É típico do jornalismo medíocre tentar atribuir a cobertura de uma notícia a um correspondente que está vagamente próximo dos acontecimentos. É um insulto à inteligência dos leitores, só que há uns que se importam e outros não. Ontem detectei o expediente a ser usado pelo The Guardian britânico, que se pôs a atribuir a autoria da notícia da demissão de António Costa ao correspondente... em Madrid. Claro que não pega! E não pega porque nós temos um presidente especial! Para os testar, mandem lá o Sam Jones para o paseo de la castellana a ver se ele encontra por lá o presidente Marcelo a «dar um passeio»... Não encontra... E em Portugal, jornal e televisão que se prezem, têm de ter um jornalista e um microfone de plantão a assediar Marcelo quando ele vai à rua... Os ingleses nunca percebem nada! É por isso que eles comem batatas fritas a acompanhar a sardinha assada...
08 novembro 2023
A CRISE DO SNS ESTENDEU-SE À ESPECIALIDADE DE ESTOMATOLOGIA...
Passou a existir mais este problema da especialidade de estomatologia porque o ministro da Saúde parece mudar subitamente de opinião e fá-lo com todos os dentes que tem na boca...
O ESPLENDOR DA KREMLINOLOGIA
8 de Novembro de 1983. Na verdade, o problema revelara-se no dia anterior, quando as cerimónias do 66º aniversário da revolução soviética não haviam contado com a presença do «número um» do regime, Yuri Andropov, uma ausência sem «precedentes na história da» União Soviética. Uma ausência que, de tão significativa*, esvaziara totalmente a importância noticiosa das próprias comemorações (leia-se acima). A (falta de) saúde do secretário-geral Andropov passara para primeiro plano da curiosidade mediática ocidental, já que ainda não se passara um ano completo sequer desde o falecimento do antecessor de Yuri Andropov, Leonid Brejnev. No dia seguinte (a 8 de Novembro, há precisamente 40 anos, leia-se abaixo), tentava-se então rectificar a situação, soprando uma notícia ao correspondente moscovita da agência EFE (espanhola), dando conta de uma doença renal de que padeceria Andropov. O artigo não se esquecia de ir buscar um comentário ao filho de Andropov, casualmente em Helsínquia na Finlândia, a quem a atribuíam o comentário que «o estado de saúde de seu pai não é(ra) mau». Pois. Andropov morreria dali a três meses...
* No ano anterior, Leonid Brejnev estivera presente nas cerimónias três dias antes de morrer!
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07 novembro 2023
TEMOS ESCÂNDALO, UM GRANDE ESCÂNDALO
Temos escândalo! E é um grande escândalo! E está a ser-nos apresentado envolvendo António Costa por todos os lados, desde o seu chefe de gabinete até ao seu amigo pessoal Diogo Lacerda Machado, passando pelo ministro João Galamba, que António Costa não quis demitir no último escândalo, apesar da insistência de Marcelo Rebelo de Sousa. As implicações daquilo que está a ser revelado são amplas, a continuidade do governo poderá ser questionada, para mais quando a solidez da notícia é consolidada por referências à antiguidade da investigação sobre os negócios escusos da exploração do lítio e da produção de hidrogénio verde: referem-se escutas de Janeiro de 2021, a investigação terá por isso mais de dois anos e meio. O problema é que vivemos em Portugal...
E vivendo em Portugal e tendo memória, o episódio de hoje, na sua indiscutível gravidade e nas suas inevitáveis consequências para a actualidade política, tem um travo reconhecível de reencenação de um episódio déjà vu. Viajemos então nove anos no passado, até 21 de Novembro de 2014, até à prisão bombástica no aeroporto de Lisboa do ex-primeiro-ministro José Sócrates. Viajemos não apenas até esse dia, mas também aos dias seguintes onde, como se vê abaixo, lá aparecia também um longo texto explicativo que a eclosão daquele escândalo também tivera precedentes: «uma carreira cheia de suspeitas». Como os negócios cujos contornos que hoje são revelados, também a carreira de Sócrates se apresentava como um caso muito sólido para o ministério público (MP). E, como é evidente, mas raramente relembrado, José Sócrates continua por ir a julgamento nove anos depois da exibição de todas aquelas evidências que se lêem mais abaixo!
