15 de Outubro de 1963. Esta notícia do Diário de Lisboa dá-nos a verdadeira imagem de como podia ser noticiado o presidente dos Estados Unidos há 60 anos. Era um alvo político como outro qualquer, e esta reportagem acabada de publicar na revista norte-americana Newsweek, a que o vespertino lisboeta dá, por sua vez, ressonância, é a evidência disso. Assinalam-se as consequências da política racial da Administração Kennedy, realçando-se o desagrado que essa política estava a provocar entre os eleitores brancos dos estados sulistas. Ainda hoje estes últimos continuam a constituir o núcleo mais reaccionário do eleitorado americano, onde, nos dias que correm, as simpatias por Donald Trump prevalecem por larga maioria. Contudo, regressando aos redactores que então apreciavam negativamente em saldos de votos as consequências da política racial naquelas paragens, aquilo que eles não sabiam, e hoje nós sabemos, é que, dali por pouco mais de um mês, John F. Kennedy viria a ser assassinado e o tratamento mediático ao presidente defunto passou a ser o de um mártir, contra quem nada de mal se passou a poder escrever. No jornalismo, o prevalecente é a capacidade de vender papel, não as convicções.
15 outubro 2023
14 outubro 2023
A BATALHA AÉREA PELA PRODUÇÃO DE ROLAMENTOS
(Republicação)
14 de Outubro de 1943. A USAAF lança um raid de bombardeamento estratégico sobre a Alemanha que envolve 291 bombardeiros B-17. O alvo é a anónima cidade de Schweinfurt na Baixa Francónia, situada nas plácidas margens do rio Meno (49.000 habitantes em 1939), onde os norte americanos elegeram como alvo a adjacente, mas única, fábrica de rolamentos que existe em toda a Alemanha. O ambicioso objectivo do raid é entravar a produção industrial de guerra do III Reich, privando-a do discreto mas precioso dispositivo, que é indispensável para múltiplas aplicações de equipamentos industriais. Cada B-17 transporta duas toneladas de bombas: são quase 600 toneladas de explosivos que aquela verdadeira armada aérea transporta para arrasar com as instalações fabris. E, ao invés do que faz a RAF, a USAAF continua a preferir realizar os seus raids durante o dia, para que se obtenha uma maior precisão de bombardeamento. Este raid de há precisamente oitenta anos sobre a Alemanha vai mostrar o preço terrível que se pode pagar por estas acções quando as forças de caça do inimigo estão preparadas para reagir. De uma forma simétrica ao que acontecera três anos antes sobre a Grã-Bretanha, a Luftwaffe caiu em cima das formações da USAAF. Dos 291 aviões B-17 que participaram na missão, 60 foram abatidos em voo,...
...17 regressaram tão danificados que acabaram descartados, outros 121 receberam danos que eram reparáveis. Apenas 32%, ou seja, só um em três dos B-17 que participaram no raid é que aterraram incólumes. Os custos humanos foram ainda mais terríveis: dos 2.910 homens das tripulações (um B-17 possuía uma tripulação padrão de 10 homens) houve 650 baixas (22%), sendo 600 dados como desaparecidos em combate (os tripulantes dos aviões abatidos) e ainda 50 mortos e feridos entre as tripulações dos aviões que conseguiram regressar. A esmagadora maioria dos 600 desaparecidos havia morrido com os aviões que se despenhavam. No final da guerra, em 1945, só se vieram a encontrar 65 prisioneiros que haviam participado no raid (11%). E contudo, o mais irónico perante tão sérias perdas é que o apuramento dos factos veio a revelar que o objectivo estratégico fora mal configurado. É verdade que a fábrica de rolamentos de Schweinfurt ficara destruída e que a sua produção cessara durante seis semanas. Mas nunca houvera qualquer problema de aprovisionamento da parte da indústria alemã. Havia stocks de segurança e, além disso, não se tratando de uma produção directamente conotada com material militar, os alemães abasteciam-se regularmente de rolamentos em produtores suecos e suíços, que eram países neutrais.
