12 de Janeiro de 1970. Através da emissão da Rádio Biafra, o general Philip Effiong anunciava a rendição das forças secessionistas que haviam combatido pela independência daquela região nigeriana desde 30 de Maio de 1967. Nas imagens acima vemos Effiong conferenciando com o (então) coronel Olusegun Obasanjo, que comandava as forças nigerianas encarregues de aceitar a rendição, que, no futuro, virá a ser presidente da Nigéria por duas vezes intercaladas (1976-1979 e 1999-2007). Porém mais preocupante do que o desfecho da guerra civil e as cenas de reconciliação encenadas no vídeo acima, era a situação humanitária no Biafra, sujeito a um bloqueio que causara um número incontável de vítimas civis, conforme se destacava na imprensa de então.
12 janeiro 2020
11 janeiro 2020
A ESTREIA NA RÚSSIA DE ROMEU E JULIETA DE PROKOFIEV
11 de Janeiro de 1940. No Teatro Mariinski¹ em São Petersburgo² é apresentado, pela primeira vez na Rússia³, o bailado Romeu e Julieta do compositor Serguei Prokofiev. Em rigor, a primeira apresentação mundial da obra tivera lugar um ano antes, em Brno, na Checoslováquia, mas o compositor não pudera estar presente. O espectáculo teve lugar num teatro submetido às mais rígidas regras de blackout já que a frente de combate da guerra russo-finlandesa passava apenas a algumas dezenas de quilómetros dali. O sucesso da estreia projectou a imagem de um jovem (34 anos) e, até então, pouco conhecido coreógrafo, Leonid Lavrovsky. Quanto à componente musical, o trecho mais conhecido da obra virá a ser a dança dos cavaleiros da 2ª Cena do 1º Acto (abaixo). Até serve para promover perfumes para homem.
¹ Então denominado Teatro Kirov. ² Então denominada Leninegrado. ³ Então denominada União Soviética.
10 janeiro 2020
O CENTENÁRIO DA ENTRADA EM VIGOR DO TRATADO DE VERSAILLES
10 de Janeiro de 1920. Seis meses depois da cerimónia da sua assinatura, o Tratado de Versailles entra efectivamente em vigor. Nesse mesmo dia tem lugar em Londres uma primeira reunião da Sociedade das Nações (SdN).
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UMA CURTA HISTÓRIA - de cinco anos - DE COMO RIDICULAMENTE SE FOMENTA O FOMENTO
Convidamos o leitor do blogue a fazer uma viagem por títulos de jornais até há um pouco mais de cinco anos atrás, a Outubro de 2014, quando o ministro da Economia da altura, António Pires de Lima (tomara posse do cargo em Julho de 2013), assegurava que um tal de Banco de Fomento podia estar operacional no mês seguinte. Não estava, mas isso não era razão para que, em Janeiro de 2015 (há precisamente cinco anos), o mesmo Pires de Lima continuasse a prometer a operacionalidade (e os benefícios) do famoso Banco para breve.
O tempo, esse teimoso agente político que desmente os protagonistas do meio que não cumprem a sua palavra, veio mostrar que o Banco não havia sido para breve e, muito pelo contrário, quando da posse do governo da geringonça quase um ano depois, em Dezembro de 2015, o que o novo governo estudava era o desmantelamento do dito banco, uma instituição que, de tão acarinhada por Pires de Lima, se descobria ter sido afinal idealizada por Vítor Gaspar (i.e., antes de Julho de 2013).
O governo estudava, mas o tempo novamente terá mostrado que deixara de estudar... Ou então que o estudo o levara para outras paragens. Dois anos depois, em Janeiro de 2017, e com o ministério agora ocupado há dois anos por Manuel Caldeira Cabral, a notícia era que o Banco de Fomento ressuscitara. Agora é que ia ser: ia servir para uma data de coisas. As mesmas de Pires de Lima e ainda mais outras.
