Circula por aí uma notícia típica de silly season, que nos conta as desventuras de uma avózinha inglesa de 81 anos, que foi passar um par de semanas de férias a Benidorm, Espanha, em Maio passado e que veio de lá muito desapontada. Aparecida inicialmente num jornal local britânico, o Lancashire Telegraph, a notícia propagou-se rapidamente aos tablóides e a outros jornais de maior circulação em Inglaterra, acabando por regressar aos jornais do país da origem da questão, a Espanha. Por cá, a coisa também não escapou ao Correio da Manhã. Toda a «popularidade» da notícia deve-se à forma como a velhota redigiu a reclamação que endereçou à agência de viagens que contratara. Segundo a senhora, Benidorm, e especialmente o hotel em que ficou alojada, estaria «repleto de espanhóis» e estes, na sua opinião, não se sabiam comportar (os clientes, os empregados não...). Em abono do seu cosmopolitismo, na reclamação, ela refere que já fizera férias na Grécia, Turquia, Portugal e (sic) Tenerife e que esta seria a primeira vez que reclamava por umas férias que qualificou de «desastrosas do principio ao fim». A acrescer, e como os tablóides britânicos não gostam de abandonar um assunto destes sem o explorar até ao tutano, houve um deles que foi investigar as reviews do hotel em causa, para concluir que já vários compatriotas da avózinha se haviam queixado da profusão de espanhóis alojados naquele hotel (que se situa em Benidorm, Espanha, relembre-se...). Eu sempre suspeitei que existe em todo o inglês em férias aquela opinião secreta, escondida, que os verdadeiros destinos turísticos ideais seriam aqueles que só eles os frequentariam. Já todos nos teremos cruzado com vários ingleses no Algarve que nos exprimem de uma forma inequívoca que quem está ali a incomodá-los seremos nós. E no entanto... os ingleses têm destinos turísticos deles e só para eles no seu próprio país: a fotografia acima é de Frank Horvat e foi tirada em 1960, da magnífica praia de Brighton que se estende por mais de 8 quilómetros. É verdade que o Sol - que é escasso - não impressiona nesta foto pela sua luminosidade. É verdade também que areia, nem vê-la, já que o solo é pedregoso, polvilhado de calhaus. Reconheço que também não se vê ninguém na água. Mas aqueles pontões são uma beleza e o conjunto tem a ineludível vantagem da frequência, já que, para além das duas banhistas que, em primeiro plano, compostamente se mudam, estou tentado a apostar que, até aonde a vista alcança, não haverá banhistas de uma nacionalidade diferente que não a britânica. Porque é que eles não ficam por lá? É que isto de vagar os nossos países só para que eles se instalem ao Sol mais à vontade é logisticamente complicado, não é?...
14 agosto 2018
13 agosto 2018
HÁ CINQUENTA ANOS: UMA ÚLTIMA REUNIÃO ENTRE DUBČEK E ULBRICHT
Em contraste com o que acontecera três dias antes com a visita de Tito da Jugoslávia, o encontro de Alexander Dubček com Walter Ulbricht caracterizou-se pela discrição. Os checoslovacos estavam interessados em promover encontros com os socialismos desalinhados (das directivas de Moscovo) da Jugoslávia e da Roménia. Mas o alemão, incomodado - quiçá ciumento - com as aproximações mais recentes da Checoslováquia à Alemanha Ocidental, fizera-se convidado, para passar um último recado. Como se lê na notícia abaixo, o encontro teve lugar em Karlovy Vary, uma «sossegada estância termal, situada a 160 quilómetros de Praga», que tinha a vantagem (para o visitante) de se localizar a uns escassos 25 quilómetros da fronteira com a Alemanha. A impopularidade de Ulbricht - considerado a face da linha mais dura anti-reformista do Bloco Leste - era evidente entre checos e eslovacos, e aquele novo formato de socialismo de rosto humano até permitia que o exprimissem: da última vez que Ulbricht estivera na Checoslováquia, em Bratislava, em vez das entusiasmadas bandeirinhas que acolhiam obrigatoriamente os estadistas dos países socialistas, o líder alemão fora vaiado! Com uma curta viagem de 25 quilómetros em território hostil permitir-se-ia assim reduzir as hipóteses que essa desagradável cena se repetisse. Do lado dos checoslovacos e em contraste com a discrição dos soviéticos e dos seus títeres, registe-se o interesse a publicitar as enormes pressões a que estavam a ser submetidos. Terminada há cinquenta anos, nada de construtivo sairá da reunião e aquilo que hoje se sabe ser a contagem decrescente para a invasão continuará até ao dia 21 de Agosto. Uma nota curiosa a respeito da notícia abaixo: o jornalista consegue-a redigir sem por uma vez utilizar aquela que era a designação oficial da Alemanha Oriental, República Democrática Alemã, talvez por imposição da Censura.
