Sempre me maravilham estas ocasiões em que a esquerda pura e dura, os camaradas, companheiros, comunistas e outros democratas, se acobardam de combater algumas figuras concretas do grande capital. Nomeadamente quando essas figuras do tal grande capital têm, em vez do gostinho especial entoado acima por Sérgio Godinho (de que será um exemplo Joe Berardo), o cheirinho especial por estarem conotadas com o Benfica (como será o exemplo abaixo de Luís Filipe Vieira). A ausência de reacções do PCP aos negócios duvidosos deste último fazem parecê-lo um membro do proletariado e da classe operária que, por acaso, fez perder uns 225 milhões ao Novo Banco... Para além disso, para o PCP e quando a coisa mete Benfica, o grande capital, os vícios da grande burguesia e a restante cartilha do marxismo-leninismo, são para esquecer: é que quando Lenine morreu, em 1924, ainda mal se adivinhava o que seria a popularidade de andar aos pontapés numa bola... E Marx, esse, estava enterrado há mais de quarenta anos...
10 setembro 2020
«EU, CÁ POR MIM, DETESTO OS HOMENS»
A história vem de França (donde antigamente vinham as cegonhas), é rápida de contar, e não tem moral no fim: uma escritora francesa de 25 anos, chamada Pauline Harmange, escreveu um pequeno livro (96 páginas), desenvolvimento de um texto que publicara no seu blogue. Talvez o conteúdo ou, talvez mais, o impacto do título - Moi les hommes, je les déteste, que se pode traduzir sem perder a ênfase, por Eu, cá por mim, detesto os homens - transformaram uma daquelas pequenas edições de editora de vão de escada (450 exemplares), num sucesso de vendas: duas reedições e 2.500 exemplares vendidos até agora e isso desde 19 de Agosto! Vai daí, um funcionário do ministério da Igualdade francês* resolveu meter o bedelho, ameaçando sancionar o livrinho... e concedendo-lhe com isso uma promoção gratuita que, para além de dar um empurrãozinho às vendas, neste momento, já transpôs as fronteiras de França. Mas, confesso, o que mais me faz gostar de todo este episódio, motivo aliás para aqui o destacar, é a oportunidade que ele propicia para arejar a palavra misandria, que tem sido completamente ofuscada pelo emprego da sua rival misoginia. Considero-o, ao episódio, assaz ridículo, embora constate que haja quem o leve, do outro lado do funcionário de ministério, com uma seriedade igualmente rigorosa: uma consulta ao site do goodreads comprova-o: 35 apreciações, todas elogiosas e, por acaso, nenhuma de um homem. A rematar, gostaria de constatar o quanto estas experiências que nos chegam lá de fora, nos podem enriquecer com ideias. Imaginemos por cá a edição de um opúsculo em que, como homenagem a uma das mulheres que, cá em Portugal, melhor personifica a misandria, adoptamos o título portentoso (mas extenso) de: Se todas as mulheres fossem como a Maria Teresa Horta, não havia poesia erótica que salvasse a Humanidade da extinção. Deixamos ás leitoras e leitores mais argutos a razão para essa extinção... Seria um livro misógino, mas também talvez se vendesse muito bem...
* O ministério tem um nome giríssimo, parece um daqueles ministérios com nomes intermináveis, como os inventados pelo Pedro Santana Lopes, e a primeira pessoa que imaginamos à sua frente em toda a sua irrelevância, só poderia ser Maria de Belém Roseira: ministério encarregado da igualdade entre mulheres e homens, da diversidade e da igualdade de oportunidades.
OS QUINHENTOS «HARA-KIRIS» DE SINGAPURA
10 de Setembro de 1945. Ainda na sequência das rendições das guarnições japonesas estacionadas no Extremo Oriente, chegava ao Ocidente a notícia impressionante de um suicídio colectivo dos oficiais da guarnição japonesa de Singapura «depois de um «cocktail» de despedida» que se realizara - a notícia não o específica - no mais emblemático e selecto hotel da - à época - colónia britânica: o Raffles. E haviam sido 500 os oficiais japoneses que haviam cometido «hara-kiri». Cinquenta anos depois e, como se se tratasse de um «voucher» de hotel, já o debate a respeito do número de suicídios que então se haviam registado se reduzira para uns 300. E, há cerca de dez anos, na única resposta concreta para a dúvida de quantos verdadeiramente se haviam suicidado, o número apontado é um. Há que reconhecer o mérito japonês de conseguir multiplicar um episódio por quinhentos e criar um mito a partir daí.
