13 março 2009

VÁRIAS HISTÓRIAS DE ÁFRICA

Os acontecimentos da Guiné-Bissau suscitaram, além de mais uns episódios de tele-jornalismo caqui por mim aqui já destacados, artigos e análises, alguns deles bastante interessantes, tanto em jornais como aqui nos blogues, sobre a evolução que permitiu que, num país moderno, a mais alta figura do estado e a mais alta figura das suas forças armadas sejam ambas abatidas perante a apatia geral. Em muito dessas análises parece notar-se uma corrente de opinião dominante, a da gradual desresponsabilização das antigas potências coloniais pelo caos em que degeneraram as situações políticas, económicas e sociais dos (já não tão) novos países africanos. É lógica, concisa, mas talvez seja demasiadamente simplificada.
Essas opiniões acabam por corresponder à tese nuclear do livro acima, que se intitula O Estado de África, uma História de Cinquenta Anos de Independência que, datado de 2005, faz uma cobertura crudelíssima, país por país, daquilo que tem vindo a acontecer naquele continente depois do início da Era das Independências, desencadeada com a do Gana, a 6 de Março de 1957. Só que, e há quem o assinale noutras análises, com toda a pertinência, também aqui nos blogues, a História africana não começou propriamente há cinquenta anos… A começar pela evidência que as condições em que essas independências foram alcançadas haviam sido definidas algumas décadas antes…
A Conferência de Berlim de 1884 (acima), que reuniu as potências europeias (incluindo Portugal), configurou uma África à imagem e semelhança da concepção europeia da organização do território, fronteiras e tudo. Faz bem quem relembra que a actual configuração política de África não resulta originalmente dos equilíbrios naturais das capacidades de expansão e de assimilação das próprias etnias africanas, depois transformadas em embriões de nacionalidades, mas de outros factores de equilíbrio, estranhos ao continente. Mas, por sua vez, a História de África não começa em 1884 nem, de resto, terá começado em 1415, data da conquista por Portugal da sua primeira possessão colonial africana (Ceuta).
A História de África acima data já de 1995, mas serve perfeitamente para demonstrar quanto ela é complexa e quanto as interferências europeias antes dos finais do Século XIX foram substancialmente negligenciáveis, com excepção da evolução demográfica do continente. Poderia apontar aqui vários exemplos como os tais 500 anos de colonialismo não passam de um soundbite tão cheio de ideologia quanto vazio de substância. Uma sugestão tão agradável quanto ligeira poderá ser a leitura do álbum de BD da série Passageiros do Vento da gravura abaixo: ali se reconhece que, mesmo no Século XVIII, o poder efectivo pertencia ao monarca africano, ao qual se submetiam as feitorias comerciais europeias.
E, evidentemente, a forma como esse poder era exercido nada tinha do bucolismo que depois veio a ser perturbado pelo colonialismo europeu, conforme postulam algumas versões mais ideológicas da História de África que ainda hoje circulam. Muito pelo contrário, como em todo os lugares do Mundo, por vezes havia demonstrações de uma crueldade arrepiante... Mas regressemos à Conferência de Berlim e a uma potência que nem lá foi (os Estados Unidos) e a outra que lá foi fazer figura de corpo presente (a Rússia). Ambas clamavam não ter interesses a manifestar em África e, por isso, podiam permitir-se pregar moral às outras no que diz respeito à conduta que elas deviam adoptar naquele continente...
Os Estados Unidos criaram uma ficção de país independente chamado Libéria em 1847, para onde se pretendia transferir os escravos para que eles retornassem a casa. Consistindo numa colónia em tudo, salvo no nome, e o bem-estar da população da Libéria actual (acima a bandeira) não se distingue particularmente dos seus outros países vizinhos por causa dessa evolução histórica sem passado colonial… Quanto aos russos, a adopção do marxismo-leninismo em 1917 foi um verdadeiro maná para o seu discurso moralizador dirigido aos domínios coloniais das restantes potências, estruturado em temos dialécticos. Tanto, que ainda hoje, desfeito o mito, esse discurso culpabilizante continua a manter os seus adeptos.
O imperialismo é tão antigo quanto a História da Humanidade. Nós, portugueses, já fomos colónia de cartagineses e romanos. A Corrida para África representou um momento anómalo nessa História, quando o desequilíbrio técnico e material entre uma região do Globo (Europa) e outra (África) era tão grande que permitiu que a primeira projectasse o seu poder sobre a outra, não só com um grande alcance, mas necessitando de tão poucos recursos que mesmo uma potência menor quanto Portugal permaneceu na Corrida. Mas, graças às duas potências morais, esse momento anómalo desapareceu e o que dele resta são sociedades em que o Grau de Influência Civilizacional dos antigos colonizadores é, geralmente, bastante baixo.