Ia servir... mas não serviu. Como o seu antecessor Pires de Lima, também Caldeira Cabral abandonou o governo sem concretizar a tal de ressurreição, e o assunto volta agora à agenda mediática, com uma urgência dos cem primeiros dias se atendermos à conversa do super-ministro Pedro Siza Vieira. Caso houvesse uma dose razoável de memória e vergonha na política portuguesa, e caso isto seja mesmo para levar a sério desta vez, então Siza Vieira deve despachar este assunto com a maior discrição possível, que o embaraço associado à conversa do Banco de Fomento parece-me transversal a todo o sistema.
09 janeiro 2020
«L´ÉPURATION» EM FRANÇA
9 de Janeiro de 1945. Discretamente, nas suas páginas interiores e em pequenas e discretas notícias, os jornais portugueses davam conta de alguns dos aspectos mais dramáticos daquilo a que os franceses denominavam por l'épuration (a depuração), o julgamento de todos aqueles que se haviam destacado quando do regime colaboracionista que governara o país entre 1940 e 1944. Há precisamente 75 anos, os nomeados eram duas figuras bastante secundárias do regime, Paul Chack (à esquerda), que fora fuzilado naquele mesmo dia, e Henri Béraud (à direita), que iria sê-lo também, proximamente, porque o apelo para a clemência, acabara de ser rejeitado pelo júri. Afinal Béraud acabará por ver a sua pena de morte comutada pelo presidente de Gaulle e sobreviverá, apesar de hemiplégico, até 1958. Visto com distanciamento, a grande ironia de toda esta situação, é que estes dois condenados à morte eram figuras intelectuais, com responsabilidades morais pela promoção das suas ideologias, decerto, mas sem grandes responsabilidades concretas por que os condenar, ainda por cima à pena capital.
Só que o ambiente político em França - e veja-se acima o que se dizia nas notícias na imprensa francesa a respeito destes mesmos dois condenados - pedia vingança e sangue(!). Descontando aquelas figuras políticas de maior notoriedade, caso de Pierre Laval, muitos secundários do regime de Vichy haviam-se antecipado aos acontecimentos e haviam-se bandeado a tempo para o lado dos vencedores, como foi o caso - só hoje reconhecido - do futuro presidente François Mitterrand. Muito mais chocante ainda, e nunca verdadeiramente escrutinado do ponto de vista político e social, era o caso dos membros da magistratura francesa, que haviam sido concreta e completamente coniventes com alguns dos aspectos mais servis e cruéis do regime de Vichy - nomeadamente as deportações - e que agora apareciam, como que impolutos, a condenar à morte réus como Chack e Béraud que eram mais responsáveis por delitos de opinião do que, por exemplo, aqueles que os julgavam e que haviam sido responsáveis por decisões judiciais para o envio de refractários ao STO para trabalhar na Alemanha, ou de refugiados judeus para os seus campos de extermínio.
Por todo este acumular de excessos e injustiças, houve uma certa franja da sociedade francesa (que inclui e onde predomina a extrema direita, mas que está muito longe de se cingir apenas a ela) que construiu uma imagem da épuration a que apodou de selvagem.
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08 janeiro 2020
«PORTUGAL NÃO É(RA) UM PAÍS PEQUENO»... E OS PAÍSES BAIXOS TAMBÉM NÃO
Sei que o mapa português data de 1934 e, sabendo que o mapa holandês data mais ou menos desses mesmos anos, não consegui datá-lo com precisão suficiente para poder identificar qual deles terá sido o inspirador do outro. Outros tempos em que dava um certo sainete aos pequenos países europeus ter um império colonial muito maior do que o próprio país. Independentemente dos regimes.
07 janeiro 2020
MADAME COSTA - SONÂMBULA E VIDENTE DOTADA PELA NATUREZA
7 de Janeiro de 1930. O dia correu mal para Madame Costa, que «diz tudo, o passado, o presente e o futuro e que vê tudo, mesmo a grande distância e seja qual for a longitude», mas que não terá visto a visita que os agentes Aníbal Costa e Ramos da Polícia de Investigação iam fazer ao seu consultório.
