19 novembro 2007

A MENINA NUA DA FOTOGRAFIA

Conforme prometera, eis um desenvolvimento sobre uma daquelas fotografias mais simbólicas respeitantes à Guerra do Vietname. A menina da fotografia chama-se Phan Thi Kim Phuc e tinha 9 anos na altura em que a fotografia foi tirada (1972). Neste caso, há duas histórias: uma associada à própria fotografia, outra associada à sua protagonista. Comecemos pela segunda.
Por causa desta fotografia, Kim Phuc foi protegida pelo regime norte-vietnamita depois de 1975, como símbolo vivo das crueldades sobre civis ocorridas durante a guerra do Vietname. Ao abrigo dessa protecção ela foi autorizada a prosseguir os seus estudos em Cuba. Numa dessas viagens, ela acabou por desertar e pedir asilo político no Canadá (1992), onde hoje vive com o marido e dois filhos.
Quanto à fotografia propriamente dita, convém esclarecer que, os uniformes que se vêm ao fundo da fotografia, andando placidamente em contraste com o ritmo de corrida das crianças, parecendo americanos, são de soldados do exército sul-vietnamita. Em Junho de 1972, data da fotografia, a esmagadora maioria do exército norte-americano já havia sido evacuada do Vietname, embora os sul-vietnamitas usassem o mesmo equipamento.
Por outro lado, numa outra versão mais completa da mesma fotografia, nota-se que um dos observadores que contempla passivamente a cena (no canto direito da fotografia, o lado que foi cortado – não por acaso – na sua versão mais difundida…), tem uma câmara fotográfica na mão, o que indicia que a passividade dos intervenientes não se cingia apenas aos soldados combatentes…
É muito provável que Nick Ut, o autor da fotografia famosa, tenha mesmo levado depois as crianças para o hospital, mas também é verdade que a fotografia acima (menos famosa) mostra uma outra realidade, a da sofreguidão de paparazzi dos fotógrafos presentes no local, naquela faceta do jornalismo que se torna inexplicável de tão desumana, quando se notícia o assassinato em vez de tentar deter o assassino ou de tentar socorrer a vítima…

Para além da desumanidade de quem faz a Guerra há também a desumanidade de quem a cobre e isso, compreensivelmente, raramente aparece nas fotografias…

BELGIË BELGIQUE BELGIEN

É sempre interessante ver uma manifestação a exprimir-se pela manutenção do status quo. Ser-se conservador pode ser uma atitude que não tem o charme nem o interesse jornalístico de pedir revoluções, mas as 20 a 35 mil pessoas (conforme as fontes) que ontem se reuniram em Bruxelas ostentando a tricolor brabantina pareciam ter algo de interessante a exprimir: a de que há ainda alguém (140.000 assinaturas, segundo as notícias) interessado em preservar a Bélgica. E isso, mesmo no dia seguinte ao da derrota (0-2) da sua selecção nacional de futebol frente à Polónia… Mas, pelos vistos, há quem analise isso como uma manobra fracófona... Será, meu caro Alfacinha?...

18 novembro 2007

UMA MENTIRA CONVENIENTE

(Excerto de uma noticia do Diário de Notícias de dia 18/11/2007, p.9)

A organização ecologista Greenpeace continua a realizar manifestações contra os que acusa de estarem a destruir o planeta Terra. Ontem, ao largo de Valência interromperam a navegação do gigantesco navio Front Driver. (…) Na Indonésia o alvo foram os tanques que armazenavam óleo de palma no porto de Dumai, por causa da destruição das florestas. Em Varsóvia, fizeram um apelo ao Governo para evitar as catástrofes ecológicas. Na Coreia do Sul foi abordado um navio com carvão…
Nos Estados Unidos… não, nos Estados Unidos não se passou nada… Aliás, apesar dos Estados Unidos produzirem comprovadamente (segundo dados das organizações dependentes da ONU) cerca de 25% de toda a poluição mundial, parece que para o Greenpeace é como nada ali se passasse que incomode ou preocupe os activistas da organização.
Não sei se é mais surpreendente esta omissão espantosa, se será o facto dessa extraordinária coincidência não costumar ser referida nem investigada. Talvez a melhor explicação para o facto esteja na circunstância de que os quadrantes ideológicos mais atentos a denunciar as manobras norte-americanas, também sejam aqueles que se reclamam do ideário ecologista como instrumento de acção política (como o Bloco de Esquerda, em Portugal…).
Levantar a questão, como aqui faço, de que a Greenpeace seja uma organização cujos indícios apontam estar ao serviço dos interesses de Washington, pode ser, para essas organizações, um anacronismo que confundiria a clareza das outras mensagens políticas que querem passar. Como se percebe, neste mundo dos problemas ambientais, pode não haver só verdades inconvenientes, mas também pode haver muitas mentiras convenientes

