Há mais de trinta anos, ouvi ao meu então amigo Luís Lopes esta (para mim) inesquecível definição de estupidez, que ele procurava tornar o mais eufemística possível consideradas as circunstâncias em que ele estava a qualificar o estúpido. «Chegar atrasado aos problemas» tornou-se-me assim o padrão de uma estupidez tão colossal que descrevê-la com rigor é injuriosa, o que nos obriga à contenção. Ver alguém espetar uma citação de Charles de Gaulle no cabeçalho da sua página social, fazê-lo em inglês, e não se aperceber sequer do ridículo, é de alguém que chega muuuuuito atrasado aos problemas...
14 fevereiro 2022
13 fevereiro 2022
VLADIMIR PUTIN NÃO É DE CONFIANÇA
Ainda a propósito de Vladimir Putin (poste anterior), repare-se como, para além dos norte-americanos e das consequências da sua propaganda entre a sua própria opinião publicada, também entre os europeus se estabeleceu a imagem que Vladimir Putin é um f*** da p***, em quem não se pode ter a mínima confiança, a ponto de os seus dirigentes - os dos países da Europa ocidental - se utilizarem do expediente de exprimirem publicamente a sua antipatia por Putin, para ganharem pontos entre as suas opiniões publicadas domésticas. Aqui há dois anos e meio, por ocasião da cimeira dos G20 de Osaka em Junho de 2019, a primeira-ministra britânica Theresa May tirou a fotografia protocolar com o presidente russo exibindo a expressão desagradada que a imagem acima documenta, depois de o ter «instado» a «parar com os seus actos de desestabilização». (sendo estes os «actos de desestabilização») Agora, e ainda há um punhado de dias foi a vez do presidente francês Emmanuel Macron protagonizar uma visita de mediação, para negociar «até ao fundo das questões» com Putin, a crise ucraniana. Claro que é tudo treta: recorde-se que as eleições presidenciais francesas serão já em Abril deste ano, daqui por dois meses, e uma iniciativa destas cai sempre bem entre os franceses, assim como cai sempre bem entre os franceses dar mostras de iniciativas próprias desalinhadas das da política externa dos Estados Unidos. Mas o mais interessante da iniciativa não foi o desfecho - Macron veio de Moscovo de mãos a abanar, como seria de esperar - mas a fotografia do encontro entre os dois presidentes, de onde, se tiver sido para valer, devem ter saído ambos roucos, de tanto berrarem... Como as trombas de Theresa May, o comprimento da mesa de negociações foi um dos poucos tópicos aproveitáveis da visita. A explicação é de uma frontalidade desarmante, tanto mais por que prestada pela diplomacia francesa, e porque em termos diplomáticos e a este nível, uma tal frontalidade é para ser considerada um insulto: Emmanuel Macron recusou-se a fazer um teste à covid-19 feito pelos russos, alegando receios que os russos depois se aproveitassem do DNA contido no esfregaço para qualquer fim menos confessável, é o que se pode ler na explicação prestada pelos franceses à Reuters. Trata-se, paradoxal e simultaneamente, de uma profissão de confiança nas capacidades técnicas do pessoal do KGB mas também de desconfiança nas suas intenções.
ALGUÉM (2)...
...que eu não consigo nomear, mas a quem me tenho referido com uma irritante regularidade neste blogue, finalmente, ao fim de semana e meia - e vamos a ver se consigo descrever o que aconteceu de uma maneira perceptível - parece ter corrigido a formatação deste blogue, que ele próprio já havia escangalhado por duas vezes nestes últimos meses. Fosse eu pessoa para me aproveitar destes episódios para me arrogar de uma importância que os meus escritos não têm e abalançar-me-ia para especulações: - Isto são coisas do Putin!!! (que eu até sou lido na Rússia...)