12 março 2009

OS RAJÁS BRANCOS DE SARAWAK

Olhando para o mapa acima percebe-se como a Malásia é um país artificial, dividido em duas grandes metades, uma continental, a Ocidente, inserida na península donde o país retira o seu nome, e a outra insular, compartilhando a gigantesca ilha de Bornéu (que é a terceira maior ilha do Mundo com uma área de 743.330 km²) com a Indonésia e o pequeno Sultanato de Brunei. Este último país, conjuntamente com a poderosa cidade-estado de Singapura na parte Ocidental, funcionam ambos como uma espécie de enclaves dentro da Malásia, acentuando o carácter bizarro da geografia malaia.
A Malásia Ocidental é a parcela mais importante do país apesar de representar apenas 40% do território porque, em contrapartida, é nela que vive mais de 80% da população. Contudo é na outra metade do país, que está o maior estado malaio (a Malásia é uma federação). Chama-se Sarawak e, com cerca de 124.450 km², na maior parte cobertos por uma selva luxuriante, é ainda mais extenso que Portugal, apesar de possuir apenas uma população que se estima em 2.450.000 habitantes. Mas o que Sarawak possui de mais notável é o facto de ter sido, durante cerca de 100 anos, uma monarquia, cujo monarca era de origem britânica.
James Brooke (acima), aquele que veio a ser o primeiro Rajá de Sarawak, até nasceu na Índia em 1803, embora tanto o pai como a mãe fossem britânicos. A sua vida faz lembrar, embora com alguns séculos de diferença, as vicissitudes relatadas por Fernando Mendes Pinto na sua famosa Peregrinação. Brooke que, a dada altura, comprou e capitaneava um navio em actividades nem sempre lícitas nas águas da Ásia Meridional (embora o fizesse sempre com o beneplácito daquela que era a potência hegemónica de então: o Reino Unido), bem pode passar por uma espécie de António de Faria reencarnado…
A taluda veio a sair-lhe quando, em 1841, Brooke se dispôs a ajudar militarmente o Sultão de Brunei, tarefa de que se saiu com sucesso e da qual foi recompensado com o título de governador e com um feudo, inicialmente a cidade de Kushing. Nada de muito anómalo naquela região, lembremo-nos como esta narrativa se assemelha às alegadas condições em que Macau veio a ser cedida aos portugueses em 1557. Só que a sua pressão sobre o Sultão era muito mais eficaz à que os portugueses poderiam ter colocado no Século XVI sobre o imperador chinês* e o território de Sarawak foi-se estendendo até se tornar muito maior que Brunei…
Sandokan foi uma série de aventuras criada pelo italiano Emílio Salgari. Haverá quem ainda se lembre da série televisiva que passou há 30 anos na RTP (acima). O herói daquelas aventuras era um príncipe malaio (Sandokan) que era coadjuvado por um português, que foi baptizado com o nome (incrível de tão mal inventado...) de Yanez de Gomera. Ambos lutavam contra a expansão do império britânico, personalizado na pessoa de… James Brooke, precisamente este James Brooke de Sarawak. Sendo o mau da história em Sandokan, há outras coisas que fazem dele, do verdadeiro Brooke, um mau da história…
James Brooke era também conhecido por ser um pederasta promíscuo. Nem mesmo as altas exigências de estado o levaram a procriar. Quando morreu em 1868, o seu sucessor foi um sobrinho, Charles e depois um filho deste, Charles Vyner, em 1917. Este último veio a entregar os seus poderes à administração britânica em 1946, depois de 4 anos de ocupação japonesa (1941-45). É significativo da maneira britânica de estar no Mundo que, embora tivessem adoptado exteriormente os costumes locais (adoptando títulos nobiliárquicos como Rajá Muda ou Rani) todos os três Rajás brancos estão enterrados em Inglaterra…

* No Século XIX as relações de poder com a China eram completamente distintas do que haviam sido no passado e os britânicos conseguiam obter do seu imperador inúmeras cedências em consequência das Guerras do Ópio – incluindo Hong Kong.

O FOSSO OU O POÇO DOS 140 OU 140 MIL MILHÕES

Que me desculpem a generalização, mas formei a opinião que a ignorância dos brasileiros sobre história medieval é tão grande quanto as expressões de admiração que emitem quando visitam os monumentos daquela mesma época. Ainda recentemente, perante uma audiência de três médicos especialistas, pessoas portanto com formação superior e complementar, nenhum deles fazia a mínima ideia da história do Robin dos Bosques, e muito menos quem fora Ricardo Coração de Leão, João Sem Terra ou o que é que haviam sido as Cruzadas…
Mas a interveniente relevante para esta minha história tinha muito menos pretensões culturais do que aqueles três médicos, viera à Europa numa daquelas visitas em que, pelo menos nas histórias das novelas brasileiras, parece que se adquire uma espécie cultura europeia da mesma forma que se adquire um bronzeado depois de uma quinzena no Algarve… A realidade costuma ser mais difícil que a ficção e, de regresso a Portugal, depois do seu tour europeu, faltava à turista vocabulário para conseguir descrever todas as maravilhas que vira em França e na Itália. Um desses problemas surgiu a propósito da designação dos fossos que cercam o castelo: – … aquela coisa à volta do castelo… – dizia ela de forma hesitante, procurando encontrar uma definição mais precisa. – Um fosso? – sugeriu alguém. – Isso! Um poço! Seguiu-se um momento de silêncio, rompido pela continuação da narrativa e pelos pensamentos de quem constatava que a narradora ignorava completamente qual era a diferença entre uma coisa e outra… Mudando radicalmente de assunto, eu não tenho, embora também não me incomode muito não ter, acesso televisivo ao novo canal de notícias TVI24. Por isso, não presenciei o diálogo que irei adiante descrever, embora tenha a pessoa que o faz em conta de verdadeira. Será um dos extremos do facciosismo pró-governamental na blogosfera, mas Miguel Abrantes não costuma inventar, o que me leva a aceitar como válido o seguinte diálogo que terá sido travado entre a jornalista Constança Cunha e Sá e Luís Campos e Cunha num programa da TVI24:
– O Estado já meteu 140 milhões no BPN…
– É um bocado mais… – precisou Luís Campos e Cunha.
– Pois, é isso, 140 mil milhões.
Note-se a coincidência entre este último comentário de Constança Cunha e Sá e o que havia sido produzida pela turista brasileira a propósito da arquitectura militar medieval… Ambas são o resultado da ignorância mais profunda sobre o tema de que estão a falar* mas há que reconhecer que, no computo global, a comparação favorece o Brasil: não estava a falar enquanto profissional, não estava a falar para um auditório e não estava a posar…

* 140 milhões de euros (28 milhões de contos segundo a antiga moeda) são um montante do âmbito da microeconomia, embora se refira já a uma empresa de dimensões apreciáveis. 140 mil milhões de euros (mil vezes mais que o anterior) já se trata de um montante que se aplica à macroeconomia, descrevendo o PIB de um país com a dimensão de Portugal, que é de cerca de 170 mil milhões de euros. Se o primeiro peca por defeito, ou segundo peca, e muito, por excesso.