A IMOLAÇÃO DO BOAVISTA

O balanço do desempenho de João Loureiro como presidente do Boavista FC que o Público de hoje (18/11/2007) nos apresenta na sua última página é sintomático da leviandade com que, frequentemente em Portugal, se apreciam os resultados dos mandatos à frente das instituições. Assim, de acordo com um desempenho que é classificado como neutro (nem positivo, nem negativo) pelo redactor, lemos:
Aparentemente, terminou a monarquia Loureiro no Boavista. O balanço do reinado do filho João é necessariamente bipolar. Por um lado, os bons resultados desportivos da equipa principal de futebol, com a conquista de um título. Por outro lado, a crise financeira em que o testemunho é passado ao sucessor é inegável, com um passivo de 46 milhões de euros.
Eu não sou sócio do Boavista FC para ter acompanhado detalhadamente a vida do clube, mas não me lembro de ter sido abordado pela comunicação social os riscos que se corriam com os planos desportivos e imobiliários implementados pelas direcções dos Loureiros e de como eles podiam fazer com que a instituição corresse o risco de descambar na catástrofe financeira em que se encontra…
Creio que o primeiro mandato da direcção de qualquer instituição é o de assegurar a sobrevivência da instituição para a sua sucessora. Preservado isso, todos os outros sonhos são possíveis… Mas só quem tenha esquecido como é importante que haja essa ordem de prioridades, é que se pode permitir escrever um comentário como aquele que reproduzi acima…
É que quando vemos a mesma atitude transposta para a esfera pessoal, todos compreendemos o absurdo da atitude de um piloto Kamikaze ou de um monge que se imole pelo fogo… Por um lado, atingem os seus objectivos; por outro, morrem… Geralmente consideramos que eles não demonstram uma grande sanidade mental… E aí não estamos a falar de se ser bipolar
É verdade que o Boavista FC não morreu… Financeiramente, só foi transferido para os Cuidados Intensivos e está com prognóstico reservado… Mas a diferença não impede que se coloque a pergunta: o que leva a que se avaliem as pessoas que desempenharam estes mandatos medíocres de uma forma tão benigna e tão diferente com a que se avaliam as outras pessoas normais?

17 novembro 2007

DO VIETNAME PARA A ÁFRICA PORTUGUESA (ANEXO 3)

Se, por um lado, os Estados Unidos eram a única sociedade verdadeiramente democrática das que estiveram envolvidas nos conflitos descritos nesta série de postes sobre a Guerra do Vietname e as Guerras de África, onde havia uma imprensa independente, também é verdade que cada uma das outras sociedades, mesmo sem liberdade, preferiu preservar as suas memórias de forma diferente, conforme a sua idiossincrasia.
Assim, se nos Estados Unidos se privilegiou a imagem – sobretudo a estática, como aqui se vê – nas outras sociedades, menos sofisticadas, parece ter sido a palavra escrita, declamada ou cantada o meio escolhido para a preservação da memória daquelas guerras. Na minha opinião, as Guerras de África, na perspectiva portuguesa, sintetizar-se-iam muito melhor numa canção como Menina dos Olhos Tristes…, do que com qualquer fotografia…
Mas, para os norte-americanos, a Guerra do Vietname parece poder-se sintetizar com o conjunto das cinco fotografias que aparece neste poste… Demonstrativo de como elas foram também instrumentos para a disputa política interna nos Estados Unidos é o facto de todas as fotografias serem posteriores a 1968, isto é, a partir do momento em que a continuação do envolvimento dos Estados Unidos no Vietname passou a ser contestada…
Já aqui demonstrei, nos dois postes precedentes sobre este mesmo assunto, como as fotografias de propaganda do bloco comunista eram encenadas, muitas vezes de forma grosseira, por vezes excessiva para produzirem efeitos junto das opiniões públicas dos países ocidentais. Mas também já demonstrei que pode acontecer que estas fotografias que fizeram história tenham, por sua vez, uma história que vai muito mais longe do que aquilo que elas mostram.
Também foi o que tentara fazer anteriormente num poste a respeito da fotografia da execução sumária que encima este poste, tirada em princípios de 1968, explicando o que acontecera previamente e que conduzira àquela situação. E surpreendi-me, ao escolher esta compilação, quanto as outras fotografias aqui expostas se lhe podem assemelhar na distorção entre aquilo que pretendem representar e o que se sabe actualmente que aconteceu…
De cima para baixo temos: a execução sumária de um guerrilheiro vietcong em 1968, a morte de um manifestante anti-Vietname na Universidade de Kent, nos Estados Unidos em 1970, uma criança queimada pelo napalm lançado de aviões em 1972, os blindados norte-vietnamitas invadindo o palácio presidencial em Saigão em 1975 e a evacuação dos refugiados por helicópteros a partir do terraço da embaixada norte-americana, também em Saigão e em 1975…

