22 julho 2022

O PEQUENO «BUG» INFORMÁTICO QUE PROVOCOU O FRACASSO DA PRIMEIRA MISSÃO «MARINER»

22 de Julho de 1962. Depois de dois adiamentos, um foguetão Atlas-Agena B transportando a sonda Mariner 1, destinada ao planeta Vénus, descola de Cabo Canaveral. Mas, logo após o lançamento, o foguetão começou a desviar-se da sua trajectória. Os comandos de direcção enviados para a correcção não provocaram qualquer efeito na rectificação da trajectória, e aos 4:53 do voo o foguetão foi destruído por um comando do solo. Por causa da cobertura noticiosa associada ao acontecimento, a investigação para as explicações para o que acontecera realizou-se sob um elevado escrutínio da comunicação social. Após cinco dias de análises, os engenheiros do JPL apuraram o que causara o mau funcionamento na Mariner 1: fora a combinação de um erro de programação e uma falha de hardware que levou à destruição do Mariner.

As equações de orientação escritas à mão continham o símbolo "R" (para "raio"). Esse "R" deveria ter uma linha sobre ele ("R-bar" ou R̄), denotando suavização ou média dos dados da faixa provenientes de um cálculo anterior. Mas faltava a barra na versão manuscrita e, portanto, o programa de computador baseado nessas equações foi incorrectamente transcrito quando codificado para a máquina. Durante a fase ascensional, o foguetão perdeu por fracções de segundo a conexão com a base; como essa era uma situação antecipável, o Atlas-Agena fora programado para continuar um rumo pré programado e, como o programa que o gerava este se encontrava viciado pelo erro de código, o foguete começou a assumir um rumo progressivamente mais errático, até escapar ao controle de terra. Daí a necessidade da sua destruição.

Quem acompanhou o acontecimento e, sobretudo as explicações posteriores para o que sucedera, ter-se-á apercebido, por uma primeira vez, não especialmente das complexidades da engenharia aeroespacial (isso era adquirido), mas sobretudo das enormes consequências de erros aparentemente menores na programação destes engenhos. Ainda não se popularizara a expressão software, embora a expressão bug já fosse empregue em engenharia. E concluía-se que a programação informática era uma actividade para ser levada com todo o rigor. Por causa do esquecimento da transcrição do tracinho, o custo deste pequeno bug informático ficara-se pelos 160 milhões de dólares (a preços actuais), esquecendo-se os danos que o episódio causara à reputação tecnológica dos Estados Unidos em plena Corrida Espacial.

21 julho 2022

A FUTEBOLIZAÇÃO DAS SONDAGENS

Assim como no futebol há realidades paralelas - a existência do penalti é real ou não conforme o clube de quem está a ver a jogada - também essa mesma relatividade chegou agora descaradamente ao universo pseudo-científico das sondagens. Conforme a cor, assim as sondagens nos dão a opinião do que pensarão os portugueses. Se for o vermelho do Benfica e da CNN, aí Marta Temido recebe nota positiva dos portugueses; se for o azul do Expresso e do FC Porto, aí mais de metade desses mesmos portugueses querem que ela seja a primeira a sair do governo. O sistema informativo encontra-se completamente capturado. Se não estivesse, e se não houvesse a percepção de que estava, nunca as redes sociais teriam possibilidade de o ameaçar e de constituir uma alternativa contra a qual esse mesmo sistema informativo se farta de queixar e culpar.

A SIDA HÁ QUARENTA ANOS

Ainda 21 de Julho de 1982. O Diário de Lisboa recuperava e, essencialmente, traduzia e condensava uma notícia que o Washington Post publicara no princípio daquele mês. Na notícia dava-se conta de «uma doença misteriosa aparecida recentemente», que já causara «a morte de cerca de 200 pessoas» e que começara «a inquietar seriamente as autoridades (de saúde) americanas». Ainda não lhe fora atribuído «um nome» - esse só surgiria daí por uma semana: «Acquired Immune Deficiency Syndrome (AIDS)», que veio a ser traduzido para português como «Síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA)». Mas a questão da nomenclatura era o menos importante desta nova doença... Sobretudo, dado a forma de propagação e a selectividade daqueles que eram atingidos por ela, constituía um desafio às raízes da verdadeira solidariedade das sociedades...

