Por assumida curiosidade, fui ouvir o podcast de hoje de José Manuel Fernandes para saber se, depois de cinco anos e depois de ter provocado a exasperação em directo televisivo do embaixador Seixas da Costa, o opinador-que-tem-uma-opinião-ou-várias-sobre-tudo já aprendera finalmente a pronunciar correctamente Mélenchon. Não. E engana-se sempre na sílaba do meio! Depois de trocar discricionariamente a vogal (A ou O, conforme a ocasião, Mélanchon ou Mélonchon), agora deu-lhe para a ablação do N e o esquecimento do tom nasalado da sílaba. José Manuel Fernandes passou a tratar Jean-Luc Mélenchon por MéLÉchon (podemos ouvir o (dis)tratamento na sua pronúncia peculiar, ao minuto 7:24). Havia o ridículo da má pronúncia em 2017. E há o ridículo adicional da má pronúncia se perpetuar em 2022. O episódio é exemplificativo do que é a mediocridade da figura José Manuel Fernandes, e do que é a falta da nossa exigência colectiva para que tais figuras percam o inexplicável protagonismo por que continuam a ser tratadas.
11 abril 2022
O MASSACRE DE CHIOS
Há duzentos anos, a ilha de Chios (842 km²), situada no Mar Egeu, pertencia ao império otomano (turco), embora a ilha fosse povoada (cerca de 80 a 100.000 habitantes) quase exclusivamente por gregos (cristãos ortodoxos). Chios, cuja área era apenas ligeiramente maior do que a Madeira e com uma população comparável (à época), era uma das mais prósperas comunidades insulares do Egeu. E a ilha passou a ser disputada no quadro da guerra de independência grega. A 22 de Março de 1822, um destacamento de 2.500 rebeldes gregos desembarcara em Chios, cercando a guarnição otomana na fortaleza da capital. Mas a 11 de Abril de 1822, há precisamente 200 anos, os otomanos procederam a um contra-desembarque (repare-se como Chios se situa perto das costas da Anatólia). Os 46 navios e 7.000 soldados otomanos - posteriormente reforçados com mais 30.000 - vinham com uma missão de retaliação e uma política de terra queimada. Nos meses que se seguiram, Chios foi deliberadamente despovoada. A dimensão do massacre de Chios é incerta, mas as estimativas mais comuns apontam para que 25.000 habitantes da ilha foram mortos, 45.000 foram capturados e reduzidos à escravatura, e só uns 10 a 20.000 é que terão conseguido fugir. No final, terão subsistido apenas uns 20.000 habitantes. O episódio causou um grande impacto - negativo - por toda a Europa. Tanto que em 1824 o pintor francês Eugène Delacroix assinava este quadro abaixo, intitulado precisamente o Massacre de Chios. Chios nunca recuperou plenamente da hecatombe: a ilha tem actualmente 54.000 habitantes, ou seja, um pouco mais de metade da população que tivera há duzentos anos. E, como se costuma escrever no rodapé do final dos filmes, qualquer associação desta minha evocação com o comportamento assumido recentemente pelas tropas russas na Ucrânia terá sido uma mera coincidência.
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10 abril 2022
COMO É QUE O GAJO SE CHAMA MESMO?
Hoje, porque há a primeira volta das eleições presidenciais francesas, e porque Francisco Seixas da Costa e José Manuel Fernandes vão, mais uma vez, aparecer em algum canal de televisão a dizer coisas a respeito, republico este grande momento televisivo de há cinco anos. As eleições também se podem tornar momentos repetidamente coreografados da mesma maneira. Para mim, é uma evidência que, perante esta conjuntura instável, Macron será necessariamente reeleito. Contudo, para a comunicação social admitir isso seria perder audiências, influência e receitas. Mas aproveitem para se rir da história.
