracção maioritária, mais sedentária e menos exuberante, nas províncias maiores do Pundjab e do Sind, embora ela também esteja dividida por divisões culturais.
O (escasso) rotativismo eleitoral que o Paquistão já teve, funcionou à volta de duas famílias de latifundiários do Punjab (os Sharif) e do Sind (os Bhutto). Qualquer mapa dos resultados eleitorais mostra que, dada a concentração regional dos votos, a vitória de qualquer um deles foi também a vitória de uma das duas principais regiões constituintes do Paquistão sobre a outra. Dada a ausência de práticas democráticas, o favorecimento de uma das facções cria, a prazo, uma enorme pressão na coesão nacional paquistanesa.

Aqueles que se consideram os verdadeiros intérpretes do ideal paquistanês são aqueles que imigraram para o Paquistão em 1947, quando da Partição, e que são conhecidos pela designação de mohajirs. Embora estejam, com os descendentes, estimados em apenas 4 a 7% da população total, a sua importância social é desmesuradamente muito superior ao seu peso social: Pervez Musharraf é um deles (nasceu em Nova Deli, na Índia), controlam economicamente Karachi, a capital económica do país e administrativamente o aparelho de estado.

São também eles os defensores da manutenção do urdu (a par do inglês) como idioma oficial do Paquistão. O urdu, actualmente conhecido através do sistema escolar por mais de 25% dos paquistaneses mas que não é o idioma nativo de qualquer dos povos que hoje pertencem ao Paquistão, é a versão islamizada do hindi, a língua oficial (também a par do inglês) da União Indiana. Apesar de escritas em alfabetos diferentes elas são inteligíveis e é por isso que a televisão indiana e os filmes de Bollywood* podem ser tão populares no Paquistão…

Mas, se as classes instruídas não se têm mostrado, na generalidade, hostis ao desempenho de Musharraf, também vieram a mostrar recentemente, através de manifestações colectivas que parecem ter bloqueado a tentativa de Musharraf de afastar o juiz Iftikhar Mohammad Chaudhry do Supremo Tribunal, que consideram que devem existir limites para o poder presidencial e que o Paquistão não deve ter à sua frente um déspota oriental como acontece normalmente com os outros países islâmicos da região.
Por causa das condições que presidiram ao seu nascimento em 1947, o Islão tem de ser sempre um componente indispensável à identidade nacional paquistanesa. Mas, como nas receitas, ele tem de ser em quantidade q.b. (quanto baste). Nada dos exageros produzidos pelas madrassas radicais das províncias marginais do Paquistão. Houve tempos, no passado, em que esses radicais foram activos de uma política externa dinâmica do Paquistão junto dos países vizinhos (Afeganistão ou Caxemira).

Agora, tornaram-se em passivos, numa chatice. Podem servir de apoio parlamentar às ficções eleitorais do regime de Musharraf mas as proezas de realizar atentados contra comboios indianos em Bombaim ou de dar apoio logístico a guerrilheiros empenhados em combate contra forças da NATO são gestos capazes de provocar a ponderação das autoridades paquistanesas sobre os benefícios recíprocos do entendimento... Embora desencadear a ruptura também tenha os seus riscos, sendo um deles o da decomposição do próprio Paquistão entre os das montanhas e e os dos rios.

Nesse eventual cenário, a Índia, que teria delirado há 20 anos com um desfecho desses, hoje tem de ter a preocupação de acautelar em quais das parcelas ficariam os detonadores das bombas atómicas… Há duas coisas que parecem certas: a política paquistanesa não se pode desviar muito das condicionantes que aqui tracei e elas manter-se-ão, qualquer que seja o protagonista, e o general estaria, de certeza, muito consciente de todas as implicações associadas à sua ordem de ataque à mesquita Lal Masjid na passada Terça-Feira…

* Trocadilho com Hollywood, referindo-se às produções de cinema indiano feitas em Bombaim, faladas em hindi e também em urdu. Curiosamente, o idioma popular em Bombaim não é o hindi, mas sim o marathi.

05 fevereiro 2023

HOMENAGEM AO(S) MALANDRO(S)

O(s) malandro(s) da ópera homónima de Chico Buarque, tendo «aposentado a navalha», «mora(m) lá longe, chacoalha(m) no trem da central». Só que aquela ópera e os malandros onde ela se inspirava já têm mais de quarenta anos. Os malandros que vieram depois desses malandros, quando vão morar «lá longe», vão para Miami, na Florida, Estados Unidos. É recordar o caso de Collor de Mello (1995-1998) e comprovar o caso actual de Jair Bolsonaro que agora descobrimos ser italiano de lei. Como rematava a letra da canção (abaixo): «Malandro é gato que come peixe sem ir à praia!»
Neste caso concreto, os apoiantes deste último malandro fizeram o que fizeram em Brasília, e ele agora alega que não esteve envolvido em nada...