HISTÓRIAS DE SINGAPURA, MAS DAS MENOS CONHECIDAS
13 de Fevereiro de 1972. Num episódio bizarro, os quatro membros da banda rock «Led Zeppelin» são proibidos pelas autoridades locais de desembarcar do seu avião particular (acima) no aeroporto de Singapura. A explicação, que deu a volta a um Mundo estupefacto, foi que usavam o cabelo demasiado comprido. Parecia uma brincadeira, mas o concerto marcado para o dia seguinte teve que ser cancelado. E no mês seguinte, algo de semelhante aconteceu com os «Bee Gees». Depois foi com Cliff Richard. Enfim, são aquelas pequenas histórias que, mesmo com 50 anos, continuam a não ser oportunas de relembrar se emparelhadas com as alusões à excelência do liberalismo - económico... - de Singapura. Que há cinquenta anos já era uma sociedade muito avançada... mas só para pessoas de cabelo cortado. (Há quem hoje a considere - e eu tendo a concordar - uma distopia real)
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12 fevereiro 2022
O INÍCIO DO JULGAMENTO DE SLOBODAN MILOSĚVIĆ
Haia, Países Baixos, 12 de Fevereiro de 2002. Início do julgamento de Slobodan Milošević. O antigo presidente da Sérvia e da Jugoslávia e réu comparece em tribunal acusado de: genocídio; cumplicidade em genocídio; deportação; assassinato; perseguições por motivos políticos, raciais e religiosos; actos desumanos e transferência forçada; extermínio; prisão; tortura; assassinato intencional; confinamento ilegal; causador intencional de grande sofrimento; deportação ou transferência ilegal; destruição extensa e apropriação de propriedade, não justificada por qualquer necessidade militar e realizada de forma ilegal e arbitrária; tratamento cruel; saque de propriedade pública e/ou privada; ataques a civis; destruição ou dano intencional a monumentos históricos e instituições dedicadas à educação ou religião; ataques ilegais a bens civis. A acusação desenrolar-se-á de acordo com a extensão de todas estas acusações que acima se podem ler e, como se imagina, tomará dois anos a concluir-se, depois do tribunal ouvir 295 testemunhas e de terem sido apresentadas mais de 5.000 provas. Por um princípio de equilíbrio, foi concedida à defesa um período de tempo idêntico para a sua tarefa. Não surpreende por isso saber que, mais de quatro anos depois, a 11 de Março de 2006, e quando ainda decorria o julgamento, o tribunal foi surpreendido pela morte súbita do réu, de ataque cardíaco. Foi um completo anti-clímax. Tantos cuidados se puseram no formalismo do funcionamento do tribunal que se perdeu completamente de vista a sua funcionalidade e o o objectivo do julgamento. Os factos haviam ocorrido primordialmente com a dissolução da Jugoslávia, que ocorrera em 1991, ou seja 15 anos antes... Uma efeméride para constatar que não é só por cá que este fenómeno acontece, nos casos de José Sócrates, Ricardo Salgado, etc., que, quando forem julgados, já as pessoas se esqueceram do porquê.
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PÊ CÊ: QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ!
12 de Fevereiro de 1982. Depois de um ensaio geral três semanas antes, em que movimentara todos os sindicatos dos transportes dos centros urbanos para a greve, greve essa que, pelas suas características, bloqueasse as deslocações das pessoas para os empregos, os comunistas, através da CGTP, avançam finalmente para uma assumida greve geral contra o governo da direita. Tratava-se de uma indisfarçável demonstração de força política, embora por interposta entidade sindical, comprovada pela página inteira de publicidade comprada acima pela CGTP no (simpático para si) Diário de Lisboa do dia anterior. É interessante evocar esta efeméride de há 40 anos com uma entrevista dada anteontem por António Filipe, um dos históricos deputados do PCP (que já não foi eleito em 2022), em que ele, preso aos velhos clichés revisionistas de uma história que é contada por eles de uma certa maneira, «promete maior contestação social». O PC (quem vos viu e quem vos vê!) é hoje um resíduo do que já foi, quando os russos o financiavam.