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PUBLICIDADE À CERVEJA DE PRESSÃO
14 de Outubro de 1963. Registe-se esta campanha publicitária de Outono de promoção à cerveja a copo. A imperial era então uma novidade que concorria com o copo de três. No anúncio da direita (ambos ocupam uma página inteira de jornal), o consumidor é apresentado estando a beber a imperial aparentemente de pé e trajando um fato, conferindo ao acto de beber cerveja uma certa diferenciação, constrastando com o consumo de vinho avulso.
13 outubro 2023
PARA ESTA PUBLICAÇÃO CONTRIBUO QUASE SÓ COM A ILUSTRAÇÃO*
O texto esse, é uma passagem de três parágrafos de Susana Peralta dedicadas à Saúde, no artigo em que hoje, no Público, ela comenta o vazio palavroso que compõe o Orçamento do Estado (OE) acabado de apresentar. É que escusavam de perder tempo a escrever aquilo: a esmagadora maioria das pessoas não o lê; e quem lê e depois comenta, diz, com razão, que o que ali está escrito não serve para rigorosamente nada. Porque os autores do documento (OE) não possuem o exclusivo da habilidade de escreverem palavras desprovidas de substância e realidade, pode até descrever-se ironicamente o exercício abaixo como um alinhamento de críticas construtivas de Susana Peralta.
«Por exemplo: os concursos para médicos de família têm ficado aquém das expectativas. O Governo abre um determinado número de vagas, mas não
tem candidatos suficientes para as preencher. Como resposta a este desafio, o
relatório do OE oferece frases vagas e declarações de intenções: “Manter o
reforço da formação de médicos na especialidade de medicina geral e
familiar e agilizar o processo da sua contratação e fixação no SNS”;
“Desenvolver e qualificar a política de reforço dos recursos humanos (...),
com reforço do planeamento e gestão estratégica de RH no SNS, promovendo a
motivação pelo trabalho, o equilíbrio entre a vida familiar e profissional e
a contínua evolução científico-profissional, com foco na melhoria das carreiras
profissionais (...)”. Dito assim, já quer dizer pouco. Se, para mais, não
sabemos qual é o custo com cada uma destas linhas de actuação, ficamos sem
perceber se o orçamento resolve o problema.
Sabemos, igualmente, que há falta de médicos nos hospitais do SNS,
presumivelmente na origem da sobrecarga de horas extraordinárias que têm levado
muitos profissionais a recusarem trabalhar mais e dos encerramentos temporários
de alguns serviços de urgências. Procurando soluções para este problema no
relatório do OE, encontramos o desenvolvimento e qualificação que já mencionei
e um compromisso com a melhoria e a eficiência dos hospitais públicos, que
inclui “rever o modelo de organização e funcionamento dos serviços de urgência,
dinamizando novos modelos de organização”, “dinamizar a organização interna dos
hospitais em Centros de Responsabilidade Integrados”, “reforçar a autonomia de
gestão” com vista a uma maior satisfação de utentes e profissionais, entre
outros.
Melhorar, dinamizar e reforçar são objectivos óptimos, mas como? Mesmo que o
relatório não detalhe cada uma destas linhas de actuação, o ministério tem de
conseguir estimar o seu custo. Assim descrito, pode ser tudo ou quase nada e a
nossa capacidade de escrutínio fica muito limitada.»
* E mesmo essa ilustração é descaradamente inspirada numa outra recentemente publicada na «The Economist»...
O DIA DA ESTREIA DO TEATRO DA CORNUCÓPIA, QUE SE TORNOU POLÉMICA NO DIA DO ENCERRAMENTO
13 de Outubro de 1973. A estreia do teatro da Cornucópia teria sido um acontecimento perfeitamente banal, não fosse a disputa, travada 43 anos mais tarde, sobre se Marcelo Rebelo de Sousa teria estado presente ou não nessa estreia. O encenador Jorge Silva Melo assegurava que não e um presidente da República tratado como rotundo mentiroso é sempre um embaraço social. Portanto, este é o dia em que, há cinquenta anos, Marcelo disse que tinha estado naquela estreia. Contudo, mesmo elegido por duas maiorias robustas para o cargo, o presidente Marcelo nunca foi pessoa reconhecida pelas convivência franca e leal com a Verdade.