11 março 2009

OLH´Ó BALÃO – A CANÇÃO DE LISBOA

Volta e meia existem episódios da vida política que, de tão caricatos, acabam por ter mesmo piada. Foi o caso da encenação engendrada por António Costa em audiência à Governadora Civil de Lisboa, pedindo explicações ao Governo sobre a estratégia do policiamento de proximidade e a gestão da rede de esquadras. É que a opinião pública, esquecendo depressa, também não esquece assim tão depressa quem foi o anterior titular da mesma pasta da Administração Interna a quem agora as explicações são pedidas: era o próprio António Costa…
Para conseguir escovar as suas responsabilidades como autarca, ou António Costa assume que a sua própria política era inconsequente e se limitava a apagar fogos, ou assume claramente e de forma evidente que o seu sucessor no Ministério, Rui Pereira, alterou a política que tinha vindo a ser traçada por si (o que está proibido de fazer, por inconveniência política), ou, se se furtar a entrar nessa polémica, acaba por dar de si uma triste figura como um daqueles putos que tivesse soprado num balão de pastilha elástica, e este lho rebentasse na cara…
Adenda: afinal, parece que José Sócrates pretende acabar com a polémica, com António Costa (e Rui Pereira) mastigando de facto, mas a uma mesa de restaurante...

10 março 2009

O VERDADEIRO PRÍNCIPE DOS COMEDIANTES

O actor António de Curtis (1898-1967), mais conhecido pela seu nome artístico de Totó (acima), representou para o cinema de comédia italiano um papel muito semelhante àquele que terá sido desempenhado por Vasco Santana (1898-1958) no caso do cinema e da comédia portuguesa. Registe-se, aliás, a curiosa coincidência daqueles dois actores terem precisamente a mesma idade – Vasco Santana era apenas três semanas mais velho que Totó…

Como acontecia com o actor português, o estilo de humor de Totó era popular mas destinava-se preferencialmente ao público italiano. Podia ser um humor visual, com é o caso do vídeo acima (que pode ser comparada com a famosa cena de Vasco Santana com o candeeiro), mas a maioria dos efeitos humorísticos assentavam nos trocadilhos dos diálogos e noutras formas castiças de expressão (de resto, muito semelhantes a cenas como esta), como se pode observar no vídeo abaixo.

Na cena do vídeo, Totó, que era napolitano de origem, ou seja, um italiano meridional, sente-se como um estrangeiro com problemas de comunicação quando se encontra de visita a Milão, a capital da Lombardia, região do Norte de Itália. Mesmo com a ajuda da tradução, para todos aqueles que não são italianos torna-se difícil acompanhar todas as subtilezas do diálogo que é travado com o polícia local. E, embora a projecção de Itália seja superior à de Portugal, isso limitou o sucesso de Totó além-fronteiras.
Apesar da sua cara assimétrica, resultado de um acidente que o deixou com aquele aspecto patusco que se tornou na sua imagem de marca, Totó era conhecido por ter tido uma vida sentimental bastante variada. Que também gerava situações cómicas. Uma das suas namoradas dos finais da década de 1940 foi a actriz Silvana Pampanini, 27 anos mais nova que Totó e um verdadeiro mulheraço de 174 cm de altura, mas que aparece devidamente emparelhada com o pequeno Totó na fotografia abaixo…
Mas a história do seu nome é ainda melhor: Totó era o filho ilegítimo de um Marquês que o veio a perfilhar quando já era adulto. Por causa disso, veio posteriormente a receber a herança de um ramo ainda mais aristocrático da família que ia buscar as suas origens às famílias dos antigos imperadores de Constantinopla. O António Clemente original (que era o apelido da mãe) viu-se transformado em António Griffo Focas Flávio Ângelo Ducas Comneno Porfirogénito De Curtis Di Bisanzio Gagliardi e mais um chorrilho de títulos fastidiosos de enumerar…

“UM ESCUDO É UM ESCUDO”, MAS UM MILHÃO DE DÓLARES DÃO MAIS JEITO…

Como em todas aquelas histórias que são extensas e ricas em eventos, a do glorioso Sport Lisboa e Benfica também contém episódios que, para além de serem menos gloriosos, são até profundamente embaraçantes… A presidência de um figurão como João Vale e Azevedo deverá ser das mais profundamente embaraçantes de toda a história recente do clube.
Reforça o embaraço o facto de Vale e Azevedo ter sido eleito pelos benfiquistas em eleições abertas, justas e livres que foram objecto de uma cobertura dedicada por parte da comunicação social. Vale e Azevedo e os outros concorrentes à presidência tiveram várias ocasiões de debater os seus projectos como nunca fora feito antes na história do clube.
Mas, apesar de todos os avisos, os benfiquistas escolheram um escroque para dirigir o seu clube. Ao contrário de outros do mesmo meio futebolístico, Vale e Azevedo parece ser um caso patológico de escroqueria, daqueles que aldraba os outros por compulsão, de quem normalmente se costuma dizer que até venderia a propria mãe se tirasse alguma vantagem disso...
Mais por causa disso do que propriamente por causa do discernimento da massa dos adeptos benfiquistas, a sua carreira como dirigente desportivo acabou por ser breve. Permanentemente a braços com a justiça, depois disso, e depois em fuga à justiça, Vale e Azevedo voltou agora a ser notícia por ter burlado Isaías Samakuva, o líder da UNITA (abaixo).
Lembrando-nos do que aconteceu recentemente a Nino Vieira, esperemos, para bem de Vale e Azevedo, que os meandros onde ele pratica as suas patifarias continuem com aquele mínimo de civilidade que o mantiveram até agora acossado, mas de boa saúde… Samakuva foi ingénuo, mas Vale e Azevedo pode correr o risco de se descobrir a praticar desportos náuticos com calçado desapropriado…