Isto até parece mal estar para aqui a contar uma história em que um dos protagonistas até é autor de um blogue que se especializou nelas, nas histórias. Mas o que as histórias de Francisco Seixas da Costa têm de característico (pois é dele que estou a falar), é que têm um estilo diplomático, vício de forma profissional. E nesse estilo, a história que aqui quero contar perde a piada, pois a identidade da pessoa que com ele vai contracenar é importante para que se extraia todo o ridículo da cena. E a cena é até por sinal, assaz pública, decorre num estúdio de televisão de um canal que já não posso precisar qual foi, mas foi em directo, que o tema em debate nessa noite de Abril de 2017 era a primeira volta das próximas eleições presidenciais francesas. Presentes, como convidados, o já referido Francisco Seixas da Costa, um habitué naquelas andanças comentadoras, presença neste caso (bem) sustentada pelo facto de ter sido embaixador em França entre 2009 e 2013. Presença muito menos sustentada, a não ser pelo exercício do usucapião, era a de José Manuel Fernandes, que está lá sempre. Variando o tema do cocó à bomba atómica (na inesquecível expressão de Jô Soares), o publisher do Observador é considerado pessoa possuidora de opinião válida sobre tudo. Para mim, essa reputação trata-se de um dos grandes mistérios da comunicação social portuguesa, mas, como diria a Teresa Guilherme, isso agora não interessa nada. O que interessa é que, nessa celebrada noite de análise política sobre os vários candidatos presidenciais franceses, se notava uma acentuada implicância de José Manuel Fernandes com o nome do candidato da esquerda maçónica Jean-Luc Mélenchon. Umas vezes ele era tratado por Mélanchon, quiçá por parecença com o nome de Melâncton, reformador religioso alemão do século XVI, que aquela coisa de José Manuel Fernandes andar a conviver assiduamente com dois depositários de cultura erudita como Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto, pode acabar por ser contagioso. Outras vezes, o mesmo candidato era tratado por José Manuel Fernandes pelo nome de Mélonchon, no que podia passar por ser uma corruptela mais prosaica e vegetal de melocotón, a palavra espanhola para pêssego. Do outro lado da mesa, a expressão de Francisco Seixas da Costa cada vez menos conseguia esconder aquilo que lhe ia na alma em consequência das diatribes do seu companheiro de programa, que nem o nome do candidato das esquerdas das suas antipatias (das antipatias de Fernandes, entenda-se) sabia pronunciar correctamente. Até que não se conteve: e, por muito diplomata profissional que ele tivesse sido habituado a ser, ao tropeçar da enésima menção distorcida do nome do candidato da França Insubmissa, insubmeteu-se ele também e, interrompendo-o, corrigiu a calinada do orador de uma forma ao mesmo tempo ácida, sibilina, impaciente e saturada: Mélenchon! É sempre digno de nota ver um diplomata perder a compostura, especialmente se for para ver alguém de dentro expor em que alicerces assentam os predicados de um dos maiores expoentes do comentarismo televisivo doméstico.
A SEGUNDA VOLTA DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS ALEMÃS DE 1932
10 de Abril de 1932. Na segunda volta das eleições presidenciais alemãs, o presidente Paul von Hindenburg, já então com 84 anos, é reeleito. Mas a verdadeira notícia são as circunstâncias desta sua reeleição, nomeadamente o resultado alcançado por Adolf Hitler e pela extrema-direita nazi, assim como também o facto de como os comunistas, mantendo a sua candidatura (Ernst Thälmann), não se solidarizam com as Democracias nos momentos cruciais, por muito sérias que sejam as ameaças vindas do outro extremo do espectro político. À direita do quadro dos resultados das duas eleições, exibe-se o boletim de voto que foi utilizado para esta segunda volta. Registe-se a curiosidade entre um Paul von Hindenburg que é dado como «Presidente e Marechal, residente em Berlim» e um Ernst Thälmann «trabalhador dos transportes, de Hamburgo», aparece um Adolf Hitler (que era um político profissional e austríaco de origem), que é dado como «funcionário municipal de Brunsvique» (cidade da Baixa Saxónia), mas residente em «Munique» (capital da Baviera, a cerca de 500 km de distância). Na verdade, Adolf Hitler, só se tornara funcionário municipal daquela cidade em 25 de Fevereiro de 1932 e isso porque a admissão no cargo implicava a sua naturalização imediata como cidadão alemão, o que era indispensável para que concorresse à presidência da República da... Alemanha. Claro que o «novo» funcionário entrou de imediato de férias... prolongadas - porque na Alemanha não havia aquela figura generosa (e tão típica da preguiça dos países da Europa meridional) da «licença sem vencimento». Mas, como se vê, há quem na Alemanha goze férias verdadeiramente intermináveis. A verdade é que os escândalos na Alemanha só não existem, porque os alemães têm aquela habilidade de fingir que não dão por eles.
