15 de Junho de 1945. É o último dia de um prazo de doze dias estabelecido pelo governo provisório do general de Gaulle para que os franceses procedessem à troca de todas as notas de banco na sua posse por outras novas. Para o efeito haviam sido disponibilizados cerca de 34.000 locais por todo o país (agências bancárias mas também estações de correio e outros locais públicos ou semi-públicos) para que se procedesse à transacção, no regime da permuta de um para um: o mesmo montante de francos apresentados, desde as cédulas de 50 até às de 5.000 francos. O objectivo anunciado era o de controlar a massa monetária em circulação no país, após cinco anos de vacilações na sua gestão sob autoridades distintas, desde o governo de Vichy e por detrás os alemães (1940-44), até ao GPRF e por detrás os aliados (1944-45). Para além do controlo da inflação, um outro objectivo anunciado desta operação era o de estabelecer um cadastro das fortunas que se haviam forjado sob a ocupação (1940-44). A guerra e a ocupação, por efeito da valorização relativa da produção agrícola, produzira uma transferência substantiva da riqueza detida pelos franceses dos cidadãos urbanos para os rurais. Numa avaliação final, a operação saldar-se-á como um sucesso: praticamente quase toda (92%) a circulação fiduciária será trocada - ficarão de fora 35 mil milhões de francos (8%). Mas isso quanto aos aspectos logísticos. Quanto ao rastreamento das novas fortunas o sucesso foi muito ténue: a maior parte dessas fortunas estavam, se não fiscal, social e politicamente rastreadas. E quanto ao controlo da inflação há que assumir o fiasco: dos 46% de 1944, ela passou para 52% em 1945 e ainda se ficou pelos 49% em 1946.
15 junho 2020
14 junho 2020
ULTIMATO E OCUPAÇÃO DA LITUÂNIA PELA UNIÃO SOVIÉTICA
14 de Junho de 1940. Porventura aproveitando a concentração das atenções na outra extremidade da Europa, a União Soviética apresenta um ultimato à Lituânia com um conjunto de novas exigências políticas e militares. Normalmente, quando se fala deste assunto, não se refere que os soviéticos já tinham estacionados 20.000 soldados na Lituânia antes desta última iniciativa que culminará com a anexação pura e simples do país. Aliás, esse mesmo contingente foi aproveitado como pretexto para que os soviéticos exigissem a demissão de vários membros dos altos comandos militares e policiais lituanos que se mostravam hostis à sua presença. Apesar da gravidade dos acontecimentos, a situação não era inédita. A Lituânia era (é) um país pequeno, propenso a receber ultimatos dos vizinhos mais poderosos do que ele - em dois anos, este era o terceiro ultimato, depois de um da Polónia em 1938 e de outro da Alemanha em 1939. Formaram-se duas facções entre o topo do governo. Ganharam os "pragmáticos", e o presidente Antonas Smetona (1874-1944), um nacionalista de direita que queria que se resistisse militarmente, «partiu para o estrangeiro» como se pode ler abaixo (o estrangeiro era a Alemanha...). Entretanto, novos destacamentos de tropas soviéticas haviam entrado na Lituânia sem que tivesse havido «quaisquer incidentes». Daí por um mês e meio a Lituânia era anexada à União Soviética. Quanto ao desfasamento que se nota entre os acontecimentos e a publicação das notícias ele é explicado pelo próprio jornal «em virtude da perturbação causada pela transferência das agências telegráficas que tinham os seus escritórios em Paris». (Paris que, precisamente também neste dia 14 de Junho, estava a ser ocupada pelas tropas alemãs). Quando as notícias da Lituânia eram conhecidas, dia 16 de Junho, já a Estónia e a Letónia estavam, por sua vez, a ser invadidas.
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A IMPORTÂNCIA DA REPRESENTATIVIDADE PARLAMENTAR OU O VALOR DA CUSCUVILHICE POLÍTICA?
O CDS está representado no parlamento por cinco deputados. O PAN elegeu menos um: quatro. Agora: alguém imaginaria o Expresso a dar um espaço (pelo menos) proporcional ao do artigo acima com as intrigalhadas internas no PAN?... Melhor, e já que no artigo supra se citam dez nomes de membros destacados do CDS (Chicão, Mesquita Nunes, Lobo de Ávila, Lobo Xavier, Nobre Guedes, Pires de Lima, Gonçalves Pereira, Paulo Portas, Manuel Monteiro e Sílvio Cervan), será que lá na redacção do jornal, haverá quem consiga (sem cábulas...) evocar uns oito nomes entre os dirigentes do PAN?... Em coscuvilhice política dentro dos pequenos partidos, desconfio que deve haver muito mais do que só a do CDS e a Joacine, mas têm é que se apresentar as personagens, como nas telenovelas...
