Como se torna quase obrigatório constar do CV de um mafioso dos originais do princípio do século XX, Giuseppe Aiello nasceu na Sicília (Bagheria) em 1891. Aos 16 anos, em 1907, emigrou para a América. Tornado Joe Aiello, acabou instalando-se em Chicago, onde veio a dominar uma parte do submundo da cidade mas tornando-se no processo um rival do famoso Al Capone (1899-1947). Ao longo da década de 1920, a guerra surda travada pelos gangs rivais fez com que Joe Aiello tivesse tentado eliminar Capone, mas acabou por ser este último a ser o bem sucedido. A 23 de Outubro de 1930, Aiello foi emboscado à saída da casa onde se escondera por três metralhadores munidos das famosas Thompsons. Ainda conseguiu fugir a um dos emboscados, mas apenas para se esconder postando-se diante de outro que não perdoou. O resultado pode ser apreciado pelo estado do colete que Aiello envergava, abaixo fotografado à contraluz. O médico legista que o autopsiou removeu-lhe 59 balas do corpo. Houve quem tivesse feito algumas contas macabras: a 15 gramas por projéctil, Aiello pesaria quase mais um quilo (15 x 59 = 885 gr.) quando morreu; e considerando que um carregador de tambor de uma Thompson levava 50 balas, pode-se constatar que não houve grande desperdício de munições. O episódio veio a servir de inspiração à cena da morte de Santino Sonny Corleone no filme O Padrinho.
19 abril 2016
18 abril 2016
O «FACEBOOK» DO EX-PRESIDENTE
Agora que se anuncia a saída de Nuno Garoupa da presidência da fundação Francisco Manuel dos Santos é que se tornará ainda mais interessante seguir a sua página de facebook. Valerá a pena ver se daqui por diante haverá alguma inflexão na quantidade e qualidade das manifestações elogiosas que costumam acompanhar os sempre oportunos comentários que o presidente ora cessante vai deixando naquela sua página pessoal. Esclareça-se que a razão para as minhas dúvidas nada têm a ver com a qualidade intrínseca do que leio publicado pelo autor, antes têm a ver com as motivações para a expansividade tão generosa como vejo acolhido tudo o que publica - conjugado com a identidade de algumas pessoas que vejo manifestarem-se. Concebo que o meu cepticismo possa ser porventura excessivo, mas creio que todos estaremos dispostos a aceitar que o próprio futuro se encarregará de desmentir esse meu pensamento maldoso, quiçá injusto, que atribui apreciável parte dos encómios que se lêem ao poder do cargo e não à argúcia da pessoa.
Porém se as minhas suspeitas se confirmarem e o presidente da fundação Francisco Manuel dos Santos tem um direito natural a uma bonificação, Jaime Gama, que já era um grande pensador antes desta nomeação (por cortesia da sua participação no Observador), é melhor que não participe nas redes sociais pois irá passar a ser um pensador para o qual irão faltar adjectivos, tal a excelência...
PAUSA PARA UM CIGARRILHO
Quando me querem fazer confrontar com a premência e o alarme das notícias nitidamente plantadas por Bruxelas - por exemplo esta de hoje: Bruxelas exige corte de mil milhões a Costa - não consigo esquecer a placidez como ao mesmo tempo se parecem viver estes tempos de urgência orçamental no país vizinho, onde há quase cinco meses que não há governo nem interlocutores para tal género de conversa. O impasse político em Espanha é instrumental para reduzir todo aquele frenesim de Bruxelas às proporções da atenção que os espanhóis (actores políticos e opinião pública) lhe estejam dispostos a conceder. E se os burocratas em Bruxelas quiserem sancionar Madrid porque os políticos locais (Rajoy, Sánchez, Rivera, Iglesias) vivem o seu tempo político de acordo com os seus calendários, então os agentes da União (como Dijsselbloem) que avancem e o façam - mas aceitando as responsabilidades políticas por o fazerem e é aí que me parece que a porca torce o rabo, porque os lá de longe parecem-me querer a autoridade mas sem a responsabilidade. (A fotografia é de 1978 e, no que parece um momento mais descontraído de uma negociação, Adolfo Suárez acende o cigarro de Felipe Gonzalez).
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17 abril 2016
...E SE FOSSEM APLICAR TODO ESTE ZELO PARA OS DOCUMENTOS DA CONTABILIDADE DO BANIF?
A mesma jogada do único golo do Sporting no jogo de ontem, analisada, esquadrinhada e divulgada no facebook por adeptos benfiquistas e por adeptos sportinguistas. E se uns e outros fossem todos à merda? E se se dedicassem a analisar algo de útil? Que tal aplicar todo esta indignação e zelo em esquadrinhar com perícia igual a contabilidade do BPP, do BPN, do BES ou do BANIF, que nos custaram e continuam a custar a todos milhares de milhões de euros?