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12 outubro 2023
AQUELES SEPTUAGENÁRIOS A QUE LHES FALTA OBJECTIVIDADE PARA SE PRONUNCIAREM SOBRE O 25 DE NOVEMBRO
Não me parece ser por acaso que qualquer um dos três septuagenários abaixo - José Pacheco Pereira, Francisco Seixas da Costa, Irene Flunser Pimentel - se mostra aplicado em mostrar a sua opinião sobre o formato como deveria ser discutida a data de 25 de Novembro. É que, qualquer um deles já por lá andava... e todos eles ficaram do lado dos vencidos naquela data. É bem verdade que hoje podemos absolvê-los por aqueles entusiasmos revolucionários da sua juventude, mas que essa absolvição não seja sinónimo de falta de percepção do que significavam as opções que eles tomaram naqueles tempos, em termos dos verdadeiros conceitos de Democracia e de Liberdade. De um lado - o vencedor - estava a Democracia política, do outro... não estava. Com uma ironia ferina poder-se-á dizer que, a 25 de Novembro de 1975, qualquer dos três abaixo esteve do lado errado da História. Entretanto mudaram de opinião sob as virtudes da Democracia que então classificavam de burguesa. E ainda bem. A maioria do resto das suas vidas foi vivida (concordantemente) sob esse registo democrático (burguês). Mas confesso que acho ridículo este seu zelo - e de outros da sua geração - em quererem ainda e sempre reapropriar-se da narrativa daqueles tempos, cada vez que o incómodo assunto do PREC - e do seu término - volta à baila. Se ao menos admitissem honesta e francamente o quão errados estiveram...
PS - O programa «O Princípio da Incerteza» (CNN) de Domingo passado foi um dos sítios onde se pôde observar o contraste entre as opiniões comprometidas destes septuagenários (Pacheco Pereira) com as das outras gerações, protagonizadas por Alexandra Leitão (50 anos) e sobretudo António Lobo Xavier (64 anos), que fez uma revisão da narrativa apresentada previamente por Pacheco Pereira, adicionando-lhe alguns aspectos políticos que este último se esquecera de referir.
A CONDENAÇÃO POR CORRUPÇÃO DO ANTIGO PRIMEIRO-MINISTRO JAPONÊS
12 de Outubro de 1983. O antigo primeiro-ministro japonês Kakuei Tanaka é condenado a quatro anos de prisão pelos subornos que recebera da construtora aeronáutica americana Lockheed. Os factos remontavam a 1972, um primeiro escândalo que levara à demissão de Tanaka ocorrera em 1974 e em 1976 ele chegara a ser preso preventivamente. O julgamento - pelo menos um primeiro julgamento... - concluía-se sete anos depois daquela prisão preventiva. São evocações destas que não nos esmorecem o ânimo de que, ainda algum dia, haveremos de ver José Sócrates como réu de um tribunal... apesar de já se terem passado nove anos depois da sua prisão preventiva.
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11 outubro 2023
O FRACASSO DO LANÇAMENTO DA SOYUZ MS-10
11 de Outubro de 2018 foi o dia em que o voo espacial tripulado da Soyuz MS-10 foi abortado pouco mais de um minuto após o lançamento por causa de uma falha de um dos quatro propulsores que não se separou normalmente da estrutura (ver acima). Tratava-se do 139º voo de uma cápsula Soyuz. Esta tinha como objectivo transportar dois cosmonautas para a Estação Espacial Internacional (ISS). No momento em que foi declarada a contingência, a torre do sistema de escape de lançamento já havia sido ejectada e a cápsula foi desligada do foguete usando os motores de lançamento de um foguete sólido que estão instalados na carenagem da cápsula. Os dois membros da tripulação, o cosmonauta da Roscosmos Aleksey Ovchinin e o astronauta da NASA Nick Hague, foram recuperados com boa saúde depois de terem efectuado um voo balístico que os levou até aos 93 km de altitude. O último episódio do género a acontecer num lançamento russo (soviético) dera-se quase precisamente 35 anos anos, quando a Soyuz T-10-1 explodiu na plataforma de lançamento em 26 de Setembro de 1983, um episódio também aqui evocado há poucos dias no Herdeiro de Aécio. Para os mais interessados, o filme animado abaixo explica em 4 minutos e meio o que aconteceu há cinco anos.
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10 outubro 2023
ATÉ QUANDO SE CONTINUARÁ A COBRIR MEDIATICAMENTE A GUERRA DA UCRÂNIA?