Adenda de dois dias depois: Nem de propósito, ou porque neste blogue se é muito presciente, ou então porque é muito lido em círculos influentes(...), um par de dias passados, os jornais anunciaram a dissidência do eurodeputado do PAN Francisco Guerreiro e da «deputada municipal e dirigente nacional» Sandra Marques (por acaso, ficámos a saber que era casada com o primeiro - temos assim uma dissidência em estilo grupo Broa de Mel). Para as minhas contas, só ficam a faltar seis outros nomes (e personagens) de dirigentes do PAN que os jornalistas vão ter de desenterrar para os seus enredos... Adenda de vários dias depois: Afinal lá apareceram mesmo nomes, para preencher os enredos...
Adenda de dois dias depois: Nem de propósito, ou porque neste blogue se é muito presciente, ou então porque é muito lido em círculos influentes(...), um par de dias passados, os jornais anunciaram a dissidência do eurodeputado do PAN Francisco Guerreiro e da «deputada municipal e dirigente nacional» Sandra Marques (por acaso, ficámos a saber que era casada com o primeiro - temos assim uma dissidência em estilo grupo Broa de Mel). Para as minhas contas, só ficam a faltar seis outros nomes (e personagens) de dirigentes do PAN que os jornalistas vão ter de desenterrar para os seus enredos... Adenda de vários dias depois: Afinal lá apareceram mesmo nomes, para preencher os enredos...
O JULGAMENTO DO «ANGOLA E METRÓPOLE»
Sábado, 14 de Junho de 1930. Decorrera no dia anterior a vigésima terceira sessão do julgamento do caso do Banco Angola e Metrópole (hoje mais conhecido através do nome do seu réu principal, Alves dos Reis) e a edição do Diário de Lisboa de há noventa anos dedicava à cobertura do acontecimento a nobreza do espaço das suas páginas centrais. Vem a propósito desta evocação lembrar se chegará a haver e, caso os haja, como será a cobertura mediática de julgamentos de pessoas igualmente interessantes dos tempos modernos, como José Sócrates ou Ricardo Salgado...
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GRANDES DISCURSOS DESTINADOS A SEREM ESQUECIDOS
14 de Junho de 1940. «Algures de França» (a censura não o permitiria especificar, mas tratava-se de Bordéus), o presidente do Conselho Paul Reynaud pronunciara uma arrebatadora «alocução pela Radio»: «Nesta hora que vivemos, em que a sorte nos é desfavorável, quero proclamar ao Mundo o heroísmo dos nossos soldados. A alma da França não está vencida! A nossa raça não se deixa abater por uma invasão!»
Eloquente, o texto irá revelar-se inconsequente do ponto de vista histórico. Quatro dias depois, o subsecretário de Estado da Guerra do governo de Paul Reynaud irá pronunciar por sua vez, aos microfones da rádio londrina, um discurso medíocre, não muito apelativo, em prol da resistência dos franceses contra a colaboração com os vencedores. Este outro orador chamava-se Charles de Gaulle e o discurso, apesar de não se comparar estilisticamente com o de cima, ficará para a História.
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13 junho 2020
PESSOAS SATISFEITAS CONSIGO MESMAS
Uma das virtudes das novas tecnologias, nomeadamente das redes sociais, é a de podermos aceder à satisfação alheia, quando ela é confessada e mesmo exibida, para que a usufruamos por interposta pessoa. É uma felicidade que se consegue desfrutar por intermédio de outrem, mas que nos deixa felizes, mesmo assim. Apreciemos abaixo, à esquerda, numa página de facebook recente, um fumador de charutos clássicos, também leitor e certamente pessoa curiosa do que acontecia nos meandros da diplomacia francesa de há 70 anos, que, compartilhando connosco toda a sua felicidade, assinalando em desfrute (antecipado?) a coincidência de que a marca do charuto que escolheu tem o mesmo nome do livro que lê, Quay d'Orsay, recuperado este último (livro) porventura de um bouquiniste daqueles tradicionais das margens do Sena. Quay d'Orsay como metonímia da diplomacia francesa, titulo elegante e portentoso, em qualquer dos casos, do charuto e do livro. «E são ambos bem bons!» - remata o autor em desabafo, acariciando a intenção de excitar as invejas de quem o leia no facebook.
