14 fevereiro 2011

A ESPLANADA

A propósito deste 14 de Fevereiro, dia dos namorados e de um São Valentim que há 25 anos atrás ninguém sabia quem era nem quando se comemorava, insiro no blogue uma fotografia de Dennis Stock (1928-2010), datada de 1958 e que baptizei de A Esplanada. Na esplanada de um café, apropriadamente chamado de Café das Flores, quando o serão já há muito deveria ter terminado, um empregado espera, delicadamente apartado e pacientemente apoiado numa vassoura, que um último casal de namorados completamente absorto neles mesmos desça à Terra e o deixe acabar o seu dia de trabalho…

MOTION FAIL?

Existem pela Internet milhares de filmes dedicados a Fails, uma expressão em inglês que, à falta de melhor, se pode traduzir por fiascos. Alguns desses fiascos são casuais (acima), outros são circunstanciais, mas os piores, mesmo não sendo os mais cómicos, serão aqueles que parecem resultar de uma atenta reflexão por parte dos protagonistas. Neste vídeo abaixo, que parece ter sido filmado na África do Sul, o empreendedor condutor da carrinha tem tudo calculado para derrubar aquela árvore enorme postada no quintal da casa…

Percebe-se não apenas que será a tracção da carrinha, ligada por um cabo de aço ao topo da árvore, a deitar esta abaixo como também – porque a carrinha tem a frente colocada mesmo junto a um muro – que se pretende que o tronco da árvore viesse logo assentar directamente na caixa de carga da carrinha. Como verão, a operação foi um sucesso! Ocorreu-me incluir este vídeo por analogia com este outro mais abaixo, protagonizado por Francisco Louçã, anunciando a apresentação de uma Moção de Censura, na quinta-feira passada…

13 fevereiro 2011

FOTOGRAFIAS CONVENIENTES E INCONVENIENTES DO MAIO DE 1968

O número de fotografias consideradas simbólicas sobre os acontecimentos de Maio de 1968 em Paris é excessivo, pletórico mesmo. Em alguns tópicos, torna-se óbvio que, ao contrário do que é verdadeiramente espontâneo, daqueles valores pelos quais os manifestantes se batiam afinal, os fotógrafos foram à procura de um tema pré-determinado, como se vê acima ou num outro meu poste anterior sobre as Mariannes daquela e doutras revoluções. Daquela Revolução de Maio de 1968 que, afinal, nem sequer o chegou a ser…
A fotografia mais significativa sobre os acontecimentos será provavelmente esta acima, tirada logo a 3 de Maio de 1968 por Gilles Caron (1939-1970), onde se vê Daniel Cohn-Bendit (1945- ) a endereçar – o plano dá a falsa impressão que é de baixo para cima – um inesquecível sorriso trocista a um elemento da polícia de intervenção, polícia essa que era conhecida pelas siglas CRS. Como qualquer fotografia ideológica, a face do CRS – o mau – mal se vê, não se desse o caso que a sua expressão (sorrindo?...) o pudesse humanizar…
Aquilo que mais se nota nele e que se torna identificativo dos CRS é o aspecto reluzente dos seus capacetes, que pode ser interpretado como uma espécie de metáfora do polimento hipócrita do Poder que então se contestava nas ruas (acima). Mas a hipocrisia não era apanágio só de um lado. Nesta última fotografia abaixo dessa época – uma daquelas para esquecer… – é o mesmo capacete reluzente que nos permite identificar imediatamente o CRS pelo chão com uma multidão pouco estudantil preparada para lhe tratar da saúde