Ontem, o jornal Observador era uma das raras publicações a dar ainda algum destaque à guerra na Ucrânia, que ia já no seu 593º dia. Porque se trata do 593º dia, já estará a cansar as pessoas. Israel é a nova coqueluche do conflito armado. Até a fotografia escolhida pelo jornal era sugestiva da transição mediática que se está a impor, com o destaque dado às bandeiras israelitas que foram afixadas nalgumas montras de Kiev. Por sinal, considero que aquilo que se passa na Ucrânia é mais importante do que o que se passa e se possa vir a passar em Israel em termos de segurança europeia. Mas isso é só uma questão de segurança, não é uma questão de entretenimento.
A DEMISSÃO DO PRIMEIRO MINISTRO BRITÂNICO
10 de Outubro de 1963. Na sequência de uma cirurgia, o primeiro-ministro britânico, Harold Macmillan, decide demitir-se do cargo. Ocupar o lugar de topo da vida política do Reino Unido nunca foi tarefa fácil, a conjuntura não se apresentava favorável para o governo, por causa de um encadeado de escândalos, mas o que irá dominar a impressão desta decisão inesperada (repare-se acima como a notícia é dada numa 2ª Edição montada à pressa) é o desaparecimento brusco da força anímica daquele que fora até aí conhecido entre alguns dos seus apaniguados por Supermac.
Adenda: Por me ter referido a um Supermac e ainda referente a outros Macs em grande, alguém ainda se lembra de um dito Big Mac, prometido para altos voos políticos vai para uns sete anos?... Que é feito dele?
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09 outubro 2023
O «BODY-BAG» ONDE «AMORTALHARAM» ANA LOURENÇO
Num dos telejornais da RTP deste fim de semana, o de Sábado, a apresentadora Ana Lourenço apareceu vestida com aquilo que parecia um body-bag, daqueles modelos em que se guardam pudicamente os cadáveres para transporte. A única concessão estética é que o referido body-bag fora aberto numa das extremidades, de onde emergia a cabeça da apresentadora, com um ar compreensivelmente assustado. Será esta uma nova forma de criar subconscientemente no telespectador uma maior empatia quando a notícia envolve mortos e feridos?... Aquela edição do telejornal, com as notícias do ataque do Hamas a Israel, tinha a sua quota parte deles.
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PRIMEIRA PÁGINA DE UM JORNAL COLABORACIONISTA FRANCÊS
(Republicação)
9 de Outubro de 1943. A primeira página de um jornal colaboracionista francês, o Paris-Soir, que se publicava em Paris. Não surpreende que as notícias dêem uma versão da evolução da guerra nas suas diversas frentes que é absolutamente engajada ao que transmitiam os comunicados alemães (e japoneses). Destaque-se a notícia de que "Londres havia sido violentamente bombardeada na noite anterior". Para os colaboracionistas franceses, completamente esquecida a aparência de neutralidade não beligerante de 1940, era importante enfatizar episódios como aquele, numa espécie de desforra por procuração dos bombardeamentos que os Aliados estavam a realizar sobre as cidades francesas (dei aqui conta do de Rennes em Maio, do de Nantes em Setembro). Mas vale a pena também aferir qual a gravidade do que acontecera consultando a edição do mesmo dia do Diário de Lisboa, que remetia a notícia sobre o mesmo assunto para a última página, com o comunicado britânico sobre o que acontecera em Londres, que aparece com o (pequeno) destaque que se pode apreciar abaixo... O apuramento dos factos viria a demonstrar que a sobriedade do jornal lisboeta estaria mais próxima dos factos: o "pequeno número de vítimas" a que o comunicado faz referência seria mais tarde computado em 35, o que dificilmente se enquadrará com a "violência" alardeada pelo jornal parisiense. Apesar da censura doméstica, a qualidade da informação disponível em Portugal não tinha qualquer comparação com a da Europa ocupada.