11 fevereiro 2022
CONSIDERAÇÕES SOBRE AQUILO QUE «ESTIMULA» O PAÍS - O «RICARDINHO DOS EXOPLANETAS»
Quando o presidente da República recebe a selecção de futsal, e se lê nas notícias que a sua vitória no campeonato europeu «é um grande estímulo para o país», eu fico com muita pena por não me sentir nada estimulado... Pelos vistos, eu e o país (tal qual esse país é concebido pelo ocupante do palácio de Belém) não compartilhamos as mesmas «estimulações». Em contraste com os campeões europeus da modalidade, o que me «estimula» é descobrir numa página ontem publicada no Astronomy & Astrophisics um artigo em que se anuncia a descoberta de um terceiro exoplaneta a gravitar à volta da Próxima Centauri (a estrela mais próxima do Sol). A descoberta é particularmente interessante porque, para além da «proximidade» da descoberta, este terceiro planeta que agora se deduz ali existir, orbitando a estrela muito próxima dela e em cerca de apenas 5 dias, tem uma massa bastante inferior à do planeta Terra (talvez o dobro da do planeta Marte), o que a torna uma descoberta extremamente rara, já que estes planetas menores são muito mais difíceis de detectar, considerando os métodos e as distâncias em causa (só 0,1% dos exoplanetas encontrados até hoje têm massas idênticas ou inferiores à da Terra). Mas, sobretudo, aquilo que me leva a trazer o assunto para aqui, aquilo que verdadeiramente me «estimulou» a publicar este poste, é o facto do primeiro signatário do artigo e quem o apresentou publicamente foi João Faria (também J.P. Faria), que é um investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço. Mesmo não o conhecendo, acho que o reconhecimento do mérito lhe é devido (eis o seu CV), tanto mais que é «um grande estímulo para o país» apercebermo-nos de outras qualidades dos nossos compatriotas, para além de dar pontapés numa bola e/ou treinar pessoas para darem pontapés numa bola com mais eficácia. O que não invalida que, para popularizar o significado das investigações e descobertas complexas de João Faria, e para as tornar mais próximas da compreensão do português comum, o possamos alcunhar - é só uma sugestão... - de o Ricardinho dos exoplanetas... assim, talvez o Marcelo o convide a ir a Belém. E a visita aparecer nas notícias.
UMA (PRIMEIRA) COLISÃO DE DOIS SUBMARINOS NUCLEARES NO ÁRCTICO, DEPOIS DO FIM DA GUERRA FRIA
11 de Fevereiro de 1992. Mesmo estando-se em pleno Inverno, dá-se uma colisão entre dois submarinos, um russo (esquerda) e outro norte-americano (direita), em pleno Oceano Árctico, mas a pouco mais de 20 km da costa e à saída do porto russo de Murmansk, o quarto principal porto daquele país e onde se situa a sua principal base de submarinos. O acontecimento cai muito mal na opinião pública e os Estados Unidos ficam muito mal na fotografia dado que, com o desaparecimento da União Soviética no ano anterior, eles haviam deixado pairar a ideia junto dessa mesma opinião pública que, com o fim da Guerra-Fria, certas práticas de prevenção e de espionagem haviam deixado de se tornar necessárias. O local do incidente (mapa acima) era a demonstração do quanto essa sugestão era falsa. Moscovo e o presidente Boris Yeltsin mostraram-se particularmente irritados - como se sentiriam os norte-americanos se os russos mandassem submarinos seus patrulhar ao largo do porto de Long Beach, na Califórnia? - e o próprio secretário de Estado de então, James Baker, foi à capital russa, prestar-lhe explicações pessoalmente, acompanhadas certamente das tradicionais promessas de que o assunto não se viria a repetir. Claro que, na política real, estas iniciativas são para benefício da audiência e não são para levar a sério: dali por treze meses, pouco mais de um ano, tornou a dar-se outra colisão entre dois submarinos, não muito distante desta. O que vale é que nessa altura já lá estava - em Washington - outro presidente (Clinton) e outro secretário de Estado. Se calhar, nesta altura em que, por causa da questão da Ucrânia, se tenta diabolizar a Rússia e Vladimir Putin, evocar estes acontecimentos não virá nada a propósito para a propaganda do lado de cá, mas as datas (e as efemérides) são estas...
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10 fevereiro 2022
A PONTE DOS ESPIÕES
10 de Fevereiro de 1962. Nos arredores de Berlim, um pouco antes das 09H00 da manhã e numa ponte conhecida por Ponte Glienicke sobre o rio Havel, procede-se à permuta de Rudolph Abel, que fora capturado a espiar nos Estados Unidos em Junho de 1957, por Gary Powers, que fora capturado a espiar sobre a União Soviética em Maio de 1960. Os documentários da época são parcos em detalhes sobre o percurso dos permutados (acima), apenas se destaca o lamento de que, depois de regressado, Gary Powers, não havia estado disponível para fotografias... Mas o episódio foi recuperado para a memória colectiva mais recentemente quando, mais de cinquenta anos depois, em 2015, foi objecto de um filme intitulado A Ponte dos Espiões (Bridge of Spies). A cena da permuta dos dois homens (abaixo) constitui o clímax do filme.
