11 fevereiro 2021

O GUARDA ROUPA DOS INTÉRPRETES E AS PALAVRAS DOS DEPUTADOS

11 de Fevereiro de 1971 era uma Quinta-Feira como hoje. E nessa noite, depois do jantar, disputava-se no cinema Tivoli (e em todos os televisores!) o importantíssimo Festival da Canção. Lembro-me que o Diário Popular desse dia continha uma separata onde podíamos ir apontando a votação recebida dos júris distritais por cada canção concorrente. Que eu usei. Mas é do seu concorrente Diário de Lisboa que recupero esta página (simbólica) onde se pode comparar o espaço que era dedicado ao guarda roupa que os intérpretes do festival iriam envergar nessa noite (a vermelho), com aquilo que fora dito nessa tarde pelos deputados na Assembleia Nacional em São Bento (a azul). Quando as coisas são para ser importantes, são mesmo importantes.

10 fevereiro 2021

O CAMUFLADO DO ALMIRANTE

Nesta história do camuflado do Almirante eu disponho-me a entender muita coisa e até a simpatizar com a causa. Só que não me disponho a alinhar com tudo e até ao fim. Eu percebo que, consideradas as circunstâncias da pandemia, haja uma necessidade social de se encontrar heróis. Também percebo que, mesmo que não conheça a identidade de quem a desencadeou, apareçam campanhas para eleger esses heróis, como aconteceu visivelmente, de um dia para o outro, ao caso do vice-almirante Gouveia e Melo, que foi substituir o anterior responsável nacional pelo plano de vacinação, Francisco Ramos. Os elogios que lhe dispensaram pareceram-me excessivos e despropositados, tanto mais que a nomeação foi feita na continuidade: Gouveia e Melo era o vice do anterior titular. Mas, mesmo assim, sou pessoa para conseguir separar as críticas ao exagero da própria pessoa do nomeado, inocente da exaltação a seu respeito, tanto mais que ele, nas palavras em que o citam, até dá mostras de uma modéstia - «Não sou eu Gouveia e Melo, não é um militar a comandar, que vale por si. Temos todos de trabalhar em equipa.» - que vai ao arrepio dos encómios que, na comunicação social, se escreveram e se continuam a escrever a seu respeito.
Agora, com toda a simpatia previamente demonstrada, o que eu já não consigo perceber é porque é que o Almirante Gouveia e Melo tem necessidade de vir para a televisão dar entrevistas de camuflado, como ontem aconteceu na TVI. Uma rápida pesquisa na internet mostrou-me que até aqui há uma semana as fotografias existentes do Almirante Gouveia e Melo mostravam-no envergando as tradicionais fardas de serviço dos oficiais da Armada, mas não o camuflado, tanto mais que os cargos mais recentemente desempenhados por si (o de chefe de gabinete do Chefe do Estado-Maior da Armada, por exemplo), não implicariam essa necessidade de uma farda que associamos ao combate de infantaria - ou de fuzileiros, no caso daquele ramo. O princípio, que me parece sólido, permanece válido para as funções que o Vice-Almirante Gouveia e Melo agora assumiu. A responsabilidade - reconhecidamente complexa - da gestão da administração das vacinas contra a covid-19 não se equipará a qualquer combate terrestre ou a uma operação anfíbia. Tanto mais que - como se pode ler no seu CV - a especialidade de Gouveia e Melo são os submarinos. A não ser que o camuflado seja um elemento de «décor», ao jeito da famosa colecção de broches que a dra. Graça Freitas leva para as conferências de imprensa...     
A ser assim, para além de despropositado, o guarda-roupa escolhido pelo ou para o Vice-Almirante Gouveia e Melo não me parece feliz: o aparecimento de oficiais de camuflado à frente das câmaras de televisão está, entre nós, para sempre associado a episódios de alteração da ordem pública, como aquelas longas explicações prestadas pelo capitão Duran Clemente ao longo da tarde do dia 25 de Novembro de 1975 até ser substituído pelo Danny Kaye. Por sinal, há quarenta e cinco anos como hoje, Duran Clemente, que era um oficial de Administração Militar, não precisava do camuflado para nada, mas ficava-lhe bem, dava-lhe um ar de combatente na televisão... Mesmo que próximos do Carnaval, o almirante Gouveia e Melo não precisa desse ar de combatente.

