04 fevereiro 2020

OS 75 ANOS DA CONFERÊNCIA DE YALTA

4 de Fevereiro de 1945. Há setenta e cinco anos iniciava-se a conferência de Yalta. E há doze anos e meio publiquei aqui no Herdeiro de Aécio um poste onde falava de alguns dos problemas logísticos que se puseram aos soviéticos para organizar a conferência num território (Crimeia) que meses antes ainda estava ocupado pelos alemães. Haveria outras soluções mas Estaline não se dispunha a deslocar-se para muito longe e, dizem as más línguas, que tinha medo de voar. De facto, constata-se que a todas as conferências com os aliados a que compareceu (3 - Teerão, Yalta e Potsdam), deslocou-se sempre de comboio. Sobre a conferência propriamente dita e como eu já sugerira anteriormente: há bastantes por aí, uns melhor, outros menos bem, que se dispõem a explicar aquilo que aconteceu há 75 anos na Crimeia. Já aqui tive também oportunidade de lembrar, quando quiseram dar à expressão um sentido negativo em Outubro de 2015, que aquela magna aliança militar também foi uma coligação negativa (contra a Alemanha).

03 fevereiro 2020

«MADE IN AMERICA» MAS PARA PORTUGUÊS CONSUMIR

Não estarei a arriscar muito se predisser que 99% dos efectivos e potenciais leitores do Observador não sabem as regras do futebol americano. E que essa ignorância e desconhecimento não se deverão à particular complexidade das mesmas (regras). No entanto, a publicação bombardeia-os, aos leitores (existentes e potenciais), com o painel de notícias que acima se pode apreciar a pretexto da realização da final do campeonato norte-americano da modalidade que ontem teve lugar a horas impróprias para que a maioria dos europeus a seguisse em directo (o jogo começou às 23H30 de Lisboa). Contudo, e porque o processo parece ter vingado para outros casos, insiste-se em forçar a adoptação de padrões de consumo da sociedade norte-americana como se eles existissem, idênticos, na Europa. Anda há dois meses aprendi mais um: o Black Friday... Este mês de Fevereiro, então, é prodigioso em acontecimentos do faz-de-conta que são iguaizinhos na Europa e na América do Norte: depois do Super Bowl (com maiúsculas), na próxima semana hão-de vir os Óscares, essa cerimónia que vai deixar, mais uma vez, o continente europeu insone (já que a terá que acompanhar em directo a partir das 3 da madrugada), a que se seguirá, na semana seguinte, essa data incontornável no calendário dos santos da igreja católica (e do amor) que é o Dia de São Valentim... Antecipo que, a todas elas, o Observador e o resto da jornalada irá dar a atenção que todas elas merecem, presos na armadilha: ou fazem barulho a propósito destas irrelevâncias, ou então não fazem barulho algum e aí têm medo de serem esquecidos. Bute aí promover as nossas marchas populares nos Estados Unidos?