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12 agosto 2018
OS DOIS MIGS SÍRIOS QUE ATERRARAM POR ENGANO EM ISRAEL
12 de Agosto de 1968. Há cinquenta anos, dois caças Mig-17 da Força Aérea síria aterravam inesperadamente num antigo aeródromo militar no Norte de Israel. Apesar de as autoridades israelitas terem noticiado que se devera a causas acidentais, a explicação foi acolhida com um cepticismo que se justificava por vários precedentes. Em 1962, numa operação de espionagem que correra mal, os israelitas haviam tentado aliciar um piloto egípcio de um Mig-17 a desertar para Israel. A operação correra mal, a rede de espionagem foi denunciada e três agentes acabaram executados. Porém, em 1964, uma operação semelhante foi bem sucedida, quando o capitão Mohammad Abbas Helmy da Força Aérea egípcia desertou com o seu Yak-11 de treino para Israel. O desertor veio a ser executado no Cairo dois anos depois. E em Agosto de 1966, realizara-se uma terceira operação do mesmo género, protagonizada agora pelo capitão Munir Redfa da Força Aérea iraquiana, tendo em vista a obtenção de um caça Mig-21. Perante este historial, percebe-se o cepticismo internacional que acolheu as explicações oficiais de que o a aterragem dos Migs-17 do tenente Walid Adham e do 2º tenente Radfan Rifai, da Força Aérea síria, se devera a erros de navegação. Contudo, os pilotos sírios haviam aparentemente usado mapas datados de 1945, haviam entrado no espaço aéreo libanês, haviam-se desorientado e pensavam estar a aterrar numa base aérea do Líbano, quando estavam a aterrar num aeródromo praticamente desactivado em Israel, numa manhã soalheira (eram 08H45), e sem combustível suficiente para tornar a descolar . Era uma história suficientemente estúpida para ser verosímil. Não abonava nada em favor da preparação da navegação que era ministrada pela Força Aérea síria aos seus quadros, mas os factos posteriores vieram corroborá-la: os dois pilotos permaneceram aprisionados até 1970, aquando da realização de uma troca de prisioneiros entre israelitas e sírios. Acrescente-se que, em Outubro de 1989, um major sírio virá a desertar aos comandos de um Mig-23.
...E SE O DOMINGO ESTIVER CHATO, HÁ SEMPRE A OPINIÃO SURREAL DE JOÃO MARQUES DE ALMEIDA...
Já não é a primeira vez que, com aquele mesmo título acima, venho aqui notar quanto as opiniões de João Marques de Almeida vêm, com o seu humor involuntário, salvar um Domingo politicamente aborrecido. O humor desta crónica, fino como sempre, concentra-se naquela passagem em que o autor se refere, logo ao início mas à vol d'oiseaux, ao «novo partido de Santana Lopes». A finura do humor deve-se ao facto de, há apenas sete meses, João Marques de Almeida ter sido mais um de entre muitos que se engajaram na campanha de Pedro Santana Lopes para a presidência do PSD (abaixo), uma campanha que, merece a pena recordar (mais abaixo), teve por mote: Unir o Partido, Ganhar o País. Ora os factos aí estão a demonstrar que, e ainda a respeito desse mote, para Pedro Santana Lopes, a unidade do partido só teria sido importante se ele tivesse ganho o partido... Como perdeu, é o que se está a ver...