O HOMEM CONTRA A MÁQUINA

10 de Fevereiro de 1996. Inicia-se em Filadélfia o primeiro match de xadrez que opõe o campeão mundial Garry Kasparov e o superperformante programa Deep Blue. Contudo, há 25 anos, Deep Blue não era um programa inteligente no sentido clássico: a sua destreza assentava na capacidade de processar centenas de milhões de jogadas possíveis por segundo e não incorporava qualquer ensinamento com o desenrolar dos jogos. Garry Kasparov mostrara-se por muito tempo relutante a disputar este match, só o aceitara depois de um substancial reforço do prémio de presença. A IBM estava por detrás de Deep Blue. e a promoção do evento pagar-se-ia a si mesma no caso da vitória da máquina. Mas não. Kasparov veio a vencer o match por 4-2, ao fim de 6 jogos que decorreram entre 10 e 17 de Fevereiro. Porém, não era isso o que se queria! Nem a IBM, nem a comunicação social. Em Maio do ano seguinte, agora contra um Deep Blue II ainda mais performante, a máquina venceu finalmente o Homem (Kasparov), que era afinal o que toda a gente queria naquele enredo.

09 fevereiro 2021

UM CRETINO NO PLANALTO

Até mesmo os adversários mais empedernidos terão que reconhecer que, tivesse Haddad vencido as eleições presidenciais brasileiras de 2018, não se assistiria a nada de parecido - em termos de disparates - vindo das decisões do inquilino do Palácio da Alvorada. Vai sendo tempo que o colectivo brasileiro incorpore para si que, pelas razões circunstanciais mais legítimas, nomeadamente a corrupção instalada nas cercanias do poder por Lula e o PT, o povo cometeu um erro de palmatória ao conferir o mandato presidencial a alguém tão mal preparado para a função quanto Jair Bolsonaro. Foram 49 e depois 58 milhões de votos na fase decisiva, mas a asneira que os brasileiros cometeram, comprova-se agora, dois anos depois, também é gigantesca. Não só Bolsonaro não resolveu nada do que prometeu que ia (finalmente) resolver, como ainda o apanhamos a perder tempo e recursos com merdices como a descrita acima, da distribuição da cloroquina para o tratamento da covid-19. Isto não é um erro, é uma imbecilidade! Porém, se a contricção colectiva do povo brasileiro é um gesto muito difícil, nem tudo é ruim na situação, já que podem aprender com o exemplo dos gringos americanos do Norte. Esses também atravessa(ra)m crise semelhante, com o disparate de terem eleito um outro imbecil incompetente para o mesmo cargo presidencial: Donald Trump. E, por contemporizar e tergiversar com esse erro, acabaram por assistir ao impensável: um assalto ao Capitólio, incentivado pelos discursos do próprio presidente! Estou longe de profetizar que a situação se repita em Brasília com o Palácio do Congresso: Bolsonaro e Trump são igualmente incompetentes mas, na sua imprevisibilidade, possuem personalidades distintas. Porém, chamo a atenção que os Estados Unidos estavam defendidos dos desmandos de Trump porque possuem instituições políticas sólidas; o Brasil não tem...

(Uma pequena nota adicional para recordar Francisco José Viegas que, durante anos a fio, foi um constante, incansável e justo paladino na denúncia do Caso Lava jato e da corrupção que rodeava a presidência de Lula, ao ponto de construir uma reputação de «profundo conhecedor da realidade brasileira» e que, de há dois anos para cá, depois da eleição de Jair Bolsonaro, e por um inexplicável silêncio mediático, parece ter perdido conhecimentos... ou então considerará que nada do que se passou por lá neste último período de dois anos digno de comentário crítico... ou ainda se fica a pensar que o seu conhecimento era afinal apenas uma implicância selectiva com Lula e o PT.)

