17 junho 2015

EUROPA: A CAMINHO DE UMA FASE DELICADA?

Em Dezembro de 1925, já o rumor se espalhara que havia algo de fortemente suspeitoso com as notas de 500$ com a efigie de Vasco da Gama (acima) e as pessoas formavam filas intermináveis às portas das delegações bancárias para as trocar, indiferentes à inclemência da chuva (abaixo). A burla de Alves dos Reis acabou por não ter o impacto que se temia na estrutura financeira da economia portuguesa, mas a verdade é que, à época, não vimos nenhum banqueiro a assumir as certezas da benignidade representada pela injecção do dinheiro da emissão suplementar de Alves dos Reis (quase 1% do PIB português de então) antes de a crise estar claramente ultrapassada. É dessa mesma forma que se têm de perceber as declarações prudentes feitas por Mário Draghi quando o tópico são as consequências de um default na Grécia. Com uma outra escala, com uma cobertura noticiosa moderna, será que voltaremos a ver fotografias como esta abaixo, abrangendo toda a população grega forçada a trocar neodracmas por euros?...
Há o contraste com a prudência de Draghi, a antevisão de um jornalista especializado como Wolfgang Münchau (conhecido aqui pelo blogue pela alcunha carinhosa de professor Eurobambo) que adora prever e que não manifesta dúvidas quanto à melhor atitude que a Grécia deve adoptar: não temer optar pela ruptura. Pode até ter razão, mas a modéstia mandá-lo-ia não mostrar assim a pretensão de ter contemplado todos os cenários de evolução possíveis na eventualidade dessa decisão. Num outro contexto, já vi a estrutura da argumentação invocada por Münchau, a de que vale a pena precipitar uma situação pior a curto prazo mas que depois de o caos diminuir a economia iria recuperar rapidamente. Vi essa mesma argumentação invocada, por exemplo, há uns cem anos, quando os responsáveis das potências se precipitaram para a Grande Guerra na convicção que ela se travaria num curto prazo de meses e que depois tudo iria recuperar rapidamente. Só que não foi bem assim: travou-se uma guerra de quatro anos a uma escala e mobilizando recursos que quase ninguém suspeitaria antes de ser travada. À Grécia poderão não restar grandes opções mas eu não teria a confiança assertiva de Münchau de que o futuro é só aquilo que ele acha possível...

16 junho 2015

EXEMPLOS QUE NOS CHEGAM DO ESTRANGEIRO

Marcelo Rebelo de Sousa pode perder a vergonha e finalmente assumir a candidatura à presidência, já que o próprio Donald Trump, no âmbito das estrelas de televisão, também já se decidiu (desta vez a sério).

PARA EXPRESSAR O SEU PATRIOTISMO DESTA FORMA, MAIS VALE A PENA INTERIORIZÁ-LO

No meio das proclamações nacionalistas que caracterizam a Rússia de Vladimir Putin, as forças vivas e mais expressivas da sociedade civil uraliana contribuíram para este vídeo em que cada um canta uma estrofe do hino russo (para quem não saiba, trata-se do antigo hino soviético com a letra necessariamente modificada). O resultado... é melhor apreciarem por vós próprios.

Uma nota adicional: começa a ser preocupante quando conseguimos instintivamente reconhecer os autarcas russos pela pose e pelo estilo, a partir da experiência que possuímos dos seus homólogos cá por Portugal.

...ANTES DE WATERLOO

Há precisamente duzentos anos, o dia 16 de Junho de 1815 ia decorrer glorioso para as armas francesas, engajadas simultaneamente em duas batalhas. Na batalha de Ligny (no lado direito do mapa acima) as tropas francesas (em azul) sob o comando directo do próprio Imperador derrotaram o exército prussiano sob o comando do Marechal von Blücher, enquanto este ainda aguardava os reforços do corpo de exército do General Friedrich von Bülow que se encontrava a um dia de marcha. Também a poucos quilómetros, mas para Noroeste e numa outra acção independente, travara-se simultaneamente a batalha de Quatre-Bras entre um corpo de exército francês comandado pelo Marechal Ney e o exército anglo-holandês comandado pelo Duque de Wellington. Aí o resultado saldara-se por um empate mas que servira perfeitamente as intenções de Napoleão que queria derrotar os seus dois exércitos inimigos separados antes deles se reunirem. Ainda com essa intenção, dali por dois dias os franceses haviam alterado o seu dispositivo e concentrado a sua atenção em derrotar por sua vez os anglo-holandeses naquela que viria a ser a famosa batalha de Waterloo (18 de Junho de 1815) travada cem quilómetros mais a Norte...