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09 setembro 2020
DOZE OU TREZE ANOS?
Há um punhado de dias, apareceram na net umas imagens impressionantes da actuação da polícia chinesa em Hong Kong, perseguindo e imobilizando uma miúda que se percebe estar assustada com a intimidação do aparato policial que a cerca. A pequena miúda, que nos informam ter apenas doze anos, acaba no chão, derrubada por uma força mais do que bruta, desproporcionada, numa condenação pungente do que pode ser a violência policial corriqueira na China de hoje, mesmo em locais, como Hong Kong, que já terão gozado de outras experiências mais benignas quando sob administração colonial. Mas, nesta guerra de reputações, os chineses parecem ter outros meios e ser adversários mais coriáceos dos americanos do que outrora o foram os soviéticos. E, porque a actuação da polícia nos Estados Unidos é um manancial para barbaridades, a resposta retaliadora imediata parece ter sido a publicitação de um episódio ocorrido quase na mesma altura em Salt Lake City, quando a mãe de um miúdo autista de treze anos chamou a emergência médica (911) porque estava com dificuldades em lidar com o filho. A polícia antecipou-se ao apoio médico especializado e agora a senhora está a tentar perceber o que pode ter acontecido para que o seu filho tivesse sido baleado quatro ou cinco vezes e ido parar a uma cama de hospital em estado muito grave... Todos sabemos que aquilo que distingue os Estados Unidos da China vai muito para além do comportamento das respectivas forças policiais, mas, no que diz respeito concretamente a este tópico, será que não nos podemos distanciar de qualquer dos estilos, e pugnar por uma terceira via?... Entre agredir uma miúda de doze e balear um miúdo de treze anos, a diferença de idades não parece faceta substancial, pois não?...
QUANDO AS «JUSTAS LUTAS DOS TRABALHADORES» PASSAVAM A SER ACTIVIDADES «SUBVERSIVAS»...
9 de Setembro de 1980. Para os comunistas (e os seus jornais), aquilo que no Ocidente, e nomeadamente em Portugal, era designado por eles como «as justas lutas dos trabalhadores», era considerada actividade «subversiva», até mesmo fomentada do exterior, quando ocorria na Polónia. Em rigor, para os comunistas do Ocidente, os trabalhadores do Leste da Europa haviam perdido o direito a reivindicar melhores salários e melhores condições de trabalho e, quando o faziam, era porque o eram subversivamente incitados a fazê-lo, com o apoio de «embaixadas ocidentais em Lisboa». E os jornais afiliados escreviam-no assim, na primeira página, sem assomo de coerência ou vergonha.
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O APARECIMENTO DO RISO «ENLATADO»
9 de Setembro de 1950. Numa série cómica hoje completamente esquecida, emitida pela cadeia de televisão norte -americana NBC, estreia-se o expediente de adicionar o riso enlatado à banda sonora, para ajudar os espectadores a compreender as piadas e induzi-los a rir delas.
08 setembro 2020
QUEM NÃO SE LEMBRA DA CIMEIRA DO MILÉNIO?!
8 de Setembro de 2000. Último dos três dias da Cimeira do Milénio, com a fotografia de conjunto que estas ocasiões históricas impõem. Para os que já se esqueceram dela, esclareça-se que teve lugar em Nova Iorque e a ela compareceram «100 chefes de estado, 47 chefes de governo (António Guterres por Portugal), 3 príncipes herdeiros, 5 vice-presidentes, 3 vice-primeiro-ministros», para além de um numeroso e grandioso elenco de delegados, rondando um imponente total de 8.000. Amenizando a preocupação de quem está a ler estas linhas e não se lembra da Cimeira: toda a gente teve oportunidade de dizer umas «coisinhas» (65 oradores no primeiro dia, 70 no segundo e 60 no terceiro), mas não se extraiu nada de importante da ocasião, para além de um documento que hoje ninguém recorda, embora se tivesse consolidado esta moda para o novo século (XXI), de promover estes acontecimentos em que se reúne muita gente aparentemente importante para dizer coisas bem intencionadas (a que ninguém liga nenhuma) mas, sobretudo, para tirar uma fotografia de conjunto, para se dizer que lá estiveram todos. Olhando para cima, lá estão eles todos - em vez do Wally, procuremos o Guterres. E, entre a opinião publicada, ninguém se atreve a qualificar estes momentos como uma «palhaçada» porque são mesmo uma «palhaçada».