OUTRO DISCURSO IMPORTANTE DE STALIN

9 de Fevereiro de 1946. Nessa noite o camarada Stalin compareceu numa sessão de esclarecimento organizada no teatro Bolshoi, especialmente para que ele discursasse como candidato às eleições ao Soviete Supremo que teriam lugar no dia seguinte. Eram uma fantochada. Era uma fantochada as eleições (onde se escrutinaram 99,2% de votos pelos comunistas) e também era espectável que a «sessão de esclarecimento» de Stalin fosse outra fantochada ainda maior (se possível!), pontuada por um discurso frequentemente interrompido por aplausos intermináveis, acompanhados de gritos laudatórios ao ditador, uma cenografia caricata que eu já aqui destaquei no Herdeiro de Aécio a propósito do que acontecera em Dezembro de 1937, naquele mesmo teatro e por ocasião das eleições anteriores. Só que, desta vez, o conteúdo do discurso de Staline foi avaliado - sobretudo pelos observadores estrangeiros - de maneira muito menos inócua do que fora o de 1937. Stalin fez, como se esperaria, uma avaliação do que haviam sido os anos da (Segunda) Guerra que havia terminado (quatro anos, já que a sua participação só começara em 1941). E ao fazê-lo, talvez por causa da circunstância e da assistência, mas também talvez porque o ambiente de entendimento com os antigos aliados (Estados Unidos e Reino Unido) estivesse a piorar substancialmente, Stalin fez essa avaliação de uma forma pró-soviética (o que seria de esperar) mas também pouco simpática (por omissão) para com os seus antigos parceiros (a conferência de Yalta havia tido lugar ainda há um ano, a de Potsdam há apenas seis meses).  Como acontece tantas vezes em tantos outros acontecimentos, não existe um dia preciso para o começo da Guerra Fria, mas este discurso de Stalin, recuperado depois como elemento de queixa pelos americanos, tornar-se-á uma data marcante.

08 fevereiro 2021

AS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS FRANCESAS DE 8 DE FEVEREIRO DE 1871

8 de Fevereiro de 1871. Mau grado as rendições do regime imperial em Sedan e do regime republicano em Paris e a consequente derrota efectiva da França na Guerra Franco-Prussiana, apesar da ocupação pelo inimigo de quase metade do país (43 departamentos em 89), têm lugar as eleições legislativas francesas. Apesar de ocupantes e de vencedores que exigiam severas compensações (5.000 mil milhões e as duas províncias da Alsácia e da Lorena), os prussianos de Bismarck comportaram-se para a ocasião como políticos finos, facilitando as eleições quando não mesmo a logística da propaganda das listas dos «candidatos da paz». Porque a França fora vencida, mas o problema que subsistia era que ela aceitasse a derrota. E essa aceitação precisava de ser legitimada por um acto eleitoral que robustecesse as teses da ala republicana moderada que se mostrava disposta a aceitar o veredicto das armas e as respectivas consequências, facção essa encabeçada pelo veterano septuagenário Adolphe Thiers (acima, à esquerda). Contra si, pontificava a facção republicana mais radical, dirigida por Léon Gambetta (à direita), que se mostrava contra a aceitação daquelas condições impostas pelos prussianos e a favor da continuação da resistência aos alemães. O que há a dizer dos resultados da consulta ao eleitorado francês entre estas duas facções republicanas... é que ganharam os monárquicos! O resto da França recusava-se a seguir a França urbana: os monárquicos, representados no quadro acima a azul (escuro para os legitimistas - 182 lugares - e claro para os orleanistas - 214 lugares) detinham uma robusta maioria da primeira assembleia eleita da nova República, que fora proclamada em Paris há cinco meses... Isto às vezes é uma chatice convocar o eleitorado para resolver uma disputa política.