A REELEIÇÃO OU O SÍNDROME VALE E AZEVEDO?
Dá que pensar que critérios jornalísticos justificarão os numerosos directos televisivos para uma eleição a que concorre apenas um candidato. Tenho idade para me lembrar da incerteza e da emoção que acompanhou a última reeleição do almirante Américo Thomaz em Julho de 1972 por um colégio eleitoral que se reuniu solenemente no hemiciclo da Assembleia. A RTP teve que acompanhar o acto - e também havia dissidência: houve 29 votos nulos! Pois em Abril de 2016 já não há a desculpa das imposições do regime fascista para justificar o interesse que a comunicação social dedica a algo que, objectivamente, não tem interesse algum. Mais do que por falta de concorrência, até por falta de comparência, o vencedor está conhecido de antemão. Mas os dois escrutínios assemelham-se em mais do que esses aspectos: qualquer dos velhotes - dá-se a coincidência de ambos terem precisamente a mesma idade aquando do acto eleitoral: 78 anos - vai vencer as eleições de uma forma esmagadora. Não transmitem futuro. Estão fadados para permanecer nas funções até morrerem e não vai ser através de actos eleitorais que dali virão a ser apeados. E no dia em que, hipoteticamente o forem (apeados do cargo que ocupam), quase de certeza que virão a ser presos...
A POUCO E POUCO, A NOTÍCIA LÁ VAI CHEGANDO ÀS ALDEIAS MAIS REMOTAS DE PORTUGAL
Afinal, se o assunto já foi ventilado (ainda que casualmente) no 36º Congresso do PSD, já será altura dos bois perceberem que, ao incorporarem com veemência e como pensada por si a argumentação agora descartada, fizeram figura de... bois.
16 abril 2016
ONDE ESTAVA O DONALD?
Nos últimos dias a comunicação social mundial tem sido abastecida com alguns vídeos fornecidos pela US Navy mostrando voos rasantes espectaculares de aviões russos (acima) próximos de um navio de guerra norte-americano, o USS Donald Cook, que navegava no Mar Báltico. Transcreva-se o principal da notícia dada pelo Diário de Notícias:
Dois caças-bombardeiros Sukhoi Su-24 realizaram uma série de voos rasantes junto ao destroyer americano USS Donald Cook em águas internacionais do mar Báltico quando o navio viajava da Polónia para a Lituânia, com um helicóptero daquele primeiro país a bordo. Os voos sucederam na segunda e terça-feira e um deles simulou um ataque direto ao navio, tendo o Su-24 passado a pouco mais de nove metros da proa, revelou ontem um porta-voz militar dos EUA.
Para este porta-voz, as ações russas revestiram-se de uma agressividade como não víamos há muito e encerram o potencial para originar uma desnecessária escalada de tensões. Por seu lado, o comandante do navio, Charles E. Hampton, declarou que as manobras dos aviões russos não corresponderam aos padrões internacionais e incompatíveis com as regras de conduta em águas internacionais. Para o porta-voz do ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov, foram observados todos os procedimentos de segurança, justificando a atuação dos Su-24 com a proximidade operacional da base naval russa no Báltico. Esta encontra-se situada no enclave de Kalininegrado, entre a Lituânia e a Polónia, tendo o incidente ocorrido a 70 milhas náuticas (129 quilómetros) da base.
Dois caças-bombardeiros Sukhoi Su-24 realizaram uma série de voos rasantes junto ao destroyer americano USS Donald Cook em águas internacionais do mar Báltico quando o navio viajava da Polónia para a Lituânia, com um helicóptero daquele primeiro país a bordo. Os voos sucederam na segunda e terça-feira e um deles simulou um ataque direto ao navio, tendo o Su-24 passado a pouco mais de nove metros da proa, revelou ontem um porta-voz militar dos EUA.
Para este porta-voz, as ações russas revestiram-se de uma agressividade como não víamos há muito e encerram o potencial para originar uma desnecessária escalada de tensões. Por seu lado, o comandante do navio, Charles E. Hampton, declarou que as manobras dos aviões russos não corresponderam aos padrões internacionais e incompatíveis com as regras de conduta em águas internacionais. Para o porta-voz do ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov, foram observados todos os procedimentos de segurança, justificando a atuação dos Su-24 com a proximidade operacional da base naval russa no Báltico. Esta encontra-se situada no enclave de Kalininegrado, entre a Lituânia e a Polónia, tendo o incidente ocorrido a 70 milhas náuticas (129 quilómetros) da base.
