01 junho 2018

O MISTÉRIO DO VOO 777 PARA BRISTOL

1 de Junho de 1943. Pelas 07H35 da manhã, um DC-3 da BOAC britânica descola do aeroporto da Portela com destino ao de Whitchurch, um dos poucos aeroportos do Reino Unido que permanece aberto ao tráfego civil, devido à Segunda Guerra Mundial em curso. O DC-3, que por acaso pertence à companhia holandesa KLM mas que fora apreendido quando da queda dos Países Baixos em 1940, leva a bordo 13 passageiros, para além de uma tripulação de 4. Apesar da guerra em curso, existe uma certa contenção dos beligerantes no ataque a aeronaves civis, especialmente quando as rotas envolvem países neutrais, como é o caso. Ainda no dia anterior, o ministro alemão em Lisboa, o barão von Hoyningen-Huene aterrara na Portela, vindo de Berlim, viajando no avião da carreira regular da Lufthansa, acompanhado da esposa. Apesar da insegurança geral, as viagens por avião eram consideradas um meio relativamente seguro. O mesmo parecia estar a acontecer com o DC-3 da BOAC, até que depois de três horas de voo, quando sobrevoava o Golfo da Biscaia, o aparelho foi subitamente atacado por uma esquadrilha de oito Ju-88 da Luftwaffe. O DC-3 foi abatido, não teve qualquer hipótese, despenhou-se no mar, não houve qualquer sobrevivente entre as 17 pessoas que seguiam a bordo. O que o fim da Guerra, e mesmo os 75 anos entretanto transcorridos nunca vieram a esclarecer satisfatoriamente, foram as razões para que os alemães tivessem tido aquela iniciativa. Não fazia qualquer sentido atacar assim um voo civil. A BOAC teve que passar a programar os seus voos para a noite, mas a Lufthansa teve que fazer o mesmo, por receio que a RAF retaliasse, atacando por sua vez os seus voos.
Mas, quando não aparecem explicações satisfatórias, escancaram-se as portas à especulação. De entre o elenco de passageiros que viajavam no voo 777 da BOAC, destacava-se o actor britânico Leslie Howard, que fora uma das estrelas de «E Tudo o Vento Levou» (1939) e que era também uma estrela dos filmes de propaganda de guerra que os britânicos produziam. Sendo de origem judaica e tendo ele estado numa tournée promocional em Portugal (acima, veja-se a notícia anunciando a sua chegada a Lisboa a 28 de Abril de 1943), não tardou quem lhe atribuísse uma missão secreta por detrás dessa e que teriam sido essas manobras de espionagem que teriam estado na origem da operação alemã para abater o DC-3. Uma outra versão, ainda mais imaginativa, augura que espiões alemães que estavam no aeroporto da Portela terão confundido Howard e o seu acompanhante com Churchill e o seu guarda-costas (Winston andava então pelo Norte de África). Poderá haver um fundo de plausibilidade nessa hipótese: Howard e o seu manager só confirmaram os seus bilhetes à última da hora, o que fez com que outros passageiros fossem apeados, já que o voo estava lotado. Essa prioridade terá chamado a atenção para a importância dos passageiros e o interesse dos alemães. No entanto, toda esta elaboração choca com a pouca plausibilidade de correr o risco de fazer o primeiro-ministro britânico voar num avião civil desarmado e sem escolta. (Na sua viagem de regresso do Norte de África, Churchill voou num bombardeiro quadrimotor B-24 armado e escoltado sempre que possível) Uma terceira versão, digna de referir porque portuguesa, é a de que havia mesmo um espião a abater, mas não se tratava de Leslie Howard, era um outro passageiro, um executivo dos petróleos chamado Tyrrell Shervington. Nunca se saberá. Ao certo, na página 7, na coluna das notícias diversas do Diário de Lisboa de há precisamente 75 anos, lia-se sucintamente: «O grande actor de cinema e realizador inglês Leslie Howard, partiu hoje, de avião, para Londres.» Nunca lá chegou.
O titulo é uma adaptação do de uma aventura de Tintin.

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