12 fevereiro 2011

GUERRAS MODERNAS E TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO

No panorama mediático mundial várias guerras se travam diante de nós e a maioria das suas batalhas parecem escapar-nos. Paradoxalmente, o objectivo de todas essas guerras é conquistar-nos. Numa dessas guerras, e de um dia para o outro, um nome despontou: Daniel Domscheit-Berg. E que fez este alemão de 32 anos? Trabalhou na Wikileaks, abandonou-a, fundou uma organização rival e escreveu um livro (abaixo): Inside WikiLeaks: Meine Zeit bei der gefährlichsten Website der Welt (Por dentro da WikiLeaks: Os meus tempos no Website mais perigoso do Mundo) onde ele se mostra muito crítico para com o controverso dirigente daquela organização, Julian Assange, um megalómano e paranóico, perdido em teorias da conspiração, obcecado pela fama.
Ora sendo a fama de Julian Assange menos recente e muito superior à de Daniel Domscheit-Berg que o acusa, também não estaremos em presença de uma daquelas Estrelas de 1ª grandeza do firmamento mediático mundial (como uma Madonna ou um Príncipe de Gales), que consiga explicar porque é que um livro de fofocas e má lingua (como é o caso) consiga não apenas ser logo traduzido em várias línguas como lançado simultaneamente em 16 países! Após o congelamento das suas contas por um banco suíço, as acusações por duas violações na Suécia e a correspondente detenção no Reino Unido, esta parece ser mais uma batalha para denegrir a imagem de Julian Assange (abaixo), o mensageiro, em vez de rebater o conteúdo das mensagens que a sua organização divulga.
Porém, parecendo lógico o que acima se conclui, todas estas operações estão a ser feitas de uma forma tão óbvia e tão canhestra e essa canhestrice está a ser tão facilmente denunciada que apetece perguntar, enfronhando-nos numa teoria conspiratória apropriada a todo esta trama, se elas não estarão a ser levadas a cabo por aliados de Assange que, fingindo pretender arruinar-lhe a credibilidade, apenas a querem mais reforçada…

11 fevereiro 2011

O VIZINHO

Ainda a propósito do fenómeno das Revoluções que se propagam da Tunísia para o Egipto saltando por cima da Líbia, no meio de todos os adjectivos satisfeitos com que se comentam os acontecimentos mais recentes do Cairo venho recuperar esta pequena notícia do Público ainda de hoje:

O Líder líbio, Muammar Gaddafi, está a tentar impedir manifestações convocadas para quinta-feira, dizem fontes líbias citadas pelo diário (espanhol) El País. Em reuniões com jornalistas e activistas o Líder líbio, no poder desde 1969, avisa para as responsabilidades de quem tenta fomentar o caos.

GERAÇÕES...


Cada geração terá os seus problemas de que se lamentar. 45 anos antes de Ana Bacalhau ter definido a ausência de remuneração como o problema identificativo da sua, o grupo de rock da fotografia acima (The Who) numa música chamada precisamente A Minha Geração (My Generation) proclamava por sua vez gaguejando que esperava morrer antes de envelhecer (I hope I die before I get old). Roger Daltrey, o vocalista da banda que dizia isso e outras coisas mais, vai fazer 67 anos no próximo dia 1 de Março e consta que está de boa saúde…

10 fevereiro 2011

O JUIZ

Afirmar que a emissão do Cartão do Cidadão foi trabalhada mediaticamente como um activo político pelos governos socialistas de José Sócrates é um truísmo. E afirmar que um fiasco associado ao mau funcionamento desse mesmo cartão, como aconteceu nas eleições presidenciais passadas, é para ser considerado um passivo político dessa mesma equipa governamental é um outro truísmo, consequência lógica do anterior.
Nesse momento, viu-se Rui Pereira, Ministro da Administração Interna, numa manobra descarada de ganhar tempo, pontapeando a bola para a frente durante duas semanas com um Relatório da Universidade do Minho, que desconfio destinado a tornar-se célebre...
Agora que o Relatório apareceu, o mesmo Rui Pereira procura sair casualmente da arena dos condenados, fazendo-se passar por um juiz magnânimo que aceita demissões mas até recusa outras!... É um insulto à inteligência alheia. Rui Pereira é um dos réus políticos responsável por um caso que é muito mais político do que técnico. Pela fisionomia, não me parece que o senhor que aparece a segurar o cartão na fotografia mais acima seja o Director-Geral da Administração Interna...

09 fevereiro 2011

SCUT - Quase um ano depois...

