21 de Julho de 1970. Data em que foi concluída a construção da barragem de Assuão no rio Nilo. Trata-se de uma obra de engenharia respeitável - a construção das infraestruturas durou dez anos, o enchimento total da albufeira demorará ainda mais outros seis - mas é sobretudo um símbolo político do Egipto moderno. Com esta conclusão, o Egipto, que Heródoto considerara uma «dádiva do Nilo», terá subvertido as suas relações de poder com o seu rio. O financiamento para a sua construção, que o Egipto de Nasser solicitou tanto ao Ocidente quanto ao Leste, acabou sendo concedido pelos soviéticos, o que foi causa e consequência de um período histórico em que, também por causa do conflito com Israel, o Egipto se reposicionou em relação àqueles que haviam sido até aí os seus alinhamentos internacionais tradicionais. Por estranho que pareça, esta data da conclusão dos trabalhos, acabou por passar desapercebida no meio de outras cerimónias a que o regime preferiu dar mais relevo, como sejam a do início dos trabalhos em 1960, ou a da visita ao empreendimento feita pelo líder soviético Nikita Khrushchev em 1964. E contudo, havia algo de estranhamente premonitório nesta conclusão técnica da obra há precisamente cinquenta anos: escondido no futuro, anunciava-se para muito breve - dali por escassos dois meses, a 28 de Setembro - a morte inesperada de Gamal Abdel Nasser, aquele que transformara Assuão na obra imponente do seu regime, qual faraó tardio do século XX. Em 16 de Janeiro de 1971, a barragem de Assuão foi oficialmente inaugurada, por Anwar Sadat, sucessor de Nasser e por Nikolai Podgorny, em representação dos capitais russos que a haviam financiado, mas faltava ali alguém...
21 julho 2020
20 julho 2020
A ASTRONÁUTICA JÁ FOI «CONQUISTADA» PELO JORNALISMO
Se nos cabeçalhos esta missão a Marte é árabe, nos detalhes é que se fica a saber que a sonda foi construída nos Estados Unidos em parceria com universidades locais (Colorado), que o lançamento teve lugar a partir do centro espacial de Tanegashima, no sul do Japão, e que o foguetão que a lançou para o espaço era também de concepção inteiramente japonesa (H-IIA). Ninguém duvidará que tenha havido um empenhado esforço dos cientistas dos Emirados Árabes, especialmente do Mohammed bin Rashid Space Centre no Dubai, mas não se estará a revelar um grande segredo quando se disser que há muita gente do meio da astronáutica que tem uma visão um pouco condescendente para com este projecto, classificando-o como um dos mais conseguidos... entre os que os petrodólares conseguem comprar. É possível que seja excessivo e provavelmente não será simpático escrevê-lo nesta ocasião, mas chamar também a atenção para esse detalhe controverso, é que é a diferença entre o jornalismo e uma mera «press release» da entidade que está a promover o acontecimento...
