10 junho 2022

ASTÉRIX E OS NORMANDOS (I)

Publicada originalmente em 1966, esta história de Astérix e os Normandos, embora muito divertida, é uma das suas histórias que envelheceu pior, já que a trama da aventura assenta no pressuposto que cantar muito mal (como o fazia Assurancetorix, o bardo da aldeia) era um defeito que, para benefício excepcional deste caso, se revelava uma qualidade. (Spoiler alert: Será a desafinação épica do bardo Assurancetorix que acabará por inculcar o medo nos normandos). Hoje isso já não faz sentido: basta apreciarmos abaixo o autor compositor Sérgio Godinho, estóico, a escutar a desconstrução musical que é perpetrada à sua frente a uma das suas canções por um bardo lusitano chamado B. Fachada. Não é que não merecesse, mas Sérgio Godinho não esmurra violentamente o cantor, como o faziam os companheiros de aldeia de Assurancetorix, e também não se atira pela janela, como o virão a fazer os normandos apavorados...
Porém, salvaguardado esse aspecto em particular, é uma história de BD que vale a pena ser lida.

LÍDICE

10 de Junho de 1942. Como retaliação pelo atentado de duas semanas antes que acabara por causar a morte do Reichsprotektor Reinhard Heydrich a aldeia checa de Lídice era riscada do mapa. Situada a pouco mais de 10 km a Oeste de Praga (ao contrário do que é comum, este massacre destinava-se a ter visibilidade), a pequena aldeia (acima, a sua imagem aérea, abaixo uma vista geral) possuía à época cerca de 500 habitantes que viviam de uma economia mista, rural e mineira.
Há precisamente 80 anos, depois de reunirem toda a população, os alemães fuzilaram os 173 homens com mais de 15 anos. As crianças foram retiradas às mães e, com excepção daquelas que possuíam um aspecto mais germânico e dos bebés com menos de um ano, passíveis de adopção, foram todas gaseadas. Quanto às mulheres foram todas enviadas para o campo de concentração feminino de Ravensbruck. Depois a aldeia foi queimada antes dos edifícios serem destruídos com explosivos.

09 junho 2022

OS SERVIÇOS DE ESPLANADA E OS «EXPLANATION SERVICES»

Aparentemente, no século XXI estamos a assistir a uma necessidade crescente e muito mais ampliada de serviços de esplanada - agora prosperam Ubers e Glovos para levar a comida até casa das pessoas - mas estamos também a assistir a um declínio dos «explanation services» - os canais por cabo que têm por título referências educativas, como os canais História, Odisseia ou National Geographic, têm emissões quase exclusivamente preenchidas por programas de entretenimento. Desenvolvemos uma sociedade em que lhes trazem pizzas ou sushi até à mesa enquanto assistem a programas históricos como forjado no fogo...

HOJE ESTOU NUM DIA «DON'T»

...ou então isto, daquê bocado, já passa.

08 junho 2022

A CHEGADA AO BRASIL DE GAGO COUTINHO E SACADURA CABRAL

8 de Junho de 1922. Partidos de Lisboa a 30 de Março, só mais de dois meses depois - 70 dias, para ser mais preciso - é que os aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral chegam finalmente ao Brasil. A esta distância temporal, a fanfarra noticiosa que os acompanha perde quase toda a sua eficácia e deixa-nos grandes dúvidas se o feito dos dois aviadores merece o destaque que lhe foi então dado. Foram usados três hidroaviões da marinha portuguesa e o voo prosseguiu ao ritmo do processo de substituição do avariado/afundado pelo novo, que houve que ir buscar a Lisboa. Por outro lado e objectivamente, o voo demorou 70 dias a concluir-se, quando, em comparação e apenas para exemplo, 214 anos antes, o rei D. João VI demorara apenas 55 dias à vela, naquele mesmo percurso... Enfim, é uma daquelas efemérides com as quais concordo que devam ser celebradas muito discretamente.