Mas o julgamento sobre as atitudes de Santana Lopes recairão sobre o próprio. Ele que se encarregue de fazer pela vida. Agora, de toda aquela horda que ainda há sete meses se manifestava a seu favor é que não se ouve nada. Ou melhor, porque o contraste é enorme, o silêncio é ribombante. E é aqui que um passarinho como João Marques de Almeida se destaca, porque, ao não ter memória daquilo que ele próprio escreve, pressuporá que os outros a não tenham também. Ora, neste caso, quase todos aqueles que estiveram com Santana Lopes acabaram agora politicamente encornados. Isso já todos percebemos. O que torna a cena ainda mais cómica são as relutâncias actuais de Marques de Almeida e de tantos outros como ele em reconhecer os chifres (políticos) que ostentam...
11 agosto 2018
O TELEGRAMA DOS CEM ENFORCADOS DE LENINE
11 de Agosto de 1918. Desta vez, não se pode pedir aos nossos simpáticos leitores que consigam decifrar o conteúdo do texto abaixo. Trata-se de um texto manuscrito por Lenine para depois ser convertido num telegrama enviado às autoridades bolcheviques da província de Penza. A tradução será como se pode ler abaixo: (nota: kulak era a designação depreciativa dos bolcheviques para os camponeses mais prósperos)
«(Enviar isso para Penza - para os camaradas Kuraev, Bosh, Minkin e outros comunistas de Penza.)
Camaradas! A revolta dessas cinco regiões de kulaks deve ser suprimida sem misericórdia. O interesse da Revolução exige isso, porque temos agora diante de nós a nossa batalha final decisiva contra os kulaks. Precisamos que se dê um exemplo.
1.Enforquem (e certifiquem-se de que o enforcamento seja público) pelo menos uns 100 kulaks conhecidos, aqueles que sejam os mais ricos e parasitas.
2. Publicitem os seus nomes.
3.Confisquem-lhes todas as suas colheitas.
4. Seleccionem reféns de acordo com as instruções do telegrama de ontem.
3.Confisquem-lhes todas as suas colheitas.
4. Seleccionem reféns de acordo com as instruções do telegrama de ontem.
Telegrafem-nos acusando a recepção e a execução do telegrama.
Ass: Lenine
Usem os camaradas mais duros nesta tarefa.»
O teor desse telegrama de que hoje se celebra o centenário é inequívoco quanto à forma implacável como o Lenine genuíno entendia que se devia lidar com as resistências à sua autoridade. Todavia, 50 anos depois (e há cinquenta anos), alguma propaganda comunista criara um outro Lenine moderado e mítico, a que os checos apelavam por ocasião da invasão do seu país pelos soviéticos. Em resposta à presença dos blindados nas ruas de Praga, havia quem pintasse apelos nas paredes, montras ou em faixas, em checo (acima) ou em russo (abaixo), em que se pedia a Lenine que acordasse, porque o seu discípulo, Brejnev, ensandecera. Ingenuidade pura! Comparado com a forma como o seu mentor teria actuado (a fazer fé no telegrama acima), e mesmo que o desfecho tenha sido o que foi, a conduta de Brejnev fora, comparativamente, a imagem da contemporização...
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10 agosto 2018
10 DE AGOSTO: UMA DATA DE CALENDÁRIO APARENTEMENTE PROPÍCIA A EVASÕES DE PODEROSOS
Neste dia de 1874, quem se evadiu foi François Achille Bazaine (1811-1888), Marechal de França, que fora condenado a vinte anos de prisão por ter capitulado com o exército que comandava aquando da Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Ainda nem um ano cumprira, na ilha de Santa Margarida, quando o marechal se evadiu conjuntamente a esposa (que o acompanhara na prisão!), refugiando-se depois em Madrid, onde veio a falecer dali por 14 anos, não sem se ver alvo de um atentado por parte de um francês mais intolerantemente patriota. Também neste dia de 1983, outro poderoso que se evadiu foi Licio Gelli (1919-2015), um financeiro italiano associado ao escândalo da falência de um banco e com uma poderosíssima rede de contactos devida ao facto de ser o grão-mestre de uma organização maçónica denominada P2. Preso na Suíça a pedido das autoridades italianas, também ele não chegou a cumprir um ano na prisão, enquanto os seus advogados tentavam atrasar o processo de extradição. Sinal dos novos tempos, não há nada melhor do que plantar uma manobra de desinformação (abaixo) para tentar diluir o impacto do episódio da evasão que constituía, afinal, uma completa admissão de culpa de Gelli...