O NATAL DO SINALEIRO
7 de Janeiro de 1950. Um vespertino lisboeta dava conta do sucesso que fora a recolha de donativos para a tradicional campanha do Natal do Sinaleiro. Em que consistia essa campanha, fomentada pelo Automóvel Clube de Portugal e acarinhada por todos os jornais? Como a fotografia documenta e com o aproximar da quadra, os doadores iam depositar as suas ofertas junto das peanhas onde operavam as várias centenas de polícias sinaleiros da cidade. A notícia de há 70 anos é um balanço de todos esses donativos, a que se atribuíra um valor rondando os 65 contos. Mas, muito mais curioso e que me prendeu verdadeiramente a atenção foi o teor dos donativos, de onde o próprio jornal destaca as «2.000 garrafas de vinhos finos e licores diversos», que fazem um extraordinário contraste com as parcas «3 caixas de águas de mesa» que se lhe seguem (e mais abaixo há ainda «840 litros de vinho de pasto»!). Sinal dos tempos, sinal de que se estava ainda na pré-história de slogans contra o álcool na estrada: se beber não conduza, limite-se a dirigir o trânsito?...
06 janeiro 2020
ELE HÁ PESSOAS QUE DEVIAM SER BANIDAS DOS ESTÁDIOS...
Ontem, no final do Concerto de Ano Novo, quando do encore, dou por mim a topar um casal de vizinhos que, notoriamente, não conhecia a coreografia da tradicional Marcha de Radetzky, batendo entusiasmadamente palmas nas alturas certas... e confrangedoramente também nas erradas. É verdade que a dupla já se tinha destacado pelo uso anterior de um daqueles binóculos de teatro, adereço tão extravagante quanto inútil num concerto, a não ser quando, excepcionalmente, a solista apareceu em palco com uma saia comprida que tinha uma racha até à anca. De resto, o comportamento da dupla havia sido discretamente neutro até aí, mas a sua reputação por parte dos ocupantes das cadeiras vizinhas descambou abruptamente e na proporção inversa de quanto mais audíveis se tornavam as palmas do casal numa sala outrotanto... silenciosa. Sim, porque há a ignorância (de saber quando bater e não bater palmas) mas ela pode potenciar-se com a estupidez (de não olhar para os lados para, na dúvida, copiar o que os outros estão a fazer). O corolário é uma expressão de beatitude interrogadora aos circunstantes para as razões porque esmorecera o entusiasmo?... E fica-nos assim aquela sensação desagradável e, quiçá, pedante, de que ele há pessoas que não deveriam ir a estas coisas sem ter visto um tutorial de como se comportar. E a marcha em questão, acompanhada das palmas da assistência, é um mínimo de admissão. Constatação que, afinal, até nem é nada por aí além: alguém pensaria em ir a um concerto dos Queen sem conhecer de cor a letra do refrão de Love of My Life?... Pois isto é a mesma coisa, só que em sofisticado, com alguns casacos de peles.
O QUE FAZER NA (ou DA) CHINA?
6 de Janeiro de 1950. A primeira página do Diário de Lisboa exibe uma divergência de fundo entre as políticas externas dos Estados Unidos e do Reino Unido no que concerne à política a adoptar em função da nova realidade chinesa, a da vitória dos comunistas na Guerra Civil. Sobre os americanos escreve-se que haviam decidido não desembarcar na Formosa (Taiwan), o Departamento de Estado norte-americano havia-se superiorizado sobre o Departamento de Defesa, já que os militares não se fiam na capacidade dos exércitos derrotados da China nacionalista em defender a ilha. A opção dos diplomatas pela preservação de uma ordem constitucional chinesa alternativa, veio a revelar-se, se militarmente arriscada (se calhar, nem tanto), politicamente muito sagaz e de uma durabilidade surpreendente: a existência da tal China alternativa ainda hoje representa um incómodo (não disfarçado) para as autoridades de Pequim. Quanto ao Reino Unido, em contraste e na notícia do lado, o pragmatismo e a localização da colónia de Hong-Kong induzem o seu governo - trabalhista - a reconhecer a nova República Popular. Mais uma vez, e são estas omissões que são bizarras, estas notícias sobre a situação na China são publicadas no Diário de Lisboa sem que, em complemento, se diga alguma coisa sobre o que em Lisboa se pensa sobre o assunto, considerada a localização de Macau.