É evidente que estas notícias, tal como as refutações da parte contrária, nunca têm nada de inocente. Sente-se a tensão nos comentários proferidos no vídeo acima. Mas o que me divertiu particularmente nesta história, parecida com outras precedentes, e em contraste com a multiplicidade de fotografias e vídeos disponibilizados pelos norte-americanos, foi a ausência conspícua de um mapa que mostrasse a localização de onde se dera o incidente. E seria relativamente fácil reconstitui-la. Como se pode ler na própria notícia acima, não é difícil calcular uma localização marítima distante 130 km da cidade russa de Kalininegrado - é onde está a bola vermelha com o Wally. Mas mostrar onde estava o Donald evidencia como estes incidentes tendem sempre a acontecer em águas próximas das costas da Rússia e nunca nas próximas das costas dos Estados Unidos. No caso, nunca existiria um exercício simétrico a este registado no Báltico, em que um destroyer russo pudesse transportar um helicóptero ASW de um país seu aliado na região (como Cuba) para realizar manobras conjuntas nos mares das Caraíbas, mas gosto de imaginar sobre qual seria a reacção norte-americana se o navio em questão se aproximasse a 70 milhas náuticas de Porto Rico (abaixo), por muito que as águas fossem - e são - internacionais...
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OS POLÍTICOS QUE ATÉ PERDERIAM AS ELEIÇÕES PARA DELEGADO DE TURMA
Maria de Belém Roseira é militante do partido socialista desde há 40 anos, foi ministra por duas vezes e tornou-se uma militante tão destacada do partido que foi mesmo eleita para o cargo sempre honroso de sua presidente no XVIII congresso do partido socialista, tendo ocupado o cargo entre 2011 e 2014. Apesar de tal carreira de sucesso, foi preciso, contudo, chegar aos 66 anos para se apresentar directamente ao escrutínio do eleitorado, quando decidiu concorrer às eleições presidenciais de Janeiro de 2016. Recebeu um pouco menos de 200 mil votos (4,2%). Não me lembro de ter escutado no rescaldo dessas eleições, reflexões sobre os defeitos do nosso sistema político que permitem que estas figuras secundárias da política voguem pelo protagonismo mediático sem se exporem verdadeiramente ao escrutínio popular. É verdade que já ouvi este mesmo género de argumento mas dirigido exclusivamente a José Pacheco Pereira e sempre pelos seus companheiros, na dinâmica das antipatias que a sua intervenção mediática sempre suscita. Ora a lista de nomes que se enquadram na situação é infindável; nem me atrevo a enumerá-la. Mas, a escolher um outro exemplo, gostaria de recorrer a um que demonstra que mesmo depois dos fiascos eleitorais, parece existir uma benevolência para aqueles que mostram não ter qualquer jeitinho para aquilo que deveria ser a função principal por que um político devia ser avaliado: angariar votos.
Vital Moreira, recentemente reaparecido a propósito de um tema com que tanto lhe agrada embirrar: militares, especialmente estabelecimentos de ensino na sua dependência. Para quem não se lembre da sua última intervenção foi como cabeça da lista apresentada pelos socialistas às eleições europeias de 2009. Perdeu as eleições. Considerando que o PS estava no poder desde 2005, isso não pode ser considerado anómalo. O que o pode ser é a contundência como as perdeu: Vital Moreira teve a duvidosa honra de conseguir alcançar o pior resultado absoluto do Partido Socialista até aquela data - e até hoje. Pela primeira vez na sua história o PS não conseguiu alcançar pelo menos um milhão de votos (947.000 votos e 26,5%) numas eleições nacionais. Esses são os dados objectivos, que a contribuição pessoal de Vital Moreira para tal resultado já será subjectiva. Em termos políticos e com a antipatia que o vemos distribuir, alguém como Vital Moreira devia ser considerado assim como um fardo, um pé frio azarento, daqueles que nos tempos modernos que já não são os dele nem conseguiria ser eleito como delegado de turma. Em contrapartida, Maria de Belém pecará por ser simpática demais. E contudo, a opinião publicada parece ser particularmente condescendente com ambos e com outros como eles pela incompetência nesse aspecto tão elementar da democracia: os votozinhos, senhora deputada.