09 março 2009

O AVIÃO DAS DESIGNAÇÕES MÚLTIPLAS

Embora seja certamente uma competição cerrada, um dos candidatos mais fortes a ganhar o concurso daquele que seja considerado o Avião do Século XX é aquele que aparece a preparar-se para aterrar na fotografia acima. Foi desenvolvido nos finais do primeiro terço (o seu primeiro voo data de 1935) e o seu apogeu coincide com o meio desse Século – a Segunda Guerra Mundial e o período que imediatamente se lhe seguiu.
Uma das medidas do seu sucesso é a variedade das designações por que é conhecido: a construtora, a Douglas Aircraft Company norte-americana da Califórnia, baptizou-o de DC-3. O Exército norte-americano deu-lhe a designação de C-47 enquanto os seus rivais da Marinha chamaram-lhe R4D. Quando foi exportado para a Grã-Bretanha, tornou-se no Dakota, na União Soviética foi baptizado Lisunov Li-2 e no Japão Showa L2D.
Na origem, o DC-3 foi um dos primeiros projectos concebidos de raiz para que a aviação comercial pudesse concorrer com o transporte ferro e rodoviário, que era então dominante. O aparelho podia transportar confortavelmente duas dezenas de passageiros numa viagem desde uma costa a outra dos Estados Unidos demorando cerca de 16 horas (!), contando ainda com três paragens intermédias para reabastecimento.
Mas foi como avião militar e não como avião comercial e com as outras designações (C-47/R4D/Dakota/Li-2/L2D), que o aparelho se celebrizou durante a Segunda Guerra Mundial. Será um daqueles casos raros de um equipamento que foi utilizado por todos os principais beligerantes – a Alemanha também pôs alguns exemplares capturados ao seu serviço... Em robustez e fiabilidade, havia poucos rivais como avião de transporte.
Como resultado, dos mais de 16.000 aviões construídos, apenas cerca de 600 foram construídos nos Estados Unidos em versões civis. Em comparação houve mais de 10.000 aviões de versões militares. No estrangeiro, do lado dos Aliados, os soviéticos construíram quase 5.000 na sua versão adaptada para as condições do clima russo, enquanto que, contra os Aliados, os japoneses puseram quase 500 ao seu serviço (acima)…
Depois do final da Segunda Guerra, havia um enorme parque destes aviões que estavam disponíveis para serem cedidos às Forças Aéreas dos países não beligerantes e também para serem revendidos às variadas companhias de aviação para exploração comercial. Tanto a Ocidente como no Leste (com o Li-2), quase todos os países o receberam e a lista dos países utilizadores do aparelho parecer-se-á com a lista dos países-membros da ONU…
Também em Portugal ele foi usado tanto no transporte comercial pela TAP como em missões militares pela Força Aérea Portuguesa. A omnipresença dos DC-3 estende-se até às obras de ficção, como a aterragem de emergência que um deles tem de fazer durante a aventura de Tintin, Coke en Stock (Carvão no Porão) de 1958. Actualmente, estima-se que ainda haja mais de uma centena destes aparelhos que continuam operacionais.
* Com capacidades semelhantes embora menores, apenas o trimotor Ju-52 de concepção alemã poderia rivalizar com o DC-3.

As fotografias mostram, de cima para baixo, um DC-3 não especificado preparando-se para aterrar, uma versão militar do tempo da Segunda Guerra Mundial com as cores da RAF britânica, o interior de uma das primeiras versões comerciais, que tinha capacidade para 21 passageiros, a versão soviética com as cores respectivas, a versão japonesa com as cores respectivas, um DC-3 com as cores da nossa Força Aérea, outro com as cores da TAP e a cena da aterragem do DC-3 da Arabair (p. 18) no album de BD Carvão no Porão.

08 março 2009

ISTO É QUE É ERUDIÇÃO!

Para quem considere que este blogue é erudito (já o ouvi assim classificado…), gostaria de o confrontar com uma frase que acabei de receber de um amigo por e-mail:

O orifício circular corrugado, localizado na parte ínfero-lombar da região glútea de um indivíduo em alto grau etílico, deixa de estar em consonância com os ditames referentes ao direito individual de propriedade.

O que transposto para a gíria dá uma prosaica expressão coloquial brasileira: Cu de bêbado não tem dono! Um alerta para quem beba em excesso, embora desconfie que expresso da maneira referida mais acima, nem sóbrio o destinatário a conseguirá compreender...
Uma outra maneira de compreender o que é a erudição na sua verdadeira perspectiva é visitar o blogue Garfadas on-line, especialmente os concursos que ali se promovem para adivinhar o que serão os objectos mistério… No Garfadas on-line, desconfio que nem os garfos conseguimos identificar…

A EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO AÇOREANA E MADEIRENSE

O último censo que foi realizado em Portugal (2001) apurou que os totais da população residente nos Açores e na Madeira eram muito semelhantes, com uma ligeira vantagem para a segunda região (242.000 para 245.000 habitantes). Sem nos interrogarmos sobre o assunto específico, presume-se que a dimensão das populações dos dois arquipélagos teriam sido sensivelmente semelhantes ao longo da sua história, desde a sua descoberta pelos portugueses no Século XV até à actualidade, o que não é verdade.
Tendo sido descoberta em primeiro lugar (1419), o povoamento da Madeira iniciou-se cerca de 15 anos mais cedo do que o das ilhas dos Açores, para as quais, quer a fase da descoberta das ilhas, quer o posterior processo de povoamento permanece ainda hoje envolto em incertezas por causa da falta de documentos. Pelo contrário, enquanto região produtora de açúcar (que era um produto raro na época), a Madeira rapidamente se integrou nos circuitos comerciais europeus e prosperou*.

