10 outubro 2021

CRÍTICAS A PESSOAS IMPOLUTAS, DAQUELAS QUE MESMO JOSÉ PACHECO PEREIRA NÃO CENSURA COM MUITA VEEMÊNCIA

Gostaria de começar este poste remetendo o leitor para um outro que eu aqui publiquei há quase dez anos (7 de Maio de 2012), a propósito de uma iniciativa da cadeia de supermercados Pingo Doce, às críticas que a mesma suscitou, e a um estranho artigo crítico de José Pacheco Pereira, que passou o primeiro ¼ do artigo num desenvolvido trecho acautelatório quanto à consideração que o patrão da organização lhe merecia: Alexandre Soares dos Santos.
«Quem tiver lido o artigo que José Pacheco Pereira assinou o Sábado passado no Público dedicado à questão da campanha do 1º de Maio do Pingo Doce poderá ter reparado no conteúdo e na inusitada extensão do seu preâmbulo (acima, assinalado com uma tarja amarela lateral). Desconfio que tanto zelo não se tratará somente de uma questão da estima e consideração pessoal como o autor ali confessa ter por Alexandre Soares dos Santos, o patrão da organização, e que o fez alongar-se em várias considerações elogiosas sobre atitudes e gestos recentes do visado.

Embora seja reputado pelos seus rigorosos critérios de exigência, José Pacheco Pereira já terá certamente criticado muitas outras pessoas a quem dedicaria semelhante estima e consideração pessoal e, todavia, não me estou a lembrar de nenhum caso em que ele tivesse dedicado assim cerca de ¼ do espaço (ou do tempo) à sua disposição para fazer elogios prévios que amenizassem a contundência das críticas que se iriam seguir…

É verdade que poderia haver uma outra possível explicação para aquele alongado preâmbulo: a questão do espaço, que na esmagadora maioria das vezes falta para que caiba o que foi escrito, mas que excepcionalmente pode sobrar. Mas não se está a imaginar José Pacheco Pereira no frete de encher chouriços para adequar a sua opinião à extensão da página que lhe está semanalmente concedida.

Quem montou o artigo destacou dele a frase: A corrida aos 50% diz mais sobre o Pingo Doce e Portugal do que sobre a CGTP ou o 1º de Maio. No caso, adaptando-a, fico com a impressão que aquele preâmbulo preemptivo de José Pacheco Pereira dedicado a Alexandre Soares dos Santos dir-nos-á quase tudo o que há para saber sobre o feitio do visado e sobre as relações entre os poderes económicos e os opinion makers em Portugal… E não se interprete isto como uma crítica absoluta a José Pacheco Pereira – é que há quem prefira não dizer/escrever nada…»
Regressemos ao presente, quando, infelizmente, o referido Alexandre Soares dos Santos já faleceu (em 2019), mas quando ele é figura ainda suficientemente poderosa para ser a escolhida para enfeitar a notícia publicada este fim de semana pelo Expresso, no seguimento das revelações dos denominados Pandora Papers, explicando-nos como a família Soares dos Santos criara em 2006 - portanto ainda em vida do patriarca - um fundo num paraíso fiscal. Ora, ao ler a notícia, e porque o autor deste blogue tem memória (como acima se comprova), ele está disposto a apostar que esta notícia, independentemente da gravidade das revelações que conterá, não vai ter qualquer ressonância nos órgãos de informação, a não ser, claro, as folclóricas denúncias do site do Bloco de Esquerda. É engraçado porque, mesmo sem nos podermos pronunciar sobre as especificidades do esquema denunciado pelo Expresso, o teor da resposta, focando-se no «cumprimento rigoroso da lei», pela minha experiência é poderoso indício que, sendo legal, o esquema não terá moralidade alguma. Aliás, alguém ainda se lembra da contínua evasão fiscal da Jerónimo Martins à taxa de segurança alimentar criada pelo governo Passos Coelho?... Quantos contribuintes é que se podem arrogar esse mesmo direito de dizerem: não concordo, não pago?...