UMA NOVIDADE... QUE JÁ ERA NOVIDADE HÁ QUARENTA ANOS

19 de Julho de 2022 (direita) e 21 de Julho de 1982 (esquerda). Uma das notícias chama-lhe «bio-gás», a outra «gás renovável» ou «bio-metano», mas, aparentemente, e por detrás das denominações diferentes, estas duas notícias, apesar de apartadas por quarenta anos, estarão a referir-se à mesma fonte de energia e ao mesmo processo de a produzir. O que torna ridículo o ênfase dado pela notícia mais recente ao aspecto "pioneiro" da proeza. É publicidade disfarçada de notícia, e uma carimbadela de incompetência na testa do jornalismo do Jornal de Notícias. Ele haverá algum jornalista que perceba alguma coisa de alguma coisa sobre a qual tenha de escrever? (Ter opiniões sobre política não conta...)

20 julho 2022

AMOR ERRANTE

Tem vezes em que circunstâncias especiais se conjugam para que uma música nossa conhecida do passado renasça como se fosse metamorfoseada nos nossos gostos e preferências. Aconteceu-me muito recentemente com esta, veterana de 32 anos.

19 julho 2022

A PEQUENA HISTÓRIA COLONIAL DO BANCO COLONIAL PORTUGUÊS

O Banco Colonial Português tivera o capital inicial de 10.000 contos, subscrito na totalidade pela casa bancária Pinto & Sotto Mayor. Por esta escritura acima, de 18 de Julho de 1922, publicada no dia seguinte no Diário de Lisboa, o pacto social é alterado e o capital aumentado para 20.000 contos. Segundo o que se pode ler nos seus estatutos, a instituição tinha por objecto social o fomento e o progresso económico em geral, e agrícola em especial, tanto no continente como nas províncias ultramarinas. Em 1919, as primeiras agências do Banco Colonial Português haviam sido abertas em Luanda e Lourenço Marques. Em 1920, abrira-se a sucursal em Benguela, e nos anos seguintes em Inhambane, Nampula (ambas em Moçambique), S. Vicente (Cabo Verde), S. Tomé, Funchal e Moçâmedes (Angola). Devido à ligação privilegiada com o sector agrícola ultramarino, este outro BCP tornara-se membro fundador em 1920 da Companhia da África Ocidental Portuguesa. Mas a crise cambial desta década de 1920, assim como as alterações surgidas no regime bancário e monetário em Moçambique, pela aplicação de uma portaria que entregava ao Banco Nacional Ultramarino o exclusivo das operações cambiais do Estado, e sobretudo com a diminuição das transferências das colónias para a metrópole, foram tudo factores que deixaram os resultados da instituição muito aquém das expectativas de há cem anos. Escassos dois anos depois, por uma outra escritura celebrada em 12 de Agosto de 1924, o Banco Colonial Português expandiu-se, adquirindo o activo e passivo do Banco Nacional Agrícola, passando então a denominar-se Banco Colonial e Agrícola Português. O Banco Colonial e Agrícola Português, após essa fusão, reforçou o seu capital social para 45.000 contos. Porém, a iniciativa não teve o efeito dinamizador desejado e apenas um ano depois disso (26 de Agosto de 1925) suspendeu os pagamentos. Foi nomeado um comissário do governo: António Henrique de Oliveira e Silva. Por escritura de 22 de Fevereiro de 1927, o capital social veio a ser reduzido para 11.250 contos. E por sentença do Tribunal do Comércio de Lisboa, a 26 de Abril de 1928 a instituição veio a ser reconstituída sob a designação de Banco da Agricultura. Afinal, os cinquenta anos da história deste último Banco da Agricultura (1928-1978), tiveram um cunho muito pouco colonial... Por associação de ideias e por este andar, também estou desconfiado que o actual Banco Português de Fomento é capaz de não vir a fomentar grande coisa, nem por muito tempo... Só espero estar enganado.