Há o ditado popular que afirma que uma imagem vale por 1.000 palavras… O que se pode descobrir, nesta série e como irei tentar demonstrar em postes posteriores, é que podem existir umas 50 palavras iniciais que podem condicionar o conteúdo do que pensamos serem as outras 950…

16 novembro 2007

DE PAES PARA PAIS POR 50 MIL EUROS…

Há histórias que, sem ter um final feliz, tem fases intermédias reconfortantes… A que eu quero relembrar, começou há mais de ano e meio, como eu menciono num poste da altura, por ocasião da OPA lançada por Belmiro de Azevedo sobre a PT, que depois se veio a gorar e se tornou no prelúdio de uns dos maiores golpes de rins políticos protagonizado pelo seu jornal, o Público
Mas o assunto que me mereceu na altura o comentário neste blogue foi aquilo que em inglês se designa por sideshow, um assunto acessório a essa OPA, quando uma parelha de empresários – João Pereira Coutinho e Miguel Paes do Amaral – cada um para seu lado e demasiadamente cheios da sua importância, não souberam estar no seu lugar, propondo-se patrocinar OPAS concorrentes sem terem quaisquer meios para o fazerem…
Depois, acabaram multados pela CMVM por se terem posto a arrotar postas de lagosta, e a multa do segundo é, aliás, notícia de hoje, depois de ter sido reduzida de 75 para 25 mil euros. É um pormenor, mas dá para pensar como todas aquelas altivezes terão um preço, ao verificar como o aristocrático apelido Paes do Amaral se tornou num muito mais plebeu Pais do Amaral à notícia da suspensão dos 50 mil euros…

DO VIETNAME PARA A ÁFRICA PORTUGUESA (ANEXO 2)

Entre os maiores contrastes, contam-se as fotografias dos prisioneiros e, nesse particular, a liberdade jornalística e de publicar fotografias que existiu no lado português durante as suas guerras africanas nunca teve nada a ver com a liberdade gozada pelos repórteres que acompanhavam a guerra do lado norte-americano.
A liberdade gozada pelos repórteres que a acompanhavam as guerras do lado português estava muito mais próxima da que havia entre os que faziam as reportagens de propaganda para os movimentos nacionalistas que os combatiam ou para o Vietname do Norte… Embora, por vezes, houvesse excepções, cuidadosamente monitorizadas…

Embora os prisioneiros americanos fossem um bem escasso que interessava preservar para efeitos de propaganda, não é apenas isso que explica a discrepância entre o que pretendem mostras estas fotografias. Os relatos posteriores confirmaram que nem os norte-americanos eram assim tão bem tratados, nem os vietnamitas tão sistematicamente maltratados.

15 novembro 2007

(MAIS UM…) MANIFESTO LIBERAL

Tinha aqui prometido um comentário mais longo, depois de uma leitura mais atenta, ao artigo The End of National Currency de Benn Steil, publicado na Foreign Affairs de Maio/Junho de 2007. É um texto extenso, denso e, como é característico daquela revista, mais complexo do que é habitual aparecer na comunicação social mais generalista. Embora, como já havia afirmado atrás, não nos devamos iludir sobre a argumentação técnica que contém: trata-se de um documento político. Leia-se o seu Sumário:

A instabilidade financeira global desencadeou uma vaga de nacionalismo monetário – a ideia que as nações devem ter e controlar as suas próprias moedas. Mas globalização e nacionalismo monetário tornam-se numa combinação perigosa, uma causa para crises financeiras e tensões geopolíticas. O mundo precisa que se abandonem as moedas indesejadas, substituindo-as por dólares, euros, e outras moedas internacionais que ainda estão para nascer.

