14 janeiro 2009

A NOTÍCIA

Mais do que as notícias da invasão de Gaza por Israel, e a consequente reacção do Hamas, mais as fotografias com as explosões e as crianças feridas, as que sejam mais impressionantes para a opinião pública, publicou-se ontem uma notícia verdadeiramente importante e, sendo hoje confirmada, pode-se tornar muito incomodativa para a argumentação que costuma ser evocada pelos israelitas para a defesa da sua causa. Na arrumação entre israelitas e palestinianos é costume esquecer-se que existem árabes que têm a cidadania israelita. Não costumam dar jeito aos aparelhos de propaganda de qualquer dos lados em confronto, que preferem colorir as questões da região a duas cores… Segundo os dados demográficos, eles constituem 19,8% da população de Israel e deviam gozar dos direitos de qualquer cidadão israelita…
Claro que não gozam e são discriminados... Também é verdade que estes árabes israelitas não são uma comunidade coesa, mas sim um somatório de clãs, como é tradicional naquela região. 82,7% são muçulmanos, na sua esmagadora maioria sunitas, mas também há árabes cristãos (8,3%) e druzos (8,4%). Os das duas primeiras confissões estão dispensados de cumprir o serviço militar, mas os druzos fazem-no. Sendo cerca de 20% da população total de Israel e tendo direito a voto, e costumando fazer-se representar por partidos políticos distintos, seria de esperar que existisse uma mesma proporção de deputados de origem árabe no Parlamento israelita (Knesset) de 120 lugares, ou seja uns 20 a 24 deputados. Contudo, não é assim: existem três formações identificadas com os árabes que possuem um total de 10 deputados.
Na verdade, a distribuição não se deverá fazer tão nitidamente de acordo com os grupos religiosos, há muitos árabes que votarão nos partidos da esquerda tradicional judaica (há no total 12 deputados árabes no Knesset) e há também judeus que votam nas formações mais radicais de extrema-esquerda conotadas com os árabes – um dos 10 deputados das formações acima citadas (Dov Khenin) é judeu. Ora a notícia que justifica o título deste poste foi a decisão do Comité Central para as próximas Eleições, a realizar em Israel em 10 de Fevereiro próximo, de proibir duas das formações árabes (a Lista Árabe Unida, com forte apoio entre os beduínos, e o Balad) de concorrer a essas eleições. O gesto não é inédito, foi tentado em 2003 e as formações afectadas recorreram para o Supremo Tribunal de Israel e ganharam o recurso.
Por detrás da guerra das fotografias destinadas à emoção, é a existência de mecanismos como estes – sistemas eleitorais sólidos mas controlados por sistemas judiciais independentes – que permitem a Israel apresentar-se ao bloco ocidental que os apoia como uma sociedade que, apesar de todos os seus defeitos, ainda defende valores que a distinguem de todos os outros países que o cercam na região. As notícias que noticiaram o afastamento das duas formações radicais pelo Comité, acrescentavam que as duas formações haviam apelado para o Supremo Tribunal e davam como certo a revogação da decisão. Não sei se se deveria estar tão seguro; em 2003 a decisão foi tomada por uma maioria de 7 votos a 4... Menos impressionante mas mais importante do que o bebé palestiniano a sangrar, eu ficaria atento ao que os juízes israelitas vão decidir…

13 janeiro 2009

UMA OUTRA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Ai que prazer ter um livro para ler… que nos faz aprender.
The White War (Life and Death on the Italian Front 1915-1919) de Mark Thompson é um livro de aparência despretensiosa a respeito do envolvimento italiano da Primeira Guerra Mundial. Aparentemente, o livro devia tratar da frente no Nordeste de Itália onde se enfrentavam italianos e austro-húngaros, mas o autor acaba por assumir a narrativa na perspectiva dos primeiros. Já tinha lido algumas coisas sobre a participação italiana no conflito, mas o que tinha lido era essencialmente o mesmo, embora redigido de forma diferente. Desta vez, não foi o caso…

No livro, está muito bem feita e sustentada a descrição da forma como a Itália se veio a envolver na Guerra, sobretudo a da manobra política engendrada por uma vanguarda esclarecida mas claramente minoritária que impôs a declaração de guerra a um país que fora formalmente aliado dos alemães e austro-húngaros até 1914 mas que então se mostrava predisposto à neutralidade, por não sentir que sobre ele incidissem verdadeiras ameaças. A mobilização italiana foi assim muito parecida com a falta de entusiasmo da portuguesa em 1917… ou melhor, vice-versa.
É comum que os estudos relativos à participação portuguesa em 1917-18 tomem como referência o comportamento e desempenho das nossas unidades na frente de batalha com as dos nossos aliados próximos, normalmente os britânicos. E o resultado da comparação que é feita nesses estudos acaba por nunca nos ser simpática… Mas, se tomarmos a referência da frente italiana, apesar de muito mais complexa que a da Flandres (estendia-se desde as costas do Adriático até aos picos gelados dos Alpes), e a das tropas que a guarneciam, talvez essa opinião se modifique…

O impasse táctico imposto nas frentes da Primeira Guerra Mundial tanto era comum aos britânicos, tão pretensiosos no seu rigor marcial, como aos atabalhoados italianos, eternos improvisadores, que entre 1915 e 1917 lançaram 11 (!) ofensivas ao longo do vale do Rio Isonzo para realizarem um ganho territorial representado pela área escura do lado direito do mapa acima... Antecipando o que viria a acontecer depois em Março/Abril de 1918 em França, em Outubro/Novembro de 1917, alemães e austro-húngaros lançaram um ataque vitorioso em Caporetto, que empurrou a frente até à linha tracejada…
Em qualquer das frentes, apesar de impressionantes, esses avanços alemães de 1917/18 não passaram de vitórias tácticas. Mas só na frente italiana é que se passavam cenas como a que a seguir se descreve: Arturo Toscanini (acima), já então um famoso maestro, de visita à frente, propôs-se (e autorizaram-no) dirigir uma banda militar no topo de um objectivo que fora recém-conquistado (o Monte Santo). Pelo feito, Arturo Toscanini veio a ser condecorado com a Medalha de Prata de Valor Militar, cerimónia onde o maestro emocionado não conseguiu parar de chorar…