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07 setembro 2020
HÁ DE SER EM NOVEMBRO. DE QUE ANO DIZEMOS DEPOIS...
Estes seis anos a prometer sem concretizar, são tanto culpa dos anteriores governos, quanto do actual. Mas são sobretudo significativos de uma relação (tolerada) entre os governantes portugueses e o escrutínio (fraco) que deles fazem a opinião publicada e, por arrasto, os eleitores. Houvesse outra exigência e esta palhaçada não acontecia, pelo menos sem uma explicação e um pedido de desculpas pelo atraso de seis anos. Nem é uma questão de questionar as opções politicas, é uma questão de constatar a incompetência em as implementar. Ou então foi tudo questão de andar a anunciar medidas quando não havia meios para o fazer. Em todo o caso, uma merda, portanto.
«QUOUSQUE TANDEM ABUTERE PATIENTIA NOSTRA?»
7 de Setembro de 1990. Por esta época, à beira do desaparecimento (que ocorrerá no final daquele ano), o Diário de Lisboa já deixara de ser o jornal comunista hard-liner que o notabilizara nos anos que se seguiram ao 25 de Abril. Mas, mesmo assim, a transfiguração não fora assim tão grande para que não se lesse com alguma surpresa uma notícia assaz benigna sobre as deambulações do secretário de Estado da Cultura de Cavaco Silva, Pedro Santana Lopes, por terras de Itália. Assaz benigna e assaz superficial, como característico do visado, a notícia dava conta do conteúdo de um discurso seu em que defendia «a melhor articulação dos programas europeus Média-92, «Eureka-Audiovisual» e «Eurimages», e o seu alargamento a terceiros países com afinidades linguísticas». Nada a contradizer, mas dá para contrapor que, por mês e por essa Europa fora, haveria de haver para aí e em média uma meia dúzia de discursos proferidos por governantes portugueses (do mesmo governo de Cavaco Silva) em que se diziam aquele mesmo género de truismos pan-europeus e defendiam outras irrelevâncias parecidas. Nunca se soube como Santana Lopes conseguia promover-se assim, onde os outros nunca o conseguiram, embora a essência do próprio Santana Lopes apareça expressa num outro parágrafo da notícia, não o do discurso, evidentemente: Na cerimónia de gala estiveram figuras de destaque da vida mundana de Itália e estrelas internacionais de cinema como Omar Shariff, Stefana Sandrelli e Elsa Martinelli. (...) Nisso é que Pedro Santana Lopes era imbatível! Mas o verdadeiro valor desta evocação de há trinta anos só adquire todo o seu significado quando a contrapomos a esta outra notícia abaixo do semanário O Diabo deste fim de semana transacto. Passaram-se entretanto trinta anos e o jornal está conotado com a outra extremidade do espectro político em relação ao Diário de Lisboa, mas o formato como é noticiada a passagem de Pedro Santana Lopes pelo partido (Aliança) que entretanto formou à sua volta, revela-se, afinal, tão surpreendente, pela mesma indulgência, como a sua passagem por Veneza o fora. E isso num jornal em que, pela sua própria matriz ideológica, se costuma ser implacável para traições, defecções e outros gestos demonstrativos de falta de honra e pundonor. Pois bem aqui abaixo, conforme retirei da página 3 daquele semanário onde já li tanta gente ser crucificada por bem menos, Pedro Santana Lopes aparece absolvido de ainda ter enrolado um bom punhado de tansos: «O dr. Santana Lopes não vai recandidatar-se à presidência da Direcção Política Nacional (...) Tem disponibilidade para continuar no partido, mas ainda não está definido qualquer lugar ou posição». Há trinta anos, os comunas maravilhavam-se com o glamour dos smokings; agora, são os fachos que, depois de abandonar um partido que se propusera unir para fundar outro que agora abandona, não lhe encontram qualquer falta de carácter. Quousque tandem? - perguntaria Cícero.