O meu primeiro comentário vai para a oportunidade da publicação do artigo. É provável que o autor de há muito defenda as ideias que expõe no artigo. No entanto, é mais do que provável que à Foreign Affairs não lhe tenha escapado a oportunidade de publicar opiniões revisionistas ao sistema monetário mundial vigente depois da desvalorização progressiva que a divisa norte-americana tem vindo a sofrer ao longo dos últimos meses (e que, à data em que escrevo, não se sabe onde terminará).

Visivelmente, o artigo foi escrito por um bom especialista, como se percebe pela descrição histórica de enquadramento dos vícios que, na opinião dele, prejudicam o funcionamento dos mercados cambiais mundiais actualmente. Está cheia de factos verdadeiros, mas pejada de conclusões enviesadas, a começar, como se lê no princípio do sumário, pela tese da vaga de nacionalismo monetário que jamais deixou de existir… O que creio que há, é um fenómeno novo, como veremos mais adiante…

Mas, mesmo havendo concordância global (com discordâncias de pormenor) na evolução histórica do funcionamento dos mecanismos cambiais à escala mundial, a minha concordância desaparece quando começam as propostas de Steil para que esses mecanismos melhorem. Para ele, os tais exercícios de nacionalismo monetário (de que aponta vários exemplos, sobretudo latino-americanos) são apenas perniciosos e um bloqueio ao funcionamento harmonioso da globalização.

Mencionando-o, Steil desvaloriza as capacidades do Fundo Monetário Internacional (FMI) em lidar com esses assomos de nacionalismo monetário, quando torna o país prevaricador num pária do sistema financeiro mundial. Para Steil, numa ideia que não é desprovida de atractivos técnicos, dever-se-ia regressar às regras de funcionamento do mercado liberalizado e globalizado dos finais do Século XIX, inícios do XX, e também à indexação ao padrão ouro, abandonada desde 1971.
Nesse mercado de outrora, que Steil idealiza mais do que descreve, pois ele também esteve cheio de episódios de nacionalismo monetário convenientemente esquecidos, os poderes de soberania nacional estavam mais diluídos. Desejavelmente, seriam as forças do mercado que contribuiriam para a formação das cotações das moedas e das taxas de câmbio, independentes das decisões políticas. Acontece que já há quem defenda e implemente isso, embora de forma menos ideal e radical que Steil…

O sistema financeiro mundial é tutelado pelo Banco Mundial (BM) e pelo FMI e por, detrás deles, pela oligarquia dos países mais ricos: não é por acaso que existe um acordo informal atribuindo a presidência da primeira organização a um norte-americano e a da segunda a um europeu... E não é difícil de adivinhar quais serão as regras de funcionamento da economia privilegiadas pelos seus órgãos superiores de decisão quando são chamadas a intervir em países onde a expressão do nacionalismo monetário corre mal…

Significativamente, este modelo BM/FMI tem funcionado desde 1945, e nem mesmo potências em ascensão como o Brasil conseguiram evadir-se às regras por ele impostas. O que haverá de novo (que Steil designa por vaga), que leva à necessidade da invocação da liberdade do funcionamento dos mercados? Em minha opinião, a grande diferença é que os nacionalistas mal comportados do passado (o Brasil, a Argentina) acabavam sempre por poder ser controlados. Alguns nacionalistas do Século XXI, não…

A China parece-me ser o grande expoente do nacionalismo monetário a que Steil, curiosamente (ou não…), apenas faz referências casuais ao longo de todo o seu artigo. Com o seu superavite acumulado na Balança de Transacções Correntes (BTC), as suas reservas em divisas, a China está imune às coacções que do exterior lhe possam fazer, nomeadamente para que revalorize a sua moeda (yuan), que se encontra actualmente indexada ao dólar, conforme nos Estados Unidos têm repetidamente insistido.

Os interesses de chineses e norte-americanos não são antagónicos, no que concerne à fixação da cotação da moeda norte-americana. Mas no tal mercado aberto que propõe, e como o próprio Steil assinala, o peso da economia chinesa ainda equivaleria apenas ao da Califórnia e da Florida combinadas… A China nada teria a ganhar e a sua capacidade de influência ficaria diluída com essa abertura. Seria uma perda da sua capacidade de autonomia estratégica. Mau grado o conteúdo técnico e científico, a proposta do artigo é política e parece-me ter um destinatário.