O BRASIL ESTÁ FEITO AO BIFE
Mesmo visto à distância de um oceano, seja qual for o resultado da votação dos deputados a respeito da destituição de Dilma Rousseff, o problema prolongar-se-á pois a faccção derrotada, qualquer que ela venha a ser, já mostrou reservar-se o direito de recorrer às ruas para fazer vingar os seus pontos de vista. O poder tem destas coisas, nós nem nos apercebemos delas quando existem só por si (o nosso PREC já acabou há 40 anos...), mas o poder em abstrato e em qualquer país do Mundo ganha muito quando é naturalmente consentido e acatado pelo povo. O problema do Brasil será que, quando existem listas de cinquenta parlamentares envolvidos em escândalos de corrupção ou magistrados promovidos ao estatuto de super-heróis justiceiros, o opróbrio associado afecta não apenas os agentes do poder directamente visados como também os homólogos e a própria estrutura do poder e essa aceitação pacífica esvai-se. Já se esvaiu e estou para ver como é que ele se reconstrói... Embora a expressão seja originalmente do português europeu, um brasileiro aperceber-se-á decerto que não estou a prognosticar nada de bom para o seu país quando antecipo que o Brasil está feito ao bife...
15 abril 2016
COMO OS RAPAZES DO PADRE AMÉRICO
Há muitos anos aprendi um comentário irónico sobre os julgamentos de carácter: deixara de haver maus rapazes, que o Padre Américo levara-os a todos para a Casa do Gaiato. Gostava de recuperar o mesmo espírito irónico mas agora a propósito da independência e da objectividade da comunicação social. Não se pense que a ideia da montagem abaixo é a de abonar em favor de José Sócrates; é a de alertar que, quanto à confiança de publicar tudo o que é notícia, não há Correio da Manhã que escape a essa santa regra de não publicitar os sarilhos fiscais em que o seu próprio grupo editorial está envolvido - e não será preciso qualquer mandato judicial para que isso (não) aconteça... Os jornais que transmitem confiança ao leitor são como os maus rapazes: desapareceram.
14 abril 2016
NÃO SE ESQUEÇAM QUE NO FIM DESTE MÊS VAI HAVER UM CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO DO MRPP...
Ainda se escrevem proclamações desta qualidade quando este ano se completam 40 anos sobre a morte de Mao Zedong (1893-1976). Fogo sobre o quartel-general é uma expressão que não se usa de ânimo leve. Será o outro lado do anacronismo dos brados por El-Rei e as proclamações para a restauração da monarquia. É a demonstração da superioridade da Democracia - a verdadeira e não aquelas mais amplas liberdades democráticas... - que a todos dá espaço para se manifestarem desde que as manifestações sejam pacíficas, por muito caricatas que elas possam ser, como é este o caso. E, por outro lado, ceterum censeo e como já aqui confessei, adoro trautear o inesquecível hino O Oriente é Vermelho. A ver se o Grande Timoneiro (cá do burgo) Arnaldo Matos ainda vai a tempo de o ensinar a uma nova geração.
EMENTA DE 1969
Vale a pena apreciar com detalhe esta ementa de um restaurante infelizmente anónimo para o último dia de Fevereiro de 1969; tanto melhor se o leitor estiver a ler este poste a uma hora próxima de uma refeição. Comecemos por comentar a ementa em si, patrocinada pelas Águas de Carvalhelos e já com um pequeno retoque de internacionalização na denominação da Ementa (designação nacional), também conhecida por Menu (designação internacional) e ainda, alternativamente e de uma sofisticação premonitória, por Speisekarte (designação europeia). As qualificações laborais é que ainda seriam poucas e a ementa apresenta-se ainda totalmente redigida na língua de Camões apesar das promessas do cabeçalho. Também o salto tecnológico ainda estava prometido para um futuro longínquo e o que estava escrito na ementa exibia aquela cor preta característica do papel químico de duplicar, fórmula expedita de escrever simultaneamente vários exemplares de um mesmo texto.
E que nos prometiam nesse texto? Como Sopa, apenas uma e de Grão com Nabiças, a 2$00. Como Pratos do Dia, os tradicionalmente prontos a sair, havia Bacalhau Cozido com Grão (18$00), Carne Assada com Arroz e Batatas (18$00 e 28$00, ½ e uma dose, presume-se), Linguado Grelhado Guarnecido (20$00), Rijões (sic) à Moda do Minho (20$00 e 30$00), Ovas de Pescada Cozidas com Grão (18$00), Línguas de Borrego Estufadas com Arroz (18$00) e Alheira Frita com Batatas Fritas (14$00). E entre os Peixes, as propostas eram Corvina Cozida com Grelos e Batatas (18$00), Pescada Cozida com Grelos e Batatas (18$00), Peixe Espada Frito com Salada (14$00), Linguado Frito com Salada (19$00), Ovas de Pescada com Batatas e Grelos (20$00?), Bacalhau Assado na Braza (sic) (19$00) e Tranxas (sic) de Linguado com Salada (19$00). É uma ementa com tantas propostas que se adivinha uma página suplementar para as carnes e as frutas e sobremesas.