O futuro dos acontecimentos viria a provar que o hipotético «refém» afinal fugira para a América Latina, onde permaneceria na clandestinidade por quatro anos, antes de retornar à Europa, para um fim de vida repleto de incidentes judiciais. Mas neste caso, talvez por se tratar de uma questão de dinheiro e não de honra, não há registo de quem tenha atentado contra a sua vida.
09 agosto 2018
HÁ CINQUENTA ANOS: TITO VISITAVA PRAGA
9 de Agosto de 1968. O presidente Tito da Jugoslávia visitava Praga, acolhido no aeroporto com uma manifestação de regozijo de uma espontaneidade verdadeiramente socialista (no Ocidente não se conseguia ser assim tão espontâneo, com as bandeirinhas e tudo...). Paradoxalmente, aquilo que ali levava Tito, o mais destacado dirigente socialista dissidente na Europa, era a procura desesperada por parte de Alexander Dubček de uma solução conciliando a manutenção da Checoslováquia sob um regime comunista, mas com uma maior liberdade de actuação a respeito das questões domésticas, como acontecia com a Jugoslávia. Contudo, como a própria informação da época reportava (abaixo, as notícias do Diário de Lisboa de 9 e 10 de Agosto de 1968), se a Jugoslávia desenvolvera - e a que custo! - o poder e o prestígio de se defender da intromissão dos soviéticos, uma outra coisa seria projectá-los para o resto da Europa do Leste. A Jugoslávia «reservava-se»... e a Checoslováquia via-se mais sozinha. Não se sabia então, mas a invasão soviética estava apenas a 12 dias de distância.
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A BATALHA DE ADRIANÓPOLIS
9 de Agosto de 378. Há precisamente 1.640 anos disputava-se a batalha de Adrianópolis. Sabe-se a data precisa em que foi travada, sabe-se a identidade dos intervenientes, sabe-se o seu desfecho (uma ressonante derrota imperial, incluindo a morte de um dos imperadores romanos, Valente), mas, sobre a própria batalha em si, não se sabe verdadeiramente muito mais. A comprová-lo, este quadro abaixo, que retirei da página da wikipedia em castelhano e que inclui doze cenários distintos de especialistas a respeito da constituição dos dois exércitos em presença. As forças bárbaras podem ter ido de mais de 10.000 homens até mais de dez vezes isso (155.000); as dos romanos, de 15.000 efectivos até ao quádruplo (60.000). A relação de forças é maioritária para os bárbaros em sete dos casos, mas os romanos estariam em maioria para cinco dos especialistas. E essa relação pode variar numa proporção em que os godos seriam o triplo dos romanos, até à versão oposta em que os romanos seriam 50% mais do que os seus adversários. Todas estas discrepâncias mostram que, sabendo-se o desfecho da batalha, tacticamente não se sabe o que aconteceu. Ao contrário do que aparece escrito no quadro abaixo, o resultado da batalha não foi uma «vitória visigoda decisiva». Foi uma acção importante no quadro das Guerras Góticas que se travaram de 376 a 382, mas vale a pena referir que essas guerras terminaram com a assinatura de um Tratado no Outono de 382. Só que, a partir daquela ignorância sobre o que verdadeiramente aconteceu há 1.640 anos, construiu-se ao longo do século XIX e da primeira metade do século XX, uma narrativa a respeito da batalha ter representado o crepúsculo do papel da infantaria da Antiguidade em detrimento da ascensão da cavalaria que atingirá depois o apogeu na Idade Média. Foi engraçado de contar, mas é muito bem capaz de não ter sido assim. E é sempre de louvar quando, em vez de inventar, confessamos a nossa ignorância.