Regressando à grande História do conflito, o resto dela é relativamente conhecido: a partir de Outubro de 1918 o aparelho militar dos dois Impérios Centrais (Alemanha e Áustria-Hungria) começou a desmoronar-se, começando precisamente pelo austro-húngaro que se opunha directamente aos italianos. Aproveitando a fragilidade, a Itália desencadeou uma contra ofensiva em Outubro/Novembro de 1918 (Vittorio Veneto) que lhe permitiu recuperar praticamente todo o território que perdera no ano anterior e chegar às negociações de cabeça erguida.
Daquilo que originalmente em 1915 as vanguardas belicistas haviam pedido como compensações territoriais para a sua intervenção, à Itália foram-lhe concedidas as regiões assinaladas num azul mais claro no mapa acima onde, apesar de serem povoadas por populações de expressão italiana, também havia minorias significativas de populações de expressão alemã (no Tirol do Sul) ou maiorias de expressão eslovena (na Ístria).No cômputo global contavam-se 533.000 mortos e uma infindável discussão se aqueles ganhos haviam valido a pena…

Mas o que The White War contém de mais notável é uma descrição de uma guerra feita por pessoas normais, normalmente infelizes, mas desejosas de não fazer má figura, em que há outras verdadeiramente ridículas (o Rei Vítor Manuel III – abaixo – era embaraçosamente minorca…) mais os seus acessos histriónicos tradicionais da cultura italiana, mas onde o discurso dominante, excluídas as altas patentes militares, os ideólogos e os panegiristas, podia ser o das imorredouras palavras criadas por Fausto para a música Olha o Fado do Por este Rio acima:
Somos capitães
Somos Albuquerques
Nós somos leões
Dos lobos dos mares
E na verdade o que vos dói
É que não queremos ser heróis.

12 janeiro 2009

DUAS NOSTALGIAS

Depois de um poste intitulado Duas Despedidas de dois autores brasileiros, permitam-me agora neste poste apresentar duas músicas que classifiquei como Duas Nostalgias. A história das duas canções abaixo tem um traço comum: trata-se da nostalgia associada às namoradas de juventude dos seus dois autores, namoradas essas que entretanto ascenderam socialmente na vida, enquanto eles, nostálgicos, evocam os tempos antigos…

A primeira intitula-se Where Do You Go To (My Lovely), está a fazer 40 anos (data de 1969), é inglesa e cantada por Peter Sarstedt, a segunda, Michèle, é de origem francesa, data de 1976 e é interpretada por Gerard Lenorman. Por coincidência, existe uma pequena curiosidade associada à origem tanto de um como doutro autor: enquanto Sarstedt nasceu na Índia, numa família anglo-indiana, Lenorman é filho de um soldado alemão das forças de ocupação em França.



Where Do You Go To (My Lovely)

You talk like Marlene Dietrich
And you dance like Zizi Jeanmaire
Your clothes are all made by Balmain
And there's diamonds and pearls in your hair, yes there are

You live in a fancy apartment
Off the Boulevard Saint-Michel
Where you keep your Rolling Stones records
And a friend of Sacha Distel, yes you do

But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

I've seen all your qualifications
You got from the Sorbonne
And the painting you stole from Picasso
Your loveliness goes on and on, yes it does

When you go on your summer vacation
You go to Juan-les-Pins
With your carefully designed topless swimsuit
You get an even suntan on your back and on your legs

And when the snow falls you're found in Saint Moritz
With the others of the jet-set
And you sip your Napoleon brandy
But you never get your lips wet, no you don't

But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Won't you tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

Your name, it is heard in high places
You know the Aga Khan
He sent you a racehorse for Christmas
And you keep it just for fun, for a laugh, a-ha-ha-ha

They say that when you get married
It'll be to a millionaire
But they don't realize where you came from
And I wonder if they really care, or give a damn

Where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

I remember the back streets of Naples
Two children begging in rags
Both touched with a burning ambition
To shake off their lowly-born tags, so they try

So look into my face Marie-Claire
And remember just who you are
Then go and forget me forever
But I know you still bear the scar, deep inside, yes you do

I know where you go to my lovely
When you're alone in your bed
I know the thoughts that surround you
'Cause I can look inside your head


Falas como Marlene Dietrich
E danças como Zizi Jeanmaire
A tua roupa é toda de Balmain
E há diamantes e pérolas pelo teu cabelo, ai isso há…

Vives num apartamento de luxo
No Boulevard Saint Michel
Onde guardas os teus discos dos Rolling Stones
Mais um amigo de Sacha Distel, pois é…

Mas, para onde vais, minha querida,
Quando te vês sozinha na cama?
Conta-me em que é que estás a pensar
Quero saber no que pensas, ai isso eu quero…

Já vi todos os teus certificados
Que obtiveste da Sorbonne
E o quadro que roubaste ao Picasso
O teu encanto cada vez é maior, pois é…

Quando fazes as férias de Verão
Vais para Juan-les-Pins
Com o teu fato de banho topless de design
Para ficares com um bronzeado igual nas costas e nas pernas...