18 julho 2022

OS EXCURSIONISTAS EXÓTICOS

18 de Julho de 1962. A notícia dá conta do desembarque de 1.100 excursionistas exóticos britânicos que realizavam um cruzeiro a bordo do paquete Ibéria (por sinal, um navio azarado, onde estavam sempre a acontecer coisas, mas isso não interessava nada! - como mais tarde viria a consagrar em expressão a Teresa Guilherme). O que interessaria ao jornalista era que o navio aportara a Lisboa, com os tais excursionistas exóticos que, por uma vez e para aparente desapontamento de quem escrevia a notícia, não eram «milionários», mas apenas «remediados». Essa circunstância menor não os impedia de exibir «novos modelos de vestidos», «exuberantemente decotados», «ostentando» «chapéus das mais variadas cores e feitios». «As senhoras idosas» ou os «casais mais respeitosos» nada ficavam a dever aos restantes em «exotismo», embora a palma desse exotismo fosse aparentemente - até com direito a fotografia e tudo! - para um cavalheiro que ousara desembarcar em calções! (não se estivesse em Julho)
Enfim, pondo as ironias de parte, toda esta redacção do jornalista do Diário de Lisboa é, vista a esta distância, profundamente triste, embaraçante, evocativa de cultura complexada de provincianos de aldeia como então se vivia em Portugal e se contemplavam o comportamento dos vizinhos europeus, e ainda se torna mais indesculpável quando se constata o retrocesso em que a sociedade portuguesa havia recaído. É que, durante o princípio da década de 1940, quando Lisboa fora inundada de refugiados europeus por causa da Segunda Guerra Mundial, a cidade tivera uma oportunidade para se tornar cosmopolita. Como se percebe e aparentemente, vinte anos passados, a ocasião fora desperdiçada. A bem de uma narrativa desculpabilizadora, é comum culpar Salazar por esta mediocridade, mas, nomeadamente em termos culturais e de costumes, parece-me evidente o quanto a culpa daquela ocasião perdida é colectiva, a começar pelas nossas elites.

IMAGENS DAS FESTAS DE SAN FERMIN EM MALABO, CAPITAL DA GUINÉ EQUATORIAL

Imagens das festas de San Fermin que se realizaram em Malabo, a capital da Guiné Equatorial, uma antiga colónia espanhola. Ao contrário das internacionalmente famosas Festas de San Fermin de Pamplona, que se realizam todos os anos entre 6 e 15 de Julho, estas ainda não alcançaram a promoção devida e será por isso que vemos os bichos à solta a passearem-se quase sozinhos pelas ruas, faltam ali os tradicionais turistas em busca de adrenalina e emoções correndo com a bicharada. Porém, estas San Fermin africanas prometem: em vez de uns pacíficos bois em que o aspecto é mais maldoso do que a atitude, o perigo é ali protagonizado por rinocerontes que, quando entusiasmados, prometem propiciar imagens arrebatadoras de turistas e locais experimentando desafios verdadeiramente interessantes...