15 junho 2015

DUELO NOS CÉUS DA ÁFRICA AUSTRAL

Por ironia apetece dispor este pequeno conjunto abaixo de fotografias de aviões de combate (MiGs-21 moçambicanos e angolano e Mirage III sul-africanos) como se eles fossem figurantes de uma das inúmeras aventuras de BD sobre aviação com Dan Cooper, Tanguy e Laverdure ou Buck Danny. O título do poste adequa-se ao de uma dessas aventuras.

A LEGIÃO DE IMBECIS QUE SOMOS TODOS NÓS

É preciso ser-se um Umberto Eco para que aceitemos sermos tratados todos por imbecis. Porque a lógica implacável do fenómeno que ele descreve, a promoção do idiota da aldeia à categoria de detentor da verdade, é de nossa responsabilidade, ao nos dispensarmos de escrutinar aquilo que ele nos diz. Ao contrário do que aconselha o escritor, não creio que seja vocação dos jornais modernos arranjarem equipas de especialistas para filtrarem as informações da web, e dar-nos conselhos se um site é confiável ou não. Porque os próprios há muito deixaram de ser confiáveis. O rigor exemplar não lhes aumentou as tiragens, nem a notoriedade, nem o prestígio - não os faz sobreviver. Os especialistas que a comunicação social tem pretendido são aqueles que melhor consigam modificar a realidade de acordo com aquilo que quem produz a informação pensa que são os desejos de quem a consome¹. O rigor e a verdade, tantas vezes bisonhos, deixaram de ser o objectivo principal de uma substancial parcela da informação disponível, submetidos agora ao valor de espectáculo que a mesma pode propiciar. Ausente da comunicação social, a responsabilidade da filtragem do que é difundido e publicado tornou-se por isso nossa, colectiva. A felicidade é que nunca antes, qualquer um de nós dispôs de uma facilidade tão grande de usar meios de pesquisa que permitam aferir o rigor do que aparece publicado na web. O que antes custava uma demorada ida a uma biblioteca hoje googla-se: um nome e se, por exemplo, o autor da tese da conspiração sobre o 11 de Setembro tem também mais textos publicados sobre a Área 51 e os extraterrestres, já não nos podemos queixar de embuste. Sabemos do que o homem é especialista... Mas não é isso que acontece na esmagadora maioria das vezes e os resultados à escala social parecem ser (aí estou completamente de acordo com Umberto Eco) embaraçosamente medíocres. Além da promoção dos imbecis, as novas tecnologias estão a forçar uma remodelação das nossas desculpas tradicionais para a nossa ignorância e ingenuidade.

¹ Pode ser embelezá-la mas pode também ser enegrecê-la, como o fazem Medina Carreira ou Paulo de Morais.