Recentemente tive que utilizar, pagando, uma antiga SCUT e ocorreu-me ser oportuno fazer uma pequena análise distanciada, agora que a maior parte da poeira política assentou, de alguns aspectos do impacto da transformação daquelas Auto-Estradas então apodadas de sem custos para o utilizador em Auto-Estradas normais. Recorde-se que, como consequência dessa mudança, as receitas das empresas concessionárias dessas Auto-Estradas passaram a ser geradas a partir do tráfego efectivo em vez das receitas serem estimadas a partir de um coeficiente de tráfego virtual negociado entre a empresa e o Estado...
E observe-se acima como a cotação das acções da Brisa, a maior empresa concessionária do sector em Portugal (com mais de 1.500 Km de Auto-Estradas concessionados) evoluiu neste último ano (gráfico do Jornal de Negócios). A queda abrupta registada em Maio e Junho de 2010 corresponderá ao período quente da decisão governamental de extinguir o regime SCUT, mas note-se como, depois dele, a cotação (a negro) das acções da Brisa nunca mais recuperou o valor anterior... Parece eloquente sobre o que os mercados pensarão sobre o impacto que a abolição das SCUT representou nas receitas e rentabilidade da empresa…
Brincando com os acrónimos, suponho que teria sido mais rigoroso que o regime apadrinhado por João Cravinho em 1997 para aquelas Auto-Estradas, em vez de se designar pelo politicamente apelativo SCUTSem CUstos para o UTilizador –, se designasse pelo financeiramente mais verdadeiro MALUCOMAis LUcrativas para a COncessionária

08 fevereiro 2011

SE CALHAR TAMBÉM FUI DE UMA GERAÇÃO SEM REMUNERAÇÃO…

A propósito do furor em redor deste último sucesso dos Deolinda (acima), lembrei-me dos anos em que a minha geração chegou ao mercado de emprego (1984-85), quando as regras de austeridade do FMI estavam de facto em vigor em Portugal e o organismo parecia representar muito mais do que uma mera sigla de arremesso político. E de como eu, jovem recém-licenciado por uma Universidade que eu julgava ter algum prestígio (Universidade Católica Portuguesa), depois de alguns meses de entrevistas (e testes, estavam a entrar na moda os testes…), cheguei a equacionar seriamente a hipótese de aceitar um estágio numa respeitável empresa cuja remuneração mensal que me ofereciam (15.000$) equivalia a 78% do ordenado mínimo nacional então em vigor (19.200$)… Como aliciantes complementares, especificavam-me que o Passe (Social) me era pago à parte e que, além disso, podia almoçar diariamente na cantina…
Os acasos fizeram com que acabasse por aceitar um outro emprego também em regime experimental mas melhor remunerado – não muito, mas onde me pagavam ligeiramente mais do que o salário mínimo… Explicando a diferença de atitudes, suponho que a fotografia acima espelhe o que mudou nestes 25 anos e que condicionará a forma como esta geração aceitará as contrariedades da vida. Tirada na década de 1970 nela se vê um trabalhador provavelmente pouco qualificado a contemplar sonhadoramente uma montra de electrodomésticos, engendrando a forma de comprar um. Mas, para isso, haveria que poupar porque ao contrário do que hoje acontece, a montra não está coberta de autocolantes promovendo facilidades de pagamento. Será atitude que esta geração sem remuneração talvez não saiba compreender, tendo eles crescido habituados a ter tudo o que quisessem, pagando quando pudessem…
A sério e analisando a letra da canção para lá dos aplausos e das manipulações interpretativas, se se é escravo com estudos, sem eles ser-se-ia então o quê?...