Outra das virtudes das novas tecnologias é a de nos dar um poder de escrutínio como nunca tivemos. Aquilo que é dito nas redes sociais pode agora ser corroborado em minutos, mercê de poderosos instrumentos de busca, que nos confirmam (ou desmentem) o que aparece escrito. Usando-os, vim a descobrir que, a marca do charuto que tanto prazer parece dar ao protagonista do parágrafo inicial, «parece estar gradualmente perdendo terreno»; aliás, «no geral, a marca estava fadada ao fracasso», se se acreditar no que se publica numa página dedicada à história por detrás da marca Quay d'Orsay. Quem poderá corroborar? Eu não, que já deixei de fumar há dezassete anos. Em contrapartida, continuo a ler. Mas sobre Quay d'Orsay o livro, aquilo que encontrei foi uma recensão na página da revista Foreign Affairs. Com a data de 1957, o comentário é curto mas concludente: «uma grande dose de recepções e de fofocas diplomáticas, mas não uma contribuição particularmente substancial». O melhor destes episódios de exibicionismo fátuo é o poder apreciar a satisfação das pessoas consigo próprias.
UMA OUTRA CIMEIRA HISTÓRICA HÁ VINTE ANOS
13 de Junho de 2000. Quase cinquenta anos passados sobre a eclosão da Guerra da Coreia, tem lugar na capital da Coreia da Norte (o país que desencadeou essa guerra) a primeira cimeira intercoreana com a presença dos presidentes das duas Coreias - a do Norte, a invasora, e a do Sul, a invadida. O ambiente parece ter sido tenso e pouco propenso a sorrisos (foto acima), mas isso não impediu que o acontecimento tivesse sido classificado - previsivelmente - pelos órgãos de informação de todo o mundo como histórico. Como tradicionalmente, quando os acontecimentos são assim classificados no momento em que ocorrem, existe uma grande probabilidade que acabem varridos para o caixote do lixo do esquecimento. Foi o caso. Não ajudou nada ao prestígio dos intervenientes ter-se vindo a descobrir que a Coreia do Sul pagara algumas centenas de milhões de dólares à Coreia do Norte, já que o evento fora um impulso na carreira doméstica e internacional do presidente sul-coreano Kim Dae-Jung (acima, à esquerda). Ele veio inclusive a receber o Prémio Nobel da Paz em 2000. Enfim, aspectos do assunto que não se sabiam na altura da cimeira e que não interessa agora desenvolver...
O que é interessante para acrescentar nesta história, para além da celebração do vigésimo aniversário do acontecimento, é que depois da cimeira histórica de 2000, ter-se-á desencadeado uma tendência para que se repetissem as cimeiras históricas, em 2007, em 2018 (três - Abril, Maio e Setembro), a ponto de se poder dizer, como se lê acima, que existe uma história destas cimeiras históricas. Mas o assunto desta história histórica estava ainda longe de estar encerrado pois, para além da sempre ansiada reunificação das duas Coreias, ele recebeu o contributo mais recente, exuberante e portentoso de Donald Trump. Com este último, e com as cimeiras que ele já arranjou à sua conta (Singapura, Hanói, DMZ - abaixo), aquela que fora até então uma história histórica, tornou-se uma história histórica histriónico. Donald J. Trump que, recorde-se, e como o outro, não é homem que não tenhamos em conta de dizer que não a comprar um Prémio Nobel da Paz...
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12 junho 2020
RUY COM Y
12 de Junho de 1970. Para o caso, é irrelevante aquilo que a notícia dirá sobre Rui Patrício, o então ministro dos Negócios Estrangeiros português, recentemente nomeado para aquele cargo (em Janeiro) por Marcello Caetano. O destaque vai inteirinho para o Y do nome Ruy, uma moda caricata de há cinquenta anos, que pretendia apor categoria aos actores políticos, se o seu nome fosse grafado com alguma especificidade, como a consoante dupla em Marcello Caetano, ou o arcaísmo do apelido em Américo Thomaz, ou então, neste caso, um estrangeirado y no nome próprio do jovem (37 anos) ministro dos Estrangeiros.