«ESPECIALISTAS» EM LOGÍSTICA

Qualquer otário tem carta branca para recorrer a uma das redes sociais e nela publicar um pensamento que considere original e bem conseguido. No processo exibe a sua mais crassa ignorância daquilo em que consiste a logística, ao comparar e fazer equivaler o transporte de armamento ao transporte de cereais mas, o que é que se há de fazer ao efeito - devastador! - da ignorância quando combinada com o facciosismo político?... Só esta primeira exibição de parvoíce singular, choca. Mas o efeito de choque é complementado quando alguém se dispõe a comentar com tino a parvoíce publicada, e recebe a tréplica de um terceiro que a sua «justificação (é) da treta». Foi por causa de situações destas que se criou a imagem de as comparar ao exercício - infelizmente cada vez mais repetido - de tentar jogar xadrez com pombos: os pombos não sabem as regras do jogo, derrubam as peças, cagam o tabuleiro, e depois ainda se passeiam muito assertivos meneando concordantemente as cabeças entre si... 

A MENINA NUA DA FOTOGRAFIA (2)

8 de Junho de 1972. Nick Ut regista uma das mais famosas fotografias sobre a Guerra do Vietname. Vale a pena recordar o que já aqui escrevi a respeito da ocasião e das circunstâncias em que a fotografia foi feita. É um daqueles casos em que aquilo que aparece deliberadamente realçado - a estética da violência - escamoteia a informação complementar que está contida no resto da imagem - a violência da estética. A fotografia está truncada para se centrar na imagem da menina nua, mas o que foi escondido é também importante para compreender toda a cena. O fotojornalismo - como o resto do jornalismo, para ter qualidade - não pode ser assim primário.

07 junho 2022

A COINCIDÊNCIA

No jornal de 7 de Junho de 1982, há precisamente 40 anos, uma notícia de contornos estranhamente actuais: os países do G7, acabados de sair de uma Cimeira em Paris, decidem restringir os créditos que eles próprios concediam para que as suas economias exportassem para a União Soviética. Os países capitalistas, mesmo em concorrência e de uma forma concertada, anunciavam assim que iam utilizar o capital para condicionarem o comportamento de uma União Soviética que se mostrava «um pouco decepcionada». A arma económica nunca matou ninguém, Mas aleija certamente, senão Moscovo não se teria queixado.

A DEPURAÇÃO COMUNISTA NA ROMÉNIA

7 de Junho de 1952. Num canto da sua primeira página, e escrevendo a notícia como se tivesse sabido do assunto por portas travessas não oficiais, o Diário de Lisboa dava conta de uma depuração que estava a ocorrer no topo da hierarquia do partido comunista e do Estado na Roménia. Cumpriam-se mais de sete anos desde que os comunistas haviam ali chegado ao poder, e quatro anos e meio desde que haviam assumido o poder em exclusividade, nomeadamente depois da abdicação do rei Miguel I. Ana Pauker, Vasile Luca e Teohari Georgescu (os assinalados na foto) são classificados na notícia como «transviados». O vencedor da disputa fora o senhor que bate palmas na extrema esquerda: Gheorghe Gheorghiu-Dej. Ora, há 70 anos, ser-se um comunista transviado num país da Europa de Leste era qualquer coisa de mau prognóstico para a saúde do transviado (exemplos que aqui mencionei na Bulgária ou na Hungria...). Isso não chegou a acontecer no caso concreto destes três dirigentes comunistas romenos (mas não de outros seus camaradas transviados...), que morreram todos eles na prisão (formal ou domiciliária), mas não executados.

06 junho 2022

OS X-FILES DO X-PORTAS

Assim como os produtores da série X-Files continuam a fomentar o retorno daquela série de ficção de TV, apesar do desinteresse generalizado por essa continuação, a presença regular de Paulo Portas na TVI é como o slogan reciclado dos X-Files: «The Truth is Still Out There» (A Verdade Ainda Continua por Aí). Se calhar ainda continua, mas está-se toda a gente a cagar para ela e para o disco voador. E presumo que para as opiniões de Paulo Portas também. Porque não o sigo, não sei de quando data a imagem acima, mas reconheço que tem impacto, especialmente os comestíveis no prato, a fazê-lo (a Paulo Portas) a concorrer com a saudosa Filipa Vacondeus e o seu inesquecível boneco do «Cozinho para o povo». Mas, retomando a analogia com os X-Files, Paulo Portas é mesmo para aquelas pessoas que querem acreditar («I Want to Believe»). Irrevogavelmente.