O INÍCIO DA OPERAÇÃO LAM SON 719

8 de Fevereiro de 1971. Cerca de 12.000 soldados sul-vietnamitas sob o comando do tenente-general Hoàng Xuân Lãm atravessam a fronteira com o Laos (ver mapa mais abaixo) com o objectivo de cortarem a Trilha Ho-Chi-Minh que reabastecia logisticamente a guerra que os norte-vietnamitas desenvolviam no Vietname do Sul. Mas, vale a pena recuperar um poste aqui colocado no Herdeiro de Aécio há mais de dez anos a respeito desta operação que agora completa cinquenta anos.
Se a história que, nos Estados Unidos, se quis reter da Guerra do Vietname pode ser sintetizada em fotografias como a que aparece cima, a de uma guerra de patrulhas de infantaria atravessando regiões inóspitas em busca de um inimigo que se escondia e só se dispunha a combater em locais à sua escolha, a verdadeira Guerra do Vietname é algo mais complexa que isso. Depois da Administração Nixon ter decidido evacuar todas as forças combatentes dos Estados Unidos, e substitui-los por sul-vietnamitas (a chamada vietnamização), o cenário da Guerra alterou-se significativamente. Com os norte-americanos agindo cada vez mais como assessores e não integrados em unidades combatentes, a grande maioria das batalhas que tiveram lugar durante a década de 70 foram de tipo convencional, envolvendo imensos meios aéreos e blindados. Um dos primeiros exemplos disso foi a Operação Lam Son 719, uma iniciativa conjunta norte-americana e sul-vietnamita para bloquear e estrangular a Trilha Ho Chi Minh (acima) que era a via de reabastecimento com que, através do território do Laos, o Vietname do Norte abastecia logisticamente a guerrilha no Vietname do Sul (abaixo).
O nome da Operação era pomposo: Lam Son era o nome de uma revolta dos vietnamitas contra os chineses que tivera lugar em 1427 e o 719 resultava da junção do ano da ofensiva (1971) com o número da antiga estrada colonial (francesa) que constituiria o eixo da progressão, a nº 9 que ligava Quang Tri no Vietname a Tchepone no Laos. A Operação estava estruturada em 4 fases que passavam pela conquista, manutenção e posterior evacuação em boa ordem da cidade laociana. A Operação tinha o objectivo político de mostrar as novas capacidades do exército sul-vietnamita, o sucesso da vietnamização.
Descrevendo-a de uma forma necessariamente sucinta, a resistência às colunas que pretendiam progredir ao longo da estrada nº 9 aumentou a tal ponto que houve que recorrer a um gigantesco assalto heli-transportado (acima), o maior de toda a Guerra do Vietname, empregando 120 helicópteros Huey(*), para que dois batalhões de soldados sul-vietnamitas conseguissem finalmente conquistar o objectivo final de Tchepone. Para efeitos do objectivo político da Operação esse terá sido o momento da consagração (abaixo). Mas o pior estava para acontecer quando se quisesse proceder à evacuação em boa ordem
Foi aí, debaixo do fogo dos contra-ataques dos norte-vietnamitas que os militares norte-americanos se aperceberam das fragilidades dos seus aliados, nomeadamente a completa perda de disciplina quando em situações adversas (abaixo, soldados sul-vietnamitas pendurados nos patins dos helicópteros de evacuação dos feridos…). Mas, como tantas vezes acontece, essa realidade teve que desaparecer perante as necessidades políticas: para benefício dos seus respectivos auditórios tanto Richard Nixon quanto Nguyễn Văn Thiệu, o presidente do Vietname do Sul, validaram o sucesso da vietnamização
(*) Para comparação, por essa altura a Força Aérea portuguesa dispunha de 100 helicópteros para o conjunto dos seus 3 Teatros de Operações em África (Angola, Moçambique e Guiné). E no conjunto, norte-americanos e sul-vietnamitas perderam 108 helicópteros durante a Operação Lam Son 719.

SOBRE OBITUÁRIOS DE MAIS E INFORMAÇÃO DE MENOS

Se algo tenho por certo, nesta era em que tudo se sabe logo depois de acontecer, é que as notícias de quem vai morrendo funcionam como aquela velha história do papel higiénico, que nunca se separava pelo picotado. Todos os dias sou bombardeado com a notícia da morte de pessoas que nunca soube o que haviam feito enquanto estiveram vivas, com uma ou outra excepção pontual. Aceitar-se-ia esse bombardeio por excesso, não se desse o caso de, apesar desse bombardeio de nomes desconhecidos, me escaparem com regularidade irritante os óbitos de pessoas que verdadeiramente me interessam, como foi o caso, bem recente do desenhador francês de BD Jean Graton. E é o caso agora de George Shultz, falecido anteontem, e que eu aqui tão recentemente invocara, a propósito do seu 100º aniversário.

07 fevereiro 2021

COINCIDÊNCIAS A RESPEITO DO INTERESSE DE HENRIQUE GALVÃO PELA MARINHA MERCANTE

7 de Fevereiro de 1946. Na sessão da Assembleia Nacional desse dia tínhamos o deputado Henrique Galvão a discursar sobre a situação da marinha mercante. Precisamente quinze anos depois, a 7 de Fevereiro de 1961, o mesmo Henrique Galvão tornava a ser protagonista, ainda que indirecto, de uma outra notícia do Diário de Lisboa e ainda a propósito da marinha mercante, como protagonista do assalto realizado ao «Santa Maria», navio que naquela data, depois de devolvido às autoridades portuguesas, zarpava do porto brasileiro de Recife, de regresso a Lisboa. De deputado do Estado Novo a pirata do mar, ele há protagonistas e percursos políticos como o de Henrique Galvão (...ou o de Humberto Delgado) que, apresentem-nos agora com a tolerância política que quiserem, eu não me disponho a aceitar como razoáveis e merecedores de respeito. Não me convencem que, ter-se sido, a certa altura da carreira, da oposição ao Estado Novo, constitui só por si absolvição imediata do resto dos pecados políticos.