A PRISÃO DE KLAUS FUCHS

3 de Fevereiro de 1950. Prisão (pela contra-espionagem britânica) de Klaus Fuchs. A pretensão do livro acima (2014), de que ele terá mudado o Mundo é provavelmente excessiva. Mas aquilo que torna a sua história desinteressante para ser explorada como epopeia de propaganda, quer do lado ocidental, quer do lado soviético, é o facto de a sua história ser desprovida da emoção e moralidade de que as histórias de espiões que prestam precisam ter para serem popularizadas para propaganda. Klaus Fuchs foi um físico teórico e, como tal, acabou prestando relevantes serviços como tal ao desenvolvimento do programa nuclear que criou as primeiras armas atómicas em 1945, nos Estados Unidos. Foi um espião que, apesar de ter sido espião, foi um espião útil à causa contra a qual veio a espiar. E não foi um espião muito dissimulado. Quando o Reino Unido o contratou, em 1933, o seu percurso e as suas simpatias comunistas na Alemanha eram conhecidas; aliás, fora por isso que fugira ao nazismo. Quanto à sua carreira como espião, ele foi um espião activo mas menor: aquilo em que os soviéticos estiveram verdadeiramente interessados de 1945 em diante era nas soluções práticas para a construção da arma nuclear, informações que ele, como físico teórico, apenas acompanhava colateralmente. A acrescer, documentos que mais tarde vieram a ser conhecidos (projecto Venona), parecem indiciar que a contra-espionagem dos Estados Unidos desde muito cedo (1943) soubera que havia espiões soviéticos no seu programa nuclear, e que um dos suspeitos principais era Fuchs. Isto torna intrigante o facto de os britânicos terem esperado quase cinco anos para questionarem Fuchs e finalmente o prenderem há 70 anos. Uma análise à sua actividade como físico teórico e como espião mostra que os prejuízos que Fuchs havia causado com a sua segunda actividade haviam ocorrido em 1946 e que em 1950 Fuchs já teria acesso a pouco material que interessasse aos soviéticos. Aquilo que mudara recentemente fora o anúncio da detonação da primeira bomba atómica soviética, em Setembro de 1949 e a percepção pelas opiniões públicas dos países ocidentais que os Estados Unidos haviam perdido a vantagem da exclusividade do armamento nuclear. O que obrigara a respostas como aquela que aqui publicámos anteontem, com o anúncio norte-americano do desenvolvimento de uma bomba termonuclear (Bomba H), muito mais poderosa. O resto da história de Klaus Fuchs parece mostrar que a sua prisão terá sido muito mais ditada pelas circunstâncias dos poderes quererem que se aplacasse uma opinião pública (e não só...) desagradada do que verdadeiramente capturar alguém que passara informações ao inimigo. No Reino Unido, o First Sea Lord Bruce Fraser perguntava alto, dando voz a tantos: «Como é que é possível que, sabendo aquilo que nós sabemos sobre armamento nuclear desde 1945, ainda não possuímos uma bomba atómica, em contraste com o que acontece com os russos que, partindo do nada, aparentemente já nos ultrapassaram?» Para justificar e amenizar as vozes que assim se indignavam, no imediato um bode expiatório como Fuchs foi julgado e condenado em tempo record. Em menos de um mês (1 de Março de 1950) e num julgamento que terá durado hora e meio, ele recebeu uma pena de catorze anos de prisão por espionagem. Além disso, perdeu a nacionalidade britânica. Klaus Fuchs cumpriu a pena até Junho de 1959, quando foi amnistiado com uma redução por bom comportamento. Tinha ainda 47 anos. Foi viver para a Alemanha Oriental, para Dresden, onde se situa o Instituto de Pesquisa Nuclear, onde se tornou uma figura proeminente. O regime comunista deu-lhe alguns cargos de prestígio como a presidência da Academia de Ciências e um lugar no comité central do partido. Reformou-se em 1979, faleceu em 1988. Tendo trabalhado para os dois lados, é um espião com o qual é difícil antipatizar.

02 fevereiro 2020

«QUEREM SABER PORQUE CRESCE O CHEGA?» NÃO,...

...em primeiro lugar porque se trata de um assunto tão à moda que, a respeito dele, funciona o princípio de que há certas opiniões que são como os cus: todos têm um e cada qual tem a sua (opinião). E num destacado segundo lugar porque ler a opinião de um palerma que já se fartou de profetizar asneiras grosseiras e desmentidas pelos factos (como o de o professor Marcelo não se chegar a candidatar à presidência da República e, se o fizesse, perderia...) é um perfeito exercício de masoquismo e de perda de tempo. A avaliação está para além da discordância política, o João Marques de Almeida é, comprovadamente, um idiota e, ano após ano (há dois anos antecipava para breve «o fim de Merkel»...), remodela-se o painel de colunistas, mas o Observador mantém-no por razões que obviamente nada terão a ver com a qualidade da escrita e a argúcia da sua análise política. No artigo que escreve este Domingo (pagam-lho?), bem pode ele invocar o «sistema» que «ataca o Chega»... Certamente não há só esse «sistema» e, antes desse outro que persegue tudo o que venha da extrema direita, o que me intriga é este outro «sistema» que concede uma plataforma semanal a esta mediocridade atestada. Há assim tantos leitores do Observador a lerem-no e a reconhecerem-se no que escreve? É que, ainda por cima, é uma colaboração vintage (premium)!

PLENOS PODERES PARA QUE DE GAULLE DÊ A INDEPENDÊNCIA À ARGÉLIA

2 de Fevereiro de 1960. Em consequência e como resposta à «semana das barricadas» que acabara de ser finalmente controlada em Argel, em Paris, o Presidente Charles de Gaulle solicita à (e obterá da) Assembleia Nacional um voto de plenos poderes por mais de um ano para que o governo de Michel Debré solucione o problema argelino. O resultado da votação (uma esmagadora maioria de 449 votos a favor versus 79 contra) é um sucesso governamental e uma primeira indicação bastante clara que a a classe política da França metropolitana não se mostra disposta a suportar nem as intenções integracionistas da comunidade argelina de origem europeia (pieds-noirs), nem o prosseguimento da Guerra da Argélia para as sustentar. No processo, dois deputados, promotores activos dos acontecimentos em Argel, são pronunciados por atentado contra a segurança interna do Estado.