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05 janeiro 2020
SABONETE FENO DE PORTUGAL, O AROMA DA NATUREZA
O panorama noticioso nacional do fim de semana em curso é discreto, onde os órgãos de comunicação social se esforçam por repescar assuntos, um fim de semana comedido, como o aroma da natureza da nossa realidade política.
04 janeiro 2020
O DISCURSO SOBRE «O(S) VENTO(S) DE MUDANÇA» QUE VARRIA(M) ÁFRICA
A edição de 4 de Janeiro de 1960 do Diário de Lisboa dava um destaque de primeira página a uma grande viagem a África que o primeiro-ministro britânico, Harold MacMillan (1894-1986), iria iniciar no dia seguinte. Prevista para durar seis semanas, o périplo viria a envolver visitas ao Gana (já então independente), à Nigéria (em vias de o vir a ser), Zâmbia e Zimbabué (que então constituíam uma só colónia denominada Rodésia), terminando o percurso oficial na África do Sul, nos primeiros dias de Fevereiro. Foi na cidade do Cabo, onde se localiza o parlamento sul-africano, que MacMillan virá a proferir um discurso que, por esta vez, rara, justificará a passagem da notícia acima que, como de costume nos jornais, remetia para repercussões históricas - «Na opinião dos círculos diplomáticos esta viagem terá influência histórica». Teve, embora não pelas razões antecipadas pelo jornal. O discurso então proferido por Harold MacMillan, que veio a ficar registado para a História pelo nome de «Ventos de Mudança*», era o anúncio de uma antecipação dos cronogramas para as concessões das independências das colónias britânicas naquele continente. O processo, que fora programado para durar décadas, em função das condições sociais, políticas e económicas consideradas necessárias para cada colónia alcançar a respectiva independência, ia agora ser concluído em menos de uma década (a última independência a ser proclamada iria ser a da Suazilândia em 1968). Colateralmente, as circunstâncias do discurso, sobretudo o local e a audiência, onde era proferido, eram também indicativo de que a condescendência política da metrópole britânica para com o regime do apartheid sul-africano tinha os dias contados. Os anfitriões sul-africanos acusaram o toque. Esta notícia do Diário de Lisboa de há 60 anos, mais do que uma grande notícia, era uma notícia presciente! O que não se pode dizer, contudo, é que a visita, tal qual era apreciada pela edição do Diário de Lisboa de há sessenta anos, se destinasse a «fortalecer a influência britânica naquele continente»...
* Wind of change, no original, expressão extraída de uma passagem onde se lia «um vento de mudança está a soprar através deste continente. Queiramos ou não, este crescimento das consciências nacionais é um facto político». Algures a meio das transcrições, e porque talvez soasse melhor, o vento passou a ser plural, ventos de mudança.
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03 janeiro 2020
O BANCO DE PORTUGAL ESTÁ ATENTO MAS NÃO TERÁ HAVIDO UM DÉFICE DE ATENÇÃO?
Como se todos emanassem de uma origem comum, os cabeçalhos das notícias a respeito de Isabel dos Santos dão as autoridades portuguesas como atentas. Também a uma só voz - ou melhor, a um só silêncio... - as várias notícias complementam-se na ausência de explicações mais concretas em que poderão consistir os "factos novos" que mereceriam a atenção (e a intervenção, presume-se...) do Banco de Portugal e das restantes autoridades de regulação nacionais. E, já completamente fora das capacidades anímicas da comunicação social portuguesa, apresentar-se-á o desenvolvimento analítico da mesma notícia, aventando a possibilidade de que, durante muitos anos, por contraste e da parte de um Banco de Portugal que agora nos informa estar atento, terá existido um défice de atenção quanto às movimentações financeiras da filha do presidente angolano e de vários outros possidentes do regime angolano, agora caídos em desgraça. É que, e já agora mudando de assunto, quando o presidente Marcelo «sugere medidas experimentais de apoio à comunicação social em 2020», eu tenho uma certa dificuldade em abstrair-me que a comunicação social que existe é esta... e esta parece-me apoiada, embora não propriamente em prol da informação que eu estou interessado em saber.