Por isso, recomendo que apreciemos as revelações que se sucederão com fleuma. Não por simpatia para com os suspeitos já identificados neste escândalo. Mas por uma profunda desconfiança para com a competência de quem produz as acusações - que é óptimo a injectá-las na comunicação social, mas que pode ser de uma incompetência atroz a efectivá-las posteriormente nos tribunais.
Desfecho: António Costa demitiu-se, José Sócrates deve estar felicíssimo da desforra e Marcelo Rebelo de Sousa aliviadíssimo - ninguém já se lembra dos episódios da Palestina e das gémeas. E contudo, no plano em que acima me pronuncio, aceito apostas sobre quanto tempo demorará até este caso chegar a tribunal. Antes de Novembro de 2027? Ou arrastar-se-á até Novembro de 2032...
A ESTREIA MUNDIAL DA «CANÇÃO DE LISBOA»
7 de Novembro de 1933. Estreia mundial do filme «Canção de Lisboa» no São Luiz, com a presença do presidente da República (Óscar Carmona).
06 novembro 2023
PELO ANDAR DA CARRUAGEM PERCEBE-SE QUEM LÁ VEM DENTRO
A incompetência que grassa entre os assessores do ministério da Saúde é tal, que o próprio ministro nem se chega a aproveitar devidamente dos seus argumentos na negociação que eles travam contra os sindicatos dos médicos. O argumento que acima vemos o ministro brandir resulta da adição do aumento percentual resultante da redução das horas de trabalho semanais dos médicos (de 40 para 35), o que representaria um aumento de 14,2% (o detalhe está explicado no corpo do artigo), com o verdadeiro aumento de ordenados que foi proposto na última reunião pelo governo, um aumento de 8,5%. Os tais 22,7% a que Manuel Pizarro acima se refere são assim o resultado de: 14,2 + 8,5 = 22,7%
Importa esclarecer que os assessores do ministério põem o ministro a argumentar somando duas naturezas diferentes do conceito aumento salarial. Pela primeira (a redução do tempo de trabalho) os médicos não passam a levar mais dinheiro para casa ao fim do mês - trata-se apenas de um aumento técnico, porque os médicos passam a ganhar mais por hora trabalhada. A natureza do segundo aumento, o de 8,5%, é que corresponde àquilo que costumamos entender por aumento: Mais dinheiro ao fim do mês. Para além dessa manipulação, e pior do que isso em termos técnicos e políticos, e virando-se contra a competência dos próprios assessores de Pizarro, o efeito conjugado dos dois aumentos devia ter sido calculado multiplicando-os, ou seja, 1,14285 x 1,085 = 1,24. Constatação: não sabem fazer contas porque nem percebem do que estão a falar. Se o soubessem, teriam posto o ministro a dizer o número real do aumento conjugado dos dois aumentos, que seria ainda mais simpático para a sua causa: 24%. (e não os 22,7%)
E é assim. De uma equipa onde parece não existir ninguém que compreenda o simples cálculo de números índices, esperar que haja lá pessoas com capacidade de implementar uma reforma exequível para um sistema complexo como o SNS, isso é que me parece candura demais...
A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL
(Republicação)
6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue anteriormente). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.
05 novembro 2023
MARCELO A «ASSOBIAR AO COCHICHO E A FINGIR QUE NÃO TEM NADA A VER COM ISTO»
Foi o próprio Marcelo Rebelo de Sousa que, enquanto comentador, recuperou há uns anos a expressão «assobiar ao cochicho e fingir que não tem nada a ver com isto»(aquilo). Agora, eleito presidente-comentador, estamos a vê-lo a recuperar o expediente que criticou a outros, a propósito do episódio das gémeas brasileiras que vieram receber um dispendioso tratamento médico a Portugal. No artigo, vêmo-lo a negar interferência no caso, quando nunca tomámos Marcelo por um ingénuo que acredite que as cunhas precisem da sua interferência para funcionarem. É óbvio que bastou ter aparecido o nome do seu filho e da sua nora no acontecimento para que as coisas tomassem um certo rumo. E, para um presidente que adora dizer imensas coisas a respeito de imensos assuntos (alguns deles nem têm a ver directamente consigo!), é sobre este assunto concreto que gostaríamos de o ouvir em concreto, mas não sobre a sua interferência e hipotéticas ameaças de tribunal para quem o acuse. O desejável é antes vê-lo a apelar ao completo esclarecimento sobre aquilo que de bizarro terá sucedido no episódio, condenando eventualmente aqueles que recorreram implicitamente ao seu nome e ao seu estatuto para o conseguir. É que Marcelo é presidente de um povo que reconhece intuitivamente os episódios de esperteza saloia...