08 agosto 2018
O «DIA NEGRO» DO EXÉRCITO ALEMÃO
8 de Agosto de 1918. Pelas 04H20 de uma madrugada enevoada, os Aliados desencadeiam mais uma ofensiva na Frente Ocidental. Completados os quatro anos de guerra, ao longo dos quais se completara uma paulatina e custosa aprendizagem, os procedimentos para o desencadear das ofensivas haviam-se finalmente aprimorado e estandartizado: as 10 divisões francesas e as 9 divisões britânicas (incluindo australianos e canadianos) que atacaram numa frente de 23 km, eram apoiados por quase 1.500 peças de artilharia, por 600 tanques (ligeiros e pesados) e por mais de 1.700 aviões, numa combinação ar-solo que era a novidade táctica da estação. Apesar da formação de alguns pontos de resistência pelos alemães, ao fim do dia os atacantes haviam conseguido progredir cerca de 11 km nas linhas adversárias e conquistado 285 km² de território anteriormente detido pelo inimigo. Eram resultados que replicavam, de forma espetacular e simétrica, os sucessos tácticos que haviam sido alcançados pelas armas alemães nas suas ofensivas da Primavera. Mais, da mesma forma como os soldados britânicos (e também os portugueses...) se haviam deixado abater quando das ofensivas germânicas, desta vez coube a vez ao exército germânico baixar os braços e fugir, ou então deixar-se capturar: ao anoitecer, 281 oficiais e 12.131 homens, assim como cerca de 400 peças de artilharia haviam sido capturados. Nas suas memórias de guerra, Erich Ludendorff virá a qualificar os acontecimentos como o «dia negro» do exército alemão. Como se vê, o desaparecimento do ânimo para continuar a guerra chegou a todos os exércitos.
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07 agosto 2018
LARANJA COM CASCA DE PLÁSTICO
Hão-de me explicar o propósito de remover a casca natural de uma laranja para a reacondicionar numa outra casca, esta transparente de plástico, onde, ainda por cima, se apensam os dizeres que o produto é fresco (fresh produce) e que foi feito ali mesmo (made right here). Dá vontade de pedir para que, em vez das prateleiras, mostrassem as laranjeiras onde se fizeram estas laranjas tão higienizadas e de aspecto tão conforme as directivas comunitárias... (as cascas de laranja não devem ser regulamentares)
COMO EVOLUÍRAM AS CANDIDATURAS AO ENSINO SUPERIOR EM SESSENTA ANOS
De 1958 (acima, notícia de há precisamente 60 anos) até 2018 (abaixo, notícia de ontem), as candidaturas ao ensino superior passaram de 1.235 para 44.148, sendo este último um número ainda provisório. Tomando os números do ano passado por referência, nestes sessenta anos as candidaturas multiplicaram-se por mais de 40 vezes. E não nos esqueçamos que as candidaturas de antanho se destinavam a fornecer os quadro superiores não apenas à metrópole como também às colónias, um conjunto de populações que somavam o dobro da população portuguesa da actualidade.
06 agosto 2018
MANDOU UMA CARTA EM PAPEL PERFUMADO E COM LETRA BONITA, ELE DIZIA QUE ELE TINHA...
Pedro Santana Lopes é uma espécie de Madonna da política portuguesa. Os dois não têm talento algum a não ser que talento seja uma indiscutível capacidade para se imporem nas notícias. Porém, como não têm talento, aquilo que se noticia a respeito deles não são verdadeiras notícias mas coisas que se escrevem a seu respeito. Contudo, para que essas banalidades passem impunes, têm que contar com a negligência cúmplice da opinião publicada para que esta não diga o que muitas vezes é óbvio. Por exemplo, este fim de semana Pedro Santana Lopes escreveu uma carta de despedida aos militantes do PPD/PSD. Muitos órgãos de informação se referiram à carta, mas só o Observador a publicou na íntegra. Ninguém estará interessado em lê-la. E, como recorda a letra de Viriato do Cruz na inesquecível canção de Fausto, Namoro, o que é mais importante numa carta como essas é que ela seja em papel perfumado e escrita com letra bonita. Quanto ao que contém, isso será o menos. Eu também confesso que não lhe prestei atenção, até alguém me ter alertado de como uma das suas passagens passaria por um símbolo perfeito do que é o estilo Santana Lopes...Na área do texto assinalada acima, veja-se como Pedro Santana Lopes nos diz que «quer sublinhar quatro áreas», para, logo no parágrafo que se segue, enumerar cinco! Não dei por que alguém mencionasse o lapso, que me fez lembrá-lo na cerimónia de posse do seu governo em Julho de 2004, a passar aceleradamente as páginas do seu discurso sem as ler, só porque estava muito calor. Não sendo má pessoa, o homem não tem categoria nem emenda...
