28 dezembro 2009

A PROSA DO VISCONDE

Pierre Alexis, Visconde de Ponson du Terrail (1829-1871) foi muito provavelmente o maior best seller da literatura francesa durante o período do Segundo Império (1852-1870), sucedendo a Alexandre Dumas, que teve que se exilar por causa da hostilidade que lhe dedicava sua augusta majestade, o novo Imperador Napoleão III. Como o seu antecessor, Ponson du Terrail também era um escritor muito prolixo, não desapontando os seus inúmeros admiradores: durante os 20 anos de actividade terá escrito um total de 73 volumes e mais de 20.000 páginas.

Tendo começado pelas novelas de terror, que eram a moda literária quando se iniciou na escrita no princípio da década de 1850, os livros de Ponson du Terrail evoluíram posteriormente para um estilo seu, muito próprio, fantasista, com um enredo repleto de peripécias. Mas, para alcançar o ritmo de produção desejado, Ponson du Terrail nem chegava a rever o que escrevera. Há frases retiradas de livros seus que se vieram a tornar clássicos: …as suas mãos estavam tão frias como as de uma serpente… ou então Com uma mão levantou o punhal enquanto com a outra lhe disse…
A obra maior de Ponson du Terrail foi uma saga em nove livros que o autor veio a deixar inacabada e cujo herói principal, Rocambole, veio a dar o nome a um novo adjectivo: rocambolesco. A saga nunca terminou porque a editora pressionou o escritor para que ela não acabasse. Quando, no fim do quarto livro, Rocambole sofreu um revés tal que poderia ser dado como morto, as pressões do público e da editora foram tantas que o autor acabou por se obrigar a continuar a saga com um novo volume que se intitulava precisamente A Ressurreição de Rocambole

Mas, mesmo a imaginação delirante do visconde não conseguia acompanhar o ritmo da produção que lhe era exigido, e personagens que tinham morrido nos episódios iniciais da saga acabavam por vir a reaparecer quase idênticas uma ou duas dúzias de episódios mais adiante. Para controlar esses erros de ressurreição, Ponson du Terrail recorreu a um expediente tão imaginativo quanto ele: mandou fazer uns bonecos de cartão com as indumentárias correspondentes à descrição que fizera das personagens e adicionando-lhes em baixo uma etiqueta com o nome que lhes dera…
No caso de ter assassinado uma das personagens em mais um dos inúmeros duelos ou atentados da trama, ela era afixada num quadro de defuntos, para que não fosse mais utilizada. Ao tempo circulou uma história, que será possivelmente falsa, que alguns dos fãs mais entusiasmados das aventuras de Rocambole e também conhecedores deste seu método de controle de personagens, teriam tentado subornar a mulher-a-dias de Ponson du Terrail para que ela, nas suas limpezas ao escritório do escritor, procedesse a alguns enterros e ressurreições das suas personagens favoritas…

Hoje, embora ainda se empregue o adjectivo rocambolesco, praticamente ninguém terá ouvido falar de Ponson du Terrail, nem da sua obra, nem do enorme sucesso de popularidade de que gozou durante as duas décadas do Segundo Império francês. Num certo sentido, as aventuras que criou são um reflexo dos acontecimentos, também muitas vezes rocambolescos, da própria sociedade francesa sob o Segundo Império de Napoleão III. E quando olho para as capas dos livros dos nossos best sellers actuais, também me pergunto que imagem da nossa sociedade actual estaremos a transmitir para o futuro…