01 fevereiro 2020

QUERIDOS, ARRANJEI UM PLANO DE PAZ PARA O MÉDIO ORIENTE!

Só quem conhece a história do Médio Oriente conhecerá a dimensão dos esforços diplomáticos que foram ali investidos ao longo de décadas para a resolução do problema da convivência entre árabes e judeus. O problema é extremamente complexo, envolve, para além de Israel, quatro países árabes que com ele fazem fronteira (Líbano, Síria, Jordânia e Egipto) e ainda os próprios habitantes árabes que, em Israel e nos territórios por ele ocupados, coabitam com os israelitas. E depois há ainda os outros países árabes que, por razões históricas e variadas, também pretendem ter algo a dizer sobre o assunto como a Arábia Saudita, o Iraque, os países petrolíferos do Golfo, etc. Só quem conhece essa história e as suas nuances, aprendeu através dela, a precaução de não ser demasiado ribombante por ocasião de novas cerimónias de assinatura de acordos, já que os que foram firmados pelas partes interessadas naquela região têm a tendência para deslaçarem pouco tempo depois de serem solenemente firmados, pela pro-actividade dos múltiplos interesses afectados. Mas, por esta vez, consigo endossar a Donald Trump o cumprimento de ser o protagonista de um acontecimento que nenhum presidente americano realizara antes dele: pela primeira vez, na Casa Branca, houve a coragem de dar-se o nome de plano de paz a um documento de 181 páginas que bem poderia ser o script de um daqueles concursos de televisão, estilo querido, mudei a casa! ou pesadelo na cozinha. A apresentação esteve à altura: o plano de paz seria para ser aceite por duas partes e uma dessas partes primou pela ausência. Mas, como diria a Teresa Guilherme (que não destoaria na ocasião ao lado de Trump e Netanyahu): isso agora... não interessa nada! Ou, na versão Trump, os árabes são capazes de estar um bocado aborrecidos agora mas vão acabar por se conformar. «We'll see what happens» (normalmente não acontece nada, mas ninguém tem coragem de confrontar Trump com isso). A atitude do autor do script, Jared Kushner (que é genro de Donald Trump e que decerto estudou aprofundadamente o problema israelo-palestiniano...), nas entrevistas que deu a cadeias de TV como a CNN ou a al-Jazeera, foi a de explicar o seu texto, deflectindo as perguntas incómodas, com a explicação que ele não concordava com as premissas dos jornalistas, e por isso dizendo o que lhe apetecia sobre um outro assunto; e, por outro lado, culpando os dirigentes árabes por não se disporem a aceitar o espectacular plano que ele engendrara, que aparentemente, e pela satisfação manifestada por Netanyahu, concede à parte israelita quase tudo aquilo que ela deseja. Como acontece com os dois concursos que citei, não interessou esmiuçar a razoabilidade das propostas, assim como não interessa investigar se os berros e as sugestões do mestre-cuca do pesadelo na cozinha tiveram algum impacto na qualidade da comida e no aumento da freguesia do restaurante; também não vi qualquer interesse dos proponentes em discutir a evolução do plano ao longo do tempo, assim como no querido, mudei a casa! ninguém lá vai dali por seis meses constatar que os cortinados já desbotaram e que o papel de parede descolou. Este não irá ser o primeiro plano de paz para aquela região a fracassar, mas não me lembro de outro a ser apresentado de maneira tão pueril.

UM TÍPICO JORNAL DO APOGEU DA GUERRA FRIA

1 de Fevereiro de 1950. A primeira e última páginas da edição do dia do Diário de Lisboa davam a verdadeira panorâmica do que era um jornal de um jornal do apogeu da Guerra Fria. Em destaque na primeira página a ordem que o presidente Truman dos Estados Unidos dera, no dia anterior, para que se prosseguissem as investigações para a montagem de uma bomba de hidrogénio. A corrida ao armamento nuclear é (mais) um daqueles assuntos em que, nas redes sociais, sempre encontrei muito mais opiniões (vincadas) do que informações (fundamentadas). Na mesma página e também em Washington, o secretário da Força Aérea punha os Estados Unidos de sobreaviso contra o perigo duma agressão soviética. O desenvolvimento destes dois assuntos era prosseguido na última página, local onde outros episódios das tensões entre o Ocidente e o Leste eram relatados: em Londres, o Foreign Office (negócios estrangeiros), e em resposta a uma solicitação pacifista dos quakers, produzira e publicitara uma nota recusando-a, por inútil, deplorando o comportamento do governo soviético nos últimos anos; enquanto que em Paris, o governo francês enviara uma nota de protesto aos soviéticos pelo reconhecimento que este prestara ao governo vietnamita de Ho Chi Minh, convocando dramaticamente o embaixador soviético acreditado na capital francesa. Viviam-se tempos conturbados, onde se nota que a linguagem diplomática era bem pouco diplomática. 

