21 janeiro 2019

AQUILO QUE LHES INTERESSA «CHECKAR»

Começo por avisar que esta notícia abaixo, com a pretensa checkagem dos resultados da execução orçamental portuguesa é uma montagem: escusam de a ir procurar ao Observador porque a notícia não está lá. Mas atenção: a primeira parte da notícia, os resultados da execução orçamental, são mesmos verdadeiros, o que eu forjei foi esta pretensa iniciativa daquele mesmo jornal em checkar o apuramento de contas feito pelo Eurostat. A habilidade da utilização destas rúbricas de fact check para fins políticos consiste precisamente no critério com que se elegem os factos a serem checkados. E este caso não presta para o Observador: não só a confirmação (muito provável) da sua veracidade representaria um bónus ao governo, como o carácter neutro do seu autor (o Eurostat) nem sequer lhes permitiria inseminar a dúvida quanto à objectividade de quem fez as contas. A ironia da situação é que o trimestre em questão parece ter sido atípico - já o diziam as conclusões apresentadas a semana passada pelo Conselho das Finanças Públicas. E nesse âmbito e por causa disso, faria todo o sentido checkarem-se os factos do que terá acontecido/estará a acontecer. Mas como qualquer conclusão a que se chegasse nunca afectaria negativamente a imagem governamental, não será coisa com que o Observador perca tempo. Sim, porque se a preocupação aparente do jornal é com os factos, o que ele quer concluir com os factos tem sido sempre de natureza política, não tem nada a ver com o que lhe está associado, neste caso, finanças públicas.

20 janeiro 2019

O ASSALTO AOS PAIÓIS DE LEBACH

20 de Janeiro de 1969. Em Lebach, povoação do estado alemão federal do Sarre, situada a uns 30 km da fronteira com a França e por volta das 03H00 da madrugada, dois homens armados acompanhados de um cúmplice, assaltaram os paióis do Batalhão Paraquedista 261, matando a tiro quatro dos guardas em serviço enquanto estes dormiam, e ferindo gravemente os dois restantes membros da guarnição. O produto do roubo torna-se ridiculamente desproporcionado quando em comparação com o massacre perpetrado: duas pistolas Walther P38 com 50 cartuchos de 9 mm e ainda três espingardas automáticas G-3, complementadas com mil munições de calibre 7,62 mm NATO. Foi realmente o aspecto sangrento do roubo, mais do que o facto dele ter ocorrido numas instalações militares, que mais chamou a atenção para o acontecido, a ponto de ele ser destacado para a primeira página da edição do Diário de Lisboa daquele dia (acima). A evocação deste acontecimento de há cinquenta anos tem também a pertinência de poder ser apresentado em contraponto aos acontecimentos de Tancos de há ano e meio e ao alarmismo então produzido por entendidos como o Nuno Rogeiro. Os assaltantes vieram a ser julgados no Verão de 1970: ambos foram condenados a prisão perpétua (por causa dos homicídios); o cúmplice que os acompanhava foi-o a seis anos de prisão. Um dos réus ainda permanecia preso em 2016. Quando percebemos do assunto em notícia, aí conseguimos colocá-lo em contexto; quando não percebemos, o que acontece numa maioria de vezes, a ideia seria contar com alguém - os jornalistas - que o fizesse por nós: a notícia acima enfatiza a gravidade do que aconteceu mas sem perder a sobriedade. A comparação do como era com o como é, mostra o que é que mudou na informação nestes cinquenta anos.

19 janeiro 2019

O PROCURADOR GERAL QUE FOI «DENTRO»