Numa primeira estimativa comparada, no ano de 1500 (ano que também foi o da descoberta do Brasil), a população madeirense (então a beirar os 20.000 habitantes) seria aproximadamente o dobro da população açoriana. Mas se o período que vai de 1450 a 1550 foi o século áureo da prosperidade madeirense, o Século XVI parece ter sido o da prosperidade açoriana, por razões mais difíceis de precisar economicamente, pois a população dos Açores multiplica-se por 6 ao longo desses 100 anos!
Entretanto a descoberta do Brasil e a instalação de grandes plantações de cana-de-açúcar, banalizara o produto que fizera a prosperidade da Madeira e afundara a sua economia numa fase de estagnação, traduzida em termos demográficos na estabilização da população madeirense em volta das 30.000 pessoas. Era essa a situação por alturas da concretização da União Ibérica (1580), onde a população açoriana (seriam então quase 60.000 habitantes) representava o dobro da madeirense.

E é esta a proporção que iria prevalecer durante os próximos 300 anos. Para além da questão específica da sua localização, como fonte de recursos, os Açores valiam muito mais do que a Madeira, o que justifica as disputas pela posse dos Açores (de preferência às outras possessões atlânticas portuguesas), quer por parte do Prior do Crato contra os Habsburgos (nos finais do Século XVI), quer por parte dos Liberais contra os Miguelistas (nos princípios do Século XIX).
Nos finais do Século XIX, os açorianos integraram-se nas grandes correntes migratórias que caracterizaram a Europa naquela época, marcada por uma emigração maciça para os novos países da América do Norte, do Sul e da Oceânia, enquanto a (comparativamente fraca) emigração de madeirenses parecia pouco afectar o crescimento da população madeirense: de 1900 para 1925, a população dos Açores diminuiu de 260 para 240.000 habitantes, enquanto a da Madeira aumentou de 150 para 200.000.

Depois disso, os madeirenses também passaram a ser conhecidos pelo volume da sua emigração embora os países de destino preferidos (África do Sul, Venezuela) sejam distintos dos dos açorianos (Estados Unidos, Canadá), e a proporção entre residentes em cada um dos arquipélagos manteve-se muito mais próxima do que sempre fora do ponto de vista histórico: 320.000 açorianos para 270.000 madeirenses em 1950, 290.000 açorianos para 250.000 madeirenses em 1975.
Mas, quando os resultados do censo de 2001 assinalaram que havia mais gente a residir na Madeira do que nos Açores, poucos terão sido os que se aperceberam que se estava a assistir a algo que não acontecia há pelo menos 450 anos…

* 100 habitantes em 1425, 2.000 em 1460, 20.000 em 1510.

Os dados aqui inseridos foram retirados do The Atlas of World Population History (McEvedy & Jones)

07 março 2009

APRE, IRRA E OUTRAS EXPRESSÕES DE DESAGRADO

Já aqui me terei referido previamente ao filme O Caçador (The Deer Hunter, 1979), a propósito de alguma das suas cenas. Pois disponho-me a fazê-lo mais uma vez, lembrando a cena (abaixo) durante a (arrastada) cerimónia do casamento em que nele entra um convidado – um veterano das tropas especiais vindo do Vietname – que não se mostra muito falador, apenas repetindo às interpelações do noivo e dos amigos com um enigmático Fuck It! – à letra: Que se foda!
A priori, não tinha razões para ter simpatia por qualquer dos lados (Afonso Candal do PS e José Eduardo Martins do PSD) envolvidos num caso que se passou anteontem na Assembleia da República a que os jornais de hoje deram amplo destaque de primeira página (veja-se abaixo). O caso parece não ter nada de mais: o primeiro deputado estava com o uso da palavra, o segundo não gostou do que o primeiro disse, mandou-o para o caralho e desafiou-o a irem desenvolver a argumentação noutro sítio…
Confesso-vos a minha empatia e a minha apreciação pela espontaneidade da reacção de José Eduardo Martins, pois o endereço que ele forneceu ao seu colega Candal também é o das minhas preferências em circunstâncias semelhantes. Quanto às reprovações à sua atitude, acho-as um disparate. O nosso desejo deverá ser para que os parlamentares sejam aplicados e responsáveis, mas não esperemos que eles sejam anjinhos que apenas usem o Apre!, o Irra! ou outras expressões similares, à laia de imprecações… Tanto relevo dado pela comunicação social (começou pela TVI, passou depois para os jornais da forma exuberante que se pode observar…) a algo que não passa afinal de um incidente menor, também não deixa de ser causa de reflexão sobre o papel (nada inocente) da mesma comunicação social na defesa da manutenção de uma concepção hipócrita da relação do político com o público. Como as pessoas normais, os políticos, quando se irritam, também ficam fodidos e mandam quem os irrita à merda e a outros sítios…

06 março 2009

QUEIJINHO FRESCO!!!