27 dezembro 2009

ROBERT McNAMARA

Segundo se veio a saber muito depois, numa daquelas pequenas histórias da História, Lyndon Johnson terá vindo a tornar-se vice-presidente dos Estados Unidos por causa de uma cortesia equivocada. Ou seja, quando John Kennedy lhe endereçou o convite para concorrer com ele às eleições presidenciais de 1960, uma espécie de agradecimento pelo apoio que lhe havia sido prestado pelo então dirigente da maioria democrática no Senado, estava totalmente convencido que o convidado iria recusar. Johnson, um texano labrego, não pertencia às elites intelectuais de que Kennedy se pretendia vir a rodear caso vencesse. Só que Johnson aceitou… E esta história é suficientemente prosaica para ser mesmo verdadeira.
E este preâmbulo serve para justificar porque é que Johnson era uma espécie de ET (a quem criaram complexos…) na equipa da Administração Kennedy. Equipa essa que o vice-presidente veio a assumir depois do assassinato de Dallas, em Novembro de 1963. Assinalada na fotografia acima, vemos um desses mágicos que John Kennedy fora buscar, naquele caso, ao mundo dos gestores para a sua Administração: Robert Strange McNamara (1916-2009). A reputação de McNamara era de homem de acção, um gestor de sucesso que entrara para a Ford em 1946 e acabara de atingir em 1960 o lugar de presidente da companhia, o primeiro a ocupar aquele cargo que não pertencia à família do fundador.
McNamara era californiano de origem e, apesar de ter desempenhado o cargo de Secretário da Defesa sob dois presidentes democráticos entre 1961 e 1968, politicamente um republicano, um dos pormenores mais esquecidos quando a ele se referem. Além de competente como gestor, McNamara era competentíssimo a promover-se. Da versão posta a circular na imprensa constava que fora o próprio McNamara a optar pela pasta da Defesa em vez da formalmente mais importante pasta do Tesouro. Outro facto, também relevante mas de que não se falava, é que ele nem fora a primeira escolha para o cargo… Contudo, logo em Abril de 1961, já conseguira uma capa da Time para os seus projectos de reforma…
E os projectos de McNamara passavam pela aplicação dos métodos de gestão que ele trouxera da Ford para o Departamento de Defesa. Foi um choque total com as hierarquias militares que perdurou até hoje. Com a excepção talvez do caso de Robert Nivelle(*) em França, na Primeira Guerra Mundial, não terá havido outro caso de uma alta figura que tenha despertado uma antipatia corporativa tão grande contra si. Não o terá ajudado muito na popularidade o facto de repetidas vezes se ter provado, com a utilização dos seus novos métodos de avaliação e em qualquer dos ramos das Forças Armadas, que ele tinha razão e que havia um enorme desperdício de recursos em comparação com os objectivos…
O grande problema veio a por-se (...e aí foi a grande desforra dos generais!) quando McNamara quis utilizar precisamente os mesmos métodos que haviam funcionado na reestruturação das Forças Armadas para a condução do envolvimento crescente dos Estados Unidos no problema do Vietname do Sul, até ele se transformar na Guerra do Vietname. Foi isso que esteve por detrás daquela riqueza estatística do conflito vietnamita (classificada displicentemente por alguns profissionais como os métodos da Harvard Business School…), englobando o número das baixas inimigas, dos patrulhamentos efectuados, enfim, uma pletora de indicadores de gestão tangíveis para uma guerra cujos objectivos costumam ser intangíveis…
Mais do que tudo, era o ego, o feitio, a ânsia da promoção da própria imagem da parte de McNamara que não eram propriamente de molde a despertar muitas simpatias entre os subordinados com quem tinha de trabalhar. Tratava-se de alguém que promovia na imprensa a sua fotografia de telefone na mão num gesto em que se subentendia que acompanhava a par e passo a Guerra do Vietname (acima), ou que deixava que se baptizasse de Linha McNamara uma barreira defensiva de fortins estabelecida nas fronteiras do Vietname do Sul para impedir as infiltrações das unidades norte-vietnamitas. E quem se opusesse a McNamara ou era afastado ou então barrava-se-lhe o acesso a Lyndon Johnson…
Sem ser o culpado, McNamara acaba por se tornar um dos mais importantes responsáveis pela surpresa com que se receberam as notícias da Ofensiva do Tet em 31 de Janeiro de 1968, considerado hoje o ponto de viragem da Guerra do Vietname. Os indicadores de gestão que eram compilados pelos computadores em Saigão (acima) confirmavam que os Estados Unidos estavam a ganhar a guerra… Mas na fotografia abaixo, que foi tirada uma semana depois, a 9 de Fevereiro de 1968, e em que aparecem Lyndon Johnson, Dean Rusk, o Secretário de Estado, e Robert McNamara (mas de onde os generais estão ausentes…), vê-se que eles ainda não perceberam cabalmente o que (lhes) tinha acontecido…
(*) Sendo também um General, Robert Nivelle era considerado um traidor à sua corporação por se ter aliado ao poder político civil para conseguir que lhe atribuíssem o Comando Supremo, o que não será propriamente o caso de Robert McNamara, que roubou a guerra aos generais.

26 dezembro 2009

OUTRO PENSADOR

Se Auguste Rodin (1840-1917) imortalizou um certo estilo de pensador, mais abstrato, com a sua famosa escultura (acima), então Philip Jones Griffiths (1936-2008) terá imortalizado um outro estilo mais concreto com a sua máquina fotográfica (abaixo). Tirada em 1967, em plena Guerra do Vietname, esta fotografia é, de entre as famosas fotografias tiradas naquele período, uma das raras que ultrapassará o âmbito específico do próprio conflito para se manter ainda hoje válida, representando a continua incompreensão dos norte-americanos a respeito dos povos das várias regiões do Mundo onde intervieram e continuam a intervir...

25 dezembro 2009

Feliz Natal para todos! Que o nascimento do Menino Jesus ilumine de alegria e paz os vossos lares e nações(*).