14 junho 2015

A ESQUERDA QUE NÃO É PARECIDA COM A OUTRA ESQUERDA


As peripécias associadas à recente visita de Felipe Gonzalez à Venezuela (acima) são uma recordação de uma verdade recorrente, de como, quando se chega a certos princípios e liberdades fundamentais, continua a ser fundamental fazer a distinção entre a esquerda democrática e a outra que o não é. Para evidenciar a distinção, mas cingindo-nos a exemplos sul-americanos, compare-se a conduta recente de Maduro e do seu governo na Venezuela com a de Allende e o seu governo de Unidade Popular no Chile, quando a extrema-esquerda do MIR o resolveu desafiar frontalmente (abaixo, a notícia é do Diário de Lisboa de então – edição de 7 de Agosto de 1972). Foram episódios entretanto convenientemente enterrados por detrás do infeliz e injusto destino de Allende em Setembro de 1973 às mãos de Pinochet, mas que não deixaram de existir, apesar da sua inconveniência actual.
Fosse Salvador Allende de uma certa outra esquerda e a ocasião e o pretexto teriam sido mais do que propícios para esmagar os rivais, num processo que em muito se assemelharia ao que Lenine havia feito a partir de 1918 na Rússia aos sociais-revolucionários ou aos mencheviques e tantas outras vezes repetidos noutros lugares. Mas não, aquilo que a tal outra esquerda designaria por os desvios do MIR, foram tolerados. Em prática de tolerância é um contraste colossal com o que hoje parece existir na Venezuela, 43 anos depois, naquela recepção a um antigo e prestigiado secretário-geral de um grande partido socialista europeu (PSOE), que se tornou numa vergonha. Creio que é importante recordar mais uma vez isto, quando até um jornal de direita como o i faz uma reportagem de rua a pretexto dos dez anos do seu falecimento e quase transforma Álvaro Cunhal num avozinho simpático.

«AQUI AO NARCISO FINO NUNCA MAIS NINGUÉM O HÁ-DE TORNAR A VER GROSSO»

Há uns dias, deparei-me com um texto aqui pela internet que era precedido por uma citação de Unamuno que associava a beleza formal a uma fluidez no contexto da redacção de verdadeira viola em enterro¹. A pretexto de estarmos na época dos santos populares e parodiando tal exemplo, mas com uma guitarra, recupero uma grande frase de um autor (Narciso Fino, canalizador, tocador de guitarra nas horas vagas) cuja citação num qualquer texto pretensioso não o enriquecerá necessariamente (ao texto, não ao autor), mas que é uma grande frase, apesar de tudo...

¹ cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmo.

13 junho 2015

OS FANTASMAS DAS 24 HORAS

Se este fim-de-semana é o de mais uma edição (83ª) das 24 Horas de Le Mans, a verdade é que nenhuma das edições posteriores poderá reeditar o meu encantamento com a edição fictícia onde decorrem as peripécias do álbum O Fantasma das 24 Horas (acima) de Jean Graton. Inusitado, para uma história de BD de então, o pormenor dela acabar sem que se saiba quem será o vencedor daquela edição de Le Mans, se o Vaillante 3 Litros nº 6 do herói se o Ford GT40 nº 15 (abaixo) de um rival amigo, que se haviam aliado nas 23 horas e meia anteriores contra as ambições malévolas dos quatro bólides vermelhos aparentemente imbatíveis do Leader.
Uma história notável também pela presciência porque, concebida, desenhada e publicada em 1968 (embora eu só a tenha vindo a ler traduzida na revista Tintin em 1971-72), a história de O Fantasma das 24 Horas vai antecipar um final precisamente assim, disputado até ao fim, ocorrido no ano seguinte (1969), com um Ford GT40 nº 6 a derrotar por uma escassa centena de metros um Porsche 908 de 3 Litros nº 64 (fotografia abaixo).

COMO UM EXORCISMO MUSICAL


Se há algumas virtudes terapêuticas que blogues e outras aplicações similares podem ter é esta, a de nos possibilitar exorcizar uma canção que nos tem vindo a matraquear os ouvidos, por muito bonita que ela seja - é o caso. É o caso deste Un Parfum du Fin du Monde de Michel Legrand e do filme Les Uns et Les Autres (1981). Esta versão que descobri no You Tube tem o impacto reforçado pela qualidade do som e pelas imagens aéreas nocturnas e feéricas de uma cidade que descobri - surpreendentemente - tratar-se de Buenos Aires.