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06 setembro 2020
QUANDO A COMUNICAÇÃO SOCIAL NÃO NOS DIZ NADA DO QUE REALMENTE QUEREMOS SABER...
Esta é uma notícia deste fim de semana sobre a evolução do programa espacial chinês. Que, produzida no século XXI, é absolutamente igual na sua opacidade àquelas que se produziam no século passado quando dos feitos do programa espacial soviético. Diferença de pormenor: naquela época era a agência Tass, agora é a agência Xinhua. Mas a narrativa do sucesso é a mesma (hoje sabe-se que os insucessos eram absolutamente escamoteados das notícias no caso soviético e desconfia-se que, no caso chinês, não será certamente muito diferente), mas agora aquilo que as pessoas interessadas quereriam verdadeiramente saber - sobre o assunto, nada. No caso concreto, nem uma única imagem (para amostra) da nave espacial reutilizável que a China terá utilizado. Claro que os profissionais dos serviços de informações norte-americanos, russos, indianos, etc., devem ter acompanhado esta missão chinesa com toda a atenção que os seus satélites de vigilância podem propiciar, e já devem dispor dos seus dados (e fotos) para análise. Mas para satisfazer a curiosidade do grande público, aqueles outros profissionais de que o grande público depende, os da informação, esses continuam no século XX, a redistribuir o que foi pré-preparado para que eles redistribuíssem. Lendo a notícia abaixo, que é indistinta de todas a que se publicaram a respeito, bem poderiam ter admitido a encerrar a notícia: «só sabemos aquilo que os chineses estão interessado que nós saibamos». Contrapõe-se a isto o adágio que postula que é melhor existirem jornalistas do que não os haver, mas episódios como este demonstram o quanto, por vezes, eles se limitam a isso mesmo, existir, sem produzir nada de acrescentado sobre o que os actores querem que se saiba, nem sequer a admissão das suas insuficiências.
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O SEQUESTRO MÚLTIPLO DE AVIÕES DE PASSAGEIROS OCIDENTAIS POR GUERRILHEIROS PALESTINIANOS
6 de Setembro de 1970. Neste dia os guerrilheiros da organização palestiniana radical da FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina) realizaram simultaneamente três bem sucedidos sequestros de aviões de companhias ocidentais tendo falhado um quatro sequestro. O primeiro foi um Boeing 747 da Pan American que foi desviado para o Cairo e que foi dinamitado e destruído logo após o desembarque dos passageiros (primeira imagem). Outro foi um Boeing 707 da também americana TWA. Um terceiro foi um DC-8 da Swissair. Estes dois foram desviados para Dawson Field, uma antiga base britânica na Jordânia que se encontrava praticamente desactivada, onde passageiros e tripulação ficaram à guarda de membros da própria FPLP em terra. O último alvo era também um Boeing 707 da El Al (companhia de aviação israelita), mas aí o assalto fracassou porque o voo levava segurança armada: um dos terroristas foi morto, a outra capturada. No mesmo dia, o líder da FPLP George Habash, apresentou as exigências da sua organização em troca da libertação dos reféns que fizera, nomeadamente a libertação dos guerrilheiros palestinianos presos em Israel e na Alemanha Ocidental, Suíça e Reino Unido por acções anteriores de sequestro de aviões. Durante o decurso das negociações, três dias depois, como reforço de argumentação, um outro avião, um VC-10 da BOAC britânica foi também sequestrado e veio fazer companhia aos outros dois em Dawson Field (é a segunda imagem acima). Três dias passados sobre este último sequestro, no dia 12 de Setembro, a FPLP convoca a imprensa mundial para fazer explodir espectacularmente as três aeronaves (vazias! Mas são 20 milhões de dólares da época em material!) à frente de todas as televisões (abaixo). Lembro-me da cena e do quanto foi impressionante de assistir. Todas estas últimas peripécias se passaram em território jordano e percebendo-se à evidência que as autoridades do país não tinham conseguido interferir no evoluir dos acontecimentos. Em todo o processo e com a cumplicidade de egípcios, sírios e iraquianos, George Habash conseguira radicalizar a luta que opunha as autoridades jordanas aos palestinianos no seu próprio país. Conseguira-o à custa de as humilhar perante a comunidade internacional e as opiniões públicas de todo o mundo. A eclosão do «Setembro Negro» (muito negro para os palestinianos) está em verdadeira contagem decrescente.