31 janeiro 2020

«VERGONHA ALHEIA»

Ainda bem que o episódio da deputada do Livre se concluiu com a retirada da confiança política à visada, já que o arrastamento da decisão estava a levantar a hipótese de que o emprego da expressão «Vergonha Alheia» passara a ser mais uma daquelas boas expressões da língua portuguesa que fora oportunisticamente desvalorizada pela retórica da utilização política. Para mim, nem é uma questão política, trata-se mais uma questão de não malbaratar demasiado o português que vivenciamos...

NEVOEIRO NO CANAL, O CONTINENTE ESTÁ ISOLADO!

Quem o quiser fazer, pode procurar esclarecer-se se o famoso cabeçalho «Fog in Channel Continent Cut Off» é fidedigno ou não passa, afinal, de um daqueles mitos que pegaram. Em meu socorro invoco a sabedoria de um dos tais povos que irá ficar isolado a partir de hoje, o italiano, que forjaram a locução ideal para estas circunstâncias onde a verdade não será o mais importante: «Se non è vero, è ben trovato". A ocasião solene da saída do Reino Unido da União Europeia, porém, não nos deve fazer esquecer que, ao contrário da bandeira britânica em vias de ser removida na fotografia acima, quase todos e os principais problemas consequentes daquela saída permanecem pendurados de resolução. No meio do naturalíssimo barulho que a comunicação social está a fazer a propósito da ocasião, isso é aquilo que me parece mais importante de reter: depois do referendo de Junho de 2016, em três anos e meio empurraram-se os problemas com a barriga. Algures no futuro eles terão que ser resolvidos.

30 janeiro 2020

O PRIMEIRO MCDONALD'S DE MOSCOVO

30 (ou 31?) de Janeiro de 1990. Abertura do primeiro estabelecimento da cadeia McDonald's na capital Soviética. Os preços não são nada convidativos pelos padrões locais, já que um Big Mac custa o mesmo que um passe mensal de transportes colectivos, mas, segundo os números que vieram a ser mais tarde apresentados pela multinacional, só nesse dia cerca de 15.000 moscovitas fizeram fila à porta do estabelecimento para se iniciarem num dos rituais mais elementares da sociedade capitalista (abaixo). Segundo esses mesmos relatos, se os moscovitas estavam habituadíssimos às filas, não o estariam ao comportamento cortês e sorridente dos empregados...
Tanto terá sido o impacto cultural adverso em consumidores que estavam habituados a que os empregados dos estabelecimentos comerciais se estivessem positivamente cagando para cativar os clientes, que uma circular posterior da gerência do McDonald's moscovita instruiu os empregados para que fossem menos sorridentes e afáveis quando atendessem a clientela. Enquanto isso, e por cá, resistia-se como se podia aos novos tempos. O Diário de Lisboa do dia, cujas tendência pró-comunista se mantinha, fazia mais um esforço de spinning com o titulo Perestroika em apuros... Subentendido à escolha daquelas palavras, nem parecia que era o comunismo que colapsava, o cerne do problema seria a iniciativa de Gorbachev de o reformar...
Ainda hoje no nº3 da Soeiro Pereira Gomes se acredita como um dogma de fé que o que terá matado o paciente foi o tratamento para o cancro e não o cancro propriamente dito...

29 janeiro 2020

«NÃO QUERO FICAR ENTALADO ENTRE A JOACINE E O ANDRÉ»...