Por outro lado, sobre os usos e abusos ostensivos e implícitos de familiares de poderosos, lembro-me, já há mais de cinquenta anos, de um Mercedes-Benz do Estado, (mal) estacionado em plena baixa lisboeta à vista de todos os passantes, impunemente, porque dona Gertrudes Thomaz e a sua filha Natália andavam por ali às compras. É óbvio que dava muito mau aspecto, era um abuso de estatuto, um desprestígio para a presidência da República, e contudo, para entrar no jogo da desconversa actual de Marcelo (o tal «assobio ao cochicho»), eu creio que o então presidente Américo Thomaz não tinha, não precisava de ter, qualquer «interferência» no facto da polícia ser assim tão descaradamente permissiva quanto ao estacionamento do Mercedes das madames...
OS PERCURSOS QUE AGORA SEPARAM A ÚRSULA DO AGOSTINHO
Úrsula von der Leyen foi à Ucrânia naquilo que me parece ter sido uma iniciativa calculada para mostrar quais são as prioridades europeias. Tirando a Euronews, pouca atenção lhe deram. Parece óbvio que a agenda mediática que nos envolve continua dominada por aquilo que interessa aos norte-americanos e não aos europeus e é dessas prioridades informativas que costumamos ser servidos. Emblemático disso, o especialista da guerra Agostinho Costa na nossa CNN parece ter sido transferido definitivamente do Donbass para a Faixa de Gaza (abaixo). Não sei é se a sua parcialidade continua a agradar e a irritar os mesmos da guerra anterior... É que me parece que ele havia pró-russos que agora são pró-israelitas.
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OS PRIMÓRDIOS DA TELEVISÃO POR CABO
Sábado, 5 de Novembro de 1983. O artigo acima dá ao leitor uma antevisão daquilo que poderão ser as capacidades da televisão se as transmissões começarem a ser distribuídas por cabo. De uma escolha entre dois (Portugal e Espanha), três (França) ou quatro canais (Reino Unido), as opções do espectador poder-se-ão vir a multiplicar no futuro - embora, para isso, fosse preciso dominar outros idiomas que não o seu. Esses problemas diluíam-se em países que compartilhavam os seus idiomas nacionais com os países da vizinhança, caso da Bélgica, que seria, não por acaso, o país europeu onde a televisão por cabo estaria mais avançada. Um espectador belga teria acesso a uns impressionantes - para a época - 16 canais de televisão (belgas, holandeses, franceses, britânicos e alemães). O que a notícia não explorava era uma das consequências dessa maior liberdade do espectador: até aí, na Europa, a televisão estivera sempre sobre controle estatal, os governos nacionais possuíam o (quase) monopólio daquilo que era transmitido aos seus cidadãos (a excepção eram as zonas fronteiriças). Com a adopção da TV por cabo, tornava-se óbvio que esse (quase) monopólio se perderia. Nem de propósito e para além do caso belga e também do da Alemanha Ocidental, os outros dois exemplos referidos - a Finlândia e a Áustria - eram países que, embora Democracias a sério, se situavam a cavalo da Cortina de Ferro que então dividia a Europa. Mas, sobre o futuro da TV por cabo em países que se situavam para lá dessa Cortina, por muito que as simpatias do Diário de Lisboa pendessem para aquele outro lado, nem uma palavra...
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PIERRE PFLIMLIN
Pierre Pflimlin (1907-2000) foi um político francês, proeminente durante a IV República Francesa (1946-58), onde chegou a ocupar o cargo de presidente do Conselho (chefe do governo) durante uma quinzena (crítica!) em Maio de 1958. Mas aquilo que o destaca, a ponto de ser o assunto deste poste, nada tem a ver com a sua carreira política, antes com o apelido com que nasceu, um apelido capaz de angustiar qualquer leitor, até merecedor de um video tutorial ensinando como se pronuncia.