19 de Janeiro de 1979. John N. Mitchell (1913-1988), que fora o antigo procurador-geral dos Estados Unidos durante a Administração Nixon entre 1969 e 1972, sai em liberdade condicional da prisão federal onde cumprira até aí (apenas) dezanove meses da sentença de um total de dois e meio a oito anos a que fora condenado por conspiração, obstrução à justiça e perjúrio no quadro dos vários acontecimentos associados àquilo que veio a ser conhecido colectivamente por Caso Watergate. Se, de Watergate, aquilo que mais se retém é a resignação do presidente Richard Nixon em 8 de Agosto de 1974, em antecipação à sua demissão forçada, perde-se com frequência a perspectiva de que Richard Nixon arrastou consigo em todos aqueles processos 69 dos seus colaboradores, 48 dos quais foram considerados culpados nos tribunais. Mais do que um evento isolado, Watergate foi uma derrocada de pinos de bowling até ao próprio ocupante da Casa Branca. E John Mitchell, que superintendera a faceta executiva do aparelho judicial norte americano enquanto procurador-geral dos Estados Unidos será provavelmente o mais anacrónico de todos aqueles pinos. A completar a ironia haviam decorrido quase precisamente dez anos (22 de Janeiro de 1969) que John Mitchell tomara posse do cargo diante desse mesmo presidente que o arrastará para a ignominia da prisão.
Frequentemente, e agora cada vez com mais frequência, se refere a analogia do caso de Richard Nixon com o de Donald Trump. Há aspectos análogos, há outros muito distintos. Mas uma das formas que creio mais úteis de interpretar a tendência dos acontecimentos, pode não ter a ver com os acontecimentos que envolvem directamente o presidente, mas concentrarmo-nos antes no ritmo a que estão a ser derrubados os pinos de bowling que o rodeiam...

18 janeiro 2019

ABERTURA DA CONFERÊNCIA DE PAZ DE PARIS

18 de Janeiro de 1919. É o dia da abertura da grande Conferência da Paz que, em Paris, se propunha criar a nova Ordem Internacional que se seguiria ao fim da Grande Guerra. Para o efeito, o próprio presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, cometera a proeza inédita de se deslocar pessoalmente à Europa para as conversações com os outros representantes das potências vencedoras. Na capa do livro acima, vêmo-lo à direita, acompanhado do anfitrião francês Georges Clémenceau ao centro e do primeiro-ministro britânico David Lloyd George à esquerda. As personagens principais estão de cartola, as secundárias de palhinha. O livro em questão, intitulado Paris 1919 - Seis Meses que Mudaram o Mundo é um excelente livro para nos explicar aquilo que aconteceu durante a Conferência. Está muito bem escrito e estruturado, recebeu por isso o Prémio Samuel Johnson em 2002 (é considerado o mais prestigiado prémio literário britânico para obras de não ficção). O único óbice é que não está traduzido - pelo menos para português europeu. E é nestas ocasiões que apetece descarregar a nossa ira frustrada:
a) Nos críticos literários domésticos que se especializaram em não perceber um avo de obras de não ficção.
b) Nas editoras portuguesas, por não se darem ao trabalho de traduzir e editar em tempo estas obras de referência (para vergonha, a versão turca de Paris 1919)
c) Nas mesmas editoras portuguesas, porque, quando finalmente editam uma dessas obras, ao fim de uns vinte anos, fazem uma promoção que apenas as menoriza.

16 janeiro 2019

DUAS SÉRIES CLÁSSICAS DE TELEVISÃO DA BBC

Entre as prendas que ofereci este Natal contam-se estas duas antigas séries televisivas, ambas de 1974 e ambas produzidas pela BBC, por muitos anos reputada pela qualidade das suas produções. Gostei de as ver (rever no primeiro caso, já que Fall of Eagles foi transmitida pela nossa RTP ao longo do Outono de 1975), embora compreendendo quanto a linguagem televisiva evoluiu muito nos 45 anos entretanto decorridos. A esmagadora maioria das cenas (talvez 90% do tempo) decorrem em cenários interiores e o género dos diálogos tem fortes reminiscências teatrais. Estou convencido que a grande maioria dos espectadores actuais, habituados a outras gramáticas televisivas, não as iriam apreciar. Sobretudo porque, tanto num caso como noutro, Fall of Eagles e Microbes and Men assentam as suas narrativas no pressuposto que o espectador possuirá uns conhecimentos escolares mínimos (de História no primeiro caso e de Ciências no segundo) que o fazem conseguir envolver-se com a trama. Se calhar, isso nunca foi verdade, havia apenas a vergonha social em admitir que os ensinamentos escolares há muito estavam esquecidos, e em 1974 apenas algumas elites apreciavam genuinamente aquelas séries de televisão. Era uma outra época, em que as televisões se propunham informar, educar e entreter e séries como estas pretendiam associar os dois últimos objecivos. Na actualidade, aquela pretensão de educar o espectador perdeu-se completamente. Canais que se pretendiam originalmente temáticos, casos do canal História ou do Odisseia tiveram que inflectir nitidamente nos conteúdos da sua programação para permanecerem competitivos na disputa das audiências marginais: como se comprova pelo facto de se programar aliens para o canal História. Ora os aliens não têm nada a ver com História; aliás, do ponto de vista científico, os aliens não têm a ver com nada...