Sem calhar não será bem assim como se descreve acima, o entalanço é outro... Depois de o Observador ter perdido as suas apostas nas campanhas internas tanto do PSD (onde se mostraram escabrosamente parciais por Luís Montenegro) como do CDS (mais discretamente parciais por João Almeida), o que se constata é que o Observador e o seu liberalismo à outrance, a estarem entalados, estão-no agora entre o Rui Rio e o Chicão. Se a política portuguesa funcionasse por afinidades ideológicas, então poder-se-ia afirmar que o Observador estará por uns tempos confinado, na frente política, ao terceiro partido monorepresentado na AR, a Iniciativa Liberal (IL) de João Cotrim Figueiredo. Mas já se percebeu que o financiamento desta última organização vem de outras paragens. É assim improvável que se forje uma aliança entre as duas facções liberais rivais. Afinal uma foi a votos (IL) e a outra passeia-se opinando avonde pelas televisões enquanto o jornal monta campanhas de opinião para que os compromissários da causa se apoderem por dentro dos partidos pré-existentes. Que falharam, só que, como seria de esperar, no próprio Observador esqueceram-se de reconhecer isso. Não tendo dúvidas que o Observador e o seu publisher não quererão ficar entalados, mas não é no espaço político acima descrito, nem pelas causas acima sugeridas.

A QUEDA EM ESPANHA DA DITADURA DE PRIMO DE RIVERA

29 de Janeiro de 1930. Com a apresentação da sua demissão ao rei Afonso XIII, dá-se em Espanha a queda da ditadura de Primo de Rivera. Nesta época em que se nota uma certa propensão para encarar de forma benigna os homens fortes e providenciais, nomeadamente na própria Espanha, vale a pena invocar esta ditadura de mais de seis anos que há noventa anos terminou esvaziada de apoios, fossem eles do exército e da marinha ou ainda das chamadas forças vivas e dos intelectuais e também do próprio rei. Nesta mesma Espanha, Vox regressa como uma evolução dessas mesmas pulsões, agora adaptadas ao Século XXI.

28 janeiro 2020

OUSADIAS E SINCRASIAS DO MARCELISMO

28 de Janeiro de 1970. O país que acompanha a situação política é surpreendido com a notícia que na Assembleia Nacional haviam sido apresentadas duas listas para a composição da Comissão do Ultramar. Indo ao detalhe, só os iniciados compreenderiam a subtileza do que estava em causa, já que as listas concorrentes eram quase idênticas a não ser pela substituição na segunda (B) dos nomes de alguns ultras do regime (Henrique Tenreiro ou Fernando Sá Viana Rebelo, irmão do ministro da Defesa Nacional e do Exército) por deputados recentemente eleitos, conotados com o reformismo, e que formavam aquilo que se veio a designar por ala liberal (é o caso de José Pedro Pinto Leite). Mas o verdadeiro inusitado da situação, que acima aparece destacado, é que aquela constituiria a primeira vez, em mais de trinta anos de trabalhos da Assembleia do Estado Novo, que apareciam duas listas para a constituição de um mesmo órgão! Erigira-se um regime à volta do aforismo Tudo pela Nação, nada contra a Nação, escolhera-se o nome de União Nacional para a organização que o corporizava, organização essa aliás ao abrigo da qual todos aqueles deputados haviam sido eleitos três meses antes e agora acontecia isto?! Que é feito da União?
Algumas páginas mais adiante e, muito oportunamente, naquele mesmo jornal, lia-se que alguém - na revista Flama - alvitrara a necessidade de que a «União Nacional» mudasse de nome, para qualquer coisa como «Movimento Nacional Popular» e que passasse a organizar-se em alas - centro, esquerda e direita. O futuro virá dar algum fundamento a uma parte da notícia: a União Nacional virá a redenominar-se «Acção Nacional Popular» no seu congresso, que se realizará um mês depois desta notícia. Quanto à questão da constituição das alas, isso virá a ser toda uma outra história. Porém, e apesar de tanto visionarismo associado ao marcelismo, nos aspectos mais comuns parecem predominar os métodos de antanho: entre a primeira (esq.) e a segunda (dir.) edição do Diário de Lisboa de há cinquenta anos, a questão do nome do partido governamental perde importância para o Grande Prémio TV da Canção portuguesa, que se iria disputar só dali por quatro meses...