04 novembro 2023
HARRY TRUMAN vs. THOMAS DEWEY
(Republicação)
A propósito de títulos disparatados nos jornais, talvez o mais famoso título nessa categoria tenha sido aquele que foi publicado na sequência das eleições presidenciais norte-americanas de 1948, eleições em que se enfrentaram o candidato republicano Thomas Dewey (acima no jornal empunhado pelo marido) e o presidente democrata Harry Truman (no jornal da esposa). Onde, ao contrário do que aquele quadro/fotografia de Norman Rockell possa sugerir, antes das eleições não havia grande controvérsia quanto ao vencedor: Dewey. Pelo menos se contarmos, numa época em que as sondagens eram ainda muito incipientes, com a opinião de 50 jornalistas políticos que a revista Newsweek consultou: os 50 achavam unânimes que Dewey venceria – se calhar, seriam também os primórdios da tudologia…
Mas havia outros cientistas que também manifestavam opinião coincidente, como era o caso do cartonista Clifford Berryman que assinava o desenho acima, com os dois candidatos a observarem um placard com previsões unanimemente favoráveis a Thomas Dewey e com este a perguntar se valeria a pena ainda ir a eleições. Na véspera das eleições, a Gallup dava-lhe uma vantagem de cinco pontos percentuais. Na noite das eleições – recorde-se que o escrutínio ainda era manual e os resultados iam chegando ao longo da madrugada e manhã do dia seguinte – Harry Truman foi para a cama vencido, mas acordou vencedor no dia seguinte por mais de dois milhões de votos. No meio dos festejos, alguém lhe deu então uma edição do Chicago Tribune, cujos jornalistas também deviam ter querido ir deitar-se mais cedo…
A fotografia do vitorioso Harry Truman, tirada a 4 de Novembro de 1948, um dia e meio depois dessa noite mágica, empunhando o jornal que anuncia a sua derrota, tornou-se uma fotografia icónica mas também deveria ter sido um alerta permanente para a prática de um certo tipo de jornalismo...
Mas havia outros cientistas que também manifestavam opinião coincidente, como era o caso do cartonista Clifford Berryman que assinava o desenho acima, com os dois candidatos a observarem um placard com previsões unanimemente favoráveis a Thomas Dewey e com este a perguntar se valeria a pena ainda ir a eleições. Na véspera das eleições, a Gallup dava-lhe uma vantagem de cinco pontos percentuais. Na noite das eleições – recorde-se que o escrutínio ainda era manual e os resultados iam chegando ao longo da madrugada e manhã do dia seguinte – Harry Truman foi para a cama vencido, mas acordou vencedor no dia seguinte por mais de dois milhões de votos. No meio dos festejos, alguém lhe deu então uma edição do Chicago Tribune, cujos jornalistas também deviam ter querido ir deitar-se mais cedo…
A fotografia do vitorioso Harry Truman, tirada a 4 de Novembro de 1948, um dia e meio depois dessa noite mágica, empunhando o jornal que anuncia a sua derrota, tornou-se uma fotografia icónica mas também deveria ter sido um alerta permanente para a prática de um certo tipo de jornalismo...
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A "CASSETTE" COMPLETAMENTE ESTRAGADA DE ÁLVARO CUNHAL
4 de Novembro de 1983. O pretexto para a convocação de uma conferência de imprensa do PCP era a apresentação das teses para o X Congresso daquele partido que se iria realizar no mês seguinte no Porto. Contudo, a presença do próprio secretário-geral Álvaro Cunhal nessa conferência de imprensa era sinal que ali se iriam discutir assuntos muito mais interessantes que essas soporíferas teses. O documento tinha 62 páginas, explicava o devotado Diário de Lisboa, o «comité central introduziu 800 emendas», e quem estivesse mesmo interessado que as fosse lá ler. Em contraste, no corpo do artigo e sobre a táctica que os comunistas adoptariam para os anos imediatos, começava por se ler logo que «...qualquer apoio do PCP à candidatura de Mário Soares às presidenciais de 1985 "é questão excluída" afirmou Álvaro Cunhal», que «..."o ambiente que se respira" no seio do partido não é de molde a prever a mínima hipótese de apoio à corrida de Soares para Belém».
Mais adiante lia-se: «...Cunhal adiantou que Mário Soares "aparece na conjuntura presente como o mais provável candidato da direita, que a direita procurará fazer eleger, seja com um apoio conjunto logo à primeira volta, seja à segunda volta, depois de apresentar outros candidatos à primeira». Noutro parágrafo mais baixo, um jornalista voltava ao tema das presidenciais: «Ainda a propósito desta questão, um jornalista presente colocou a hipótese de na primeira volta surgirem apenas como candidatos Soares e Freitas do Amaral. Que posição então a do PCP? Engolir novos sapos?» «De qualquer modo, o líder comunista considerou o cenário Freitas do Amaral - Soares "muito pouco provável" e aludiu ao trabalho que já está a ser feito para que surja um candidato que - repetiu - dê garantias de "defender o regime democrático, assegurar o funcionamento das instituições e fazer cumprir a legalidade democrática"».