06 fevereiro 2021

ESCÓCIA - PAÍS DE GALES

6 de Fevereiro de 1971. Um Sábado como hoje e uma tarde televisiva preenchida com o jogo Escócia - País de Gales para o Torneio das Cinco Nações, comentado, como se tornara costume, por Cordeiro do Vale. Um jogo renhido, que acabou com a vitória dos galeses por 19-18, eles que iriam ganhar o torneio com um Grande Slam. Ainda mais duas notas nostálgicas: a dupla dos médios galeses era formada pelos legendários Barry John (abertura) e Gareth Edwards (formação); era muito complicado seguir estes jogos em televisores a preto e branco, porque só a intensidade dos cinzentos permitia distinguir as camisolas em azul escuro dos escoceses do vermelho dos galeses. Só na época seguinte é que se passará a ter esse problema dos telespectadores em consideração, trocando a cor dos calções a uma das equipas.

05 fevereiro 2021

OS NOVOS RESTAURANTES «CLANDÉS» (de clandestino)

Em França, o país que sempre se arrogou ser o campeão mundial da restauração (recorde-se a petulância da atribuição das estrelas Michelin...), parecem estar a popularizar-se os «clandés», restaurantes clandestinos onde, de acordo com notícias que se podem ler na imprensa local, as autoridades policiais já surpreenderam à mesa todo o género de clientes, incluindo polícias e mesmo magistrados. O país é outro, o século é outro e aqui trata-se de comida em vez de bebida, mas tudo nas cenas acima descritas me faz lembrar os famosos speakeasys, os bares clandestinos dos tempos da Lei Seca nos Estados Unidos. Só que em França, em vez de se beber apenas uns copos, nos clandés almoça-se ou janta-se, com o condimento de que aquilo que se faz é proibido. A acreditar no precedente de há 100 anos, com os tempos, a clandestinidade do gesto há de ser cada vez mais tolerada, até se banalizar e propiciar fotografias como as que se vêm acima. Ou então, acaba-se antes com os exageros, para que não aconteça que as medidas restritivas não sejam acatadas e se esfarelem no ridículo de ninguém as cumprir. Parece que em França, e apesar de tudo, o presidente Macron já deu pelo perigo que isso aconteça...

OS DOIS PARTIDOS COMUNISTAS DA PENÍNSULA NUNCA SE DERAM BEM...

5 de Fevereiro de 1981. Mais interessante do que o conteúdo da noticia sobre o encontro entre Álvaro Cunhal e Santiago Carrillo (secretários-gerais dos partidos comunistas português e espanhol) é o destaque que o encontro merece ao Diário de Lisboa: primeira página e ao centro, a localização mais nobre de um jornal, o que é verdadeiramente notável se atendermos ao facto que qualquer dos dois partidos comunistas não ocupavam o poder nos respectivos países. Um outro aspecto a merecer atenção é o título, a rematar com a expressão "desanuviamento", deixando implícito que há um "anuviamento", uma antipatia que se sabia histórica entre os dois protagonistas, Cunhal e Carrillo. Aqueles que prestassem ainda mais atenção, aperceber-se-iam que a notícia se limitava apenas ao comentário da parte portuguesa sobre o estado das relações entre partidos-irmãos (na linguagem da ortodoxia comunista), que aqui eram irmãos desavindos. Entregue esse comentário à pessoa e ao estilo discursivo de Vítor Dias (que, há meia dúzia de anos, ainda "era" do MDP/CDE...), o resultado era palavroso em excesso e sem conter nada de substantivo: «O adiamento pelo PCE para o segundo semestre deste ano da concretização de propostas de visitas mútuas dos secretários-gerais de ambos os partidos não favorece o objectivo pretendido pelo nosso partido de debater com franqueza as divergências existentes e promover uma troca de opiniões sobre todas as questões de interesse mútuo.» A proposta do seu partido significava «de facto» a introdução de «um elemento favorável nas relações entre os dois partidos. Todavia, o adiamento das nossas propostas parece não poder dissociar-se das dificuldades internas do PCE, que, como é sabido, em data posterior à proposta do nosso partido registou uma agudização com as conclusões do recente congresso do PSUC que se afastou de conhecidas teses* do secretário-geral do PCE».  O PCP «mantém-se fiel à sua posição de não ingerência nas questões internas de outros partidos. Concretamente, sendo conhecida a natureza da divergências existentes entre o PCE e o PCP e nomeadamente o seu secretário-geral Santiago Carrillo (...) Não nos cabe dar ou retirar a mão a dirigentes de outros partidos». Em suma: detestamo-nos mutuamente, não podemos é assumir isso numa frase clara e curta. Vítor Dias era ímpar a escrever textos tão maçudos que, no fim deles, já nem nos lembrávamos qual fora o assunto inicial.
* nota minha: euro-comunistas.