Quando a neve cai, encontram-te em St. Moritz
Com os outros do jet-set
E bebericas conhaque Napoleon
Mas não deixas que os teus lábios se molhem, isso não…

Mas, para onde vais, minha querida,
Quando te vês sozinha na cama?
Conta-me em que é que estás a pensar
Quero saber no que pensas, ai isso eu quero…

Ouve-se o teu nome nas altas esferas
Conheces o Aga Khan
Que te mandou um cavalo de corridas pelo Natal
Que conservas só por piada, para rir, ah ah ah ah

Dizem que quando te casares
Será com um milionário
Mas não sabem de onde vieste
E pergunto-me se se importam, ou se ralam…

Mas, para onde vais, minha querida,
Quando te vês sozinha na cama?
Conta-me em que é que estás a pensar
Quero saber no que pensas, ai isso eu quero…

Recordo as travessas de Nápoles
E duas crianças andrajosas a pedir
Ambas ardendo de ambição
De deixar aquela vida, e assim tentaram…

Encara-me de frente, Marie Claire
E lembra-te de quem é que és
Depois vai e esquece-me para sempre
Mas eu sei como ainda estás marcada lá no fundo, isso estarás…


Michèle

Tu avais à peine quinze ans
Tes cheveux portaient des rubans
Tu habitais tout près
Du Grand Palais
Je t'appelais le matin
Et ensemble on prenait le train
Pour aller, au lycée.
Michèle, assis près de toi
Moi j'attendais la récré
Pour aller au café
Boire un chocolat
Et puis t'embrasser

Un jour tu as eu dix-sept ans
Tes cheveux volaient dans le vent
Et souvent tu chantais :
Oh ! Yesterday !
Les jeudis après-midi
On allait au cinéma gris
Voir les films, de Marilyn
Michèle, un soir en décembre
La neige tombait sur les toits
Nous étions toi et moi
Endormis ensemble
Pour la première fois.

Le temps a passé doucement
Et déchu le Prince Charmant
Qui t'offrait des voyages
Dans ses nuages
On m'a dit que tu t'es mariée
En avril au printemps dernier
Que tu vis, à Paris.

Michèle, c'est bien loin tout ça
Les rues, les cafés joyeux
Mêmes les trains de banlieue
Se moquent de toi, se moquent de moi
Michèle, c'est bien loin tout ça
Les rues, les cafés joyeux
Mêmes les trains de banlieue
Se moquent de toi, se moquent de moi....
Se moquent de moi !

Tinhas acabado de fazer quinze anos
Os teus cabelos ainda tinham fitas
E moravas mesmo junto
Ao Grand Palais
Eu chamava-te de manhã
E apanhávamos juntos o comboio
Para ir para o liceu
Michèle, sentado junto a ti
Eu queria é que chegasse o recreio
Para irmos ao café
Beber um chocolate
E depois beijar-te…

Um belo dia tinhas dezassete anos
Os teus cabelos, soltos, voavam
E, frequentemente, punhas-te a cantar:
Oh ! Yesterday !
Às Quintas-Feiras à tarde

Ia-se às sessões de reposição
Ver os filmes de Marylin
Michèle, numa noite de Dezembro
A neve caía e cobria os telhados
Estávamos só os dois
E dormimos juntos
Pela primeira vez

O tempo passou suavemente
E acabou a época do Príncipe Encantado
Que te oferecia viagens
Nas suas nuvens
Disseram-me que te tinhas casado
Em Abril, na Primavera passada
E que vives em Paris

Michèle, como tudo isso está tão longe
As ruas, a alegria dos cafés
Até mesmo os comboios para os arredores
Troçam de ti, troçam de mim
Michèle, como tudo isso está tão longe
As ruas, a alegria dos cafés
Até mesmo os comboios para os arredores
Troçam de ti, troçam de mim
Troçam de mim.

11 janeiro 2009

THE PEOPLE WITH LARRY FLYNT

Hollywood já fez um filme sobre Harry Flynt (The People vs. Harry Flynt, por sinal, trata-se de um excelente filme, realizado por Milos Forman e com uma boa interpretação de Woody Harrelson) mas Larry Flynt, o genuíno (na fotografia mais abaixo), ainda não morreu, e ainda anda cá pela terra carregando consigo as características de personalidade vincada que fizeram dele personagem de filme de Hollywood com pretensões a Óscares.
O que Harry Flynt fez, desta vez, foi levar o descaramento a novos limites, ao pedir 5 mil milhões de dólares de auxílio estatal, na mesma lógica do que tem estado a ser concedido à banca e se pretende vir conceder à indústria automóvel, mas para a indústria onde Flynt tem os seus interesses: a edição pornografia… A notícia circulou discreta, porque, no fundo, a conversa dele nem é muito diferente da que ouvimos a João Rendeiro do BPP
É verdade que o pedido de Larry Flynt corresponde a cerca de 4 a 5 vezes mais do que aquilo que Rendeiro originalmente pedira em avales, mas também há que reconhecer que a circulação da sua revista, Hustler, com 400.000 exemplares mensais, é um pouco superior aos 3.000 clientes seleccionados cujos interesses Rendeiro deixou na merda… Escabroso por escabroso, porque não apoios ao silicone das mamas das estrelas porno?

ABRUPTAMENTE...

EARLY MORNING BLOGS

At The Circus

No, no, I'd rather not.
I have an agreement with the houseflies.
The flies don't practice law
and I don't walk on the ceiling.

(Groucho Marx as the Attorney J. Cheever Loophole)

A vida não é feita apenas de reciprocidades mas se a Wikipedia não se parece encarniçar particularmente contra a pessoa de José Pacheco Pereira (vejam-se aqui as versões em português e em inglês da sua biografia – a inglesa quase parece um artigo de revista del corazon…), que causa traumática provocará a sanha de José Pacheco Pereira contra aquela Enciclopédia on-line? Interesses corporativos da guilda dos educadores de massas?


(No espírito da paródia ao original, excepcionalmente neste caso não traduzi as passagens do poste escritos em outras línguas que não o português)

10 janeiro 2009

AS JANEIRAS MILITARES – 2

Não sei se já repararam nas semelhanças entre a fotografia de cima e a de baixo, com a proeminência da figura mais em destaque e a atitude comezinha da segunda como que andando à procura de uma espécie de fresta entreaberta no protagonismo egocêntrico do superior para conseguir um bocadinho de destaque.
A grande diferença entre as duas fotografias é que a primeira foi retirada de uma cerimónia – as tais janeiras militares dedicadas ao 1º Ministro – que supostamente seriam para ser levadas a sério, enquanto a segunda não passa de uma cena de uma paródia, a apresentação de uma famosa série cómica britânica intitulada Blackadder Goes Forth. (ver abaixo)

Para aqueles que conhecem a série, digam lá se Nuno Severiano Teixeira não parece mesmo o Capitão Darling à sombra do General Melchett?... Para os que não conhecem a série, sempre posso adiantar que, quando chegou a hora da verdade, o General Melchett deixou cair o pobre Darling, que sempre tinha esperado safar-se de ser destacado para as trincheiras...