Quem sabe aquilo que veio a acontecer nas eleições presidenciais de 1985, já se apercebeu que Álvaro Cunhal nesta conferência de imprensa se enganou em tudo. As eleições presidenciais portuguesas foram decididas numa segunda volta onde se enfrentaram precisamente Freitas do Amaral e Mário Soares. Os comunistas tiveram que fazer uma reviravolta de 180º e apoiar Soares, engolindo os tais sapos a que o jornalista aludira. E Cunhal teve que se contentar com Soares como garante da defesa do regime democrático e de fazer cumprir a legalidade democrática. Se as intervenções políticas dos comunistas, que eram tradicionalmente desprovidas de qualquer cunho pessoal ou imaginação, ficaram colectivamente conhecidas no jargão político como as cassettes (acima, à direita), esta deve ter sido uma das cassettes mais estragadas que Álvaro Cunhal transmitiu aos portugueses.
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O HERDEIRO DE AÉCIO ATINGIU A MAIORIDADE!
Completa hoje 18 anos. E é por causa disso que creio ser possível deixar de lhe dedicar tanta atenção, pelo menos a atenção de, sempre que possível, publicar quotidianamente um poste.
03 novembro 2023
DESDE SEMPRE TIVEMOS MAU TEMPO...
...mas agora esse mau tempo tornou-se personalizado, tem nomes de pessoas. Depois, o exercício consiste em ir colectando os estragos que o malandro fez, aqui e por essa Europa fora (abaixo). Se é verdade que o ridículo não mata, é também verdade que não interfere com as condições meteorológicas.
A «PURA LOUCURA» DO «PLANO ROOSEVELT»
3 de Novembro de 1933. Logo na primeira página da edição desse dia do Diário de Lisboa aparece uma notícia (ampliada do lado direito), que considera que o «plano Roosevelt» uma «pura loucura». Visto a esta distância de 90 anos, sabendo as repercussões positivas que o New Deal - assim ficou conhecido para a história o «plano Roosevelt» - veio a alcançar, estas considerações tornam-se ridículas. Recorde-se que ainda não se cumprira um ano completo sequer desde a eleição de Roosevelt para o cargo e que ele tomara posse do cargo há apenas oito meses! Mas aquilo que mais me intriga hoje é adivinhar os caminhos ínvios que esta opinião terá seguido, para aparecer assim, assertiva mas sem autor, na primeira página de um vespertino português, num Portugal em que as opções económicas adoptadas nos Estados Unidos seriam um assunto mais do que remoto!
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02 novembro 2023
OU ANTÓNIO COSTA NOS ESTÁ A ALDRABAR OU ENTÃO NÃO FAZ A MÍNIMA IDEIA SOBRE O QUE O ESTÃO A FAZER DIZER
Essa é, pelo menos, a opinião do antigo ministro que tutelou aquela companhia aérea, deputado apoiante da maioria parlamentar socialista. Anacronicamente, há que reconhecer que isto é que é verdadeiramente oposição, e que é muito mais sustentada do que os disparates histriónicos que se costumam ouvir de Montenegros, Venturas e afins. Mas este fenómeno das guerras de facções dentro do PS só começará a ter significado quando começarmos a ler entre os analistas políticos aquelas metáforas que as maçãs começam a apodrecer por dentro.
