14 de Agosto de 1980. É o primeiro dia da greve dos operários dos estaleiros de Gdansk. Como já aqui se referiu, as tensões vinham a agudizar-se na Polónia, até à eclosão desta greve, que mobilizou os 17.000 trabalhadores de um estaleiro ironicamente baptizado com o nome de Lenine, e que irá levar longe aquele senhor de bigode que acima vemos a ser levado em ombros. O poder da classe operária confrontava-se com o poder dos que se reclamavam exercê-lo em nome da classe operária... Era muito interessante do ponto de vista jornalístico... salvo para aqueles - comunistas - em que o acontecimento provocava um completo curto-circuito no discurso tradicional. O nosso conhecido Diário de Lisboa só abordou o assunto dois dias depois, por exemplo, a 16 de Agosto e, mesmo assim, remeteu-o para uma página bem interior (p.11) e conferindo-lhe um interesse tão marginal que ele aparece subordinado à demissão do presidente da Coreia do Sul e ao golpe de estado no Suriname (o que até se tornara banal). E, a começar pelo título, Primeiro-ministro apela aos grevistas, não por acaso a passagem que se refere à greve é remetida para o fim da notícia. Às vezes bate-me uma saudade quando recordo estes tempos em que os comunistas controlavam jornais e manipulavam a informação que neles saía... Agora a manipulação bandeou-se quase toda para o outro lado.
14 agosto 2020
13 agosto 2020
CEBOLINHA, A NOVA AQUISIÇÃO DO BENFICA
Como todos os jornais da bola não se cansam de apregoar, "Cebolinha" é um novo reforço para o Benfica. Ainda falta provar que serve para jogar à bola, mas reconhece-se à primeira vista que tem um nome memorável, de personagem de banda desenhada infantil, e isso faz muito pela notoriedade dos actores desportivos nos dias que correm. Menos imediato, mas também pertinente, também o concebemos como detentor de um «nome de guerra» que se associa com facilidade ao elenco de assaltantes do paiol de Tancos. Mas esta já é uma das piadas que, para além de ser mais sofisticada, estraga o optimismo de António Costa...
SOBRE COLÓNIAS DE PINGUINS-IMPERADOR NA ANTÁRCTIDA EU NUNCA PENSEI NADA...
...Nem, honestamente, considerei que fosse assunto a que valesse dar muita da minha atenção, já de si demasiado dispersa. Por isso, não se pode dizer que tenha ficado verdadeiramente surpreendido quando se constatou que havia 20% deles a mais, naquele continente (não se sabe quantos são os expatriados?). Talvez se tivesse perguntado ao Miguel Sousa Tavares, que fala de tudo; ou ao José Gomes Ferreira que percebe de tudo; ou ao Nuno Rogeiro que, não percebendo de tudo, às vezes calha saber de coisas exóticas como estas dos pinguins do outro lado do Mundo; ou então ao Jorge Buesco, que também não percebe de tudo, mas que constrói modelos matemáticos que prevêem tudo, o número de pinguins também, mesmo quando depois dão o fiasco de se enganar nos resultados; ou ainda ao Daniel Oliveira que, não percebendo de pinguins, percebe da envolvente Política decorrente do facto de eles serem imperadores, monárquicos e portanto maus; ou mesmo ao Luís Marques Mendes, que tem uma fonte segura que sabe que, por serem imperadores, vão ser expulsos da Antárctida, como o rei João Carlos o foi de Espanha. Ele há tanta coisa para dizer sobre pinguins-imperadores... e eu aqui ignorante sem saber que há mais do que se pensava.
12 agosto 2020
A PRISÃO DE CARLO PONZI, O BURLÃO QUE DEU O NOME AO ESQUEMA PONZI
12 de Agosto de 1920. No Massachusetts dá-se a prisão de Carlo Ponzi, um imigrante italiano de 38 anos que montara um imaginativo sistema de investimento e captação de poupanças que remunerava atractivamente os capitais dos investidores à custa da dinâmica do número crescente de investidores. Como as bicicletas, que só se equilibram enquanto estão em movimento, também este esquema só se sustenta enquanto o capital dos novos investidores consegue remunerar o capital dos que já lá estão. O processo fraudulento, várias vezes repetido depois disso, ficou conhecido pelo seu nome. Na década de 1980, houve uma coisa dessas em Portugal, protagonizado pela Dona Branca. Outro caso famoso, já no século XXI, aconteceu nos Estados Unidos e teve por protagonista Bernard Madoff.