Comentários que se possam fazer a respeito do teor da ementa serão poucos. Do ponto de vista gramatical, constata-se a contribuição que o sector da restauração tem feito persistentemente desde há muitos anos para a evolução do português, criando neologismos como rijões por rojões, braza por brasa, tranxas por tranchas. Do ponto de vista gastronómico, modestamente, que os conhecimentos são parcos, suponho que uma alheira frita agradeceria acompanhamentos outros que não batata também frita... e um ovinho estrelado não deslustraria. E que acontecia no Portugal de finais de Fevereiro de 1969 que interessasse ao cliente a quem esta ementa era apresentada? O país fora sacudido na madrugada (2H45) daquele dia por um forte sismo (veja-se mais abaixo alguns jornais do dia). No próximo Domingo (depois de amanhã, 2 de Março) ia haver mais um dérbi Benfica-Sporting (0-0). Para os mais intelectuais, cinco meses depois da tomada de posse de Marcello Caetano, os prometidos sinais de mudança política continuavam ténues.
E que nos prometiam nesse texto? Como Sopa, apenas uma e de Grão com Nabiças, a 2$00. Como Pratos do Dia, os tradicionalmente prontos a sair, havia Bacalhau Cozido com Grão (18$00), Carne Assada com Arroz e Batatas (18$00 e 28$00, ½ e uma dose, presume-se), Linguado Grelhado Guarnecido (20$00), Rijões (sic) à Moda do Minho (20$00 e 30$00), Ovas de Pescada Cozidas com Grão (18$00), Línguas de Borrego Estufadas com Arroz (18$00) e Alheira Frita com Batatas Fritas (14$00). E entre os Peixes, as propostas eram Corvina Cozida com Grelos e Batatas (18$00), Pescada Cozida com Grelos e Batatas (18$00), Peixe Espada Frito com Salada (14$00), Linguado Frito com Salada (19$00), Ovas de Pescada com Batatas e Grelos (20$00?), Bacalhau Assado na Braza (sic) (19$00) e Tranxas (sic) de Linguado com Salada (19$00). É uma ementa com tantas propostas que se adivinha uma página suplementar para as carnes e as frutas e sobremesas.
Comentários que se possam fazer a respeito do teor da ementa serão poucos. Do ponto de vista gramatical, constata-se a contribuição que o sector da restauração tem feito persistentemente desde há muitos anos para a evolução do português, criando neologismos como rijões por rojões, braza por brasa, tranxas por tranchas. Do ponto de vista gastronómico, modestamente, que os conhecimentos são parcos, suponho que uma alheira frita agradeceria acompanhamentos outros que não batata também frita... e um ovinho estrelado não deslustraria. E que acontecia no Portugal de finais de Fevereiro de 1969 que interessasse ao cliente a quem esta ementa era apresentada? O país fora sacudido na madrugada (2H45) daquele dia por um forte sismo (veja-se mais abaixo alguns jornais do dia). No próximo Domingo (depois de amanhã, 2 de Março) ia haver mais um dérbi Benfica-Sporting (0-0). Para os mais intelectuais, cinco meses depois da tomada de posse de Marcello Caetano, os prometidos sinais de mudança política continuavam ténues.
13 abril 2016
O MEU MINISTÉRIO POR UMA GRAVATA e/ou A TÉCNICA DO RABEJADOR DE MARCOS PERESTRELLO
Apercebo-me que o mais penoso nestes episódios marginais que ocupam noticiosamente os dias não serão os episódios em si, menores, mas pontualmente interessantes, antes a forma algo sórdida como são explorados pelas facções em disputa. Regressemos ao episódio mais recente que culminou com a demissão do chefe de estado-maior do Exército. Já aqui me referira a ele, o ministro mostrou-se pouco hábil, os subordinados mostraram ter ficado com uma má impressão de si, coloquialmente o ministro espalhou-se. Mas isso não chegará em termos de luta política e haja logo quem aproveite a inércia do momento de embaraço para popularizar uma imagem bem pouco protocolar do ministro (acima).
As redes reagem naturalmente ultrajadas e com uma nova remessa de epítetos para o ministro, que conceber uma ausência de gravata numa cerimónia exige muito menos capacidade de abstracção do que qualquer conduta ministerial inábil. Até aparecer a sua defesa, que recupera a fotografia antes de ter sido (propositadamente?) retocada, exibindo o contexto e as circunstâncias que podem explicar (estava no Kosovo) e que, de facto, me parecem amenizar as causas para a ausência da (tornada) celebérrima gravata. Mas a manobra não se fica por aqui, passa-se ao contra-ataque e salta o secretário de Estado a terreiro em defesa do titular da pasta (abaixo).