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08 outubro 2023
OS HERÓIS E OS SUPER HERÓIS, QUE SÓ ÀS VEZES CONSEGUEM QUE OS HERÓIS NÃO COMETAM DISPARATES
8 de Outubro de 1943. A entrada do diário desse dia do general Alan Brooke mostra-o desesperado com Winston Churchill. Nos últimos dias, o primeiro-ministro britânico aderira entusiasticamente - como era sempre seu timbre - a um novo projecto que passava por invadir a ilha grega de Rodes (assinalada a vermelho no mapa mais abaixo). Além do projecto ser um despropósito do ponto de vista militar (confira-se com as setas que assinalam a progressão dos exércitos aliados pela península italiana), só a insistência por parte de Churchill arriscava-se a indispor os aliados norte-americanos, que viam nestas maquinações a intenção britânica de os arrastar para um envolvimento nos Balcãs - desconfianças que o próprio Alan Brooke confessava não serem descabidas. No final, embora os livros de história sejam muito discretos quanto ao assunto, Alan Brooke não conseguiu amansar Winston Churchill e o resultado foi um fiasco. Este é mais um dos exemplos históricos de que as grandes proezas históricas podem, por vezes, não consistir naquilo que foi feito, mas precisamente naquilo que se conseguiu impedir que se fizesse, porque se tratava de um completo disparate. Aliás, não foi em vão que um dos mais inteligentes assassinatos de carácter foi perpetrado por Alan Brooke precisamente a respeito de Churchill, de quem disse que ele tinha muitas, uma dezena de ideias por dia, que uma delas era boa, só que o próprio Churchill não conseguia saber qual... Mas, porque as melhores histórias não precisam de narrar aquilo que de facto aconteceu é que uma biografia de Winston Churchill tem muito mais saída do que uma de Alan Brooke. As fotografias dos dois foram feitas também há quase precisamente oitenta anos, pelo fotógrafo canadiano Yousuf Karsh, que estava então em Londres. Lê-se no mesmo diário que a sessão com Alan Brooke (de onde saiu a fotografia abaixo, de mapa da Europa em fundo) teve lugar a 13 de Outubro.
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A CONTRA OFENSIVA FALHADA DOS ISRAELITAS NO SINAI (GUERRA DO YOM KIPPUR)
8 de Outubro de 1973. Guerra do Yom Kippur. Dois dias depois da ofensiva egípcia, que havia feito as suas tropas atravessar o canal do Suez e penetrar na península do Sinai, as tropas israelitas desencadeiam uma contra-ofensiva, operação que se virá a revelar um fracasso. Concebida como uma manobra táctica que ceifaria por detrás as ligações logísticas das unidades combatentes egípcias (ver o mapa acima), a acção fracassou. Ao contrário do que acontecera em 1967, os egípcios estavam agora muito bem apetrechados e treinados em armamento anti-tanque (AT-3 Sagger e mesmo RPG-7), que neutralizou as concentrações blindadas israelitas que haviam feito o sucesso da Guerra dos Seis Dias.
Nesta contra-ofensiva, os israelitas não só não haviam progredido grande coisa no terreno como, ainda por cima, haviam perdido 73 carros de combate num só dia, número que corresponde a 42% do total inicial de 172 da divisão blindada (e a quase 10% do seu parque total...). Os egípcios, remetidos à defesa, haviam perdido, quanto muito, uma trintena de tanques - e os tanques soviéticos sempre foram de qualidade muito inferior aos ocidentais. Pior: a divisão havia perdido, entre mortos, feridos e capturados, três dos seus nove experientes comandantes de batalhão. A Comissão Agranat irá ser muito severa para com as decisões dos comandantes militares nesta frente do Sinai nesta fase da guerra.
Contudo, tão importantes quanto estes desfechos tácticos, era a conclusão estratégica que o ritmo de desgaste material desta guerra iria obrigar a um envolvimento logístico sério por parte das duas super-potências para reabastecerem os dois lados combatentes (Israel de um lado e Egipto e Síria do outro). Já aqui se mencionou o caso dos Estados Unidos e Israel, que nos envolveu directamente por causa da base das Lajes. Mais discreto foi o caso dos soviéticos e a sua ponte aérea de material de guerra para os países árabes. Mas ela existiu, como se percebe pela passagem abaixo*, em que se nota - já então! - a atitude pró-russa (e anti-americana) da Turquia, apesar de pertencer à NATO!