Tornou-se mais outra rotina natalícia a transmissão televisiva da cerimónia da bênção papal Urbi et Orbi que é efectuada a partir da praça de São Marcos em Roma. Urbi et Orbi quer dizer à cidade e ao Mundo, que o Papa, antes de chefe da Igreja Católica Apostólica Romana, é o bispo de Roma. É por estar a dirigir-se à cidade e ao Mundo que se segue aquela parte folclórica das saudações em dúzias de línguas (este ano foram 63!), numa inflação de saudações natalícias que foi encetada desde o pontificado de Paulo VI.
Cada uma das saudações é seguida dos aplausos da assistência. Nunca percebi muito bem o que estarão a aplaudir, mas isso é uma outra história... A realização televisiva costuma seleccionar os peregrinos que consegue identificar pelas bandeiras nacionais ou pela sua aparência exótica para depois os focar na altura em que a saudação está a ser proferida. Fica-se assim com a impressão da universalidade do Natal. Mas a verdade é que, vendo as estatísticas (abaixo), esta será apenas mais uma Sexta-Feira para ⅔ da Humanidade…
(*) - Saudação endereçada hoje por Bento XVI aos católicos de língua portuguesa.

24 dezembro 2009

NOS TEMPOS EM QUE EU VIVIA OS NATAIS DE OUTRA MANEIRA

aqui havia parafraseado o poema Aniversário de Álvaro de Campos que começa assim:
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No poema, é impar a inspiração de Fernando Pessoa a provar-nos que as datas permanecem imutáveis, são os presentes que morrem e os vivos que vão mudando a maneira de as viver, restando a estes últimos a memória de como as viviam. Tendo começado a evocar esses Natais passados pelos sons, como aconteceu no poste anterior, resolvi juntar mais dois dos sons desses Natais de outrora, que eu vivia de outra maneira…

22 dezembro 2009

A IMITAÇÃO DO CHAMPANHE AMERICANO

Já aqui evoquei Michel Vaillant, um herói da BD franco-belga, pelo qual já expliquei que a minha estima é mais sentimental do que a que resulta da minha apreciação da qualidade do trabalho do autor, Jean Graton. E, contudo, há uma prancha de uma das suas histórias que considero memorável – e não me estou a lembrar de mais nenhuma idêntica... Pertence ao álbum Concerto para Pilotos, história que foi publicada originalmente em 1966, mas cuja edição portuguesa só veio a ser editada pela Bertrand em 1977 (abaixo).
Ora em 1977 os debates políticos em Portugal ainda estavam tão aguerridos quanto… condicionados. Por exemplo, uma prática, para a qual eu nunca me apercebi a origem, era que as acusações mais contundentes ao PCP, nomeadamente as evidentes, a de que se tratava de um partido não-democrático, nunca o mencionavam explicitamente, sendo substituído pela expressão perifrástica determinado partido político… Interessantes também, eram os métodos adoptados pelos seus membros para contra-argumentar.
Foi neste ambiente político que acabei de descrever que achei curiosíssimo encontrar na altura, num álbum de Michel Vaillant, uma rábula em que uma das personagens se comportava como um comunista, distorcendo a verdade de uma forma descarada: um piloto americano que, ao beber uma taça de champanhe francês, fazia um comentário provocatório, considerando-o uma excelente imitação do americano… Nestes casos, nunca se sabe o que provoca o comentário: a ignorância ou a habilidade argumentativa?
Seja qual fosse a causa, na verdade podiam-se reconhecer os comunistas pelo estilo das respostas, qual argumentário de um vendedor de automóveis, que só está preparado para falar das vantagens dos modelos no stand. Por exemplo, nunca respondiam a qualquer pergunta directa inconveniente que se lhes colocasse, e será apenas uma mostra da decadência dos quadros comunistas que recentemente Margarida Botelho fosse apanhada a ter de responder a uma num programa televisivo: considerava Cuba uma democracia
Naquelas circunstâncias, na impossibilidade de se evadir de todo à pergunta inconveniente, um comunista experimentado doutros tempos faria a conversa percorrer uma espécie de parábola à volta do tema perguntado (ver a figura geométrica abaixo) afastando-se para outro tema distinto(*). Por exemplo, perguntas embaraçosamente frontais, como as sobre o genocídio cometido por Estaline, seriam respondidas com a condenação geral dos crimes contra a humanidade, como os dos nazis, mudando daí a conversa para o genocidio dos nazis...
Também se podia mentir descaradamente, alegando ignorância, embora naqueles anos, alegar desconhecer esses trechos da história como o fez recentemente, noutra prova de decadência, a jovem deputada comunista Rita Rato, fosse coisa inadmissível, sinónimo de falta de preparação política. Mas podia-se mentir e suportar o ridículo de invocar a ignorância nos casos mais desesperados, como aconteceu com a invasão soviética do Afeganistão em 1979, até se conseguir explicar que há invasões que afinal não eram imperialistas…
Enfim, antes como agora, sempre levei estas contradições argumentativas de forma ligeira – com (sic) alguma ligeireza moral, diria o meu amigo António Marques Pinto. O que nunca gostei foi que os comunistas se propusessem (e, às vezes, ainda se propõem), a meio do seu discurso, dar-nos lições de moral quando não as pedimos... É que A Superioridade Moral dos Comunistas (abaixo) funciona apenas um daqueles livrinhos de catecismo, para ser lido na catequese por convertidos e pré-convertidos. Para os que não crêem, nada daquilo existe...
(*) Notem-se aliás os comentários ao meu poste a esse respeito que foram feitos por um comunista veterano e que pretendem precisamente chamar a atenção para outro tema e outro protagonista do programa…