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...O CONSELHEIRO DE SEGURANÇA NACIONAL AMERICANO VEIO À EUROPA
Há precisamente uma semana publiquei no Herdeiro de Aécio um poste dando conta da visita de três dias do Conselheiro de Segurança Nacional americano à Europa. Um texto em que apontava para que «aguard(áss)emos circunspectos os resultados» das negociações, alertando para a circunstância que, se nada de substancialmente positivo tivesse resultado, mais difícil seria encontrar a "não-notícia". Já aguardámos uma semana completa pelos resultados das diligências de Robert O'Brien pelo velhos continente e, apesar da pesquisa sobre o seu trabalho ter sido esforçada, os resultados são parcos: há um comunicado seu em que ele se congratula pela decisão britânica de rejeitar o equipamento chinês para a sua rede 5G, o tópico que até é realmente o cavalo de batalha da diplomacia americana nos dias que correm, mas o americano não conseguiu arrancar mais nenhum compromisso que se visse a esse respeito, de um qualquer outro aliado europeu. Por outro lado, é reconhecido que, mais do que uma questão de redes, os britânicos têm razões muito próprias para estarem lixados com os chineses. Para além da conveniente coincidência, o que sobrará, depois de muito vasculhada a coluna das notícias a respeito daquilo que O'Brien terá estado a fazer durante três dias, foi a aturar os franceses a queixarem-se dos turcos, depois de um incidente naval envolvendo as marinhas de guerra dos dois países no Mediterrâneo, ao largo das costas da Líbia no mês passado. Esclareça-se que normalmente este género de incidentes são sanados bilateralmente entre países crescidos mas que, neste caso, os franceses terão feito questão expressa de chatear deliberadamente os americanos com ele, conhecido como é o favoritismo de Donald Trump a favor de Erdogan. Numa perspectiva de Quai d'Orsay, não servirá para muita coisa, mas, convocando-o para intermediar num assunto em que qualquer das duas partes tem o intermediário (USA) em muito fraco conceito, chateia-os - aos americanos, claro, não aos turcos - e a diplomacia francesa retira um prazer mesquinho em obrigar O'Brien a mostrar-lhes a sua «muita simpatia». Quanto ao resto... E assim se foi Robert O'Brien, de regresso aos Estados Unidos, sem que nada tivesse acontecido, acompanhado da nossa suspeita de que o plano A das chancelarias europeias a respeito de relações atlânticas é que em Novembro a Casa Branca deve mudar de ocupante; e de que o plano B (Trump por mais 4 anos!) é melhor nem o contemplar...
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19 julho 2020
A ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS DE MOSCOVO
19 de Julho de 1980. A transmissão das cerimónias de abertura dos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980 apanhou-me de cama, doente. Vi-as deitado. Antecipadamente, os jornais haviam publicado o horário das transmissões televisivas (abaixo). Para os leitores mais novos, convém explicar que nessa época nem sempre as transmissões podiam ser recebidas a cores, no caso em que os programas eram oriundos de países que não possuíam sistemas de televisão idênticos ao nosso - como era o caso da União Soviética. Assim, a cerimónia inaugural dos Jogos foi vista a preto e branco em Portugal, o que retirou decerto algum impacto ao que se pôde ver, como acima, aliás, se percebe perfeitamente. O que os jornais não haviam preparado devidamente os telespectadores era para o problema dos quadros informativos estarem redigidos no alfabeto cirílico, os que os tornava incompreensíveis aos ocidentais (mais abaixo).
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OS MARECHAIS DE HITLER
19 de Julho de 1940. Numa cerimónia que se pretendia magnificente mas simultaneamente selecta, e em que a inspiração napoleónica era indisfarçável, Adolf Hitler promovia doze dos oficiais generais que mais se haviam distinguido na Campanha de França ao posto de Marechal de Campo. Na fotografia acima vêmo-lo, acompanhado de Hermann Göring, que na mesma ocasião foi promovido à categoria inédita de Marechal do Reich, posando com os nove novos Marechais do Exército: (da esquerda para a direita) Wilhelm Keitel (1882-1946), Gerd von Rundstedt (1875-1953), Fedor von Bock (1880-1945), Adolf Hitler (1889-1945), Hermann Göring (1893-1946), Walther von Brauchitsch (1881-1948), Wilhelm von Leeb (1876-1956), Wilhelm List (1880-1971), Günther von Kluge (1882-1944), Erwin von Witzleben (1881-1944) e Walther von Reichenau (1884-1942) (explicaram-me que esta ordem era a da antiguidade dos novos marechais no posto precedente, o de coronel-general). Numa outra fotografia (menos conhecida) aparecem os três novos Marechais da Força Aérea: (na mesma ordem) Erhard Milch (1892-1972), Hugo Sperrle (1885-1953), Hitler e Göring uma vez mais e Albert Kesselring (1885-1960) (Sperrle e Kesselring haviam "saltado" o posto de coronel-general).
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18 julho 2020
«IN THE SUMMERTIME»
No Verão de 1970 era este o hit musical, adequado à temporada. As patilhas do vocalista dos Mungo Jerry, exuberantes, em formato sideburn, é que deviam fazer calor in the summertime...