ADENDA:
ADENDA:
A comunicação social portuguesa não antecipava mas, esta mudança de Isabel dos Santos para o Dubai, hoje anunciada pelo Expresso e depois reproduzida pelos restantes órgãos de comunicação social, é capaz de constituir o tal «facto novo» a que o Banco de Portugal deveria estar atento. Não vá o diabo tecê-las, Isabel dos Santos preferiu mudar de ares. Sim, porque a questão das cidadanias múltiplas da filha do ex-presidente angolano, que é também destacada pela notícia do Expresso (cidadania russa), não serve para nada quando se perde o sentido de timing. Que o diga Carlos Ghosn, o antigo presidente da Renault que estava preso no Japão e que até tinha mais nacionalidades opcionais que Isabel dos Santos: francesa, brasileira e libanesa. Mas, como subestimou a capacidade de iniciativa do poder judicial japonês e se atrasou a mudar de ares, teve agora que apanhar discretamente um avião (presumo que privado) para o Líbano, escondido dentro de uma caixa de um instrumento musical... Reconheçamos que pobres e remediados evadem-se como podem, mas os ricos, como Isabel dos Santos, não gostam que se saiba que fizeram figuras tristes, sentados clandestinamente dentro do estojo de algum contrabaixo...
A EXPULSÃO DE ZITA SEABRA
3 de Janeiro de 1990. Uma das notícias em destaque daquele dia era a expulsão de Zita Seabra do PCP. A notícia não era propriamente uma surpresa. Os trinta anos entretanto decorridos comprovam que a notícia nem sequer era propriamente muito importante. E esses trinta anos também parecem demonstrar o quanto Zita Seabra estava errada quando a líamos então a opinar que «só renovando-se, o PCP tem sentido em Portugal». Quando em comparação com os outros partidos comunistas dos países europeus, parece comprovado que o PCP só subsistiu - foi aliás dos poucos pcs europeus a sobreviver - precisamente porque não se renovou.
02 janeiro 2020
O FESTIVAL CDS DA CANÇÃO 2020
Ao constatar que concorrem nada menos do que doze moções de estratégia ao próximo congresso do CDS e que nessas doze canções (perdão, moções...) concorrentes aparecem algumas com títulos tão sugestivos quanto «Bases para Crescer», «Portugal Sempre», «Direita Autêntica» ou «As Pessoas Primeiro», dir-se-ia que estávamos numa versão antecipada do próximo Festival RTP da Canção, versão direita política. Eu bem sei que não será intenção de cada um dos doze proponentes, individualmente, expor o partido onde militam ao ridículo, mas o efeito combinado e agregado de tanta ambição em definir a estratégia futura do CDS acaba por resultar nisso mesmo. Doze moções de estratégia, quase tantas moções sectoriais, cinco candidatos à liderança, para um partido que tem outros tantos deputados num parlamento de 230. As intenções serão boas, mas, e disso os proponentes não têm desculpa, os títulos que foram escolhidos para a dúzia de moções concorrentes primam pelo truísmo desinspirado. Faça-se o exercício cruel de contradizer tais títulos para nos certificarmos se, de facto, representam opções políticas de fundo para o futuro do CDS ou se, pelo contrário, se trata de afirmações consensuais que não adicionam valor ao debate de ideias que sempre se deseja nestas ocasiões: alguém ali defenderá as «Bases para diminuir?», o «Portugal Nunca?», a «Direita Falsa?», deixar «As Pessoas para o Fim?». Se os compararmos, a estes títulos anódinos, com os escolhidos para as canções do Festival RTP do ano passado (veja-se acima), «Perfeito», «Inércia», «É o que é», «O Meu Sonho» e até mesmo os «Telemóveis» de Conan Osíris (que, como se sabe, veio a vencer o certame), admita-se que estes últimos tinham a virtualidade de parecerem muito mais apelativos. E a verdade crua é que, para efeitos práticos futuros, tanta importância se dispensa a uma moção de estratégia de um congresso partidário quanto à letra de uma canção de festival... (Alguém se lembra hoje que a moção que Assunção Cristas assinava em 2018 se intitulava «Um passo à frente»? - O problema, percebe-se agora, é que o CDS estaria mesmo à beira do abismo...) Não estou com tudo isto a sugerir que, por inspiração festivaleira, os apoiantes do favorito Chicão tropecem e caiam com fragor no palco cada vez que forem discursar*, mas a verdade é que o CDS actual parece padecer de uma desproporção ridícula entre quem acha que tem coisas para opinar e quem se dispõe a protagonizá-las, às coisas. E o resultado acaba por ser este.