21 dezembro 2009

OSTTRUPPEN

As Osttruppen (tropas do Leste) foram unidades do exército alemão constituídas durante a Segunda Guerra Mundial e que eram compostas na sua esmagadora maioria por cidadãos soviéticos conquanto o enquadramento fosse feito por alemães. Embora os alemães já tivessem empregue auxiliares voluntários recrutados localmente na Frente Leste, desde os finais do Outono de 1941, foi só a partir de Março de 1942 que se constituíram os primeiros batalhões regulares (Ostbataillone), cada um com um quadro teórico de 950 efectivos, dos quais apenas 36 eram oficiais e sargentos alemães.
A grande maioria dos efectivos para as constituir veio a ser recrutada nos campos de prisioneiros (recorde-se que os alemães haviam feito cerca de 3,3 milhões de prisioneiros soviéticos), embora os houvesse também voluntários, originários das regiões que havia, ficado sob controlo alemão. A princípio, os alemães privilegiaram o emprego de unidades constituídas à volta de um núcleo de voluntários de outras origens que não fosse a russa, fossem bálticos, como os letões, lituanos e estónios, ou caucasianos, como os georgianos, azeris e arménios, e mesmo asiáticos, como os cazaques, uzbeques ou turcomanos.
Progressivamente, com o evoluir da guerra e o avolumar das baixas, os alemães tiveram de deixar de ser tão selectivos e a incluir russos, ucranianos, etc. No início de 1943, já havia 176 batalhões regulares (150.000 efectivos), esse número mais do que dobrara em Junho de 1943 (320.000) para atingira uma marca rondando os 500.000 em Janeiro de 1944. Havia um General der Osttruppen, Andrei Vlasov, um antigo general soviético de que já falei num outro poste, mas que não mandava nada… Mas as derrotas alemãs da Frente Leste fizeram com que os alemães perdessem a confiança nessas unidades, que foram sendo transferidas para Ocidente.
Os serviços de informações militares dos Aliados ocidentais descobriram surpreendidos, com a preparação da Operação Overlord (o desembarque na Normandia) que, entre os seus potenciais inimigos após o desembarque, se contavam nada menos do que 76 batalhões de Osttruppen, o que representava já um sexto da infantaria de todo o exército alemão do Oeste. Contando jogar mais em subtileza do que em força se confrontados com as unidades de Osttruppen, às unidades aliadas da Normandia foram adidos intérpretes de russo e dos outros idiomas dos povos do império soviético, pertencentes às diásporas dos Estados Unidos.
Nas ocasiões em que se defrontaram com essas unidades na frente de combate formada em consequência do desembarque, os norte-americanos descobriram espantados que, ao contrário das restantes promessas (a de bom tratamento depois de serem feitos prisioneiros, por exemplo), a promessa do repatriamento provocava nas Osttruppen um efeito completamente contrário ao que deles se desejava, encarniçando-se ainda mais na resistência… Rapidamente os americanos corrigiram o erro e, no geral, as Osttruppen não se distinguiram pelo seu vigor combativo durante a campanha da Normandia…
Mesmo assim, os alemães não tiveram opção senão manter batalhões de Osttruppen em combate até ao fim. Aliás, a última acção militar da Segunda Guerra Mundial na Frente Oeste foi até protagonizada pelos membros de uma dessas unidades, o 882º Batalhão de Infantaria da Rainha Tamara, composto por georgianos, que guarneciam a ilha holandesa de Texel, e que se revoltou contra os alemães em 5 de Maio de 1945, a 3 dias do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. Com esse gesto, esperavam mudar uma última vez de lado e salvarem-se do destino que os aguardava na União Soviética. Fracassaram...
E a comandar a comissão de recepção na União Soviética estava, nem mais nem menos, que o nosso conhecido Filip Golikov...