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05 setembro 2020
A MORTE DO FUTURO CAMPEÃO PÓSTUMO
5 de Setembro de 1970. Durante os treinos que precedem o Grande Prémio de Itália de Fórmula 1, que iria disputar-se do dia seguinte, morre, na sequência do acidente que as imagens acima e abaixo mostram, o condutor austríaco Jochen Rindt, ao volante de um Lotus 72. Rindt era, na altura, o líder da classificação do Campeonato Mundial de Fórmula 1 daquele ano, quando, depois do de Itália, faltavam três Grandes Prémios por disputar (Canadá, Estados Unidos e México). Mas o avanço de Rindt sobre os seus rivais era tal que, mesmo o belga Jacky Ickx, que venceu as corridas do Canadá e México, não conseguiu obter pontuação suficiente para superar Jochen Rindt, que foi proclamado, pela primeira e única vez até hoje na modalidade, Campeão do Mundo de Fórmula 1 a título póstumo.
04 setembro 2020
COMO DIRIA O CARLOS TÊ E CANTARIA O RUI VELOSO, A NOSSA CULTURA ATÉ FALA ESTRANGEIRO...
Eu compreendo porque é que os palestinianos que se manifestam, acrescentam às suas manifestações cartazes escritos em inglês. Afinal, os destinatários dos seus protestos são a opinião pública ocidental e, entre ela, poucos serão os que conseguem ler os que eles escrevem nos cartazes no seu próprio idioma, por muito gráficos que eles sejam (acima, à direita). Aliás, do outro lado, os israelitas, que também têm um alfabeto próprio que quase mais ninguém consegue ler, fazem precisamente a mesma coisa.
Agora, o que eu estou para perceber é porque é que a malta da cultura cá do sítio, deu em fazer uma coisa muito parecida, quando protesta à frente do ministério da dita (Cultura). Será que a classe cultural considera que os os agentes de pressão para as suas reinvidicações também é a opiinião pública ocidental, que não percebe português? Ou será, num assomo de globalização sofisticada, que estão convictos que a força do que pedem terá mais impacto se for pedido em estrangeiro?
LISBOA - NEW YORK - LISBOA A PREÇOS DE OCASIÃO...
Domingo, 4 de Setembro de 1960. A TWA, uma das grandes companhias de aviação norte-americanas e uma das maiores do mundo (entretanto falida), ocupava uma página inteira do jornal com a promoção de passagens aéreas transatlânticas Lisboa - New York - Lisboa a 10.126$00. Convertendo o valor para euros, isso corresponderia a € 50,51 o que daria à promoção um aspecto estranhamente moderno, como se fosse uma das promoções actuais da easyJet ou da Ryanair. Contudo, actualizando o valor do dinheiro de 1960 para cá, os mesmos 10.126$00 corresponderão a cerca de € 4.780 em 2020. E tratava-se de tarifas especiais e de uma promoção... Ora isso dá-nos toda uma outra perspectiva de quanto custava viajar de avião há sessenta anos.
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03 setembro 2020
A PARADA DA «VITÓRIA» EM LISBOA
3 de Setembro de 1945. A Segunda Guerra Mundial terminara formalmente no dia anterior. Por ocasião da passagem por Lisboa de um contingente de tropas brasileiras que, tendo combatido em Itália, haviam participado na Segunda Guerra Mundial e agora retornavam ao Brasil, organizava-se em Lisboa uma grandiosa parada militar, conforme se constata pelo destaque de primeira página dado pelo Diário de Lisboa ao acontecimento. A presença dos brasileiros em Portugal foi pretexto para organizar o que de mais parecido se pôde arranjar como uma parada da vitória de uma guerra em que Portugal conseguira habilidosamente não se envolver... Mesmo a 75 anos de distância, e por muito pouco patriótico que seja este reconhecimento, tudo aquilo era verdadeiramente ridículo!