Fica por me explicar qual o impacto para sanar o problema que pode ser produzido por um boy do PS, por muito que ele sobrace uma secretaria de Estado... Mas, já que estamos a falar de agentes políticos disfarçados de uma outra coisa diferente, relembro como outro dia qualifiquei de técnica das chocas um dos expedientes da jornalista Helena Matos - não por acaso a autora da maldição da gravata do ministro mais acima... Pois agora, sobre Marcos Perestrello e não perdendo a mão para as analogias tauromáquicas ele é a técnica do rabejador: aparece só depois da pega e exibe-se magistral para sacar umas últimas palmas da assistência...
AEROGRAMA: O «SKYPE» DE HÁ CINQUENTA ANOS
Anunciado quase desde o início das guerras em África (1961) por patrocínio do Movimento Nacional Feminino de Cilinha Supico Pinto (notícia acima), o aerograma, destinado à correspondência trocada entre os militares destacados nas províncias ultramarinas...
...e os seus familiares na metrópole, embaratecia até um valor irrisório o custo da correspondência trocada (como hoje o faz as chamadas telefónicas através do Skype) e tinha este aspecto que as imagens documentam.
Note-se como as orelhas também eram espaço disponível para escrever, o que dava origem a uma técnica muito específica de orientação múltipla para se escrever (e ler) num aerograma, diferente das cartas tradicionais.
Fundamental para que o aerograma chegasse ao destino, era também saber-se qual era o S.P.M. do destinatário - num tempo em que ainda não havia códigos postais, o método parecia fazer maravilhas.
O PACTO NIPO-SOVIÉTICO (13 de Abril de 1941)
Firmado há precisamente 75 anos, este outro Pacto importante assinado pela União Soviética envolvendo um outro país do Eixo é muito menos conhecido e citado do que o de Agosto de 1939 com a Alemanha. Este último, famoso pelos contorcionismos argumentativos a que obrigara a classe comunista, estava a três meses de ser denunciado unilateralmente por Hitler, mas disso não se convenceria o Estaline que vemos satisfeito ao centro da foto. Com aquele Pacto que ali se concretizava Estaline procurava pôr-se ao abrigo - e alguém o pode censurar por isso? - das ambições expansionistas dos seus dois agressivos vizinhos. Três aspectos se conjugam para que este Pacto Matsuoka-Molotov seja bem menos conhecido que o seu equivalente Molotov-Ribbentrop: a) a sua importância para nós, europeus, é muito inferior, visto que o que estava a ser tratado eram as disputas entre as duas potências no Extremo-Oriente; b) ao contrário do cinismo associado à assinatura do outro, que vigorou apenas durante 22 meses (pouco mais de ano e meio), este Pacto ainda veio a vigorar durante 52 meses (pouco mais de quatro anos); e c) ao contrário do outro, que foi rompido unilateralmente por Adolf Hitler, que era mau, quem rompeu unilateralmente o Pacto com o Japão foi Estaline que, não sendo bom, nesta guerra estava do lado dos bons.
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12 abril 2016
O PRIMEIRO GOLPE DE ESTADO NA LIBÉRIA
Há 36 anos, a 12 de Abril de 1980, a Libéria registava o primeiro golpe de Estado da sua História. E com isso a história da Libéria fundia-se com a dos restantes países africanos onde tais acontecimentos eram por essa época bastante frequentes: não havia ano em que não ocorresse um ou outro golpe de Estado em algum país africano. Do ponto de vista formal a história da Libéria era um pouco distinta da dos restantes países do continente. A esmagadora maioria destes últimos haviam sido em alguma época colónias formais de países europeus. A Libéria nunca o fora, porque o país que exercia essa função - os Estados Unidos - não o assumia. Portanto a Libéria era um país pseudo-independente desde 1847 - a bandeira era uma cópia da dos Estados Unidos (abaixo), as instituições outra cópia e havia até uma classe de colonos que se sobrepunha aos nativos - eram os negros emancipados dos Estados Unidos e de outras origens americanas que eram encorajados a retornar a uma África que pessoalmente nunca haviam conhecido. Essa classe, que nunca superou os 5% da população liberiana, dominou a Libéria durante os primeiros 130 anos da sua existência. Até este famigerado golpe de Estado de 12 de Abril de 1980.