17 julho 2022

A PROMULGAÇÃO DA LEI CONSTITUTIVA DAS CORTES ESPANHOLAS

17 de Julho de 1942. Em Espanha, Franco promulga a Lei Constitutiva das Cortes Espanholas. Então cumpriam-se seis anos sobre a data da insurreição militar que estivera na origem do regime. As Cortes espanholas eram o que de mais próximo se podia conceber de um órgão representativo «de participação do povo espanhol nas tarefas do Estado». Contudo, o novo órgão assemelhava-se muito mais a uma câmara corporativa de inspiração fascista do que a um parlamento. Os seus membros denominavam-se mesmo procuradores. E esses procuradores seriam nomeados, nunca eleitos: fosse directamente pelo próprio caudilho, Francisco Franco, ou então pelas organizações políticas, sindicais ou corporativas do regime, a sua composição seria necessariamente monocolor. Nessas futuras Cortes não se poderiam apresentar propostas de lei: votar-se-iam apenas as que eram apresentadas pelo executivo (Franco). E o discurso que Franco pronunciara na ocasião, e que o Diário de Lisboa transcrevia nas suas passagens mais importantes no dia seguinte, através do «elogio» prestado ao totalitarismo, mostrava o quanto o regime espanhol se aproximara ideologicamente de uma Alemanha e de uma Itália que, por essa altura, ainda se concebiam como possíveis vencedoras do conflito em curso, já que as operações de Verão da Alemanha na Frente Leste pareciam estar a correr-lhes favoravelmente.

16 julho 2022

UM PROBLEMA QUE URGE RESOLVER - ONDE DEVE SER CONSTRUÍDO O AEROPORTO DE LISBOA?

16 de Julho de 1932. Não fora dar-se o caso do jornal ser de há noventa anos, e acreditamos que, pelo título, o assunto do artigo interessasse ao primeiro-ministro António Costa e ao seu devotado ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos. Repare-se como já então havia o técnico que não manifestava quaisquer dúvidas quanto à localização, que, não por acaso, seria precisamente a desejada por aqueles que suspeitamos estarem por detrás da promoção do artigo. A questão e o método (que se mantém desde há 90 anos) é que, para além deste técnico (que até é francês!), haveria quem arranjasse um outro técnico que tivesse uma opinião assertivamente adversa à do Montijo, em prol de Alverca. E um terceiro técnico que defendesse veementemente a solução Portela/Sacavém (que foi a que veio a ser realmente escolhida). Em suma, dos técnicos só são citados aqueles que concluem aquilo que convém a quem tem poder. Era assim há 90 anos. Continua a ser assim.

15 julho 2022

«EMPURRAR COM A BARRIGA» - A IMAGEM DE MARCA DO EXECUTIVO DE ANTÓNIO COSTA

A primeira parte da imagem, é a transcrição de um parágrafo de um artigo do Público de ontem. Atente-se às passagens sublinhadas: há três semanas (22 de Junho) Marta Temido anunciava que iria aumentar de imediato o valor diminuto como são comparativamente remuneradas as horas extraordinárias dos médicos do quadro dos hospitais, sem esperar por qualquer acordo com os sindicatos, harmonizando-o com o valor que está a ser pago aos médicos externos. Três semanas depois comprova-se que não fez nada; está (ainda!) a "aprofundar a solução". Ou seja, depois de umas declarações iniciais, de aparência substantiva, Marta Temido e o seu ministério ainda não fizeram a ponta de um corno no que concerne àquele problema em concreto, problema esse que a própria ministra considerará implicitamente injusto, tal a celeridade (aparente!) posta na sua resolução. Este é o estilo de governo de António Costa em todo o seu esplendor: empurrar a solução dos problemas com a barriga, à espera que, no entretanto, o problema em si saia da agenda mediática. Agora passou a haver incêndios: já ninguém quer saber das urgências fechadas.

A REPUTAÇÃO ANTIGA DAS CONCENTRAÇÕES ALGARVIAS NO MÊS DE JULHO

Ao folhear o Diário de Lisboa de 15 de Julho de 1962 descobre-se, com surpresa, que existirá alguma razão de fundo, e antiga, para a realização de concentrações em terras algarvias, em pleno mês de Julho. A da notícia era a de uma concentração monárquica, em Quarteira, como se pode ler na notícia da esquerda. A que hoje ofusca todas as outras realizadas por esta mesma altura do ano, é a motoqueira de Faro que, como se pode ler no cartaz da direita, já vai na sua 40ª edição. Claro que só há que aceitar a evolução do programa das festas de uma para outra Concentração. Por um lado é difícil imaginarmos os motoqueiros actuais a irem à «Santa Missa» depois de almoçarem, tanto mais que já não há «Ultramar português» para defender...; mas por outro lado, também é difícil imaginarmos o antigo «sr. prior de Quarteira» a presidir ao júri do clássico concurso da miss t-shirt molhada...