27 janeiro 2020

A DESCOBERTA DA ANTÁRCTIDA

27 de Janeiro de 1820. Hoje cumprem-se duzentos anos da data da descoberta oficial do continente antárctico. A autoria foi de uma expedição russa de dois navios, Vostok e Mirnyi, comandados por Fabian von Bellingshausen e Mihail Lazarev. Os registos do feito incluem costumam incluir os dois comandantes, provavelmente para atenuar o impacto de uma proeza russa ter sido encabeçada por alguém com um nome tão ressonantemente germânico - von Bellinghausen (era originário de uma família da nobreza balto-germânica). Mas esse está longe de ser o único indício que a questão do descobrimento da Antárctida tem muito mais a ver com o nacionalismo do que com a geografia. Para os britânicos, o feito russo terá superado o de um compatriota (Edward Bransfield) por uns escassos três dias. Para os americanos foi uma questão de dez meses e o nome do seu herói descobridor é Nathaniel Palmer. A ironia desta disputa é que desde o Século XVI, pelo menos uns 250 anos antes, houvera condições técnicas para que navegadores e exploradores se tivessem aproximado do continente austral, especialmente nesta época do ano (Janeiro), quando ali se está em pleno Verão. Isso não implica assegurar que outros navegadores de outras nacionalidades já lá tivessem estado. Mas implica relativizar a certeza da descoberta. A verdade é que, dadas as condições meteorológicas, a eventual presença de predecessores de Bellinghausen teria sido breve e inconsequente e tão difícil de confirmar quanto de desmentir. Não havia qualquer interesse económico naquela região para superar as enormes dificuldades técnicas do assentamento e ali fixar populações. Por isso, se alguém já tivesse descoberto o continente, também não teria tido qualquer estimulo material em reivindicar essa descoberta. (Sobre a dificuldade e desinteresse em colonizar locais onde se verificam condições meteorológicas tão austeras, veja-se este meu poste sobre as Ilhas Kerguelen).

26 janeiro 2020

A INVASÃO DE CAMPO

26 de Janeiro de 1970. O país informativo era dominado pelos acontecimentos da bola do Domingo precedente. Algo acontecera de inusitado. Disputara-se um derby no estádio da Luz, o Benfica - Belenenses, e o jogo não chegara ao fim. Os relatos do jogo descrevem-no feio, cheio de distribuição de pancada entre os jogadores e um resultado condizente (0-0), mas o que o tornou memorável foi o facto do árbitro se ter atrevido a expulsar primeiro um (aos 35 minutos de jogo) e depois outro jogador benfiquista, aos 43 minutos da primeira parte. Ora essa decisão parece ter violado algumas das regras subentendidas do futebol português, nomeadamente a que postula que as arbitragens dos jogos dos grandes clubes, quando jogam nos seus campos, têm que ser descaradamente caseiras. Por exemplo, um penalti contra o Benfica na Luz tem que ser uma decisão muito amadurecida pelo árbitro; e dois penaltis contra o Benfica num mesmo jogo, só mesmo por conta e risco do juiz da partida. O mesmo princípio se aplica às expulsões. Onde é que já se viu o Benfica estar reduzido a nove jogadores ainda antes do fim da primeira parte e, ainda por cima, com o jogo empatado? As justíssimas indignações dos adeptos benfiquistas concretizaram-se numa invasão de campo com intenções por definir mas que o árbitro (naturalmente) não quis esclarecer no local, tendo fugido a correr para os balneários com o auxílio de alguns jogadores. O jogo ficou suspenso e o árbitro recusou-se terminantemente a reatá-lo, tal o susto e a falta de condições de segurança. E é assim que chegamos à edição dos jornais do dia seguinte (acima), onde a história, que já era conhecida do dia anterior, é recontada mas realçando o aspecto humano do árbitro, João Nogueira de seu nome, que não é nenhum demónio malfazejo contra o Benfica, antes um homem de 46 anos, casado com uma filha, morador em Setúbal e trabalhador na SECIL, além de ter um outro gancho por fora como angariador de seguros. E que apanhara o cagaço da sua vida por causa de um complemento de 750 escudos por jogo que muito jeito lhe faziam num ordenado de 3.600 por mês. Socialmente, no dia seguinte, a atitude era a de condenação dos excessos da plebe, mostrando que são um disparate porque tudo não passa de futebol, que as vítimas das paixões também são, afinal, seres humanos. Quase ninguém se lembra do triste episódio, nem sequer das suas consequências: nessa temporada o Benfica teve o estádio interdito por oito jogos (abaixo). Agora os desafios interessantes: alguém se quer pôr a especular o que aconteceria se este mesmo episódio tivesse ocorrido agora? Haveria um tratamento contemporizador do assunto nos programas televisivos de paineleiros do dia seguinte? E será que o Conselho de Disciplina da FPF teria coragem de sancionar o Benfica tão severamente com oito jogos de interdição?