20 dezembro 2009

À MESA DAS NEGOCIAÇÕES

Nos comentários a O Domínio dos Deuses, o 17º álbum de aventuras de Astérix, aparecido em 1971, tenho lido muitas referências aos temas ali satirizados por René Goscinny, no quadro da França dos anos finais da grande fase de expansão económica do pós-guerra, depois das Revoltas de Maio de 68 até ao choque petrolífero do Outono de 1973 e à morte de Georges Pompidou em Abril de 1974.
Os comentários que tenho lido concentram-se sobretudo nas descrições satíricas da tecnocracia (representada pelo arquitecto ambicioso), os mega-projectos urbanísticos nas periferias das grandes cidades, os contingentes de trabalhadores imigrantes contratados para os construir (ali representados pela proveniência heterogénea dos escravos) ou os processos manhosos usados na promoção imobiliária (o sorteio durante o espectáculo no circo).
Porém, não me lembro de ter lido referências a um dos aspectos daquele álbum onde Goscinny se mostra mais feroz: o das relações laborais e das negociações sindicais. Para o fazer, o autor subleva os legionários da guarnição romana de Aquarium para depois fazer deles uns idiotas reivindicativos mas vencedores de vitórias menores, para se deixarem facilmente manipular naquilo que convinha aos protagonistas.
Passados quase 40 anos, a França e o Mundo mudaram imenso, mas a imagem ali concebida por Goscinny – e, não esquecer, desenhada por Uderzo… – parece permanecer válida. Como já terei referido neste blogue, a renovação dos quadros sindicais entre nós, especialmente de topo, é uma piada: Manuel Carvalho da Silva é o coordenador da CGTP há 23 anos e João Proença é o secretário-geral da UGT há cerca de uns 15…
Mas o que mais me deixa perplexo é como a comunidade informativa aceita as suas rábulas queixosas, lamentando-se do crescimento das desigualdades sociais em detrimento daqueles que dizem defender, como se eles próprios não passassem de uma espécie de Gabriel Alves, uns comentadores aplicados mas distanciados, de um jogo negocial em que comentam mas não participam nem assumem as responsabilidades…
É que assim fica-se sem perceber quais as quotas-partes de responsabilidade de quem se senta à mesa daquelas famosas negociações... Ou será que, afinal e como suspeito, as mesas das negociações já há muito tempo (há para aí uns 38 anos...) que, na prática, não servem para nada?...

19 dezembro 2009

CHULICE…

Todos já nos devemos ter deparado com aquelas operações de intercepção do tráfego em que pedintes, com ou sem crianças ao colo, ou vendedores da revista Cais e até lavadores dos nossos pára-brisas numa atitude mais empenhada, se postam atrevidos junto a semáforos estratégicos para atacarem os condutores dos carros que ali têm de parar quando o sinal está vermelho. Hoje de manhã fui testemunha de mais uma dessas operações, só que reunia algumas características inovadoras…
Em primeiro lugar, porque os interceptores o faziam aos magotes – contei bem uma meia dúzia deles. Em segundo, porque o faziam numa atitude que tinha tanto de descarada quanto de institucional – envergavam todos camisolas dos Bombeiros Voluntários de Bucelas(!). Em terceiro, porque o descaramento parecia ser tão ilimitado quanto transfronteiriço – sendo dos bombeiros de Bucelas, estavam a tentar chular os automobilistas de um cruzamento em… Linda-a-Velha.
Creio que a ideia será angariar fundos para a compra de uma nova ambulância… Sei isso porque, sendo a primeira vez que vejo elementos daquela corporação em cravanços deste género, já não é a primeira vez que os vejo em pedinchices em paragens alheias, todas elas próximas de minha casa, que por acaso fica muito afastada de Bucelas... Há quem chame a isso espírito de iniciativa. Eu chamo-lhe outra coisa…

18 dezembro 2009

ELITES MILITARES E A GUERRA DE ÁFRICA

Começando por falar em livros compósitos, um dos grandes clássicos da nossa literatura portuguesa é assim: Viagens na Minha Terra. Almeida Garrett propõe-se no início do livro fazer uma viagem por Portugal para o descrever, depois demora dez capítulos a chegar a Santarém e, provavelmente embevecido pela figura da Joaninha de olhos verdes, deixa-se ficar por lá o resto do livro… Há em Viagens na Minha Terra duas histórias que praticamente não têm nada a ver uma com a outra e a juntá-las há um título enganador. Não se tratando rigorosamente do mesmo fenómeno (o título do livro de que quero falar é mais descritivo além de adequado ao conteúdo) e (creio eu...) sem pretensões a tornar-se um clássico da literatura, algo de muito semelhante acontece com Elites Militares e a Guerra de África de Manuel Godinho Rebocho (acima). Vale a pena falar com algum detalhe deste livro, porque o seu autor tem a pretensão de, com ele, ter produzido doutrina (veja-se o vídeo abaixo, com o trecho final da sua apresentação).
Percebe-se que a primeira parte do livro (as Elites Militares) terão feito parte de uma tese de doutoramento do autor – suponho que em Sociologia. O estudo das origens sociais dos oficiais do exército que abraçaram a carreira das armas entre 1900 e 1975 resulta muito interessante, um trabalho que julgo será pioneiro, pelo menos assim funcionará para quem não é especialista, como é o meu caso. Claro que haverá pormenores que despertam a nossa atenção pela negativa, como a contradição de não atribuir relevância estatística a uma diferença de 8,7% no topo da página (128) para depois, numa análise idêntica, atribuir significado a uma diferença de 4,6% no sopé dessa mesma página; ou fazer menção a 800.000 portugueses que terão cumprido o serviço militar nas colónias entre 1961 e 75, número que estará francamente inflacionado em relação à realidade (serão 450 a 500 mil), como eu já aqui havia explicado num poste deste blogue. Mas convém realçar que qualquer destes dois exemplos são pormenores de somenos importância, daquelas questões benignas que surgem numa normal arguição de uma tese como esta, função para a qual de resto, devido ao tema e ao grau (doutoramento), nem estaria, nem me sentiria habilitado.