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11 agosto 2020
NÃO VALE A PENA LANÇAR FOGUETES ANTES DA FESTA...
Veja-se este exemplo da Nova Zelândia, que ainda há dois dias anunciava o centésimo dia sem infectados pela covid...
E PORQUE NÃO POR «TRÊS VIRGULA CINQUENTA E SEIS» DIAS?... (a matemática não é uma ciência rigorosa?)
Um palhaço (Buescu), outro palhaço (Edgar Caetano) e mais uma palhaçada. A caixa de comentários do artigo do Observador é eloquente.
Se estas publicações podem insistir em publicar artigos com conteúdos que insultam a inteligência de alguns leitores, acho desculpável que as reacções destes últimos se mostrem algo virulentas. Adenda: uma questão colateral, mas muito pertinente, é a de interrogar o Observador sobre a razão para que eles escolham uma fotografia velha de uns 25 ou 30 anos para ilustrar, desde a primeira aparição de Buescu, estas suas sucessivas palhaçadas. Jorge Buesco tem 56 anos e a aparência que se vê abaixo. Será que é intenção do jornal sugerir, ainda que subliminarmente através da imagem, que os ousados artigos de Buescu são de um arrojado jovem investigador universitário?... Se for assim, é aborrecido equacionar que, naquele jornal, se tratam assuntos com esta seriedade como se fossem uma história da carochinha.
O RETORNO DOS «KULÁKS» AO ALENTEJO
«Kulák» era a designação que os comunistas russos haviam dado aos agricultores mais abastados por ocasião da colectivização das terras, na década de 1930. Os comunistas consideravam-nos um inimigo de classe e o termo é pejorativo. Para que essa colectivização das terras tivesse tido sucesso, a grande maioria deles acabou na Sibéria. Mas, quase cinquenta anos depois, tudo isso parecia esquecido. Só os comunistas portugueses haviam importado por atacado a terminologia da pátria soviética para a sua acção política doméstica, traduzindo-a quando necessário. Neste caso, aos «kuláks» cá de casa, davam os comunistas a designação de «agrários». E, feito este necessário intróito, chegamos às notícias de 11 de Agosto de 1980, há quarenta anos. Numa página interior do Diário de Lisboa, dá-se conta da entrega (àqueles que se pressupõe serem os seus proprietários originais) de três reservas agrícolas em concelhos alentejanos. A colectivização das terras do Alentejo que tivera lugar em 1975-76, a que se dera o (errado) nome de Reforma Agrária, parecia estar agora em pleno retrocesso, com a aplicação da Reforma Agrária legal, que os comunistas, para a diferenciaram da sua, crismaram de Lei Barreto. A culminar um processo que é, todo ele, repleto de ironias, António Barreto ficou com a fama por ter escrito o script, mas nunca teve força para concretizar a verdadeira Reforma Agrária legal no terreno. É o teórico da Reforma Agrária, num país que adora ficar-se pela teoria da acção política - depois penduram-lhe a palavra estratégico para ninguém criticar. Adiante. Há quarenta anos, era um governo de direita conservadora que a promovia (à Reforma Agrária), com as nuances que se podem ler através da notícia acima: «...técnicos do MAP, acompanhados pelas forças da GNR, estão a proceder, hoje, à entrega de uma reserva...». A posição do jornal não se prestava a equívocos sobre a condenação em relação ao que era relatado. Para a explicar, o jornalista ia mesmo ao ponto de avançar com tecnicidades que deviam escapar ao leitor comum, como a questão dos pontos e o facto dessa pontuação poder ser majorada! E sobretudo, e para regressarmos ao ponto de partida, o facto de os beneficiários serem todos agrários, um deles com a acusação majorada de ser absentista... Como muitas notícias engajadas que o Diário de Lisboa daqueles meses publicava, também esta se percebe pela conjuntura da preparação dos comunistas para as eleições que virão a ter lugar a 5 de Outubro de 1980, como já aqui demos conta.