25 janeiro 2020

O FALSO ALERTA DE UM MÍSSIL BALÍSTICO

25 de Janeiro de 1995. A partir do Centro Espacial de Andøya, ilha do extremo setentrional da Noruega, uma equipa mista de meteorologistas noruegueses e americanos lança um foguete tipo sonda Black Brant para estudar a Aurora Boreal na ocasião mais propícia do Inverno Ártico. Apesar dos protocolos internacionais estabelecidos para estas ocasiões terem sido formalmente cumpridos, notificando previamente os países da vizinhança (Suécia, Finlândia e Rússia) do lançamento, algo terá falhado entre os russos, cujos serviços de rastreamento por radar se viram confrontados com um míssil nos ecrãs que o seu software classificava como podendo ter origem num submarino nuclear norte-americano que estivesse em operação no Oceano Ártico. Declarado o alerta, o presidente Boris Yeltsin viu-se durante uma meia dúzia de minutos perante a famosa mala com os códigos nucleares e confrontado com a decisão de reagir simetricamente ao que parecia configurar uma ameaça de um ataque nuclear dos rivais norte-americanos. Só depois de passados esses poucos mas densíssimos minutos, os técnicos russos puderam confirmar que a trajectória do foguete o afastava de território russo. A história acabou uns escassos 24 minutos depois do lançamento, quando a ogiva do Black Brant se despenhou (como previsto) no mar, ao largo da escassamente povoada ilha norueguesa de Spitsbergen. Do que se sabe até agora, esta foi a ocasião em que, já depois do fim da Guerra Fria, o Mundo mais perto se encontrou de uma potencial guerra nuclear.

UM CONGRESSO DO CDS SOB O SIGNO DA VACA?

O Observador - que, como sabem, é o centro geométrico (e único) do pensamento político da direita portuguesa - foi de uma crueldade desnecessária ao fazer uma síntese da disputa que se trava no CDS, ao produzir um conjunto de notícias onde a coloca, à disputa, sob a égide... de uma vaca. Eu bem sei que por causa da amizade com o ambiente se tornou aceitável a referência, sem qualquer desprimor, aos animais - por exemplo, na China, acabou de começar o ano do rato - mas, que raio, o CDS e uma vaca? Ainda por cima uma vaca leiteira? E então o título mais extenso, com uma redacção que faz um alusão muito pouco disfarçada à letra de uma velha canção espanhola?
Só ficou mesmo a faltar aos jornalistas do Observador rematarem os seus comentários trocistas com o refrão do tolon tolon, tão característico da canção. Não me pareceu apropriada a alusão, que não aproveita a qualquer dos cinco candidatos, nem mesmo ao Chicão que é, entre todos os candidatos, aquele onde se reconhece um maior à vontade com estas coisas do campo e da pecuária, quase uma propensão natural para cabo de um grupo de forcados ribatejano. Vaca por vaca, sugiro eu e também por que a minha sugestão é mais patriótica, vamos pugnar para que o congresso do CDS que agora se inicia se reja sob a égide de uma verdadeira Vaca de Fogo como a dos Madredeus!
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Na porta daquela igreja vai um grande corrupio
Na porta daquela igreja vai um grande corrupio
Nas voltas duma coisa velha reina grande confusão
Nas voltas duma coisa velha reina grande confusão
Os putos já fogem dela deitam o fogo a rebentar
Os putos já fogem dela deitam o fogo a rebentar
Soltaram uma vaca em chamas com um homem a guiar
Soltaram uma vaca em chamas com um homem a guiar

São voltas ai amor são voltas
são as voltas
são as voltas da maralha
Ai são voltas
Ai amor são voltas
são as voltas da canalha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da maralha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da canalha

À porta daquela igreja vive o ser tradicional
À porta daquela igreja vive o ser tradicional
Às voltas duma coisa velha e não muda a condição
Às voltas duma coisa velha e não muda a condição
À porta daquela igreja vai um grande corrupio
À porta daquela igreja vai um grande corrupio
Às voltas duma coisa velha reina grande confusão
Às voltas duma coisa velha reina grande confusão

São voltas ai amor são voltas
são as voltas
são as voltas da maralha
Ai são voltas
Ai amor são voltas
são as voltas da canalha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da maralha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da canalha
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24 janeiro 2020

SOBRE O BREXIT...

