20 novembro 2012

CORTINA DE FERRO: UM LIVRO QUE RECOMENDO… QUANDO SAIR

À sua chegada a Portugal, Mikhail Gorbachev fez uma referência à pequenez do nosso país quando comparado com a vastidão russa, comentando que, mal lhe haviam dito que havia entrado no nosso espaço aéreo, já o avião se preparara para aterrar. Mesmo durante a vigência do poder soviético, por causa das diferenças entre as dimensões dos dois países, as comparações entre eles tendiam a sair forçadas, tanto as dos amigos da causa comunista como as dos seus inimigos: tanto a fraternidade do PCP com o PCUS que era uma subalternidade pouco fraterna, como as acusações sobre os milhões que morreram no Gulag, que entre nós teriam sido necessariamente muitos menos e desterrados para mais próximo. Ora, se o Gulag foi precisamente o tema do livro que trouxe a fama a Anne Applebaum em 2003 (acima), sou levado a admitir que, o seu mais recente livro, sobre os países do Leste Europeu que ficaram para lá da Cortina de Ferro, seja muito mais interessante para nós, precisamente por causa das distorções de escala das comparações entre o que poderia ter sido um regime comunista em Portugal e aquele, de carácter imperial, que foi implantado na Rússia.
Os protagonistas do Cortina de Ferro: o Esmagamento da Europa de Leste(1944-1956) – ainda não traduzido para português – são países de uma outra escala mais conforme a nossa: a Polónia, a Hungria e a zona de ocupação soviética da Alemanha que se veio depois a tornar na República Democrática Alemã. A Polónia tem uma extensão geográfica e uma população comparável com a de Espanha e à Hungria acontece o mesmo com Portugal, enquanto a Alemanha Democrática situar-se-á entre as duas. A autora vai-se focar nestes três exemplos – a Europa de Leste era maior, incluía a Roménia, a Checoslováquia, a Bulgária, a Jugoslávia e a Albânia – para nos explicar como, atrás da progressão do Exército Vermelho, que viria a assegurar a vitória aliada na Segunda Guerra Mundial da Wehrmacht até Berlim, se construíram sucessivos regimes comunistas decalcados do que existia na União Soviética. A legitimidade para o fazer era obviamente a das armas. E os agentes de tal edificação foram as poucas centenas de devotados militantes comunistas desses países. Seriam muito poucos mas eram uma elite de sobreviventes, que escapara às repressões dos regimes inimigos mas também às purgas ordenadas pelos partidos amigos – o Partido Comunista Polaco, por exemplo, foi extinto e os seus líderes executados em 1938 por ordem de Staline, quando da Grande Purga.
Em 500 páginas, o livro mostra-nos como os núcleos foram colocados nos postos-chave das administrações que renasceram depois do caos da guerra – a Checoslováquia, a Polónia e a Jugoslávia, por exemplo, haviam sido desmembradas como estados – para assegurarem a supremacia comunista. Em qualquer dos países os métodos replicaram-se com o controlo da informação, a doutrinação da juventude, o controlo das polícias – todas as polícias… – e o emprego destas para perseguir os adversários políticos. Depois desses objectivos assegurados é que se seguiam os outros aspectos, os culturais e também os económicos. Pouca importância teve as eleições realizadas. Aliás, ao contrário do que fiz aqui nalguns casos no Herdeiro de Aécio, Anne Applebaum quase não se lhes refere pela inocuidade das consequências das mesmas. Em qualquer dos três países, os partidos comunistas – que haviam tido resultados miseráveis nos escrutínios iniciais – absorveram posteriormente os partidos socialistas/sociais-democratas numa nova formação hegemónica de esquerda que passou a receber a quase totalidade dos votos em eleições melhor organizadas.
Consolidados, os regimes robusteceram-se com a colaboração dos ambiciosos e dos interesseiros mais a neutralidade da maioria da população, como é a norma das sociedades, tornando-se em réplicas menores da União Soviética sob Staline (acima é na Hungria). Mas a tutela soviética permaneceu essencial, como se percebe por um episódio engraçado, ocorrido quando das revoltas de Berlim-Leste em Junho de 1953, em que Walter Ulbricht (1893-1973), o dirigente leste-alemão, pretendeu ir para casa depois de uma reunião com o embaixador soviético e este último, Vladimir Semyonov (1911-1992), cujo exército dominava então as ruas, o impediu de o fazer, não apenas com receio do que pudesse acontecer a Ulbricht, mas sobretudo daquilo que em Moscovo lhe podiam fazer depois a si, com uma acusação de negligência com a segurança do alemão (p. 467). Afinal, mal se haviam escoado três meses desde a morte de Staline… Trata-se de um excelente livro. Recomendo-o porque neste período de Crise do capitalismo liberal democrático, vale a pena recapitular porque é que, para além das aparências e militâncias, esta alternativa não democrática morreu de morte morrida. Além disso, a Democracia não existe expontaneamente e, depois de perdida, custa muito a recuperar. O livro custou-me 20 € na FNAC e espero que a sua versão em português não dispare para os 35 com uma daquelas traduções miseráveis
Mas o livro vale mais do que este arremedo de recensão: não consegui deixar de o ler sem resistir a utilizá-lo como base para uma história contrafactual do nosso passado recente: como teria sido Portugal se os comunistas tivessem ganho no 25 de Novembro? Esquecida a rigidez das fronteiras da Guerra-Fria como teriam sido os quase 25 anos de uma democracia popular portuguesa? Será pacífico atribuir-lhe um líder político reverenciado: Álvaro Cunhal. A fotografia abaixo de Alfredo Cunha faz-lhe a justiça de lhe dar o destaque guardando o cinzentismo para as figuras que gravitam à sua volta no comité central e que naquelas circunstâncias assumiriam todos aqueles lugares de destaque explicados por Anne Applebaum: Carlos Brito, Carlos Costa, Domingos Abrantes, Octávio Pato, assim como as jovens estrelas em ascensão como Vital Moreira ou Zita Seabra – que hoje já não teriam tido margem de manobra para se arrependerem. A liderança dos socialistas – para não mencionar sequer a dos partidos à sua direita… – teria sido exilada e/ou presa e substituída por outra mais complacente. Quem? O mesmo aconteceria aos dirigentes da extrema-esquerda. Teriam sido alguns recuperáveis? Felizmente, porque o comunismo da década de 1970 já nada tinha da selvajaria dos anos abrangidos pelo livro, considero improvável que chegasse a haver execuções... Mas imaginar este outro Portugal é um exercício infindável…

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