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10 agosto 2020
O PORTUGAL OPTIMISTA DE ANTÓNIO COSTA
Na minha opinião, deve-se guardar esta notícia do Público para, um dia mais tarde, se exemplificar com ela aos vindouros, o que foi o Portugal irritantemente optimista sob António Costa. É verdade que, num esforço de spin de comunicação assaz interessante, o próprio António Costa se apropriou da expressão (alegadamente usada por Marcelo), para a assumir enfaticamente, embora tendo o cuidado de a guardar apenas quando quando se fala de previsões para o futuro - quando o abaixamento das expectativas se torna impopular. Mas o Portugal optimista de António Costa exprime-se de muitas outras formas para além daquela que Costa usa para sua própria conveniência, e uma delas é precisamente a forma como se notícia um incêndio no Gerês, através de uma cuidada redacção dos jornalistas da Lusa (acima). Engane-se quem considerar a análise clássica e simplista que um incêndio ou está activo (a expressão jornalística consagrada é «...está a lavrar...») ou foi extinto (e aí pode estar «...em fase de rescaldo...»). Como se pode ler pelo título a situação pode não ser boa - (o fogo) «continua activo» - mas o título pode sê-lo - (o) «combate corre de forma favorável». Ora eu suponho que é obrigação dos bombeiros fazer com que os combates aos incêndios corram de forma favorável. E vale a pena analisar aquele título pelo seu contraditório: o que poderia estar a acontecer se o combate corresse de forma desfavorável? Estar-se-ia, nesse caso, a proceder à evacuação de todas as populações ameaçadas? E, se o combate está a correr de forma favorável, não seria questão de adiantar uma previsão de quando poderá ser extinto? Mesmo que dali saísse uma previsão irritantemente optimista? Mas não, que me parece que o optimismo aqui é de outro género, e a preocupação maior parece ser a de concentrar boas notícias no título... e também no subtítulo, onde a primeira informação que se lê é que a «maior parte do incêndio» é «em território espanhol», ou seja, não é connosco, é lá com os espanhóis. De concreto, o que aconteceu não passa de mais um incêndio florestal, como há muitos, todos os anos, no Verão; o que considero inovador serão algumas técnicas, nomeadamente o cuidado redobrado na redacção dos títulos, para adoçar a forma como são noticiados.
A ASSINATURA DO TRATADO DE SÈVRES
10 de Agosto de 1920. Depois da Alemanha, da Áustria, da Bulgária e da Hungria, a Turquia é o último dos vencidos da Grande Guerra a assinar o devido tratado de paz. Mais uma vez, o local escolhido foi a França e os arredores de Paris. Também a aceitação deste tratado será disputada internamente entre duas facções políticas no país vencido. A diferença do caso turco para com os restantes é que aqueles que na Turquia se opõem à aceitação das cláusulas do Tratado prevalecerão, e os Aliados já não disporão, nem de capacidade militar, nem de força política anímica suficiente, para impor no terreno as condições que haviam imposto à mesa das negociações. O Tratado de Sèvres, cujo impacto em termos de redefinição das fronteiras turcas seria o que se pode apreciar na parte de cima da imagem abaixo, será letra morta. As fronteiras da Turquia que prevalecerão serão as definidas pelo Tratado de Lausanne (na Suíça...), assinado em 1923 entre os mesmos Aliados vencedores mas onde a Turquia já aparece representada pelos republicanos de Mustafá Kemal. Para conseguir condições tão mais vantajosas, Kemal teve que derrotar uma invasão grega, apoiada pelos britânicos, mas isso é uma história que contaremos de uma outra vez.