15 janeiro 2019

A POROROCA DE MELAÇO QUE INUNDOU UMA PARTE DO PORTO DE BOSTON


15 de Janeiro de 1919. Na zona portuária da cidade de Boston, aproximava-se a hora de almoço (12H30), quando rebentou um enorme depósito de melaço praticamente cheio, um colossal cilindro de 15 metros de altura e quase o dobro de diâmetro (27 metros), com uma capacidade de 8.700 m³. Em consequência da explosão, o melaço espalhou-se aceleradamente (a uma velocidade estimada de 50 km/h) por todas as redondezas, na forma de uma gigantesca pororoca viscosa e peganhenta, inicialmente com cerca de uns 12 metros de altura, embora tivesse vindo a perder progressivamente altura e potência à medida que o melaço se esparramava pelas várias ruas circundantes e por uma área progressivamente maior. No final, a inundação de melaço cobria uma extensão de inúmeros quarteirões mas ficava-se apenas pelo meio metro de altura. Contudo, até aí, a torrente, de uma substância de uma densidade e viscosidade assaz superior às torrentes tradicionais de água, derrubara edifícios à sua passagem, engolindo pessoas e animais incapazes de fugir. O acidente deixou um rasto de 21 pessoas mortas debaixo dos escombros dos edifícios esmagados ou afogadas naquela substância viscosa. Para além disso, registaram-se 150 feridos, cobertos de melaço da cabeça aos pés. Cem anos depois, o acidente reveste-se do insólito suficiente para ser evocado.

14 janeiro 2019

O INCÊNDIO NO PORTA AVIÕES ENTERPRISE


14 de Janeiro de 1969. O enorme porta-aviões norte-americano USS Enterprise (342 metros e 95.000 toneladas de deslocamento) navegava a umas 70 milhas a sudoeste de Pearl Harbor nas ilhas Hawaii quando, pelas 08H18, um míssil instalado sob a asa de um F-4 Phanton estacionado explodiu, desencadeando por sua vez um incêndio e uma cadeia de explosões de outros misseis e também de bombas instaladas nos aviões estacionados adjacentes. Ainda para mais a dantesca cena era ampliada pelo vigoroso incêndio que se alimentava dos depósitos de combustível de aviação. No total, deram-se dezoito explosões, ao longo das quatro horas que o incêndio durou até conseguir ser dominado. Morreram 28 membros da tripulação, 314 ficaram feridos, 15 aviões foram destruídos, a reparação dos estragos montou a uns 126 milhões de dólares (da época). Este tipo de acidentes eram raros, mas mais frequentes do que se possa pensar. Ainda um ano e meio antes acontecera algo de semelhante no USS Forrestal (já referido no Herdeiro de Aécio) e este género de acidentes haviam sido objecto de um cuidado esforço de prevenção por parte da US Navy. Uma das medidas de segurança entretanto implementadas fora a instalação de câmaras de TV nos conveses dos porta-aviões para que as imagens não só facilitassem a investigação das causas dos acidentes como também para aprender com elas como combater mais eficazmente os incêndios. Com resultados: no Forrestal haviam morrido 134 marinheiros, aqui apenas 20% disso, o incêndio havia demorado 24 horas a ser dominado, aqui apenas 4 horas. E com consequências práticas na operacionalidade dos navios: o USS Forrestal perdera oito meses em reparações, o USS Enterprise perderá apenas dois. Mas a outra consequência da instalação dessas longínquas percursoras de CCTV é a obtenção das imagens arrepiantes que se podem apreciar no vídeo acima.