Todo o artigo é afinal, apesar das aparências, sobre poder. Faz-me lembrar um outro artigo muito mais popular, mais extenso e mais antigo (1848), onde, a pretexto de uma análise técnica e científica (neste caso sobre história e sociologia) se concluía também pelas vantagens da globalização… Outra globalização, que o artigo tinha o título de Manifesto Comunista! O seu sumário era: Proletários de todos os países, uni-vos! Ainda hoje se pode lê-lo a embelezar cabeçalhos de muitas publicações… mas não propriamente científicas.

14 novembro 2007

DURANTE 99 ANOS…

É um pormenor pouco conhecido que a antiga colónia britânica de Hong-Kong (que tem uma área global de 1.064 Km²) se subdividia na ilha de Hong-Kong propriamente dita e ilhas adjacentes (79 Km²), na península de Kowloon e mais algumas ilhas próximas (11 Km²), mas que a esmagadora maioria do território da colónia (974 Km²) fazia parte do que ainda hoje se designa pelos Novos Territórios, de que uma parte deles pertencem geograficamente à China continental.
A história e o estatuto legal de cada um deles eram distintos. Hong-Kong fora cedido pela China em 1842, no seguimento da 1ª Guerra do Ópio. Kowloon fora cedido em 1860 no seguimento da 2ª Guerra do Ópio. Mas os Novos Territórios só haviam sido cedidos em 1898 e em regime de aluguer, por um período de 99 anos. A não renovação desse aluguer (1997) foi, aliás, o motivo próximo para a China reclamar a devolução da colónia. A Hong-Kong original tornar-se-ia inviável sem os Novos Territórios…
Esta pequena história serve para relembrar tempos e ocasiões em que contractos que assim se prolongavam por quase um século eram frequentes… E consegue-se perceber a lógica que estaria por detrás da prática: por um lado, a potência dominante pretende o usufruto imediato do território em disputa, por outro, a potência dominada pretende ao menos deixar hipóteses para que no futuro as relações de poder tenham mudado e possa reclamar a recuperação do que considera seu.
O que não se percebe é a razão que terá levado o governo português a ressuscitar essa prática contratual por tais períodos extensíssimos quando se falou da concessão da rede rodoviária nacional à empresa Estradas de Portugal. Até 2099? Porquê a vantagem de optar por um período tão dilatado em relação a outro mais curto? Ao contrário, porquê a vantagem de quantificar antecipadamente o tempo da concessão? Instado a explicar-se, Mário Lino torna-se naquela máquina… Todos já nos apercebemos que Lino inspira a mesma confiança que um vendedor de carros usados… Talvez Sócrates ainda não...

O PODER AERONAVAL SOVIÉTICO

Sucintamente, ao longo da sua história e como se pode constatar vendo um mapa, a Rússia nunca foi uma potência marítima e a sucessora União Soviética também não. Na eventualidade de uma III Guerra Mundial, a União Soviética seria a potência continental e o papel que a Marinha Soviética teria de desempenhar seria o de dificultar o exercício da supremacia no mar por parte da potência marítima, os Estados Unidos.
Repetindo precisamente o que acontecera nas duas Guerras Mundiais anteriores com britânicos e alemães, competiria aos norte-americanos manter as vias marítimas abertas e aos soviéticos, através do recurso à arma submarina, bloqueá-las. Esta é a essência do grande quadro estratégico do período da Guerra-Fria, por isso os soviéticos tinham imensos submarinos e por isso os norte-americanos tinham imensos porta-aviões…

Uma das descobertas posteriores ao fim da Segunda Guerra Mundial é que as aeronaves são a melhor plataforma de luta anti-submarina. Os porta-aviões podem ter aquelas virtudes de projecção de poder à distância através daqueles combates naqueles filmes do estilo TopGun, mas uma das razões principais, e menos conhecida, para que haja tantos é o seu papel como bases de apoio para as armas anti-submarinas mais eficazes.
Foi essa ignorância da opinião pública que permitiu à NATO atribuir um significado desmesurado ao aparecimento do primeiro porta-helicópteros soviético em 1967, o PKR Moskva. As iniciais PKR são a abreviatura de Protivolodochny Kreyser (Cruzador Anti-Submarino) e, desta vez, os russos não estavam a dissimular: era mesmo essa a função do navio e a da frota de helicópteros que o equipava - 18 Kamov Ka-25.