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09 abril 2022
...PODIA-NOS TER AVISADO NA ALTURA
Quando Jorge Almeida Fernandes resolveu principiar o seu texto de análise de hoje com a opinião que «Pela primeira vez as hipóteses de Marine Le Pen vencer as presidenciais francesas não são nulas.» (acima à esquerda) apeteceu-me dizer-lhe que ele nos podia ter já dito isso antes, nas eleições anteriores de Abril de 2017, que considerava que as hipóteses de Marine Le Pen eram então «nulas». Mas não disse. O que ele disse é que havia um «confronto entre a linha europeísta de Macron e o encerramento da França sobre si mesma, de Le Pen». Contudo, o que se descobre cinco anos passados é que, na sua opinião, este último «encerramento» não teria então hipótese alguma de vencer as eleições presidenciais francesas. E sendo assim, e por muito que ele escrevesse coisas avulsas a respeito, o desfecho de tais eleições estaria selado para Jorge Almeida Fernandes. Obviamente que isso teria estragado o efeito de captação da atenção que está sempre por detrás do que qualquer jornalista escreve. Mesmo em jornalismo de opinião, mesmo expresso por veteranos que se querem respeitados, como Jorge Almeida Fernandes, o jornalismo impõe-se à opinião. Ora, para além dos factos, quando estou interessado em opiniões, estou interessado nelas e não no fru-fru que se possa engendrar à volta dos assuntos.
AS «MINHAS PRIMEIRAS» ELEIÇÕES BRITÂNICAS
9 de Abril de 1992. Eleições gerais no Reino Unido. Porém a efeméride que eu quero assinalar não são as eleições propriamente ditas, mas o facto de, por causa da novidade que então constituíam as antenas parabólicas colectivas dos prédios, terem sido as primeiras eleições gerais estrangeiras que eu acompanhei directamente, sem necessidade de explicador. O canal - via satélite - era o Sky News, cujo genérico - da época! - se pode apreciar acima. E, para mim, o acompanhamento da noite do escrutínio foi também a da descoberta de todo um ritual novo, a começar pelo anúncio do vencedor da eleição em cada um dos 651 círculos eleitorais. Claro que a transmissão se concentrava naqueles considerados mais prováveis de acontecer alguma coisa. E recordo-me perfeitamente que um círculo em que aconteceu alguma coisa foi o de Bath, no sudoeste de Inglaterra, onde Chris Patten, uma das estrelas em ascensão dos tories, perdeu a eleição para um desconhecido candidato dos liberais-democratas chamado Don Foster. Chris Patten representava Bath no parlamento desde 1979, ganhara as três eleições precedentes (1979, 1983 e 1987) e o que recordo da sua expressão no momento da proclamação dos resultados é que não estava nada à espera de perder a de há 30 anos. Esta fotografia abaixo, da gettyimages, em que o vemos a pronunciar o discurso de aceitação da derrota - enquanto fala, o candidato vencedor aparece à direita - não lhe faz a devida justiça sobre a expressão agoniada de que me lembro. A ironia deste episódio é a sua continuação: como, apesar de tudo e contra as sondagens, os tories ganharam, tiveram que arranjar um cargo para Chris Patten* - o de governador de Hong Kong. O último governador de Hong Kong (1992-97) antes da transferência da soberania daquele território para a China. E, como é tradição britânica, cada vez que eles têm de retirar de algum lado (onde a retirada de Dunquerque é apenas um exemplo mais conhecido do fenómeno), transformam esses episódios em epopeias gloriosas. Em cinco anos Chris Patten deu a volta desde uma humilhante derrota em Bath até uma saída com todos os predicados em Hong Kong. Mas tudo isso estava eu bem longe de imaginar quando assistia às sucessivas proclamações dos círculos nas eleições britânicas de há 30 anos.