O PROFESSOR PICKERING E A VIDA NA LUA

10 de Outubro de 1921. Há cem anos "havia" vida na Lua. Pelo menos, era esse o resultado do trabalho de observação e fotografia que decorrera entre «Agosto de 1920 e Fevereiro de 1921» levado a cabo por um «celebre astrónomo de Harward» (sic) chamado William Pickering. Segundo essas observações, viam-se na superfície lunar «vastos campos de vegetação, que florescem rapidamente e desaparecem num prazo máximo de 11 dias». Hoje sabemos que as observações do «célebre astrónomo» eram uma total fantasia. E, no entanto, esclareça-se que, desta vez o jornal não inventara o estatuto do cientista e que William Pickering era realmente um reputado astrónomo, que já recebera dois prémios científicos (1905 e 1909) pelos seus trabalhos. Para além disso, Pickering foi o criador de uma escala que mede a turbulência atmosférica que afecta as observações astronómicas. Tratava-se portanto de alguém que se levava e era levado a sério na astronomia. Só que, e porque as ciências são mesmo assim, nesta sua "descoberta" de "vegetação" na Lua, Pickering estava completamente enganado. Mas estas lições de há cem anos não se perdem, porque elas nos permitem acolher as notícias científicas da actualidade, como esta abaixo, de um exoplaneta (planetas de outro Sistema Solar) que é tão quente que chega a chover ferro(!), com a indispensável circunspecção. O que é que a Humanidade já poderá saber a respeito do exoplaneta WASP-76b, situado a 636 anos-luz da Terra, em princípios de Outubro de 2121?...

09 outubro 2021

SER-SE REPUBLICANO NA AMÉRICA EM 2021...

...assemelha-se muito ao que era ser-se comunista na Europa ocidental de 1989: há (havia) que acreditar numa realidade virtual e acreditar nessa realidade virtual é (era) importante para definir a identidade de quem é (era) republicano (comunista). O que mudou foram as ilusões. Agora há «53% de republicanos que vêem Trump como o verdadeiro presidente dos Estados Unidos» e «59% dos que costumam votar naquele partido dizem que acreditar que Trump venceu a eleição presidencial de 2020 é importante para se ser republicano». Naqueles outros tempos não se faziam sondagens entre os comunistas, mas era patente que uma maioria deles diziam acreditar que a União Soviética era uma sociedade muito mais evoluída do que as da Europa ocidental e era um traço identitário entre os votantes comunistas acreditar que se vivia muito melhor na União Soviética do que por cá. E a analogia conclui-se com a tolerância ao pluralismo de opiniões: «63% dos republicanos consideram que o seu partido não deve apoiar candidatos que critiquem abertamente Trump». Recorde-se que os militantes comunistas que não comungassem daquelas ilusões também acabavam rapidamente marginalizados. Todas estas parvoíces colectivas são (e eram) parvas mas tornam-se importantes por serem colectivas e, como se constata, renovam-se em ciclos, parece que nada se aprende com elas. O que não é muito comum é emparelhá-las, considerado o antagonismo entre os dois conjuntos de parvos.

A IMPORTÂNCIA DE UM GOLPE DE ESTADO... NO PANAMÁ

9 de Outubro de 1941. Os americanos promovem um golpe de estado no Panamá. Os Estados Unidos a promoverem golpes de estado em países da América Central - vulgo repúblicas das bananas - não era propriamente uma novidade nem notícia que merecesse destaque por cá. Contudo, alguma circunstância misteriosa, quiçá a guerra em curso, terá levado a que o Diário de Lisboa do dia seguinte tivesse dado o destaque de 25% da sua primeira página ao que ocorrera na referida república das bananas. O novo presidente do Panamá seria o senhor cuja fotografia inseri acima e que se chama Ricardo Adolfo de la Guardia. Não deixou história. O que não surpreende.