Não se comprometendo em procurar ser rigoroso, o filme adopta aquela fórmula hollywoodesca de se assumir baseado em factos reais, a expressão em que o importante não é os factos serem reais, o que é importante é ser baseado, e ser-se baseado dá para muita mentira. É assim que a cena ocorre de noite, quando, na verdade, uma consulta às condições meteorológicas de Berlim em Fevereiro de 1962 mostra que nesse dia o Sol já se levantara às 07H31... É também assim que nos comentários finais do filme se afirma que a União Soviética nunca admitiu que Rudolf Abel fora um espião, o que é uma mentira descarada: Rudolf Abel foi objecto de uma homenagem numa série postal soviética emitida em 1990, dedicada aos seus espiões*; mais, na sua campa, onde está enterrado sob o seu verdadeiro nome de William Fisher (ФИШЕР), é reconhecível o emblema do KGB.
* Talvez Frederico Carvalhão Gil também venha a ter direito a figurar num selo postal russo, quem sabe?
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09 fevereiro 2022
«DA-DA-DA, EU NÃO GOSTO DE TI E TU NÃO GOSTAS DE MIM, AHA-AHA-AHA»
Ainda há menos de um mês fui recuperar este sucesso mundial de origem alemã - 13 milhões de cópias vendidas em todo o Mundo! - para sintetizar, num formato musical (algo desdenhoso, admito), a relação distanciada que eu mantivera com os debates televisivos pré eleitorais, apesar do intenso furor mediático que os acompanhara. Hoje, o meu desdém pela maior parte dos protagonistas do circo político-mediático mantém-se (tanto mais que agora quase todos reclamam ter antecipado o que viria a acontecer*), e trata-se precisamente da mesma música, mas a ocasião é de efeméride: a música com o comprido - mas não complicado - título que encabeça este poste foi lançada há precisamente 40 anos - 9 de Fevereiro de 1982. Os expletivos da letra são a força da canção - até ultrapassam a barreira do idioma.
* Sobre esse aspecto e, para aqueles que não tenham ido ver o link para apreciar a idiotia de há um mês, vale a pena referir que, entre as imagens que escolhi para compor um mosaico naquele poste, há uma que destaca quatro opiniões sobre o desfecho do debate entre Catarina Martins e João Cotrim de Figueiredo onde três deles (Daniel Oliveira, João Silvestre e David Dinis) acharam que a líder do Bloco o ganhara... Como se veio a descobrir, os eleitores tinham uma opinião diferente: os liberais superaram os bloquistas (5,0% vs. 4,5%, 8 vs. 5 deputados). Noutro quadro era o opinador Sebastião Bugalho que afirmava, assertivo: «Rui Tavares ainda não perdeu um debate»... Considerando que o Livre veio a alcançar 1,3% e 1 deputado eleito, força é reconhecer que, ou o Bugalho estava enganado, ou ganhar debates não tem assim grande importância para o desfecho eleitoral (como, de resto, eu sugeria).
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O ALMIRANTE QUE DEIXOU AFUNDAR O NAVIO ACOSTADO AO CAIS
9 de Fevereiro de 1942 foi a data do afundamento por incúria e incompetência do SS Normandie no porto de Nova Iorque. Aproveito a data do 80º aniversário do acontecimento para aqui republicar um texto de Novembro de 2013 sobre esse acontecimento, apresentado num formato que não se costuma poder ler na Wikipedia.
Esta é uma história que combina o prestígio de um almirante e a notoriedade do afundamento em pleno porto de um navio famoso, uma daquelas histórias que não se pode ler na Wikipedia, sempre zelosa em proteger as reputações dos biografados. O Almirante chama-se Adolphus Andrews (1879-1948), era um oficial da marinha norte-americana com uma daquelas folhas de serviços distintas mas de onde facilmente se deduzia ter havido um encosto de protecções políticas ao longo da carreira, com colocações como imediato (1910-11) e como capitão (1922-26) do próprio iate presidencial, o USS Mayflower, e ainda como membro do staff naval de dois presidentes norte-americanos, Warren Harding e Calvin Coolidge. Em 1941 e mesmo sob a ameaça crescente do envolvimento norte-americano na Segunda Guerra Mundial, este texano de 61 anos não constituía propriamente uma das estrelas do almirantado de Washington D.C. Em Março de 1941, a nove meses de Pearl Harbour, fora-lhe atribuído o comando do Terceiro Distrito Naval (sedeado em Nova Iorque) e a responsabilidade de comandar a, pomposamente designada, Fronteira Costeira Naval do Atlântico Norte (North Atlantic Naval Coastal Frontier).