07 fevereiro 2011

HELIGUERRA

Aparecidos durante a década de 1950, mas ainda de uma forma incipiente, o emprego militar dos helicópteros só se veio a popularizar na década seguinte. Utilizado com muita parcimónia durante a Guerra da Coreia ou durante a da Argélia, a multiplicação dos seus números fê-los tornarem-se parte integrante da paisagem militar durante a Guerra do Vietname ou em qualquer das três que Portugal travou simultaneamente em África.
Revelando-se de uma enorme vantagem na velocidade com que podia deslocar tropas quando comparada com a tradicional movimentação por terra, no ar o helicóptero sofria (e continua a sofrer…) das desvantagens de ser um meio de combate comparativamente lento, com uma fraca autonomia e uma capacidade de transporte bastante limitada. É uma arma a empregar apenas quando se possui a supremacia aérea incontestada…
Daí a necessidade dos grandes números. As fotografias com helicópteros portugueses e norte-americanos aqui exibidas não nos devem iludir quanto à diferença dos meios à disposição de uns e outros: os portugueses dispuseram de um total de 100 helicópteros para os seus três Teatros de Operações (Angola 45 – Guiné 18 – Moçambique 36); os norte-americanos chegaram a contar com cerca de 7.500 no auge do seu envolvimento no Vietname¹.
¹ Em 1968 e 1969 os Estados Unidos chegaram perder (em combate e acidente) cerca de 1.000 helicópteros por ano (!), de um total de 12.000 helicópteros colocados ao serviço e 4.869 helicópteros perdidos durante a sua intervenção na Guerra (1962-1973).

06 fevereiro 2011

O GRANDE EDUCADOR… DA CLASSE «INTELECTUAL»

Ainda no seguimento do início do poste anterior, não acontece só a Marcelo Rebelo de Sousa, eu também me engano. Aqui há um par de meses, referi-me a dois cotados autores da nossa blogosfera nacional que, por causa do seu posicionamento político, têm de se alternar nas referências que fazem aos artigos de fim-de-semana do Público de Vasco Pulido Valente. Pois bem, este Sábado Vasco conseguiu a proeza ecuménica de se deixar citar simultaneamente por eles, Eduardo Pitta e João Gonçalves, com um artigo sobre a educação em Portugal intitulado A prioridade das prioridades.

Como se tornou costume, não se percebe o que é que Vasco proporá alternativamente ao descalabro que ali descreve, por isso subscrevo a primeira conclusão que Helena Araújo tira neste poste que recomendo que leiam (e este também), saúdem-se neles não só a sobriedade como foram escritos como a raridade dos postes que vão contra as correntes sociais instituídas. Por esta vez não sou eu a criticar as inanidades que Vasco Pulido Valente escreve nem, implicitamente, os rapapés da sua corte de admiradores – que por muito politicamente transversal que se distribuam também parecem de uma densidade intelectual compacta!

A NOSSA VITÓRIA «ESQUECIDA» NO EUROFESTIVAL


Apesar das repetidas previsões optimistas do Professor Marcelo Rebelo de Sousa (ou antes, as de Ricardo Araújo Pereira por ele…), a verdade é que já se tornou lendária a nossa participação no Festival da Eurovisão: mau grado as 44 participações até à data, ainda não houve vez alguma que Portugal conseguisse vencer o certame, ultrapassado por potências do Music-Hall como a Estónia, a Letónia, a Turquia ou a Ucrânia. O que talvez não se saiba é que, em ficção, já nos fizeram ganhar o Eurofestival uma vez...

O responsável foi um cómico inglês chamado Steve Coogan, e os nossos vencedores foram uma banda chamada Papa Bendi a cantar uma canção homónima, liderada por uma personagem de Coogan que se chama Tony Ferrino (acima). Tony Ferrino é um músico português, pai de 45 filhos ilegítimos e vencedor de vários Eurofestivais, que em 30 anos de carreira produziu 548 álbuns e 71 sucessos que alcançaram os tops, tanto em Portugal como no Estrangeiro, no Mónaco, Nauru, Tuvalu ou no Liechtenstein.

Observando bem, Papa Bendi, apesar de ser uma canção ficcional, não será diferente de Dai-Li-Dou a representação que Portugal enviou ao Eurofestival de 1978 (acima) e que ficou em 17º lugar. Observando melhor, ela nem sequer será assim tão diferente de Save your kisses for Me, a canção inglesa que ganhou o Eurofestival de 1976 (abaixo). Como sempre se soube, no Eurofestival o importante nunca foi a qualidade de uma canção mas o seu país de origem. Até para se ser foleiro e pimba, é vantajoso sê-lo em inglês…