A OPERAÇÃO «PAZ PARA A GALILEIA»

6 de Junho de 1982. Israel dava início à Operação Paz para a Galileia, a invasão do Líbano para de lá desalojar as forças militares da OLP (a Organização de Libertação da Palestina). Alguns dias depois, aquele que fora o maior impulsionador da iniciativa, o ministro da Defesa Ariel Sharon, apresentava em conferência de imprensa o sucesso da progressão das colunas israelitas. Reconhece-se no mapa as fronteiras entre Israel e o Líbano. Tudo parecia correr bem mas os israelitas ir-se-iam ver mais uma vez atascados na constatação de que o seu braço militar não pode arranjar soluções para um problema que sempre será político. Israel nunca se arriscou a ceder nada de valia à troca da sua segurança como estado e só quer negociar em posição de força, enquanto, pelo seu lado, os inimigos de Israel sabem quanto o tempo funciona em favor deles e tornam-se evasivos precisamente quando Israel está em situações pontuais de vantagem acrescida. Depois disso já Israel tornou a invadir o Líbano (2006) e 40 anos passados, os problemas que se colocam a Israel no que respeita à sua fronteira do norte são precisamente os mesmos que Sharon pretendia estarem a serem resolvidos na ponta do seu ponteiro.

05 junho 2022

«NÃO HÁ ALMOÇOS GRÁTIS»

Esta passagem de BD abaixo demonstra porque é que não gosto da expressão de que «Não há almoços grátis» e, sobretudo, de quem abusa dela. Ao contrário do cinismo dos habitantes desta Lafayette Town dos montes Ozark, quando peço informações na estrada - mais recentemente foi em plena Andaluzia - as pessoas costumam ser extremamente prestáveis, não é preciso pagar-lhes para isso. Mas sobretudo a ironia da historieta, é que, apesar de invocando as forças que dinamizam o mercado - o dinheiro - tem muitas vezes, como aqui acontece, em que o que se obtém é aquilo que se obteria sem ser preciso dinheiro - a prisão encontrava-se no fim da rua principal.
Ou seja, a asserção de que não há almoços grátis merece ser equilibrada com uma outra, que lembre que o dinheiro não compra tudo, e que há muita coisa que se obtém sem ser com dinheiro. E, vá-se lá saber porquê, ouço muito menos vezes esta outra asserção.

O DISCURSO QUE ANUNCIA O PLANO MARSHALL

5 de Junho de 1947. Na Universidade de Harvard, por ocasião da atribuição de um doutoramento honoris causa que aquela Universidade lhe concedera, o general George Marshall, que era então o secretário de Estado da Administração Truman, pronuncia um discurso em que anuncia os contornos de um grande plano de auxílio à reconstrução europeia, cujas economias haviam sido (e continuavam a ser) fortemente afectadas pela Segunda Guerra Mundial. É um daqueles textos que ficaram para a História, mas pelo seu conteúdo e não por causa dos dotes do orador. A importância daquele que veio a ser designado por Plano Marshall é inquestionável para a História da segunda metade do século XX. Ainda em Fevereiro deste ano foi lançado mais este livro a seu respeito. No domínio do pormenor ligeiro a respeito da concepção do plano, pelo livro fiquei a saber que o Plano recebeu o nome do secretário de Estado e não o do presidente (Plano Truman), porque este apostou que, com o nome de Marshall, o plano teria muito mais hipóteses de ser aprovado pelos votos favoráveis dos congressistas republicanos. A história pode ser apócrifa, mas é pitoresca, e, para quem lê o livro, como acabou de me acontecer, é apenas mais um dos aspectos que acentua dramaticamente a distância que vai da actual governance americana para a que existia há setenta e um anos...