A APROVAÇÃO DA INFALIBILIDADE PAPAL
18 de Julho de 1870. No Concílio do Vaticano, que então se realizava em Roma (gravura acima), a assembleia de prelados e teólogos que o compunha aprovou o dogma da infalibilidade do papa. Numa eleição preparatória, que tivera lugar a 13 de Julho, em que existiram três possibilidades de voto (sim, não e sim, mas condicional) a opção favorável vencera claramente com 75% dos votos (451-88-62) o que fizera com que os adeptos da adopção do dogma avançassem directamente para uma aprovação (ou rejeição...). A votação teve então lugar há precisamente 150 anos e, simbólico de como costumam ser tortuosos os desígnios do Senhor e dos seus servos, todos aqueles que se haviam oposto e haviam mostrado reservas à aprovação da infalibilidade papal parecem ter desaparecido da sala de votações: foi aprovada com 433 votos favoráveis e apenas 2 contrários. Mais de 160 membros não estiveram presentes naquele momento histórico. O papa que convocara o Concílio que o tornara infalível - o dogma aplicava-se retroactivamente... - foi Pio IX (Giovanni Mastai-Ferretti).
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17 julho 2020
O BOEING 474
Ele há episódios tão desastrados de tão repetidos, que o melhor é fazer o mesmo copy&paste que os jornalistas fizeram para deixar aos leitores a possibilidade de reflectir, no fim da imagem abaixo, sobre «a voz que faz a diferença», os «fact-checks» e «a qualidade dos especiais deles». Assine agora.
O INÍCIO DA CONFERÊNCIA DE POTSDAM
17 de Julho de 1945. Começava em Berlim a conferência que reunia os Três Grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial. A questão de como se conseguiu organizar uma conferência de tal amplitude num local onde, ainda três meses antes, se travavam combates encarniçados, foi uma daquelas realizações do socialismo a que os nossos próprios comunistas domésticos, apesar do seu internacionalismo submisso, nunca souberam dar o devido valor. Aqui neste blogue já contei uma parte dessa história colateral dos grandes acontecimentos que fazem a transição do fim da Segunda Guerra Mundial para a Guerra-Fria.
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16 julho 2020
TRUMP ADOPTA A SOLUÇÃO CHINESA
Os jornais publicam com a maior descontracção a notícia conjunta de que ontem se terão registado mais 70 mil casos de infectados nos Estados Unidos e um na China! Um na China?! Mesmo sendo proverbial a estupidez de Donald Trump, ele parece conseguir, nesta circunstância, ser menos ingénuo do que a comunicação social de todo o Mundo, quando aparenta ter descoberto finalmente que a melhor maneira de verdadeiramente se combater a eclosão desta pandemia é através da manipulação da informação - em Pequim decidiu-se que se erradicara o covid-19 em toda a China e bruscamente deixou de haver infectados entre os seus 1.400 milhões habitantes; os que há, vieram «do exterior». Trump diz não gostar da China mas isso não é a mesma coisa do que não gostar dos métodos socialistas dos chineses. Apresentando-se o combate à pandemia como estando descontrolado por aquelas paragens, afigurar-se-á razoável desconfiar que a ideia que estará por detrás desta decisão para que o governo americano passe a ser ele a colectar os dados nos Estados Unidos, só poderá ser a de tentar erradicar assim, à chinesa, o ritmo das infecções. A covid-19 não é um problema, mas três: a) de saúde pública; b) político; c) de informação. Conectam-se mas não se trata da mesma coisa. E aqui trata-se de resolver o segundo à custa do terceiro que o primeiro é a última coisa que interessará a Donald Trump.