Ocorreu-me contar aqui um episódio que presenciei faz já um par de dúzias de anos, uma daquelas visitas sociais, envolvendo vários casais já com uma certa idade, em que um dos casais visitantes chegou orgulhosamente acompanhado do seu neto. Era uma criança redonda e luzidia, uma mais que provável finalista de um casting de um anúncio do bebé Cadum, muito parecido com o exemplar da fotografia acima…
Em imagem bem menos poética, o bebé também fazia lembrar uma daquelas antigas borrachas (trata-se de um pequeno odre como o de cima) que estivesse atestada até cima mas mal vedada, pois cada vez que o bebé era deslocado de um colo para outro dava-lhe em abanar a cabeça e a bolsar aquilo que o atestava para cima de quem o recebia ao colo. A cada bolsadela, à avozinha só lhe dava para dizer: - Queijinho fresco!!!...
O comentário era dito entre o embevecido e o embaraçado, porque a analogia era daquelas mesmo infelizes! Qual queijinho fresco… Nem queijinho, nem fresco… Era leite semi digerido e estava tão azedo que empestava o ar à distância… E à anfitriã e às outras convidadas só lhes restava sorrirem perante o desastre, um sorriso tão azedo quanto o cheiro do leite, depois da nódoa da bolsadela que haviam recebido galhardamente no peito.
O resto do serão passou-se com cada uma das convidadas estoica e devidamente condecorada… Há coisas que apenas se suportam devido às circunstâncias em que acontecem. E noutras circunstâncias, com a ameaça real de vir a perder o poder nas eleições de Outubro, José Sócrates teria enormes dificuldades em fazer passar a sua versão ficcionada (os seus queijinhos frescos, por assim dizer…) daquilo que tem estado a acontecer em Portugal…

05 março 2009

MÚSICA EM FORMATO DE ROLO DE PIANOLA

Terá sido a escassez de quem soubesse tocar instrumentos musicais mais sofisticados (como é o caso do piano), conjugada com o desenvolvimento industrial que já havia sido atingido durante a segunda metade do Século XIX, que levou ao aparecimento da pianola (acima), que é uma espécie de piano que reproduz de forma programada uma música qualquer através de um sistema mecânico, que é normalmente constituído por furos num rolo de papel, afinal muito semelhante ao sistema de cartões perfurados usado na pré-história da informática.
A pianola é também um daqueles adereços que nos habituámos a associar às histórias do Oeste norte-americano, onde a falta de pianistas (lembre-se o cartaz Não atirem sobre o Pianista!) devia ser crónica. Foram muitos os heróis míticos do Oeste, como é o caso de Lucky Luke no episódio acima, que, numa qualquer circunstância, se serviram de uma pianola no decurso das suas aventuras. Agora, o que me surpreendeu, foi o aparecimento no You Tube, de um sistema de visualização da música que está a ser tocada que faz lembrar os furos nos rolos das pianolas.

A peça musical em si é conhecidíssima: trata-se da Tocata e Fuga em Ré Menor, BWV 565, que será provavelmente a mais conhecida obra do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). Mas a forma inovadora como a peça é apresentada no vídeo, dá-lhe um aspecto rejuvenescido, com as notas assinaladas em escala e em duração, acendendo-se quando tocadas e com cores diferentes para nos assinalar os diferentes trechos e as diferentes melodias quando estas são executadas simultaneamente, como para nos ajudar a ver aquilo que estamos a ouvir…

04 março 2009

A COBERTURA DO ACONTECIMENTO – 3

Tivesse a SIC nascido 40 anos antes e fossem outras as circunstâncias, e não me surpreenderia que a reportagem de um hipotético enviado especial da estação para cobrir a Guerra da Argélia se centrasse num episódio como aquele que é retratado pela fotografia acima. É muito mais impressionante e repugnante do que informativo: trata-se de dois muçulmanos que foram executados de forma intimidatória pela FLN em Maio de 1956. Os detalhes constam da própria legenda da fotografia. Mas não seria a reportagem um tremendo sucesso de audiências?...

Sobre as complexidades da Guerra da Argélia propriamente ditas é que, evidentemente, não se ficaria a saber nada…

A COBERTURA DO ACONTECIMENTO – 2

Confesso que hesitei antes me decidir a não inserir neste poste o vídeo com o noticiário de ontem da SIC, respeitante aos acontecimentos na Guiné-Bissau. Já, por algumas vezes, inseri aqui no blogue alguns vídeos disparatados, mas tenho-o feito num contexto diferente, ligeiro. Neste caso contudo, considerei que a inserção daqueles vídeos – que, de resto, pode ser visto através desta ligação e desta, para consulta – poderia estar a contribuir directamente para a publicitação do que considero ser a verdadeira mediocridade jornalística…

Se me cinjo à SIC, é porque foi o único canal televisivo cujas notícias ontem segui. A minha primeira descoberta é que os correspondentes em Bissau, que ontem tanto aqui critiquei, podem não ser tão maus quanto isso, quando em comparação com os enviados especiais rapidamente despachados para Bissau. Tomemos o exemplo do trabalho de Cândida Pinto (à direita, na imagem acima), que a SIC manda sempre a estas coisas, vestida de caqui como se fosse uma espécie de Christiane Amanpour nacional…

E o que tinha a enviada especial da SIC para nos informar de novidades ontem à noite? Nada. Que havia boatos. Quais?... E o que é que a equipa de reportagem que a acompanhava tinha para nos mostrar? Apenas uma reportagem de um voyeurismo mórbido, filmada em casa de Nino Vieira, no local do assassinato, mostrando o sangue seco, as marcas das balas, os efeitos do saque realizado pelos assassinos… e uma catana – que serviu para um título de rodapé: qualquer coisa como Nino Vieira pode ter sido morto também à catanada…