Mas os mitos criados pela Segunda Guerra Mundial, com as gigantescas batalhas aeronavais travadas no Pacífico entre americanos e japoneses, só faziam realçar a capacidade ofensiva dos flat-tops(1) junto da opinião pública ocidental que se interessava por esses assuntos. E a ocasião apresentava-se boa demais para que, nos Estados Unidos, não se aproveitasse para solicitar um aumento de meios para fazer face à nova ameaça
Na realidade, os serviços de informações ocidentais sabiam como a União Soviética, mais preocupada no desenvolvimento da arma submarina se deixara atrasar décadas no ramo tecnologicamente muito sofisticado da guerra anti-submarina. Por outro lado, as informações que os serviços de informações soviéticos iam colectando apontavam que, em caso de conflito, a superioridade soviética sob a superfície seria desafiada…

Ao contrário das Guerras Mundiais precedentes, em que os enfrentamentos se fizeram entre a armada submarina e a armada de superfície, os cenários para a próxima Guerra incluiriam um conflito directo entre as armadas de submarinos dos dois lados. E é por causa desta evolução que os soviéticos passaram a perceber que também estariam sob uma ameaça submarina e que a importava combater.
Mas a verdade é que a Marinha foi sempre a última prioridade entre os ramos das Forças Armadas soviéticas. Isso não invalida que o Almirante Gorshkov, que a dirigiu durante quase 30 anos (1956-85), gozasse de uma publicidade e notoriedade no Ocidente que, possivelmente, não teria na sua terra natal... As suas ambições e proclamações eram ideais para o reforço dos orçamentos anuais da US Navy

Quando a classe seguinte apareceu, em 1975, o PKR Kiev, um Cruzador Anti-Submarino muito maior que a classe anterior (42.000 tons. em vez de 18.000) foi a histeria total… Por um lado, pela época em que apareceu (os norte-americanos haviam acabado de perder o Vietname…), por outro, porque a nova unidade continha os primeiros aviões embarcados soviéticos (Yaklovev Yak-38) e tinham logo capacidade VTOL (2)!
Na verdade, os cruzadores soviéticos eram navios concebidos para várias funções simultaneamente e, como as fotografias mostram, nem aproveitavam todo o espaço disponível a bordo para a pista de aviação. Uma boa parte do seu armamento eram mísseis para ataque a outros navios e o conjunto do poder de fogo, quer em quantidade quer em qualidade, não se podiam comparar a qualquer porta-aviões ocidental (3).

Mas a propaganda da ameaça aeronaval soviética tinha de ter imensa força. Tanta que se desenhavam cenários da ocupação soviética da base naval da baía de Cam Ranh no Vietname, que fora desocupada pelos norte-americanos depois de 1975. À falta de fotografias assinalando uma presença naval soviética significativa, faziam-se desenhos da base, imaginando-se a presença de unidade anfíbias (em primeiro plano), prestes a invadir os países vizinhos…
(1) Flat-top é uma designação iniciática baseada na aparência dos porta-aviões, que se pode traduzir por topo plano (flat), referindo-se à pista, normalmente ao longo de toda a extensão do navio que encima os porta-aviões e porta-helicópteros.
(2) VTOL: Vertical take-off and landing (descolagem e aterragem vertical).
(3) Franceses e britânicos incluídos
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13 novembro 2007

XIII

Para aficionados (entre os quais me conto), há que lembrar que hoje é o dia da edição dos dois álbuns finais da saga XIII de William Vance e Jean Van Hamme. Era tempo de acabar, a imaginação de Van Hamme já pouco podia extrair da saga que não fosse repetir-se e a mão de Vance, por causa da idade (72 anos), já não pode ser o que era.
Aliás, o 18º álbum da série, La Version Irlandaise (cuja capa aparece acima) já é assinado por Jean Giraud e apenas o 19º Le dernier round (abaixo) mantém a autoria de William Vance.
Considerando as fidelidades geradas por séries de culto para jovens (e outros...) como XIII e Harry Potter, e lembrando as histerias que os média gostam de nos mostrar por altura dos lançamentos dos novos livros de J. K. Rowling, é saudável constatar como o mundo pula e avança mesmo sem prestar grande atenção a essas futilidades…

DO VIETNAME PARA A ÁFRICA PORTUGUESA (ANEXO 1)