AS JANEIRAS MILITARES – 1

Já aqui me devo ter referido, a propósito de cerimónias em que as conexões do homenageado com o Colégio Militar são forjadas para além do que seria razoável, quanto me incomoda, enquanto ex-aluno, que no Museu do Colégio Militar exista um estojo com as medalhas escolares que a determinada altura – presumo que ainda durante a década de 1930 ou então na seguinte – foram oferecidas a título honorífico ao Professor Doutor Oliveira Salazar, que era então o Presidente do Conselho.
Os ex-alunos que ainda se lembram dessas medalhas sabem que as havia de duas categorias: as de Aplicação Literária (do lado direito da fotografia abaixo) e as de Aptidão Militar e Física (à esquerda). O estojo oferecido ao Professor Salazar continha medalhas das duas categorias e se os méritos intelectuais do Presidente do Conselho eram sobejamente reconhecidos, já os outros, que seriam o resultado da educação física que recebera no seminário, e dos militares (serviço que Salazar não cumpriu…) era melhor não falar…
Além de ridículo, esta miscelânea da instituição colegial com o poder político da altura parece-me permanecer para sempre incomodativa. Note-se que não tenho a ingenuidade que ela não exista e não tenha sido sempre procurada. Não fosse a política de anonimato do meu blogue, e poderia inserir neste poste uma fotografia da cerimónia em que o Almirante Thomaz me está a atribuir precisamente uma das medalhas da fotografia acima. Mas, enfim, naquele regime, Thomaz era mais uma figura decorativa do que propriamente política…
Do actual Primeiro-Ministro José Sócrates é que já não se pode dizer que seja uma figura assim tão decorativa… Quando se pode assistir pela televisão (por cortesia da SIC) a uma cerimónia em que delegações de instituições militares de ensino, como o Colégio Militar (acima) ou o Instituto Militar dos Pupilos do Exército (abaixo) vão cantar as janeiras ao Primeiro-Ministro, o significado da cerimónia terá um significado político mais profundo do que o avô Thomaz quando distribuía prémios em todas as aberturas solenes (*)
Ora, nunca me tendo mostrado neste blogue um acérrimo defensor das tradições colegiais, como ex-aluno confesso que, pela primeira vez, me sinto incomodado com a cena daquela delegação de uma instituição de que fiz parte vai já para uns trinta anos, estando ali aparentemente a fazer umas figuras tristes, cantando uma música com uma letra que vim a descobrir ser inenarrável(**), armado numa espécie de rancho folclórico de Amiais do Extremo, mas fardado, e sem cabaz nem presuntos ou artigos regionais para oferecer ao senhor primeiro-ministro
Embora transportadas para longe das noticias, as relações entre os meios militares propriamente ditos e o poder político parecem continuar tensas, e esta ideia de mandar os putos em missões de boa vontade, com a devida cobertura televisiva, por muito cuidadosos que sejam os planos em que passa o Ministro da Defesa (acima, vejam-no focado de baixo para cima para lhe dar mais importância...), não pode fazer esquecer qual é a importância real da pessoa de Nuno Severiano Teixeira e do pelouro da Defesa nas prioridades de José Sócrates.
A melhor tradução visual disso é a fotografia acima, onde aparece José Sócrates a agradecer as janeiras e, semi-oculto, se vê Nuno Severiano Teixeira a sorrir e contemplá-lo, subservientemente… Por mim, mantendo o espírito da iniciativa destas janeiras militares e pensando no precedente de Salazar, suspeitando que nenhum dos dois tenha chegado a cumprir o serviço militar, sugeria que a actual Direcção do Colégio Militar também lhes atribuisse, ao Ministro e ao Primeiro-Ministro, um par de Medalhas de Aptidão Militar e Física…

(*) Academia Militar, Colégio Militar, Instituto Militar dos Pupilos do Exército, Instituto de Odivelas, etc. Thomaz não faltava a uma Abertura Solene. Lembre-se, a propósito, que o Comandante Supremo das Forças Armadas em Portugal - e um destinatário mais natural destas janeiras militares - é o Presidente da República Cavaco Silva...
(**)
Viva o nosso primeiro-ministro
Viva o nosso dirigente
Seja sempre iluminado
Pela estrela mais fulgente

Temos todo o desejo
Não o podemos negar
Cantar para o ano as janeiras
Outra vez neste lugar


(As últimas quatro fotografias, assim como a belíssima letra das janeiras, foram retiradas do artigo de hoje do Público de Eduardo Cintra Torres.)

09 janeiro 2009

O DIAGNÓSTICO

Num país onde se assiste à celebração dos 100 anos de Manuel de Oliveira com a pompa e circunstância que se viu, a caminho da sua próxima obra prima cinematográfica, em que Adriano Moreira aos 86 anos publica o seu primeiro (?) livro de memórias (Espuma do Tempo. Memórias do Tempo de Véspera) ou onde Mário Soares com os seus 84 anos teve ainda anteontem o direito a dar uma extensa entrevista televisiva, onde foi tratado com toda a deferência, apesar de só ter dito trivialidades de nenhum interesse jornalístico, a pessoa de João Bénard da Costa, com os seus 73 anos, nem faz figura de júnior, é apenas um juvenil.