COLIN POWELL NO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU

5 de Fevereiro de 2003. Numa extensa apresentação de uma hora e um quarto o secretário de Estado Colin Powell explica as razões por que o seu país considera necessário invadir o Iraque. A ocasião recebeu uma cobertura mediática pouco habitual. Tanto quanto a audiência doméstica (mesmo sendo uma reunião de um organismo internacional, ela tem lugar em Nova Iorque, nos Estados Unidos), terá existido uma preocupação em convencer directamente as opiniões públicas dos países tradicionalmente aliados dos Estados Unidos na Europa, Canadá, Japão, Oceânia e América do Sul. A grande maioria dos governos destes últimos países mostravam-se cépticos sobre as alegações dos norte-americanos e, por isso, reticentes às suas conclusões. Como qualquer espectáculo para massas, a complexidade diplomática da questão iraquiana ficou reduzida a um tópico: a existência de armas de destruição maciça (WMD na sigla em inglês) que, segundo Washington, estariam a ser escondidas pelo regime de Bagdad e que poderiam ser uma ameaça à paz mundial. Esta extensa apresentação de Colin Powell - provavelmente o membro da administração Bush com um maior índice de credibilidade popular - incidiu precisamente na exibição de provas dessa existência. A curto prazo não se mostrou convincente. E a médio prazo, depois da invasão que ocorreu mau grado as reacções, o feito foi desastroso para a credibilidade mediática global dos Estados Unidos, porque não se encontraram quaisquer armas WMD. (Vasco Rato ficou de se despir no Rossio, e ainda não cumpriu a promessa...) Pessoalmente, para Colin Powell, as consequências foram ainda piores, como ele próprio depois reconheceu (abaixo).

04 fevereiro 2023

O ANÚNCIO DA DESCOBERTA DO CORPO DE RICARDO III

4 de Fevereiro de 2013. Em conferência de imprensa, os cientistas da Universidade de Leicester do Reino Unido, anunciam que os restos mortais, que haviam sido desenterrados cinco meses e meio antes de uma vala medieval, situada debaixo de um parque de estacionamento moderno, eram, para lá de qualquer dúvida, os restos mortais de Ricardo III, um rei inglês que reinara entre 1483 e 1485 e que morrera numa batalha (Bosworth) que se travara não muito longe dali. Para obter essa certeza, várias ciências haviam-se coligado com a arqueologia: a datação por radiocarbono (para datar com a maior precisão a data de enterro do corpo e a antiguidade dos artefactos que o acompanhavam), a osteologia (já que se sabia que Ricardo III possuía uma deformação óssea), a ciência forense (para enquadrar as lesões que o esqueleto exibia, indicativos de uma morte violenta) e, finalmente, a genealogia e a genética (que permitiu efectuar comparações do DNA mitocondrial com pessoas vivas com quem Ricardo III possuiria uma correspondência perfeita). Foi só depois da confirmação conjugada de todas estas disciplinas que se procedeu ao anúncio mundial. A identificação dos restos mortais do rei Ricardo III - cujo paradeiro se ignorara por cerca de 440 anos - é um dos grandes feitos da arqueologia do século XXI. Apesar de Ricardo III continuar a ser uma personagem historicamente antipática, os restos mortais do rei vieram a ser devidamente enterrados na catedral de Leicester numa cerimónia em Março de 2015.

03 fevereiro 2023

JAIR BOLSONARO, O EX-PATRIOTA, AGORA TORNADO "ITALIANO" QUE SE REFUGIOU NA FLORIDA

Longe vão os tempos em que Jair Bolsonaro, para impressionar os seus admiradores, se postava compenetradamente de mão no peito, durante a execução do hino nacional. Parecia que ninguém o conseguia bater na expressão do mais sublime patriotismo, como se vê na fotografia acima e no vídeo abaixo (publicado por um admirador!). Foi uma encenação que durou... até ao dia do Adeus Brasil! Agora, descobre-se que afinal Bolsonaro é um (candidato a) italiano, refugiado na Florida... Isto é, descobre quem quiser, que em política há estúpidos para continuar a acreditar em tudo.