Também não estou interessado – nem é importante – o RPG-7 que os assassinos de Nino Vieira deixaram no quintal da sua casa... Na entrevista que realizou ao sobrinho do presidente assassinado, Cândida Pinto acabou por levar um baile de bom senso do entrevistado, quando ele se recusou a embarcar nas insinuações especulativas das perguntas que ela colocava… Foi ridículo e só espero que não se lembrem de mais tarde vir a premiar a reportagem, apenas porque foi na Guiné-Bissau, no estrangeiro perigoso do jornalismo de acção…

O que continua a faltar neste tratamento noticioso do que se está a passar na Guiné-Bissau? Em primeiro lugar respostas, nem que fosse apenas para uma das várias questões que aqui ontem coloquei, para que se perceba o que se está, de facto, a passar. Em segundo lugar, faz falta que a audiência que está mesmo interessada em seguir o que se passa na Guiné-Bissau tenha meios de fazer sentir aos excelentíssimos jornalistas televisivos – tanto aqui, como em Bissau – que o trabalho que eles estão a realizar está a ser uma merda.

ADENDA (20H30): É tanto de elogiar pelo conteúdo, como de destacar pela forma como se apresenta, o artigo de Luís Naves no Diário de Notícias de hoje. O conteúdo tenta esclarecer alguns dos aspectos em aberto aqui ontem evidenciados, mas o artigo tem um título que espirra sangue (Nino morreu a golpes de catana), previsivelmente em concorrência tanto com reportagens como a de Cândida Pinto da SIC, como com os restantes jornais: o Jornal de Notícias diz que "Nino" Vieira foi brutalmente espancado antes de ser morto e o Público que um Jornal de Cabo Verde diz que Nino terá sido degolado...

03 março 2009

O ORIENTE E(RA) VERMELHO

Que me desculpem por regressar mais uma vez ao Oriente, à China, a Mao e a um Hino de que muito gosto, mas todos aqueles rasgados elogios dirigidos a José Sócrates neste último Congresso do PS tornaram-me mais uma vez nostálgico doutras épocas em que também se cantavam as virtudes de um grande líder político. Mas na China, pelo menos no que diz respeito à pessoa de Mao, essa moda parece hoje estar fora de moda…
Observem a completa falta de entusiasmo, de fervor, a completa desorganização, com que os estudantes universitários chineses do vídeo acima cantam O Oriente é Vermelho num Festival recente. E, já agora, observem também como os intérpretes cantam com papéis na mão visto que já nem é normal que se saiba de cor a letra daquele famoso Hino. E que impressão isso deve fazer aos antigos militantes maoistas aplicados, que devem ter decorado aquelas estrofes:

Dōngfāng hóng, tàiyáng shēng,
Zhōngguó chūle ge Máo Zédōng,
Tā wèi rénmín móu xìngfú,
Hū-ěr-hei-yo, tā shì rénmín dà jiùxīng!
 
Mas como isto não é um daqueles momentos poéticos em estrangeiro que José Pacheco Pereira costuma postar no Abrupto, suponho que prefiram que transcreva uma versão traduzida da letra…
O Oriente é vermelho, o Sol está a nascer.
A China viu nascer Mao Zedong,
Que trabalha para a felicidade do povo,
Que é a grande estrela salvadora do povo!
O Presidente Mao ama o povo.
Ele é o nosso guia
Para construir a nova China,
Conduz-nos em direcção ao futuro!

O Partido Comunista é como o Sol.
O seu brilho leva a luz a todo o lado,
Onde houver Partido Comunista,
O povo consegue libertar-se!

Desconfio que, dos três grandes vultos do maoismo português do passado cujas fotografias aqui inseri, José Pacheco Pereira terá decorado a letra original aplicadamente, Ana Gomes apaixonadamente e Durão Barroso nunca a terá sabido (talvez nem sequer a versão traduzida...), disfarçando, quando preciso, com grandes momices parecidas com as do vídeo acima, em que John Redwood tenta fingir que está a cantar o Hino do País de Gales…

A COBERTURA DO ACONTECIMENTO – 1

Interrogo-me quantos correspondentes de órgãos de comunicação portugueses haverá em Bissau e, depois dos últimos acontecimentos que se verificaram na Guiné-Bissau, também me interrogo para que é que eles existem? Passadas mais de 24 horas sobre as notícias dos assassinatos – por ordem cronológica – do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, General Tagmé Na Waie e do Presidente da República João Bernardo Vieira, o que se sabe está (bem) sintetizado neste artigo do Correio da Manhã.

Agora, apreciar-se um verdadeiro trabalho de investigação e análise é que parece um bocadinho mais difícil… É que as perguntas elementares que ainda estão por responder ainda são muitas. Quem poderão ser os suspeitos do envio da armadilha ao General? E porque será que os militares deduziram que o mandante havia sido o Presidente? Terão sido o conjunto das chefias militares a pensá-lo, ou o assassinato do Presidente terá resultado apenas da acção de alguns militares mais exaltados vindos de Mansoa?

Que facções políticas parecem estar em confronto? Ou tudo não passou da expressão última de uma intensa rivalidade pessoal entre os dois homens assassinados? Há facções políticas descaradamente apoiadas pelos traficantes? E estes últimos, agem em concertação ou também há rivalidades entre eles que se estendem para o campo político? Sim, porque obter informações neste caso tem de ser mais do que escrever umas trivialidades genéricas sobre o narcotráfico – coisa que há muito se sabe…

Parte das perguntas acima fazem parte dos elementares trabalhos de casa… Não se pode excluir que possa haver restrições – formais, do estado, e informais, dos traficantes – à liberdade dos correspondentes em informar mas aí compete ao brio profissional dos atingidos denunciar esse tipo de pressões, se as houver. Assim como estamos, em Portugal continua sem se perceber as explicações para o que se passou, enquanto nas ruas de Bissau, de certeza, já deve haver uma meia dúzia de teorias da conspiração…

A não ser que, como acontece informalmente com a carreira diplomática, também os lugares de correspondente em Bissau, não sejam propriamente dos mais disputados... A verdade é que só no meio desta aparente mediocridade informativa é que podem medrar notícias como a da TSF – um dos mais histriónicos e vazios órgãos de comunicação social que existe em Portugal!… – que nos assegura, por intermédio do porta-voz do exército guineense, Zamora Induta, que o país está a regressar à normalidade. Ora então não?!