Adenda:A MORTE DO PAPA PAULO VI... E DOS GERONTES EM CARGOS DE DESTAQUE
6 de Agosto de 1978. Há precisamente 40 anos, os grandes órgãos de comunicação de todo o Mundo ocidental anunciavam a morte (previsível) do papa Paulo VI, depois de um pontificado de 15 anos e uma doença terminal. As imagens acima são do momento desse anúncio no telejornal da RAI italiana. E a imagem abaixo é da capa de um jornal comunista português da altura, dando à morte do papa o destaque de um sexto da primeira página. Os tempos haviam evoluído para que a morte dos titulares de cargos em funções se tornasse um acontecimento cada vez mais raro. As democracias procediam naturalmente à renovação do pessoal eleito. Os ditadores dos regimes dos bons velhos tempos já haviam morrido - o último caso acontecera com Franco em Novembro de 1975 (mais abaixo). Os monarcas ainda morriam no seu posto, mas o seu papel político passara a ser meramente decorativo. O que restava era mesmo notícia porque resultava de acidentes, atentados ou problemas de saúde súbitos.
Quanto às mortes dos gerontes ainda em cargos de destaque, a segunda metade daquela década de 70 revelou que, com essa categoria e com uma morte macambúzia digna de destaque, apenas restavam os papas em Roma... e os secretários-gerais do partido comunista de Moscovo (a terceira Roma). Aliás, do ponto de vista estritamente jornalístico, o exemplo do espaço de primeira página dedicado pelo Diário de Lisboa a cada um dos óbitos dessa época exibe à evidência para onde iam as fidelidades religiosas daquele jornal. Compare-se a visibilidade dada à notícia da morte de Paulo VI (o tal sexto de página) com as que vieram a ser dadas, em robusta meia página, às de Brejnev (1982), Andropov (1984) e Chernenko (1985). E contudo, mesmo contando que já há «apenas dois milhões de católicos praticantes em Portugal» (2010), isso é sensivelmente o dobro do máximo dos votos que os comunistas alguma vez receberam no nosso país...
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05 agosto 2018
LENINE CONTRA ESTALINE EM FUTEBOL
A fotografia é de data incerta, provavelmente naqueles dez anos que se sucederam ao fim da Segunda Guerra Mundial, mas certamente ainda antes da realização do XX Congresso do PCUS e do combate ao culto de personalidade na União Soviética (1956). Tudo isso se deduzirá por causa daquele placar do estádio, onde a afixação dos retratos dá a impressão que se disputa uma partida entre leninistas e estalinistas. O resultado deve ser (mais um) segredo de estado... Adenda: uma pesquisa adicional permitiu-me descobrir que a fotografia data afinal de 1940 e que o seu autor foi Nikolai Volkov. Mas o resultado continua a ser um segredo de estado, protegido pelo NKVD...
04 agosto 2018
AZEITE GALLO - A ABANDONAR O PSD DESDE 1996
Depois de no fim de semana anterior nos terem dado tréguas, nos jornais deste fim de semana lá se reatou o Folhetim do Abandono... de Pedro Santana Lopes. Como acontecia com o saudoso anúncio ao Azeite Gallo, que cantava desde 1919, também a cantilena deste anúncio é coisa antiga, não 1919, mas mesmo assim são 22 anos bem contados, conforme confirma esta capa de O Independente de uma outra silly season, a de Agosto de 1996, que anuncia uma das várias vezes em que Santana Lopes anunciou o mesmo. E quanto ao título em destaque, PEDRADA, só me faz lembrar os calhaus que, mais de 20 anos depois, e ainda da última vez embarcaram na sua candidatura a líder do partido sob o lema de Unir o partido... Meu Deus, eu percebo a força da cegueira política mas ele há limites para a estupidez. Quanto ao facto de ter a certeza que é desta que Pedro Santana Lopes se vai embora de vez, reconfortar-me-ia ler um artigo no Observador de João Marques de Almeida - que até foi seu apoiante - garantindo-me que ele reconsiderara e que se ia manter no PSD - é que o que ele escreve é garantido que vai ser ao contrário!