Que depois de todas as manigâncias e abaixo-assinados que levaram João Bénard da Costa a manter-se à frente da Cinemateca Nacional muito para além do limite de idade de 70 anos a que os funcionários públicos têm de se reformar obrigatoriamente, sejamos surpreendidos agora com a sua substituição brusca, só pode conduzir à especulação que, por detrás de tal mudança de atitude, tão ao arrepio do apego ao cargo que Bénard da Costa tem dado desde sempre, bem pode estar uma visita recente a um consultório médico que não lhe terá dado as melhores notícias…

VETERANOS

Há 20 anos e muitas outras coisas mais a separar estas duas fotografias. No entanto, elas podem constituir uma excelente demonstração visual como a capacidade de projecção de poder militar de uma superpotência nunca pode ser sobrestimada. Acima, trata-se de um instantâneo com veteranos desencantados do Vietname, abaixo, são veteranos do Afeganistão celebrando o regresso à pátria. Comparando as fotos, ninguém diria que se está a mostrar os lados opostos da Guerra-Fria…

08 janeiro 2009

DA ESQUERDA PARA A DIREITA SEM PASSAR PELO CENTRO

Um dos aspectos menos conhecidos da luta política europeia durante os anos da recessão que se seguiram à crise de 1929 era a sinuosidade do percurso político de muitos daqueles que se vieram a tornar dirigentes das organizações fascistas e nazis de extrema-direita, que, frequentes vezes, tinham vindo directamente da extrema esquerda. O caso mais conhecido e mais precoce terá sido o de Benito Mussolini, que era um antigo membro do Partido Socialista Italiano, redactor do jornal Avanti! até depois vir a fundar em 1919 o Partido Fascista.
Mas o exemplo do francês Jacques Doriot é ainda mais interessante: um comunista que ascendeu na hierarquia do Partido, tornou-se deputado, até vir a ser expulso em 1934 para vir a fundar o Partido Popular Francês. Pormenor com piada: por causa da origem dos seus dirigentes o organismo político central do PPF mantinha a designação bolchevique de politburo! – e isto apesar da organização ser ferozmente anti-comunista… Na realidade, estes partidos disputavam ombro a ombro as simpatias das mesmas classes sociais do que os comunistas.
É um pormenor convenientemente esquecido à esquerda – sobretudo pelos comunistas! – quando se escreve sobre essa época, como era a proximidade e a semelhança das propostas totalitaristas vindas dos extremos do espectro político naquela altura. Comprovando-o, atente-se na semelhança (até estética) dos dois cartazes acima que foram utilizados durante a campanha para as eleições francesas de 1936. Estamos bem longe de qualquer mensagem ideológica, aquilo parece ser só uma questão de escolher quem queremos que seja o mau e o bom

07 janeiro 2009

DESDE A LIGA COMUNISTA INTERNACIONALISTA...

Há destacados jornalistas da actualidade cujo passado acaba por estar sempre a ser evocado. É o caso de José Manuel Fernandes, actual Director do Público, de quem só os ignorantes ou distraídos não conhecem o périplo pela UDP (União Democrática Popular) durante os idos tempos do PREC, nomeadamente na Voz do Povo (acima), que naqueles tempos era o órgão central daquela organização.
Um outro caso assim também patusco, mas muito menos conhecido, era o Acção Comunista, outro órgão central (acho que aquilo não era época para a existência de órgãos periféricos… - eram todos centrais!), mas de uma outra organização que se chamava LCI (Liga Comunista Internacionalista) e onde pontificava Ferreira Fernandes, que é o actual colunista principal do Diário de Notícias.
Podemos apreciá-lo um pouco mais jovem e de pilosidade à época na fotografia acima, retirada de uma capa da revista datada de Março de 1976, falando em nome daquela organização, quando a LCI ainda era apenas conhecida por ter conseguido ser o partido menos votado nas eleições constituintes de 1975 e por ter um símbolo onde aparecia um identificativo 4 sobreposto à tradicional foice e martelo comunista (abaixo).
Depois, os tempos e a organização evoluíram, e o seu porta-voz preferencial, rapidamente passou de preferencial a exclusivo, na pessoa de Francisco Louçã e a sua Trade Mark™ mais distintiva deixou de ser o 4 em cima da foice e do martelo (da Quarta Internacional), para passar a ser o discurso em tom de pregação do mesmo Francisco Louçã, um antigo rezador da vigília da Capela do Rato
Noutra época, do outro lado do espectro político, houve alguém que escreveu que no período de entreguerras não foi o Partido Nazi que precisou de um líder, foi Adolf Hitler que precisou de uma organização. Aqui, feito o historial das organizações que já dirigiu (a LCI, depois o PSR, e agora o BE), também parece que são elas que têm de crescer para se adaptar à dimensão das ambições de Francisco Louçã…

06 janeiro 2009

POSTE DEDICADO AOS QUE CONSEGUEM IDENTIFICAR “WILLIAMSONIAS” A OLHO…

O preâmbulo deste poste é indispensável para quem não conheça as aventuras de Blake & Mortimer, os heróis da BD criados por Edgar Pierre Jacobs. Uma das aventuras mais emblemáticas daquela dupla (na verdade, nesta aventura é quase apenas Philip Mortimer que participa) chama-se A Armadilha Diabólica (abaixo, a capa) e foi originalmente publicada em 1962. E em que é que consistia afinal o diabolismo da armadilha?

Um arqui-inimigo de Mortimer legara-lhe em testamento uma máquina de viajar no tempo (abaixo, chama-se Cronoscafo) desafiando-o a experimentá-lo, o que ele irreflectidamente fez. O que Mortimer não sabia era que o selector temporal da máquina fora previamente sabotado e assim o herói vê-se forçado a vogar erraticamente pelo tempo, em épocas variadas do passado e do futuro, até que consegue regressar à sua própria época...