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09 agosto 2020
DO «SEXO ORAL GENITAL» ATÉ AO PROBLEMA DE NÃO SE PODER MOSTRAR CRIANÇAS A COMER BANANAS
Lembrei-me deste anúncio de TV de calças de ganga da Lois, velho de uns quarenta anos, porque fiquei com uma história associado a ele. A história de uma amiga que o achava ousado, senão mesmo obsceno. O problema é que, quando confrontada para sustentar a sua opinião numa roda de amigos, o que é que, para ela, seria censurável no anúncio, a explicação concreta encalhava num silêncio bloqueador púdico: o pudor impedia-a de verbalizar aquilo a que, na sua opinião, o anúncio aludiria. Constatado o impasse e para que mais facilmente se ultrapassasse esse duplo constrangimento dessa minha amiga, a conversa seguiu outros rumos. Até que passados uma boa dúzia de minutos, já todos os outros presentes haviam esquecido o assunto, quando essa minha amiga arremete, tensa, em voz alta, em jeito de catarse: - SEXO ORAL GENITAL! Seguiu-se um silêncio interrogativo geral, até se fazerem as necessárias sinapses... O anúncio da Lois conteria então fortes sugestões a práticas sexuais de sexo oral. Em minha opinião, ainda hoje, não particularmente, mas isso é o que agora menos interessa. Tudo sempre foi passível de interpretação e pode ser levado para o lado sexual. Isso continua o mesmo. O contraste para os tempos modernos estará na relutância em exprimi-lo por parte daquela minha púdica amiga, e a diligência como os comentadores das redes sociais de agora avançam para a interpretação (e condenação) dos conteúdos publicitários a pretexto disso. Aconteceu mais uma vez há poucos dias, com este anúncio da Audi que se vê abaixo, onde aparecia uma miúda a comer uma banana à frente de um automóvel estacionado. As críticas desdobraram-se entre questões de segurança (o condutor não a veria à frente do carro), até alusões à sexualidade implícita na imagem de uma miúda a comer uma banana... Nós fartámo-nos de rir com o "sexo oral genital" dessa minha amiga, mas, (mau) sinal dos tempos, a Audi retirou o anúncio apresentando um pedido de desculpas.
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CAVACO EM FÉRIAS, COM IDEIAS PARA MARCELO COPIAR
9 de Agosto de 1990. «Enquanto faz férias em São Tomé», os órgãos de imprensa adjuntos ao primeiro-ministro fazem saber à comunicação social que Cavaco está «à procura de gente "notável"» que viva na ilha. Trinta anos depois, já ninguém se lembra se se chegou a encontrar gente "notável", ou, tendo-a chegado a encontrar, de quem se trataria. O que ficou de "notável" daquelas férias de Cavaco Silva em São Tomé, e isso será mesmo a única coisa que delas perdurará, é uma famosa fotografia do próprio Cavaco a trepar a um coqueiro. Dedico esta invocação à atenção do excelentíssimo presidente da República e da entourage que o costuma acompanhar por estes dias à praia de Porto Santo. Bem sei que na ilha não há coqueiros (não vingaram...), mas, em vez de distribuir pedaços de bola-de-berlim, sempre se pode arranjar um momento parecido, exótico, de alpinismo ecológico e pujante, com Marcelo a trepar a uma palmeira que essas há... e em vídeo, que já estamos no século XXI!
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08 agosto 2020
A UNIÃO SOVIÉTICA DECLARA GUERRA AO JAPÃO
8 de Agosto de 1945. A União Soviética declara (finalmente) guerra ao Japão... e ataca de imediato na Manchúria. Como aqui se viu anteriormente, não se tratava de uma questão de "se", era uma questão de "quando" a União Soviética o iria fazer. Por uma vez, os russos iriam cumprir escrupulosamente aquilo que ficara acordado em Yalta com os seus dois aliados ocidentais: declarar a guerra ao Japão até três meses depois da cessação das hostilidades na Europa - que haviam sido a 8 de Maio. Mas a questão era, para já, mais militar do que política: Estaline queria que a declaração fosse o preâmbulo de uma larga ofensiva no Extremo Oriente que lhe permitisse ocupar os territórios anteriormente conquistados pelos japoneses: a Manchúria e a Coreia. Só isso valeria a pena do sacrifício de mais vidas humanas depois de quatro anos. O jornal do dia seguinte divide a sua primeira página entre o início da ofensiva soviética e a detonação da segunda bomba nuclear sobre Nagasáqui. A primeira, designada genericamente por Operação Tempestade de Agosto, mobilizava 1,5 milhões de soldados, apoiados por 28.000 canhões, 5.500 blindados e 4.370 aviões. Em frente, os japoneses alinhavam 1 milhão de soldados, 5.360 peças de artilharia, 1.115 tanques e 1.800 aviões, mas os números acabaram por revelar-se pouco importantes nesta campanha: a superioridade da experiência e do ânimo dos soviéticos sobre os japoneses, quando conjugadas com a superioridade material, deram ao desfecho um cunho arrasador. O experimentado Exército Vermelho de 1945 era uma máquina de combate que, depois de ter levado a Wehrmacht à sua frente, fazia agora o mesmo às forças armadas imperiais japonesas. Nos onze dias de duração dos combates, até à suspensão dos principais focos japoneses de resistência a 19 de Agosto, os russos progrediram 900 km pela Manchúria dentro, a um ritmo diário de 80 km!