08 outubro 2021

OPINIÃO... TOLA

Abre-se um jornal de há precisamente quarenta anos (8 de Outubro de 1981), e tem-se oportunidade de ler a opinião do jornalista Nuno Ribeiro que, por sinal, ainda está no activo, no Público. O tema é a primeira ministra britânica da época, Margaret Thatcher, e o texto parece de uma clarividência - como os factos posteriores virão a comprovar - à João Marques de Almeida. Dão-na como completamente arrumada do ponto de vista político, depois de dois anos e meio no poder: Do fracasso económico à derrota política. E contudo e como hoje se sabe, Margarer Thatcher ainda iria continuar no poder por mais nove anos. Há erros de análise. Isto não é um erro de análise, isto é mera obtusidade política a que se concedeu um imenso espaço para se espalhar. Às vezes é importante e salutar recordar que as análises idiotas não começaram com João Marques de Almeida e o Observador e que este género de disparates não são um exclusivo da direita.

07 outubro 2021

CONVERSA DE XAXA, SENHORES BASTONÁRIOS

É "ingerência" mesmo, e é ingerência legítima. Perceba-se que os poderes administrativos que os titulares das ordens profissionais detêm sobre os profissionais que delas fazem parte foram-lhes conferidos pelo poder político, não nasceu «naturalmente». E, assim como lhes foi concedido (e talvez, muitas vezes, abusado), esses mesmos poderes também lhes podem agora ser retirados por esse mesmo poder político. O resto é conversa de xaxa, senhores bastonários. (Nota: não conheço os detalhes do projecto de lei apresentado pelo PS, mas as minhas simpatias instintivas são a seu favor, por causa do comportamento arrogante adoptado em geral pelos bastonários mais promovidos, ao longo das últimas décadas - advogados, médicos, enfermeiros. Aos dos médicos, nomeadamente, já os ouvi falar de quase tudo, de medicina é que bastante pouco).

OH JÚDICE, E SE FOSSES APANHAR NO...?

Ele há insignes causídicos que construíram uma carreira a defender escroques. A propósito, surge-nos imediatamente na memória o falecido João Araújo, catapultado para a celebridade quando se tornou - a meu ver, apropriadamente - advogado de José Sócrates. É uma opção de carreira que não confere uma grande reputação a quem a abraça, mas temos que a reconhecer necessária, porque é um pilar do nosso sistema judicial que todos tenhamos direita à melhor defesa. Agora, o que já não me parece aceitável é assistir a rábulas como a que a SIC permite que seja protagonizada por José Miguel Júdice (abaixo). Então o homem foi o advogado de João Rendeiro durante uma apreciável parte dos processos e agora ainda vem para a televisão, armado em José Estebes, a tentar dar as tácticas?... Queres ver que se estaria à espera que já todos se estivessem esquecido das fotografias promocionais de Júdice ao lado de Rendeiro nesses outros tempos, em que o ex-banqueiro ainda não era o pária em que hoje se tornou. Francamente, isto chega a ser mais caricato do que as piadas na televisão do Ricardo Araújo Pereira.

O PRIMEIRO DIA DE EMISSÃO DA FOX NEWS

7 de Outubro de 1996. O slogan de lançamento do canal de notícias Fox News era Justo e Equilibrado (Fair and Balanced). 25 anos passados o canal tornou-se mundialmente conhecido precisamente por ser tudo menos isso