O que não consegui perceber foi se a segunda parte do livro (intitulada a Guerra de África, um exagero como veremos adiante) também faria parte originalmente da tese de doutoramento do autor, ou se foi um acrescento baseado na experiência pessoal do autor como combatente nas tropas pára-quedistas na Guiné. Ao dispersar-se por dois temas com uma ligação tão frágil (como a chegada a Santarém e a Joaninha do Vale de Santarém…), ficou-me a questão se, com este livro compósito, se pretende atingir um objectivo (a análise sociológica das elites militares) ou dois objectivos (o anterior e também avaliar o comportamento destas nas guerras de África), ou se o verdadeiro objectivo será o de usar a primeira parte do mesmo para conferir respeitabilidade académica às teses muito mais polémicas que são apresentadas na segunda parte. De uma forma mais metafórica, e concebendo o livro como uma funda, perguntar-me-ia se as Elites Militares não serão a corda e a baladeira de onde o pedregulho de a Guerra de África é atirada ao alvo? Porque este livro, ao recorrer a exemplos, também criou alvos…

Analisando essa segunda parte, e começando pelo (meio) título, o de Guerra de África devia ser substituído por Guerra da Guiné, porque apenas é referido aquele Teatro de Operações, e melhor teria sido Guerra na Guiné, porque, pela forma como é abordada, nem sequer poderia existir a pretensão do autor em a descrever de forma cabal. Pela leitura, fica-se a saber que o autor cumpriu outra comissão em Angola mas a ela não se refere. É curioso, porque a evocação da sua experiência angolana contribuiria certamente para alargar a perspectiva do desempenho dos oficiais dessas elites militares para os quais ele se mostra agora tão crítico nesta outra fase do livro. Em contraste com o tratamento sistemático e estatístico que usou na primeira parte, as opiniões que agora defende sustenta-as em exemplos. Mas, mais do que à meia dúzia de exemplos pontuais do desempenho de capitães a que recorre (onde ressalta logo à vista o caso de Vasco Lourenço, saiba-se lá porquê…), o autor poderia ter feito uma investigação mais abrangente sobre o assunto, tanto mais que a tese que defende é tão controversa como, recorrendo a esta metodologia limitada, inconsequente: trata-se da frequente mediocridade dos oficiais profissionais quando em comparação com os milicianos.

Por exemplo, e este é um simples levantamento feito por mim para demonstrar o que Manuel Godinho Rebocho deveria ter feito, podia adiantar que a 1 de Janeiro de 1973, havia 783 capitães do Quadro nas três armas combatentes (infantaria, artilharia e cavalaria), dos quais havia 325 ocupando colocações no quadro metropolitano (67% de um total de 486 colocações disponíveis) enquanto 454 estavam na situação de adidos – ou seja, na sua esmagadora maioria, colocados no que então se designava por Ultramar. Quanto ao Quadro Especial de Oficiais, que acabara de abrir, tinha então apenas 51 capitães. E isto foi um levantamento que fiz em meia hora…

Aqueles números que usei, explorados mais a fundo e devidamente tratados resultariam numa imagem global mais sólida sobre a carência e a alocação dos oficiais do quadro (donde, segundo o autor do livro, eles sairiam privilegiados), além de outros indicadores que poderiam dar mais indicações sobre a sua qualidade relativa (o número de louvores e de condecorações será uma sugestão...). Era um trabalho que teria sido interessante e mais consistente para sustentar a doutrina de que o Doutor Rebocho se vangloria…

Por outro lado, e numa lógica ainda mais abrangente, deveria ter estudado para comparação, 1) o desempenho de outras elites portuguesas durante esse mesmo período - é o caso da dos médicos ou da dos advogados, para aferir da qualidade das elites militares no nosso contexto nacional; e 2) o desempenho de outras elites militares de outros países atravessando situações similares – estou a lembrar-me do caso mais flagrante da França e da Guerra da Argélia, para aferir dessa qualidade num contexto internacional. Se, em conclusão dessas comparações, se continuasse a advogar a mediocridade do desempenho de muitos dos membros das elites militares durante o período das Guerras de África, então essa conclusão imporia muito mais respeito... Vá lá, talvez se tratasse mesmo de doutrina...