14 julho 2022

QUANDO A PROPAGANDA DISTORCE EXPRESSÕES QUE TÊM OUTRO SIGNIFICADO

Para efeitos de propaganda tem-se abusado demasiado da expressão "guerra híbrida" (uma expressão popularizada já no século XXI). Se "guerra híbrida" consistisse em "enviar armas" para um dos beligerantes, como acima reclama a porta-voz do Kremlin, então, por exemplo, a União Soviética havia travado uma prolongada "guerra híbrida" contra os Estados Unidos entre 1965 e 1972, através dos fornecimentos de vastas quantidades de armamento sofisticado que fez ao Vietname do Norte. E isso é uma passagem da História que precisamente aqueles que tomam as simpatias pró-russas no actual conflito russo-ucraniano, não querem reconstituir desse modo - supostamente, a sua versão ortodoxa da Guerra do Vietname é que a vitória se deveu apenas aos vietnamitas...

«JOBS... POUR LES COPAINS»

Foi António Guterres quem popularizou em Portugal a expressão «jobs for the boys». E no entanto, uma rápida pesquisa na internet esclarece-nos o quanto a expressão é antiga, datará do princípio do século XX, já com o sentido malicioso que empregamos actualmente. Há porém, uma nuance. O idioma internacional de comunicação nos primórdios do século passado era o francês e a importância internacional da França era toda uma outra. Na edição de 14 de Julho de 1922, por coincidência o dia nacional daquele país, o aniversário da tomada da Bastilha, esta pequena notícia do Diário de Lisboa dá uma ideia do quanto era cobiçada a colocação na representação diplomática portuguesa na cidade-luz. (Mais de 80 anos depois, uma qualquer colocação naquela cidade continuaria cobiçada...) O titular, o sr. João Chagas, ainda teria para mais uns sete meses, mas o jornal já dava conta de sete(!) candidatos a substituí-lo. Entre os quais se contavam um antigo presidente da República (Bernardino Machado) e um antigo primeiro-ministro (Afonso Costa). Entretanto, numa outra notícia dessa mesma edição, esse mesmo sr. João Chagas parecia passar um recado explícito ao governo de então, de que o cargo de «administrador dos Caminhos de Ferro Portugueses» não estaria à altura das suas expectativas. Em suma, há cem anos, se os jobs ainda não eram para os boys, é só por uma questão de idioma que se pode corrigir a expressão esclarecendo que seriam para os... copains. Para aqueles que gostam de saber como é que estas coisas acabam, afinal João Chagas continuou em Paris como ministro plenipotenciário da legação até ao final do ano de 1923. Foi substituído por Ferreira da Fonseca que, como um poema de Drummond de Andrade, nem entrara originalmente nesta história.

13 julho 2022

OUTRA FILHA E OUTRO FUNERAL

13 de Julho de 1972. Com destaque de primeira página, o Diário de Lisboa noticiava que «a actriz Melina Mercouri» voltara «ontem à Grécia, com autorização especial das autoridades, para assistir aos funerais da sua mãe.» (...) «Foram-lhes concedidas exactamente 12 horas para permanecer em território grego e assistir às cerimónias fúnebres.» Na telefoto da UPI que acompanha a notícia, «ela aparece entre o irmão e o marido, o cineasta Jules Dassin, exprimindo pateticamente a sua dor, como qualquer das heroínas populares dos filmes que interpretou.» É uma coincidência evocar este episódio antigo de cinquenta anos, quando as questões da segurança jurídica das filhas de José Eduardo dos Santos em Angola também estão em aberto, por ocasião da eventual realização do funeral do antigo presidente angolano no seu país natal. Mas, descontando os aspectos mais essenciais, a analogia não é assim tão extensa quanto isso. A figura principal do episódio grego é a filha, enquanto a do episódio angolano é o progenitor que morreu; aquelas filhas, por muito espaço mediático que agora lhes concedam, não seriam notícia, não fosse o pai.