04 fevereiro 2021

PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA, 4 DE FEVEREIRO É MAIS UMA DATA DO QUE PROPRIAMENTE UM ACONTECIMENTO

4 de Fevereiro de 1961. Um grupo de várias dezenas de nacionalistas angolanos, conotados com o movimento que viria a ser conhecido por MPLA, procede a um ataque coordenado à vários objectivos na cidade de Luanda: a sede dos CTT, uma cadeia de uma esquadra policial, a casa de reclusão militar, estes dois últimos objectivos com o objectivos de proceder à libertação de alguns dos reclusos que ali se encontravam. A acção saldou-se por um fracasso total: nenhum dos objectivos foi conquistado, nenhum dos presos foi libertado, os atacantes sofreram baixas significativas mas que nunca foram contabilizadas com rigor. Entre os defensores contaram-se sete mortos. O episódio, irrelevante como se percebe do ponto de vista prático, veio a adquirir um valor simbólico - o aeroporto de Luanda denomina-se hoje 4 de Fevereiro em atenção à data, por exemplo - porque através dele o movimento MPLA se permitia estabelecer a precedência sobre a sua rival FNLA no que concerne ao desencadear da luta armada para a independência de Angola. Simbologias à parte, do ponto de vista operacional militar esta acção foi a primeira... de mais nenhuma pois, como já aqui expliquei no Herdeiro de Aécio, nunca houve acções de terrorismo urbano em Angola, ao contrário de outros casos similares, como o argelino.

OS CONFINAMENTOS E A PRISÃO DE NAVALNY

Vale bem a pena comparar o destaque e os formatos como têm estado a ser noticiadas as manifestações públicas na Europa ocidental contra as medidas de confinamento e, simultaneamente e no outro extremo da Europa, outras manifestações públicas, mas estas contra a prisão de um oposicionista russo. Pelo alinhamento noticioso, até parece que os dois assuntos têm a mesma importância, senão mesmo sugere-se que o de Moscovo é mais importante. Porque, por lá, as limitações aos direitos e liberdades serão impostas por dirigentes maus. Quanto aos desacatos que grassam por cá, quanto menos se falar do assunto tanto melhor, porque os dirigentes da Europa ocidental são todos bem intencionados.  

A FALÊNCIA DA ROLLS-ROYCE

4 de Fevereiro de 1971. A companhia britânica Rolls Royce declara falência. Paradoxalmente, as razões por detrás das dificuldades financeiras que levaram àquela decisão, nada têm a ver com a divisão de automóveis de super-luxo, os que haviam tornado a marca mundialmente conhecida, mas antes com a divisão construtora de motores aeronáuticos, particularmente um contrato que se tornara deficitário para a criação de novos motores que equipassem o novo Lockheed L-1011, avião que tivera o seu voo inaugural dois meses e meio antes. O governo - conservador! - britânico nacionalizará a empresa.

COMO UMA MOSCA VAREJEIRA ESTREBUCHANDO, DEPOIS DE APANHAR COM O INSECTICIDA...