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08 abril 2022
A CRÓNICA MUNDANA DA VIAGEM INAUGURAL DO PAQUETE «VERA CRUZ»
8 de Abril de 1952. Numa crónica extensa, mas ligeira, o Diário de Lisboa dá conta do que não acontece a bordo do paquete Vera Cruz nas primeiras duas semanas da sua viagem inaugural para o Brasil. Num estilo que actualmente reconheceríamos em revistas de mundanidades como a Caras ou a Gente, o jornalista destacado para o cruzeiro (Norberto Lopes) vai dando conta, não do que aconteceu (já que não aconteceu nada), mas de quem lá está: «Caras conhecidas do Chiado», caras essas que hoje ninguém fará a mínima ideia de quem foram, apenas com uma meia dúzia de excepções: Aquilino Ribeiro e os açorianos Vitorino Nemésio e Natália Correia (escritores), Hermínia Silva (fadista), Orlando Ribeiro (geógrafo) ou o venerando - 83 anos! - almirante Gago Coutinho que vemos na fotografia abaixo* na ponte do Vera Cruz, acompanhado do armador e do capitão do navio. Em contraste, perdeu-se a memória da «distinção natural» da D. Hermínia Cantilo de Faria, «embaixatriz de Portugal no Brasil», do «perfil florentino» da viscondessa de Botelho, d«a linda cabeça romântica» da sra. de Amador e Pinho, d«a exuberância verbal (de uma metralhadora)» do ex-ministro Daniel Barbosa ou d«o aprumo marialva» de D. Diogo Francisco d'Affonseca Passanha.
* extraída do livro paquetes portugueses de Luís Miguel Correia.
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«É PRECISO RESPEITAR A VONTADE POPULAR»
8 de Abril de 1962. Para solução da questão da guerra da Argélia e para além da assinatura dos Acordos de Évian, o presidente de Gaulle quis consolidar aquela solução política com um referendo ao povo francês, um acto eleitoral que foi organizado em tempo record: três semanas. E que teve lugar há 60 anos. Fosse qual fosse a maneira como se quisessem interpretar os resultados, quando 17,5 milhões de franceses - em 29 milhões que o podiam fazer - se pronunciam favoravelmente à solução alcançada, os radicais, por muito militantes e empenhados que sejam, deixam de ter alguma coisa para argumentar. A vontade expressa de todos os franceses em eleições livres tem de ser um argumento político definitivo. A dos portugueses, também. Uma das palavras de ordem do PREC foi: «É preciso respeitar a vontade popular!». Mas recordo-me que os comunas e aparentados nunca gostaram dela e nunca a usaram nas suas manifestações - compreende-se porquê.
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07 abril 2022
O FANTASMA DE ÁLVARO CUNHAL E A QUESTÃO DO QUE COMBINA BEM COM OS ÓCULOS ESCUROS
Há quarenta anos o regime militar polaco, resultante da imposição da Lei Marcial naquele país em 13 de Dezembro de 1981, estava diplomaticamente isolado no que aos países ocidentais dizia respeito. E quem é a carinha laroca que os comunistas se lembram de ir desencantar para dar uma aparência contrária a isso? Álvaro Cunhal que, como se lê na notícia acima, era «o primeiro secretário-geral de um partido comunista da Europa ocidental» a «avistar-se» com os óculos escuros do general Jaruzelski, o rosto sombrio da ditadura militar polaca. Mesmo não sendo comunista (o que é uma opção política), mas apenas como português (que isso, já não é opção), assaltava-me a vergonha alheia ao ver a secção portuguesa do movimento comunista internacional dar mostras de tal servilismo perante interesses que, na mais benigna das hipóteses, nos eram alheios - mas que, sobretudo, eram descaradamente contrários a tudo o que o PCP pregava por cá. Enfim, comunismo e ética eram (e continuam a ser) antónimos. Quarenta anos passados, vê-se o quanto o fantasma de Álvaro Cunhal está vivo no seu seguidismo de Moscovo, assombrando ainda hoje a sede do PCP, na Soeiro Pereira Gomes. O que mudou foram as circunstâncias em que se usam óculos escuros. Passou-se da farda de Pinochet, para o fato e gravata de Jaruzelski, para o tronco nu de Putin!
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OS LAPSOS DE TODOS OS MÁRIOS
7 de Abril de 1942. Em vez das efemérides que normalmente aqui se evocam, deparei-me com esta pequeníssima notícia de canto inferior esquerdo de página em que se pode chegar a pensar tratar-se de uma brincadeira de 1º de Abril, não viesse ela com seis dias de atraso: agradece-se a Mário CONDE a chamada de atenção pelo publicação do nome Mário DUQUE, «quando deveria ser Mário ROQUE». Tudo doutores, evidentemente...