02 março 2009

PEQUENO POSTE SOBRE PROBLEMAS FISIOLÓGICOS QUANDO SE VIAJA DE AVIÃO

Há coisa de uns dois anos, numa daquelas notícias discretas de rodapé dos jornais, contou-se a história de um avião comercial que, num voo doméstico dentro dos Estados Unidos, fora forçado a fazer uma aterragem de emergência, porque os passageiros começaram a queixar-se de um cheiro a queimado que a tripulação não conseguia identificar a origem. Já no solo e feita uma inspecção, descobriu-se que uma passageira estivera a queimar fósforos para, e aqui começa a parte cómica da história e o uso de variadíssimos eufemismos para a contar, neutralizar o cheiro de alguns gases naturais que estivera a emitir durante a viagem, provocados por umas cólicas intestinais de que fora acometida…
Parte do efeito cómico perde-se quando se sabe que esta confissão foi obtida durante um interrogatório feito por agentes do FBI... O avião retomou viagem, embora sem a senhora em questão, o que só demonstra bom senso. Devido às vicissitudes, devia ter-se criado um mau ambiente à sua volta, e estou-me agora a referir à componente sociológica e não fisiológica da questão. Aliás, nem quero imaginar as consequências para a integridade física da senhora se ela, enervada, se tivesse tornado a descuidar durante o resto da viagem… Mas o maior paradoxo desta história é que ela foi criada por causa de um equívoco – a crença que os fósforos queimariam o mau cheiro da bufa*.


Há o conhecimento popular, como se pode observar no vídeo acima, que as bufas se incendeiam. Mas, como se pode ler nas explicações da Wikipédia, aquilo que arde quando expelido são gases como o metano (CH4) ou o hidrogénio (H2), ambos gases inodoros, enquanto que o que lhes confere o mau cheiro característico são compostos não inflamáveis contendo enxofre, como é o caso do famoso gás sulfídrico (H2S), o gás das bombinhas de mau cheiro. A impressão que o processo de queima resulta é falsa e causada pelo forte odor dos fósforos queimados e não por causa de alguma transformação química que eles tivessem provocado nos componentes malcheirosos das emissões…
Estavam filosoficamente os passageiros de avião postos perante estes dilemas se, quando incomodados, valia a pena irem ao WC, que fica normalmente longe, lá para as traseiras do avião, como que contribuindo para a propulsão mais rápida do aparelho onde viajam, e eis que a Ryanair (acima), uma das maiores companhias de aviação low-cost, anuncia a eventualidade de poder passar a cobrar idas à casa de banho dos passageiros. Esta medida, se implementada, parece ser a negação daqueles serviços que, entre nós, sempre considerámos como intrinsecamente gratuitos num estabelecimento comercial de que sejamos clientes: beber um copo de água e o uso das instalações sanitárias…

Quando questionado sobre a eventualidade de alguém viajar sem ter dinheiro no bolso, o executivo da Ryanair respondeu desdenhosamente que não acreditava que alguém não viajasse com, pelo menos, uma libra no bolso. Só que esta rusticidade de tratamento também pode atrair a rusticidade da clientela e nós sabemos, pelos exemplares que vemos no Algarve, quanto ela pode ser rústica... Entre nós, não foi assim há tanto tempo que, naquelas Festas de Verão da aldeia (acima), no Alentejo profundo por exemplo, o presidente da comissão organizadora tinha que vir apelar previamente para que não houvesse mijanceiras às portas… A Ryanair parece estar a pedir que elas recomecem…

* Vou usar a nomenclatura oficiosa portuguesa, que distingue o traque (que é sonoro) da bufa (que é silenciosa, mas costuma ser quimicamente muito mais agressiva). O termo erudito flato e o popular peido não fazem essa distinção e ela é importantíssima do ponto de vista social: o autor do traque é imediatamente identificado pelos presentes, o da bufa não… Os esforços da senhora para abafar o cheiro só fazem sentido se ela estivesse a largar bufas…

01 março 2009

DE BICOS DOS PÉS

Que Francisco Louçã se tenha numa grande conta não é surpresa nenhuma. Surpresa é que uma pessoa tão inteligente como ele não aprenda com a experiência. Considerar que o PS elegeu a sua organização como o inimigo principal é um disparate. Tornar isso numa notícia serve apenas para consolar os conversos.

De tanto os esticar, Louçã já deve ter os dedos dos pés esmagados. Todos ainda nos lembramos do vídeo sobre o aborto que foi colocado (e depois retirado…) no You Tube por Marcelo Rebelo de Sousa (com a Elisa…). Do original, já só resta este bocadinho acima.

Suponho que praticamente ninguém se lembre que houve uma resposta colocada no mesmo sítio (acima) por Francisco Louçã (sozinho, sem a Joana Amaral Dias…). Se calhar, também se devia considerar o inimigo principal de Marcelo Rebelo de Sousa…

A verdadeira resposta (demolidora!) ao vídeo de Marcelo acabou por ser dada com a paródia de Ricardo Araújo Pereira (com Zé Diogo Quintela como travesti…). Como se vê, quando interessa e para o que interessa, Francisco Louçã pode não ser tão importante assim!