Do ponto de vista metodológico e centífico a segunda metade do livro nada tem a ver com a primeira. É paupérrima. Ajuda a essa impressão decepcionante a sua redutora perspectiva de sargento que confere à escolha, por exemplo, do capítulo com o seu exemplo paradigmático: a Companhia de Caçadores Pára-Quedistas 123. Temos direito a descrições de técnicas de combate e emboscada de pequenas unidades de infantaria em que o autor se excedia. Temos direito a descrições de guerras de vontades entre o sargento veterano e o subalterno novato em que o autor vencia e impunha a sua. Seria a guerra, mas nivelada pelos horizontes do Sargento Rebocho... Mas ao Doutor Rebocho, que pretende passar por produzir doutrina, já se exige que nem seja preciso explicar como esses são aspectos acessórios para se alcançar a vitória numa guerra subversiva…

Na verdade, muito do que consta da segunda parte do livro é indigna de um Doutor Rebocho; parece ser apenas o Sargento Rebocho ajustando contas com o seu passado…

17 dezembro 2009

FILIP GOLIKOV, O GENERAL ESPIÃO QUE A REVISTA «TIME» POPULARIZOU NOS ESTADOS UNIDOS

Vá, cão, prepara o plano de uma nova campanha e trata de manter a cabeça entre os ombros! A frase data do Século XVII, terá sido proferida pelo Sultão Maomé IV e era dirigida ao seu Grão-Vizir, mas o despotismo e a ameaça nela contidas retratarão perfeitamente o ambiente que se vivia nos círculos chegados a Estaline durante os anos das purgas, na segunda metade da década dos anos 30. Só podemos tentar adivinhar os sentimentos contraditórios que terá sentido Filip Ivanovich Golikov (1900-1980) quando, em Julho de 1940, se viu nomeado como o novo director dos famosos Serviços de Informações Militares (GRU), o organismo responsável pela espionagem soviética.

O panorama não parecia animador… Dava-se a coincidência de todos os antecessores de Golikov naquele cargo, a começar pelo histórico fundador Ian Berzin e a acabar no predecessor imediato Ivan Proskurov, tinham acabado fuzilados… Restava a Golikov acreditar na sua boa Estrela – Vermelha, pois além de militar e até mais do que militar (ao contrário de muitos dos seus camaradas que se haviam filiado por razões práticas), Golikov considerava-se um comunista devotado. O novo director do GRU acabara de fazer 40 anos e havia 22 que era militante do partido. Fora por essas alturas que o jovem Golikov escrevera uns artigos no jornal local defendendo a Revolução Mundial
Enfim, pormenores que, em caso de necessidade, com a devida investigação do KGB, poderiam facilmente transformar-se em acusações de trotskismo naqueles tempos conturbados… Tanto mais que, como acontecerá possivelmente com muitos outras figuras de destaque do bolchevismo, a biografia oficial de Golikov parece ter sido reescrita. As suas origens não serão as impecáveis origens proletárias que todo o bom comunista gostaria de exibir e até a sua idade oficial parece ser falsa, já que se veio a descobrir que Golikov havia frequentado a Academia de Cavalaria ainda durante o período czarista, em 1911. Ora essa Academia aceitava cadetes a partir dos 17/18 anos e não crianças de 11…

Mas a grande acusação que a História reserva para Filip Golikov foi a de, enquanto director do GRU, não se ter apercebido de quais eram as verdadeiras intenções de Adolf Hitler, depois da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, de 1939 a 1941. Como consequência disso, o Exército Vermelho foi apanhado completamente de surpresa em 22 de Junho de 1941, quando do desencadear da Operação Barbarrosa, a invasão da União Soviética. Hoje sabe-se que a responsabilidade daquele erro clamoroso assenta inteiramente em Estaline, ao não querer ver aquilo que era evidente, enquanto Golikov, qual Grão-Vizir do Sultão, se limitou a manter a cabeça entre os ombros
Mas o grande contributo de Golikov para a História russa acontece logo de imediato, entre Julho e Setembro de 1941, quando Estaline o nomeia, por causa da sua actividade no serviço de informações, para encabeçar as duas missões soviéticas enviadas ao Reino Unido e aos Estados Unidos para se encarregarem da articulação prática da cooperação económica e militar com os seus novos aliados(*). Pelas razões ideológicas que são evidentes e com um conforto militar que não existia na altura, a historiografia oficial soviética sempre fez um grande esforço para descrever depois essas negociações como um fiasco. O que não só é mentira como também uma grande injustiça para Golikov.

Era a Golikov que competia demonstrar aos líderes dos dois países anglo-saxónicos que ainda se ia a tempo de auxiliar a União Soviética e que no seu país não se iria repetir uma hecatombe equivalente (ainda em escala mais alargada) à que acontecera em França no ano anterior. A avaliação da capacidade combativa do Exército Vermelho não era muito nítida: havia dado uma tareia aos japoneses em Khalkhin-Gol em Agosto de 1939 e depois havia levado uma tareia dos finlandeses na Guerra de Inverno em Dezembro. Em síntese, Golikov conseguiu que as desconfianças recíprocas fossem superadas e que uma cadeia de reabastecimentos logísticos fosse configurada e implementada.
Sobre as consequências a longo prazo das missões de Golikov, já aqui escrevi um poste dedicado ao impacto da colaboração americana no esforço de guerra soviético durante a Segunda Guerra Mundial, um outro tópico que também nunca foi muito bem quisto da historiografia oficial soviética…Quanto a Golikov, que regressou com um sucesso que só o tempo e a objectividade pôde avaliar justamente, pediu e concederam-lhe um comando militar, o 10º Exército, numa decisão que teve tanto de oportuna perante a pátria em perigo, como de sábia, porque dois dos seus sucessores como directores do GRU vieram posteriormente a morrer executados, sob o mesmo Estaline.