...COMO AS «DESCULPAS» DO «CHIMILU»
Eu tive um camarada no Colégio Militar que se «chamava» «Chimilu». O «Chimilu» era muito bom moço, embora com as suas idiossincrasias, uma das quais divertia, irritando, os seus camaradas. É que ele não sabia a diferença entre uma «explicação» e uma «desculpa». Ou seja, quando apanhado em falta, mesmo em faltas menores, fosse porque se esquecera de fechar a cama à hora de almoço, fosse por se ter atrasado para a formatura, o «Chimilu» tinha sempre fé que as razões que possuía para que isso tivesse acontecido o inocentavam e o dispensavam da sanção. O problema era que o «juiz» nunca estava de acordo com ele... Isso não o fazia desistir numa próxima vez. Preserverava, perante o nosso olhar irónico, num encadeado de explicações a que a exuberância de gestos com as mãos, à italiana, acrescentava uma cenografia cómica, porque todos, menos ele, conhecíamos o desfecho... Felizmente nunca pensou dedicar-se a uma carreira jurídica, ele que tinha esta lacuna de não conseguir destrinçar entre os argumentos de uma das partes e a sentença do juiz. O Ricardo Costa (acima) padece do mesmo mal do «Chimilu». Para quem não ande em cima de tudo aquilo que «indigna» as redes sociais, o que acima está reflectido é um momento particularmente infeliz da SIC Notícias que, no princípio desta semana, exibiu uma falsa primeira página do New York Times, onde alguém havia inserido uma notícia forjada a respeito da festa do Avante! Tê-la validado por verdadeira implicou algumas decisões indesculpavelmente estúpidas, nomeadamente não se interrogar por que razão um jornal como o New York Times daria um destaque de primeira página a um assunto daqueles num país como o nosso, ou então, não discernir o contraste estético entre a apresentação da notícia em causa com as do resto da página. São aspectos como estes, quiçá o teor incendiário da notícia, que estão em causa. Mas, como se pode ler acima, Ricardo Costa conta-nos uma outra história, entorpecente, a de como aquilo foi ali parar, coisa que nós sabemos, já que quem estava a assistir à emissão o viu, escarrapachado, ridículo, no painel ao lado da jornalista Clara de Sousa. E retirado logo «15 minutos depois» da apresentação, com «um pedido de desculpas», porque devem ter começado a chover telefonemas indignados para a redacção. Como «as mãos explicativas» do «Chimilu» de outrora, também aquela «conversa» do Ricardo Costa não os absolve de nada. Como o «Chimilu» de outrora, também Ricardo Costa se mostra merecedor de um potente «caldo» naquela sua nuca lisa...
A FUNDAÇÃO DA EBAY
3 de Setembro de 1995. Fundação na Califórnia da ebay, um dos actuais colossos do comércio electrónico, no caso uma plataforma gestora de leilões de artigos em segunda mão. O seu fundador, Pierre Omidyar, é actualmente, e como seria previsível, multimilionário: da última vez que a revista Forbes fez contas Omidyar valia 16,6 mil milhões de euros (o equivalente a 7,8% do PIB português). Contudo, entre os grandes multimilionários gerados pelos negócios típicos do século XXI, tem enriquecido menos e assumido um perfil muito mais discreto do que Mark Zuckerberg (Facebook), Jeff Bezos (Amazon) ou Bill Gates (Microsoft).
02 setembro 2020
COMO UTILIZAR UM TELEFONE
2 de Setembro de 1930. Na penúltima página do Diário de Lisboa, a «Companhia dos Telefones» explicava aos leitores do jornal como utilizar os novos aparelhos automáticos, que dispensavam o recurso às telefonistas:
- Não bater com o descanso no auscultador.
- Não marcar números sem ouvir o sinal de marcar.
- Não permanecer com o auscultador ao ouvido mais que alguns segundos à espera do sinal de marcar. No caso de o não ouvir logo, colocar o auscultador no descanso durante algum tempo e experimentar novamente, procedendo assim até ouvir o sinal de marcar.
- Não ficar a ouvir o sinal de impedido. Desligar logo que o oiça.
- Utilizar o marcador logo que oiça o sinal de marcar e não ir só nessa ocasião procurar o número com que deseja falar.
- O Número deve ser procurado na lista antes de levantar o auscultador.
A leitura destas instruções dá-nos uma ideia do que seriam as dificuldades dos utilizadores de então em se adaptarem às novas tecnologias. Contudo, uma das reviravoltas mais engraçadas e irónicas desta história é que, actualmente, podemos encontrar nas redes sociais vários tutorials a ensinar às novas gerações como usar esses mesmos telefones, nomeadamente os seus marcadores rotativos...