O BOMBARDEAMENTO DE BANSKI DVORI

7 de Outubro de 1991. Começando por explicar em que consiste o alvo bombardeado, Banski dvori é um grande edifício histórico no centro de Zagreb, a capital da Croácia. Edificado nos primórdios do século XIX, o edifício fora, de 1809 a 1918, a residência oficial dos vice-reis da Croácia durante os tempos do império Austríaco e Austro-Húngaro. Mesmo depois de a Croácia ter passado a integrar a Jugoslávia, o Banski dvori continuava a ser um dos edifícios simbólicos da identidade nacional croata e, por isso, naqueles tempos atribulados de 1991 que assistiam ao desmembramento da Jugoslávia, foi o local escolhido por Franjo Tudjman para ali se instalar como primeiro presidente da nova República secessionista da Croácia. Quanto à data, 7 de Outubro de 1991 era a véspera do fim do prazo de uma moratória que havia sido negociada diplomaticamente para que se suspendessem as iniciativas para a concretização da independência croata. Franjo Tudjman, o presidente da nova Croácia, encontrava-se no edifício em conversações com o presidente da antiga Jugoslávia, Stjepan Mesić que, por acaso e pela ironia das regras do rotativismo obrigatório dos cargos na Jugoslávia, era também croata. Para os sérvios, defensores da manutenção da federação, e como se diria em linguagem de futebol, o árbitro estava comprado... E terá sido por isso que entre os militares sérvios mais extremistas se lembraram da ideia de promover um raid aéreo selectivo para os liquidar aos dois enquanto estavam em negociações. Quando os quatro aviões atingiram Zagreb, cerca das 3 da tarde, já os dois visados haviam abandonado o edifício há alguns minutos, depois de um almoço de trabalho. O ataque causou um morto e imensos estragos materiais (compare-se a fotografia do pátio interior acima com o esquema do edifício abaixo). O edifício só veio a ser recuperado quatro anos depois. Actualmente constitui a sede do governo croata. A operação foi, para Belgrado, um fiasco militar mas, ao entregar o papel de vítimas a Zagreb diante da comunidade internacional, foi um decisivo desastre político. A Croácia proclamou a sua independência no dia seguinte, com a benção de todas as potências - incluindo uma relutante (e ainda existente) União Soviética, que à última hora havia tentado anular a iniciativa sérvia.

06 outubro 2021

A EMBOSCADA E MORTE DO ALTO-COMISSÁRIO BRITÂNICO NA MALÁSIA

6 de Outubro de 1951. Precisamente 30 anos antes do de Sadat, outro assassinato político de relevo, embora de repercussões comparativamente menores. A Malásia era então uma colónia britânica. E uma colónia britânica onde existia, desde 1948, um movimento de guerrilhas contra a tutela britânica. Um movimento que patrocinado pelo partido comunista malaio, um partido onde imperava a comunidade chinesa instalada na Malásia, e onde o apoio oriundo de Pequim era mais do que evidente. Portanto em 1951 a Malásia era uma colónia em guerra. E é esse facto que torna embaraçosamente inexplicável as circunstâncias em que o mais elevado membro da administração colonial britânica na Malásia, o Alto-Comissário Sir Henry Gurney (1898-1951) é emboscado na estrada quando seguia no seu imponente Rolls Royce Silver Wraith integrado numa coluna militar que, afinal, se mostrou incapaz de o proteger. Num país normal, a morte do Alto-Comissário nas circunstâncias descritas seria um vexame. Alguém pode imaginar como, em Portugal, nos sentiríamos se, em 1964, três anos depois do início da guerra em Angola, uma patrulha do MPLA tivesse emboscado uma coluna na estrada onde seguisse o Governador-Geral Silvino Silvério Marques? Teria sido a queda do Carmo e da Trindade, mesmo se nada tivesse acontecido ao Governador-Geral português... Mas, ainda por cima, aconteceu algo ao Alto-Comissário britânico, o seu carro foi atingido por 37 tiros (acima, à direita). Contudo, os ingleses têm uma vocação ímpar em transformar os seus maiores fiascos em epopeias gloriosas: o Alto-Comissário não morreu porque a sua escolta era manifestamente insuficiente para o defender e fora rapidamente posta fora de combate (os atacantes eram o triplo dos defensores e estavam melhor armados); o Alto-Comissário não morreu porque os serviços de informações britânicos ignoravam por completo o paradeiro e as intenções do inimigo; o Alto-Comissário morreu porque - foi a versão oficial - assumiu uma atitude corajosa e tentou atrair sobre si o fogo dos assaltantes enquanto se afastava da viatura onde seguiam a esposa e o secretário particular. Entretanto, é significativo que o motorista que conduzia a viatura também morrera e que cinco dos seis homens da escolta policial haviam também ficado feridos. A verdade é que a veracidade dos últimos momentos do Alto-Comissário nunca poderão ser confirmadas ou desmentidas. O que é factual é que as autoridades britânicas, ao contrário do que seria de esperar como exploração de um tal gesto heróico, se apressaram a realizar o funeral do Alto-Comissário, que se veio a realizar uns escassos dois dias depois da emboscada em Kuala Lumpur (abaixo). Também factual é que, de uma leitura que efectuei ao Diário de Lisboa daquela altura, nem uma referencia aparece ao ocorrido. Saber distorcer uma história parece-me ser um dos segredos para que a história da política colonial britânica pareça normalmente tão bem sucedida.