A Guerra do Vietname terá sido dos conflitos que produziu algumas das fotografias mais simbólicas a seu respeito. Mas não é dessas fotografias famosas que este poste irá tratar. Aqui justapor-se-ão fotografias tiradas do lado dos insurrectos, quer no Vietname, quer nas guerras de África, mostrando como, no apogeu da Guerra-Fria, havia uma estética fotográfica comum por detrás de todos os movimentos de libertação nacional apoiados pelo bloco soviético.
As características semelhantes das guerras que esses movimentos travavam, se conseguem explicar parcialmente as semelhanças dos temas fotografados (neste caso, a colocação de minas), não o conseguem fazer quanto à semelhança dos planos escolhidos…
E mesmo tratando-se de culturas substancialmente diferentes (aqui trata-se de fotografias do Vietname, de Moçambique e da Guiné) …
… existem nas fotografias demasiados temas comuns (neste caso, as mulheres) para que isso possa ser considerado acidental.
Passados todos estes anos, pelos exemplares sobreviventes ainda se sente a diferença que as fotografias representavam para os dois lados em conflito…

Por um lado, ficaram as fotografias tiradas por amadores, para mais tarde recordar, por outro, as tiradas por profissionais com conteúdo informativo e/ou de propaganda…
Nos casos das fotografias aqui exibidas parece não haver grande diferença entre informação e propaganda. Afinal, Goebbels considerava que não havia diferença entre elas… e nos Partidos Comunistas também deviam considerar que a diferença não seria assim tão grande, tanto que as podiam arrumar numa mesma secção como as SIP (Secção de Informação e Propaganda) no caso do PCP...

12 novembro 2007

O ESPERANTO DAS MOEDAS

O esperanto é uma língua artificial, criada em 1887 com o objectivo de se tornar a língua internacional de comunicação. Não deve ter sido coincidência que o seu inventor fosse um judeu polaco de ascendência lituana de nome Zamenhof que como judeu, falaria iídiche em casa (um idioma próximo do alemão) e polaco na rua, mas que havia nascido numa cidade (Bialystok) onde também se empregava o lituano e o bielorrusso, e que pertencia ao Império Russo. É aliás em russo que o primeiro livro sobre o esperanto é publicado.

O atractivo do esperanto como idioma é a sua regularidade, idealmente concebida para facilitar a sua aprendizagem: as regras de formação dos plurais são sempre as mesmas, assim como a dos advérbios, não há nenhuns desses pesadelos das conjugações irregulares, o vocabulário foi criteriosamente escolhido para parecer familiar ao maior número de falantes europeus, com uma proporção seleccionada de vocábulos de origem latina e de origem germânica. Na leitura, a cada letra corresponde um som, e vice-versa.
Mas, apesar de todos esses predicados, o esperanto nunca conseguiu destronar, primeiro o francês e, mais tarde, o inglês como o idioma privilegiado para a comunicação internacional. Há algo de muito semelhante que se passa com as moedas. Evitando fazer aqui uma História da Moeda, sempre houve uma moeda dominante no comércio internacional, que normalmente correspondia à moeda da potência dominante nesse período histórico. Tradicionalmente, essa força era expressa pelo conteúdo em ouro.

Nos tempos modernos, com a libra esterlina ou o dólar, a conexão entre a moeda e o ouro deixou de ser física para se tornar simbólica. E, depois de 1971, nem isso, porque durante a administração Nixon o dólar perdeu essa indexação ao valor-ouro. Uma das consequências desse abandono foi que a moeda de referência internacional passou a ser passível de oscilações muito mais pronunciadas. E é em momentos como o actual que se percebe a inconveniência disso, quando a referência desata a deslizar, deixando de o ser.

Escrito num jornal de divulgação geral como o Washington Post, e dirigido a um público alargado, mas não especialista, ficará a impressão para o leigo que caminhos para a solução da recuperação da solidez do mercado cambial poderão ser encontrados com a substituição do dólar por uma nova moeda internacional (de criação privada), que estaria indexada em relação ao ouro ou a um cabaz de mercadorias de cotação internacional, tal qual é mencionada no fim de um artigo do Washington Post de hoje.
Ficou por dizer no artigo que há mais de 25 anos há uma moeda internacional de referência, criada pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), que se chama SDR (Special Drawing Rights) e cuja cotação é resultado ponderado de 4 divisas: dólar, euro, iene e libra. Como o esperanto, quase ninguém a usa e ninguém se lembra dela. Mas, suponho que a grande novidade da nova moeda agora proposta, para além da sonoridade do nome – ouro digital – terá a ver com a sua criação e gestão – privada…