13 janeiro 2019

CRÓNICA DE UMA COREOGRAFIA ANUNCIADA

Pronto, aí está! Não se pode dizer que tivesse sido surpresa esta coisa de Luís Montenegro. A atitude, mas sobretudo o patrocínio do Observador (ainda há um mês aqui o antecipava). E o engraçado é que o episódio tem escassos dias, mas já vemos aquela publicação entusiasmada, com sentido de missão e em velocidade de cruzeiro, a terçar armas pelo candidato que ainda não o é. Uma oportuna sondagem (abaixo) reveste-se logo da virtude de pôr o PSD a atingir «mínimos históricos», com isso robustecendo a argumentação de Montenegro e a oportunidade do desafio. Será isso verdade, a crise? Nada melhor do que consultar a página da Marktest, que exibe o histórico das sondagens de todas as empresas do ramo desde Setembro de 2009 (mais abaixo). Se esta é uma crise, comparemos com as crises dos últimos dez anos. A evolução dos resultados do PSD está naturalmente assinalado a cor de laranja. As eleições estão assinaladas por traços verticais. O pequeno rectângulo a amarelo e com moldura preta abrange a banda dos 25 a 30% das intenções de voto que o PSD não tem conseguido superar desde que Rui Rio se tornou presidente do partido há menos de um ano. Mas repare-se que não foi com o actual presidente do PSD, mas antes com o seu antecessor, que as intenções de voto nas sondagens no partido desceram até aquela banda dos 25 a 30%. A culpa de Rui Rio é a de não conseguir fazer subir o partido desses valores que herdou e nisso, quem critica Rio exigindo resultados, tem objectivamente razão. Porém, interessante para avaliar a coerência do desafiante Montenegro, é o outro rectângulo amarelo, emoldurado a vermelho, que assinala os seis anos (2011-17) em que Luís Montenegro presidiu ao grupo parlamentar do PSD e os resultados que o partido ia obtendo nas sondagens, sem que ele manifestasse o incómodo de que agora se fez porta-voz. Talvez porque, e o mapa da Marktest demonstra-o claramente, o aproximar das datas de eleições e a realização das mesmas provoque substanciais alterações nos dados anteriores. Tendo-o dado por mais do que uma vez a Passos Coelho, porque é que, desta vez, Luís Montenegro, não quer mesmo dar o benefício da dúvida a Rui Rio?... É porque já estão a elaborar as listas de deputados e então assim é adeus empregos, é?

12 janeiro 2019

O «YOGI BEAR» E O «YOGA BEAR»


Havia o Yogi Bear, personagem de uma antiga série de desenhos animados (acima), mas este abaixo é o Yoga Bear, captado em pleno acto de se espreguiçar sobre a neve, com a perna alçada e os braços a desenharem uma sugestão de saudáveis alongamentos. A fotografia é de Roie Galitz.

10 janeiro 2019

O APARECIMENTO DE TINTIN

10 de Janeiro de 1929. Le Petit Vingtième era a edição juvenil semanal de quinta feira do diário conservador católico belga Le Vingtième Siècle. Mais do que o conservantismo, ao longo da década de 1920 o jornal iniciara uma inflexão política em direcção ao fascismo. Esta edição de há 90 anos caracterizava-se por conter as duas primeiras pranchas de uma aventura de um herói de BD destinado a dar muito que falar: Tintin. A história chamava-se Tintin no País dos Sovietes e, com um total de 138 pranchas, irá prosseguir a sua publicação ao mesmo ritmo até à edição de 8 de Maio de 1930. E, como se pode apreciar pela primeira prancha abaixo, ainda se estava muito longe do estilo de linha clara que caracterizaria as Aventuras de Tintin.

A RETIRADA CUBANA DE ANGOLA

10 de Janeiro de 1989. Os soldados cubanos começavam a abandonar finalmente Angola: há treze anos que eles lá estavam (logo depois, e muito provavelmente até mesmo antes, da independência concedida pelos portugueses em Novembro de 1975) e há treze anos que andavam a prometer que de lá saíam (veja-se esta notícia de Maio de 1976!). Em comparação, outros treze anos de guerra (1961-1974) haviam esgotado a força anímica dos portugueses em quererem defender Angola como sua. Mas estes treze anos de guerra (1975-1989) pareciam não ter beliscado a determinação dos cubanos em defender um país irmão na ideologia situado a 11.000 km de distância! Ou é a constatação da superioridade moral do marxismo-leninismo, ou é a constatação de que a ditadura cubana era particularmente mais eficaz do que a portuguesa quanto à supressão das manifestações sociais de revolta a respeito do engajamento numa guerra distante. Os últimos soldados cubanos só abandonarão Angola em 1991 e durante esses quinze anos terão sido cerca de 310.000 os cubanos  mobilizados para lá combater, deixando um saldo oficial de 2.016 mortos.  