11 junho 2020
A CONSPIRAÇÃO A FAVOR DA AMÉRICA
O título deste poste é apenas um trocadilho baseado no título de uma conhecida obra de Philip Roth (conheço o enredo e a realidade americana em que se baseia, mas nunca a li). A propósito, repare-se no cuidado como alguns aspectos mais inconvenientes da actualidade norte americana são noticiados, mesmo em estações de TV consideradas mais hostis para com a administração Trump, como é o caso acima da CNN. O ênfase como se noticiam os protestos nas ruas de dezenas de cidades (ontem entrara-se no 16º dia de protestos) deixou de ser acompanhado do realce que, num significativo número dessas cidades, essas manifestações são uma violação do recolher obrigatório imposto (veja-se esta lista da mesmo CNN de quarenta cidades onde a medida estará em vigor - e onde é letra morta). A evidência é que a intenção original das autoridades de conter os protestos populares espoletados por (mais) um episódio de violência policial saldou-se em - e continua a saldar-se por - um completo fiasco. A dissuasão falhou. Nessa perspectiva, a constatação da impotência das autoridades americanas (a todos os níveis: locais, estaduais e federais) afigurar-se-á muito mais séria do que os tweets ridículos e bombásticos (e outras iniciativas...) de um ocupante da Casa Branca completamente ultrapassado pelos acontecimentos. Mas será precisamente porque o assunto é sério, que, mesmo as TVs com reputação mais contestatária, pegam no assunto das manifestações como se pega um touro de cernelha: sem o enfrentar (noticiar) pelos cornos da desobediência civil que elas representam. A CNN e a MSNBC são contra a América de Trump mas não são assim tão radicais que queiram dar ideias àqueles mais militantes que se lhe oponham...
NOTÍCIAS IMPORTANTES QUE NÃO DERAM GRANDES CABEÇALHOS
11 de Junho de 1945. Só um mês depois do fim da guerra na Europa, e por publicitação do Congresso Mundial Judaico, se começava a perceber as consequências da política de extermínio das populações judias da Europa levada a cabo pelas autoridades alemãs durante o conflito. Conforme se lê no corpo da notícia, de uma população de 7.065.000 judeus que existiam originalmente na Polónia, Alemanha, Roménia, Checoslováquia, Hungria, Lituânia, França, Áustria, Holanda, Letónia, Jugoslávia, Grécia, Bélgica, Itália e Bulgária, agora só se encontravam 1.195.000. Contando com outros 657.000 que se conseguiram salvar emigrando, resultava um saldo de 5.213.000 judeus exterminados pelos alemães, dos quais 3.005.000 de origem polaca. Eram números impressionantes mas, aparentemente, o Diário de Lisboa não se consciencializava da gravidade do conteúdo da notícia, remetendo-a para as páginas centrais.
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10 junho 2020
VOCÊ AINDA SE LEMBRA DE COMO FOI A ÚLTIMA VEZ EM QUE UM MINISTRO DAS FINANÇAS SAIU A MEIO DO MANDATO?
Se bem me recordo, dessa última vez em 1 de Julho de 2013, o problema não se punha ao nível de nos interrogarmos se as contas do ministro cessante estavam certas ou não (estavam erradas quase de certeza, embora não fosse por isso que as pessoas, estupidamente, criticassem o ministro, como se depreende do incidente descrito abaixo). Por muito que isso pareça custar ao Observador, evoluiu-se um poucochinho no nosso grau de exigência nestes últimos sete anos quanto ao que se pede quanto a desempenho de ministros das Finanças. E ainda bem.
Outra maneira engraçada de apreciar as diferenças de hoje para há sete anos é transformar em notícia aquele que dá a(s) notícia(s). Compare-se abaixo o que diz David Dinis no Expresso sobre a saída de Centeno com o que lhe ocorria dizer naquela altura no Sol aquando da saída de Gaspar. Se agora Centeno é descrito como alguém que vai abandonar o cargo "apesar das incógnitas que há pela frente", Gaspar era então descrito como um pacato cidadão que voltava "ao seu lugar de consultor", sem que Dinis produzisse considerações adicionais quanto à oportunidade e razões para o abandono do cargo. A narrativa era ainda complementada com o desmentido adicional que uma história enxovalhante que corria a seu respeito era, afinal, falsa. Eu bem sei que nós não andamos nesta vida para procurar ser coerentes mas... que porra!...