Mas a cena que aqui interessa contar é a que aparece abaixo, quando o confuso Philip Mortimer se procura orientar no espaço e tempo, depois de ter realizado a sua viagem inaugural no Cronoscafo. E a informação fulmina-o, quando identifica a árvore a que se apoiara, que era uma Williamsonia, um vegetal do Cretáceo que estava extinto há 150 milhões de anos! Reconheça-se que não é para todos possuir tais conhecimentos práticos de paleobotânica!…
O rigor obrigar-nos-á a moderar o razoabilidade de tal cena, porque a erudição de Philip Mortimer, muita que fosse, não lhe devia permitir identificar assim tão facilmente e ao vivo plantas que anteriormente apenas poderia ter observado fossilizadas*… Mas 1962, que foi a data da aparição d´A Armadilha Diabólica, ainda deve ter sido uma época de reverência à erudição, que podia chegar a ser tão exagerada que até podia vir a tornar-se ridícula…
Hoje o ridículo pode ser o inverso. Leia-se o meu poste anterior, reúna-se a superficialidade dos bonecos em jeito de mapas de que ali falei à apreciação a muita da informação e do jornalismo actual que foi feita pela Sofia a propósito do filme Boa noite, e boa sorte: …espectáculo, superficialidade e falta de rigor informativo. E adicione-se agora, a eleição do blogue Arrastão (e do seu autor) para O Melhor Blogue de 2008 pelo Corta-Fitas!
Quanto a esta última eleição, permitam-me à laia de comentário que me vá inspirar mais uma vez à BD e que aqui recupere uma deliciosa cena do álbum Psicanálise para os Daltons (1975) de Lucky Luke (Morris & Goscinny) onde se pode concluir que, quando as sentenças dos julgamentos produzem resultados demasiado absurdos (acima), é preferível concentrarmo-nos em encontrar as explicações para as aberrações em quem os julgou, e não naqueles que foram julgados (abaixo)…
* Na realidade existiu mesmo um grupo botânico de árvores de grande porte já extinto que é assim classificado.

05 janeiro 2009

“BONECOS” PARA SE MOSTRAREM NA TELEVISÃO

Estamos a 50 anos de distância dos tempos em que quem apresentava programas na televisão o fazia como se estivesse em plena sala de aula, socorrendo-se dos meios que houvesse à disposição, como o fazia o Padre Raul Machado no seu programa intitulado Charlas* Linguísticas (data de 1958) em que, como se vê acima, ainda ele recorria a um vulgar quadro de ardósia, para as explicações complementares.

A pedagogia dos tempos modernos terá evoluído imenso mas, no campo televisivo, terá sido no caminho regressivo da sobre simplificação. Naqueles debates políticos mais importantes, há quem apoie os seus argumentos durante a discussão – lembro-me, por exemplo, do debate entre António Guterres e Durão Barroso em 1999 – nuns gráficos de barras que costumam ser muito coloridos, mas pouco explicativos em que consistem as abcissas e as ordenadas…
Actualmente, este último gesto popularizou-se, com o aproveitamento do tempo de antena para a passagem de mensagens televisivas sobre simplificadas (ver deste blogue o poste O Peclec, o Sigic, o Nuno e o Melo) ou, envolvendo bonecos, para brandir mapas que representam uma análise estratégica profunda, como fez Daniel Oliveira com aquele mapa mais abaixo (também inserido no seu blogue), na sua aparição no Eixo do Mal da SIC Notícias.

A intenção clara do encadeamento de três configurações fronteiriças da Palestina em três datas distintas (1947, 1949-1967, 2000) é a de nos induzir visualmente a ideia que o território concedido aos palestinianos tem vindo a reduzir-se progressivamente. Ora, para deles se poder extrair essa conclusão, então aqueles três mapas deveriam representar realidades compatíveis, o que não é verdade, para além de qualquer deles necessitar de notas explicativas...
O primeiro mapa do bonecos de Daniel Oliveira (de 1947) nunca chegou a existir concretamente. Representava apenas uma proposta de plano da ONU para repartir a Palestina entre árabes e judeus – de uma forma que beneficiava nitidamente os segundos... Simplesmente, nenhuma das partes estava interessada nessa repartição, nem sequer em discuti-la, e ambas partiram para a Guerra em 1948 - os judeus versus os palestinianos e os países árabes vizinhos.

Com a vitória militar dos judeus (a propósito, nessa época um dos maiores apoios diplomáticos com que eles contavam era o soviético…), estabeleceu-se o segundo mapa do bonecos de Daniel Oliveira (1949-67), um que, ao contrário do anterior, é real: ele resulta das fronteiras de facto alcançadas pelos beligerantes em 1949. Mas tem legendas erradas: naquela região verde onde se lê Palestine, devia ler-se Jordânia - como abaixo se explica porquê.
É um facto devidamente esquecido que durante aqueles 18 anos, os palestinianos que não se haviam refugiado nos países vizinhos nem haviam adquirido cidadania israelita, estiveram sob tutela árabe: os da Faixa de Gaza estiveram sob tutela egípcia; e os da Cisjordânia sob a tutela do antigo Emirato da Transjordânia, que depois anexou a região e que com isso se transformou em 1949 mudando o nome para Reino Hachemita da Jordânia**.

Durante décadas, mesmo depois de ter ocupado a Cisjordânia em 1967, essa anexação foi um álibi invocado por Israel para a resolução do problema do estabelecimento da pátria palestiniana: eles já tinham uma, a Jordânia. Contudo, apesar do parentesco dos povos – Rania, a actual Rainha jordana é de ascendência palestiniana – depois dos acontecimentos de Setembro Negro (1970), já aqui por mim abordados no blogue, a Jordânia acabou por se dissociar da questão palestiniana.
Resta o último mapa dos bonecos de Daniel Oliveira, o datado de 2000. Como o primeiro, também é o mapa de um projecto que praticamente não saiu do papel – o dos Acordos de Oslo de 1994 (veja-se acima, o detalhe das regiões da Cisjordânia). Pela descontinuidade geográfica das zonas palestinianas, também já critiquei aqui no blogue a viabilidade da solução, comparando-a aos famosos bantustões sul-africanos do tempo do apartheid, lembrando o que lhes aconteceu.

Este último mapa faz reflectir, nem que seja para constatar o tão pouco que os israelitas estão dispostos a ceder e o tão pouco que os palestinianos parecem estar dispostos a aceitar, mas, no enquadramento geral dos bonecos, a sua seriedade aparece tarde demais numa sequência que pretende reduzir – e de forma tendenciosa – a complexidade do problema israelo-palestiniano a uma espécie de cartoon de densidade infantil, com os bons e os maus

* Simbólico do que são os conhecimentos do corrector ortográfico do processador de texto (e um alerta para quem neles se fia cegamente …), este não reconhece o vocábulo charlas escolhido por aquele vulto da Língua Portuguesa para título do seu programa…
** Resultado da junção da Transjordânia e da Cisjordânia. Trans e cis são prefixos latinos significando para lá de e para cá de. Jordânia refere-se naturalmente ao Rio Jordão.