* Imitando a interpretação do adjunto do Conan Osíris, que se esbardalhava todo.
ORTOGRAFIAS 1930 e ACORDO ORTOGRÁFICO 2020
2 de Janeiro de 1930. 1 de Janeiro de 2020. Passaram-se noventa anos e o tema parece bem longe de estar arrumado, o das ortografias e dos acordos a respeito, concebidas para nos aproximarmos do Brasil mas que, ao mesmo tempo nos fazem apartarmo-nos reciprocamente. Esse é o enquadramento geral do tema, que parece sustentar a coincidência. E depois há a circunstância, que é a sua verdadeira raiz: nesta altura do ano há sempre falta de assunto para preencher os jornais. E ele há sempre uma ortografia por que pugnar...
01 janeiro 2020
COMO MUDOU O «NOVO ANO PRESIDENCIAL» NESTES ÚLTIMOS CINQUENTA ANOS!
1 de Janeiro de 1970. Na tradicional mensagem presidencial de Ano Novo, difundida por toda a comunicação social, incluindo a imprensa escrita do dia seguinte (abaixo), o venerando almirante Américo Tomás fazia um balanço daquela que fora a sua actividade como Chefe de Estado no ano que findara: como se pode ler na notícia abaixo, «em 18 e 19 de Janeiro deslocara-se pela primeira vez à cidade do Porto, para assistir a diversas cerimónias e realizar diversas visitas e, sobretudo, para presidir à inauguração de um Centro de Formação Profissional Acelerada. Pouco mais de um mês depois inaugurara outro Centro análogo na vila do Seixal. A 11 de Março visitara o Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha (...). A 10 de Abril presidira à inauguração do novo e magnifico edifício da Biblioteca Nacional. A 17 de mesmo mês, deslocara-se a Coimbra para inaugurar o novo e belo edifício da Matemática da Universidade e para visitar a Escola de Regentes Agrícolas e dois liceus (o segunda na Figueira da Foz). A 20 visitara oficialmente pela primeira vez a vila de Peniche. Em 27 e 28, ainda do mesmo mês, visitara novamente a cidade do Porto, em especial para inaugurar o Parque Desportivo Salazar da FNAT e visitar o Regimento de Infantaria 6. No dia 10 de Maio presidira à inauguração, na cidade de Lagos, da estátua do navegador Gil Eanes. No dia seguinte presidira à inauguração do empreendimento hidro-agrícola do rio Mira (...) que recebeu o nome de Marcello Caetano a pedido das forças vivas dos distritos de Beja e Faro. No dia 15 visitara a Escola de Fuzileiros Navais em Vale do Zebro. Em 23, ainda de Maio, visitara oficialmente e pela segunda vez a cidade de Portalegre. Em 1 de Junho presidira à inauguração da Feira Nacional da Agricultura em Santarém que visitara segunda vez no seu fecho.» E a resenha da actividade prosseguia.
Repare-se contudo que na narrativa de Américo Tomás já quase se estava a meio do ano (1 de Junho) e a nossa sensação, tomando como referência os ritmos da presidência moderna, é que a enumeração dos compromissos do almirante bem poderia ter sido despachada pelo professor (Marcelo) em pouco mais de uma semana... Tanto assim que, quando se soube que o nosso actual presidente ia, desta vez, passar o ano à ilha do Corvo, logo imaginei quanto se poderia montar um calendário mais ambicioso, incluindo o primeiro mergulho presidencial do ano numa praia corvina (o que, parece, se assegurou), a que se seguiria directamente a travessia a nado do Corvo até às Flores (veja-se abaixo), dispensando as vicissitudes das ligações aéreas (como normalmente elas nos são contadas, para dar mais estaleca a estes gestos*).