O ACIDENTE DE TELEFÉRICO DE CERMIS - AS ENCENAÇÕES E OS FACTOS

3 de Fevereiro de 1998. Dá-se um acidente em Itália quando uma cabine de teleférico que transportava 20 pessoas cai de uma altura de cerca de 150 metros. Todos morreram. Na sua maioria eram turistas de férias (7 alemães, 5 belgas, 3 italianos, 2 austríacos, 2 polacos e 1 holandesa), já que o teleférico servia uma estância de esqui situada nos Alpes Dolomitas, a 40 km a nordeste da cidade de Trento no Norte de Itália. Os acidentes com teleféricos são raros, mas de pesadas consequências. Neste caso, contudo, existira uma causa externa que o provocara: um avião militar norte-americano que, desrespeitando todas as regras de segurança de voo naquela área, cortara com a sua asa o cabo de sustentação do teleférico precipitando a cabine cheia de pessoas para o abismo. O que aconteceu a partir desse facto é que confere notabilidade a este acidente. Como é natural, as autoridades italianas quiseram levar o piloto e o navegador do avião a julgamento. Porém, as regras estabelecidas pela NATO - os aviadores estavam estacionados numa base aérea italiana no quadro dos acordos daquela organização - estabelece que, nestes casos, a jurisdição pertence à justiça militar das forças armadas a que os réus pertencem. Para efeito de imagem, o próprio presidente Bill Clinton apareceu, passado dois dias, a professar um muito compungido pedido de desculpas aos italianos, prometendo o completo esclarecimento do caso (abaixo). Contudo e em concreto, o julgamento dos dois aviadores veio a terminar em Março de 1999 e com a absolvição de ambos! Isso, conjugado com o bloqueio pelo Congresso dos Estados Unidos de uma verba de 40 milhões de dólares que seria destinada a compensar os danos materiais e a indemnizar as famílias das 20 vítimas, causou uma verdadeira fúria diplomática do governo italiano. Para o aplacar, as autoridades militares americanas arranjaram um pretexto técnico para que houvesse outro julgamento dos mesmos militares de onde eles saíram condenados - e expulsos - por... obstrução à justiça (haviam destruído o vídeo que filmara o voo). A grande lição de tudo o que aconteceu, vendo a expressão de Bill Clinton abaixo, é que quem vê caras não vê corações...

02 fevereiro 2023

RONALD REAGAN E A DELEGAÇÃO AFEGÃ

2 de Fevereiro de 1983. O presidente norte-americano Ronald Reagan recebe na Sala Oval da Casa Branca uma delegação de líderes da resistência afegã, quando o Afeganistão fora invadido e ocupado três anos antes pelos soviéticos. Repare-se a inclusão na delegação de uma interprete (à direita), porventura mais desenvolta a exprimir-se em inglês para que o presidente Reagan percebesse directamente a mensagem que os afegãos lhe viriam trazer, muito embora ele tivesse junto a si também um tradutor. O presidente americano saiu da reunião a designá-los por freedom fighters (combatentes da liberdade), o que era notoriamente um exercício de propaganda. Curiosamente, esta mesma fotografia foi ainda há poucos anos utilizada inapropriadamente quando a legendaram explicando que se tratava de uma delegação de talibãs, quando o aparecimento destes últimos é pelo menos meia dúzia de anos posterior ao fim da presidência de Ronald Reagan... Onde nos pode levar a ignorância!

RESOLVER O QUÊ E COMO E COM QUEM

Nunca se ganhou tanto dinheiro na saúde privada como com o Governo da António Costa. O problema do SNS não é nenhum CEO que vai resolver.

Depois do postal de Paulo Rangel de há três dias, cá temos outro, fortíssimo no diagnóstico, desta vez da autoria de Luís Montenegro, que eu subscrevo inteiramente. Aquele artifício do colocar um CEO a dirigir a saúde pública não parece augurar grandes resultados. Tanto mais que o protagonista - o CEO Fernando Araújo - parece estar a precipitar um antagonismo norte-sul no aparelho administrativo da saúde, aquele género de atitude que conduz a desfechos sempre imprevisíveis (Pinto da Costa deu-se e dá-se bem; mas Belmiro de Azevedo deu-se mal). Mas adiante, para lembrar que a questão que Luís Montenegro levanta e o diagnóstico (correcto) que ele formula - que os grandes problemas não se resolvem com homens providenciais - também se aplica ao seu caso, quando se apresenta para dirigir o país em substituição de António Costa. Mais uma vez para recordar o quão impreparado ele está para resolver seja o que for, já que ele não tem qualquer experiência governamental prévia. Isso pode não ter qualquer importância para o universo laranja (o aparelho do PSD); mas para o país a sério tem. Já bastam os disparates que Pedro Passos Coelho - que estava nas mesma condições de impreparação - cometeu quando chegou ao poder em Junho de 2011.

FRANCISCO SÁ CARNEIRO RENUNCIA AO SEU MANDATO DE DEPUTADO

2 de Fevereiro de 1973. Numa sessão em que houve votação por votação por voto secreto, os deputados da Assembleia Nacional aprovaram por 76 contra 9 o pedido de renuncia do deputado Francisco Sá Carneiro. Polémica até ao fim, esta passagem pelos corredores do poder do Estado Novo por parte do futuro dirigente do PPD/PSD e primeiro-ministro (1980), assinala-se pelo desconhecimento oficial das razões que apresentou para o gesto, já que a sua declaração de renúncia não ficou anexada ao Diário das Sessões (parlamentares), conforme fora sempre uso em ocasiões anteriores semelhantes. Mas isso era apenas uma questão de forma, já que, na substância, a dissociação de Sá Carneiro do movimento (aparentemente) reformista que Marcello Caetano protagonizara quando sucedera a Salazar, já se vinha a verificar desde há dois anos, pelo menos...