JOVENS MÉDICOS SEM EMPREGO PARA ÁFRICA, RAPIDAMENTE E EM FORÇA
Não deixa de ser de uma ironia tremenda recordar esta notícia de há precisamente quarenta anos em que o ministro da Saúde de então, o (também) socialista Maldonado Gonelha, incentivava os jovens médicos, aos quais não poderia garantir «emprego no Estado», que emigrassem «para África, rapidamente e em força.» Um primeiro comentário que me surge, sarcástico, foi como declarações de teor absolutamente idêntico vieram a ser acolhidas, daí por trinta anos, com um enorme ultraje político-mediático. O segundo comentário será, obviamente, comparar esta aparente abundância de médicos com a carência actual desses mesmos profissionais, apesar de eles não terem ido para África rapidamente e em força. Ou eles todos desapareceram algures por aí, ou, como já aqui expliquei, o ritmo de substituição e formação de novos quadros foi reduzido de seguida de uma forma tão absurda, que se veio a repercutir a longo prazo numa falta de quadros médicos em Portugal. Não por falta de capacidade para os formar, mas apenas porque os responsáveis políticos foram estúpidos e cederam aos interesses da corporação consolidados na Ordem dos Médicos. O actual titular da pasta da Saúde, Manuel Pizarro, outro apparatchik socialista na mesma linha de Gonelha, é o último de uma lista de responsáveis, em que, coincidentemente, um e outro se contam entre os piores. O terceiro comentário que esta invocação me sugere é que, assim como há quarenta anos não foi preciso que os jovens médicos tivessem ido para África, actualmente também não teria sido preciso as autoridades governamentais esticarem a corda negocial por 16 meses, para se verem empurrados para os excessos actuais, quando o sistema já assenta em boas vontades. Quando Pizarro já não tem margem de manobra para mandar bojardas como estas do Gonelha. Há que reconhecer que estes problemas, quando são discutidos politico-mediaticamente, quase só se ouvem asneiras, para mais quando nem se prestam as explicações mais pertinentes e elementares: por exemplo, porque é que foi preciso um ano para serem publicados os estatutos de uma direcção-executiva? Não me venham com o spin de deflectir a pergunta dizendo que já foi aprovado. A pergunta é outra: quem foram os merdas responsáveis por um atraso inaceitável?
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01 novembro 2023
QUANDO TUDO NUM ASSUNTO É CADA VEZ MAIS DESAGRADÁVEL...
O assunto começou pela eleição de um transsexual como Miss Portugal. A verdade é que já ninguém liga a estes concursos de beleza - saberá o leitor quem foi e como se chama a Miss Portugal 2022? E a de 2021?... - e deve ser por isso que os organizadores destes eventos recorrem a estes expedientes de eleger transsexuais para que, desse modo, um acontecimento que caiu no desinteresse geral receba um empurrão mediático apoiado pelo lóbi LGBT, lóbi esse, para o qual, há que confessar que já não há pachorra! Elegeram um transsexual? Que exótico, parabéns! Só depois o assunto passou para as mãos de um grunho que vive de polemizar com outros para que lhe prestem atenção. Miguel Sousa Tavares anunciou que se ia retirar, mas só conseguiu resistir dois anos e aparece agora com todos os sintomas de que padece do síndrome de privação de atenção mediática. É por isso que qualquer opinião grunha que notabilize o seu regresso à pantalha lhe serve. O concurso de misses era um assunto com dezanove dias de antiguidade quando ele o recuperou. Com o sucesso que se aprecia. Mas o fundo da escala do meu desagrado sobre este assunto é mesmo o comportamento de alforreca de José Alberto Carvalho. No fundo, ele adopta o mesmo comportamento de um barbeiro ou de um barman: é do mesmo clube do cliente e partilha com ele as suas convicções políticas mais arreigadas; no caso do barman até as mais reprimidas, aquelas convicções íntimas que só se revelam à medida que os copos se sucedem. Com Miguel Sousa Tavares, isso é dispensável, que esse tem um comportamento inconveniente como se estivesse perpetuamente grosso. De qualquer modo, o que nos querem impingir na TVI, é que José Alberto Carvalho é um jornalista, que ele não está ali para concordar com o cliente. Este último pedido de desculpas desmente isso tudo. Pode ser fotogénico, mas notoriamente, ao subscrever concordante a narrativa matarruana de Sousa Tavares, percebe-se que José Alberto Carvalho não tem nada dentro da cabeça. Ou então tiveram que lhe explicar depois, que aquilo que fizera não fora bom para a sua imagem porque não se apercebeu no momento. Cinco dias depois desdiz-se. Aos 55 anos, já nem a própria mãezinha de José Alberto Carvalho pode argumentar que ele só assume estas «atitudes irreflectidas» porque anda com más companhias.
Adenda em modelo «TEM VERGONHA, OH PALHAÇO, DEVIAS ERA ESTAR CALADO»
«Batota» foram também alguns campeonatos de futebol ganhos pelo FC Porto (com o recurso a "fruta para dormir"!) e, sobre isso, Miguel Sousa Tavares não afirmou nem reafirmou nada... E Miguel Sousa Tavares até é um daqueles cretinos que atribui importância desmesurada ao futebol - muito mais que a concursos de misses concerteza!
