31 maio 2006

UMA CONFUSÃO LIBANESA

O Líbano é um pequeno país simpático situado nas costas do Mediterrâneo Oriental e desproporcionalmente conhecido para a sua dimensão. Por razões históricas, certamente, como pátria de origem dos fenícios. Mas também por outras causas mais recentes.

Desde 1975 que o Líbano deixou de ser um país no sentido clássico do direito internacional mas um agrupamento de colectividades que se podem sentir representadas pelos mesmos símbolos (a bandeira, por exemplo) e que podem ocasionalmente operar coordenadas para um mesmo propósito.

É na quantidade de colectividades envolvidas que o exemplo libanês é verdadeiramente ímpar e criador de uma nova escola. Tradicionalmente, uma guerra civil era travada por dois lados, embora em cada um coexistissem várias facções – o exemplo clássico é o da guerra civil espanhola.

O modelo libanês é muito mais dinâmico e a guerra civil é travada directamente pelas facções numa espécie de jogo de todos contra todos, com alianças pontuais muito fluidas – a lembrar as que se fazem por cá entre dirigentes de futebol – que obrigam a uma atenção redobrada por quem se queira manter informado.

Só para dar uma ideia do ponto a que pode chegar a especificidade de cada facção, expliquemos que no Líbano há uma comunidade cristã e uma muçulmana. Esta última, por sua vez, desdobra-se entre as comunidades dos xiitas, do sunitas e dos druzos. Entre os xiitas, há uma facção apoiada pela Síria (Amal) e outra apoiada pelo Irão (Hezbollah). Se esta é a descrição só de um ramo, imagine-se a árvore toda, que não deve ter menos de uma dúzia de nomes.

Com a rejeição, por parte do major Reinado, líder da facção dos militares dispensados, das decisões do presidente Xanana de ontem, a adicionar às movimentações do ministro dos negócios estrangeiros, Ramos Horta, cujos negócios parecem ser cada vez menos no estrangeiro, rematando com as entrevistas da australiana Madame Gusmão aos jornais da sua terra, parece estar a caminhar-se a passos largos para uma completa libanização da política timorense.

Se isso acontecer, parecem ser boas notícias para a Austrália, não tão satisfatórias para Portugal e, definitivamente, muito pouco interessantes para os timorenses. A atender ao que aconteceu com o precedente libanês, ninguém tem paciência para lá manter forças de interposição por muito tempo e é a potência vizinha que fica com o encargo de manter a ordem. E recorde-se, a Síria ficou cerca de 30 anos a controlar o Líbano.

A multiplicação de facções e a indisciplina daí inerente faz prever que estes primeiros episódios da confusão em Timpor sejam apenas a antecâmara de um encadeamento de conflitos multilaterais para os quais não haja saída previsível, nem disposição de terceiras partes para os sanar.

Se não houver bom senso em todas as facções timorenses, depois de 25 anos de ocupação descarada da Indonésia, sujeitam-se a outros 30 de ocupação benigna da Austrália. É que, é garantido que, ao mesmo tempo, o apoio português vai esgotar-se à medida que os nossos remorsos acabarem…

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