A história do navio que se irá afundar conjuntamente com a reputação do almirante Adolphus Andrews era muito mais conhecida que esta última. O SS Normandie era um luxuoso navio de passageiros, o orgulho da marinha mercante francesa. Medindo mais de 300 metros, com um deslocamento superior a 70.000 toneladas e uma capacidade para transportar quase 2.000 passageiros, o SS Normandie era um dos maiores paquetes dessa época. Era também um dos mais velozes: na sua viagem inaugural, realizada em Junho de 1935 entre Le Havre e Nova Iorque o luxuoso navio batera o record de velocidade nas ligações entre o Velho e o Novo Continente, um feito galardoado com o privilégio de poder exibir a flâmula azul, insígnia de uma competição já centenária que envolvia não apenas navios e companhias de navegação mas também prestígios nacionais. O paquete RMS Queen Mary britânico iria roubar o distintivo ao SS Normandie francês no Verão de 1936, este iria recuperá-lo de volta no Verão seguinte de 1937, para vir a perdê-lo uma outra vez e para o mesmo RMS Queen Mary na mesma estação de 1938. Em Setembro de 1939, ao começar a Segunda Guerra Mundial, parecia que a brincadeira tinha que ser interrompida.
O SS Normandie estava acostado ao porto de Nova Iorque nessa altura e aí ficou, internado por decisão do governo norte-americano, desde o dia da declaração de guerra, 3 de Setembro de 1939, muito embora continuasse a ser mantido pela sua tripulação francesa. Entretanto, os Estados Unidos permaneciam neutrais enquanto na Europa a Alemanha derrotava a França na Primavera de 1940. Em França emergia o regime de Vichy. Quanto mais se deterioravam as relações entre norte-americanos e franceses, mais aumentavam os incentivos para que os Estados Unidos se apossassem do SS Normandie para o recondicionar internamente e convertê-lo num enorme transporte de tropas à semelhança do que os britânicos haviam decidido fazer com o seu rival RMS Queen Mary, que chegou a poder transportar 16.000 soldados numa simples viagem. A concretização da ideia, porém, só se veio a verificar depois da entrada dos Estados Unidos na Guerra em Dezembro de 1941. O governo norte-americano decidiu angariar o SS Normandie, atracado há 27 meses ao Cais 88 do porto de Nova Iorque, para o transformar num transporte de tropas gigante ao serviço da US Navy, rebaptizado simbolicamente de USS Lafayette.
É aqui que os percursos de Adolphus Andrews e do SS Normandie finalmente se encontram: uma das unidades navais que mais suscitavam as atenções mediáticas no Terceiro Distrito Naval do Almirante Andrews era o recém-baptizado USS Lafayette. A 9 de Fevereiro de 1942, menos de dois meses depois de ele ter sido angariado, desencadeou-se um incêndio no navio, provocado pelas obras de reconversão. Vários factores se conjugaram para que o incêndio se alastrasse e para que o seu combate se mostrasse ineficaz. Mas o problema que rapidamente se tornou mais evidente, até para os leigos que assistiam de longe ao combate às chamas, era que a água despejada estava a levar o navio a inclinar-se progressivamente para bombordo. Nem a feliz presença do próprio desenhador do navio, o russo Vladimir Yourkevich (1885-1964), se veio a revelar benéfica para o desfecho: as suas sugestões para que se provocasse deliberadamente uma inundação a estibordo, mesmo que a quilha do navio assentasse no fundo do porto, foram ignoradas pelo Almirante Andrews que supervisionava as operações. Doze horas depois do início do incêndio, o SS Normandie virou-se num ângulo de cerca de 80º.