04 junho 2022

O 80º ANIVERSÁRIO DA BATALHA DE MIDWAY

A decisiva batalha de Midway travou-se entre 4 e 7 de Junho de 1942 em pleno centro do Oceano Pacífico. Mas a sua preparação e execução do plano (japonês) que a iria desencadear começara algum tempo antes, a 26 de Maio: a mais formidável armada da história naval japonesa largara dos portos do Japão para lançar um repto à sua rival norte-americana. Comandava pessoalmente a frota que se iria engajar na operação o almirante Yamamoto, o autor do ataque de surpresa a Pearl Harbour que, seis meses depois, comprovava que o efeito daquele ataque não tivera consequências duradouras para o exercício da supremacia naval japonesa sobre os oceanos Índico e, sobretudo, Pacífico. Ainda no mês anterior o desfecho indeciso da Batalha do Mar de Coral provara que os navios dos Estados Unidos não haviam sido corridos dos mares, o que, considerando a dimensão gigantesca das futuras frotas de guerra entretanto em construção nos estaleiros americanos, tornava imperativo o confronto naval e a destruição do inimigo, para impedir que as esquadras de hoje se juntassem com as de amanhã. E para forçar o inimigo ao confronto naval há que escolher um objectivo que se sabe que ele não cederá sem combate.
Midway é um atol solitário no centro do Pacífico norte. Originalmente, a flora reduzia-se a cardos e a fauna resumia-se a hordas incontáveis de aves marinhas. Mesmo depois de ocupada e dos aterros, a área das ilhas juntas cinge-se a seis quilómetros quadrados. Mas é o único ponto emerso no oceano em milhares de quilómetros em redor. As ilhas Havai estão a mil milhas marítimas de distância. Uma força aeronaval que a ocupe pode ameaçar continuamente a mesma base de Pearl Harbour que fora o objecto do ataque original de 7 de Dezembro de 1941. Se o Japão tivesse mais meios poderia ter conquistado facilmente Midway nessa altura. Mas não os tinha e as defesas do atol foram reforçadas nos seis meses que se seguiram. Mais do que organizados, os meios de defesa amontoavam-se. Nesses primeiros dias de Junho de 1942, há destacamentos de engenharia a alargar as três pistas de aviação e a enterrar o mais possível, para os proteger dos bombardeamentos, hangares, armazéns, aquartelamentos, depósitos de combustível, um hospital, uma central eléctrica, outra de destilação de água do mar. Entretanto a água doce está racionada e o álcool está proibido, mas o mercado negro é expediente que aparece em todo o lado... Midway tornara-se numa espécie de porta-aviões inafundável mas estático, onde se concentravam 130 aviões - mas de 8 tipos diferentes e oriundos de três ramos diferentes: Marinha, Fuzileiros e Força Aérea do Exército.
Mas no grande quadro do que é decisivo para o desfecho das batalhas e ignorado pelos japoneses, os norte-americanos possuíam uma enorme vantagem: sabiam das intenções do inimigo. Fazia anos que haviam quebrado o código japonês e conseguiam ler as suas comunicações. E quando as intercepções não eram esclarecedoras, havia expedientes a que podiam recorrer. Neste caso, sabia-se dos grandes preparativos da armada de Yamamoto mas não se sabia qual era o seu objectivo, sempre mencionado cripticamente por AF. Então os serviços de cifra norte-americanos mandaram cada um dos objectivos prováveis enviar uma mensagem falsa, não cifrada, mas identificativa de origem. No caso de Midway o pretexto era o aparelho de destilação que se avariara. No dia seguinte, as informações interceptadas aos japoneses davam conta que AF estava com falta de água doce... Ao contrário do que acontecera em Pearl Harbour, ao comandante de Midway, o capitão-de-fragata Cyril Simard (abaixo), chegou antecipada e prestimosamente a informação de que iria ser atacado a 4 de Junho... Ao mesmo tempo, e em completa sintonia com os desejos do almirante Yamamoto, o seu oponente Nimitz formara e encaminhara para as proximidades de Midway a maior esquadra aeronaval que a US Navy conseguira reunir.
A batalha começou assim envolvida por uma evidente assimetria entre os contendores: enquanto os japoneses estavam concentrados em derrotar as forças norte-americanas de Midway, esperando com isso atrair (e derrotar) a esquadra inimiga (o objectivo último da expedição), os norte-americanos só estavam à procura dos japoneses para lhes assestar o golpe inicial e decisivo, uma tarefa que, soando simples nos propósitos, era muito mais complicada do que aquilo que poderá parecer à primeira vista na implementação, considerada a imensidão do oceano e a multiplicação de rotas que os japoneses poderiam adoptar para chegar a Midway - e essas opções tácticas já não estavam ao alcance da descodificação dos seus serviços de intercepção. O ataque aéreo japonês começou de madrugada. O radar instalado na ilha já não permite a repetição de surpresas como as de Pearl Harbour. São mais de 100 aviões que atacam Midway dos quais 1/3 são caças Mitsubishi Zero (abaixo), à época muito superiores a quaisquer oponentes que os Estados Unidos pudessem apresentar. Dos 26 pilotos das esquadrilhas algo compósitas que descolaram para os enfrentar, apenas 9 puderam obedecer à ordem surgida vinte e cinco minutos para aterrar e reabastecer. E desses, só 2 trazem um aparelho operacional para voltar a descolar. Foi a hecatombe da aviação de Midway.