05 fevereiro 2011

FOTOGRAFIAS DE BOWLING COMO METÁFORA DA ACTIVDADE POLÍTICA

As tarefas associadas à conquista do poder pela via democrática, a persuasão do eleitorado da bondade das suas propostas, serão como a fotografia acima, coloridas e apelativas, com os pinos convidativamente dispostos convidativamente lá ao fundo, enquanto as tarefas associadas ao seu exercício, especialmente quando em momentos de crise se impõe a adopção de medidas impopulares, serão como a da fotografia abaixo mais a angústia do jogador para decidir por qual pino optar com a última bola disponível…

04 fevereiro 2011

CANÇÃO DA AMÉRICA

Milton Nascimento cantando sobre os Amigos e a Amizade antes desta moderna definição do Facebook

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam
não
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

YELTSIN, O DANÇARINO


Estava-se em 1996, a União Soviética desaparecera, a Rússia adoptara o estilo ocidental de propaganda política e de cobertura noticiosa e a televisão acompanhava a campanha para a reeleição de Boris Yeltsin como Presidente. Há por isso imagens de televisão de um famoso comício concerto que teve lugar a 10 de Junho, na cidade de Rostov do Don, quando o candidato desatou inopinadamente a dançar a meio do concerto (acima). Yeltsin era useiro e vezeiro em incidentes semelhantes, muitas vezes atribuídos ao excesso de bebida, mas naquele caso a sua dança abrutalhada tinha o objectivo político de o mostrar em boa forma física, apesar de todos os rumores que circulavam acerca da sua saúde.

Mas este é dos casos em que se torna evidente como uma fotografia é única para captar a singularidade de um momento. Qualquer das duas fotografias deste poste – a de baixo ganhou o Prémio Pulitzer ­de Fotografia em 1997 – captam o que escapa às imagens iniciais: Boris Yeltsin gesticulante e perigoso para a vizinhança, agitando os braços com os cotovelos levantados e os punhos cerrados e o contraste com a graciosidade profissional, irónica mas também cúmplice das dançarinas… Yeltsin venceu as eleições, não só pelo que dançou, mas sobretudo por várias medidas populistas que promulgou, como aquela que multiplicou por mil o valor das poupanças dos octogenários russos…

03 fevereiro 2011

A HISTÓRIA DO DERG, QUE PODERIA SER PARECIDA COM A DO MFA...