O golpe em si foi uma daquelas demonstrações de como as instituições dos novos países africanos - e a Libéria apesar dos mais de cem anos de independência não se distinguia deles - eram frágeis e passíveis de serem derrubadas com limitadas exibições de força. Como imaginara Frederick Forsyth quando escrevera o livro Os Cães de Guerra (1974), um punhado de quadros e umas dúzias de combatentes podiam apoderar-se de todo um país africano onde as estruturas do poder estivessem demasiado centralizadas. Na Libéria em 1980, os insurrectos eram apenas 17 e comandados por um sargento decidido que ainda não completara 29 anos chamado Samuel Doe. Invadiram o palácio presidencial, executaram o presidente William Tolbert e o regime colapsou por completo. Pormenor não despiciendo: nenhum dos 17 militares conspiradores pertencia à minoria de ascendência afro-americana... Com a sua promoção de sargento a presidente, Samuel Doe deve ter batido o record africano da ascensão política, mesmo num continente conhecido pelo protagonismo súbito dos militares de baixa patente (é na América Latina que quem costuma promover golpes de Estados são os generais...). Os episódios que se seguiram, contudo, o ajuste de contas com a elite de ascendência afro-americana, produziram imagens de violência selectiva e que já não tinham muito a ver com a coreografia mais benigna dos outros golpes de Estado, como é o caso das execuções dos ministros do anterior governo cuja fotografia encima este poste. O ciclo de violência então iniciado sobreviveu à execução do próprio Samuel Doe em 1990.
APENAS A METADE DA HISTÓRIA ou A COMPARAÇÃO DA MORTE DO XERIFE COM A MORTE DO ÍNDIO MAU
Há precisamente 71 anos morria inesperadamente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) enquanto as operações militares da Segunda Guerra Mundial na Europa se aproximavam aceleradamente do fim antecipando o colapso militar da Wehrmacht. Em Lisboa, o regime prestava a vassalagem ao grande vencedor do conflito que estava prestes a terminar do modo que as notícias do Diário de Lisboa da edição do dia seguinte (13 de Abril - abaixo) permitem esclarecer: o presidente do Conselho Salazar apresentava-se na embaixada dos Estados Unidos para apresentar pessoalmente os pêsames ao embaixador; seguia-se-lhe todo o elenco governamental fazendo o mesmo; o presidente da República Óscar Carmona enviava um expressivo telegrama de condolências ao novo presidente Harry Truman; no dia seguinte, ao meio-dia, realizava-se um serviço fúnebre a que comparecia o governo e o corpo diplomático (aliado e neutral) acreditado em Lisboa em peso (e em traje de gala); e por determinação governamental, as bandeiras seriam colocadas a meia haste durante os três dias seguintes em sinal de luto.
Menos de três semanas depois era Adolf Hitler (1889-1945) que se suicidava no seu bunker em Berlim. Para o vencido, as expressões de luto em Lisboa eram muito menos exuberantes conforme se pode ler abaixo na descrição do mesmo Diário de Lisboa. Eram poucas as legações que exibiam as suas bandeiras a meia-haste: o Vaticano, a Espanha, a Alemanha, a Suíça, a Suécia e o Japão, tudo países neutrais ou, no caso japonês, o último aliado da Alemanha. Nessa ocasião, nem Salazar, nem o restante governo entenderam por bem comparecer pessoalmente na embaixada alemã, preferindo em vez disso enviar as suas condolências. Tão pouco a missa de sufrágio contará com a presença das figuras tão destacadas e engalanadas que haviam comparecido no serviço fúnebre de Roosevelt. Vae Victis. Ficou a restar a cortesia mínima de mandar colocar as bandeiras a meia haste durante os três dias de luto por morte de um chefe de Estado no exercício de funções, como manda o protocolo. Mas, sem o enquadramento que aqui fiz e para os que o desconhecem, ou conhecendo-o, se comprazem em distorcer a História em função das suas convicções ideológicas, até isso pode ser apresentado como uma manifestação pró-fascista muito grave...
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11 abril 2016
«LÁ NUM PAÍS CHEIO DE COR...»