A ITÁLIA DECLARA TEATRALMENTE GUERRA À FRANÇA E AO REINO UNIDO
10 de Junho de 1940. Em plena batalha de França, a Itália declara teatralmente guerra à França e ao Reino Unido. Poder-lhes-ia ser irrelevante do ponto de vista político imediato, mas o timing era horrível para a reputação internacional da Itália. Ao contrário das declarações iniciais de Setembro de 1939, discretas trocas de notas entregues nas chancelarias, esta foi pretexto para um enorme comício presidido, de uma forma que hoje tomaríamos por apalhaçada, pelo próprio Duce, Benito Mussolini. Na intimidade, sabemos hoje, Mussolini não se comovia nada com o espectáculo que protagonizava: «Então não compreende que preciso de alguns milhares de baixas para me sentar na conferência de paz?» - viria ele a perguntar ao marechal Badoglio quando exigia deste último resultados militares que não apareciam. Mas na cena pública de há precisamente oitenta anos, com uma expressão severa e as mãos postadas no cinturão, os destinatários eram mais os de consumo interno do que a intimidação dos inimigos.
É pensando nestes exemplos históricos e vendo-os, de alguma forma, repetidos nos dias que correm, que me ocorre perguntar o que se virá a descobrir quando tivermos acesso à intimidade de Donald Trump e ao que ele pensa. Se ele chegar a pensar alguma coisa de válido. Porque, pela aparência do que se observa, nos anais da comunicação, nunca um palhaço foi tão apalhaçado...
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09 junho 2020
CONSIDERAÇÕES ESPECULATIVAS A RESPEITO DE UM CÃO SEM MANEIRAS
Este episódio ocorreu já há mais de dois anos e meio. A meio de uma entrevista a Emmanuel Macron, o cão - que, para o caso, tanto pode ser verdadeiramente dele quanto um adereço que convém para imagem pública que um presidente tenha - desestabilizou completamente o ambiente pondo-se a mijar desavergonhadamente na lareira enquanto os jornalistas colocavam questões ao presidente francês. Este último, perante a risada geral, ironiza com a situação - «perturbaram completamente o meu cão, bravo!» - para depois assumir a posse do cão e a responsabilidade pelos seus actos, pedindo desculpa. Contudo, se agora recuperei a cena, foi para a imaginar se protagonizada por Donald Trump. Primeiro, não tinha havido comentário irónico; a ironia é algo que o presidente americano, de tão estúpido, nem sequer sabe que existe. E depois: ou ele não era dono do cão, ou a culpa fora do cão, ou o cão nem tinha mijado na lareira, ou nem sequer tinha existido cão algum, tratara-se de fake news dos entrevistadores...
O ALTO FUNCIONÁRIO AMERICANO QUE NÃO PERCEBERA LÁ MUITO BEM O CONCEITO DE «CORTINA DE FERRO»
9 de Junho de 1960. Um alto funcionário norte-americano chamado James P. Grant - virá a fazer uma carreira bem sucedida na ONU - teve direito aos seus quinze minutos de fama quando, numa audição de uma comissão no Congresso dos Estados Unidos, se referiu à influência dos soviéticos na Guiné Conakry como o embrião de uma «cortina de ferro» na «África Negra». Os «técnicos do bloco soviético controlavam, inclusive, os emissores de rádio do país»! Soava bombástico, mas era uma ameaça um pouco disparatada.
Por sinal, aquilo que provocara a oportunidade para a penetração da influência soviética fora um vazio sancionatório. A França castigara a sua antiga colónia por mau comportamento e retirara-lhe todo o apoio técnico às infraestruturas, áreas onde o novo país não possuía quadros nativos. Mas, pior, uma simples observação de dois mapas, o da Guiné Conakry quando inserida na «África Negra» - acima - e o dos contornos da verdadeira «cortina de ferro» - abaixo - mostrava como não fazia sentido a analogia entre uma coisa e outra.