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O «MARACANAÇO»
O Brasil organizara o Campeonato Mundial de Futebol de 1950 para o vencer. Construíra-se o maior estádio do Mundo, o Maracanã no Rio de Janeiro, com uma lotação oficial de 155.250 espectadores, para que ele fosse o palco de tal consagração. E, desde o início da competição, a 24 de Junho, tudo parecia estar a correr de feição para os anfitriões, que sempre se haviam considerado uma nação de bons de bola. Bem para o Brasil e mal para alguns dos seus rivais mais exuberantes, como a Itália, que se sagrara bicampeã Mundial em 1934 e 1938, ou a Inglaterra, que, porque inventara o jogo, se julgava dona dele; uma e outra selecções já tinham ido para casa, eliminadas, passear a sua (falta de) categoria. Em contrapartida, a selecção brasileira ia acumulando goleadas. Por uma vez, a fase final para apuramento do campeão foi organizada em esquema de campeonato, em que todos os quatro semifinalistas se encontravam entre si. O Brasil despachara a Suécia por 7-1 e a Espanha por 6-1. Em contraste, o Uruguai, que neste último jogo era a única equipa em condições de roubar o título aos brasileiros, empatara com a Espanha 2-2 e vencera tangencialmente a Suécia por 3-2. Mas, para o fazer, precisava imperativamente de ganhar o jogo; em caso de empate, o Brasil sagrar-se-ia campeão. Com tudo a favorecer, no Rio de Janeiro, por todo o Brasil, era a festa antecipada. Com aquela habilidade bem brasileira de dar um jeitinho e apesar da lotação oficial, os dados oficiais dão uma presença de 199.854 pessoas no estádio do Maracanã nesse dia 16 de Julho de 1950 - há precisamente 70 anos. E depois, foi o jogo, a bola é redonda e jogam onze de cada lado. O Uruguai não deixou o Brasil partir para a goleada, embora os brasileiros ainda tivessem marcado um golo, mas já na segunda parte. Depois, em menos de 15 minutos, os uruguaios deram a volta ao resultado, à frente dos 200 mil brasileiros que tinham lá ido para ver uma coisa completamente diferente.
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O 75º ANIVERSÁRIO DO ENSAIO DO PRIMEIRO ENGENHO NUCLEAR EM ALAMOGORDO
16 de Julho de 1945. Pelas 05H30 da madrugada locais, em Alamogordo no Novo México, tem lugar o ensaio do primeiro engenho nuclear. Ao teste deu-se o nome de código de Trindade (Trinity) e foi um sucesso: o dispositivo detonou como antecipado, tendo a potência da explosão alcançado um efeito equivalente ao de 19 mil toneladas de um explosivo convencional (como o TNT). A partir daí todas as detonações nucleares passaram a ser avaliadas tendo como referência essa escala do efeito destruidor do TNT. Assistiram ao ensaio cerca de 260 pessoas entre cientistas e militares que estavam colocados a não menos de 9 km do local da explosão. Sentiram-se os efeitos desta a mais de 150 km dali e a nuvem em forma de cogumelo (desconhecida até então) atingiu a altitude de 12 km, mas as autoridades haviam forjado de antemão uma explicação associada à detonação por acidente de um enorme paiol de munições. Por outro lado, o local fora também escolhido por causa da ausência de população - a densidade populacional média do estado do Novo México era, à época, de apenas 1,6 habitantes por km². O presidente Harry Truman estava então na Europa, em Berlim, quando foi informado do sucesso do teste. Os Estados Unidos dispunham de mais dois engenhos do género, embora distintos no processo de funcionamento.
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15 julho 2020
O CICLISTA VIRTUOSO
«O primeiro-ministro holandês Mark Rutte não tem pinta para fazer de vilão num daqueles filmes em que o carácter das personagens se topa logo pela cara. Pessoalmente, ele assemelha-se a um daqueles vigários/padres que tomam café em excesso e que andam acelerados a doses elevadas de cafeína, misturando algumas manias inofensivas com sermões repetitivos e chatos sobre a importância de se viver de acordo com os seus próprios meios. Com 53 anos, ele mora sozinho num apartamento modesto em Haia, deixa-se fotografar indo de bicicleta para o seu trabalho (acima) e, uma vez por outra, tira uma folga para realizar acção social, ensinando estudos sociais numa escola local. Tanta virtude não impediu Rutte de ter sido crismado o vilão em Bruxelas, quando a União Europeia se prepara para discutir a criação de um fundo de 750 mil milhões de euros, destinado a estimular as economias que estão a ser afectadas pela pandemia.