Todas estas notícias tentando reviver a decadência inexorável de Pedro Santana Lopes fazem-me lembrar o frenesim das moscas varejeiras a debaterem-se na agonia depois de apanharem com um insecticida. E ninguém gosta de moscas varejeiras. Sobretudo se elas andaram a voar por outras paragens e outros partidos políticos. Nem as estruturas autárquicas do PSD de cidades de que Pedro Santana Lopes se utilizou na sua carreira política (caso da Figueira da Foz). Chegados a esta última fase agónica, o que se notícia a respeito do antigo primeiro-ministro, para além de irrelevante, torna-se patético, assim como o é o esforço de quem ainda o promove (o Observador ou o Diário de Notícias), publicando fotografias como a abaixo para o reconectar uma vez mais ao «PPD/PSD»*, a empunhar prospectos de campanhas velhas de 30 anos!
* Uma das notas piadéticas do tique de Santana Lopes de designar insistentemente o partido por PPD/PSD, é que ele nunca foi militante do partido quando ele se denominava PPD.

03 fevereiro 2021

O FIM DO SONHO DO BRASIL

3 de Fevereiro de 1931. O jornal daquele dia dava conta da experiência directa e desiludida de um milhar de emigrantes portugueses que retornavam do Brasil no paquete Nyassa (abaixo). A Grande Depressão propagara-se por toda a parte e até o Brasil, aquele que fora, durante séculos, o destino por excelência da emigração portuguesa, se mostrava agora pouco acolhedor. Serão os próprios números oficiais brasileiros da imigração portuguesa para o Brasil (apenas uma fracção da emigração total, já que havia muita clandestina) a comprovarem essa diminuição do fluxo migratório e essa progressiva dissociação entre a antiga metrópole e a sua ex-colónia: os 233.649 imigrantes portugueses oficiais da década anterior reduzir-se-ão a 75.634 na década que então começava. A emigração ainda voltará a subir, mas o Brasil nunca mais será o destino ansiado que fora, desaparecerão da sociedade portuguesa personagens como os tios Felicianos de A Brasileira de Pranzins.

02 fevereiro 2021

OS LUGARES COMUNS DE UMA IDEOLOGIA DAS MAIS VULNERÁVEIS À COVID-19

...citado de uma recentíssima, mas não muito imaginativa, nota necrológica de uma rede social. Ou seja, no seu determinismo, dando lados certos e errados à História, a verdade é que Marx não se pronunciou sobre pandemias e ficam os seus discípulos sem saber lá muito bem o que hão de escrever.

O PRÍNCIPE D. JOÃO ESTEVE EM LONDRES - MAS QUEM É O PRÍNCIPE D. JOÃO?

2 de Fevereiro de 1946. No canto superior esquerdo da última página do Diário de Lisboa aparece a notícia abaixo, que eu disponibilizo para que o leitor do Herdeiro de Aécio tente deduzir, do que lá vem escrito, quem é e de que país é originário «o príncipe D. João» que é «a estrela» da notícia. O conteúdo desta última é, objectivamente, nulo: o protagonista conversou com imensa gente, a começar pelo rei, e depois deu um passeio de automóvel por uma cidade destruída pelos bombardeamentos (Londres). É irrelevante, mas ao menos podia saber-se quem protagonizara tal irrelevância. Foi-me preciso fazer uma pesquisa à identidade do Marquês de Carisbrooke na Wikipedia - dispensa-se o esclarecimento que os leitores de há 75 anos não dispunham de Wikipedia... - para poder concluir que «o príncipe D. João» se trataria afinal de Juan de Borbon, o pretendente ao trono de Espanha após a morte do progenitor, Alfonso XIII em 1941. Aparentemente, para os jornalistas de antanho, isso era uma explicação desnecessária e a intimidade como «o príncipe D.João» é tratado na notícia, contudo, até levaria quase à suposição que se trataria de algum pretendente português.

01 fevereiro 2021

COMO SÃO DIFERENTES OS «FADOS» DOS EMIGRANTES DE PAÍS PARA PAÍS

31 de Janeiro e 1 de Fevereiro de 1961. Demissão do antigo primeiro-ministro belga Paul-Henri Spaak (1899-1972) do cargo de secretário-geral da NATO. No dia seguinte anuncia-se de regresso à política belga. É diante de exemplos destes que me dá para recordar Durão Barroso, o antigo primeiro-ministro português, que abandonou a função para dar uma volta lá por fora e ainda não lhe deu para regressar à política doméstica onde estamos cheios de saudades dele... Tão pouco se espera que aconteça algo de diferente com António Guterres. É o nosso fado do imigrante, que é diferente do que há na Bélgica. (Nota: o sucessor de Spaak irá ser o holandês Dirk Stikker, a quem a notícia acima concede apenas 4 linhas de texto, e não o norueguês Halvard Lange, cuja causa é argumentada em 3 longos parágrafos)