09 janeiro 2019

A PRIMEIRA CONVERSA EM FAMÍLIA DE MARCELLO... CAETANO


8 de Janeiro de 1969. Acabado de chegar ao poder há três meses, em substituição do imprescindível doutor Salazar, o novo presidente do Conselho encetava naquele serão de há cinquenta anos (pelas 22H00!) um novo formato de comunicação com os portugueses. A conversa em família de Marcello Caetano podia parecer muito moderna na circunstância aos portugueses, mas limitava-se a copiar um modelo - as «fireside chats» - que o presidente Franklin Roosevelt adoptara já nos Estados Unidos 35 anos antes, então apenas no formato radiofónico. Esta conversa inaugural teve uma duração de 17 minutos e foi transmitida em simultâneo tanto pela televisão quanto pelas várias emissoras de rádio. No entanto, no dia seguinte, também os mais tradicionais meios de comunicação, os jornais, traziam a publicação da comunicação na íntegra. Abraçando o clima de abertura, o título deste jornal procurava transmitir uma (estudada) fragilidade governamental: o governo estava embaraçado...

07 janeiro 2019

ENTÃO FICÁMOS ASSIM...

Para a sentença do julgamento do caso dos Vistos Gold, o meritíssimo juiz terá formado a convicção que o ex-ministro é apenas um malandro, mas não um escroque. É assim que o réu Miguel Macedo é absolvido, porque apenas os ex-ministros escroques - do calibre de um Armando Vara, por exemplo - é que têm direito de ir para a prisão. Agora, quanto ao facto de Macedo ser considerado um malandro e quanto à sanção moral e política a esse respeito, o presidente do PSD deixou claro que sempre acreditara na inocência do réu, que não o acha «capaz de utilizar um cargo público em benefício próprio», deixando o pressuposto que fazê-lo em benefício dos amigos é toda uma outra atitude ética, serão enternecedoras histórias de amizade... e isso até constitui uma malandrice bonita. Então ficámos assim... e nem fica claro se podemos descartar um regresso para breve de Miguel Macedo à política.

POIS, ELE É MESMO SEGUNDA FEIRA...

A fotografia é de Danielle D'Ermo.

06 janeiro 2019

PREVISÕES FALHADAS... OU APENAS TÍTULOS BOMBÁSTICOS

Para nos recordar o quanto a relação do jornalismo com o Rigor e a Verdade sempre se revestiu de alguma controvérsia, destaquemos nesta primeira página de há cinquenta anos (6 de Janeiro de 1969), aquela "previsão" da NASA que o Homem chegaria a Marte dentro de dez anos que, no momento em que era publicada, era potenciada pelo facto de "o Homem" ainda não havia sequer chegado à Lua, feito que só viria a acontecer dali por seis meses.
Mas, o leitor que se desse ao trabalho de ler o conteúdo da notícia que era desenvolvida numa página interior, aperceber-se-ia das condicionantes que eram levantadas pelos dirigentes da própria agência espacial norte-americana, numa passagem final que estava, aliás, destacada a bold. «Os dirigentes da NASA admitem, por outro lado, a possibilidade de um desembarque humano em Marte dentro de uns dez anos. No entanto, acentuam que este programa exigiria tais créditos que a sua realização terá que se subordinar a considerações de carácter político, tais como o regresso à paz e a solução do problema da pobreza nos grandes centros urbanos dos Estados Unidos.»
Ou seja, a chegada do Homem a Marte dependeria das prioridades políticas da alocação de recursos, antes de se colocarem as questões técnicas a respeito dos voos espaciais tripulados. E isso era uma ressalva que no jornal se considerava que não interessaria nem captaria a atenção do leitor mediano. O tempo, e agora as redes sociais, apenas acentuaram essa diferença entre uma maioria que só quer ler as gordas e aqueles que porfiam e se dispõem a ler tudo até ao fim.

05 janeiro 2019

OS «INCÊNDIOS POLÍTICOS» NÃO SE PROPAGAM AOS RADICAIS «MOLHADOS»?