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08 junho 2020
UM GOLPE DE ESTADO «À MANEIRA»
8 de Junho de 1970. Na Argentina ocorre um daqueles golpes de estado latino-americanos como agora já não se fazem. O presidente (e também general) Juan Carlos Onganía (1914-1985) é deposto por uma Junta Militar que era composta pelo general Alejandro Lanusse, o almirante Pedro Gnavi e o brigadeiro Carlos Alberto Rey, que encabeçavam então cada um dos três ramos das forças armadas argentinas. Cumprindo o figurino, as unidades militares aquarteladas especialmente em Buenos Aires, saíram para as ruas e ocuparam os sítios considerados estratégicos do costume. A Argentina estava habituada aos procedimentos: só nos quinze anos anteriores já houvera três golpes do mesmo género - 1955, 1962 e 1966. Neste, Onganía ainda fez um esboço de resistência, a contar com a "lealdade" dos 1.200 homens da guarnição da guarda presidencial na Casa Rosada. Só serviu para protelar as coisas. Depois de doze horas de negociações, o presidente em exercício, que também lá chegara na sequência de outro golpe de estado, resolveu renunciar ao cargo «para evitar a deflagração de uma guerra civil», o que quer dizer que os outros eram mais, estavam melhor armados, e poucos na sua guarda estavam com disposição de andar aos tiros por sua causa. Por causa da teimosia, os revoltosos obrigaram-no à praxe de ter que ser ele a ir ao PC dos insurrectos sob escolta, para apresentar pessoalmente a sua resignação por escrito. Um punhado de dias depois, e depois de muita confabulação entre as altas patentes, a Argentina tinha um novo presidente, o, até aí, adido militar da embaixada argentina em Washington, o (então) brigadeiro Roberto Marcelo Levingston (1920-2015), que vemos abaixo.
07 junho 2020
A FRONTEIRA ODER-NEISSE
7 de Junho de 1950. Em Varsóvia, representantes dos governos da República Popular da Polónia (Józef Cyrankiewicz) e da República Democrática Alemã (Walter Ulbricht) assinam um protocolo a que deram o nome de Declaração de Varsóvia em que definiam a linha Oder-Neisse como a fronteira entre os dois países. Formalmente, tratou-se de uma decisão forçada, impulsionada pelos soviéticos que tutelam as duas repúblicas democráticas e populares, já que o traçado da nova fronteira germano-polaca, provisoriamente acordado com aquele traçado, teria que ter sido definitivamente decidido só com a concordância das quatro potências aliadas (soviéticos, americanos, britânicos e franceses). E, para além desse formalismo, acrescia também a pertinência do interesse da República Federal da Alemanha, que também não fora consultada quanto ao assunto. É curioso que a primeira referência ao assunto na comunicação social portuguesa não tivesse sido a assinatura do protocolo em si, mas, no dia seguinte, o posterior protesto dos britânicos quanto à validade daquela assinatura. Na prática, os factos impuseram-se: a Alemanha Federal acabou por aceitar aquele traçado em 1970, a Alemanha em vias de se unificar acabou por fazê-lo em 1990. Mas este é um daqueles assuntos adormecidos. O receio dos polacos de que os alemães venham a regressar às terras que outrora lhes pertenceram, nota-se pela cláusula transitória especial que impede os estrangeiros de comprar terras agrícolas na Polónia. A cláusula terminava inicialmente em 2011, foi prorrogada até 2016 e agora está em vigor até 2021.
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VINHO VERDE MURALHAS
Aqui há uns dias bebi uma destas garrafas de vinho verde Muralhas em memória de um amigo, recém falecido, que muito o apreciava para empurrar marisco. Foi uma das vítimas colaterais do confinamento, embora não propriamente da covid-19. E ao evocá-lo na memória, assumi uma das minhas derrotas, a de jamais o ter conseguido persuadir que o Maio de 1968 não apenas tivera uma importância histórica diminuta, como no fim fora ganho pelos gaullistas no poder - na rua e nas urnas. Para esse meu amigo, que em Maio de 1968 tinha 20 anos, representara algo de muito simbólico e significativo, capaz de ombrear mesmo com a revolução francesa, não tivesse ele então vinte anos... Mas a verdade é que os cinquenta anos desde então transcorridos não o levaram a mudar de opinião e foi com essa opinião errada que morreu. E é assim que eu a ele lhe devo ter aprendido um fenómeno que os tempos modernos revelaram e continuam a revelar todos os dias, sobretudo aqui pelas redes sociais: a de que muitas convicções que se formam e se exprimem emanam sobretudo do domínio do religioso e muito menos do científico. Durante muito tempo, atribui-se esse absurdo à falta de formação e cultura das pessoas. Mas nestes tempos modernos essa explicação faz cada vez menos sentido. As pessoas recebem cada vez mais formação, e têm acesso a muito mais informação, mas descartam-na. A formação serve-lhes, muitas vezes, apenas para elaborar de forma mais sofisticada o primarismo das convicções que elas já trazem formuladas de antemão. O que acabamos por nos lembrar ao saborear uma garrafa de Muralhas!