E no entanto, os estragos provocados pelos bombardeamentos aos alvos em terra, ainda que parecendo importantes, não se afiguram ter tido grande efeito na moral dos defensores, o fogo das anti-aéreas continua a causar baixas entre os atacantes, é o próprio oficial piloto aviador que comanda a vaga atacante, o primeiro-tenente Tomonaga que, ao regressar com 10 aparelhos a menos, se faz preceder por uma mensagem: «Necessário segundo ataque». Será uma sugestão crucial para o desfecho da batalha. Porque as esquadrilhas de bombardeio que o comando japonês mantivera até aí em reserva para a eventualidade de ter que as activar contra uma esquadra norte-americana, vai agora reconvertê-las com armamento para ataque ao solo (é distinto do armamento anti-navio). Estavam os quatro porta-aviões japoneses nessas funções logísticas de reequipar os aviões a bordo e recolher os que haviam participado no ataque a Midway, quando começaram a chegar as primeiras informações dos seus aviões batedores de que havia uma esquadra norte-americana por perto. E que esquadra! Os norte-americanos haviam concentrado ali todo o poder aeronaval que haviam podido arrebanhar - três porta-aviões e 232 aviões versus os quatro porta-aviões e 248 aviões dos japoneses.
Mas, por essa altura, os japoneses ainda não haviam descoberto a dimensão da ameaça que impendia sobre eles mas estavam, apesar de tudo, apreensivos porque haviam sido apanhados impreparados para a eventualidade de enfrentarem uma esquadra inimiga. E a doutrina da guerra aeronaval (agora complementada com a experiência da batalha do Mar de Coral) mostrava a vantagem de quem se apropriasse da iniciativa e assestasse o primeiro golpe sobre os navios adversários. Desde as 07H00 da manhã que os porta-aviões norte-americanos estavam a lançar as suas esquadrilhas. Algumas dessas esquadrilhas perderam-se no mar e perderam-se para a batalha, nunca chegaram a encontrar a esquadra japonesa, outras houve que foram apanhadas pelo fogo anti-aéreo dos navios nipónicos e pelos Zeros que os defendiam em altitude e foram devastadas: dos 41 aviões torpedeiros engajados apenas 5 sobreviveram para regressar aos porta-aviões de origem. E no entanto, por terem assumido a iniciativa e atacado primeiro os porta-aviões japoneses, os norte-americanos só precisavam de ter o seu momento de sorte. E tiveram-no, cerca das 10H30 da manhã, quando os bombardeiros Dauntless (acima) chegaram e os japoneses ainda estavam preocupados em avaliar as baixas do ataque anterior (dos aviões torpedeiros). Em escassos cinco minutos aqueles bombardeiros de mergulho atingiam três porta-aviões japoneses e tornavam-nos inoperacionais...
Nesses cinco minutos a batalha ficara decidida. Do ponto de vista aeronaval, que era o que contava, já que os navios dos dois lados nunca se chegaram a aproximar, a grandiosa armada japonesa perdera num momento 3/4 da sua capacidade ofensiva. Perdera até a capacidade de dar a devida cobertura aérea à operação secundária de desembarque e conquista do atol de Midway. Aquilo que a Marinha imperial podia fazer - e fez - era retaliar com os aviões do porta-aviões sobrevivente, atacando por sua vez os porta-aviões do adversário. E os norte-americanos fizeram o mesmo. Perdido o efeito da surpresa os resultados dos ataques aéreos do resto do dia nivelaram-se: os japoneses afundaram um dos porta-aviões americanos e estes afundaram o último porta-aviões japonês. No final do dia 4 de Junho, a contabilidade das perdas (4-1) não oferecia quaisquer dúvidas quanto ao desfecho da batalha. E, embora desconfie que não houvesse pessoa alguma naquela época que possuísse o sangue frio e o distanciamento para analisar o problema dessa maneira, o desfecho do conflito entre o Japão e os Estados Unidos, que começara tão apenas seis meses antes, parecia selado. Como o almirante Yamamoto muito bem sabia, a paridade táctica entre os beligerantes não era acompanhada por uma paridade estratégica - os meios de combate que os Estados Unidos poderiam vir a produzir no futuro, mesmo com o país engajado numa outra guerra na Europa, eram incomensuravelmente superiores aos que o Japão poderia mobilizar. No limite, os Estados Unidos poder-se-iam dar ao luxo de perder a batalha de Midway sem que isso comprometesse o desfecho da guerra; o Japão, não, o Japão estava obrigado a vencer aquela e todas as grandes batalhas em que se empenhasse.
Há um exercício que se designa por história contrafactual que consiste em imaginar como teria sido a História se os acontecimentos não tivessem decorrido como ocorreram (vejam-se os exemplos sugeridos pelas capas dos livros acima). Imaginar um desfecho alternativo para a batalha de Midway costuma ser um dos favoritos para esses exercícios. Neles, as consequências da hipotética derrota dos norte-americanos em Midway costumam ser hipertrofiadas, arrastando consigo a perda não apenas do atol, mas também das próprias ilhas Havai (o que é muito contestável, dado que, como vimos, o Havai está a mil milhas náuticas de distância de Midway). Mas o que me parece errado numa grande parte dessas análises é que elas se dispersam pelos pormenores. Teria a vitória japonesa em Midway afectado a capacidade norte-americana de produção de meios de combate? Não, mesmo considerando a perda das ilha Havai. Teria a vitória japonesa em Midway afectado o ânimo e a determinação moral do povo norte-americano em prosseguir a guerra? Muito provavelmente não, quando se recorda a forma como esse povo encarava o processo (traiçoeiro) pelo qual fora arrastado para o conflito. É evidente que, do ponto de vista dos acontecimentos, ele teria que ter decorrido de outra forma, com um outro calendário, a guerra a terminar em 1946, 1947, talvez depois, mas o desfecho nunca seria diferente. Aliás, a História dá-nos lições preciosas e dificilmente poderemos encontrar derrota mais arrasadora do que a dos romanos na batalha de Canas (216 a.C.); mas no entanto foram os romanos e não os cartagineses que saíram vencedoras da Segunda Guerra Púnica.