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A COREOGRAFIA DA CERIMÓNIA DA RENDIÇÃO JAPONESA
2 de Setembro de 1945. A cerimónia da rendição japonesa no couraçado USS Missouri, fundeado na baía de Tóquio, põe fim à Segunda Guerra Mundial, quase seis anos, dia por dia, depois de ela ter começado na Europa. Ao contrário do que acontecera a 8 de Maio em Berlim com a rendição alemã, a cerimónia é totalmente protagonizada pelos americanos. Satisfazendo um equilíbrio na rivalidade entre US Army e US Navy, rivalidade essa omnipresente durante toda a guerra no Pacífico, a cerimónia tem lugar num navio da segunda (Armada), embora presidida por um general do primeiro (Exército). E a disposição dos representantes Aliados em nada se assemelha à paridade fotográfica de Berlim. Na fotografia acima, a discursar, t(iv)emos o general Douglas MacArthur... e mais ninguém, demonstrando que aquele país considerava-se a si próprio, ter sido o determinante para a derrota japonesa. Muito provavelmente, teria razão. Por detrás de MacArthur, da esquerda para a direita, numa distribuição protocolar que, dá para supor, se terá inspirado na participação dos países respectivos para o esforço da guerra na Ásia e no Pacífico, aparece o general Xu Yongchang da China, o almirante Bruce Fraser do Reino Unido, o tenente-general Kuzma Derevyanko da União Soviética, o general Thomas Blamey da Austrália, o coronel Lawrence Moore Cosgrave (quase totalmente encoberto por MacArthur) do Canadá, o general Philippe Leclerc de Hauteclocque da França, o vice-almirante Conrad Helfrich dos Países Baixos e, finalmente, o vice-marechal-do-ar Leonard Isitt da Nova Zelândia. Independentemente do destacado protagonismo americano, a disposição hierarquizada dos oito aliados sugere alguns comentários. Um deles é a preferência que é dada, naquelas circunstâncias, pelos norte-americanos aos seus aliados chineses, em detrimento dos seus outros aliados britânicos; os britânicos estão ali presentes com o seu mais credenciado stiff upper lip. Outro dos comentários é sobre o lugar confrangedoramente menor que é atribuído à participação da França Livre na Ásia, posicionada depois da Austrália e do Canadá. E o terceiro é, evidentemente, a presença indisfarçável mas desconfortável da União Soviética na cerimónia, quando ainda não há um mês estava em paz com o Japão. Os soviéticos não têm ilusões quanto ao papel secundário que os americanos lhes reservam, a escolha de quem ali os representa traduz isso, um mero tenente-general, quando a operação Tempestade de Agosto, fora comandada por três marechais (Vasilevsky, Malinovsky e Meretskov), todos eles ostensivamente ausentes da cerimónia. Abaixo, vemos MacArthur a olhar para Derevyanko enquanto este assina os documentos oficiais de rendição.
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01 setembro 2020
A BATALHA DE SEDAN
1 de Setembro de 1870. A Batalha de Sedan dá um primeiro desfecho à guerra que, ainda hoje é impropriamente denominada por Franco Prussiana. Se do outro lado estivessem apenas prussianos, os franceses não se teriam batido consecutivamente sob inferioridade numérica, não teria sido para eles determinante, acentuando essa inferioridade numérica, a neutralização do seu exército do Reno, cercado em Metz. Só que, com os prussianos, também estavam contingentes de todos os outros estados alemães, à excepção dos austríacos. E por isso em Sedan, e por uma última vez, os prussianos possuíam uma superioridade de cerca de 50% quanto a efectivos de infantaria e de quase 40% quanto ao número de peças de artilharia. E, com a chegada à era industrial, acabara-se esse romantismo da genialidade estratégica dos Napoleões e as maravilhas tácticas dos seus generais - as vitórias iam para os exércitos que tinham mais batalhões com maior poder de fogo. Como aconteceu. Abaixo podemos ver uma das (então raras) fotografias da batalha. A rendição de Napoleão III, imperador dos franceses, só veio a ter lugar no dia seguinte e já aqui coloquei um poste a esse respeito, exibindo sete(!) quadros diferentes a mostrarem a (mesma) ocasião.
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