No total, os Estados Unidos transportaram 22.325 toneladas de equipamentos militares por via aérea a partir de 12 de Outubro de 1973. Os soviéticos entre 12.500 e 15.000 toneladas. Uma boa razão para recordar este episódio de há cinquenta anos é fazer compreender melhor aos eventuais leitores deste blogue quais são os problemas do recompletamento do material de guerra nas fases mais acesas de uma guerra moderna, como a que se trava na Ucrânia**. Compreender como se revela importante, mas também complicado, substituir todo aquele equipamento que é destruído, no caso de se tratar de um país beligerante que não tem meios industriais para o poder substituir àquele ritmo, por si próprio.
* A passagem, assim como o mapa inicial e a avaliação da batalha de 8 de Outubro constam do livro «La Guerre Israélo-Arabe d'Octobre 1973» de Pierre Razoux, Economica 1999 já aqui mencionado.
**Este texto havia sido preparado antes dos ataque do Hamas a Israel. Apesar da belicosidade das declarações do 1º ministro israelita, ainda não se trata bem de uma guerra, pelo menos com as dimensões e gravidade da do Yom Kippur.
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07 outubro 2023
OS 75 ANOS DA APRESENTAÇÃO DO CITROËN 2 CV
7 de Outubro de 1948. Inauguração do Salão Automóvel de Paris, com a presença do presidente Vincent Auriol. O Citroën 2CV era uma das novidades presentes mas, como se percebe acima, não impressionou particularmente. O semanário satírico Le Canard Enchaîné tê-lo-á descrito na ocasião como «Uma lata de conservas, para campistas individuais, com quatro sardinhas lá dentro». Nos quarenta e dois anos seguintes fabricar-se-ão mais de cinco milhões daquelas latas de conservas... A demonstração de como um humorista pode ter imensa piada e, ao mesmo tempo, não perceber rigorosamente nada do que está a falar.
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06 outubro 2023
O GRANDE PREDADOR DA SAVANA SUL AFRICANA
Um estudo, cujos resultados foram muito recentemente publicados na revista Current Biology, parece demonstrar, a partir dos padrões comportamentais, que o grande predador da savana sul africana é... o Homem. Conforme se comprova pelas imagens abaixo, vários animais de porte - girafas, elefantes, rinocerontes - foram experimentalmente sujeitos a sons emitidos por animais predadores, nomeadamente o do apex daquela região, o leão. A reacção varia, conforme a espécie: as girafas fogem, enquanto os rinocerontes permanecem indiferentes e os elefantes até reagem confrontativos. Em contrapartida, aquilo que os afugenta a todos, sem distinção, parece ser o som de conversas humanas, seja em que língua for. Eis uma conclusão que explicará de um outro modo aquele tradicional pedido de silêncio aos turistas, quando eles vão ver os animais nas reservas: não será tanto para segurança dos turistas, será sobretudo porque o som das suas vozes assustaria os animais...
O INÍCIO DA GUERRA DO YOM KIPPUR
(Republicação reescrita em função de novos vídeos)
6 de Outubro de 1973. Neste dia de há cinquenta anos e à hora mais canonicamente improvável para o desencadear de ofensivas militares (14H00), egípcios e sírios, de uma forma simultânea e concertada iniciaram uma ofensiva sobre as posições que os israelitas haviam conquistado seis anos antes durante a Guerra dos Seis Dias. Esta intenção de desforra árabe, deu-se o nome de Guerra do Yom Kippur, em alusão ao feriado religioso judeu que desguarnecia precisamente naquele dia as...
...guarnições das posições defensivas israelitas. Tratou-se tanto de uma guerra convencional (para a descrição detalhada da qual se sugere o livro acima de Pierre Razoux*), como se tratou de uma guerra de propaganda disputada no palco da opinião pública mundial. Desde o princípio que houve a preocupação de encher os noticiários com os sucessos das suas respectivas armas. O Egipto acima, a atravessar o canal do Suez, Israel abaixo, a rechaçar a ofensiva síria.
* É o mesmo Pierre Razoux que, no jornal Le Monde e a propósito desta outra guerra entre o Hamas e Israel, considera agora que «o Hamas está a fazer tudo o que pode para atrair Israel para uma operação terrestre».