12 julho 2022

A MARCA MONTEQUÊ?

Até ver e apenas semana e meia passada depois do último congresso do PSD, «a marca Montenegro» não passa de uma expressão inventada pelo jornal Observador, nos seus esforços para levar ao colo a equipa dos órfãos de Passos Coelho. Faz-me lembrar um daqueles comentários de futebol, de um adepto indefectível que acha que as «chicotadas psicológicas» são mesmo a solução para o problema da equipa, e que dizem animadamente, enquanto os resultados tardam: «a equipa ainda não ganhou nenhum jogo, mas nota-se que os jogadores jogam com muito mais à vontade!...»

AS INTUIÇÕES ÚTEIS E AS OUTRAS

O senhor da imagem chama-se Adalberto Campos Fernandes e apanhámo-lo a dizer ontem na CNN que o relatório sobre o impacto da covid-19 diz aquilo que todos já sabíamos. Mas, como é um comentador diz o mesmo com um vocabulário mais rebuscado - intuímos. O que não é do domínio da intuição, antes uma constatação de factos, é que Adalberto Campos Fernandes já foi ministro da Saúde. Aliás, foi o antecessor imediato da actual titular, Marta Temido. Mas foi um ministro que não levou o seu mandato até ao fim. De acordo com as notícias publicadas na época, terá sido mesmo ele a pedir para abandonar o cargo. Visto de fora, e até melhor explicação, parece-me uma admissão evidente de um fracasso politico - a frustração de não conseguir implementar aquilo que se propusera. Como de resto, já ouvi comentar em surdina de outros sítios por onde passou... Alguém que impressiona a falar mas que não tem resultados (aos 63 anos, já os devia ter alcançado). Enfim, para o que interessa, Adalberto Campos Fernandes teria adquirido um outro respeito se tivesse sido consequente e se tivesse mantido calado, pelo menos durante o tempo em que a sua sucessora imediata permanecesse no cargo. Mas não. Todos intuímos que há aquelas pessoas que não sabem fazer a distinção saudável entre implementar políticas e alcançar resultados e, por outro lado, dizer coisas sem apresentar qualquer ideia de como as concretizar*. Essa é uma intuição útil, para não prestarmos atenção ao que Adalberto Campos Fernandes tenha para dizer. Ele há outras intuições: na CNN têm que encher o tempo com algumas opiniões, nem sempre e não propriamente as melhores opiniões, apenas as dos opinadores que estiverem disponíveis.

* Citando Adalberto Campos Fernandes: «- ... é por isso importante, como tenho dito, convocar todas as forças políticas, todos os actores, para que nós encontremos uma resposta muito intensa, muito rápida,...» - um canónico "traque na casa de banho".

A HISTÓRIA TEM IMENSAS «NUANCES»...

12 de Julho de 1922. O governo alemão confessava-se incapaz de fazer face às suas responsabilidades financeiras e em Paris e Londres concertavam-se reacções a uma previsível bancarrota alemã, que afinal não chegou a haver, assim como 90 anos depois a Grécia não chegou a sair do euro. Wolfgang Schäuble é que ainda não nascera, por isso não se lembra (ou não se quer lembrar do que estudou) quando se considerava que o problema financeiro da Europa era o seu próprio país... Mas a melhor síntese desta evocação sairá talvez de um provérbio tradicional português: «Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu».