A propósito da celeuma provocada pelo convite da TVI a uma personagem (Mário Machado), com algum impacto mediático, conotada com a extrema direita e que acima vejo a ser comparado a um "incêndio político", lembro-me de um episódio semelhante, ocorrido há apenas um ano e através de um convite dessa mesma TVI, a uma outra personagem (Arnaldo Matos), também com algum impacto mediático, só que oriunda do outro extremo do espectro político, da extrema esquerda. Não sei quantos ainda se lembrarão da aparição deste último no programa televisivo Governo Sombra, contracenando com os habitués do programa. Eu lembro-me e comecei logo por não gostar. Por várias razões, a começar pelo facto de ter Arnaldo Matos na conta de um façanhudo, sem ponta de espírito de humor. E lembro-me que não me senti só nesse meu desagrado que se confirmou com o programa (para quem o quiser rever). Recupero uma parte do comentário que Francisco Seixas da Costa escreveu então no seu blogue a respeito daquela iniciativa da TVI:
«Entrámos no último dia do ano com o programa televisivo "Governo Sombra" a ter como convidado Arnaldo Matos. O atual "dono" do PCTP-MRPP foi recebido com um tom visivelmente complacente pelos "residentes" do programa, ansiosos por lhe extraírem declarações chocantes e expressões radicais, à altura daquilo a que o velho político sempre habituou o seu auditório. Conhecedor do palco que pisava, Matos não se fez rogado e, no meio de elogios táticos aos anfitriões, esteve à altura da "performance" aguardada, chamando "nazis" aos gestores alemães da Auto-Europa e mostrando compreensão pelos ataques do Estado Islâmico. Foi notório o gozo com que continua a ser recebida a qualificação de "social-fascista" que o MRPP sempre aplica ao PCP. É que o MRPP continua a ser o "enfant chéri" (para ser simpático) de certos meios, que sempre o cobrem com uma espécie de juízo de inimputabilidade, que nos dias de hoje o coloca ao nível de uma caricatura de comédia.»
Suponho que o parágrafo sintetiza bem o mau gosto, a indulgência e o desconforto de um programa que se pretendia de humor e que o perdeu em grande parte. Ouvir Arnaldo Matos a relativizar os ataques terroristas dos jiadistas em Paris e em Londres foi chocante. E também não houve coragem de se lhe perguntar o que é que ele pensava de Estaline... Mas era uma questão de opiniões e o incidente ficou-se - e bem! - por aí: tratara-se de uma escolha assaz infeliz da TVI (e da TSF). Tanto assim que, de então para cá, já houve ocasião para que os habitués do "Governo Sombra" se desforrassem de um convidado que desconfio tenha sido pouco empático (veja-se o vídeo abaixo). Se me perguntassem agora que reservas teria para um programa com Mário Machado como convidado, seriam as mesmas que dispensara ao com Arnaldo Matos. Tudo o resto me pareceu comparável embora não tenha assistido inicialmente ao segundo. Só que a ressonância nas redes sociais se veio a revelar incomparável. Há um enorme e (para mim) incompreensível contraste entre aquilo que (não) aconteceu há um ano com Arnaldo Matos e o que está a acontecer agora por causa de Mário Machado: há um arrepiante clamor histérico, uma tal incongruência e uma tal dualidade de critérios que, pelo fanatismo e pela irracionalidade, me chocam mais do que todos os disparates que os dois radicais possam proferir. Sejamos claros: eu concordo com quase todos os que criticam Mário Machado e pelo que lhe criticam. Mas, mais do que a ressurgência do fascismo, assusta-me a veemência com que tantos se sentem na obrigação de, neste caso, se manifestarem e nos termos em que o fazem, quando nos outros se demitem de se manifestar. Quero aproveitar todo este barulho para destacar a insuportabilidade do silêncio no passado.

OS PRIMÓRDIOS DO PARTIDO NACIONAL SOCIALISTA DOS TRABALHADORES ALEMÃES

5 de Janeiro de 1919. Era fundado em Munique, capital da Baviera, um pequeno partido político que foi denominado por Deutsche Arbeiter-Partei (DAP). Os seus fundadores são hoje desconhecidos: incluíam o seu primeiro presidente Anton Drexler (1884-1942, na fotografia acima), o jornalista Karl Harrer (1890-1926), o engenheiro Gottfried Feder (1883-1941) e o jornalista Dietrich Eckart (1868-1923). E a militância era pouco mais do que os fundadores, situava-se na ordem das dezenas de militantes, mas em Setembro de 1919 o DAP iria ser enriquecido com a adesão de um militante (o 55º) cujo nome já será bastante mais familiar ao leitor: Adolf Hitler (1889-1945). A presença deste último militante entre o núcleo dirigente do DAP veio a provocar uma inflexão significativa no partido. Meses depois, em Fevereiro de 1920, o DAP mudou o seu nome para NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiter-Partei). E em Julho de 1921, e por causa da popularidade que granjeara como orador, Adolf Hitler substituiu Anton Drexler à frente do NSDAP. O resto da ascensão do partido com o seu novo dirigente são episódios tão conhecidos, que se dispensa a sua menção nesta ocasião da celebração do centenário da organização.