04 janeiro 2009

COMBATE URBANO

No final da Segunda Guerra Mundial o assalto decisivo a Berlim foi executado por nada menos do que oito exércitos soviéticos. Seis deles eram formações de elite, do melhor que na altura possuía o Exército soviético: 1º, 2º e 3º Exércitos Blindados da Guarda, 3º e 8º Exércitos da Guarda e 3º Exército de Choque. No entanto, a violência dos combates travados em Abril e Maio de 1945 esconde a desproporção entre efectivos e poder de fogo que existia entre as unidades soviéticas e as últimas unidades alemãs.
No essencial, a resistência militar alemã em Berlim contava inicialmente com cerca de 85.000 efectivos, dos quais cerca de metade se encontrava deploravelmente mal armada e rapidamente abandonou a luta. No final da batalha, os defensores reduziam-se a cerca de 10.000 vindos das mais variadas proveniências em que se incluía (como uma nota irónica) um destacamento de 300 soldados das SS de origem francesa... Para os derrotar, os soviéticos fizeram avançar quase todo o armamento pesado que possuíam.
Consta das regras que o meio urbano facilita muitíssimo o combate de infantaria aos defensores, normalmente aqueles que dispõem de menos equipamento e de menos poder de fogo. Naquela mesma Guerra, os alemães já se haviam visto na situação oposta à de Berlim 1945, nomeadamente ao exterminar a insurreição do Gueto de Varsóvia em 1943 e a da própria Varsóvia em 1944. E, para poupar a própria infantaria às dificuldades do combate casa a casa, utiliza-se a superioridade do poder de fogo para as arrasar.
Estas fotografias de Berlim (com a da Chancelaria ao centro) são elucidativas quanto aos métodos adoptados então pelo Exército Vermelho. Ora, fotografias deste género trariam uma publicidade muito negativa aos seus autores se a situação se tratasse da actualidade e o local fosse a Faixa de Gaza… Considerando o que escrevi acima tenho que confessar que foi com alguma surpresa que assisti às notícias do início dos raids terrestres israelitas na Faixa de Gaza, que é uma das zonas mais urbanizadas do Mundo…

03 janeiro 2009

FORA DOS CABEÇALHOS

Depois do recomeço do conflito israelo-palestiniano (acima), os outros grandes conflitos e situações tensas que estavam em vigor tiveram de se rearranjar no panorama informativo: do Iraque passaram a vir notícias colaterais, no Afeganistão só devem acontecer uma ou duas coisas importantes por semana e da situação de tensão entre a Índia e o Paquistão, que era considerada muito grave, por causa do facto de se tratarem de duas potências nucleares, agora não se sabe quase nada...

Falemos então destes dois últimos assuntos que, ao contrário do Iraque e sobretudo de Gaza, não dão grandes fotografias (acima). Mesmo antes da tomada de posse de Barack Obama, é possível adivinhar qual será a estratégia provável que os Estados Unidos adoptarão em relação ao Afeganistão. Aparentemente eles mostram-se satisfeitos com os efeitos da surge que foi implementada no Iraque pelo General David Petraeus e agora pretenderão repetir o mesmo processo no Afeganistão.

Recorde-se que a surge iraquiana (um aumento transitório dos efectivos militares ali engajados) teve um impacto psicológico duplo: nos Estados Unidos e no próprio Iraque. No primeiro caso, foi uma assumpção de um compromisso numa época em que subia o volume das vozes que consideravam o Iraque um fiasco que terminaria como o vietnamita. No Iraque, porque esse assomo de vontade política aumentou a capacidade negocial dos norte-americanos ao negociarem as condições da sua retirada com os iraquianos.

Mais do que apenas a mensagem mediática, entre os altos escalões do comando norte-americano (e, na continuidade, recorde-se que o Secretário da Defesa de Bush, Robert Gates, irá permanecer na Administração Obama) deve estar-se genuinamente satisfeito com os resultados alcançados, e será da natureza humana tentar repetir agora a mesma manobra, com as obrigatórias adaptações, ao Afeganistão. A previsão difícil não é portanto, se os Estados Unidos o vão fazer, a pergunta difícil é: será que vai funcionar?

Em situação de intervenções no exterior como o Afeganistão e o Iraque, o que se tornou importante para os Estados Unidos foi a habilidade para se retirar deixando para trás um regime que fosse capaz de se defender. Aconteceu na Coreia do Sul, que se tornou um caso de sucesso, mas não aconteceu no Vietname do Sul, que foi o fracasso, o pior nas intervenções norte-americanas além fronteiras. Ora, sete anos depois da sua instauração, o regime afegão de Hamid Karzai parece incapaz de se auto-sustentar.

Mais importante do que os aspectos técnicos, como seja o patamar do incremento de efectivos de que a surge afegã se irá revestir – já há actualmente ali 33.000 soldados norte-americanos, para além de 35.000 de outras nacionalidades – o que importa antecipar é o processo negocial que se irá realizar sob a sua cobertura. Afinal, o número dos efectivos dos corpos expedicionários é irrelevante: recorde-se como nos anos 80 os soviéticos tiveram ali mais de 100.000 efectivos e como acabou…

Como acontecia com as do regime sul-vietnamita, também as tropas do regime da República Democrática do Afeganistão (pró-soviética) não valiam na sua generalidade grande coisa, e o regime desmoronou-se pouco depois dos soviéticos se retirarem (1989). Ora, a consequência das negociações associadas à surge no Iraque, foi que houve cerca de 100.000 milícias sunitas (classe que era a base social de apoio do regime de Saddam Hussein) que foram incorporados ao serviço do governo iraquiano actual…

No Afeganistão, a principal questão a colocar será a de saber com que facções rebeldes (que são um verdadeiro caleidoscópio, e não apenas o bloco de talibans apresentados pela propaganda ocidental) irão os norte-americanos negociar. Explicado com algum detalhe o como da manobra, mantém-se contudo a pertinência da questão colocada há quatro parágrafos atrás: será que ela vai funcionar? Introduzindo agora a questão indo-paquistanesa, a opinião daqueles dois países divide-se antagonicamente.