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PORTUGAL, A BASE DAS LAJES E A GUERRA DO YOM KIPPUR
6 de Outubro de 1973. Foi o dia do início da Guerra do Yom Kippur: egípcios e sírios atacaram de surpresa e simultaneamente os israelitas num dia feriado para os últimos. Mas as vicissitudes dessa guerra só nos interessem colateralmente, e nem sequer ainda haviam chegado às redacções dos jornais em qualidade e quantidade para aparecerem com o devido destaque na edição desse dia (canto inferior direito). Em contraste, o que nessa edição de há 50 anos se pode perceber muito claramente é o recado público que a diplomacia portuguesa, encabeçada pelo próprio ministro dos Negócios Estrangeiros português, Rui Patrício, pretendia transmitir ao Departamento de Estado norte-americano. Aproveitando a estadia daquele na ONU, em Nova Iorque, os portugueses não escondiam a sua diplomática irritação com o desinteresse demonstrado pelo outro lado com a renegociação atempada do acordo que lhes permitia a utilização da base das Lajes nos Açores. «Portugal não deseja renovar o arrendamento da base aérea americana dos Açores (...) o arrendamento termina dentro de três meses e, até agora, não se realizaram quaisquer negociações tendo em vista a renovação do contrato» são as palavras atribuídas a Rui Patrício. E, num desdém ostensivo pelas cláusulas vigentes, prosseguia: «dos 436 milhões de dólares prometidos por Washington (...), Portugal recebera apenas um pequeno navio de investigação oceanográfica e um milhão de dólares destinados a bolsas para estudantes portugueses que desejassem frequentar as universidades americanas.»
Um mau negócio: «(...) o seu governo não utilizou os 400 milhões de dólares de créditos (bancários) para a compra de produtos americanos, pois encontrara na Europa melhores condições». Em suma, se os Estados Unidos não se mostravam interessados em preservar as facilidades da base das Lajes, Portugal também não se mostrava interessado nas contrapartidas recebidas até aí pela concessão dessas mesmas facilidades. Mas em breve tudo isso se iria alterar radicalmente da parte dos Estados Unidos. À medida que a guerra do Yom Kippur evoluía, mais Israel se via à beira do colapso militar. A seu pedido, os Estados Unidos iniciaram uma vasta ponte aérea transportando material de guerra que substituísse aquele que estava a ser perdido na frente de combate. O vídeo abaixo dá uma versão estupidamente ingénua desse auxílio, embora a pretensa ingenuidade bíblica e o papel salvífico de Richard Nixon, não lhes dê, aos autores, para querer ressalvar também a importância geográfica única da base das Lajes para a montagem dessa ponte aérea que viria a ligar os Estados Unidos a Israel, salvando os seus cidadãos. A anuência portuguesa foi preciosa, tanto mais que ela contrastou com a posição da esmagadora maioria dos restantes países europeus, que procuraram preservar a sua neutralidade no conflito israelo-árabe. E, por uma (primeira?) vez, os americanos perceberam o valor da localização da base das Lajes. Claro que o acordo, tão periclitante que estava, acabou por ser renovado e que o trabalho negocial da nossa diplomacia veio a ser muito facilitado...
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05 outubro 2023
KEVIN MCCARTHY, O ALDRABÃO
A passagem de Donald Trump pela presidência dos Estados Unidos fez de mim um seguidor muito mais atento da actualidade política por aquelas paragens. Donald Trump abandonou (relutantemente...) a Casa Branca vai para mais de dois anos e meio, mas as réplicas sísmicas que ele e os seus incondicionais deixaram no sistema ainda se fazem sentir, nomeadamente a ultrapassagem continuada de regras de conduta de há muito assentes no sistema político daquele país. Esta semana começou com mais um desses episódios inéditos, o da demissão do líder republicano da Câmara dos Comuns, Kevin McCarthy, eleito pela Califórnia. Para que essa demissão se tivesse dado, e porque a maioria republicana naquela câmara é muito reduzida, teve que haver uma defecção de apenas oito congressistas republicanos a votarem contra o seu próprio líder (acima, à direita), que votaram conjuntamente com os congressistas democratas.