É Rutte e o governo holandês que lideram a oposição à implementação desse fundo, que envolve uma combinação de doações no valor de 500 mil milhões de euros e de empréstimos de outros 250 mil milhões de euros, a serem distribuídos pelos países individualmente mas suportados colectivamente pela União, que contrairá dívida em grande escala pela primeira vez. O esquema, ou pelo menos o seu esboço, está a ser apoiado pela França, Alemanha e todos os outros grandes países, enquanto Mark Rutte se assuma como o líder informal de um grupo de países cépticos e renitentes que é constituído pela Suécia, Dinamarca e Áustria, para além da Holanda, que são conhecidos como os "Frugal Four". Numa Cimeira Europeia que se realizará esta semana – a primeira presencial desde o início do surto da covid-19 – o assunto irá estar em cima da mesa. E é necessária alcançar-se a unanimidade para que o plano avance. Vamos ver o que acontece.»
É assim que a The Economist (numa tradução minha muito livre) sumariza o que de importante se apresenta nesta próxima semana europeia. (a fotografia fui também eu que a escolhi e, vindo mesmo a propósito, é demasiado encenada para a minha apreciação: numa Holanda que já assistiu a vários atentados, um primeiro-ministro sem segurança por perto - como a fotografia quer mostrar - é coisa que não existe).
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O CONCURSO PARA A ELEIÇÃO DE MISS PORTUGAL DO DIÁRIO DE LISBOA
15 de Julho de 1930. Cinco dias antes, a surpreendente primeira página do Diário de Lisboa, exibira (acima) uma página de homenagem à beleza feminina, juntando Miss Holanda, Miss Espanha, Miss Turquia e Miss Itália, fazendo-nos lembrar, numa versão muito precoce, um Diário Popular da década de 70 (com Vera Lagoa) ou então um Correio da Manhã da década imediatamente a seguir, dois jornais que, nas suas épocas futuras, se virão a celebrizar pelo jornalismo da beleza feminina. Mas supõe-se que a intenção do jornal fora a de, banalizando aquele género de eventos, preparar os seus leitores para a iniciativa que ele próprio iria patrocinar daí por uns dias.
Pois foi mesmo há precisamente 90 anos que teve lugar a eleição de Miss Portugal, um assunto a que o mesmo jornal dedicou em exclusivo as suas duas páginas centrais. O júri era presidido pelo dr. José de Figueiredo, «director do Museu de Arte Antiga e crítico de arte», e composto pelas ex.mas «sras. D. Palmira Bastos, artista dramática e D. Virgínia Vitorino, professora e escritora, e ainda pelos srs. dr. Joaquim Manso, director do Diário de Lisboa, professor Jorge Colaço, artista pintor, Maximiano Alves, artista escultor, dr. João de Barros, professor e escritor, Martins Barata, artista pintor e jornalista, Pedro Bordallo Pinheiro, do conselho de administração do Diário de Lisboa, secretário da comissão organizadora e Norberto de Araújo, redactor do nosso jornal e secretário do júri.» Foi eleita Miss Portugal 1930 a sra. D. Fernanda Gonçalves, de 22 anos, de Lisboa. Mas, três anos passados, os concursos do mesmo género terão caído tão em graça que os vemos a serem parodiados numa famosa cena do filme «A Canção de Lisboa»...
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14 julho 2020
O DESPACHO DE EMS
13 de Julho de 1870. O rei da Prússia, Guilherme I, já então com 73 anos cumpria uma cura de águas nas termas de Bad Ems, na Alemanha ocidental. Mesmo estando de férias, as questões internacionais tinham de vir ter com ele. E uma das últimas, fora a questão da candidatura de um príncipe alemão ao trono de Espanha, uma candidatura que alarmara a França e o imperador Napoleão III. Vivia-se então ainda, para efeitos de avaliação das questões da ordem internacional, na ilusão que os laços de parentesco existentes entre monarcas eram factores importantes que podiam condicionar as políticas de alianças dos países sobre os quais reinavam, sobrepondo-se mesmo aos interesses estratégicos do país. Toda essa ilusão virá a desaparecer em 1914 quando, o facto de Guilherme II da Alemanha, Jorge V do Reino Unido e Nicolau II da Rússia serem todos primos direitos entre si não conseguir evitar que eles se enfrentem na Grande Guerra, por causa das rivalidades implícitas entre os países onde reinavam. Mas, ainda em 1870, compreende-se a apreensão manifestada por Napoleão III com a perspectiva de se ver rodeado por dois lados, Leste (Prússia) e Sul (Espanha), por dois países encabeçados por monarcas alemães da mesma família.