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07 agosto 2020
...TANTA MERDA QUE SE ESCREVE PARA AÍ...

Permitam-me este exercício de ir recuperar esta previsão de há pouco mais de três meses, a que a agência de notícias Reuters forneceu a sua chancela de credibilidade, de que o número antecipado de vítimas mortais da covid-19 nos Estados Unidos seria de 74 mil em princípios de Agosto (dia 4). Quem o previa era o Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) da Universidade de Washington, que, como se pode ler na notícia da Reuters, andara a fazer sucessivas revisões em alta das previsões anteriores: de 60 para 67 e depois para 74 mil. Cá chegámos a Agosto e constatamos que a Reuters, a Universidade de Washington invocada pela Reuters, o IHME da Universidade de Washington e ainda o senhor Christopher Murray, director desse instituto e que até dá conferências na TED(!), enganaram-se para aí... (contas muito redondas) ...em 100%, um bocadinho mais. Em 4 de Agosto os Estados Unidos registavam... mais de 150 mil mortos devidos à covid-19. Ora, isto não é um pequeno desvio. É um daqueles casos em que me pareceria apropriado que os responsáveis, quer pela confecção, quer pela divulgação de uma tal estimativa, se deveriam confinar voluntariamente, senão por causa da covid, pela vergonha de sair à rua. Mas não, vamos à página do IHME e continuam a produzir previsões do mesmo jaez, como se fossem a página dos horóscopos de um tablóide, sem qualquer reavaliação das cagadas passadas. E é por haver tanta merda desta publicada por aí que eu me pergunto se vale a pena denunciá-la...
O «INCIDENTE» DO TRIBUNAL DO CONDADO DE MARIN NA CALIFÓRNIA
7 de Agosto de 1970. O preâmbulo deste «incidente» tivera lugar em 16 de Janeiro de 1970, quando três presos negros da cadeia de Soledad (Califórnia) haviam assassinado um dos guardas (branco) em retaliação pelo assassinato de três outros presos negros por um outro guarda prisional (branco) dois dias antes.O caso adquirira contornos político-raciais. O «incidente» desencadeou-se há precisamente 50 anos, quando um irmão de um dos envolvidos no assassinato acima, atacou armado o tribunal de São Rafael no condado de Marin (ainda na Califórnia), e tomou como reféns um juiz (em destaque na fotografia acima), um procurador e ainda mais três membros de um júri. A ele associaram-se três réus (também negros) que estavam presentes no tribunal. As suas exigências eram a libertação do trio que estivera envolvido no assassinato do guarda prisional, que ficara entretanto conhecido por «Soledad Brothers» (brothers no sentido afro da expressão...). Entretanto pediram também um transporte para abandonarem as instalações do tribunal. A fotografia acima foi tirada nessa altura, quando se vê o juiz a sair do tribunal com uma caçadeira de canos serrados apontada à cabeça do juiz. Como seria de prever, a viatura que os transportava foi interceptada pela polícia mais adiante, a que se seguiu uma viva troca de tiros, onde foram abatidos três dos quatro sequestradores... acompanhados da morte do juiz e de ferimentos em mais dois reféns (o procurador não mais voltaria a andar). Não terá sido propriamente o episódio mais brilhante de resgates de reféns. O «incidente» durara 34 minutos. O sequestrador sobrevivente foi condenado a prisão perpétua. Ainda hoje continua a cumprir pena.
Ninguém dúvida que os Estados Unidos são uma Democracia e que por lá todos podem escrever tudo acerca de tudo. Mas há uns certos tópicos, sobre os quais existe um certo «consenso» - e esse consenso vai da comunicação social mais conservadora à mais liberal (da Fox News à CNN) - que os leitores ou espectadores não estarão interessados em saber muita coisa sobre assuntos desses. Destes. Um dos axiomas em que assenta a imagem que os Estados Unidos pretendem vender de si mesmos é que as (múltiplas) acções violentas domésticas não podem ter motivação política. Ou então, quando a têm, é porque essas acções são protagonizadas por estrangeiros como foi o caso do 11 de Setembro de 2001. É um aborrecimento para o establishment ter que explicar quais foram as motivações políticas radicais de - por exemplo - um Timothy McVeigh, quando ele fez explodir um edifício em Oklahoma, causando a morte de 168 pessoas. E quando, como neste caso, a comunicação social se depara com episódios de terrorismo e de verdadeira guerrilha urbana desencadeada por questões político-raciais, o melhor é minorá-los, denominando-os por «incidentes». E sobretudo, não lhes dar muita visibilidade... não se vá pensar por aí que os negros na América se sentem discriminados e que estão dispostos a pegar em armas para o combater... Voltando a 1970, cá em Portugal, o problema de ser notícia que os pretos americanos se portavam mal nem se punha: nesse mesmo dia 7 de Agosto de 1970 não havia nenhuma notícia a respeito do «incidente»; em contrapartida, ficava-se a saber que, ainda e sempre na mesma Califórnia, os «Hippies» haviam invadido a Disneylândia... e isso, sim, apesar de não ter morrido ninguém, afigurava-se grave.