Nunca me canso de me surpreender como os (cada vez mais) velhotes da geração do PREC persistem em alindar os relatos daquela época, como se os excessos da confrontação política de 1974 a 1976 não tivessem passado de uma gigantesca história infantil. Na sequência deste episódio das bofetadas prometidas por João Soares a Augusto M. Seabra, a ocorrência foi pretexto para conferir alguma notoriedade ao segundo, a vítima da violência. Numa notícia publicada no jornal i com esse intuito, há uma passagem deliciosa nessa infantilização desresponsabilizadora. Aprecie-se essa passagem, que consta do penúltimo parágrafo e que eu tomei a liberdade de a ir comentando:
Durante o Verão Quente de 75 Seabra fez parte do MES (Movimento de Esquerda Socialista), tendo vivido aí um episódio recordado por um antigo camarada daquele movimento. “O Augusto é asmático (...) Em 75, em pleno PREC, houve uma manifestação organizada pelo PS a favor da liberdade de imprensa e contra a manipulação dos órgãos de informação do Estado pelos comunistas. (entre aqueles que o PS acusava de manipulação dos órgãos de informação do Estado contava-se precisamente o MES, daí a necessidade de) Na sede do MES, na av. D. Carlos I, tomámos medidas de segurança máximas. Quando um grupo de manifestantes avançou, a tropa lançou gás para cima deles”. (...) “Eu estava no sótão, onde havia uns tipos deitados com G3 prontos para disparar, e comecei a ver aquela malta toda a correr." (Não se especifica quem eram "os tipos deitados com G3", se militares ou se civis, no primeiro caso, quem fora o oficial responsável que os mandara para ali defender a tiro uma sede partidária, no segundo caso quem lhes fornecera as armas para o fazer).
Não percamos de vista que o que desencadeou todo este processo foi a violência inusitada passada a escrito por João Soares no seu facebook, enquanto que há 40 anos, a potencial vítima desse algoz constituiria a guarda avançada de uma sede partidária que era defendida com armas de guerra - e contra manifestantes radicais do Partido Socialista! Uma bofetada hoje valerá muito mais do que a intenção de balear uns rivais há 40 anos. Quando contadas por eles, os velhotes da geração do PREC, o país real de 1975 parece transformar-se numa gigantesca brincadeira, qual episódio da Abelha Maia que por aqueles tempos entretinha as crianças da Revolução em Curso.
Durante o Verão Quente de 75 Seabra fez parte do MES (Movimento de Esquerda Socialista), tendo vivido aí um episódio recordado por um antigo camarada daquele movimento. “O Augusto é asmático (...) Em 75, em pleno PREC, houve uma manifestação organizada pelo PS a favor da liberdade de imprensa e contra a manipulação dos órgãos de informação do Estado pelos comunistas. (entre aqueles que o PS acusava de manipulação dos órgãos de informação do Estado contava-se precisamente o MES, daí a necessidade de) Na sede do MES, na av. D. Carlos I, tomámos medidas de segurança máximas. Quando um grupo de manifestantes avançou, a tropa lançou gás para cima deles”. (...) “Eu estava no sótão, onde havia uns tipos deitados com G3 prontos para disparar, e comecei a ver aquela malta toda a correr." (Não se especifica quem eram "os tipos deitados com G3", se militares ou se civis, no primeiro caso, quem fora o oficial responsável que os mandara para ali defender a tiro uma sede partidária, no segundo caso quem lhes fornecera as armas para o fazer).
Não percamos de vista que o que desencadeou todo este processo foi a violência inusitada passada a escrito por João Soares no seu facebook, enquanto que há 40 anos, a potencial vítima desse algoz constituiria a guarda avançada de uma sede partidária que era defendida com armas de guerra - e contra manifestantes radicais do Partido Socialista! Uma bofetada hoje valerá muito mais do que a intenção de balear uns rivais há 40 anos. Quando contadas por eles, os velhotes da geração do PREC, o país real de 1975 parece transformar-se numa gigantesca brincadeira, qual episódio da Abelha Maia que por aqueles tempos entretinha as crianças da Revolução em Curso.
FUJIMORI E KUZCYNSKI
Ainda bem que o título da notícia é esclarecedor a esse respeito porque, se nos orientássemos apenas pela origem dos apelidos, estas eleições presidenciais envolvendo alguém de ascendência nipónica e alguém de ascendência polaca poderiam ter tido lugar em qualquer país do Novo Mundo onde se tivesse registado uma forte imigração no passado. Paradoxalmente, e quando comparado com destinos como a Argentina, a Venezuela ou o Chile, o Peru nem se destaca entre os países da América hispânica como destino de imigração. Nesse campo do exotismo, nós também temos os nossos pergaminhos, mas não propriamente por causa dos apelidos, é preciso ver a fotografia do nosso primeiro-ministro...
PUTAS DO(DEL) BOSQUE
Quando ocorre mais um daqueles ataques de iberismo, lembro-me de todos aqueles falsos amigos que separam os nossos dois idiomas, português e castelhano: aceite (óleo), caderas (ancas), experto (perito), ilusión (entusiasmo), oficina (escritório), polvo (pó) ou todavía (ainda). Mas reconheço que a mensagem do que nos pode separar só fica verdadeiramente composta com exemplos de impacto mais memorável como a expressão putas del bosque que, ao contrário do castelhano, em português não podem decididamente servir para apaladar um qualquer iogurte...
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