Aliás, a 13 de Julho de 1870, a ideia (que fora mais acarinhada pelo chanceler Bismarck do que propriamente pelo rei) fora abandonada pela parte alemã: o príncipe Leopoldo desistira da candidatura. Do ponto de vista diplomático, o incidente podia considerar-se encerrado e saldara-se por uma vitória francesa. Foi aí que, de Paris, o Quai d'Orsay se lembrou de forçar a nota e pedir garantias adicionais ao monarca prussiano de que nenhum príncipe alemão se disponibilizaria para ocupar o trono espanhol. É esse pedido, protagonizado pelo embaixador francês na Prússia (o conde Benedetti) e feito de forma assaz informal (a meio de um passeio matinal do rei), que a gravura mais acima retrata. Guilherme I respondeu que havia dado o assunto por encerrado e que nada mais havia a acrescentar. O local está hoje assinalado como se nota na fotografia anexa. O embaixador francês saiu de mãos a abanar, o secretário do rei produziu um relatório do acontecimento que foi depois enviado para Berlim, para conhecimento do chanceler Bismarck. E é essa a razão porque esta evocação é publicada a 14 de Julho e não a 13 (não, não se tratou de um esquecimento meu da data...). Foi só no dia seguinte que Bismarck se debruçou sobre o relatório, e que descobriu nele todo o potencial de queixa que o despacho de Ems continha.
Como um bom editor de jornal, a redacção do despacho que recebera foi cuidadosamente rectificada por si antes de ser distribuída para os jornais. Certas passagens foram retocadas para que a pressão sobre o rei se tornasse mais enfática. Costuma culpar-se Bismarck por ele ter, com este expediente, desencadeado a Guerra Franco-Prussiana. Os factos demonstram que essa disposição para a guerra já existia dos dois lados. Esse mesmo dia 14 de Julho de 1870 em que toda a imprensa berlinense foi acirrada contra os franceses, assistiu em Paris, dia da Queda da Bastilha, a um assomo do patriotismo doméstico, ao apedrejamento da embaixada alemã e à declaração da mobilização pelo conselho de ministros. Nas duas capitais, o sentimento de ultraje não tardou a assemelhar-se. O que Bismarck terá feito foi apenas acelerar uma disposição simétrica daquela que já se vivia nas ruas de Paris. Seguir-se-á a Guerra Franco Prussiana - mas essa é toda uma outra história que aproveitaremos para ir por aqui contando a propósito do seu 150º aniversário... Mas este é um exemplo académico da facilidade como as opiniões publicadas conseguem manipular, por vezes, as opiniões públicas... Ainda outro dia as vimos aqui em Portugal quando das indignações por causa da quarentena dos britânicos.
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13 julho 2020
O CONSELHEIRO DE SEGURANÇA NACIONAL AMERICANO VEM À EUROPA
Desde há cinquenta anos, quando Henry Kissinger ocupou durante quase sete anos esse cargo, que o Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente dos Estados Unidos pode ser um dos cargos mais importantes da Administração. Enfatizou-se que pode ser, porque tudo depende da personalidade do conselheiro e, ainda mais importante, depende da consideração em que ele seja tido pelo presidente. Um exemplo canónico e recente é o de comparar a importância de Condoleezza Rice, que ocupou o cargo sob George W. Bush e que se veio a tornar secretária de Estado sob o mesmo presidente, com a de Stephen Hadley, que lhe sucedeu no cargo sob o mesmo presidente, e que hoje já ninguém sabe quem terá sido. E, nessa perspectiva do que um Conselheiro de Segurança Nacional pode ser, o actual titular do cargo que se chama Robert O'Brien (acima), não tem lá muita sorte. O presidente que ele é suposto aconselhar chama-se Donald Trump e algum significado terá o facto de ser o quarto titular do cargo em três anos e meio de presidência... O panorama é este e, para o que interessa, a notícia é que esta segunda-feira ele está na Europa acompanhado do seu vice Matthew Pottinger para uma ronda de três dias de encontros com os seus homólogos europeus em que o assunto parece ser a adopção de uma estratégia comum a respeito da China. No escalão máximo dos contactos entre chefes de Estado e de governo, os Estados Unidos, por causa de Donald Trump estão queimados. No escalão seguinte, o dos responsáveis pelas diplomacias, os Estados Unidos, porque Mike Pompeo se tem mostrado uma marioneta de Trump, também parecem ter fracassado nos seus propósitos. Esta parece constituir uma terceira leva (e nível) de contactos Europa-América, mais discreta, para que o seu eventual fracasso não se mostre tão ribombante nos circuitos mediáticos. Aguardemos circunspectos os resultados, conscientes que vamos ter que andar à procura das notícias se pouco ou nada resultar dos encontros.