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06 agosto 2020
MARCELO A BANHOS EM PORTO SANTO
Admitamos: o patusco em toda a cena não é Marcelo. É a caderneta de cromos - contei uma dúzia(!), entre os que seguravam gravadores, câmaras e microfones - que andam atrás dele e não se sabe muito bem a fazer o quê. O que é que há de esperar de relevo noticioso numa ida do homem à praia?...
O DIA DAS BATALHAS SIMULTÂNEAS DE SPICHEREN E WÖRTH
6 de Agosto de 1870. No quadro dos primeiros grandes recontros da guerra franco-prussiana, travam-se simultaneamente na Alsácia as batalhas de Spicheren e Wörth (qualquer das duas batalhas têm mais do que uma designação*, conforme o beligerante e não só). O mapa acima deixa perceber que se tratou apenas de uma coincidência de datas - o avanço simultâneo do segundo e terceiro exércitos alemães fê-los encontrarem-se no mesmo dia com as unidades do dispositivo defensivo francês. Como é costume nestes casos, existem várias fontes que fornecem números diversos quanto aos efectivos em presença nos campos de batalha. Contudo, eles são concordantes no facto de que, em qualquer dos casos, os alemães gozavam de significativa superioridade numérica. Nesse aspecto, a capacidade de mobilização dos alemães através da sua rede de caminhos de ferro, superara a dos franceses.
Os alemães venceram as duas batalhas. Comparativamente, Wörth tem um significado mais importante que Spicheren. Em primeiro lugar porque participaram nessa primeira batalha mais efectivos do que em Spicheren; em segundo lugar porque nela o lado alemão era composto de uma coligação de tropas, da Prússia, da Baviera, de Baden e de Wurtemberga. O desfecho era a consagração da aliança entre estados alemães que Bismarck forjara perante a - aparente - ameaça francesa de Napoleão III. Mas, mais do que a derrota política, o que os franceses tinham a lamentar desta derrota conjunta eram as más notícias do ponto de vista táctico: confrontados no terreno, os exércitos franceses não se conseguiam superiorizar aos seus antagonistas alemães. Vão-se seguir mais de uma dúzia de batalhas, umas mais significativas que outras, até à grande capitulação de Napoleão III em Sedan, a 2 de Setembro. Os alemães vão vencê-las todas.
* Spicheren, Spichern, Speicher e Forbach; Wörth, Frœschwiller-Wœrth e Reichshoffen.
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«ENOLA GAY»
Este poste é publicado precisamente 75 anos após a detonação da primeira bomba nuclear: 6 de Agosto de 1945, 8h15 da manhã, hora local de Hiroxima, 00h15 em Portugal. «Enola Gay» foi o nome do bombardeiro B-29 que transportou e largou a bomba. Já aqui falei dela, da bomba, mas continuo a aprender: só recentemente me apercebi que o aparelho apenas foi baptizado - e apressadamente pintado com o nome de baptismo - na véspera da missão.
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05 agosto 2020
ALGUÉM ME EXPLICA A NECESSIDADE DE FAZER UMA NOTÍCIA DESTACADA DO FACTO DE ALGUÉM GASTAR 1% DO SEU RENDIMENTO ANUAL PARA INVESTIR NA EMPRESA ONDE TRABALHA?