ASSASSINATO DE ANWAR SADAT

6 de Outubro de 1981. Assassinato do presidente egípcio Anwar Sadat. O acontecimento revestiu-se de uma espectacularidade mediática única, já que ocorreu durante uma parada militar, bem à vista de uma concentração impressionante de meios de imagem - câmaras de televisão, máquinas fotográficas, etc. Quantos às notícias das circunstâncias precisas da sua morte, essas seguem o que está estabelecido para estas ocasiões: os presidentes só morrem (oficialmente) nos hospitais e de preferência quando estavam a ser operados. Acontecera, por exemplo, com John Kennedy nos Estados Unidos (1963), e voltaria a acontecer, por exemplo, com Benazir Bhutto no Paquistão (2007). Também neste aspecto, a política e a ciência convivem muito mal.

05 outubro 2021

EVOCAÇÕES DE UM LEIXÕES EUROPEU

5 de Outubro de 1961. Numa reviravolta «prodigiosa» e jogando no seu histórico campo de Santana, o Leixões Sport Club, que era o representante português na Taça dos Vencedores das Taças, elimina o seu homólogo suíço, vencendo-o por 5-0, uma recuperação de uma primeira mão desastrada, de onde saíra com uma derrota por 2-6. Tempos prodigiosos para a formação de Matosinhos: depois de ter conquistado a Taça de Portugal em 9 de Julho daquele ano, vencendo o FC Porto por 2-0 no próprio estádio das Antas, o Leixões ainda vai ultrapassar mais uma eliminatória na Taça das Taças, contra o seu homólogo romeno, antes de ser eliminado em Janeiro do ano seguinte pelo seu homólogo da Alemanha Oriental (remate-se esclarecendo que, nesta última eliminatória, os dois jogos acabaram sendo disputados na Alemanha de Leste, porque as autoridades portuguesas se recusaram a conceder vistos aos jogadores alemães).

04 outubro 2021

O «SÍNDROME CARLOS QUEIROZ». A CRENÇA NA COMPETÊNCIA ABSOLUTA

Somos um país muito propenso a estes encantamentos e isso só no faz mal. Ficou-me de emenda a última vez em que aderi à convicção colectiva de acreditar que, só por ter conquistado dois títulos mundiais de futebol júnior de enfiada (1989 e 1991), isso só por si era prova irrefutável que Carlos Queiroz era um treinador competentíssimo, fadado para os mais altos resultados desportivos. Claro que o futuro apenas veio comprovar que estávamos diante de um treinador competente, mas que os triunfos dependem de uma conjugação de circunstâncias que os incensados normalmente não dominam.
Agora, porque as sociedades não têm memória e são mesmo, assumamo-lo, muito estúpidas, estamos a assistir, no seguimento do sucesso da campanha de vacinação, a um fenómeno muito semelhante, só que agora protagonizado pelo almirante Gouveia e Melo (há 30 anos também Carlos Queiroz era o professor Carlos Queiroz...). Superando mesmo Queiroz, que só se esperaria que elevasse o estatuto do futebol português mais alto, temos aqui na pessoa do almirante um salvador multi-facetado, a que, em jeito de meia brincadeira (acima), se começam a atribuir capacidades decididamente especiais.
Ora, vale a pena pôr os pés na terra, e lembrar o almirante ainda há pouco mais de dois anos e meio, a participar numa conferência internacional especializada para altos comandos navais, que recebeu a denominação de Surface Warships 2019. E vale a pena enfatizar que, mesmo faltando-lhe o camuflado que lhe dá tanto charme (mas com toda a competência que todos lhe reconhecem), era aquilo de que ele ali fala que ele fazia antes das vacinas (inglês macarrónico e tudo). Não será por culpa do próprio, mas talvez a salvação da pátria seja algo mais complexo e precise do contributo de muito mais gente.