Apesar de ter sido um dos raros países africanos a não ter sido colonizado, a Etiópia nunca foi propriamente um daqueles países onde se concentrassem as atenções do Mundo, a não ser quando as secas prolongadas do Sahel provoca(va)m aquelas fomes generalizadas (1958, 1966) que obrigavam à prestação de programas de auxílio alimentar de emergência. Isso acontecera mais uma vez a partir do Outono de 1973 e dessa vez, com o regime imperial em franca desagregação, em consonância aliás com o estado físico do velho imperador Hailé Selassié (abaixo), os militares etíopes começaram a apoderar-se gradualmente do poder – uma particularidade em África, onde sempre abundaram os Golpes de Estado...
Em 28 de Junho de 1974 – ou seja, dois meses depois do nosso 25 de Abril – foi anunciada a formação do Derg (palavra correspondente a Comité no idioma local), uma Assembleia de representantes dos três ramos das Forças Armadas etíopes, da Guarda Imperial e da Polícia. Tal como acontecia com a Assembleia do MFA em Portugal, cada unidade enviava os seus delegados (no caso três) onde, como também acontecia no caso português, rareavam os oficiais superiores e generais, considerada a associação que muitos deles haviam tido com o antigo regime. Depois, a dinâmica revolucionária cada vez mais radical (dinâmica que em Portugal foi baptizada por PREC) foi triturando os protagonistas...
Mas de uma forma muito mais cruel do que em Portugal, há que o dizer. Em Agosto de 1974, quase todas as figuras destacadas do decrépito regime imperial foram presas. Em Setembro de 1974 o velho imperador, já então uma mera figura decorativa, foi deposto e também preso. A chefia transitória do Estado foi entregue ao General Aman Andom (acima), figura de transição semelhante à do General António de Spínola. Só que, em vez dos cinco meses deste (de Abril a Setembro de 1974), a estadia de Andom no poder durou apenas dois (de Setembro a Novembro de 1974) e terminou de forma muito mais sangrenta, com a sua morte violenta em circunstâncias ainda hoje não totalmente esclarecidas.
À morte de Andom seguiu-se a execução dos dignitários que haviam sido aprisionados desde Agosto, incluindo dois antigos Primeiros-Ministros da monarquia. O seu sucessor na chefia do Estado foi um Brigadeiro discreto e cauteloso (a fazer lembrar, mais uma vez, o exemplo português e o General Costa Gomes) chamado Tafari Benti (ao centro na fotografia acima) mas com o poder real a escapar progressivamente para as facções radicais representadas pelo Major Mengistu Haile Mariam (acima, à esquerda) e pelo Tenente-Coronel Atnafu Abate (à direita, de punho erguido). Em Dezembro de 1974, o Derg (como o MFA) também proclamava que a Etiópia se encontrava a caminho do socialismo…
Mas, não só se anteciparam, com se mostraram muito mais ousados que o MFA. Em Janeiro de 1975 nacionalizaram a banca e os seguros; em Fevereiro todas as grandes empresas industriais e comerciais; em Março aboliram-se os latifúndios e os terrenos agrícolas foram totalmente nacionalizados; em Julho foi a vez dos terrenos e construções urbanas. Misto de Serviço Cívico e de Campanha de Dinamização Cultural do MFA também o Derg mobilizou todos os 50.000 estudantes para esclarecerem a população camponesa sobre a Revolução. Em Abril de 1976, enquanto em Portugal se elegia democraticamente a primeira Assembleia Legislativa, o Derg proclamava que a ideologia oficial etíope passava a ser o Marxismo-Leninismo!...
Haverá várias razões para explicar a diferença dos desfechos entre o que aconteceu em Portugal e o que continuou a acontecer na Etiópia, mas nenhuma delas terá a ver com o empenho revolucionário dos militares verdadeiramente progressistas, transbordante nos dois casos. A maturidade da sociedade portuguesa terá permitido que houvesse uma ala moderada que se veio a tornar maioritária dentro da Assembleia do MFA, que se formasse o Grupo dos Nove, que tivesse havido a sabedoria suficiente para se ter realizado uma consulta popular (as eleições para a Assembleia Constituinte) e que a sociedade civil tivesse estado disposta a demonstrar nas ruas quais eram as suas opções.
Regressemos à História da Revolução etíope para especularmos como se teriam passado as coisas por cá se… O Brigadeiro Tafari Benti da fotografia mais acima conseguiu aguentar-se como chefe de Estado durante 26 meses (Costa Gomes foi Presidente durante 21…) mas acabou assassinado em Fevereiro de 1977 na altura em que Benti prepararia um discreto golpe palaciano para afastar Mengistu Haile Mariam. Como a do seu antecessor, a morte de Benti também se deu em circunstâncias controversas, numa troca de tiros travada no Palácio. Mengistu substituiu-o e ficou tacitamente aprazada a disputa final com o seu rival Atnafu Abate… Este acabou sendo fuzilado em Novembro de 1977.
Nesse momento da Revolução já o poder se personalizara em Mengistu Haile Mariam (acima). Os seus inimigos eram inúmeros e incluíam membros do seu próprio campo ideológico porque tacticamente ele preferira decapitar os próprios partidos revolucionários etíopes (o PRPE e o Meison) para criar um seu, o Partido dos Trabalhadores da Etiópia. Isso não parece ter incomodado os seus aliados cubanos (abaixo) que, nos momentos de maior aflição – com inimigos externos (Somália), várias guerrilhas internas e oposição política clandestina – chegaram a manter um contingente de 17.000 soldados para apoiar o regime. Claro que em 1991, depois da Queda do Muro, tudo aquilo se desmoronou e veio abaixo…
Mengistu veio a refugiar-se no Zimbabué onde ainda permanece, apesar das solicitações das autoridades etíopes para que ele seja julgado, mas a pergunta que gostaria de deixar era outra: tivessem triunfado as vanguardas militares esclarecidas do PREC, quem seria o oficial que, saído das fileiras do MFA e depois de afastar todos os seus rivais, assumiria o protagonismo da nossa Revolução Socialista?... Adenda de dia 4: Fizeram-me sentir que a forma como terminava o poste, formulando a pergunta, mas não respondendo era uma desilusão… Decidi pois acrescentar algumas sugestões de nomes de jovens oficiais do MFA com visibilidade, ambição e imbuídos do espírito mais revolucionário: Diniz de Almeida, Duran Clemente, Eurico Corvacho, Mário Tomé, Ramiro Correia…