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O OUTONO DA HIPERINFLAÇÃO NA ALEMANHA
(Republicação)
Mais do que as descrições abrangentes das consequências de um episódio na sociedade, há aqueles que ganham interesse quando são contados de uma perspectiva individual. Façamo-lo com a hiperinflação que assolou a Alemanha no Outono de 1923, a partir do impacto que ela teve na vida quotidiana de um casal com um bebé em Berlim. O casal era composto por um jovem pianista e compositor de ascendência polaca e judia chamado Mischa Spoliansky (acima) e sua esposa Elsbeth e a filha de ambos. Na Quinta-Feira, 1 de Novembro de 1923, Mischa saiu do seu apartamento, situado na zona leste de Berlim (daí por 38 anos iria ficar do lado de lá do Muro), para ir buscar um cheque aos seus editores com o pagamento dos seus direitos de autor. O dinheiro estava a fazer-lhe muita falta...
Levava um enorme rolo de notas no bolso, correspondendo a um valor nominal de 28 milhões de marcos. Quando quis comprar o seu jornal, o liberal Berliner Tageblatt, apercebeu-se que não tinha dinheiro que chegasse. De facto, apercebeu-se até que se distraíra com a evolução dos preços, que nem tinha dinheiro suficiente para pagar o bilhete de eléctrico até ao destino. Teve que fazer uma parte do caminho a pé. Aquilo que recebeu em direitos montava a 3.700 milhões de marcos. Era mais de 100 vezes do que o dinheiro com que saíra de casa, mas ao ritmo com que o dinheiro perdia o seu valor, era bem possível que dentro de dias aquilo que acabara de receber nem chegasse para comprar um litro de leite para a filha.
No dia seguinte, Elsbeth, que estava grávida de um segundo filho, foi às compras. Os preços eram diariamente actualizados. Havia um coeficiente chamado multiplicador que se aplicava aos preços de referência de 1913, de antes da (primeira) guerra (mundial). Em 2 de Novembro esse multiplicador atingira os 76.200 milhões. Assim, um grande pão de 2 kg. que custara 14 pfennig em 1913 (com um marco compravam-se 7 pães), cotava-se agora por quase 10.700 milhões de marcos (10.668 para ser mais preciso). Um quilo de batatas por 28.000 milhões. Estava-se a uma Sexta-Feira. Passado o fim-de-semana, na Segunda-Feira seguinte, o preço multiplicara-se por cinco: 140 mil milhões de marcos e começaram a eclodir revoltas e saques por toda a Berlim. Os alvos naturais foram as padarias, mercearias, talhos, leitarias... e os judeus que, tal como os Spoliansky, também se concentravam nos bairros de Berlim Leste, nas imediações de Alexanderplatz. Houvera um certo consenso entre a elite política e financeira alemã que não se devia colaborar de nenhuma forma com o pagamento das indemnizações de guerra exigidas pela França mas, com o efeito colateral da hiperinflação, pagava-se agora o preço da decisão num eminente colapso da sociedade alemã. A polícia, tão perturbada pela situação quanto os desordeiros, havia prendido uma cinquentena deles, de entre os milhares que se haviam aproveitado da ocasião. A 8 de Novembro o chanceler Gustav Stresemann encontrou-se em segredo no Hotel Continental com o banqueiro Hjalmar Schacht para que este, com os seus contactos, patrocinasse um programa de estabilização da moeda alemã que pusesse fim àquela loucura. Shacht veio a presidir ao Reichsbank e a criar o tal programa com o indispensável apoio de empréstimos externos, mas chegou tarde demais para salvar o governo de Stresemann, que caiu duas semanas depois.