A batalha que o Almirante Andrews, pessoalmente, e a US Navy, corporativamente, travaram para dissipar a notoriedade mediática de uma operação que fora particularmente mal sucedida contou com as circunstâncias favoráveis de se estar em tempo de guerra onde há segredos capazes de esconder incompetências. Mesmo assim, durante os meses que se seguiram o casco tombado do SS Normandie nas águas geladas do porto tornou-se uma das atracções turísticas da cidade de Nova Iorque. Adolphus Andrews foi demitido do seu comando do Terceiro Distrito Naval, continuando a comandar, para salvaguarda das aparências, a pomposa Fronteira Costeira Naval do Atlântico Norte. No ano seguinte, em Novembro de 1943, Adolphus Andrews, o Almirante que não tinha jeito para ser bombeiro, passou finalmente à reforma. Três meses antes disso, numa das maiores operações do género até então, o SS Normandie fora endireitado para depois ser enviado para doca seca para reparações. Mas os danos causados pelo assentamento de um dos lados do navio (lembre-se o caso recente do Costa Concórdia) e a submersão por um ano e meio da sua maquinaria tornaram a recuperação desinteressante.
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08 fevereiro 2022
COMO SE NOTICIAVA UM «IMPORTANTE LEILÃO DE OBRAS CAMILIANAS»
A 8 de Fevereiro de 1922 noticiava-se que, numa outra «Universidade Livre, à Praça de Camões», os dois dias precedentes haviam sido «o centro de atracção dos nossos camilianos, que são muitos e bons.» Havia-se tratado do «leilão de livros de Camilo, promovido pelo livreiro Morais». O jornalista descrevia o que fora a cena: «pelas carteiras escolares, com o ar inocente de alunos que temem ser reprovados, vêem-e camilianistas já consagrados como tal e camilianistas, novos ricos do camilianismo». Não valerá a pena reproduzir aqui inteiramente a notícia, mas valerá a pena, contudo, chamar a atenção para que o jornalista que a redigiu, esse não parece temer qualquer reprovação. Talvez porque, em vez de escrever em lugar destacado sobre o que foi a leilão - os livros - as suas liberdades levaram-no a dedicar-se com mais interesse a quem licitava (ou não) no leilão - à assistência. Ora o tema nuclear de uma notícia sobre um leilão de livros raros deveria ser os próprios livros e a cotação que haviam alcançado. Mesmo que o assunto interessasse a poucos. Aliás, também não serão muitos os que se mostram interessados nos câmbios e nas cotações da bolsa que quotidianamente se publicam. E que continuam a publicar-se apesar do desinteresse geral... Mas o jornalista encarregue da cobertura deste leilão centenário de obras camilianas não foi por aí... Ir por ali teria implicado algum conhecimento mínimo, tanto da obra quanto do espólio do escritor Camilo Castelo Branco. Se calhar, se possuísse alguns conhecimentos sólidos sobre o assunto não seria um mero jornalista. Aliás, o seu remate da notícia é de sociólogo, nem sequer de bibliófilo: «Deve dizer-se que os principais compradores estavam entre os novos ricos, perdão, novos camilianistas...» De uma sociologia um bom bocado pedante, acrescente-se. Como se comprova, é muito antiga o prática do jornalismo do quando-não-percebes-nada-de-concreto-sobre-um-assunto-escreve-sobre-outra-coisa-qualquer-desde-que-seja-com-muita-convicção... O que se evoluiu nestes cem anos é que agora dispensa-se estes preâmbulos de noticiar a existência de um leilão - o jornalista ultrapassa a notícia, directamente para a opinião.
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A SEGUNDA REELEIÇÃO DE ÓSCAR CARMONA
8 de Fevereiro de 1942. Num noticiário que costumava ser dominado quotidianamente pelos variadíssimos acontecimentos nas várias frentes onde se travava a Segunda Guerra Mundial, o deste Domingo de há oitenta anos destacava-se por uma primeira página que, em contraste, era totalmente dedicada à eleição presidencial de Óscar Carmona, que se reapresentava sete anos depois sem oposição. Ainda não se sabiam os números oficiais - 829.042 votantes em 909.790 eleitores recenseados, uma taxa de 91,1% - mas não se pode dizer que o desfecho fosse propriamente imprevisível... A primeira página prometia, de resto, mais desenvolvimentos, nas páginas centrais, desenvolvimentos esses que se tornavam num desapontamento, já que, como se constata pelas imagens abaixo, o coração dessas duas páginas era dedicado ao campeonato de futebol onde, aí sim, se registava uma interessante surpresa, com o Barreirense a liderar destacado a classificação geral, depois de vencer o Belenenses nas Salésias por 1-0. Uma nota final, para uma outra notícia dessas mesmas páginas centrais, onde, quiçá por contraponto à reeleição do presidente português, se referia que «a imprensa espanhola admitia como provável a restauração da monarquia». Hoje percebe-se o quanto era uma daquelas ingenuidades, de quem não conhecia - como hoje se conhece - a personalidade tortuosa do caudilho, Francisco Franco.