...até pode ser que corra tudo essencialmente bem para as duas partes, União Europeia e Reino Unido. Ou então bem pode ser que haja algumas coisas a correr pior para uma delas. Ou então que haja muitas coisas que venham a correr mal. Na verdade, fica a sensação que, descontando as famosas casas de apostas britânicas, onde se aposta sobre tudo, ninguém se apresentará em condições - nem quererá correr o risco político - de apresentar garantias firmes quanto ao que se sucederá daqui por uma semana, quando o Reino Unido abandonar a União Europeia. Até ver, ficou assente a imagem do «agora vocês vão-se embora que isto já parece mal, mas nós depois temos que tratar das coisas a sério.» Uma coisa parece certa: como aparece no anúncio acima, estamos todos avisados que o chão está molhado e que, por isso, pode ser muito escorregadio; maldade minha será a de insinuar pela escolha da foto que, de tão molhado, passear por aquele chão é capaz de deixar o transeunte, mais do que tombado, completamente encharcado, e os ex-parceiros europeus (UE e UK) a contas com consequências imprevistas do seu divórcio. Esperemos que não.

A SEMANA DAS BARRICADAS DE ARGEL

24 de Janeiro de 1960. Início da semana das barricadas em Argel. As razões imediatas invocadas são outras, mas o que os manifestantes argelinos de origem europeia (pieds noirs) reclamam é do progressivo afastamento das intenções do governo francês no suporte a uma solução integracionista para a Argélia. A atitude é considerada por eles uma traição, especialmente depois de eles - pieds noirs - terem contribuído de forma muito significativa para o clima de tensão que esteve por detrás da crise de Maio de 1958, que culminou com a chegada do general de Gaulle ao poder e a fundação da V República. A redacção que é dada aos acontecimentos pelos jornais portugueses é inequívoca na sua parcialidade: repare-se nos títulos acima que os manifestantes são qualificados por «ultras» e que o seu chefe - Joseph Ortiz - nem sequer tem direito a ser nomeado ao lado do nome do general Challe, que representa a autoridade. Mais importante, as notícias daquele dia ainda não davam conta dos custos humanos dos combates travados - a tiro - entre os insurrectos e as forças da ordem nas ruas de Argel: 22 mortos, 14 do lado da polícia e 8 do lado dos manifestantes, para além de 147 feridos. A situação permaneceu tensa por mais uma semana, com insurrectos e forças da ordem, acantonados nas suas posições, até à rendição dos primeiros a 1 de Fevereiro e o exílio dos cabecilhas do movimento. Uma ironia final em toda esta história é que o general Maurice Challe, que acima aparece em destaque na representação da ordem legal em Argel, virá a ser, por sua vez, o cabecilha de uma outra insurreição na Argélia, em 22 de Abril de 1961, o chamado Putsch dos Generais.

23 janeiro 2020

TRUMP PASSA POR DAVOS DESAPERCEBIDO

Há dois anos, a presença de Donald Trump na cimeira de Davos na Suíça foi assinalada com o chinfrim mediático que tradicionalmente as deslocações do género dos presidentes dos Estados Unidos desencadeavam. Chegavam, cheios de estadão (imagens acima) diziam coisas (raramente importantes), mas publicavam-se porque haviam sido proferidas por quem fora. Este ano foi preciso ter estado muito atento para ter dado pelo regresso de Trump ao mesmo local, fazer a mesma coisa, onde disse mais coisas (a acrescer ao raramente importantes, estas agora são também raramente verdadeiras), mas num enquadramento mediático global onde prevalecia o desinteresse pelo que dizia e pela sua pessoa. A opinião publicada no país de Trump parece interessada é no folhetim a respeito da sua destituição e esse decorre em Washington; quanto à opinião que se publica no resto do Mundo, está-se cagando para os disparates de Donald J. Trump, enquanto reza para que aqueles que o rodeiam o segurem para que ele não desencadeie uma Terceira Guerra Mundial só por capricho. Como tradicional, a comunicação social portuguesa foi na manada, mas alguns órgãos de comunicação - como foi o caso abaixo da Euronews - tentaram ser criativos e acirrar uma rivalidade mediática Trump/Greta. Suponho que deve ter fracassado porque está tudo farto do Trump... e está tudo farto da Greta.
O exemplo de Davos elucida-nos de como, quando se fecha a torneira, deixa de jorrar água, os assuntos desaparecem do radar informativo, o segredo estará em quem a manipula, à torneira. Mas, em aparte, é da natureza emblemática (e caricata) dos tempos que correm quando um órgão de informação com algumas responsabilidades como o canal Euronews tenta forjar um despique entre o presidente do mais poderoso país do Mundo e uma garota sueca que é famosa por se ter tornado famosa. O sucessor de Trump vai ter uma trabalheira enorme para recuperar o prestígio do cargo!