* A propósito do exagero como se noticiam estas coisas - aterragem arriscada(!) no Corvo - vale a pena avaliar o que se escreve pelo seu valor facial, e perguntar a quem escreve e a quem publica estes disparates que oficial piloto aviador da Força Aérea Portuguesa é que eles conhecem, que seria suficientemente irresponsável para arriscar qualquer manobra de voo que fosse, quando transporta o Comandante Supremo das Forças Armadas...
31 dezembro 2019
O DOMÍNIO DOS DEUSES (XV)
Esta prancha consegue exibir uma simultaneidade (ou quase) de acontecimentos como outras formas de expressão artistica - nomeadamente os filmes - não o conseguem fazer.
VINTE ANOS DE VLADIMIR PUTIN
31 de Dezembro de 1999. Boris Yeltsin renuncia à presidência russa e o primeiro-ministro Vladimir Putin assume-a interinamente. Acima vemo-lo a discursar nesse mesmo dia 31, ainda nessa qualidade de presidente interino. Vai ser uma interinidade que, descartando os aspectos formais, como quando trocou de posto com Medvedev entre 2008 e 2012, se irá prolongar pelos vinte anos seguintes, até a actualidade. Com a chegada de Putin ao poder, fundiu-se (na neve...) aquela ilusão ingénua, predominantemente americana, de que todos na Europa podíamos ser amigos uns dos outros, se nos comportássemos como os americanos desejavam. São vinte anos de Vladimir Putin no poder e a história dos seus feitos parece muito longe de estar acabada...
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30 dezembro 2019
«ABRAÇANDO A DERROTA»
Um dos processos defensivamente seguros que eu usei até hoje para seleccionar as minhas leituras era o de escolher títulos que houvessem sido galardoados por alguns dos conceituados prémios de literatura. Aqueles selos que normalmente acompanham o livro depois da atribuição do prémio (veja-se acima, para o Prémio Pulitzer), haviam-se tornado, pela experiência e mesmo que o assunto em causa não fosse, para mim, dos mais atractivos (como foi o caso de Emperor of All Maladies: A Biography of Cancer - Prémio Pulitzer de 2011 e já, felizmente, traduzido para português), o critério dos livros premiados, escrevia, tornara-se um método seguro de seleccionar leituras. Mesmo que o tópico se revelasse chato, o livro estava certamente muito bem escrito. Ora este Embracing Defeat: Japan in the Wake of World War II, que seleccionei para autoprenda de Natal deste anos, veio a revelar-se na demonstração que o critério terá as suas falhas. Entendamo-nos: o assunto em causa, a atitude dos japoneses nos anos que se seguiram imediatamente à sua derrota na Segunda Guerra Mundial é um assunto para mim muito interessante, sobre o qual pouco sei e, tanto quanto sei, pouco se sabe, tanto agora como na altura em que o livro foi publicado (recebeu o Prémio Pulitzer - entre vários outros galardões - em 2000). O livro tem conteúdo e por isso ensina o leitor e é naturalmente muito mais substanciado e desenvolvido do que qualquer página de wikipedia a respeito do assunto. Só que é insuportavelmente maçudo; é uma colecção encadeada de ensaios académicos. Não está em causa a competência científica do autor John W. Doner, apenas a sua vocação para transmitir os seus conhecimentos de forma atractiva. Abonará em favor do meu empenho ter lido este seu livro até um pouco mais de metade (p. 290) antes de o transferir para a galeria dos livros «a ler ulteriormente» (i.e., o mais provavelmente nunca). Não me vou alargar em comentários a um livro que quase ninguém quereria ler, ainda para mais depois de eu dizer mal dele, mas, tal o contraste com as experiências prévias, confesso a minha estranheza a respeito de qual terá sido a composição do júri Pulitzer naquele ano de 2000.
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