Dis, m'en veut surtout pas si ma chanson a un parfum de fin du monde.
Dis, on se reverra un café désert sans les cafés, les gares comment faire pour se retrouver demain.
On s'endormira puisque tout sera le grand sommeil
Dis, T'en fait surtout pas si je vois déjà
Le premier oiseau d'un après guerre sur un fil de fer qui s'est barbelé au coeur des années
Now that I know your ins, that I guess my outs,
You're a part of me, couldn't do without you.
Dis, on se reverra un café désert sans les cafés les gares comment faire pour se retrouver demain.
Tu m'endormiras I may go to sleep
Je serai prêt Hey don't you worry now
Si je vois déjà le premier oiseau d'un après guerre
Soon there'll be a pair lequel restera m'en veux surtout pas.

12 junho 2015

OS SUSPEITOS DE SER CHULOS E OS OUTROS, SOBRE OS QUAIS NÃO HÁ QUALQUER SUSPEITA DE O SEREM


A 21 de Fevereiro deixei aqui no blogue uma anotação que remetia para quatro meses depois, precisamente hoje, o dia marcado para a leitura da sentença de um julgamento de três semanas que envolvera Dominique Strauss-Kahn, acusado de ser um chulo. Foi absolvido. Strauss-Kahn possuirá imensos outros defeitos mas é convicção do juiz que não é chulo. Prestando-se atenção ao tom dos comentários que acompanhavam as peças televisivas que hoje dão a notícia (acima), comparando-as com as de há três meses (abaixo), ouve-se o desapontamento dos agentes do mundo da informação que ele afinal não tivesse sido considerado chulo.

...DEPOIS DO CISNE CANTAR

Se a expressão cantar do cisne é sinónimo de gesto e/ou esforço derradeiro e belo a prenunciar uma morte antecipada, então este arrastar do cisne da foto acima será a constatação que aquele canto, por muito esmerado e premonitório que seja, pode não poupar o cisne, já cadáver, a tratos de polé. A fotografia é de Ute Mahler.

DEPOIS DA TEMPESTADE DA TAP, UMA FOTOGRAFIA EVOCATIVA DE BONANÇAS DE OUTRA PRIVATIZAÇÕES

Quase como se se tratasse de um quadro, vê-se o representante da Três Gargantas que acabara de assumir posição no capital da EDP. Era um chinês, a sua gravata podia ter sido muito melhor escolhida, mas este chinês não se enquadrava na discrição destrambelhada que deles fizera Paulo Futre quando das eleições do Sporting. Ao lado do chinês, aquele que era então o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, assumia a pose mundana do anfitrião enquanto, ao lado direito de Portas, o outro ministro de Estado (e das Finanças) do governo, Vítor Gaspar, parece querer repetir esse mesmo gesto hospitaleiro, mas em versão nerd, com uma rigidez de boneco, a lembrar um polícia-sinaleiro prestável do tempo dos cabeças de giz. É sobre este último que repousa o olhar da última pessoa da foto, o seu colega e ministro da Economia Álvaro Santos Pereira; é um olhar tão prometedor que nem me arrisco a especular em que consistiria o que Santos Pereira pensaria intimamente naquele momento de Gaspar... Desconheço o autor deste instantâneo: merece a referência.

11 junho 2015

TEM LÁ PACIÊNCIA QUINO, MAS O MANELINHO É QUE FOI O VISIONÁRIO

Todas as vezes que, em navegações pela Net, aterro em mais um daqueles vídeos que, para se deixar ver, me quer obrigar a gramar com 30 segundos de publicidade prévia (e quantas vezes para ver um vídeo com menos de metade dessa duração!), lembro-me deste gag da Mafalda e de como o Manelinho, por muito tacanho que o Quino o tivesse concebido, é que se veio a revelar o Homem do futuro...