Mas isso de propor a privatização da gestão dos mercados cambiais, independentemente da bondade dos argumentos do artigo que foi apresentado na edição de Maio/Junho da revista Foreign Affairs que irei ler cuidadosamente, parece-me que já não é assunto do âmbito da política cambial, é do âmbito da política – ponto final… E mesmo que essa distinção possa estar explícita no artigo de Benn Steil na Foreign Affairs, não o está de todo no artigo de Sebastian Mallaby no Washington Post

11 novembro 2007

DO VIETNAME PARA A ÁFRICA PORTUGUESA – 7

Por muito que haja a censurar ao comportamento pessoal de Richard Nixon, há que reconhecer que conduziu com sucesso, conjuntamente com Henry Kissinger, o processo que levou à assinatura do cessar-fogo e à retirada dos Estados Unidos do Vietname. Mas, para a obter, utilizou, como nunca antes fora feito, o poderoso dispositivo militar norte-americano em benefício dos objectivos políticos que verdadeiramente lhe interessavam – no caso, o ritmo e o grau de cedências dos norte-vietnamitas à mesa das negociações. Precisamente no lado oposto, há imenso a elogiar do ponto de vista pessoal a Marcello Caetano. Mas, se como já se reconheceu atrás, a sua tarefa era muito difícil, também é preciso reconhecer que nela fracassou fragorosamente.
A implementação de soluções específicas para a luta contra-subversiva, adoptadas conforme as características do Teatro de Operações, o que se tornava uma solução flexível e benéfica em si, acabou por ter o efeito perverso – muito por culpa também da fragilidade política de Marcello Caetano – de pôr os antigos Comandantes-Chefes (mais Spínola e Kaúlza de Arriaga do que Costa Gomes) a sonhar alto quanto às suas possibilidades políticas futuras na metrópole. Mas vale a pena reler hoje as propostas contidas no livro Portugal e o Futuro, o livro assinado por António de Spínola e que, publicado em 1974, tanta celeuma provocou. São ingénuas, apontando para um modelo federal que o General de Gaulle experimentara em França 15 anos antes – e fracassara
Que se discutisse com seriedade modelos de transição que haviam fracassado havia 15 anos é simbólico do grau de ingenuidade e da falta de preparação política da sociedade portuguesa em geral, que irá explicar (em parte) as convulsões do PREC. As fases terminais dos conflitos, entre 1974 e 1975, serão decididas nas metrópoles – embora no caso vietnamita a expressão a metrópole norte-americana tenha um sentido figurado... Mas as situações assemelham-se: imersas em problemas internos, elas desinteressam-se de um problema que as havia acompanhado há mais de um decénio… Não fossem esses problemas, nunca a superpotência mundial se permitiria assumir assim às claras um fracasso militar que debilitou inexoravelmente a sua imagem em todo o mundo…
E, afinal, o que poderia ter corrido de forma diferente num caso e noutro? Já atrás respondi que, em minha opinião, numa primeira fase, durante os primeiros anos, pouco ou quase nada. Depois, viu-se a diferença entre ser uma sociedade aberta e democrática e não o ser. O que em Portugal era discutido em surdina podia sê-lo nos Estados Unidos abertamente, por muito que isso desagradasse ao poder. A política norte-americana para o Vietname mudou, porque podia ser mudada. A portuguesa não, a não ser que se mudasse de regime, o que não é a mesma coisa que mudar de protagonista… Acreditar que seria Marcello Caetano a fazê-lo tem muito daquele espírito sofredor lusitano que está à espera até à última jornada para que a selecção se consiga qualificar…
Mas se sociologicamente parece haver uma espécie de fatalismo associado a cada povo – os norte-americanos parecem ter tornado a repetir tudo de novo no Iraque desde 2003… – estes dois casos dão que reflectir sobre o peso que a influência dos fantasmas terá na conduta dos homens indecisos quando têm que decidir… Terá sido o caso provável da influência do pensamento de Salazar na conduta de Marcello Caetano e foi também o caso de Lyndon Johnson, que chegou a confessar que tivera sonhos onde se imaginava acusado de trair o compromisso de John Kennedy para com o Vietname*… Parece ser uma explicação simples demais, mas há uma lição histórica, velha de milénios, que afirma que nunca é bom que sejam os mortos a governarem os vivos…

* Lyndon Jonhson and the American Dream, de Doris Kearns.