O MOMENTO MAIS PRIMO MINISTERIÁVEL DE BORIS JOHNSON

Depois de se ter tornado primeiro ministro britânico já há quase três anos (Julho de 2019), a primeira vez que senti Boris Johnson com um perfil verdadeiramente primo ministeriável foi hoje, à entrada da missa do jubileu da rainha (fotografia acima). Por sinal, o próprio Boris não contribuiu em nada para a minha sensação, já que o que é verdadeiramente primo ministeriável é o chapéu da sua mulher, que desafia a gravidade com um intrigante sucesso, sucesso esse que o marido não tem tido na solução das tropelias que tem protagonizado. Por sinal, a assistência no local, não compartilhou da minha opinião e resolveu vaiá-los (abaixo), quando, para mim, aquele chapéu, a combinar com o vestido e com a jaqueta dos guardas ao fundo, mereceria uma significativa salva de palmas!

03 junho 2022

A CAUSA DOS «AFLITOS» - AS PASSADEIRAS AMARELAS

Este é um sinal de WC especial para aquelas pessoas que só vão à casa de banho quando já estão aflitinhas... Dá para imaginar que, preocupados com os direitos das minorias e em defender causas que sejam fracturantes, o Bloco de Esquerda ou o PAN possam apresentar futuramente um qualquer projecto de lei na Assembleia da República prevendo prioridades nos direitos de utilização de casas de banho públicas propositadamente para os aflitos. Assim como já há corredores verdes para a circulação de bicicletas e trotinetes, cria-se uma, sei lá, passadeira amarela, para que esses aflitos não tenham de esperar tanto nas filas públicas para uma mijinha...

O DISCRETO ANÚNCIO DA FUTURA PARTIÇÃO DA ÍNDIA BRITÂNICA

3 de Junho de 1947. Foi assim, numa singela coluna das páginas centrais do Diário de Lisboa, ao lado de uma notícia bem mais desenvolvida e ilustrada de uns oficiais espanhóis que haviam sido condecorados pelo governo português por terem vindo a Portugal concorrer a um concurso hípico, que os leitores do jornal têm conhecimento da histórica notícia que as Índias britânicas se iriam cindir em dois países - Índia e Paquistão - quando da data da independência, que estava prevista para dali a pouco mais de dois meses (15 de Agosto). O mapa acima mostra o contorno que virão a ter os dois futuros países, uma informação que era desconhecida há 75 anos, já que as fronteiras ainda não estavam sequer traçadas. Ponderando a importância das duas notícias justapostas, tive dificuldade em encontrar o que foi feito do coronel D. Rafael García-Ciudad Reig, do tenente-coronel D. Faustino Domínguez Salgado ou do major D. Jaime García Cruz, os oficiais espanhóis condecorados com a Medalha de Mérito Militar (2ª classe). Sobre a Índia e o Paquistão, não tive - não tenho tido - qualquer dificuldade.