11 julho 2022

O «MATCH» DO SÉCULO

Há alguns países da Europa que sempre foram considerados mais intrinsecamente “neutrais” durante a Guerra-Fria: a Áustria, a Finlândia (que foi escolhida para o local de assinatura da Acta de Helsínquia em 1975), a Suíça…e a frequentemente esquecida Islândia. Norte-americanos e soviéticos escolheram a capital islandesa, Reiquiavique, para local da realização da Cimeira que juntou Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan em Outubro de 1986 mas já antes disso a cidade fora escolhida para local da realização do Campeonato Mundial de Xadrez que começou em 11 de Julho de 1972, há precisamente 50 anos.
Essa edição de 1972 do Campeonato Mundial de Xadrez enquadrava-se perfeitamente no espírito da Guerra-Fria que era então uma constante da situação internacional: um norte-americano contestava pela primeira vez o título a um soviético, quando os jogadores de origem soviética haviam dominado hegemonicamente aquela disciplina nos últimos 45 anos. Era uma história cheia de potencial, daquelas declaradamente inspiradas em David contra Golias, mas infelizmente o xadrez deve ser das modalidades mais exigentes para aqueles que a queiram acompanhar.
Contornando isso, a cobertura noticiosa da comunicação social ocidental estava repleta de fait-divers para que aqueles que queriam acompanhar o match por clubismo mas não percebessem nada de xadrez ficassem com a sensação que estavam a par do assunto. E, contando com a complexa personalidade do concorrente norte-americano, Bobby Fischer (1943-2008 - acima), os torcedores não podiam ficar menos desapontados com essa cobertura periférica sobre o que estava a acontecer em Reiquiavique. Fischer começou logo por faltar à cerimónia de abertura e por pedir mais dinheiro…
Na verdade, o que os ocidentais queriam evitar mostrar à sua opinião pública era que o seu campeão era um geek (acima). Em contraste, a imagem do seu opositor Boris Spassky (1937- ) era muito mais favorável (abaixo), nada conforme com a do russo patibular com ar de espião da Guerra-Fria. No tabuleiro contudo, depois de perder as duas partidas iniciais (e a segunda foi perdido por falta de comparência…), Fischer venceu a terceira, quinta, oitava, décima, décima terceira e vigésima primeira partidas (contra apenas a 11ª partida para Spassky), vencendo o Campeonato com 12½ pontos!
Mas isso foi o que aconteceu em Reiquiavique. Porque aquilo que eu recordo com mais nostalgia sobre este acontecimento eram os comentários sobre a partida do dia que eram incluídos no telejornal da noite, comentários esses feitos por um mestre português de seu nome João Cordovil (abaixo, à esquerda), que durante o torneio se tornou numa presença televisiva regular, explicando o que acontecera com o recurso a quadros idênticos aos que se podem ver na imagem abaixo. Pergunto-me se no actual panorama televisivo poderia haver espaço para um programa desse mesmo género...

10 julho 2022

O «CAMPEONATO» DA PREOCUPAÇÃO

Esta disputa encenada entre o governo e a presidência, a procurar ver quem exibe mais preocupação diante da opinião pública pelo que se antecipam que venha a ser a agenda mediática da próxima semana é sumamente ridícula. Os dois marcam-se «à zona», e quem assiste à cena não pode deixar de pensar tratarem-se de uns palhaços. Será que Marcelo e Costa levarão a coreografia ao ponto de se deixarem fotografar e filmar de mangueira na mão?

A verdade é que num país a sério - e eu gosto de considerar que somos um desses - as capacidades de resposta a crises devem estar concebidas para não dependerem em nada da presença de chefes de Estado e de governo. E as pessoas não são parvas, as coisas às vezes correm-lhes (felizmente!) mal: aprecie-se abaixo o exemplo concreto do primeiro-ministro australiano Scott Morrison quando da sua visita a uma área ardida em Janeiro de 2020.