Se, por um lado, a demissão surpreendeu (é a primeira numa história parlamentar com mais de 200 anos!), por outro lado, as dificuldades por que o speaker Kevin McCarthy havia passado para conseguir ser eleito em Janeiro deste ano (15 votações! - um fenómeno também muito raro), indicavam quanto a sua liderança era frágil, para além de controversa. Uma fracção mais radical de congressistas republicanos, composta por uma vintena de representantes (acima, à esquerda), recusou-se continuadamente a votar no candidato do seu partido. Só gradualmente, é que os membros dessa fracção (conotada com Donald Trump) foram transigindo até McCarthy obter a maioria necessário de 218 votos. Mas que o episódio foi indigesto para alguns desses relutantes, é que foi um deles, Matt Gaetz da Florida, a promover a votação de que resultou a deposição de McCarthy. E é aqui que chegamos ao âmago deste poste.
Porque a crise política que se desencadeou na sequência da deposição de McCarthy se deveu aos dissidentes republicanos e porque a imagem desses dissidentes foi Gaetz, todo o aparelho mediático americano está a abordar implicitamente a questão como se se tratasse de uma reedição (reduzida) do que acontecera no princípio deste ano. Só que não. Cruzando as duas listas - algo que não tenho visto feito - percebe-se que há cinco nomes comuns, mas há três nomes novos entre os dissidentes, o que quer dizer que qualquer deles três arranjou entretanto razões para não gostar do speaker do seu partido. Por outro lado, há que reconhecer que houve quinze antigos relutantes que se mantiveram agora estóicos contra esta última tentativa de depor McCarthy. Este é o vício do jornalismo: a presunção é que o leitor é estúpido e que o melhor é que a história seja contada de forma simplificada, mesmo que a simplificação a desvirtue...
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O REGRESSO A WAKE
(Republicação)
Já aqui me referira à Batalha de Wake, uma batalha que foi muito explorada para efeitos de propaganda pelos norte-americanos, transformada num filme épico de resistência das suas armas à expansão japonesa, mas que culminou numa derrota, mesmo assim, em finais de Dezembro de 1941. Anormal para as circunstâncias em que se travava a guerra dos atóis do Pacífico foi que, conjuntamente com os cerca de 400 militares sobreviventes da guarnição, os japoneses haviam capturado mais de mil prisioneiros civis, trabalhadores da construção encarregados da ampliação das infraestruturas, que, tendo também colaborado na defesa da ilha, foram tratados de igual modo pelos japoneses.
A maioria dos prisioneiros foi transportada para campos de prisioneiros no Japão e na China. Porém, passados seis meses depois da conquista, ainda não se havia conseguido concluído esse transporte quando os japoneses perderam a superioridade militar na Guerra do Pacífico depois da decisiva derrota na Batalha de Midway. As comunicações de Wake com o exterior tornaram-se muito mais difíceis, atormentadas pelos ataques tanto da aviação como dos submarinos norte-americanos. Wake estava totalmente dependente dos reabastecimentos do exterior. E assim, para poupar bocas inúteis e por receio de um desembarque eminente dos norte-americanos, o comandante da guarnição, Shigematsu Sakaibara, mandou executar friamente os 98 prisioneiros remanescentes na ilha em 5 de Outubro de 1943. Há precisamente 80 anos.
Aconteceu que um dos prisioneiros escapou e teve tempo para gravar uma rocha assinalando o que ocorrera (fotografia mais acima). Mas era impossível um prisioneiro manter-se evadido numa ilha onde 2.000 japoneses estavam compactados em 6 km². Foi recapturado e terá tido o privilégio de ser pessoalmente decapitado por Sakaibara. Os japoneses não atribuíram importância à rocha até à capitulação japonesa, que em Wake só se veio a verificar a 7 de Setembro de 1945, 4 dias depois da assinatura da rendição em Tóquio. Os vencidos terão sido até imensamente prestáveis (acima). Só depois os vencedores se aperceberam daquilo que acontecera. A fotografia do julgamento de Sakaibara, em que ele aparece, de gravata, em uniforme norte-americano e não como o almirante da Armada imperial japonesa que era, antecipa a sentença…
Shigematsu Sakaibara foi executado por enforcamento em 19 de Junho de 1947. No seu último depoimento dizia que considerava o seu julgamento completamente injusto e a pena a que fora condenado demasiado severa mas que, apesar de tudo, submetia-se a ela com prazer…
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