O INCIDENTE DE SALA

4 de Outubro de 1951. A Segunda Guerra Mundial na Europa terminara há mais de seis anos mas algumas das animosidades que gerara pareciam muito longe de estar encerradas, mesmo do outro lado do Mundo, em Jacarta, capital de uma Indonésia recém independente. Os protagonistas da história foram o canadiano Hugh Keenleyside, um quadro superior da ONU (fotografia superior), e Hjalmar Schacht, antigo ministro das Finanças do III Reich, por sinal um dos réus (absolvido) do julgamento de Nuremberga aqui evocado há três dias. Cumprindo o que cada vez me convenço mais ser uma tradição jornalística, o profissional que escreveu esta história só percebeu a parte da barracada, isto é, a recusa de Keenleyside em cumprimentar Schacht. A frase do primeiro pode ter sido mesmo aquela («Não posso apertar a mão...») ou então trata-se de uma elaboração do que Keenleyside efectivamente terá dito. Mas o que é factualmente errado é que a recepção em que a cena acontecera havia sido afinal dada pelo governo indonésio em honra de Keenleyside e não de Schacht, ao contrário, como se conta na notícia. Na verdade, o antigo ministro alemão fora contratado em Julho como consultor pelo governo indonésio e era nessa qualidade que se encontraria na recepção. - e por isso é que competiria a Schacht retirar-se depois do insulto, o que ele fez, de resto. Mas esses pormenores, que conferem sentido à história, parecem transcender o jornalista da agência France Press (F.P.) que assinou esta notícia. Aliás, que a presença de Schacht é um incómodo recorrente percebe-se por um outro episódio posterior, quando do seu regresso à Alemanha e o avião em que viajava fez escala em Israel - o que provocou protestos no parlamento israelita.