02 fevereiro 2011

O PÁSSARO

No Domingo das eleições presidenciais, ouvi a Rui Rio, comentador convidado da RTP, vários comentários sobranceiros para com aqueles que haviam escolhido exprimir o seu protesto no acto eleitoral, abstendo-se, anulando o voto, votando em branco ou votando em José Manuel Coelho… Perante tal sobranceria, apeteceu-me fazer-lhe uma pergunta (naturalmente virtual): se nunca se vira numa situação em que também se tivesse sentido compelido a exprimir o seu protesto? É que, se nunca aconteceu, devia ter acontecido…
Ainda não me cansei de recordar uma certa noite de Junho de 2004, em que os mais de 100 conselheiros nacionais do PSD de então (entre eles, Rui Rio…) indicou, por uma unanimidade norte-coreana, o nome de Pedro Santana Lopes para Primeiro-Ministro. E se Rui Rio não protestou então, devia ter protestado… Felizmente o indicado não se deixa esquecer e ainda recentemente escreveu um poste intitulado Os Pássaros, onde analisa a actual situação no Egipto, com a superficialidade anedótica de uma loura burra

A EXPOSIÇÃO MEDIÁTICA DOS ESTADOS UNIDOS NO MUNDO

Ontem, a propósito de um pedido que me fizeram via e-mail para que me pronunciasse a respeito da Wikileaks (já havia comentado o assunto anteriormente aqui no blogue), respondi que o assunto me parece principalmente do foro da projecção mediática dos Estados Unidos no Mundo. Assim como a Greenpeace denúncia nos meios mediáticos quase todas as outras potências (excepto os Estados Unidos) de forma desfavorável em termos ambientais, a Wikileaks expõe selectivamente os Estados Unidos da mesma forma desfavorável só que em termos da sua política externa.

Trata-se apenas de uma de várias manobras do mesmo género, que não valerá a pena levar demasiado a sério. Tomemos um outro exemplo de um outro aspecto em que a imagem dos Estados Unidos não sai muito dignificada no panorama mundial: a figura das primeiras damas. Já aqui havia publicado a fotografia acima, onde a França esmaga, pela graciosidade de Carla Bruni, os Estados Unidos. Mas, visto do outro lado, o cenário ainda pode ser mais penoso para os norte-americanos, se se comparam os traseiros de (da esquerda para a direita) Letizia Ortiz, Carla Bruni e Michelle Obama…

01 fevereiro 2011

PORQUE É QUE A COTAÇÃO DOS PORCOS PODE SIGNIFICAR UM ALÍVIO NA PRESSÃO SOBRE AS TAXAS DA DÍVIDA PORTUGUESA

Quando escrevo postes sobre estampidos financeiros, acanho-me. Em primeiro lugar, porque nunca apascentei gado, e tenho dificuldade em compreender aquele fenómeno (quando o gado colectiva e inexplicavelmente sai disparado num determinado sentido) que se assemelha muito às causas que fazem com que as notícias económicas ganhem o destaque de cabeçalho de primeira página. E em segundo lugar, porque, para que os estampidos do mercado pareçam fazer mais sentido do que as deambulações de um rebanho de ovelhas (por exemplo) por um prado, o universo da informação está saturado de especialistas económicos… De que serve então esta minha humilde contribuição?