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07 fevereiro 2022
30º ANIVERSÁRIO DA ASSINATURA DO TRATADO DE MAASTRICHT
7 de Fevereiro de 1992. Assinatura, na cidade holandesa que lhe deu o nome informal, do Tratado da União Europeia. Compareceram para o assinar pela parte portuguesa - país que então presidia ao Conselho da União Europeia nesse semestre - o então ministro dos Negócios Estrangeiros, João de Deus Pinheiro (à esquerda) e o ministro das Finanças, o inesquecível Jorge Braga de Macedo, momentaneamente imerso na tarefa de desatarraxar a tampa de uma caneta de tinta permanente. É a recordar estas distintas figuras do cavaquismo tardio que nos pomos a especular o que poderá acontecer a partir de agora com esta maioria parlamentar absoluta do PS de António Costa.
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06 fevereiro 2022
O LIXO DA CONVERSA DOS VOTOS «PARA O LIXO»
As modas acontecem assim: desde as eleições da semana passada, de repente, muitos passaram a opinar na comunicação social sobre as deficiências do actual sistema eleitoral português, muito preocupados com os votos residuais nos círculos marginais, e, sobretudo, todos eles encantados com a expressão que esses votos foram para o lixo. A discussão sobre sistemas de representação parlamentar, propor alterar aquele que é adoptado em Portugal desde 1975, avaliar os vários sistemas alternativos, nas suas vantagens e desvantagens em relação ao que existe, é algo que eu considero aliciante. Contudo, toda esta apropriação súbita de uma expressão que cai no goto, é de uma superficialidade inaceitável. Será que todas as pessoas que ali acima vemos a empregar a expressão, se terão apercebido que, para recuperar a expressão de que tanto gostam, nas eleições presidenciais todos aqueles que não votaram no presidente eleito são votos para o lixo? Não serão os votos para o lixo um elemento inerente à própria democracia em certas circunstâncias?...
A ELEIÇÃO DO PAPA PIO XI
Roma, 6 de Fevereiro de 1922. Depois da realização daquele que virá a ser o mais prolongado conclave do século XX (14 eleições), o Colégio de Cardeais conseguiu-se decidir pela pessoa de Achille Ratti, o arcebispo de Milão, que, na sequência da eleição, escolhera para si o nome de Pio XI. Mais importante do ponto de vista noticioso, é que, pela primeira vez desde 1870 (desde a tomada de Roma), em cinquenta anos, portanto, o novo Papa toma a iniciativa de vir à varanda central da Basílica de São Pedro executar a tradicional benção urbi et orbi. Se houvesse locução naquela altura, e a auto-promoção despudorada dos dias de hoje, então uma voz off estaria a gabar-se que as imagens acima da Pathé Gazette eram históricas.
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A MORTE DE JORGE VI E A SUBIDA AO TRONO DE ISABEL II DE INGLATERRA
Londres, 6 de Fevereiro de 1952. Com a morte algo prematura de Jorge VI (aos 56 anos), a sua filha Isabel torna-se rainha. Hoje completa 70 anos de reinado. Com isso, e a caminho de completar 96 anos em Abril próximo, ela está apenas a 2 anos e 110 dias de bater o record mundial (histórico) de duração do maior reinado, que está na posse, desde os princípios do século XVIII, de Luís XIV de França (1643-1715).
05 fevereiro 2022
(ARGÉLIA) «OU SEJA, UM ESTADO SOBERANO E INDEPENDENTE»
5 de Fevereiro de 1962. Num discurso que. como se lê cima, era «ansiosamente» aguardado, e que foi rádio e teletransmitido (abaixo) tanto para a França como para a Argélia, o presidente Charles de Gaulle preconiza, de uma forma clara, a concessão da independência à Argélia («...réaliser la paix et d'aider l'Algérie à prendre en main son destin en ménageant l'institution d'un exécutif provisoire et en nous tenant prêts à reconnaître sans nulle restriction ce qui ne manquera pas de sortir de l'autodétermination. C'est-à-dire un Etat souverain et indépendant.») As negociações ainda estão em curso, e só se concluirão no mês seguinte, com a assinatura dos Acordos de Évian (a 18 de Março) mas, para a para a população francesa, não sendo ainda o fim do problema argelino, era o princípio do seu fim, que se concluirá, aliás, dali por precisamente cinco meses - a 5 de Julho de 1962 - com a independência da Argélia.