Entretanto, até que o programa fosse aplicado, o dia-a-dia do cidadão comum era recheado de episódios bizarros. Escrever uma carta tornou-se um luxo: quando Spoliansky quis enviar uma a um seu parente de Munique descobriu que o preço do selo era 100 milhões de marcos – ou seja quase quatro vezes mais do que aquilo que ele trazia na carteira quando saiu de casa no dia 1 de Novembro. Para ler o seu jornal favorito, o Berliner Tageblatt (aprecie-se acima a primeira página da edição de 5 de Novembro de 1923), teve que fazer fila para ler o exemplar de um café. Naquele da custava 10 mil milhões de marcos, quase três vezes mais do que aquilo que recebera de direitos de autor dias antes. Mas, para além dos problemas pessoais, havia o problema das empresas: os empregados passaram a preferir ser pagos ao dia e era uma dificuldade arranjar o dinheiro em caixa para o fazer. E mesmo para as empresas que o faziam, havia uma vantagem para aqueles que conseguissem receber antes: havia quem se considerasse um felizardo porque o caixa era seu amigo e o pagava uma hora antes dos colegas, o que lhe permitia converter o dinheiro em mercadoria com vantagem, tal era o ritmo de desvalorização. Spolansky conseguiu um emprego nocturno como pianista num cabaré e recebia o pagamento cada noite: uma saca de notas que se tornava progressivamente maior a cada dia que passava. Para as bandas da Friedrichstrasse e da Kurfürstendamm, as zonas mais quentes de Berlim (abaixo, cenas do filme Cabaret passado na Berlim dessa época), a crise parecia funcionar como um estímulo, compreensível quando se pensa naqueles que tinham poupanças em dinheiro e que agora se viam incentivados a desembaraçarem-se delas. Outros especulavam comprando, que havia muitos em situações desesperadas e incentivados a vender.
Possuir qualquer tipo de moeda estrangeira era um privilégio e viveram-se imensas histórias estranhas a esse respeito. Houve quem tivesse vindo da Suécia imediatamente antes da crise com 20 coroas suecas (uma quantia irrisória) em notas de uma coroa. Trocando as notas a um ritmo cuidado, uma de cada vez, essa importância conseguiu sustentar uma família de quatro pessoas durante seis semanas. Um grupo de quatro jovens literatos que incluía Bertold Brecht fez uma habilidade parecida (embora com muito maior estadão) com uma nota de cem dólares emprestada por um amigo norte-americano. Jantavam em restaurantes caros e apresentavam no fim a nota para pagamento. Não houve restaurante algum capaz de a trocar: à velocidade a que evoluíram os câmbios, a nota chegou a representar muito mais que a facturação mensal de um qualquer estabelecimento comercial. Ao fim de duas semanas deste expediente devolveram a nota ao proprietário e liquidaram as despesas que entretanto se haviam desvalorizado para um quinquagésimo do valor original.
O ritmo da desvalorização tornara a concessão de crédito numa actividade sem sentido. Elsbeth deu entretanto à luz uma menina e foi com muita sorte – o mercado do arrendamento estava também, obviamente, caótico – que Mischa encontrou uma outra casa maior em Berlim Oeste. Na terceira semana de Novembro, a economia alemã regredira até à fase pré-histórica da troca directa (acima, uma fotografia de uma mercearia berlinense nesse louco mês de Novembro de 1923). Entretanto, em Munique, um grupo de radicais considerava que a desestruturação económica e social causada pelo desaparecimento da moeda abria uma oportunidade para que se processasse uma tomada violenta do poder. Desencadearam um putsch na noite de 8 para 9 de Novembro e falharam clamorosamente. Adolf Hitler, o seu líder, iria passar os próximos meses na prisão. No fim do mês de Novembro, foi criada uma nova moeda provisória a que se deu o nome de Rentenmark que valia 4,2 biliões (milhão de milhões) de marcos antigos. A nova moeda era garantida por uma Grundschuld (dívida hipotecária, obrigação imobiliária) de 4% sobre todos os bens agrícolas, florestais e industriais da Alemanha mas também e sobretudo por um empréstimo de 200 milhões de dólares concedido por um sindicato de bancos mobilizado pelos contactos de Schacht. A associação que, depois disso, se fez entre o impacto social da hiperinflação na Alemanha e a ascensão dos nazis ao poder é uma das fábulas que se perpetua até hoje. Iriam decorrer mais sete anos e quatro eleições legislativas até que os nazis passassem a ter relevo político na Alemanha; e outros dois anos e meio e mais três eleições adicionais até eles alcançarem o poder. A fotografia abaixo, entre o simbólico e o irónico, é de Frank Horvat.
Mischa Spoliansky (1898-1985), que sobreviveu como se pôde apreciar acima à crise do marco do Outono de 1923 em Berlim, emigrou em 1933 (ano da chegada dos nazis ao poder na Alemanha) para Londres. Veio a naturalizar-se britânico.
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