03 outubro 2021

O RECANTO DOS FANTASMAS NESTE PAÍS DAS MARAVILHAS

No princípio deste ano procedeu-se a mais um dos censos regulares (um por década) da população portuguesa. Mesmo que a atenção social estivesse concentrada na pandemia o Instituto Nacional de Estatística já publicou os primeiros resultados - e os mais significativos - respondendo às perguntas quantos somos ( 10.347.892), onde estamos e de que forma nos distribuímos (idade, sexo, etc.). O que estes resultados oficiais têm de particularmente interessantes é que eles são recentíssimos e por isso podem servir para validar outras informações oficiais. Como será o caso das informações respeitantes a actos eleitorais, como aquele que acabou de ter lugar a 26 de Setembro passado. Agradeço imenso a quem fez esse trabalho por mim, comparando a população residente e a população adulta (+18 anos) apurada nos censos 2021 em cada um dos 308 concelhos do país, com o número de eleitores constantes dos cadernos eleitorais. As conclusões são estarrecedoras. Mas, como as pessoas se habituaram a gostar mais de pequenas histórias do que a chegar rapidamente às grandes conclusões, contemo-la então, essa pequena história que se passa no Norte do país, mais precisamente nos três concelhos do Norte do distrito de Vila Real assinalados no mapa abaixo: Boticas, Montalegre e Ribeira de Pena.
Num mapa em que se ponha por ordem a maior discrepância entre a população adulta residente contada há seis meses e o número de eleitores que poderiam votar nestas eleições, aqueles três concelhos de Vila Real aparecem nos três primeiros lugares. Com discrepâncias que se tornam cómicas. Assim, e para não aborrecer com muitos números, esclareça-se que naqueles três concelhos vivem 20.000 pessoas, das quais 17.000 são adultos e onde estão registados 30.000 eleitores. E, na semana passada, votaram ali quase 17.000 eleitores. Eu bem sei que aquela é uma zona esquisita, propensa a fenómenos esotéricos: é o caso do congresso de medicina popular de Vilar de Perdizes; ou então o caso do cartório notarial que, só ele, é que consegue registar uns terrenos no Porto em nome da Selminho de Rui Moreira. Mas, mesmo toda essa tolerância para com o sobrenatural, não nos pode fazer descartar as preocupações com o paradeiro dos fantasmas de uns 13.000 eleitores. É muito fantasma, demasiada gente a esquecer-se de actualizar a sua morada para efeitos eleitorais tanto mais quanto os portais oficiais são enfáticos quanto à segurança dos automatismos como os registos se processam. Uma última sugestão para dinamizar o turismo rural local será a de criar uma caça ao eleitor fantasma inspirada no jogo do pokémon... Assim como os pokémons, os turistas podiam passear-se - imaginemos! - pelos campos de gadgets na mão, encontrando os espíritos da eleitora Ti'Alice, cujo registo a dá como nascida em 1894, ou então o do eleitor Bernardo da burra, que todos na terra sabem que está para a Suíça há uns bons 35 anos...
Falando agora mais a sério e com mais gravidade. Feitas as mesmas contas para o conjunto do país, as disparidades são menos ridículas mas, o número de eleitores registados é superior ao da população adulta em 283 dos 308 concelhos do país (e até mesmo da população residente em 80 deles!). Em números globais arredondados, contam-se 9.320.000 eleitores constantes dos cadernos eleitorais no país, e o censos 2021 contou 8.680.000 adultos, dos quais 185.000 são estrangeiros (alguns destes últimos podem votar nas autárquicas, outros não). Assim, nesta estimativa de que me socorri - e que mais uma vez agradeço ao autor - o número de fantasmas nos cadernos eleitorais situar-se-á entre os 640.000 e os 825.000. Este é o meu número, mas há outros. Em 2009 no Diário de Notícias eram 930.000; em 2011 para o Correio da Manhã eram 1.250.000; em 2013 no Jornal de Notícias escrevia-se 1.000.000 (número redondinho!); em 2019, a TSF calculou 796.000; na semana passada, na SIC Notícias regressou-se ao milhão redondo da praxe. Como se vê, não se pode dizer que neste caso a comunicação social não tenha chamado repetidamente a atenção para o problema. Têm sido os sucessivos poderes políticos que não têm querido mexer no assunto. Mal. Em assuntos eleitorais a imagem de rigor é imperativa, porque todos sabem que por um voto se ganha e por um voto se pode perder uma eleição. São situações como esta que, cumulativamente, arrasam a reputação de seriedade do Estado. Nos princípios de 1975, ia Portugal mergulhar no PREC, Nicolau Breyner protagonizava um programa de TV que se intitulava Nicolau no País das Maravilhas. O PREC pôs fim ao programa mas o mesmo PREC terminou ainda antes do fim daquele ano. Nicolau Breyner também já nos deixou. Mas esta sensação de, em certas circunstâncias e por negligência dos actores políticos, vivermos num país das maravilhas, perdura para além de tudo.

OS ATENTADOS CONTRA AS SINAGOGAS DE PARIS

Durante a noite de 2 para 3 de Outubro de 1941 as sete sinagogas de Paris foram objecto de atentados bombistas. Como assinala a notícia acima, numa das sinagogas a bomba não chegou a explodir. O que torna esta notícia mais interessante do que uma outra notícia normal sobre atentados são as conclusões a que chegará o inquérito da polícia de Paris. O mandante dos atentados fora o comandante das SS em Paris, Helmut Knochen. Os executantes haviam sido franceses, membros de um grupúsculo terrorista de extrema direita denominado Movimento Social Revolucionário, que se constituíra um ano antes, já depois da derrota francesa. Tratava-se de terrorismo de Estado. Claro que a polícia acabou por não prender ninguém. E também se terão perdido as condenações formais (e informais) a atentados contra locais de culto. Hoje torna-se interessante ler a passagem do relatório policial onde se analisa a reacção da população parisiense aos atentados: «Os parisienses em geral não gostam dos judeus, embora os tolerem. Os comerciantes, sobretudo, querem-se livrar dos israelitas, porque lhes fazem concorrência. Na verdade, as severas medidas adoptadas contra os judeus pelas autoridades alemãs e pelo governo francês (de Vichy) não suscitaram grandes protestos da massa da população, mas muitas pessoas acham excessivo o violento anti-semitismo expresso pela imprensa parisiense. A opinião de muitas pessoas - principalmente entre os círculos católicos - é que esses perseguidores dos judeus generalizam demais a sua mensagem e que as consequências de tal anti-semitismo induz a consequências lamentáveis. Assim, o anúncio dos ataques cometidos ontem contra as sinagogas não terá causado surpresa nem emoção entre as pessoas. “Estava para acontecer”, ouve-se, com um certo tom de indiferença».