Antes de tudo, note-se que eu percebo a necessidade formal de que o facto seja comunicado a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). A minha pergunta incide sobre o facto de a comunicação social achar que vale a pena dar ressonância ao assunto. E que ressonância!: Público, Observador, Negócios, Económico, etc. Todos eles acham muito importante chamar a atenção para o facto de que António Mexia se decidiu a aplicar 1% dos seus rendimentos anuais num investimento na empresa para onde trabalha. Rendimentos anuais que, por sinal, no ano passado sofreram uma redução. Uma redução que também foi reportada suficientemente importante para ser título de vários jornais - Salário de Mexia encolheu (2,16 milhões). Há quem considere que estas últimas notícias sobre remunerações de gestores são publicadas com o intuito de provocar o ultraje dos leitores, confrontados com o valor milionário que alcançam. Eu tenderia a concordar com eles, se eu visse o Bloco de Esquerda a incitar as pessoas a indignar-se com outras remunerações do mesmo calibre, como é o caso da que o Jorge Jesus vem receber agora no Benfica (3,0 Milhões +...). Mas não... a essas outras o Bloco não diz nada. Portanto, só me resta a impressão que esta publicação de notícias, pouco pertinentes, à volta de António Mexia são mesmo pose provocada pelo próprio para que se fale de si. Note-se que é uma atitude que é de sempre, já há registos dela na Atenas Clássica, quando Alcibíades mandou cortar o rabo ao seu cão, para suscitar a curiosidade social e para que não esmorecesse o falatório a seu respeito. Na Grécia antiga não os havia mas hoje compete aos jornais fazer a triagem do que é (ou não é) o equivalente a um mero rabo de cachorro cortado. À mesma escala e se Mexia ganhasse o ordenado mínimo nacional, acho que nem os amigos dele estariam interessados em saber que investira 90 € em acções. Então porque é que todos estes jornais acharão que isto interessará ao público em geral?...
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O FIM DE MAIS UMA CRISE POLÍTICA EM ITÁLIA
5 de Agosto de 1970. Terminava mais uma crise política em Itália, com a posse de um governo chefiado por Emílio Colombo (na imagem). Era a quinta crise política desde as eleições gerais que haviam tido lugar em Maio de 1968 e, desta vez, durara um mês inteiro, conforme a cronologia que abaixo se pode ler e que o Diário de Lisboa publicava nesse mesmo dia. O jornal português qualificava esta crise de «a mais desconcertante» e havia boas razões para tal: a coligação de partidos que apoiava o governo era precisamente a mesma que apoiara o anterior; o elenco governamental era praticamente idêntico assim como a distribuição de pastas pelos partidos, com a notória excepção do primeiro-ministro, que deixara de ser Mariano Rumor para passar a ser Emílio Colombo; a crise prolongara-se porque os parceiros da Democracia Cristã haviam rejeitado a sua pretensão de que fosse (o mafioso, sabe-se hoje) Giulio Andreotti a presidir ao novo governo. Tudo isto, esta política tão personalizada, pareciam ser subtilezas demais para estrangeiros. Já aqui me referi no Herdeiro de Aécio a quanto a instabilidade política italiana se tornara proverbial e como a alusão ao número elevado de governos empossados depois da Segunda Guerra Mundial virou um cartaz indispensável para adicionar em qualquer notícia a respeito da política italiana (embora, estranhamente, essa mesma instabilidade histórica não sirva quando o assunto é a política japonesa...). A evocação destes verdadeiros folhetins políticos de há cinquenta anos podem-no explicar.
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04 agosto 2020
...ESSA É QUE É UMA GRANDE VERDADE...
Em jeito mais sério do que o do INIMIGO PÚBLICO, registo que Jorge Coelho nesse seu último programa de despedida, admitiu a certa altura que ainda bem que perdera no 25 de Novembro de 1975, quando estivera do "outro" lado. E é uma pena que, ao contrário dele, não haja outras figuras mediáticas mais "compostas" que Coelho (estou a pensar em Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da AR, mas há várias outras mais...) que façam o mesmo juízo e aquela mesma contrição, em vez de fingirem que os seus "outros" tempos de militância radical nas UDP, MES, PRP, MRPP ou aparentados, fosse o equivalente a uma filiação juvenil no "clube das pastilhas pirata"! Só lhes robusteceria a credibilidade, as essas figuras que hoje exalam respeitabilidade, o reconhecimento que nesses tempos estiveram enganados quanto a princípios bem fundamentais do convívio político - por exemplo, a constatação de que uma «democracia popular» nunca foi popular nem nunca foi democrática... Como certamente diria Jorge Coelho: «essa é que é uma grande verdade...»
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