ACAUTELAMENTOS SOBRE AS VIRTUDES DE UMA TAP PRIVADA

Hoje, dia de decisões quanto ao destino da TAP, torna-se pertinente enfeitar os comentários a esse respeito com a fotografia de Leopoldo II (1835-1909), rei dos belgas por 44 anos (1865-1909), mais importante para o que se quer realçar por ele ter sido o accionista maioritário da sociedade (a Associação Internacional do Congo) que foi a detentora da única colónia privada registada da História: o Estado Livre do Congo (1877-1908). Ao contrário das outras potências, onde se contava Portugal, quando da repartição dos territórios africanos feita pela Conferência de Berlim (1884), os 2.344.000 km² na margem esquerda do Congo que foram atribuídos aos interesses de Leopoldo II receberam um estatuto jurídico distinto do de todas as outras colónias, fossem elas alemãs, britânicas, espanholas, francesas, italianas ou portuguesas. O Congo era gerido numa perspectiva privada, orientada para a produção imediata de lucros para os accionistas e, nesta época actual em que se tornou axioma que isso é sempre melhor do que ter critérios de exploração públicos, convém recordar o estigma para que foi remetida...
...a colónia propriedade-pessoal de Leopoldo II por causa dos métodos nele aplicados quanto ao tratamento das populações locais – e isso numa época em que o tratamento das populações africanas submetidas não constituía propriamente uma prioridade entre as opiniões públicas dos países colonizadores. Mas há que reconhecer que a amputação das mãos dos recalcitrantes e a publicação das suas fotografias em jornais de grande circulação das potências rivais (acima) teve um efeito arrasador naquilo que parecia ser um método eficaz adoptado pela famigerada Associação Internacional para a motivação das populações submetidas à sua tutela. No fim, pouco antes da sua morte, e considerada a pressão internacional, Leopoldo II teve que desistir do seu projecto de propriedade pessoal, legando o Congo à Bélgica em 1908 e rebaptizando-o de Congo belga, acabando por dar à colónia um figurino que era mais consentâneo com as entidades de direito internacional então aceites nessa época. Eu bem sei quanto o tema desagradará, mas os elogios mais exuberantes ao dinamismo da exploração privada, bem podem ser ainda hoje ilustrados com as mãos decepadas daqueles tempos.
Os meus votos vão para que depois da decisão de hoje não fiquemos futuramente com o mesmo olhar reflexivo e resignado deste chefe congolês a quem alegadamente cortaram a mão de uma das suas filhas como sanção por ele não ter conseguido alcançar a quota de borracha que lhe fora destinada...

10 junho 2015

A CONQUISTA DE MONFALCONE

Há cem anos, a última quinzena da Primeira Guerra Mundial fora rica em peripécias: depois de um intenso processo negocial, cujos contornos se poderão deduzir consultando o mapa acima, a Itália deixara-se seduzir pelas ofertas franco-britânicas e declarara guerra ao Império Austro-Húngaro a 23 de Maio de 1915. Mais do que propriamente surpreendidos pela traição italiana (havia uma aliança formal entre alemães, austro-húngaros e italianos), os segundos foram apanhados engajados noutras frentes (contra a Sérvia e contra a Rússia), antes de poderem reposicionar o seu dispositivo de acordo com a que se acabara de formar.
A superioridade inicial dos italianos era portanto substantiva (4 para 1) quando desencadearam as suas primeiras ofensivas: a 9 de Junho de 1915 (fez ontem cem anos) haviam conquistado Monfalcone, a primeira cidade (cerca de 10.000 habitantes) austríaca, embora, como o nome sugere, habitada predominantemente por italianos étnicos. Coubera aos Granadeiros Sardos a honra de conquistar a Rocca (acima em fotografia de 1915), o castelo da cidade costeira situada para lá do Rio Isonzo. Significativo da falta de experiência e de coordenação entre armas, cerca de ⅓ das baixas italianas haviam-se devido à sua própria artilharia.
A conquista de Monfalcone fora um excelente feito de armas para galvanizar a frente interna mas o ritmo da ofensiva não tardaria a esmorecer e as variadíssimas carências do exército italiano não tardariam a evidenciar-se. Tanto que apenas alguns dias depois (a 21 de Junho), um capitão se via obrigado a redigir o seu relatório em papel surripiado nos escritórios de uma fiação de algodão em território recém-conquistado.