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06 abril 2022
«WOULD YOU BUY A USED CAR FROM THIS MAN?»
6 de Abril de 2002. José Manuel Durão Barroso toma posse como primeiro-ministro do XV governo constitucional. Acompanha a sua chegada ao poder, a sensação que, mais do que o mérito de derrubar um governo, é a circunstância de se estar na liderança da oposição no momento certo que se torna decisiva para ali estar naquela cerimónia. Acompanhará o seu abandono do poder, dali por dois anos quando for presidir à comissão europeia em Bruxelas, a sensação que se estava a marimbar para os problemas dos portugueses. Acompanhará o seu desempenho dessa função europeia, a sensação que a sua presença naquele cargo nos foi indiferente quando mais precisámos da solidariedade europeia. E acompanhará a sua cessação de funções em Bruxelas, a sensação que as suas conexões ao mundo do tráfico de influências o tornam pessoa pouco recomendável. Nesta altura, nem já mesmo os do seu lado o defendiam. Enfim, alguém que deixa um percurso repleto de sensações sem a sensação de ser sensacional. Com a clarividência dos 20 anos entretanto transcorridos, bem se pode dizer que os militantes do PSD bem poderiam ter escolhido um outro dirigente para o seu partido no seu XXII congresso de 1999, que a presença desta escolha deles nesta tomada de posse de há 20 anos de pouco serviu aos portugueses.
O INÍCIO DA GUERRA DA BÓSNIA
6 de Abril de 1992. Início da Guerra da Bósnia, um conflito que se irá arrastar por três anos e meio envolvendo três beligerantes combatendo-se entre si - Bósnios (muçulmanos), Sérvios (cristãos ortodoxos) e Croatas (cristãos católicos). As referências religiosas são muito importantes para a identidade de cada grupo já que todos eles se exprimem num idioma mutuamente inteligível. O vídeo acima mostra a evolução das frentes de batalha. Há alguns aspectos semelhantes entre este conflito e a invasão russa da Ucrânia.
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05 abril 2022
A REVOLTA DA TERRANOVA
5 de Abril de 1932. Mesmo não querendo estragar o enredo desta história, aconselharia o leitor a visitar um poste que aqui publiquei em 2009 sobre a História da Terranova - A Independência que Descambou num Fiasco… Os acontecimentos de há noventa anos foram uma das fases principais daquele Fiasco. Na tarde de 5 de abril, uma grande multidão de manifestantes reuniu-se para uma marcha planeada para o Edifício Colonial, a sede do parlamente. Começando com 2.000 pessoas, o protesto acabou ganhando outras 1.500 enquanto marchavam. Diante do edifício, os líderes da manifestação apresentaram uma petição exigindo uma nova investigação oficial às acusações existentes de corrupção contra o primeiro-ministro Richard Squires. Durante a espera, alguns manifestantes começaram a tentar arrombar as portas. Quando as portas finalmente foram arrombadas, os manifestantes começaram a entrar no prédio e a polícia ripostou com bastões, defendo o edifício. Em resposta, os manifestantes começaram a atirar objectos pelas janelas, quebrando a maioria das janelas do prédio. Houve também tentativas de fogo posto. O primeiro-ministro acabou por sair do prédio ao fim da tarde, rodeado por guarda-costas, mas foi identificado pela multidão, o que o forçou a ter de se refugiar numa residência particular próxima. Por fim, Squires escapou com sucesso pelas traseiras da casa onde se refugiara, quando já fora demitido entretanto pelo governador John Middleton. Ironicamente, fora Middleton o responsável pelo inquérito que absolvera Squires das acusações de corrupção e que, por sua vez, provocara a manifestação indignada que o depusera. A notícia de uma revolução de cariz quase bolchevique num país de cultura britânica fazia sensação, mas quando se lê a notícia do Diário de Lisboa percebe-se que ela passa completamente ao lado do que era importante e sobre o que causara os acontecimentos.