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...E HAVIA AINDA AQUELES QUE HAVIAM DITO QUE O MELHOR SOCIALISMO ERA O DA ALBÂNIA...
13 de Julho de 1990. Em Portugal, a vergonha embaraçada pelo colapso generalizado do socialismo por todo o lado era um privilégio do PCP e dos comunistas, mas não era um exclusivo deles: havia também a UDP e o seu escol de militantes presentes e passados (Acácio Barreiros, Esther Mucznik, António Perez Metelo, José Mariano Gago, Nuno Crato, Jorge Coelho, João Carlos Espada, Henrique Monteiro, José Manuel Fernandes, Mário Tomé, Luís Fazenda) que alardeara como modelo preferível ao soviético o socialismo albanês. Albânia que, como se vê acima, nesta edição de há trinta anos do Diário de Lisboa e numa notícia de primeira página, fazia agora uma triste figura marxista-leninista, como produtora de refugiados que abandonavam o tal de paraíso em levas que a fotografia abaixo tão simbolicamente documenta. É verdade que a esmagadora maioria dos nomes acima mencionados já então se passeavam por outras paragens políticas, mas recordo-me perfeitamente como, já na altura, se percebia que qualquer deles, mesmo os que haviam saído e por muito que então fingissem que já não tinham nada a ver com o assunto, não escapavam a uma carimbadela na testa, pela ingenuidade das suas ingenuidades políticas da juventude.
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12 julho 2020
JOSÉ GOMES FERREIRA - O INTÉRPRETE PATUSCO DE UM NOSTRADAMUS DE TRAZER POR CASA
Esta de José Gomes Ferreira ir recuperar a profecia despeitada de Pedro Passos Coelho de há quatro anos, para lhe procurar arranjar um contexto que a justificasse fez-me lembrar todos aqueles livros que procuram interpretar os escritos de Nostradamus, martelando-os para que os dizeres consigam ter antecipado aquilo que o profeta, no século XVI, já sabia que ia acontecer no século XX e que nós já presenciámos. E contudo, isso é apenas a fase preparatória, porque aquilo que o(s) autor(es) do(s) livro(s) nos quer(em) mesmo impingir é a sua visão sobre o que nos reserva o futuro, normalmente de contornos apocalípticos. Escolhi a capa deste livro de Serge Hutin porque já o tive; li-o e deitei-o fora de tão mau que era. Ao jornal i não precisei de fazer o mesmo porque não o compro. Mas a entrevista de José Gomes Ferreira ao jornal, que me surgiu pelos comentários das redes sociais, despertou-me a comparação, tanto mais que, como se percebe pelas notícias da época (acima) e ao contrário do que José Gomes Ferreira agora quer retocar, Pedro Passos Coelho fez a alusão à chegada do diabo num contexto bem preciso: em antecipação às eleições autárquicas de 2017, que lhe correram bastante mal. A reconstrução de Gomes Ferreira é espúria. Mas confesso que o associar o episódio a Nostradamus também se deve ao teor de como o disparate de José Gomes Ferreira está a ser defendido nas redes sociais: privados de partido (PSD ou CDS), os simpatizantes saudosistas do antigo primeiro-ministro estão a assemelhar-se cada vez mais àqueles incondicionais do esotérico, que constroem um mundo só para si, impermeáveis à argumentação racional.