OS MITOS SÃO PARA PRESERVAR INTOCADOS


Em 1995, 25 anos depois da dissolução dos Beatles e 15 anos depois do assassinato de John Lennon, houve uma tentativa de ressuscitar a banda, utilizando uma e depois outra balada embrionárias deixadas por Lennon, a que se acrescentou os arranjos e as vozes de Paul McCartney. George Harrison e Ringo Starr. Este regresso dos Beatles foi, qualquer o ângulo pelo qual se o queira observar, um enorme fiasco. Ao contrário de uns Rolling Stones e outras bandas congéneres que se haviam arrastado decadentemente até ali, a referência de popularidade dos Beatles permanecera mitologicamente a que fora em 1969/70. Free as a bird (acima) e Real Love (abaixo) atravessaram confrangedoramente a via-sacra das charts de vendas como se fossem da autoria de uma outra banda qualquer. 20 anos passados por sua vez após esse colossal desastre mediático, o melhor para a preservação do mito dos Beatles tem sido esquecer que ele alguma vez aconteceu.

09 junho 2015

O MITO URBANO, NA VERDADE UMA COLECÇÃO DE MITOS


O primeiro-ministro foi a uma cerimónia no Portugal dos Pequeninos em Coimbra, inaugurou por lá qualquer coisa mas o importante é que fora nitidamente preparada uma encenação em que ele iria tentar desconstruir a imagem que o seu governo chegara a incentivar a emigração. Estou para identificar o jornalista (e o órgão para onde trabalha) que colocou a fatídica questão da emigração a Passos Coelho, para ele responder. Tenho sempre particular interesse em saber quem se presta aos fretes ao poder. Havia mesmo uma expressão preparada de antemão: mito urbano. A expressão teve impacto mas o contexto em que ela foi empregue teve-o menos junto dos simpatizantes do que entre os adversários políticos. A ouvirmos daqui para diante aquela expressão mito urbano, ela terá adquirido uma carga negativa para a credibilidade do primeiro-ministro (abaixo). E é bem feito para o PSD e o CDS!
O mundo da informação do Século XXI parece ter-se transformado numa colossal e contínua encenação. Se calhar já o era assim nos finais do Século XX e a única diferença era que a assistência não se apercebia disso. Mas a verdade é que hoje apercebe-se: se José Rodrigues dos Santos aparece no telejornal a dizer que os processamentos das declarações do IRS estão a decorrer com toda a normalidade, perguntamo-nos qual é a pertinência da notícia, para mais quando a nossa experiência pessoal muito recente nos mostra que a nossa própria declaração demorou 15 dias a ser validada, muito mais do que era comum nos anos precedentes. Que motivos podem levar a que um acto normal da administração pública (neste caso tributária) seja notícia, a não ser que a realidade esteja a ser precisamente o contrário daquilo que nos querem convencer? É a este nível de confiança que chegou a informação em Portugal...

AS VERDADEIRAS MANHÃS DE PRAIA NUNCA MAIS SERÃO AS MESMAS


Para mim, sempre fez parte da paisagem de uma boa manhã de praia os choros irritados das crianças reclamando com o processo iniciático (mas obrigatório) da aplicação do creme protector, cujo som cacofónico (choro e reprimendas) se misturava com o rebentar das ondas naquele silêncio da manhã da areia ainda fresca, que precedia a chegada dos adolescentes à praia. Porventura receosos da progressiva perda da autoridade parental, na Nivea criou-se um novo vector promocional: é um boneco que se oferece às crianças e que tem a particularidade de reagir aos raios ultra-violetas de uma forma parecida à da nossa pele. Cativa-se a criança em vez de obrigar a mãe e impor-se. Pelo que se percebe pelo vídeo acima – filmado no Rio de Janeiro – as crianças parecem adorar, gastam o creme no boneco, nelas, nas bolas de borracha, enfim, é um incremento no consumo do produto que não desagradará aos executivos da Nivea - que, para quem não sabe, é alemã. Não sei quando é que está prevista o lançamento do bonequinho cá em Portugal.

08 junho 2015

A «CACHA» EM FORMATO DE FRETE

O artigo devia ser mais enfático nas previsões de Paulo Portas, transmitindo-nos a confiança do quanto é irrevogável que aconteça aquilo que ele vaticina.
(o recado em formato de notícia foi publicado no JN)