04 abril 2022
PAZ A SÉRIO EM ANGOLA
4 de Abril de 2002. Há precisamente vinte anos assinava-se um acordo de cessar-fogo em Angola. Na altura, não se pode dizer que fosse uma notícia, a História breve da Angola independente já estava cheia de acordos de paz (fotos abaixo) que haviam ficado por cumprir. Notícias a respeito haviam-se desvalorizado como os kwanzas, a moeda local. Mas este acordo, sabemos agora, veio a ser a sério. O que havia mudado: seis semanas antes desta assinatura Jonas Savimbi, o líder da UNITA, fora abatido pelas forças governamentais no mato onde se refugiara para prosseguir a guerrilha. Os factos vieram demonstrar que ele era pessoalmente o obstáculo para a paz. Ficou para a parte contrária, a de José Eduardo dos Santos, a demonstração da colossal hipocrisia das elites angolanas: durante 27 anos a guerra civil (1975-2002) fora o motivo invocado para justificar as condições deploráveis em que viviam a esmagadora maioria dos angolanos, apesar da riqueza intrínseca do seu país. 20 anos entretanto passados depois da obtenção da paz e nada a esse respeito se alterou, a não ser que os ricos se tornaram ainda mais ricos... E isso porque o MPLA que tem estado no poder é um partido que se tinha/tem reclamado do marxismo; imagine-se se fosse capitalista...
O PRINCÍPIO KÁTIA AVEIRO
Como se constata, por esta notícia de há precisamente cem anos, já naquele tempo o jornalismo recorria ao expediente de, à falta do verdadeiro artista (no caso, o aviador Sacadura Cabral, por paragens de Cabo Verde), ir buscar alguém próximo da família para dizer umas coisas. Em linguagem moderna será aquilo que poderemos designar por princípio Kátia Aveiro, por analogia com a irmã de Cristiano Ronaldo que, não jogando à bola, mesmo assim dá umas entrevistas. Parece que as pessoas gostavam do recurso a ir ouvir o substituto do original à falta de melhor, e continuam a gostar - é uma solução consagrada por um século de prática.
PS - Em contraste e como exemplo oposto, nunca se soube quem são os irmãos do Marcelo, que os tem (dois), porque o Marcelo está sempre disponível para dizer coisas. Nunca se dá pela falta dele, nunca dá oportunidade aos outros deixando saudades!
03 abril 2022
DA «PROVOCAÇÃO» QUE CONSTITUIRIA A RECONDUÇÃO DE BRANDÃO RODRIGUES AO «ESCÂNDALO» QUE CONSTITUIRÁ A PERPETUAÇÃO DE MÁRIO NOGUEIRA
Comecemos por recordar que, em 2019, Mário Nogueira, havia garantido que só iria ficar mais três anos como sindicalista. É uma actividade que o tem projectado na comunicação social desde há 32 anos, já que foi no longínquo ano de 1990 a última vez que ele entrou numa sala de aulas para fazer o mesmo que os colegas que representa: terá sido na Escola Básica da Pedrulha, Coimbra, não garanto é que valha a pena ir lá perguntar por ele. E, por outro lado, recordemos o desplante como, recentemente, o mesmo Mário Nogueira considerou a eventual recondução de Tiago Brandão Rodrigues uma provocação. Brandão Rodrigues foi o 15º(!) ministro da Educação com que Nogueira se confrontou e, a comparar com os seus 32 anos de traquejo a emerdar qualquer reforma para o sector, o mandato do ministro durou apenas a bagatela de 6 anos e meio. Mas o que me leva a desconfiar que, como antecipava, Mário Nogueira se vai esquecer do que prometera em 2019 é esta animação que lhe vejo nestas notícias abaixo, «em Coimbra», «os sindicatos de professores continuam a ser contra o processo» (mas, quando é que alguma vez os sindicatos de professores foram a favor de algum processo? Este ou outro?...) A coincidência disto é da evocação mais uma vez de Coimbra, depois da história da tal Escola da Pedrulha onde Nogueira é efectivo, sem nunca lá ter trabalhado nestes últimos 30 anos. Desconfio que, ao contrário do fado, Coimbra não vai ter mais encanto na hora da despedida, porque Mário Nogueira é muito bem capaz de arranjar uma desculpa para não se despedir ainda desta vez...
O SECRETÁRIO-GERAL DO PARTIDO COMUNISTA
3 de Abril de 1922. Num acontecimento que, na época em que ocorreu, era para ser levado apenas como um pormenor de organização administrativa dos bolcheviques, mas que depois viria a ter repercussões à escala mundial, José Staline era nomeado secretário-geral do partido comunista.