CARREIRAS PARA A ARMONA
12 de Julho de 1970. Lembro-me que esta queixa, a da sobrelotação dos barcos da carreira de Olhão para a ilha da Armona, era tão tradicional quanto o aparecimento da época balnear. E formulá-la era também muito mais fácil do que corrigi-la, porque ninguém, nem mesmo os mais indignados, teriam coragem de colocar fiscais a contar pessoas e a limitar os embarques, obrigando os veraneantes a esperar pelo menos mais uma hora pelo próximo barco e aturando as suas reclamações. Isso seria a negação da prosperidade da vila. Os navios lá continuariam a navegar por anos e anos, ajoujados e obrigados a manobras mais inspiradas na baixa mar, como se constata por este vídeo de 1977 abaixo, com o saudoso Rio Belo.
Nitidamente, por aqueles dias de Julho de 1970, algum dos membros mais destacados da redacção do Diário de Lisboa estaria a passar férias em Olhão... e, mesmo de férias, não resistia ao bichinho do jornalismo, enviando várias peças com temas locais da vila algarvia, como fosse aquele caso acima da lotação dos barcos da carreira da Armona (e do Farol), o então o do assoreamento da ria ou ainda o do (proverbial) mau cheiro que ali se fazia sentir quando da maré-baixa (abaixo).
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11 julho 2020
A PANDEMIA E O QUE SE NOTÍCIA A SEU RESPEITO
Ao confrontar-me com este cabeçalho do The Guardian, confesso-vos que a minha reacção foi: «só agora?» A Índia é o segundo país mais populoso do Mundo (1.360 milhões de habitantes) e portanto não é surpresa alguma que que a pandemia registe ali um impressionante número de infectados, os 800 mil a que o jornal agora dá destaque; o que é anormal, e disso os jornais deviam dar conta com ainda mais relevo do que os casos da Índia, são os ridículos 80 mil casos que foram até agora registados - oficialmente - na China, China essa que, registe-se, tem uma população superior à indiana (1.400 milhões). Mas estes não são os únicos casos de números oficiais de infectados que são mais do que duvidosos. A atenção mediática tem estado focada nos Estados Unidos (está sempre! - 3,3 milhões de casos para 330 milhões de habitantes) e no Brasil (1,8 milhões em 210 milhões de habitantes) mas ninguém se tem interrogado sobre a razão dos ridículos registos de infectados apresentados por países de grandes dimensões populacionais como a Indonésia (74 mil para 270 milhões de habitantes) ou a Nigéria (31 mil em 205 milhões de habitantes). Eu acredito que entre os leitores do Guardian não haja grande interesse em cuidar do rigor do que está a acontecer na Nigéria e noutras partes do Mundo, mas é perfeitamente dispensável que os seus jornalistas se entusiasmem assim desta maneira ao constatar que o segundo país mais populoso do Mundo registe centenas de milhares de infectados pela covid-19. É da natureza da própria realidade demográfica. A mesma realidade que torna natural que os países mais populosos registem mais casos do que os menos populosos, mas que também torna suspeitosamente pouco natural que países com a mesma dimensão demográfica apresentem números significativamente distintos: se atentarmos acima, a desproporção de infectados entre a China e a Índia é de 10 para 1; isso, se calhar, é que deveria ser o cabeçalho do The Guardian. Seguido de uma investigação das causas do sucesso chinês... Por curiosidade e ainda a respeito de números oficiais ridículos respeitantes à pandemia, acrescente-se que a desproporção de infectados entre Portugal (46.000) e a Grécia (3.700) é de 12 para 1 e com tendência crescente; na Grécia parece que há muito tempo ninguém se infecta. A Grécia deve ser outro caso de sucesso... Adenda: E como tudo o que tem sucesso noticioso acaba sempre por cá chegar, mesmo com atraso, eis abaixo a mesma notícia promovida pela Lusa no dia seguinte:
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