A CONQUISTA DE GIBRALTAR
4 de Agosto de 1704. Conquista de Gibraltar aos espanhóis. Feitas as contas, os britânicos controlam aquela posição há já 314 anos. E sem fim à vista. Seria razoável que as reclamações territoriais de Espanha a propósito de Gibraltar tivessem ao menos consistência. Mas não, a desfaçatez tem sido uma constante da diplomacia espanhola, já que as diversas razões geográficas, históricas e diplomáticas que a Espanha invoca para exigir a devolução de Gibraltar aos britânicos, obrigá-la-ia, por sua vez e em coerência, a devolver Ceuta e Melilha a Marrocos e Olivença a Portugal.
03 agosto 2018
A REEDIÇÃO DO ESTILO HISTRIÓNICO NO DISCURSO POLÍTICO
Mais do que o título do livro de Madeleine Albright (Fascism, a Warning), a simples comparação destes dois discursos, apesar de apartados por mais de 80 anos (o de Trump é desta semana e é um trecho da transmissão da sua querida Fox News...), torna impossível não identificar as semelhanças do estilo histriónico dos oradores.
02 agosto 2018
COMO RECONHECER UMA FOTOGRAFIA ENCENADA
Dois jogadores de bilhar norte-coreanos, fotografados por Filippo Venturi, um italiano de visita a um país onde tudo parece encenado. O momento parece tão espontâneo! - embora cada um dos jogadores tenha na boca um cigarro por acender(!). Se calhar, até ali já terá chegado o fundamentalismo anti-tabágico, aquele que no Ocidente proíbe os fumadores de fumar em quase todo o lado e, na sala de bilhar, também não se deve poder fumar. Têm, os dois, vício de boca... Recorde-se, para quem achar aquele país estranho, que ele pertence (foi herdado...) a Kim Jong-Un, uma «terrific person» e mais um dos milhentos «friends of mine» com que Donald Trump conta por esse mundo fora...
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O DIA EM QUE DE GAULLE FOI CONDENADO À MORTE
2 de Agosto de 1940. Um tribunal militar francês sediado em Clermont-Ferrand condena, à revelia, o general de Gaulle «à pena de morte, à destituição militar e à confiscação dos seus bens.» Foi acusado de «traição, de atentado contra a segurança externa do Estado e de deserção para o estrangeiro em tempo de guerra». A notícia é dada num pequeno canto inferior de um jornal português (acima) mas, mesmo assim, tem o destaque de constar da primeira página. Mas nos jornais franceses o destaque é, naturalmente, muito superior.
Mas se, para os jornalistas, a história (deles) tende a acabar quando o assunto é assim promovido a cabeçalho de jornal, este é um exemplo flagrante de que a outra História costuma não acaba por ali. Basta dar-se tempo ao tempo e muita espampanância noticiosa é reduzida às suas verdadeiras dimensões. Cinco anos passados, contados quase dia a dia, a 15 de Agosto de 1945, a situação invertera-se em 180º. O réu de 1940, o condenado à morte, era agora o juiz por detrás do braço judicial que proferia a mesma sentença a respeito daquele que fora o juiz oculto em 1940 (Pétain).
Com uma diferença substancial: este réu já não estava a ser julgado à revelia, daí a recomendação do júri para que a pena capital, apesar de sancionada, não fosse aplicada. Compreensível a diversos títulos (a idade e os feitos do réu) mas, mesmo assim, há algo que nem mesmo os historiadores (muito menos os jornalistas...) terão destrinçado bem, apesar dos mais de 70 anos passados: as relações ambíguas de antes da Guerra entre Philippe Pétain e Charles de Gaulle.
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01 agosto 2018
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