Comandante mediano, numa época em que as circunstâncias exigiam a excelência dos comandantes da Frente e sem nunca conseguir afastar de si a desconfiança dos seus pares devido ao seu percurso político-militar, a sua carreira acabou ao ser considerado o principal responsável pela derrota soviética durante a Terceira Batalha de Carcóvia, em Fevereiro e Março de 1943. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que Golokov travava essa sua última batalha como comandante operacional e porque, depois das suas visitas, se tornara num dos raros generais soviéticos então conhecido fora dela, a revista norte-americana Time concedia-lhe a honra (rara) de figurar numa das suas capas
(*) Ressalve-se que os Estados Unidos só viriam a entrar na Segunda Guerra Mundial dali a cerca de quatro meses, em Dezembro de 1941.

16 dezembro 2009

O VERMELHO E O NEGRO EM VERSÃO PAULA BOBONE

A futilidade só tem sentido se existir numa redoma estanque que a proteja de qualquer matéria mais evoluída. Servindo para identificar a rainha de Espanha numa fotografia, a futilidade entra em colapso imediato no caso de se precisar de saber, por exemplo, quem teria sido a última rainha de Espanha antes da actual, muito menos reconhecê-la numa fotografia ou numa gravura (Vitória Eugénia, mulher de Afonso XIII e avó do actual monarca espanhol, na fotografia acima). A prova disso parece ser mais uma vez reavivada na página das ditas futilidades da edição de hoje do Público. Pode-se clicar em cima da imagem abaixo para a ampliar.
A fotografia é de um jantar de gala dado anteontem em Madrid em homenagem ao presidente vietnamita. O trecho da legenda sublinhado diz, depois de se referir a O Vermelho e o Negro de Stendhal: ainda que (…) ninguém faça a menor ideia do motivo que levou o romancista a escolher estas duas cores para título do seu livro. Por acaso, até há várias ideias para a escolha daquelas cores… A mais difundida, associa o vermelho à cor das fardas em alusão à carreira militar que o ambicioso Julien Sorel teria seguido sob o Império e o negro à cor dos trajes eclesiásticos da carreira que ele teve que adoptar sob a Restauração…
Mas também, recuperando uma expressão usada na própria notícia, verdade seja dita, a que leitores daquela notícia é que o pormenor interessará?...

INTEGRAÇÃO E INCLUSIVIDADE

Já aqui mencionei que moro na proximidade de uma escola secundária da periferia de Lisboa. A tal escola onde também se registam incidentes de despotismo nas instalações escolares, que também seria merecedora de uma manifestação de mães preocupadas à sua porta, para a organização da qual eu desafiei oportunamente a deputada bloquista Ana Drago, especialista na organização desse tipo de eventos televisionados, desafio para o qual ainda hoje, mês e meio depois, estou à espera de uma resposta…
Do que eu quero aqui agora falar também se passa à porta do referido estabelecimento de ensino mas é de um cariz diferente: trata-se de uma extensa fila composta por alunos, funcionários e professores da escola que, com a regularidade dos intervalos, vem para o passeio frontal, junto aos muros da escola, fumar o seu cigarro, enquanto conversam amenamente… No interior é proibido e nestes dias em que escrevo faz frio e a afluência diminui, mas certamente que haverá aqueles incondicionais que estão lá sempre…

O que me impressiona, e será provavelmente fruto da esquizofrenia dos tempos que vivemos, é como o aparelho escolar em geral e aquela escola em particular, conseguem fazer conviver alegremente aquele discurso em eduquês repleto de chavões – a necessitar de explicações sobre o seu significado… ­– sobre o ensino integrado ou o ensino inclusivo, com esta incapacidade de integrar e incluir, no espaço dos vários hectares de que aquela escola dispõe, uma minoria dos seus membros… que são fumadores.
Para além das causas fracturantes da supracitada deputada Ana Drago, também se torna impossível levar a sério a racionalidade da decisão de expulsar os seus das suas instalações por causa do… fumo. Comparado com realidades como as dos cursos tecnológicos mais acessíveis e propostas para que haja aulas ministradas em crioulo cabo-verdiano, que sentido fará justificar aquele ostracismo com o tradicional comentário sempre podem deixar de fumar? Os tecnológicos não podem começar a estudar e os outros a aprender português?