No Paquistão acredita-se e deseja-se que sim. Com a sua imagem internacional desgastada depois dos Atentados de Bombaim, com o país a atravessar dificuldades financeiras extremas, o recente governo civil do Presidente Zardari (que tomou posse apenas em Setembro de 2008), considera todas as manobras que dêem importância à resolução do problema afegão como um benefício colateral para o Paquistão. Afinal, mais de 75% dos abastecimentos da NATO passam por ali…

Mesmo que a importância do Paquistão para os Estados Unidos pareça ser, neste caso, apenas circunstancial enquanto eles preparam a grande manobra de retirada, a importância da parceria não é de desprezar da parte do Paquistão, numa altura em que cada vez se acumulam mais sinais que o parceiro estrutural e preferencial dos Estados Unidos no subcontinente para o futuro virá a ser a Índia. E esta última, quanto à questão da solução para o Afeganistão também tem as suas opiniões…

Ao contrário do que se pensa no Pentágono, em Nova Deli não se crê que hajam suficientes analogias que permitam duplicar no Afeganistão a solução que foi aplicada pelos Estados Unidos no Iraque. Uma opinião válida, porque embora mais discreto do que o seu vizinho paquistanês, o envolvimento indiano nas questões afegãs é selectivo, mas real – são poucos os que sabem que o Presidente Hamid Karzai se formou em Ciência Política numa Universidade indiana (a de Himachal Pradesh) entre 1979 e 83...

02 janeiro 2009

AS FRONTEIRAS INTERNAS DA ALEMANHA - 1

O Trabant é um automóvel que se veio a tornar uma referência dos artigos de consumo da antiga República Democrática Alemã.

Do You Tube, pude retirar alguns pequenos filmes publicitários referentes ao Trabant que lá existem, onde se realça tudo o de kitsch eles continham.

Mas, mais do que uma questão de influência do regime (comunista) do país que os produzia, para o estilo daqueles filmes contribuiu sobretudo a época (anos 60) e o país (Alemanha) onde foram realizados.

Entre um leque mais alargado de filmes publicitários a automóveis alemães daquela mesma época, quem se arrisca a dizer, apenas pelo estilo, qual era (Leste ou Oeste) a sua origem?...

A grande diferença veio a acontecer depois quando, passados mais de 25 anos sobre a feitura de alguns destes anúncios, os mesmos Trabant ainda continuavam a ser produzidos…

Nota – Para responder ao desafio de identificar a origem das viaturas, ajuda saber que, por coincidência, na antiga RDA, se usava um tipo de matrícula idêntica à portuguesa original (i.e. AB-01-01).

O BOM, O MAU E O VILÃO ou O DUELO TRIANGULAR

Pelos vistos, devo ter começado 2009 com uma tremenda nostalgia cinéfila. Mas trata-se de uma nostalgia que se concentra em cenas específicas de um determinado filme, como aconteceu, de resto, com o poste abaixo a respeito de Casablanca.
A cena de que agora quero falar passa-se num Western Spaghetti famoso chamado O Bom, o Mau e o Vilão (1966) e essa cena é a do duelo final em que, contrariamente ao que acontecia tradicionalmente nos Westerns clássicos em que o duelo era do bom contra o mau, aqui se disputa num duelo, mas triangular, entre os três protagonistas do filme. Lembrei-me daquele singular duelo, lendo o texto de José Pacheco Pereira a respeito da blogosfera, o de Pedro Mexia criticando José Pacheco Pereira pelas suas opiniões a respeito da blogosfera e ainda o de Paulo Pinto de Mascarenhas criticando os dois anteriores também pelas opiniões respectivas a respeito da blogosfera Desconfio que dos três, nem todos serão igualmente responsáveis pelo aspecto global que aqueles textos assumem quando são tomados em conjunto, como se tudo aquilo se tratasse de uma espécie de disputa ao entardecer. Contudo, ainda me lembro que em O Bom, o Mau e o Vilão o que os motivava em todo aquele enredo era a sua ganância infindável.
 
Também nesta disputa blogosférica haverá qualquer coisa de infindável, e essa creio que será a dimensão dos egos dos três destacados e reputados pistoleiros da blogosfera nacional, embora não esteja em condições de identificar qual deles será o Bom, qual será o Mau e qual o Vilão

01 janeiro 2009

O QUE PARECE E O QUE FOI

Quem conhece o filme Casablanca quase de certeza se lembra da cena imortal em que Victor Lazslo abafa os cânticos patrióticos dos oficiais alemães no Café do Rick incitando – com a ajuda da orquestra e do próprio Rick – o resto dos fregueses a cantarem A Marselhesa, o Hino de França. Menos reconhecido é o Hino que os alemães estavam a cantar e que saiu abafado da cena, que se intitula Die Wacht am Rhein.

Como o seu próprio título indica (pode traduzir-se por De vigia ao Reno), o Hino (abaixo), que data de meados do Século XIX, tem uma letra onde se nota uma preocupação defensiva da Alemanha frente à ameaça das invasões francesas, uma consequência das memórias da época das invasões napoleónicas. A letra era um verdadeiro paradoxo quando aplicado à situação que se vivia em 1942, que foi o ano da rodagem de Casablanca
Na realidade, a cena fora concebida para ser muito mais explícita: A Marselhesa abafaria o Horst-Wessel-Lied, que era então o Hino da Alemanha e do Partido Nazi (abaixo). Contudo, questões quanto aos direitos de propriedade intelectual desta última música fizeram com que a produção de Casablanca optasse pela solução que conhecemos, com receio que os alemães bloqueassem judicialmente a projecção do filme nos países então neutrais.

Como Casablanca fora concebido fundamentalmente como um filme de propaganda, as preocupações com a distribuição sobrepuseram-se às do estilo e rigor. Afinal, também todos os alemães nazis a aparecerem naquele filme que eram de genuína origem alemã – a começar pelo perverso Major Heinrik Strasser, protagonizado pelo berlinense Conrad Veidt – só o faziam por estarem exilados, e isso acontecia precisamente por serem anti-nazis