02 outubro 2021

A LEITURA DAS SENTENÇAS DOS RÉUS DE NUREMBERGA

1 de Outubro de 1946. Dia da leitura das sentenças do primeiro e principal julgamento do Tribunal de Nuremberga. Um dos objectivos da realização daquele julgamento era para que o comportamento dos responsáveis do regime nazi ficasse registado e assim fosse recordado. 75 anos depois pode reconhecer-se que esse objectivo podia estar a ser melhor conseguido...

VIVER E MORRER PELA ESPADA

Ao apreciar a capa desta semana da revista Sábado parecerá impossível não simpatizar com Carlos Moedas por causa da sacanice que lhe pregam, à vista de todos. Isto que se vê acima só pode constituir uma joelhada nos tomates do novo presidente da Câmara de Lisboa e nem sequer se lê ali a inspirada legenda que foi adicionada na página virtual da revista: Carlos Moedas: 34 histórias do senhor 34% em Lisboa. Um ênfase no número 34 por conta da fragilidade da vitória eleitoral. Isto é o presente. Mas também há o passado. E recordando-o, a minha simpatia para com Carlos Moedas esvai-se. Lembro-me de um Carlos Moedas que, aproveitando a sua condição de comissário europeu e os meios postos à sua disposição por aquela instituição, nunca se acanhou em se promover naquele mesmo palco onde agora o põem a fazer figuras tristes. Apreciem esta notícia de há cinco anos em que, também por um preâmbulo, e também em pequenas histórias de bastidores, se percebe desde logo o carácter heróico que a jornalista pretende conferir à personagem. Eu considero-me daqueles que aprecia a conhecida expressão do Viver e Morrer pela Espada num sentido lato e que ela deve ser evocada em qualquer circunstância em que seja pertinente, ao contrário do que se faz frequentemente, quando se a vai buscar apenas e só quando ela vai na corrente da nossa argumentação. Carlos Moedas poderá até ter razões de queixa, mas eu não tenho pena nenhuma dele.

O PODER REDEMPTOR DAS AMNÉSIAS

2 de Outubro de 1981. Mais chocante que a decisão dos trabalhistas de retirar o Reino Unido da CEE era o radicalismo da implementação: um plano em seis etapas, nem sequer haveria referendo e o futuro governo teria doze meses para iniciar as negociações com Bruxelas. Vistas a esta distância, sabendo que foram afinal os eurocépticos do outro lado do espectro partidário que, dali por 35 anos, cavalgaram a onda anti-europeia e que melhor se aproveitaram dela, estas explosões de radicalismo da ala esquerda dos trabalhistas são hoje uma peça tão ridícula que se chega a tornar cómica.

01 outubro 2021

A REVOLUÇÃO QUE ERA PARA SER MAS NÃO FOI

1 de Outubro de 1921. Para compreender o que foram estes anos de contínuo restolho político, há que dizer que, às Revoluções que eclodiam, haverá que acrescentar as que estiveram quase a eclodir, mas que as autoridades no poder conseguiam abortar, como era o caso desta de há 100 anos. O alvo fora o governo republicano liberal de António Granjo que tomara posse apenas 30 dias antes - «o sr. dr. António Granjo declara que o movimento desta madrugada está completamente liquidado.» Pois. Quem conhece a história destes anos sabe que a história do movimento e as consequências disso para António Granjo não haviam acabado ali...