02 abril 2022
O INÍCIO DA GUERRA DAS MALVINAS
2 de Abril de 1982. Há 40 anos os soldados argentinos realizavam o seu desembarque nas Malvinas, desencadeando uma guerra que começava logo pela designação do local pelo qual se combateria. Por isso mesmo, estes dois livros nunca me iludiram sobre qual a perspectiva que pretendiam dar do confronto. O que apenas dá mais valor a uma conclusão que contêm: que a guerra nasceu de erros de interpretação das duas partes (argentina e britânica) quanto às intenções recíprocas. Em Londres não se sentiu necessidade de, diplomaticamente, se ser suficientemente enfático para desencorajar esta jogada de Buenos Aires, e nesta última capital interpretou-se essa ausência de enfâse como uma previsível tolerância à política do facto consumado que se preparavam para desencadear. Nenhum dos dois equacionou o que era a política interna do futuro adversário e enganaram-se ambos: Galtieri e Thatcher. Não se esqueça que esta só se redimiu porque ganhou a guerra. Esclareça-se que, para além dos dois abaixo, existe uma verdadeira biblioteca de livros publicados sobre o conflito, tanto em castelhano como em inglês. Mas, de entre estes dois que li, talvez o de Martin Middlebrook seja o mais interessante pela sua tentativa de ver o conflito do lado que não foi o seu.
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01 abril 2022
DE 18 MINUTOS PARA 8 HORAS DE SILÊNCIO, MAS SEM ESCANDALIZAR...
Um dos episódios mais famosos, mas também mais constrangedores, do Caso Watergate foi quando uma das gravações das conversas do presidente Nixon apareceu com um hiato de 18 minutos e meio que fora apagado... Avançou uma das secretárias a admitir que a responsabilidade fora sua, por inadvertência. Claro que ninguém acreditou, tanto mais que o trecho apagado correspondia a uma das conversas mais delicadas de Nixon com os seus assessores. Por delicadeza para com a senhora, ninguém a quis humilhar ainda mais com a investigação de quantas vezes já ocorrera o mesmo erro que ela admitira ter feito... Mas, mesmo sem isso, os 18 minutos e meio de silêncio foram considerados uma evidente prova de culpa. Que dizer então do hiato de 8 horas das comunicações da Casa Branca para os quais não se encontram registos? O dia, claro, é o de 6 de Janeiro de 2021, quando o edifício do Capitólio foi assaltado por uma turba de manifestantes que queria bloquear a cerimónia de proclamação dos resultados da eleição presidencial. É nestas ocasiões que, conhecendo as referências (no caso, a do caso Watergate), que se percebe o quanto é a opinião publicada que encena as reacções às notícias. Uma comissão parlamentar não consegue saber como é que o então presidente se comportou perante aquela situação única da História da América e nos media ninguém se parece incomodar por aí além?... E nem sequer consegue identificar quem terá perdido os registos das chamadas feitas da e para a Casa Branca nesse dia?...
A TRANSMISSÃO DA «TRADICIONAL» REGATA, CUJA TRADIÇÃO ERA APENAS INGLESA
1 de Abril de 1972, Sábado de Aleluia. A televisão prometia-nos, a partir das 15:10, «a transmissão directa do Tamisa da tradicional regata Oxford-Cambridge». Ao contrário do Hóquei em Patins (cuja transmissão se seguiria), Portugal era um país que não tinha qualquer tradição em Remo. Nem teria um número significativo de apreciadores da modalidade. Aliás, a esmagadora maioria dos portugueses não compreendia sequer o significado da rivalidade entre Oxford e Cambridge. E, contudo, por uma atitude que se poderia interpretar por um novo-riquismo comprometido, e porque a Eurovisão difundia o que era uma tradição (mas inglesa), a RTP também transmitia. Como hoje acontece com o Halloween ou o dia de São Valentim era uma daquelas tradições alheias a ver se se tradicionalizava por cá. Não calhou. Mas foi só a partir de 1976 que a RTP se deixou destas transmissões directas, que, como as corridas de Ascot, ou um jogo de críquete, são só para inglês ver - literalmente. Para aqueles que tiverem curiosidade em saber o desfecho da regata de há 50 anos, esclareça-se que Cambridge bateu Oxford pela 66ª vez, por 9 comprimentos e meio, numa corrida qualificada pelos próprios especialistas como chata.
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