02 junho 2022

DIZ A ROTA À NUA...

Os ingleses estão a celebrar os 69 anos da coroação de Isabel II (2 de Junho de 1953) e decidiram dar o nome de jubileu de platina à ocasião. Não me parece fazer lá muito sentido, porque ela ascendeu ao trono por morte do pai em 6 de Fevereiro de 1952 e a cerimónia de coroação só teve lugar 16 meses depois. Ou então percebe-se, que isto de organizar cerimónias para atrair multidões em pleno mês de Fevereiro em Londres é muito arriscado, que ninguém gosta de apanhar grandes molhas. Mas o que interessa para esta prosa é que, da CNN portuguesa enviaram uma enviada especial - em televisão nunca há enviados correntes... - às cerimónias londrinas: Judite Sousa. E a Judite Sousa chegou e enviou logo um trabalho... onde se fartou de dizer uma data de disparates históricos. Isso não me surpreende. O que é surpreendente é observar pessoas, como Constança Cunha e Sá, que se notabilizaram por dizer tantas asneiras em televisão quanto Judite Sousa, a criticá-la via redes sociais (acima). Aliás os disparates em televisão são uma marca de água da corporação dos jornalistas, que o colectivo capricha concertadamente em desvalorizar. Isto só estará a acontecer porque, nitidamente, Judite Sousa caiu em desgraça junto da sua própria corporação.

OS LIVROS «BEST-SELLERS» DE HÁ CINQUENTA ANOS

2 de Junho de 1972. Estava a 42ª Feira do Livro de Lisboa sensivelmente a meio, e a organização fazia um primeiro balanço do evento. O destaque maior ia naturalmente para a incontornável queixa de que as vendas haviam baixado (em livros, ou seja no que for, raramente há notícias a destacar que as vendas aumentaram espectacularmente...). Mas o que se torna desconcertante é acompanhar a lista dos livros de ficção que mais se estavam a vender: «"Tempo de Cinzas" e "Estrada de Morrer" de Urbano Tavares Rodrigues, "Invocação ao meu corpo" de Vergílio Ferreira, "Sua Excelência" de Luís Sttau Monteiro, "Uma Abelha na Chuva" de Carlos de Oliveira e "Alentejo Desencantado" de Mário Ventura.» Com excepção do penúltimo (por sinal publicado originalmente em 1953 e que estaria a registar um interesse renovado por causa do filme homónimo, nele baseado, que se estreara no mês anterior), nunca mais terei ouvido falar dos outros títulos. 1972 não terá sido um grande ano para a literatura portuguesa.

01 junho 2022

O DISCURSO INCENDIÁRIO DE WINSTON CHURCHILL

Winston Churchill proferiu discursos magníficos na Câmara dos Comuns ao longo da sua extensíssima carreira política, mas aquele que o Diário de Lisboa dava conta na sua edição de há cem anos não era desses. Muito pelo contrário, era um discurso para esquecer. Um dos grandes problemas do Reino Unido de há cem anos era a revolta na Irlanda e a guerra subversiva que ali se declarara entre a maioria católica irlandesa e as autoridades britânicas. Uma guerra que coexistia com uma guerra civil entre a maioria católica e a minoria protestante que se concentrava no Ulster, no Nordeste da ilha. Por esta altura, em Londres - onde Churchill sobraçava a pasta das Colónias - já se percebera que o controle de toda a Irlanda era insustentável. A questão seria a forma de que revestiria a separação da Irlanda do Reino Unido. Fora assinado um tratado em Dezembro de 1921, mas as condições por ele estabelecidas provocara uma cisão entre os nacionalistas irlandeses. Era para a ala mais radical desses nacionalistas, encabeçada por Eamon de Valera, que Churchill discursara ameaçadoramente. E a sua ameaça, como se percebe pela passagem do discurso que é destacada pelo jornal, era descarada, envolvendo a questão do regime - republicano ou monárquico - da nova Irlanda independente. Estes anos não são os melhores da carreira de Churchill, cujas biografias os percorrem da maneira mais acelerada que podem. Tanto assim que, para além dos futuros biógrafos, também os eleitores presentes se manifestavam: nas eleições do final daquele ano de 1922, Churchill iria perder o seu assento parlamentar.