04 janeiro 2019

O PERCURSO DISCRETO DA DESCOLONIZAÇÃO ESPANHOLA

4 de Janeiro de 1969. As autoridades marroquinas e espanholas chegavam a acordo em Rabat para a transferência para Marrocos da soberania do pequeno território de Ifni (ver mapa abaixo). Com 1.500 km² e habitado por um pouco mais de 50.000 habitantes, o território fora violentamente disputado dez anos antes (do Outono de 1957 à Primavera de 1958) por espanhóis e marroquinos, no decurso de uma guerra que hoje está esquecida. Se os espanhóis salvaram militarmente as aparências, mais para consumo doméstico do que do ponto de vista estritamente militar, por outro lado, a sua permanência ulterior nas possessões que detinha na fachada atlântica de Marrocos, afigurava-se definitivamente comprometida após o término do protectorado francês em Março de 1956. Aliás, a notícia que o Diário de Lisboa publicava na edição de há cinquenta anos era falsa logo a partir do primeiro parágrafo: «O enclave do Ifni é o primeiro dos territórios administrados pela Espanha, (...) que é reintegrado no território marroquino». Ora o tratado que fora firmado entre Marrocos e a Espanha na sequência da Guerra de 1957-58, o tratado de Angra de Cintra, já se saldara pela cedência por parte da Espanha do território espanhol de Cabo Juby a Marrocos (32.875 km² e uns 10.000 habitantes). Mas essa estava a ser a habilidade do regime franquista no que diz respeito à descolonização, em contraste flagrante com o que acontecia simultaneamente com os seus vizinhos portugueses: ceder em quase tudo, embora dando a aparência contrária. Passada uma decorosa década (para não se dizer que haviam sido corridos), em Ifni a cerimónia simbólica da transferência de soberania iria ter lugar a 30 de Junho de 1969. Ficava por resolver o problema do Sáara Espanhol...

03 janeiro 2019

MATEMÁTICA «BOLÁCHICA»

Passe a publicidade à marca, reconheça-se que se trata de uma interessante explicação sobre arranjos e combinações recorrendo às bolachas (O) e ao seu recheio (RE).

02 janeiro 2019

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES

Há uns precisos (e preciosos) quarenta anos a separar os dois textos supra. O antifascista João Espada, que vemos como impulsionador de uma «comissão para a defesa da liberdade de informação» (em 1979) tornou-se, com os anos, num imensamente diferente João (Carlos) Espada, «conversador civilizado» e «re-descobridor das boas tradições demo-liberais» (para 2019). Confesso que, quando a canção de José Mário Branco se tornou um hit na sequência imediata do 25 de Abril (1974), não me apercebi então de como era perene e profundo o ensinamento contido no soneto de Camões, e de como seria capaz de se vir a virar no futuro com mordacidade revolucionária contra tantos dos revolucionários daquela altura...

Adenda: Uma das maneiras mais clássicas como se tenta por vezes baralhar a discussão a respeito das grandes circunvoluções político-filosóficas, como é o caso da protagonizada acima por João (Carlos) Espada, é misturá-las com os tradicionais taticismos da política, de que fui recuperar um exemplo acabado de ocorrer, a inflexão do antigo candidato presidencial americano Mitt Romney a respeito de Donald Trump, depois de dois anos da presidência deste. Não tem nada a ver. Espada era, em 1979, um comunista, a queixar-se (cinicamente) de uma falta de liberdade que só as Democracias lhes concediam. Está a queixar-se de algo que lhe concediam mas que ele não fazia tenção de manter caso ele e os seus alcançassem o poder.
Mas foi preciso ter mudado todos os alicerces filosóficos das suas convicções políticas para que ele viesse a defender tudo o que agora o vemos defender politicamente - o Churchill que hoje Espada tanto gosta de citar não era(é) propriamente um autor favorito entre os marxistas-leninistas como Espada era... Enquanto Romney deu apenas "corda" a Trump até à altura em que considerou que este se "espetou" para além de qualquer possibilidade de recuperação política para então se dissociar. Não é bonito, mas Romney não deixou de ser quem era. Espada sim. Pode alguém ser quem não é?