Vale a pena esclarecer previamente que a contribuição foi desencadeada por uma daquelas notas de rodapé do Canal Bloomberg, que anunciava que a cotação dos porcos vivos (hogs) atingira um valor máximo desde há 25 anos… Chegados aqui, há alguns esclarecimentos que se impõem, tanto sobre o mensageiro (o Bloomberg) como sobre a mensagem (os porcos). Durante os últimos meses, Bloomberg destacou-se por ser um dos inúmeros Amigos da Onça quanto à capacidade dos países da periferia da Europa conseguirem resolver o problema das suas dívidas soberanas. Quem precisasse de fundamentação para escrever porque é que a Grécia, a Irlanda, Portugal não se podem safar, vai ao site e traduz. Um exemplo:
Mesmo assim, os investidores globais prevêem que pelo menos um país irá abandonar o Euro nos próximos cinco anos e que a Grécia e a Irlanda se irão atrasar no pagamento das suas dívidas externas. Cinquenta e nove por cento dos inquiridos responderam, numa sondagem global Blomberg (?) realizada este mês, que um ou mais dos dezassete países da zona Euro tê-la-á abandonado em 2016, incluindo onze por cento que antecipam que irá haver uma saída dentro dos próximos doze meses. As respostas aparecem divididas quanto à hipótese de Portugal também entrar em falta nos seus pagamentos externos enquanto existe uma maioria de inquiridos que manifesta confiança na Espanha.

Quanto aos porcos (vivos) e à sua cotação ascendente, tenho que os remeter (aos leitores, não os porcos...) para um par de postes que aqui escrevi, em Novembro de 2007 e Abril de 2008, onde me questiono se a formação dos preços internacionais do variado cabaz de bens que, à falta de melhor, se designa em inglês por commodities, é afectada, para além dos tradicionais mecanismos de ajustamento económico da Procura e da Oferta, pelo enorme movimento global de fluxos financeiros quando à procura de uma maior rentabilidade para os capitais. Os dois postes foram colocados em momentos de alta das cotações do petróleo e dos cereais quando as justificações clássicas para atingir aqueles valores sairiam forçadas…
E são notícias fornecidas também pelo próprio Bloomberg que nos esclarecem sobre uma alta generalizada nas cotações das commodities. Os tais porcos (vivos) atingirem um preço máximo deste Abril de 1986. A causa é atribuída a uma febre aftosa que atingiu os porcos sul coreanos. O petróleo atingiu uma cotação máxima desde inícios de Outubro de 2008. Será o receio que a situação egípcia afecte o tráfego do Canal do Suez. A cotação do cacau subiu 10% este mês por causa da situação por resolver na Costa do Marfim. A do trigo subiu 6% por causa das cheias na Austrália. E dispensando o mesmo género de explicações simplistas anteriores, também as cotações do cobre e do algodão atingiram recordes.

Entretanto a cotação do ouro – a aplicação de refúgio em caso de instabilidade – desceu e é o mesmo Bloomberg que, a propósito da crise das dívidas dos países periféricos da zona Euro, encarada até agora com o optimismo que se leu acima, publica hoje um artigo em que começa por equiparar o BCE (Banco Central) europeu ao FED norte-americano, no sentido da máxima que estabelece que os especuladores que os tentarem defrontar acabam sempre por sair derrotados: Don’t Fight the Fed¹. Vindo de onde vem, e relembrando quanto a situação permanece, mesmo assim, muito séria para os países devedores, pergunto-me se será isto sinal que os mercados mudaram de pouso e vão-se dedicar agora às bifanas?…
¹Não enfrentes o FED. Como se deduz do texto, o FED é o Banco Central dos Estados Unidos.

31 janeiro 2011

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO – 1 (A nudez «Urbi et Orbi»)

Esta série de três postes inspirados pelo título do famoso livro de Aldous Huxley, é uma compilação comentada de três daquelas notícias que aparecem nos rodapés dos serviços informativos e a que não se costuma prestar grande atenção, mas que aqui servirão de pistas para reflexão do como vivemos num Mundo em mudança, mas também servirão de pretexto para nos interrogarmos em que direcção é que essa mudança nos conduz.

Durante Séculos a expressão Urbi et Orbi (À Cidade e ao Mundo) foi um privilégio de papas. E se soubéssemos de um vizinho que gostava de andar em pelota pela casa (dele) isso era uma curiosidade pitoresca compartilhada com o resto da vizinhança do bairro. Mas hoje, através do Google Street View, torna-se possível que o pirilau do seu vizinho (abaixo) possa ter uma notoriedade mundial equivalente à da leitura dos Votos de Boas Festas feita por Bento XVI.