Em contraste, no mesmo dia, no mesmo jornal, na mesma (primeira) página, embora um pouco mais abaixo, mas ainda a propósito de políticas coloniais, o representante português na ONU endereçava um recado para a opinião publicada dos Estados Unidos, manifestando o enorme desagrado do governo português com o comportamento da administração norte-americana perante os acontecimentos recentes em Angola e na Índia.
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04 fevereiro 2022
«A REMODELAÇÃO MINISTERIAL»
4 de Fevereiro de 1947. Salazar procedia a mais uma remodelação no seu governo. O facto mais notável de todas as entradas e saídas era a circunstância de, depois de dez anos de acumulação (de Novembro de 1936 até Fevereiro de 1947), Salazar finalmente abrira mão da pasta dos Negócios Estrangeiros, que entregara a José Caeiro da Mata. Uma outra nota, esta um erro do jornal, era a de considerar este um novo governo - o sexto - de Salazar: na verdade, continuava - e, continuará, até 1968... - a ser o mesmo, só que mais uma vez remodelado. E uma terceira nota, recuperando uma passagem da própria notícia: «Dos 20 membros do Governo, 12 são ministros. No gabinete há apenas 5 militares.» (na realidade, lendo a notícia e no que parece ser mais um erro do jornal, apenas se identificam 4 militares neste novo elenco governamental: Santos Costa, Américo Tomás, Teófilo Duarte e Gomes de Araújo) Mas aquilo que parece importante na nota oficiosa é transmitir uma impressão de uma progressiva menor influência dos militares no regime.
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03 fevereiro 2022
O PROGRAMA DE AHLEN
Ahlen é uma pequena cidade de 50.000 habitantes da Alemanha, localizada no distrito de Warendorf, na região administrativa de Münster, no estado de Renânia do Norte-Vestfália. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial ficou a pertencer à zona de ocupação britânica. Foi aí que, há precisamente 75 anos, os políticos que haviam fundado a CDU (União Cristã Democrata) resolveram apresentar o primeiro dos documentos ideológicos daquela nova formação de centro direita, constituída depois da destruição do nazismo. O conteúdo do documento surpreende e, será por isso que hoje estará - convenientemente - esquecido. O Programa Ahlen da CDU criticava abertamente o sistema económico capitalista. Com seu apoio ao planeamento e à orientação económica, à descartelização e à nacionalização das grandes indústrias e concedendo amplos direitos de co-gestão aos trabalhadores, o programa constituía a expressão mais clara de uma posição socialista cristã por parte da nova classe política da CDU, embora o termo em si - socialismo cristão - não chegasse a ser mencionado no documento. Para aqueles mais familiarizados com o idioma alemão - como o presidente do PSD! - junto anexo uma ligação que torna possível consultá-lo (11 páginas). A primeira ocasião em que a CDU vai brandir este documento contra a esquerda do SPD e a extrema esquerda do KPD irá ser em 20 de Abril de 1947, nas eleições estaduais da Renânia do Norte-Vestfália, eleições essas que a CDU irá vencer, elegendo um dos seus para encabeçar o governo. Este é um outro exemplo da inflexão generalizada para a esquerda que foi registada - nas urnas! - pela grande maioria dos povos europeus nos anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra - época que hoje parece estar completa e convenientemente esquecida. Os partidos da direita tiveram que adaptar, naquela época, os seus discursos e os seus programas a esse facto. Muito se fala do exemplo britânico, mas a França do general de Gaulle nacionalizava os bancos mais importantes além do construtor automóvel Renault porque os seus proprietários - a família Renault - se haviam destacado pelo seu colaboracionismo com os alemães. Acresce, neste caso específico da Alemanha, que o país vivia ainda a expiação dos crimes mais hediondos cometidos durante o nazismo: nesse mesmo dia 3 de Fevereiro, em Hamburgo, terminava (mais) um julgamento de guardas do campo de concentração feminino de Ravensbruck com oito condenações à morte!
Etiquetas:
75º Aniversário,
Alemanha,
Política
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