06 junho 2020
O PAÍS DAS OMELETES SEM OVOS (ou das candidaturas sem candidatos)
Absurdo o meu, o de ser uma daquelas pessoas que se acostumou a que a matéria prima política indispensável à existência de uma candidatura ser a disponibilidade do candidato para se candidatar. Em Portugal isso não é imperativo. Basta haver uns maduros que acham umas coisas, e uns órgãos de comunicação social que façam publicidade aos disparates pensados por esses maduros. O que não é despiciendo para a actividade dos jornais, visto que a existência de uma candidatura que não tem sequer a anuência dos (proto)candidatos (Ana Gomes e Adolfo Mesquita Nunes), não constitui obstáculo a que, como se percebe acima, se possam descrever as imensas iniciativas e escrever as imensas opiniões, a respeito de um assunto que, afinal, nem sequer existe por ausência material daquilo que se reputa indispensável numa candidatura: candidato. No domínio da fantochada, há um programa de comentário político ao fim de semana que tem por título o GOVERNO-SOMBRA. No Observador, já que fazem tanto gosto, podiam-lhe fazer concorrência com um programa que se intitulasse PRESIDENTE-MIRAGEM...
AS PRIMEIRAS TRÊS COMPANHIAS DE «CAÇADORES ESPECIAIS»
6 de Junho de 1960. Em Lisboa, embarcam no navio Uíge as primeiras três companhias de «caçadores especiais» que irão prestar uma comissão de serviço em Angola. Serão as primeiras de muitas centenas de unidades militares com uma orgânica semelhante (acima, quadro síntese da composição de uma dessas unidades, extraído de Guerra Colonial de Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes) nos quinze anos de guerra que se seguiriam, até à concessão da independência a Angola em Novembro de 1975. Centenas de milhares de portugueses guarnecê-las-ão. Presentes à cerimónia de embarque de há sessenta anos está a nata do exército: o ministro (coronel Almeida Fernandes) e o subsecretário de Estado da pasta (tenente-coronel Costa Gomes), o chefe de estado-maior das Forças Armadas (general Beleza Ferraz), o chefe do estado-maior do Exército (general Câmara Pina) e todo um elenco de entidades que a presença das enumeradas arrastava atrás de si. A cerimónia revestiu-se de uma pompa que a banalização dos embarques veio a tornar supérflua. Refira-se o inusitado gesto do Diário de Lisboa de destacar na notícia a identidade dos capitães comandantes das companhias: num escrupuloso respeito militar pela antiguidade, os capitães Teles Grilo, Ceia (sic) Ramos e Alves (sic) Carneiro. Como se percebe pelas notas (sic), o escrupuloso respeito pela antiguidade não terá sido acompanhado de igual respeito pelo rigor das identidades dos nomeados, e comprovando que estas gaffes jornalísticas são intemporais e têm consequências, por causa dos descuidos com os apelidos é impossível identificar naquele último capitão Alves Carneiro o futuro general Soares Carneiro, candidato presidencial derrotado em 1980 e também futuro chefe do estado-maior das Forças Armadas (1989-94).
É SÓ VOCÊ QUE NÃO SABE QUEM FOI O CORONEL ANTÓNIO MARIA BAPTISTA?
6 de Junho de 1920. Enquanto decorria o conselho de ministros, o primeiro-ministro português, o coronel António Maria Baptista sofre um AVC (acidente vascular cerebral). Vem a morrer seis horas depois. Entre as homenagens póstumas, é promovido por distinção ao generalato e condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada, a mais elevada condecoração portuguesa. Fora o primeiro-ministro por três meses (de 8 de Março a 6 de Junho de 1920) e hoje, quando se celebra o centenário da sua morte, praticamente ninguém faz a mínima ideia de quem foi. Se calhar é melhor assim, dada a controvérsia associada à actuação política do defunto (veja-se a caricatura abaixo). Este obviamente não andou depois por aí, para se fazer lembrado, mas se em 2105 alguém perguntar por um primeiro ministro chamado Pedro Santana Lopes que governou durante oito meses, quantos terão uma ideia de quem terá sido?
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